Jerônimo, Cartas pastorais · Carta 58

Carta 58. A Paulino

Apresentação do editor inglês

Nesta sua segunda carta a Paulino de Nola, Jerônimo o dissuade de fazer uma peregrinação aos Lugares Santos e descreve Jerusalém não como deveria ser, mas como é. Em seguida dá ao amigo conselhos para a vida semelhantes aos que antes dirigira a Nepociano, elogia Paulino pelo seu Panegírico (hoje perdido) ao imperador Teodósio, compara o estilo dele com o dos grandes escritores da Igreja latina e conclui recomendando o seu mensageiro, aquele Vigilâncio que em breve se tornaria objeto do seu mais amargo desprezo. Escrita por volta do ano 395 d.C.

1. “A pessoa boa tira do tesouro bom coisas boas” (Mt 12.35), e “cada árvore é conhecida pelos frutos que produz” (Lc 6.44). Você me mede pela escala das suas próprias virtudes e, por causa da sua grandeza, engrandece a minha pequenez. Toma o último lugar no banquete, para que o dono da casa o convide a subir mais (Lc 14.10). Pois o que há em mim, ou que qualidades possuo, para merecer o louvor de um homem culto? Para que eu, pequeno e humilde como sou, seja elogiado por lábios que discursaram em favor do nosso religiosíssimo soberano? Não avalie o meu valor, meu caríssimo irmão, pelo número dos meus anos. Os cabelos brancos não são sabedoria; é a sabedoria que vale tanto quanto os cabelos brancos. Pelo menos é o que diz Salomão: “a sabedoria é a cabeça grisalha dos homens” (Sb 4.9). Também Moisés, ao escolher os setenta anciãos, recebe a ordem de tomar aqueles que ele sabe serem anciãos de fato, e de escolhê-los não pelos anos, mas pelo discernimento (Nm 11.16). E Daniel, ainda menino, julga os velhos e, na flor da juventude, condena a incontinência da velhice.1 Não pese a fé pelos anos, repito, nem me julgue melhor do que você só porque me alistei sob a bandeira de Cristo antes de você. O apóstolo Paulo, aquele vaso escolhido formado de um perseguidor (At 9.15), embora seja o último na ordem apostólica, é o primeiro em mérito. Porque, embora último, trabalhou mais do que todos eles (1Co 15.10). A Judas foi dito certa vez: “Tu és um homem que comia comigo doces manjares, meu guia e meu conhecido; andávamos juntos na casa de Deus”;2 e, no entanto, o Salvador o acusa de trair o seu amigo e mestre. Um verso de Virgílio descreve bem o seu fim:

De uma viga alta ele ata o nó de uma morte hedionda.3

O ladrão moribundo, ao contrário, troca a cruz pelo paraíso e transforma em martírio a pena do homicídio. Quantos há hoje em dia que viveram tanto tempo que carregam cadáveres em vez de corpos e são como sepulcros caiados, cheios de ossos de mortos (Mt 23.27)! Um calor recém-aceso é mais eficaz do que uma longa mornidão.

2. Quanto a você, ao ouvir o conselho do Salvador: “Se você quer ser perfeito, vá, venda os seus bens, dê o dinheiro aos pobres; depois, venha e siga-me” (Mt 19.21), traduz as palavras dele em ação; e, despojando-se para seguir a cruz despojada,4 sobe a escada de Jacó com mais facilidade por não levar nada. As suas roupas mudam com a mudança das suas convicções, e você não busca uma pobreza ostentosa que deixa a bolsa tão cheia quanto antes. Não, com mãos puras e consciência limpa, você põe a sua glória em ser pobre tanto de espírito como de fato. Não há nada de grandioso em trazer um rosto triste ou desfigurado, em simular jejuns e exibi-los, ou em usar um manto barato enquanto se conserva uma grande renda. Quando Crates, o tebano, um milionário de tempos passados, ia a caminho de Atenas para estudar filosofia, lançou fora uma quantidade incalculável de ouro, crendo que a riqueza não podia ser compatível com a virtude. Que contraste ele faz conosco, os discípulos de um Cristo pobre, que abarrotamos os bolsos de ouro e, a pretexto de dar esmolas, nos agarramos às nossas antigas riquezas. Como podemos distribuir fielmente o que pertence a outro, quando assim retemos timidamente o que é nosso (cf. Lc 16.12)? Com o estômago cheio, é fácil falar de jejum. O louvável não é ter estado em Jerusalém, mas ter vivido bem enquanto lá se esteve.5 A cidade que devemos louvar e buscar não é a que matou os profetas (Mt 23.37) e derramou o sangue de Cristo, mas a que é alegrada pelas correntes do rio (Sl 46.4), que está edificada sobre um monte e por isso não pode ficar escondida (Mt 5.14), que o apóstolo declara ser mãe dos santos (Gl 4.26), e na qual ele se alegra de ter a sua cidadania com os justos (Fp 3.20).

