As Apologias de Justino Mártir · Primeira Apologia (continuação)
A esperança da ressurreição, a origem demoníaca das fábulas pagãs, a encarnação do Verbo e as primeiras profecias sobre Cristo.
Pois reflitam sobre o fim de cada um dos reis que os precederam: como morreram a morte comum a todos; e, se ela terminasse na insensibilidade, seria uma sorte inesperada1 para todos os maus. Mas, uma vez que a sensibilidade permanece em todos os que já viveram, e o castigo eterno está reservado (isto é, para os maus), cuidem de não deixar de se convencer e de ter como crença que estas coisas são verdadeiras. Pois que os persuadam de que, mesmo depois da morte, as almas permanecem num estado de sensibilidade: a necromancia, as adivinhações que vocês praticam por meio de crianças imaculadas,2 a evocação de almas humanas falecidas,3 e os que entre os magos são chamados enviadores de sonhos e espíritos assistentes (familiares),4 e tudo o que é feito pelos que são peritos nessas matérias; e também os que são agarrados e lançados de um lado para outro pelos espíritos dos mortos, a quem todos chamam endemoninhados ou loucos;5 e o que vocês consideram oráculos, tanto o de Anfíloco como os de Dodona, de Pito e tantos outros que existem; e as opiniões dos seus autores, Empédocles e Pitágoras, Platão e Sócrates, e a fossa de Homero6 e a descida de Ulisses para ver estas coisas, e tudo o que se disse de semelhante. O mesmo favor que vocês concedem a estes, concedam-no também a nós, que não menos, mas com mais firmeza do que eles, cremos em Deus; pois esperamos receber de novo os nossos próprios corpos, ainda que estejam mortos e lançados na terra, porque sustentamos que para Deus nada é impossível.
E, para qualquer pessoa que reflete, haveria algo mais inacreditável do que, se não estivéssemos no corpo e alguém nos dissesse que é possível que de uma pequena gota de sêmen humano se formem ossos, nervos e carne numa figura como a que vemos? Pois digamos isto agora por hipótese: se vocês mesmos não fossem como agora são, nem nascidos de tais pais [e causas], e alguém lhes mostrasse sêmen humano e o retrato de um homem, e dissesse com segurança que de tal substância podia ser produzido tal ser, vocês acreditariam antes de ver a produção efetiva? Ninguém ousará negar [que tal afirmação ultrapassaria a crença]. Do mesmo modo, então, vocês agora são incrédulos porque nunca viram um morto ressuscitar. Mas, assim como a princípio não teriam acreditado ser possível que tais pessoas fossem produzidas da pequena gota, e no entanto agora as veem assim produzidas, assim também julguem que não é impossível que os corpos dos homens, depois de dissolvidos e, como sementes, desfeitos em terra, ressuscitem no tempo determinado por Deus e se revistam da incorruptibilidade. Pois não conseguimos conceber que poder digno de Deus imaginam os que dizem que cada coisa volta àquilo de que foi produzida e que além disso nem o próprio Deus pode fazer coisa alguma; mas isto vemos claramente: que eles não teriam acreditado ser possível que se tornassem tais e fossem produzidos de tais materiais, como agora veem ser tanto eles mesmos como o mundo inteiro. E aprendemos que é melhor crer até no que é impossível à nossa própria natureza e aos homens do que ser incrédulos como o resto do mundo; pois sabemos que o nosso Mestre Jesus Cristo disse que “o que é impossível para os homens é possível para Deus”,7 e: “Não temam os que os matam e depois disso nada mais podem fazer; mas temam aquele que, depois da morte, pode lançar no inferno tanto a alma como o corpo”.8 E o inferno é o lugar onde serão castigados os que viveram perversamente e não creem que acontecerão as coisas que Deus nos ensinou por meio de Cristo.
