Justino Mártir, Diálogo com Trifão · Diálogo com Trifão
Cristo, o Rei e Senhor anunciado pelos profetas; os anjos rebeldes; o reino de mil anos; os dons proféticos passados aos cristãos.
#T07
Então Trifão disse: “Sabemos que você citou essas passagens porque nós lhe pedimos. Mas não me parece que este salmo, que você citou por último das palavras de Davi, se refira a outro senão ao Pai e Criador dos céus e da terra. Você, porém, afirmou que ele se referia àquele que sofreu, o mesmo que você se esforça com tanto empenho por provar que é o Cristo.”
E eu respondi: “Preste atenção, eu lhe peço, enquanto falo da declaração que o Espírito Santo pronunciou neste salmo; e você saberá que não falo de modo pecaminoso e que nós1 não estamos realmente enfeitiçados; pois assim você será capaz de compreender por si mesmo muitas outras declarações feitas pelo Espírito Santo. ‘Cantem ao Senhor um cântico novo; cantem ao Senhor, todas as terras; cantem ao Senhor, bendigam o seu nome; proclamem a sua salvação dia após dia, as suas maravilhas entre todos os povos’ (Sl 96.1-3). Ele ordena aos habitantes de toda a terra, que conheceram o mistério desta salvação, isto é, o sofrimento de Cristo, pelo qual ele os salvou, que cantem e louvem a Deus, o Pai de todas as coisas, e reconheçam que ele deve ser louvado e temido, e que ele é o Criador do céu e da terra, aquele que realizou esta salvação em favor do gênero humano, o qual também foi crucificado e morreu, e foi julgado digno por ele (Deus) de reinar sobre toda a terra. Como [se vê claramente2] também pela terra para a qual [ele disse] que levaria [os pais de vocês]; [pois assim ele fala]: ‘Este povo [se prostituirá, seguindo outros deuses], e me deixará, e anulará a minha aliança que fiz com eles naquele dia; e eu os abandonarei e deles esconderei o rosto; e eles serão devorados,3 e muitos males e angústias os alcançarão; e naquele dia dirão: Porque o Senhor, meu Deus, não está entre nós, estas desgraças nos alcançaram. E certamente esconderei deles o meu rosto naquele dia, por todos os males que cometeram, por terem se voltado para outros deuses’ (Dt 31.16-18).4
“Além disso, no livro do Êxodo percebemos também que o nome do próprio Deus, o qual, diz ele, não foi revelado a Abraão nem a Jacó, era Jesus, e foi declarado de modo misterioso por meio de Moisés. Assim está escrito: ‘E o Senhor falou a Moisés: Diga a este povo: Eis que envio o meu anjo adiante de você, para o guardar no caminho, para o levar à terra que preparei para você. Dê atenção a ele e obedeça-lhe; não lhe desobedeça. Pois ele não recuará diante de vocês, porque o meu nome está nele’ (Êx 23.20-21). Entendam, pois, que aquele que levou os pais de vocês para a terra é chamado por este nome, Jesus, e antes se chamava Auses (Oseias). Pois, se vocês entenderem isso, perceberão igualmente que o nome daquele que disse a Moisés: ‘porque o meu nome está nele’, era Jesus. Pois, de fato, ele também era chamado Israel, e o nome de Jacó foi mudado também para este. Ora, Isaías mostra que os profetas enviados para anunciar as mensagens de Deus são chamados seus anjos e apóstolos. Pois Isaías diz em certo lugar: ‘Envia-me’ (Is 6.8). E que o profeta cujo nome foi mudado, Jesus [Josué], foi forte e grande, é evidente para todos. Se, então, sabemos que Deus se revelou sob tantas formas a Abraão, a Jacó e a Moisés, como é que hesitamos e não cremos que, segundo a vontade do Pai de todas as coisas, lhe era possível nascer homem da Virgem, sobretudo depois de termos tais5 Escrituras, pelas quais se pode perceber claramente que ele se fez homem segundo a vontade do Pai?