3. Falando assim, não me exponho à acusação de incoerência nem condeno o caminho que eu mesmo tomei. Não é à toa, creio, que eu, como Abraão, deixei a minha casa e o meu povo. Mas não ouso limitar a onipotência de Deus nem restringir a uma estreita faixa de terra aquele a quem o céu não pode conter. Cada crente é julgado não por residir neste ou naquele lugar, mas segundo os méritos da sua fé. Os verdadeiros adoradores adoram o Pai nem em Jerusalém nem no monte Gerizim; pois “Deus é Espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade” (Jo 4.24). “Ora, o Espírito sopra onde quer” (Jo 3.8), e “ao Senhor pertence a terra e a sua plenitude” (Sl 24.1). Quando o velo da Judeia ficou seco, embora o mundo inteiro estivesse molhado com o orvalho do céu (Jz 6.36-40), e quando muitos vieram do Oriente e do Ocidente (Lc 13.29) e se sentaram no seio de Abraão (Lc 16.22), então Deus deixou de ser conhecido somente em Judá e de ter o seu nome grande só em Israel (Sl 76.1); a voz dos apóstolos se espalhou por toda a terra, e as suas palavras chegaram até os confins do mundo (Sl 19.4). O próprio Salvador, falando aos seus discípulos no templo,6 disse: “Levantem-se, vamos sair daqui” (Jo 14.31), e aos judeus: “A casa de vocês ficará deserta” (Mt 23.38). Se o céu e a terra hão de passar (Lc 21.33), é evidente que também todas as coisas terrenas hão de passar. Por isso, os lugares que testemunharam a crucificação e a ressurreição só aproveitam aos que carregam cada um a sua cruz, que dia após dia ressuscitam com Cristo e que assim se mostram dignos de uma morada tão santa. Os que dizem “Templo do Senhor! Templo do Senhor!” (Jr 7.4) deveriam dar ouvidos às palavras do apóstolo: “Vocês são o templo do Senhor” (2Co 6.16), e o Espírito Santo “habita em vocês” (Rm 8.11). O acesso aos átrios do céu é tão fácil a partir da Britânia quanto a partir de Jerusalém; pois “o Reino de Deus está dentro de vocês” (Lc 17.21). Antão e as multidões de monges que há no Egito, na Mesopotâmia, no Ponto, na Capadócia e na Armênia nunca viram Jerusalém, e a porta do Paraíso se abre para eles longe dela. O bem-aventurado Hilarião, embora natural da Palestina e morador dela, só pôs os olhos em Jerusalém um único dia, não querendo, por um lado, estando tão perto, desprezar os lugares santos, nem, por outro, parecer encerrar Deus dentro de limites locais. Desde o tempo de Adriano até o reinado de Constantino, um período de cerca de cento e oitenta anos,7 o lugar que testemunhara a ressurreição foi ocupado por uma imagem de Júpiter; e sobre a rocha onde estivera a cruz os pagãos ergueram uma estátua de Vênus em mármore, que se tornou objeto de culto. Os primeiros perseguidores, de fato, supunham que, profanando os nossos lugares santos, nos privariam da nossa fé na paixão e na ressurreição. Até a minha própria Belém, tal como é hoje, o lugar mais venerável do mundo inteiro, do qual canta o salmista: “Da terra brota a verdade” (Sl 85.11), foi sombreada por um bosque de Tamuz (Ez 8.14), isto é, de Adônis; e na mesma gruta8 onde o menino Cristo dera o seu primeiro vagido, fazia-se lamentação pelo amante de Vênus.9