E a Sibila9 e Histaspes disseram que haveria uma dissolução das coisas corruptíveis por obra de Deus. E os filósofos chamados estoicos ensinam que até o próprio Deus se dissolverá em fogo, e dizem que o mundo será formado de novo por essa revolução; mas nós entendemos que Deus, o Criador de todas as coisas, é superior às coisas que hão de ser mudadas. Se, portanto, em alguns pontos ensinamos o mesmo que os poetas e filósofos que vocês honram, e em outros pontos o nosso ensino é mais completo e mais divino, e se somente nós apresentamos prova do que afirmamos, por que somos injustamente odiados mais do que todos os outros? Pois, quando dizemos que todas as coisas foram produzidas e ordenadas num mundo por Deus, pareceremos expor a doutrina de Platão; quando dizemos que haverá uma conflagração de tudo, pareceremos expor a doutrina dos estoicos; quando afirmamos que as almas dos maus, dotadas de sensibilidade mesmo depois da morte, são castigadas, e que as dos bons, livres do castigo, passam uma existência bem-aventurada, pareceremos dizer o mesmo que os poetas e filósofos; e, quando sustentamos que os homens não devem cultuar as obras das suas mãos, dizemos exatamente o que foi dito pelo poeta cômico Menandro e por outros escritores semelhantes, pois eles declararam que o artífice é maior do que a obra.
E quando dizemos também que o Verbo, que é o primeiro gerado10 de Deus, foi produzido sem união sexual, e que ele, Jesus Cristo, o nosso Mestre, foi crucificado, morreu, ressuscitou e subiu ao céu, não propomos nada diferente do que vocês creem a respeito daqueles que consideram filhos de Júpiter. Pois vocês sabem quantos filhos os seus estimados escritores atribuíram a Júpiter: Mercúrio, a palavra intérprete e mestre de todos; Esculápio, que, embora fosse um grande médico, foi atingido por um raio e assim subiu ao céu; e Baco também, depois de ter sido despedaçado membro a membro; e Hércules, quando se entregou às chamas para escapar dos seus trabalhos; e os filhos de Leda, e os Dióscuros; e Perseu, filho de Dânae; e Belerofonte, que, embora nascido de mortais, subiu ao céu no cavalo Pégaso. E que direi de Ariadne e dos que, como ela, se diz terem sido postos entre as estrelas? E que dizer dos imperadores que morrem entre vocês, a quem julgam dignos de divinização, e em cujo favor apresentam alguém que jura ter visto o César em chamas subir ao céu da pira funerária? E que espécie de feitos se registram de cada um desses supostos filhos de Júpiter, é desnecessário contar aos que já os conhecem. Diga-se apenas isto: que foram escritos para proveito e estímulo11 dos jovens estudantes; pois todos julgam coisa honrosa imitar os deuses. Mas longe de toda alma bem formada semelhante pensamento a respeito dos deuses, a ponto de crer que o próprio Júpiter, governador e criador de todas as coisas, foi parricida e filho de parricida, e que, vencido pelo amor de prazeres baixos e vergonhosos, se uniu a Ganimedes e àquelas muitas mulheres que violentou, e que os seus filhos praticaram ações semelhantes. Mas, como dissemos acima, foram diabos malignos que fizeram estas coisas. E aprendemos que somente são divinizados os que viveram perto de Deus em santidade e virtude; e cremos que os que vivem perversamente e não se arrependem são castigados no fogo eterno.
Além disso, o Filho de Deus chamado Jesus, ainda que fosse apenas um homem de geração comum, seria digno, por causa da sua sabedoria, de ser chamado Filho de Deus; pois todos os escritores chamam a Deus Pai dos homens e dos deuses. E, se afirmamos que o Verbo de Deus nasceu de Deus de modo peculiar, diferente da geração comum, que isso, como se disse acima, não seja coisa extraordinária para vocês, que dizem que Mercúrio é a palavra angélica de Deus. Mas, se alguém objetar que ele foi crucificado, também nisto ele está em pé de igualdade com aqueles supostos filhos de Júpiter de vocês, que sofreram como acabamos de enumerar. Pois se registra que os seus sofrimentos na morte não foram todos iguais, mas diversos; de modo que nem pela singularidade dos seus sofrimentos ele parece ser inferior a eles; mas, ao contrário, como prometemos na parte anterior deste discurso, provaremos agora que ele é superior, ou antes já provamos que o é, pois o superior se revela pelas suas ações. E, se chegamos a afirmar que ele nasceu de uma virgem, aceitem isso como coisa em comum com o que vocês aceitam de Perseu. E, quando dizemos que ele curou os coxos, os paralíticos e os cegos de nascença, parecemos dizer algo muito semelhante aos feitos atribuídos a Esculápio.