“Pois, quando Daniel fala de ‘alguém como o Filho do Homem’ (Dn 7.13), que recebeu o reino eterno, não está insinuando exatamente isto? Pois ele declara que, ao dizer ‘como o Filho do Homem’, ele apareceu e era homem, mas não de semente humana. E a mesma coisa ele proclamou em mistério quando fala desta pedra que foi cortada sem auxílio de mãos. Pois a expressão ‘foi cortada sem auxílio de mãos’ (Dn 2.34) significava que não é obra de homem, mas [obra] da vontade do Pai e Deus de todas as coisas, que o gerou. E quando Isaías diz: ‘Quem declarará a sua geração?’ (Is 53.8), queria dizer que a sua origem não podia ser declarada. Ora, ninguém que seja homem nascido de homens tem uma origem que não possa ser declarada. E quando Moisés diz que ele lavará as suas vestes no sangue da uva, não significa isto o que já muitas vezes eu lhes disse ser uma predição obscura, a saber, que ele tinha sangue, mas não de homens, assim como não foi o homem, mas Deus, que gerou o sangue da videira? E quando Isaías o chama Anjo do grande conselho, não predisse que ele seria o Mestre das verdades que de fato ensinou quando veio [à terra]? Pois somente ele ensinou abertamente os grandes conselhos que o Pai determinou, tanto para todos os que foram e serão agradáveis a ele, como também para os que se rebelaram contra a sua vontade, sejam homens, sejam anjos, quando disse: ‘Virão do Oriente [e do Ocidente6] e tomarão lugar com Abraão, Isaque e Jacó no Reino dos Céus; mas os filhos do Reino serão lançados nas trevas exteriores’ (Mt 8.11-12). E: ‘Muitos, naquele dia, vão me dizer: Senhor, Senhor, não comemos, não bebemos, não profetizamos e não expulsamos demônios em teu nome? E eu lhes direi: Afastem-se de mim’ (Mt 7.22-23). E ainda, com outras palavras, pelas quais condenará os indignos da salvação, ele disse: ‘Vão para as trevas exteriores, que o Pai preparou para Satanás e os seus anjos’ (Mt 25.41). E de novo, com outras palavras, disse: ‘Eu dou a vocês poder para pisarem serpentes, escorpiões e escolopendras, e todo o poder do inimigo’ (Lc 10.19). E agora nós, que cremos em nosso Senhor Jesus, que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, quando exorcizamos todos os demônios e espíritos malignos, nós os temos submetidos a nós. Pois, se os profetas declararam de modo obscuro que Cristo sofreria e depois seria Senhor de todos, essa [declaração] não podia ser entendida por homem algum até que ele mesmo persuadiu os apóstolos de que tais coisas estavam expressamente narradas nas Escrituras. Pois ele exclamou antes da sua crucificação: ‘É necessário que o Filho do Homem sofra muitas coisas, seja rejeitado pelos escribas e fariseus, seja crucificado e, no terceiro dia, ressuscite’ (Lc 9.22). E Davi predisse que ele nasceria do ventre antes do sol e da lua,7 segundo a vontade do Pai, e o deu a conhecer, sendo ele o Cristo, como Deus forte e digno de adoração.”
Então Trifão disse: “Admito que argumentos tais e tão grandes bastam para persuadir alguém; mas quero que [você] saiba que lhe peço a prova que você muitas vezes se propôs a me dar. Prossiga, pois, e torne isto claro para nós, para que vejamos como você prova que aquela [passagem] se refere a esse seu Cristo. Pois nós afirmamos que a profecia diz respeito a Ezequias.” E eu respondi: “Farei como você deseja. Mas mostrem-me vocês primeiro de que modo se diz de Ezequias que, antes de saber chamar pai ou mãe, recebeu o poder de Damasco e os despojos de Samaria na presença do rei da Assíria. Pois não lhes será concedido, como vocês querem explicar, que Ezequias tenha feito guerra contra os habitantes de Damasco e de Samaria na presença do rei da Assíria. ‘Pois antes que o menino saiba chamar pai ou mãe’, disse a palavra profética, ‘ele tomará o poder de Damasco e os despojos de Samaria na presença do rei da Assíria’ (Is 8.4). Pois, se o Espírito de profecia não tivesse feito a declaração com um acréscimo, ‘Antes que o menino saiba chamar pai ou mãe, ele tomará o poder de Damasco e os despojos de Samaria’, mas tivesse dito apenas: ‘E dará à luz um filho, e ele tomará o poder de Damasco e os despojos de Samaria’, então vocês poderiam dizer que Deus predisse que ele tomaria essas coisas porque o sabia de antemão. Mas agora a profecia o declarou com este acréscimo: ‘Antes que o menino saiba chamar pai ou mãe, ele tomará o poder de Damasco e os despojos de Samaria.’ E vocês não podem provar que tal coisa jamais tenha acontecido a alguém entre os judeus. Mas nós somos capazes de provar que isso aconteceu no caso do nosso Cristo. Pois, no tempo do seu nascimento, magos vindos da Arábia o adoraram, depois de terem ido primeiro a Herodes, que então era soberano na terra de vocês, e a quem a Escritura chama rei da Assíria por causa do seu caráter ímpio e pecaminoso. Pois vocês sabem”, continuei, “que o Espírito Santo muitas vezes anuncia tais acontecimentos por parábolas e semelhanças, assim como fez com todo o povo de Jerusalém, dizendo-lhe com frequência: ‘O seu pai era amorreu, e a sua mãe era heteia’ (Ez 16.3).