4. Por que, dirá você, faço estas alusões tão remotas? Para lhe assegurar que nada falta à sua fé, embora você não tenha visto Jerusalém, e que eu não sou em nada melhor por viver onde vivo. Esteja certo de que, quer você more aqui, quer em outro lugar, uma recompensa igual está reservada junto ao nosso Senhor para as suas boas obras. Na verdade, se devo exprimir francamente o que sinto, quando levo em conta os seus votos e o empenho com que você renunciou ao mundo, entendo que, enquanto você viver no campo, um lugar vale tanto quanto outro. Abandone as cidades e as suas multidões, viva num pequeno pedaço de terra, busque Cristo na solidão, ore no monte a sós com Jesus (cf. Lc 6.12), mantenha-se perto dos lugares santos: fique longe das cidades, digo eu, e você nunca perderá a sua vocação. O meu conselho não diz respeito aos bispos, aos presbíteros ou ao clero, pois estes têm um dever diferente. Falo apenas a um monge que, tendo sido homem de destaque no mundo, depositou aos pés dos apóstolos o preço dos seus bens (At 4.37), para mostrar aos homens que devem pisar o dinheiro, e resolveu viver uma vida de solidão e retiro e continuar sempre a rejeitar o que uma vez rejeitou. Se os cenários da Paixão e da Ressurreição estivessem em outro lugar e não numa cidade populosa, com corte e guarnição, com prostitutas, atores e bufões, e com a mistura de gente que costuma haver nesses centros; ou se as multidões que a enchiam fossem compostas de monges; então uma cidade seria morada desejável para os que abraçaram a vida monástica. Mas, como as coisas estão, seria o cúmulo da insensatez renunciar primeiro ao mundo, abjurar a própria pátria, abandonar as cidades, professar-se monge, e depois viver no meio de multidões ainda maiores o mesmo tipo de vida que se teria vivido na própria terra. Acorrem para cá homens de todas as partes do mundo, a cidade está cheia de gente de todas as raças, e tão grande é a aglomeração de homens e mulheres que aqui você terá de suportar em toda a sua dimensão um mal do qual desejava fugir quando o encontrava só em parte desenvolvido em outro lugar.

5. Já que você me pergunta, como a um irmão, por que caminho deve andar, serei franco com você. Se deseja exercer o ofício de presbítero, e se sente atraído pelo trabalho ou pela dignidade que cabe ao bispo, viva nas cidades e nos burgos fortificados,10 e, fazendo isso, converta a salvação dos outros em proveito da sua própria alma. Mas, se deseja ser de fato o que é de nome, um monge,11 isto é, alguém que vive só, que tem você a ver com as cidades, que são moradas não de solitários, mas de multidões? Cada modo de vida tem os seus representantes. Por exemplo, os generais romanos imitem homens como Camilo, Fabrício, Régulo e Cipião. Os filósofos tomem por modelos Pitágoras, Sócrates, Platão e Aristóteles. Os poetas se esforcem por rivalizar com Homero, Virgílio, Menandro e Terêncio. Os historiadores sigam Tucídides, Salústio, Heródoto e Lívio. Os oradores encontrem mestres em Lísias, nos Gracos, em Demóstenes e em Túlio. E, para chegarmos ao nosso caso, os bispos e presbíteros tomem por exemplo os apóstolos ou os seus companheiros; e, já que ocupam o posto que estes um dia ocuparam, esforcem-se por mostrar a mesma excelência. E, por último, nós, monges, tomemos como modelos a seguir as vidas de Paulo, de Antão, de Juliano, de Hilarião, dos Macários. E, voltando à autoridade da Escritura, temos os nossos mestres em Elias e Eliseu, e os nossos guias nos filhos dos profetas, que viviam nos campos e em lugares solitários e faziam para si tendas junto às águas do Jordão (2Rs 6.1-2). Também os filhos de Recabe são do número dos que não bebiam vinho nem bebida forte e que habitavam em tendas; homens que a voz de Deus louva por meio de Jeremias (Jr 35), e aos quais se faz a promessa de que nunca faltará um homem da sua linhagem para estar diante de Deus (Jr 35.19). É provavelmente isso que significa o título do salmo setenta e um: “dos filhos de Jonadabe e dos que foram os primeiros levados ao cativeiro”.12 A pessoa visada é Jonadabe, filho de Recabe, de quem se diz no livro dos Reis (2Rs 10.15-16) que subiu ao carro de Jeú. Os seus filhos, tendo sempre vivido em tendas até que por fim (por causa das incursões do exército caldeu) foram obrigados a entrar em Jerusalém, são descritos (Jr 35.11) como os primeiros a sofrer o cativeiro; porque, depois da liberdade da sua vida solitária, acharam o confinamento numa cidade tão ruim quanto uma prisão.