E, para que agora se torne evidente a vocês (primeiro)12 que tudo o que afirmamos em conformidade com o que nos foi ensinado por Cristo e pelos profetas que o precederam é o único verdadeiro e é mais antigo do que todos os escritores que já existiram; que pedimos ser reconhecidos não porque dizemos o mesmo que esses escritores disseram, mas porque dizemos coisas verdadeiras; e (segundo) que Jesus Cristo é o único Filho propriamente gerado por Deus, sendo o seu Verbo, primogênito e poder, e que, tornando-se homem segundo a sua vontade, nos ensinou estas coisas para a conversão e restauração do gênero humano; e (terceiro) que, antes que ele se tornasse homem entre os homens, alguns, influenciados pelos demônios antes mencionados, narraram de antemão, por intermédio dos poetas, como fatos realmente acontecidos, as coisas que tinham inventado como ficção, do mesmo modo como fizeram forjar contra nós os relatos escandalosos de ações infames e ímpias,13 das quais não há testemunha nem prova; para isso apresentaremos a prova que segue.
Em primeiro lugar [apresentamos prova], porque, embora digamos coisas semelhantes às que dizem os gregos, somente nós somos odiados por causa do nome de Cristo e, sem fazer nenhum mal, somos mortos como pecadores; enquanto outros homens, em outros lugares, cultuam árvores e rios, ratos, gatos e crocodilos, e muitos animais irracionais. Nem os mesmos animais são estimados por todos; mas num lugar se cultua um, e noutro lugar outro, de modo que todos são profanos no juízo uns dos outros, por não cultuarem os mesmos objetos. E esta é a única acusação que vocês nos fazem: que não reverenciamos os mesmos deuses que vocês, nem oferecemos aos mortos libações e o cheiro da gordura, coroas para as suas estátuas14 e sacrifícios. Pois vocês sabem muito bem que os mesmos animais são, para uns, deuses; para outros, feras; e para outros, vítimas de sacrifício.
E, em segundo lugar, porque nós, que de toda raça de homens costumávamos cultuar Baco, filho de Sêmele, e Apolo, filho de Latona (que nos seus amores com homens fizeram coisas que é vergonhoso até mencionar), e Prosérpina e Vênus (que enlouqueceram de amor por Adônis, e cujos mistérios vocês também celebram), ou Esculápio, ou um ou outro dos que são chamados deuses, agora, por meio de Jesus Cristo, aprendemos a desprezá-los, embora sejamos ameaçados de morte por isso, e nos consagramos ao Deus não gerado e impassível; do qual estamos persuadidos de que jamais foi aguilhoado pela paixão por Antíope ou outras mulheres semelhantes, ou por Ganimedes, nem foi socorrido por aquele gigante de cem mãos cujo auxílio se obteve por meio de Tétis, nem esteve preocupado, por causa disso,15 em que o filho dela, Aquiles, destruísse muitos dos gregos por causa da sua concubina Briseida. Temos pena dos que creem nestas coisas, e sabemos que os que as inventaram são diabos.
E, em terceiro lugar, porque depois da ascensão de Cristo ao céu os diabos apresentaram certos homens que diziam ser eles mesmos deuses; e estes não só não foram perseguidos por vocês, como até foram julgados dignos de honras. Houve um samaritano, Simão, natural da aldeia chamada Gito, que no reinado de Cláudio César, e na cidade real de vocês, Roma, realizou grandes feitos de magia pela arte dos diabos que operavam nele. Foi considerado um deus e, como deus, foi honrado por vocês com uma estátua, a qual foi erguida junto ao rio Tibre, entre as duas pontes, e trazia esta inscrição na língua de Roma: “Simoni Deo Sancto”,16 “A Simão, o Deus santo”. E quase todos os samaritanos, e alguns até de outras nações, o cultuam e o reconhecem como o primeiro deus; e uma mulher, Helena, que naquele tempo andava com ele e antes fora prostituta, dizem ser a primeira ideia gerada por ele. E sabemos que um homem, Menandro, também samaritano, da cidade de Caparetea, discípulo de Simão e inspirado pelos diabos, enganou a muitos pela sua arte mágica enquanto esteve em Antioquia. Ele persuadiu os que o seguiam de que nunca morreriam, e ainda agora há alguns vivos que sustentam essa opinião dele. E há Marcião, homem do Ponto, que ainda hoje vive e ensina os seus discípulos a crer em algum outro deus maior do que o Criador. E ele, com o auxílio dos diabos, levou muitos de toda nação a proferir blasfêmias, a negar que Deus é o criador deste universo e a afirmar que algum outro ser, maior do que ele, fez obras maiores. Todos os que tiram as suas opiniões desses homens são, como dissemos antes,17 chamados cristãos; assim como também os que não concordam com os filósofos nas suas doutrinas recebem, ainda assim, em comum com eles o nome de filósofos. E se eles cometem aquelas ações fabulosas e vergonhosas,18 a derrubada da lâmpada, as uniões promíscuas e o comer carne humana, não sabemos; mas sabemos que não são perseguidos nem mortos por vocês, ao menos por causa das suas opiniões. Mas tenho já composto um tratado contra todas as heresias que existiram, o qual, se quiserem lê-lo, lhes darei.