“Ora, este rei Herodes, quando os magos vieram a ele da Arábia e disseram que sabiam, por uma estrela que aparecera no céu, que um Rei havia nascido no país de vocês e que tinham vindo adorá-lo, soube pelos anciãos do povo de vocês que assim estava escrito a respeito de Belém no profeta: ‘E você, Belém, na terra de Judá, de modo nenhum é a menor entre os príncipes de Judá; porque de você sairá o guia que apascentará o meu povo’ (Mq 5.2). Os magos da Arábia, então, foram a Belém, adoraram o Menino e lhe ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra; mas não voltaram a Herodes, tendo sido avisados por uma revelação, depois de adorarem o Menino em Belém. E José, o esposo de Maria, que a princípio quis repudiar Maria, sua noiva, supondo que ela estivesse grávida por relação com um homem, isto é, por fornicação, recebeu ordem em visão de não repudiar a sua mulher; e o anjo que lhe apareceu disse-lhe que o que está no ventre dela é do Espírito Santo. Então ele teve medo e não a repudiou; mas, por ocasião do primeiro recenseamento feito na Judeia, sob Cirênio, subiu de Nazaré, onde morava, a Belém, de onde era, para se alistar; pois a sua família era da tribo de Judá, que então habitava aquela região. Depois, junto com Maria, ele recebe ordem de partir para o Egito e de ficar lá com o Menino até que outra revelação os avisasse de voltar para a Judeia. Mas, quando o Menino nasceu em Belém, como José não pôde encontrar hospedagem naquela aldeia, alojou-se numa certa gruta perto da aldeia; e, enquanto estavam ali, Maria deu à luz o Cristo e o colocou numa manjedoura, e ali os magos vindos da Arábia o encontraram. Já lhes repeti”, continuei, “o que Isaías predisse acerca do sinal que prefigurava a gruta; mas, por causa dos que vieram conosco hoje, vou lembrar-lhes de novo a passagem.” Então repeti a passagem de Isaías que já transcrevi, acrescentando que, por meio dessas palavras, os que presidiam aos mistérios de Mitra foram instigados pelo diabo a dizer que eram iniciados por ele num lugar que entre eles se chama gruta.8 “Assim Herodes, quando os magos da Arábia não voltaram a ele, como lhes pedira, mas partiram por outro caminho para a sua própria terra, segundo as ordens que lhes foram dadas; e quando José, com Maria e o Menino, já tinha ido para o Egito, como lhes fora revelado que fizessem; como não conhecia o Menino que os magos tinham ido adorar, ordenou simplesmente que fossem massacradas todas as crianças que então estavam em Belém. E Jeremias profetizou que isso aconteceria, falando pelo Espírito Santo assim: ‘Ouviu-se uma voz em Ramá, lamentação e grande pranto; Raquel chorando por seus filhos, e não quis ser consolada, porque já não existem’ (Jr 31.15). Portanto, por causa da voz que seria ouvida desde Ramá, isto é, desde a Arábia (pois há na Arábia, ainda hoje, um lugar chamado Rama), o pranto viria sobre o lugar onde está sepultada Raquel, a mulher de Jacó, chamado Israel, o santo patriarca, isto é, sobre Belém, enquanto as mulheres choram por seus próprios filhos massacrados e não têm consolo pelo que lhes aconteceu. Pois aquela expressão de Isaías, ‘Ele tomará o poder de Damasco e os despojos de Samaria’, predizia que o poder do demônio maligno que habitava em Damasco seria vencido por Cristo logo que ele nascesse; e prova-se que isso aconteceu. Pois os magos, que eram mantidos cativos9 para a prática de toda sorte de más ações pelo poder daquele demônio, ao virem adorar a Cristo, mostram que se rebelaram contra aquele domínio que os mantinha cativos; e a Escritura nos mostrou que esse [domínio] residia em Damasco. Além disso, aquele poder pecaminoso e injusto é bem chamado, em parábola, Samaria.10 E nenhum de vocês pode negar que Damasco estava, e está, na região da Arábia, embora agora pertença ao que se chama Sirofenícia. Por isso seria conveniente, senhores, que vocês aprendessem o que não perceberam com aqueles que receberam graça de Deus, a saber, conosco, os cristãos, e que não se esforçassem de todo modo por manter as suas próprias doutrinas, desonrando as de Deus. Por isso também esta graça foi transferida para nós, como diz Isaías, falando deste modo: ‘Este povo se aproxima de mim, com os lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim; e em vão me adoram, ensinando os mandamentos e doutrinas de homens. Por isso, eis que continuarei11 a remover este povo, e os removerei; e tirarei a sabedoria dos seus sábios e reduzirei a nada o entendimento dos seus prudentes’ (Is 29.13-14).”