6. Já que você não é inteiramente independente, mas está ligado a uma esposa que é sua irmã no Senhor, rogo-lhe que, aqui ou lá, evite as grandes reuniões, as visitas oficiais e de cortesia e as festas sociais, prazeres que tendem todos a acorrentar a alma. Seja grosseira a sua comida, digamos couve e legumes, e não a tome antes do anoitecer. De vez em quando, como grande regalo, você pode comer alguns peixinhos. Quem anseia por Cristo e se alimenta do verdadeiro pão pouco se importa com iguarias que hão de transformar-se em excremento. A comida cujo sabor você não sente depois que passa da garganta poderia muito bem ser, no que lhe diz respeito, pão e legumes. Você tem os meus livros contra Joviniano, que falam ainda mais extensamente do desprezo do apetite e do paladar. Tenha sempre na mão algum livro sagrado. Ore constantemente e, inclinando o corpo, eleve a mente ao Senhor. Faça vigílias frequentes e durma muitas vezes de estômago vazio. Evite o mexerico e todo autoelogio. Fuja dos bajuladores lisonjeiros como de inimigos declarados. Distribua com a sua própria mão as provisões para aliviar as misérias dos pobres e dos irmãos. Com as suas próprias mãos, digo, pois a boa-fé é rara entre os homens. Não acredita no que digo? Pense em Judas e na sua bolsa. Não busque uma roupa humilde para uma alma inchada. Evite a companhia dos homens do mundo, especialmente se estão no poder. Por que precisa você olhar de novo para as coisas cujo desprezo fez de você um monge? Sobretudo, que a sua irmã13 se mantenha afastada das senhoras casadas. E, se as mulheres à sua volta usam vestidos de seda e pedras preciosas enquanto ela se veste pobremente, que ela nem se aflija nem se felicite. Pois, fazendo assim, ou se arrependerá da sua resolução ou semeará as sementes do orgulho. Se você já tem fama de administrador fiel dos seus próprios bens, não aceite o dinheiro de outras pessoas para distribuir. Você entende o que quero dizer, pois o Senhor lhe deu entendimento em todas as coisas. Seja simples como a pomba e não arme ciladas a ninguém; mas seja astuto como a serpente e não deixe que ninguém arme ciladas a você (Mt 10.16). Pois o cristão que se deixa enganar pelos outros é quase tão culpado quanto aquele que tenta enganar os outros. Se alguém lhe fala sempre, ou quase sempre, de dinheiro (a não ser que seja de esmolas, assunto aberto a todos), trate-o antes como corretor do que como monge. Além de comida, roupa e coisas manifestamente necessárias, não dê nada a ninguém; pois os cães não devem comer o pão dos filhos (Mt 15.26).

7. O verdadeiro templo de Cristo é a alma do crente; adorne-o, vista-o, ofereça-lhe dádivas, receba Cristo nele. De que servem paredes cintilantes de joias, quando Cristo, nos seus pobres (Mt 25.40), está em perigo de morrer de fome? Os seus bens já não são seus; foi-lhe confiada uma administração. Lembre-se de Ananias e Safira, que, por medo do futuro, retiveram o que era deles, e tenha cuidado, de sua parte, para não esbanjar temerariamente o que é de Cristo. Isto é, não dê, por erro de julgamento, a propriedade dos pobres aos que não são pobres, para que, como nos disse um sábio,14 a caridade não se torne a morte da caridade. Não olhe para

Alegres adornos ou o nome vazio de um Catão.15

Nas palavras de Pérsio, Deus diz:

Conheço os teus pensamentos e leio o mais íntimo da tua alma.16

Ser cristão é o que importa, e não apenas parecê-lo. E, não sei como, agradam mais ao mundo os que menos agradam a Cristo. Falando assim, não sou como a porca dando lições a Minerva; mas, como um amigo adverte um amigo, assim eu o advirto antes que você embarque no seu novo caminho. Prefiro que me falte capacidade a que me falte vontade de servi-lo; pois o meu desejo é que, onde eu caí, você se mantenha de pé.