Mas, quanto a nós, fomos ensinados que expor as crianças recém-nascidas é próprio de homens perversos; e isto nos foi ensinado para que não façamos mal a ninguém e não pequemos contra Deus: primeiro, porque vemos que quase todos os assim expostos (não somente as meninas, mas também os meninos) são criados para a prostituição. E, assim como se diz que os antigos criavam rebanhos de bois, de cabras, de ovelhas ou de cavalos de pasto, assim agora vemos vocês criarem crianças somente para esse uso vergonhoso; e, para essa imundícia, encontra-se em toda nação uma multidão de mulheres, de hermafroditas e dos que cometem iniquidades indizíveis. E vocês recebem o pagamento dessas pessoas, e impostos e taxas delas, quando deveriam exterminá-las do seu reino. E quem se serve de tais pessoas, além da relação ímpia, infame e impura, pode talvez estar se unindo ao seu próprio filho, ou parente, ou irmão. E há alguns que prostituem até os próprios filhos e esposas, e alguns são abertamente mutilados para a prática da sodomia; e atribuem esses mistérios à mãe dos deuses, e junto a cada um daqueles que vocês consideram deuses é pintada uma serpente,19 grande símbolo e mistério. De fato, as coisas que vocês fazem abertamente e com aplauso, como se a luz divina fosse derrubada e apagada, essas mesmas coisas vocês nos imputam; o que, na verdade, não faz mal a nós, que recusamos fazer qualquer coisa semelhante, mas somente aos que as fazem e dão falso testemunho contra nós.
Pois entre nós o príncipe dos espíritos maus é chamado serpente, Satanás e diabo, como vocês podem saber examinando os nossos escritos. E Cristo predisse que ele seria lançado no fogo com o seu exército e com os homens que o seguem, e seria castigado por uma duração sem fim. Pois a razão por que Deus adiou fazer isso é o seu cuidado pelo gênero humano. Pois ele sabe de antemão que alguns hão de ser salvos pelo arrependimento, alguns até que talvez ainda não nasceram.20 No princípio ele fez o gênero humano com o poder de pensar, de escolher a verdade e de fazer o que é reto, de modo que todos os homens ficam sem desculpa diante de Deus; pois nasceram racionais e capazes de contemplação. E, se alguém não crê que Deus cuida destas coisas,21 com isso ou insinuará que Deus não existe, ou afirmará que, embora exista, ele se deleita no vício, ou existe como uma pedra, e que nem a virtude nem o vício são coisa alguma, mas somente na opinião dos homens essas coisas são tidas por boas ou más. E esta é a maior profanação e maldade.
E de novo [tememos expor as crianças], para que algumas delas não deixem de ser recolhidas e morram, e nos tornemos homicidas. Mas, ou nos casamos somente para criar filhos, ou, se renunciamos ao casamento, vivemos em continência. E, para que vocês entendam que as uniões promíscuas não fazem parte dos nossos mistérios, um dos nossos, há pouco tempo, apresentou a Félix, governador em Alexandria, uma petição pedindo que se desse licença a um cirurgião para fazê-lo eunuco. Pois os cirurgiões de lá diziam que estavam proibidos de fazer isso sem licença do governador. E, como Félix se recusou terminantemente a assinar tal licença, o jovem permaneceu solteiro e se contentou com a aprovação da sua própria consciência e com a aprovação dos que pensavam como ele. E não é fora de propósito, pensamos, mencionar aqui Antínoo, que vivia até há pouco, e a quem todos, por medo, se apressaram a cultuar como deus, embora soubessem quem ele era e qual a sua origem.22
Mas, para que ninguém nos venha com a pergunta: Que impede que aquele a quem chamamos Cristo, sendo homem nascido de homens, tenha realizado o que chamamos as suas obras poderosas por arte mágica, e por isso tenha parecido ser o Filho de Deus?, apresentaremos agora a prova, não confiando em meras afirmações, mas persuadidos necessariamente pelos que profetizaram [a respeito dele] antes que essas coisas acontecessem; pois com os nossos próprios olhos vemos coisas que aconteceram e estão acontecendo exatamente como foram preditas; e isto, pensamos, há de parecer até a vocês a prova mais forte e mais verdadeira.