Diante disso, Trifão, que estava um tanto irritado, mas respeitava as Escrituras, como se via pelo seu semblante, disse-me: “As palavras de Deus são santas, mas as suas interpretações são meros artifícios, como fica claro pelo que você explicou; ou melhor, são até blasfêmias, pois você afirma que anjos pecaram e se rebelaram contra Deus.”
E eu, querendo levá-lo a me ouvir, respondi em tom mais brando, assim: “Admiro, senhor, essa sua piedade; e peço que você tenha a mesma disposição para com aquele a quem, segundo está registrado, os anjos servem, como diz Daniel; pois [um] como o Filho do Homem é levado ao Ancião de Dias, e todo reino lhe é dado para todo o sempre. Mas, para que você saiba, senhor”, continuei, “que não foi a nossa ousadia que nos levou a adotar esta interpretação que você censura, vou lhe dar a prova tirada do próprio Isaías; pois ele afirma que anjos maus habitaram e habitam em Tânis, no Egito. Estas são as [suas] palavras: ‘Ai dos filhos rebeldes! Assim diz o Senhor: Vocês tomaram conselho, mas não por meio de mim; e [fizeram] acordos, mas não por meio do meu Espírito, para acrescentar pecados a pecados; vocês que pecaram12 descendo ao Egito (mas não me consultaram), para serem socorridos por Faraó e se cobrirem com a sombra dos egípcios. Pois a sombra de Faraó será para vocês uma vergonha, e um opróbrio para os que confiam nos egípcios; pois os príncipes em Tânis13 são anjos maus. Em vão trabalharão por um povo que não lhes servirá de socorro, mas [será] para vergonha e opróbrio [deles]’ (Is 30.1-5). E, além disso, Zacarias conta, como você mesmo relatou, que o diabo estava à direita do sacerdote Josué para se opor a ele; e [o Senhor] disse: ‘O Senhor, que tomou14 Jerusalém, o repreenda’ (Zc 3.1-2). E ainda está escrito em Jó (Jó 1.6), como você mesmo disse, que os anjos vieram apresentar-se diante do Senhor, e o diabo veio com eles. E temos registrado por Moisés, no começo do Gênesis, que a serpente enganou Eva e foi amaldiçoada. E sabemos que no Egito havia magos que rivalizavam15 com o grande poder manifestado por Deus por meio do fiel servo Moisés. E você sabe que Davi disse: ‘Os deuses das nações são demônios’ (Sl 96.5).”
E Trifão respondeu a isso: “Eu já lhe observei, senhor, que você faz muita questão de estar seguro em todos os pontos, pois se apega às Escrituras. Mas diga-me: você admite realmente que este lugar, Jerusalém, será reconstruído, e espera que o seu povo seja reunido e se alegre com Cristo, com os patriarcas e os profetas, tanto os homens da nossa nação como os outros prosélitos que se juntaram a eles antes que o seu Cristo viesse? Ou você cedeu e admitiu isso para ter a aparência de nos vencer nas controvérsias?”
Então eu respondi: “Não sou tão miserável, Trifão, a ponto de dizer uma coisa e pensar outra. Já lhe admiti antes16 que eu e muitos outros somos desta opinião e [cremos] que tal coisa acontecerá, como você bem sabe;17 mas, por outro lado, dei-lhe a entender que muitos que pertencem à fé pura e piedosa, e são verdadeiros cristãos, pensam de outro modo. Além disso, eu lhe mostrei que alguns que são chamados cristãos, mas são hereges sem Deus e ímpios, ensinam doutrinas em todos os sentidos blasfemas, ateias e insensatas. Mas, para que você saiba que não digo isto só diante de você, farei, na medida do possível, um registro de todos os argumentos que se trocaram entre nós, no qual me apresentarei admitindo exatamente as mesmas coisas que admito diante de você. Pois escolho seguir, não os homens nem as doutrinas dos homens, mas a Deus e as doutrinas [transmitidas] por ele. Pois, se você encontrou alguns que são chamados cristãos, mas que não admitem esta [verdade]18 e ousam blasfemar contra o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó; que dizem que não há ressurreição dos mortos e que as suas almas, quando morrem, são levadas para o céu; não pense que eles são cristãos, assim como ninguém, se considerasse bem a questão, admitiria que os saduceus, ou seitas semelhantes de genistas, meristas,19 galileus, helenistas,20 fariseus e batistas, são judeus (não me ouça com impaciência quando lhe digo o que penso), mas que [apenas] são chamados judeus e filhos de Abraão, adorando a Deus com os lábios, como o próprio Deus declarou, mas com o coração longe dele. Mas eu e outros, que somos cristãos de reto pensamento em todos os pontos, temos a certeza de que haverá uma ressurreição dos mortos e mil anos21 em Jerusalém, que então será edificada, adornada e ampliada, [como] declaram os profetas Ezequiel e Isaías e outros.