8. Foi com muito prazer que li o livro que você me enviou, contendo a sua sábia e eloquente defesa do imperador Teodósio; e a sua disposição do assunto me agradou particularmente. Se nos primeiros capítulos você supera os outros, nos últimos supera a si mesmo. O seu estilo é conciso e elegante; tem toda a pureza de Túlio e, no entanto, está repleto de sentido. Pois, como alguém disse,17 é um fracasso o discurso do qual os homens só elogiam a dicção. Você conseguiu preservar tanto a sequência dos assuntos quanto o encadeamento lógico. Qualquer frase que se tome é sempre conclusão do que vem antes ou introdução do que vem depois. Feliz é Teodósio por ter um orador cristão como você para defender a sua causa. Você tornou ilustre a sua púrpura e consagrou para as gerações futuras as suas leis proveitosas. Siga em frente e prospere, pois, se tais são as suas primeiras incursões no campo, que não fará você quando se tornar um soldado treinado? Ah, se me coubesse conduzir um gênio como o seu, não (como cantam os poetas) pelos montes aônios e pelos picos do Hélicon, mas por Sião, pelo Tabor e pelas alturas do Sinai! Se eu pudesse ensinar-lhe o que eu mesmo aprendi e passar-lhe os rolos místicos dos profetas, então poderíamos dar à luz algo que a Grécia, com toda a sua erudição, não poderia mostrar.

9. Ouça-me, pois, meu conservo, meu amigo, meu irmão; dê-me ouvidos por um momento, para que eu lhe diga como deve andar nas santas Escrituras. Tudo o que lemos nos livros divinos, embora reluza e brilhe por fora, é ainda muito mais doce por dentro. “Quem deseja comer o miolo tem primeiro de quebrar a noz.”18 “Desvenda os meus olhos”, diz Davi, “para que eu contemple as maravilhas da tua lei” (Sl 119.18). Ora, se um profeta tão grande confessa que está nas trevas da ignorância, quão profunda, pense você, deve ser a noite de incompreensão em que estamos envolvidos nós, meros bebês e crianças ainda não desmamadas! Ora, esse véu não repousa apenas sobre o rosto de Moisés (2Co 3.14-15), mas também sobre os evangelistas e os apóstolos.19 Às multidões o Salvador falava somente em parábolas e, para deixar claro que as suas palavras tinham um sentido místico, dizia: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (Lc 8.8,10). Se todas as coisas que estão escritas não forem abertas por aquele “que tem a chave de Davi, que abre, e ninguém fechará, e que fecha, e ninguém abrirá” (Ap 3.7), ninguém poderá desfazer a fechadura nem colocá-las diante de você. Se ao menos você tivesse o fundamento que só ele pode dar; mais ainda, se ao menos os dedos dele passassem sobre a sua obra, não haveria nada mais belo do que os seus volumes, nada mais erudito, nada mais atraente, nada mais latino.

10. Tertuliano está repleto de sentido, mas o seu estilo é áspero e rude. O bem-aventurado Cipriano, como uma fonte de água pura, flui suave e docemente; mas, ocupado como está com exortações à virtude e com as aflições decorrentes da perseguição, em parte alguma comentou as divinas Escrituras. Vitorino, embora tenha a glória da coroa do martírio, não consegue exprimir o que sabe. Lactâncio tem uma torrente de eloquência digna de Túlio: quem dera tivesse sido tão pronto para ensinar as nossas doutrinas quanto foi para derrubar as dos outros! Arnóbio é prolixo e desigual, e muitas vezes confuso por não fazer a devida divisão do seu assunto. Aquele venerável homem, Hilário, ganha altura com o seu coturno gaulês; contudo, adornado como está com as flores da retórica grega, às vezes se enreda em longos períodos e oferece leitura nada fácil aos irmãos menos instruídos. Nada digo de outros escritores, mortos ou vivos; outros os julgarão no futuro, para o bem e para o mal.20