Houve, pois, entre os judeus certos homens que eram profetas de Deus, por meio dos quais o Espírito profético anunciou de antemão coisas que haviam de acontecer, antes que acontecessem. E as suas profecias, tal como foram ditas e no momento em que foram proferidas, os reis que nas diversas épocas reinavam entre os judeus as conservaram cuidadosamente em seu poder, depois que foram ordenadas em livros pelos próprios profetas, na sua própria língua hebraica. E quando Ptolomeu, rei do Egito, formou uma biblioteca e procurou reunir os escritos de todos os homens, ouviu falar também desses profetas e enviou mensageiros a Herodes, que naquele tempo era rei dos judeus,23 pedindo que lhe fossem enviados os livros dos profetas. E o rei Herodes de fato os enviou, escritos, como estavam, na referida língua hebraica. E, como o seu conteúdo era ininteligível para os egípcios, ele enviou de novo e pediu que fossem designados homens para traduzi-los para a língua grega. E, feito isso, os livros ficaram com os egípcios, onde estão até hoje. Estão também em poder de todos os judeus pelo mundo inteiro; mas eles, embora os leiam, não entendem o que está dito, e nos consideram adversários e inimigos; e, como vocês, nos matam e nos castigam sempre que têm poder para isso, como vocês podem bem acreditar. Pois na guerra judaica que há pouco se travou, Barcoquebas, o chefe da revolta dos judeus, ordenou que somente os cristãos fossem levados a castigos cruéis, a não ser que negassem Jesus Cristo e proferissem blasfêmia. Nesses livros dos profetas, então, encontramos predito que Jesus, o nosso Cristo, haveria de vir, nascido de uma virgem, crescendo até a idade adulta, curando toda doença e toda enfermidade, ressuscitando mortos, sendo odiado, desconhecido e crucificado, morrendo, ressuscitando e subindo ao céu, sendo e sendo chamado Filho de Deus. Encontramos também predito que certas pessoas seriam enviadas por ele a toda nação para anunciar estas coisas, e que seriam antes os gentios [do que os judeus] os que creriam nele. E ele foi predito antes de aparecer, primeiro 5.000 anos antes, e de novo 3.000, depois 2.000, depois 1.000, e ainda 800; pois, na sucessão das gerações, surgiram profetas após profetas.
Moisés, então, que foi o primeiro dos profetas, falou com estas mesmas palavras: “O cetro não se afastará de Judá, nem o legislador de entre os seus pés, até que venha aquele para quem está reservado; e ele será o desejado das nações, amarrando o seu jumentinho à videira, lavando a sua veste no sangue da uva”.24 Cabe a vocês investigar com exatidão e verificar até o tempo de quem os judeus tiveram legislador e rei próprios. Até o tempo de Jesus Cristo, que nos ensinou e interpretou as profecias que ainda não eram entendidas, [eles tiveram legislador,] como foi predito pelo santo e divino Espírito de profecia por meio de Moisés, “que não faltaria governante aos judeus até que viesse aquele para quem o reino estava reservado” (pois Judá foi o antepassado dos judeus, de quem também receberam o nome de judeus); e, depois que ele (isto é, Cristo) apareceu, vocês começaram a governar os judeus e se apossaram de todo o seu território. E a profecia “ele será a expectativa das nações” significava que haveria pessoas de todas as nações que esperariam que ele viesse de novo. E isto, de fato, vocês podem ver por si mesmos e disso se convencer pelos fatos. Pois de todas as raças de homens há alguns que esperam aquele que foi crucificado na Judeia, e depois de cuja crucificação a terra foi imediatamente entregue a vocês como despojo de guerra. E a profecia “amarrando o seu jumentinho à videira e lavando a sua veste no sangue da uva” foi um símbolo significativo das coisas que haviam de acontecer a Cristo e do que ele havia de fazer. Pois o filhote de uma jumenta estava amarrado a uma videira à entrada de uma aldeia, e ele mandou então os seus conhecidos que o trouxessem; e, quando foi trazido, montou e sentou-se nele, e entrou em Jerusalém, onde estava o grande templo dos judeus, que depois foi destruído por vocês. E depois disso foi crucificado, para que se cumprisse o restante da profecia. Pois este “lavando a sua veste no sangue da uva” predizia a paixão que ele havia de sofrer, purificando pelo seu sangue os que creem nele. Pois o que o Espírito divino, por meio do profeta, chama “a sua veste” são os homens que creem nele, nos quais habita a semente25 de Deus, o Verbo. E o que se chama “o sangue da uva” significa que aquele que havia de aparecer teria sangue, embora não da semente do homem, mas do poder de Deus. E o primeiro poder depois de Deus, o Pai e Senhor de todas as coisas, é o Verbo, que é também o Filho; e dele narraremos, no que segue, como tomou carne e se fez homem. Pois, assim como não foi o homem quem fez o sangue da videira, mas Deus, assim também se indicou com isso que o sangue não seria de semente humana, mas de poder divino, como dissemos acima. E Isaías, outro profeta, predizendo as mesmas coisas com outras palavras, falou assim: “Uma estrela surgirá de Jacó, e uma flor brotará da raiz de Jessé; e no seu braço as nações confiarão”.26 E uma estrela de luz surgiu, e uma flor brotou da raiz de Jessé: este Cristo. Pois pelo poder de Deus ele foi concebido por uma virgem da descendência de Jacó, que foi o pai de Judá, o qual, como mostramos, foi o pai dos judeus; e Jessé foi seu antepassado segundo o oráculo, e ele foi filho de Jacó e de Judá segundo a descendência em linha direta.