“Pois Isaías falou assim a respeito deste período de mil anos: ‘Pois haverá o novo céu e a nova terra, e as coisas passadas não serão lembradas, nem virão ao seu coração; mas encontrarão nela alegria e regozijo, coisas que eu crio. Pois eis que faço de Jerusalém um regozijo, e do meu povo uma alegria; e eu me regozijarei por causa de Jerusalém e me alegrarei por causa do meu povo. E nunca mais se ouvirá nela voz de choro nem voz de clamor. E nunca mais haverá ali pessoa de pouca idade, nem velho que não complete os seus dias.22 Pois o jovem terá cem anos;23 mas o pecador que morrer com cem anos,24 esse será amaldiçoado. E construirão casas e eles mesmos as habitarão; e plantarão vinhas e eles mesmos comerão o seu fruto e beberão o vinho. Não construirão para que outros habitem; não plantarão para que outros comam. Pois como os dias da árvore da vida serão os dias do meu povo; as obras do seu trabalho serão abundantes.25 Os meus eleitos não trabalharão em vão, nem gerarão filhos para a maldição; pois serão uma descendência justa e abençoada pelo Senhor, e os seus filhos com eles. E acontecerá que, antes que clamem, eu ouvirei; estando eles ainda falando, direi: Que há? Então os lobos e os cordeiros pastarão juntos, e o leão comerá palha como o boi; mas a serpente [comerá] terra como pão. Não farão mal nem maltratarão uns aos outros no santo monte, diz o Senhor’ (Is 65.17-25). Ora, entendemos que a expressão usada no meio destas palavras, ‘Como os dias da árvore [da vida26] serão os dias do meu povo; as obras do seu trabalho serão abundantes’, prediz de modo obscuro mil anos. Pois, como foi dito a Adão que no dia em que comesse da árvore morreria, sabemos que ele não completou mil anos. Percebemos, além disso, que a expressão ‘O dia do Senhor é como mil anos’ (Sl 90.4; 2Pe 3.8) se relaciona com este assunto. E, além disso, houve entre nós certo homem, chamado João, um dos apóstolos de Cristo, que profetizou, por uma revelação que lhe foi feita, que os que creram no nosso Cristo habitariam27 mil anos em Jerusalém; e que depois disso aconteceria igualmente a ressurreição geral e, numa palavra, eterna, e o juízo de todos os homens. Assim como também o nosso Senhor disse: ‘Não se casarão nem se darão em casamento, mas serão iguais aos anjos, filhos do Deus da ressurreição’ (Lc 20.35-36).
“Pois os dons proféticos permanecem entre nós até o tempo presente. E por isso vocês devem entender que [os dons] que antes havia na nação de vocês foram transferidos para nós. E, assim como houve falsos profetas contemporâneos dos seus santos profetas, assim também há agora entre nós muitos falsos mestres, dos quais o nosso Senhor nos preveniu que nos guardássemos; de modo que em nada somos deficientes, pois sabemos que ele soube de antemão tudo o que nos aconteceria depois da sua ressurreição dentre os mortos e da sua ascensão ao céu. Pois ele disse que seríamos mortos e odiados por causa do seu nome, e que muitos falsos profetas e falsos cristos apareceriam em seu nome e enganariam a muitos; e assim aconteceu. Pois muitos ensinaram doutrinas sem Deus, blasfemas e ímpias, forjando-as em seu nome; ensinaram, e ainda agora ensinam, as coisas que procedem do espírito imundo do diabo e que foram postas em seus corações. Por isso estamos muitíssimo empenhados em que vocês se deixem persuadir a não ser enganados por tais pessoas, pois sabemos que todo aquele que pode dizer a verdade e não a diz será julgado por Deus, como Deus testificou por meio de Ezequiel, quando disse: ‘Eu o coloquei como atalaia sobre a casa de Judá. Se o pecador pecar e você não o avisar, ele mesmo morrerá no seu pecado, mas o sangue dele eu pedirei da sua mão. Mas, se você o avisar, ficará inocente’ (Ez 3.17-19). E por esta razão, por temor, temos grande empenho em desejar conversar [com os homens] segundo as Escrituras, mas não por amor ao dinheiro, nem à glória, nem ao prazer. Pois ninguém pode nos acusar de nenhum destes [vícios]. Tampouco queremos viver como os governantes do povo de vocês, a quem Deus repreende quando diz: ‘Os seus governantes são companheiros de ladrões, amantes do suborno, que correm atrás de recompensas’ (Is 1.23). Ora, se vocês sabem que alguns entre nós são deste tipo, não blasfemem por causa deles contra as Escrituras e contra Cristo, e não se esforcem tanto em dar interpretações falsificadas.