11. Chego agora a você, meu companheiro nos mistérios, meu camarada e meu amigo; meu amigo, digo, embora ainda não o conheça pessoalmente; e lhe peço que não suspeite de um bajulador em alguém tão íntimo. Melhor que você me julgue enganado ou levado pelo afeto do que me considere capaz de adular um amigo. Você tem uma grande inteligência e uma reserva inesgotável de linguagem; a sua dicção é fluente e pura, e a sua fluência e pureza estão misturadas com sabedoria. A sua cabeça é lúcida e todos os seus sentidos são agudos. Se acrescentasse a essa sabedoria e eloquência um estudo cuidadoso e o conhecimento da Escritura, eu logo o veria defender a nossa cidadela contra todos os que viessem; você subiria com Joabe ao alto de Sião (1Cr 11.5-6) e cantaria sobre os telhados o que aprendeu nos quartos secretos (cf. Lc 12.3). Cinja, eu lhe peço, cinja os seus lombos. Como diz Horácio:

A vida nada dá aos homens sem trabalho.21

Mostre-se tão homem de destaque na igreja quanto antes o era no senado. Junte para si riquezas que você possa gastar diariamente sem que se esgotem. Junte-as enquanto ainda está forte e enquanto a sua cabeça ainda não tem cabelos brancos; antes que, nas palavras de Virgílio,

As doenças se insinuem em você, e a sombria velhice,

E a dor, e a inclemência da morte cruel.22

Não me contento com a mediocridade para você: desejo que tudo o que fizer seja da mais alta excelência.

Com que cordialidade acolhi o venerável presbítero Vigilâncio,23 os lábios dele lhe dirão melhor do que esta carta. Por que ele nos deixou tão cedo e partiu de novo, não sei dizer; e, na verdade, não quero ferir os sentimentos de ninguém.24 Ainda assim, mero viajante de passagem como ele era, com pressa de continuar a viagem, consegui retê-lo até lhe ter dado uma amostra da minha amizade por você. Assim você pode saber por ele o que quiser a meu respeito. Tenha a bondade de saudar a sua venerável irmã25 e conserva, que com você combate o bom combate no Senhor.

Notas

1. História de Susana.

2. Sl 55.13-14. Consessu foi posto no lugar do consensu da Vulgata.

3. Virgílio, Eneida, XII, 603.

4. Compare a Carta 52, § 5.

5. Cícero, Em defesa de Murena, V.

6. Só a segunda frase foi dita no templo; a primeira foi pronunciada no cenáculo da última ceia.

7. Adriano morreu em 138 d.C.; Constantino tornou-se imperador em 306 d.C.

8. Quanto à tradição de que Cristo nasceu numa gruta, a autoridade mais antiga é Justino Mártir (Diálogo com Trifão, 78).

9. Adônis, morto por um javali e passando metade do tempo no mundo superior e metade no inferior, é figura do verão que vence o inverno e é por ele vencido.

10. Castella.

11. Monachus, literalmente “um solitário”. Naquele tempo, era frequente que homens fizessem votos, especialmente o de celibato, sem entrar num mosteiro.

12. Esse título aparece apenas na Septuaginta.

13. Trata-se de Terásia, a esposa de Paulino.

14. Cícero, Dos deveres, II, 15.

15. Provavelmente uma citação de memória, composta incorretamente a partir do “Nomina vana Catonis” de Lucano (I, 313).

16. Pérsio, III, 30.

17. Quintiliano, Instituição oratória, VIII, Proêmio.

18. Plauto, Gorgulho, I, 1, 55.

19. Isto é, tanto o Novo como o Antigo Testamento podem ter o seu verdadeiro sentido oculto para alguns.

20. Cf. Carta 70, 5.

21. Horácio, Sátiras, I, 9, 59-60.

22. Virgílio, Geórgicas, III, 67-68.

23. Mais tarde conhecido como adversário das doutrinas ascéticas de Jerônimo. Ver a introdução à Carta 61.

24. A alusão parece referir-se ao comportamento de Vigilâncio durante um terremoto ocorrido quando ele estava em Belém. O seu pavor na ocasião o expôs ao ridículo da comunidade de lá. (Contra Vigilâncio, I, 11.)

25. Como antes, trata-se de Terásia, a esposa de Paulino.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de W. H. Fremantle (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 6, Nova York, 1893), conferida com as imagens das páginas; domínio público. O original é latino: esta é, portanto, tradução de tradução. O parágrafo de apresentação de cada carta é de Fremantle; os números de seção são os da edição dele. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Jerônimo cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Bíblia latina ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.