E ouçam de novo como Isaías predisse em palavras expressas que ele nasceria de uma virgem; pois falou assim: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e dirão em seu nome: Deus conosco”.27 Pois as coisas que eram incríveis e pareciam impossíveis aos homens, essas Deus predisse pelo Espírito de profecia como devendo acontecer, a fim de que, quando acontecessem, não houvesse incredulidade, mas fé, por causa da sua predição. Mas, para que alguns, não entendendo a profecia agora citada, não nos acusem das mesmas coisas de que temos acusado os poetas, que dizem que Júpiter se uniu a mulheres por concupiscência, procuremos explicar as palavras. Isto, então: “Eis que a virgem conceberá”, significa que uma virgem conceberia sem união carnal. Pois, se ela tivesse tido união com alguém, quem quer que fosse, já não seria virgem; mas o poder de Deus, vindo sobre a virgem, a cobriu com a sua sombra e a fez conceber sendo ainda virgem. E o anjo de Deus, enviado naquele tempo à mesma virgem, lhe trouxe a boa notícia, dizendo: “Eis que você conceberá do Espírito Santo e dará à luz um Filho, e ele será chamado Filho do Altíssimo, e você lhe dará o nome de Jesus; porque ele salvará o seu povo dos pecados deles”,28 como ensinaram os que registraram tudo o que diz respeito ao nosso Salvador Jesus Cristo, aos quais demos crédito, uma vez que também por Isaías, que acabamos de citar, o Espírito de profecia declarou que ele nasceria como indicamos antes. Não é correto, portanto, entender o Espírito e o poder de Deus como coisa diferente do Verbo, que é também o primogênito de Deus, como declarou o referido profeta Moisés; e foi este que, vindo sobre a virgem e cobrindo-a com a sua sombra, a fez conceber, não por união carnal, mas por poder. E o nome Jesus, na língua hebraica, significa Soter (Salvador) na língua grega. Por isso também o anjo disse à virgem: “Você lhe dará o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles”. E que os profetas são inspirados29 por nenhum outro senão pelo Verbo divino, até vocês, imagino, o concederão.
E ouçam em que parte da terra ele havia de nascer, como predisse outro profeta, Miqueias. Ele falou assim: “E você, Belém, terra de Judá, não é de modo algum a menor entre os príncipes de Judá; pois de você sairá um Guia, que apascentará o meu povo”.30 Ora, há uma aldeia na terra dos judeus, a trinta e cinco estádios de Jerusalém, na qual Jesus Cristo nasceu, como vocês podem verificar também pelos registros do recenseamento feito sob Quirino, o primeiro procurador de vocês na Judeia.