“Pois os mestres de vocês ousaram aplicar a Ezequias a passagem ‘Diz o Senhor ao meu Senhor: Sente-se à minha direita, até que eu ponha os seus inimigos por estrado dos seus pés’ (Sl 110.1), como se ele tivesse sido convidado a sentar-se do lado direito do templo quando o rei da Assíria lhe mandou mensageiros e o ameaçou, e Isaías lhe disse que não tivesse medo. Ora, sabemos e admitimos que aconteceu o que Isaías disse: que o rei da Assíria desistiu de fazer guerra contra Jerusalém nos dias de Ezequias, e que o anjo do Senhor matou cerca de cento e oitenta e cinco mil do exército dos assírios. Mas é evidente que o salmo não se refere a ele. Pois assim está escrito: ‘Diz o Senhor ao meu Senhor: Sente-se à minha direita, até que eu ponha os seus inimigos por estrado dos seus pés. Ele enviará sobre28 Jerusalém um cetro de poder, e ele dominará no meio dos seus29 inimigos. No esplendor dos santos, antes da estrela da manhã, eu o gerei. O Senhor jurou e não se arrependerá: Você é sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque’ (Sl 110.1-4). Quem não admite, então, que Ezequias não é sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque? E quem não sabe que ele não é o redentor de Jerusalém? E quem não sabe que ele nem enviou um cetro de poder a Jerusalém, nem dominou no meio dos seus inimigos, mas que foi Deus quem afastou dele os inimigos, depois que ele chorou e se afligiu? Mas o nosso Jesus, que ainda não veio em glória, enviou a Jerusalém um cetro de poder, a saber, a palavra de chamado e de arrependimento [destinada] a todas as nações sobre as quais os demônios dominavam, como diz Davi: ‘Os deuses das nações são demônios’ (Sl 96.5). E a sua palavra poderosa persuadiu a muitos a abandonar os demônios a quem costumavam servir e, por meio dela, a crer no Deus Todo-Poderoso, porque os deuses das nações são demônios.30 E mencionamos antes que a declaração ‘No esplendor dos santos, antes da estrela da manhã, eu o gerei do ventre’ é feita a Cristo.
“Além disso, a profecia ‘Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho’ (Is 7.14) foi pronunciada a respeito dele. Pois, se aquele a quem Isaías se referia não havia de ser gerado de uma virgem, a respeito de quem31 o Espírito Santo declarou: ‘Eis que o próprio Senhor nos dará um sinal: eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho’? Pois, se também ele havia de ser gerado de relação sexual, como todos os outros primogênitos, por que Deus disse que daria um sinal que não é comum a todos os primogênitos? Mas aquilo que é verdadeiramente um sinal, e que havia de se tornar digno de crédito para o gênero humano, a saber, que o primogênito de toda a criação se encarnaria no ventre da Virgem e seria uma criança, isto ele antecipou pelo Espírito de profecia e predisse, como já lhes repeti, de vários modos, para que, quando o acontecimento se realizasse, fosse reconhecido como obra do poder e da vontade do Criador de todas as coisas; assim como Eva foi feita de uma das costelas de Adão, e como todos os seres vivos foram criados no princípio pela palavra de Deus. Mas vocês, nestas matérias, ousam deturpar as interpretações que os seus anciãos que estiveram com Ptolomeu, rei do Egito, apresentaram, pois afirmam que a Escritura não diz como eles a interpretaram, mas diz: ‘Eis que a jovem conceberá’, como se grandes coisas devessem ser concluídas do fato de uma mulher gerar por relação sexual: coisa que, de fato, todas as mulheres jovens fazem, com exceção das estéreis; mas até a estas Deus, se quiser, pode fazer [dar à luz]. Pois a mãe de Samuel, que era estéril, deu à luz pela vontade de Deus; e assim também a mulher do santo patriarca Abraão; e Isabel, que deu à luz João Batista, e outras assim. De modo que vocês não devem supor que seja impossível a Deus fazer qualquer coisa que ele queira. E, sobretudo quando foi predito que isso aconteceria, não ousem deturpar nem interpretar mal as profecias, pois farão mal somente a vocês mesmos e não prejudicarão a Deus.
“Além disso, alguns de vocês ousam interpretar a profecia que diz: ‘Levantem as suas portas, ó príncipes; e levantem-se, ó portais eternos, para que entre o Rei da glória’ (Sl 24.7), como se também ela se referisse a Ezequias, e outros de vocês [a interpretam] de Salomão; mas não se pode provar que ela se refira nem a este nem àquele, nem, numa palavra, a nenhum dos reis de vocês, mas somente a este nosso Cristo, que apareceu sem beleza e sem glória, como disseram Isaías, Davi e todas as Escrituras; que é o Senhor dos Exércitos pela vontade do Pai, que lhe conferiu [essa dignidade]; que também ressuscitou dentre os mortos e subiu ao céu, como o salmo e as outras Escrituras manifestaram ao anunciarem que ele é o Senhor dos Exércitos; e disso vocês podem, se quiserem, facilmente se convencer pelo que acontece diante dos seus olhos. Pois todo demônio, quando exorcizado no nome deste mesmo Filho de Deus, que é o Primogênito de toda a criação, que se fez homem pela Virgem, que sofreu e foi crucificado sob Pôncio Pilatos pela nação de vocês, que morreu, que ressuscitou dentre os mortos e subiu ao céu, é vencido e subjugado. Mas, ainda que vocês exorcizem qualquer demônio no nome de qualquer um dos que houve entre vocês, sejam reis, justos, profetas ou patriarcas, ele não se submeterá a vocês. Mas, se algum de vocês o exorcizar [no nome] do Deus de Abraão, do Deus de Isaque e do Deus de Jacó, talvez ele se submeta a vocês. Ora, os exorcistas de vocês, como eu disse,32 certamente se servem de artifícios quando exorcizam, assim como fazem os gentios, e empregam fumigações e encantamentos.33 Mas que são anjos e potestades aqueles a quem a palavra da profecia, por meio de Davi, [ordena] levantar as portas, para que entre aquele que ressuscitou dentre os mortos, Jesus Cristo, o Senhor dos Exércitos, segundo a vontade do Pai, a palavra de Davi igualmente mostrou; e vou lembrá-la de novo à atenção de vocês por causa dos que não estavam conosco ontem, em benefício dos quais, aliás, resumo muitas coisas que disse ontem. E agora, se lhes digo isto, embora o tenha repetido muitas vezes, sei que não é absurdo fazê-lo. Pois é coisa ridícula ver o sol, a lua e as outras estrelas mantendo continuamente o mesmo curso e trazendo de volta as diversas estações; e ver o calculador a quem se pergunte quanto são duas vezes dois, porque muitas vezes disse que são quatro, não deixar de dizer de novo que são quatro; e igualmente outras coisas que se admitem com confiança serem continuamente mencionadas e admitidas do mesmo modo; e, no entanto, que aquele que funda o seu discurso nas Escrituras proféticas as deixe e se abstenha de recorrer constantemente às mesmas Escrituras, porque se pensa que ele pode apresentar algo melhor do que a Escritura. A passagem, então, pela qual provei que Deus revela que há anjos e exércitos no céu é esta: ‘Louvem o Senhor desde os céus; louvem-no nas alturas. Louvem-no, todos os seus anjos; louvem-no, todos os seus exércitos’ (Sl 148.1-2).”
Então um dos que tinham vindo com eles no segundo dia, cujo nome era Mnaseas, disse: “Ficamos muito contentes por você se dispor a repetir as mesmas coisas por nossa causa.”
E eu disse: “Ouçam, meus amigos, a Escritura que me leva a agir assim. Jesus [nos] ordenou amar até os [nossos] inimigos, como foi predito por Isaías em muitas passagens, nas quais está contido também o mistério da nossa própria regeneração, e de fato também a regeneração de todos os que esperam que Cristo aparecerá em Jerusalém e que, por suas obras, se esforçam com empenho por agradá-lo. Estas são as palavras ditas por Isaías: ‘Ouçam a palavra do Senhor, vocês que tremem diante da sua palavra. Digam, irmãos nossos, aos que os odeiam e os detestam, que o nome do Senhor foi glorificado. Ele apareceu para a alegria de vocês, e eles serão envergonhados. Voz de tumulto vinda da cidade, voz vinda do templo,34 voz do Senhor, que dá a retribuição aos soberbos. Antes de entrar em trabalho de parto, deu à luz; antes que lhe viessem as dores, deu à luz um menino. Quem já ouviu uma coisa dessas? E quem já viu algo assim? Será que a terra deu à luz num só dia? E será que ela produziu uma nação de uma só vez? Pois Sião esteve em trabalho de parto e deu à luz os seus filhos. Mas eu dei tal esperança até àquela que não dá à luz, disse o Senhor. Eis que eu fiz a que gera e a que é estéril, diz o Senhor. Alegre-se, ó Jerusalém, e reúnam-se em festa todos vocês que a amam. Alegrem-se, todos vocês que por ela choram, para que mamem e se fartem no seio das suas consolações, para que, tendo mamado, se deliciem com a entrada da sua glória’ (Is 66.5-11).”