E como Cristo, depois de nascer, havia de passar despercebido aos outros homens até chegar à idade adulta, o que também aconteceu, ouçam o que foi predito a esse respeito. Há as seguintes predições:31 “Um menino nos nasceu, e um jovem se nos deu, e o governo estará sobre os seus ombros”;32 o que indica o poder da cruz, pois a ela, quando foi crucificado, ele aplicou os seus ombros, como se mostrará com mais clareza no discurso que segue. E de novo o mesmo profeta Isaías, inspirado pelo Espírito profético, disse: “Estendi as minhas mãos a um povo desobediente e contraditor, aos que andam por um caminho que não é bom. Agora me pedem juízo e ousam aproximar-se de Deus”.33 E de novo, com outras palavras, por meio de outro profeta, ele diz: “Traspassaram as minhas mãos e os meus pés, e sobre a minha veste lançaram sortes”.34 E de fato Davi, o rei e profeta, que proferiu estas coisas, não sofreu nenhuma delas; mas Jesus Cristo estendeu as suas mãos, quando foi crucificado pelos judeus que o contradiziam e negavam que ele fosse o Cristo. E, como disse o profeta, eles o atormentaram, o sentaram no tribunal e disseram: Julga-nos. E a expressão “traspassaram as minhas mãos e os meus pés” foi usada em referência aos cravos da cruz, que foram fixados nas suas mãos e nos seus pés. E, depois que foi crucificado, lançaram sortes sobre a sua veste, e os que o crucificaram a repartiram entre si. E que estas coisas de fato aconteceram, vocês podem verificar pelos Atos de Pôncio Pilatos.35 E citaremos as declarações proféticas de outro profeta, Sofonias,36 segundo as quais ele foi predito expressamente como havendo de sentar-se sobre o filhote de uma jumenta e entrar em Jerusalém. As palavras são estas: “Alegre-se muito, ó filha de Sião! Exulte, ó filha de Jerusalém! Eis que o seu rei vem até você, humilde, montado em jumento, num jumentinho, cria de jumenta”.37
1. hermaion, um golpe de sorte inesperado, sendo Hermes tido como o doador de tais presentes: veja-se o Léxico de Liddell e Scott; veja-se também o escoliasta citado por Stallbaum no Fédon de Platão, p. 107, a respeito de uma passagem singularmente análoga a esta.
2. Meninos e meninas, ou mesmo crianças tiradas prematuramente do ventre, eram sacrificados e suas entranhas examinadas, na crença de que as almas das vítimas (ainda conscientes, como Justino argumenta) revelariam coisas ocultas e futuras. Otto e Trollope citam exemplos em abundância.
3. Esta forma de comunicação com os espíritos era familiar aos antigos, e Justino de novo (Diálogo com Trifão, cap. 105) usa a evocação de Samuel pela feiticeira de En-Dor como prova da imortalidade da alma.
4. Valésio (sobre Eusébio, História Eclesiástica, iv. 7) afirma que os magos tinham duas espécies de espíritos familiares: os primeiros, enviados para inspirar aos homens sonhos que lhes dessem indícios de coisas futuras; os segundos, enviados para vigiar os homens e protegê-los das doenças e infortúnios. Os primeiros, diz ele, eram chamados (como aqui) oneiropompous, e os segundos, paredrous.
5. Justino não é o único autor, antigo ou recente, que pôs endemoninhados e loucos na mesma classe; nem está sozinho entre os antigos na opinião de que os endemoninhados eram possuídos pelos espíritos de homens falecidos. As referências se encontram na nota de Trollope.
6. Veja-se a Odisseia, livro xi, linha 25, onde Ulisses é descrito cavando uma fossa ou vala com a espada e derramando libações para reunir em torno de si as almas dos mortos.
7. Mt 19.26.
8. Mt 10.28.
9. Os Oráculos Sibilinos são hoje geralmente considerados fragmentos pagãos amplamente interpolados por homens sem escrúpulos durante os primeiros séculos da Igreja. Para um relato interessante desses documentos um tanto desconcertantes, veja-se Burton, Lectures on the Ecclesiastical History of the First Three Centuries, Lição xvii. As profecias de Histaspes também eram comumente invocadas como genuínas pelos primeiros cristãos.
10. Isto é, primogênito.
11. diaphoran kai protropen. A ironia aqui é tão evidente que torna desnecessária a leitura proposta (diaphthoran kai paratropen, corrupção e depravação). Otto prefere a leitura adotada acima. Trollope, por outro lado, inclina-se para a segunda leitura, principalmente por serem incomuns as expressões da primeira. Veja-se a sua nota muito sensata sobre o lugar.
12. O editor beneditino, Maranus, Otto e Trollope observam aqui que Justino, neste capítulo, se compromete a demonstrar três proposições distintas: 1ª, que as doutrinas cristãs são as únicas verdadeiras e devem ser recebidas não por causa da sua semelhança com as opiniões de poetas e filósofos, mas por si mesmas; 2ª, que Jesus Cristo é o Filho de Deus encarnado e nosso mestre; 3ª, que, antes da sua encarnação, os demônios, tendo algum conhecimento do que ele realizaria, capacitaram os poetas e sacerdotes pagãos a antecipar em alguns pontos, ainda que de forma deturpada, os fatos da encarnação. A primeira ele estabelece nos caps. xxiv-xxix; a segunda, nos caps. xxx-liii; e a terceira, a partir do cap. liv.
13. Seguimos aqui a leitura e a tradução de Trollope.
14. en graphais stephanous. A única conjectura que parece de algum modo provável é a do editor beneditino, seguida aqui.
15. Isto é, por causa do auxílio que Tétis lhe obteve, e em retribuição a ele.
16. Supõe-se muito geralmente que Justino se enganou ao entender que esta fosse uma estátua erguida a Simão Mago. Essa suposição se apoia no fato de que, no ano de 1574, foi desenterrado na ilha do Tibre um fragmento de mármore com a inscrição “Semoni Sanco Deo” etc., provavelmente a base de uma estátua erguida à divindade sabina Semo Sanco. Supõe-se que Justino confundiu essa inscrição com a que ele dá acima. Isso sempre nos pareceu prova muito frágil para rejeitar uma afirmação tão precisa como a que Justino faz aqui; afirmação que ele dificilmente teria arriscado numa apologia dirigida a Roma, onde toda pessoa tinha meios de verificar a sua exatidão. Se, como se supõe, ele cometeu um engano, este teria sido logo desmascarado, e outros escritores não teriam repetido a história com tanta frequência como o fizeram. Veja-se Burton, Bampton Lectures, p. 374.
17. Veja-se o cap. vii.
18. Que eram comumente imputadas aos cristãos.
19. Thirlby observa que a serpente era símbolo especialmente da eternidade, do poder e da sabedoria, e que quase não havia atributo divino de que os pagãos não encontrassem alguma semelhança nesse animal. Veja-se também Hardwick, Christ and other Masters, vol. ii, p. 146 (2ª ed.).
20. Literalmente, “Pois ele conhece de antemão alguns que hão de ser salvos pelo arrependimento, e alguns talvez ainda não nascidos”.
21. As coisas que dizem respeito à salvação do homem; assim Trollope e os demais intérpretes, exceto Otto, que lê touton no masculino e o entende dos homens antes mencionados.
22. Para um relato suficiente da história infame aqui aludida, da dor extravagante de Adriano e do servilismo do povo, veja-se o Dictionary of Biography de Smith, verbete “Antinous”.
23. Alguns atribuem este erro de cronologia a Justino, outros aos seus copistas: foi a Eleazar, o sumo sacerdote, que Ptolomeu se dirigiu.
24. Gn 49.10, 11.
25. Grabe leria aqui não sperma, mas pneuma, o espírito; mas o editor beneditino, Otto e Trollope pensam todos que não se deve fazer nenhuma alteração.
26. Nm 24.17; Is 11.1; 51.5.
27. Is 7.14.
28. Lc 1.31, 32; Mt 1.21.
29. theophorountai, literalmente, “são levados por um deus”, palavra usada a respeito dos que se supunha estarem inteiramente sob a influência de uma divindade.
30. Mq 5.2.
31. Estas predições têm tão pouca relação com o ponto que Justino pretende demonstrar que alguns editores supuseram que se perdeu aqui uma passagem. Outros julgam a falta de pertinência fundamento insuficiente para tal suposição.
32. Is 9.6.
33. Is 65.2; Is 58.2.
34. Sl 22.16, 18.
35. akton. Estes Atos de Pôncio Pilatos, ou relatórios regulares dos seus procedimentos enviados por Pilatos ao imperador Tibério, supõe-se que foram destruídos muito cedo, talvez em consequência dos apelos irrespondíveis que os cristãos constantemente faziam a eles. Existe uma falsificação feita à imitação desses Atos. Veja-se Trollope.
36. O leitor notará que estas não são palavras de Sofonias, mas de Zacarias (Zc 9.9), a quem também o próprio Justino as atribui no Diálogo com Trifão, cap. 53.
37. Zc 9.9.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Marcus Dods e George Reith na coleção Ante-Nicene Fathers, vol. 1 (Buffalo, 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. Os originais são gregos: esta é, portanto, tradução de tradução. As notas são dos tradutores ingleses; as do editor americano foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Justino cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.