1. No texto, “vocês”. Maranus propõe, como muito melhor, “nós”.
2. Falta aqui alguma coisa; adotou-se a leitura proposta por Maranus.
3. Literalmente, “para alimento”.
4. A primeira conferência parece ter terminado mais ou menos aqui.
5. Ou “tantas”.
6. Não está em todas as edições.
7. Justino põe “sol e lua” em vez de “Lúcifer”. Maranus diz que Davi predisse, não que Cristo nasceria de Maria antes do sol e da lua, mas que antes do sol e da lua aconteceria que ele nasceria de uma virgem.
8. O texto traz “por eles”; mas Maranus diz que o artifício estava em o sacerdote obrigar os iniciados a dizer que o próprio Mitra era o iniciador na gruta.
9. Literalmente, “despojados”.
10. Justino pensa que os “despojos de Samaria” designam os despojos de Satanás; Tertuliano pensa que são despojos de Cristo.
11. Literalmente, “acrescentarei”.
12. Septuaginta: “que andam”, poreuomenoi em vez de ponereuomenoi.
13. Na versão inglesa (E. V.), “Zoan”.
14. ekdexamenos; no cap. CXV, adiante, aparece eklexamenos.
15. Maranus propõe inserir epoiesan ou epeirasan antes de exisousthai.
16. Justino não fez nenhuma alusão anterior a este ponto, até onde sabemos pelo escrito que se conservou.
17. Ou (depois de “opinião”): “de modo a crer firmemente que tal coisa acontecerá”.
18. Isto é, a ressurreição.
19. Maranus diz: Jerônimo pensa que os genistas eram assim chamados porque descendiam de Abraão (genos), e os meristas porque separavam as Escrituras. Josefo dá testemunho de que as seitas dos judeus divergiam quanto ao destino e à providência: os fariseus submetiam de fato todas as coisas a Deus, com exceção da vontade humana; os essênios não faziam exceção alguma e submetiam tudo a Deus. Creio, portanto, que os genistas eram assim chamados porque criam que o mundo, em geral, é governado por Deus; os meristas, porque criam que a cada homem cabia um destino ou providência própria.
20. Otto diz que o autor e chefe desta seita dos galileus foi Judas, o Galileu, que, depois do exílio do rei Arquelau, quando os romanos quiseram cobrar um imposto na Judeia, incitou os seus compatriotas a conservar a liberdade de antes. Os helenistas, ou antes heleneus: ninguém menciona esta seita senão Justino; talvez sejam os herodianos ou os hilelitas (de R. Hilel).
21. Traduzimos o texto de Justino tal como está. Os comentadores entendem o sentido assim: “e que haverá mil anos em Jerusalém”, ou “que os santos viverão mil anos em Jerusalém”.
22. Literalmente, “o seu tempo”.
23. Literalmente, “o filho de cem anos”.
24. Literalmente, “o filho de cem anos”.
25. Ou, como na margem da Versão Autorizada inglesa, “farão durar muito as obras do seu trabalho”, lendo-se assim palaiosousin em vez de pleonasousin; assim também a Septuaginta.
26. Estas palavras não se encontram nos manuscritos.
27. Literalmente, “fariam”.
28. epi, mas depois eis. Maranus pensa que epi é inserção de algum copista.
29. Ou melhor, “dele”. Esta citação do Sl 110 é feita de modo muito diferente da citação anterior do mesmo salmo, no cap. XXXII.
30. Pensa-se que esta última oração seja uma interpolação.
31. Ou “por que foi que”.
32. Cap. LXXVI.
33. katadesmoi, que alguns pensam serem versos pelos quais os espíritos malignos, uma vez expulsos, eram impedidos de voltar. Platão (na República) fala de encantamentos pelos quais os demônios eram convocados em auxílio dos que praticavam tais ritos; mas Justino se refere a eles só como expulsos. Outros os consideram drogas.
34. Em ambos os manuscritos, “povo”.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Marcus Dods e George Reith (Ante-Nicene Fathers, vol. 1, Buffalo, 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são dos tradutores ingleses; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Justino cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.