As Homilias de Macário · Homilias XII a XVII

Só Cristo cura a alma; a excelência da alma e as suas lutas

Só Cristo cura a alma e a reveste com o manto da graça; as pedras de tropeço de Satanás; a excelência da alma e as suas lutas; a miséria da alma sem Deus.

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Homilia XII

Só Cristo é capaz de curar a alma e de adorná-la com o manto da graça.

1. Se alguém está nu por lhe faltar a veste celestial, que é o poder do Espírito (como está dito: “E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8.9)), chore e suplique ao Senhor que lhe dê a veste espiritual que vem do céu, para que tenha uma cobertura para a sua alma, despida do poder divino. Pois quem não está vestido com a roupa do Espírito está vestido de paixões vis.

2. Pois, assim como nas coisas visíveis quem está nu fica em grande vergonha e desonra, e até os amigos desviam o rosto dos amigos que estão nus, assim também Deus desvia o rosto das almas que não estão vestidas com a roupa do Espírito, na plena certeza da fé, como quem não se “revestiu do Senhor Jesus Cristo” (Rm 13.14) em poder e em verdade.

3. O próprio primeiro homem, quando se viu nu, envergonhou-se. Tão grande é a desonra que acompanha a nudez! Se, portanto, com relação apenas ao corpo, estar nu nos expõe a tanta vergonha, quanto mais a alma que está despida do poder divino, que não está vestida com a veste indescritível, imortal e espiritual, o próprio Senhor Jesus Cristo, não estará coberta de vergonha e de paixões desonrosas! Todo aquele que está despido daquela glória divina deve envergonhar-se de si mesmo e reconhecer a desonra em que se encontra, assim como Adão se envergonhou de estar com o corpo nu, embora tenha feito para si uma cobertura de folhas de figueira. Que essa alma, portanto, peça a Cristo, que a veste de uma glória que ultrapassa toda expressão, sem fazer para si nenhuma cobertura de pensamentos vãos nem se deixar iludir pela opinião da própria justiça.

4. Pois, se alguém se apoia somente na própria justiça (não buscando a justiça de Deus, que é o Senhor, o qual, como diz o apóstolo, “se tornou para nós justiça e redenção” (cf. 1Co 1.30)), o esforço que faz é vão e infrutífero. Pois essa opinião da própria justiça, no último dia, é posta claramente a descoberto como um trapo imundo, como diz o profeta: “Todas as nossas justiças são como trapo da imundícia” (Is 64.6).

Peçamos, portanto, a Deus, e supliquemos-lhe que nos revistamos da veste da salvação, nosso Senhor Jesus Cristo. Glória à sua terna misericórdia e compaixão, que ultrapassam toda expressão e toda palavra!

5. Assim como a mulher que sofria de um fluxo de sangue, ao tocar a orla da veste do nosso Senhor, foi curada imediatamente e a fonte impura do seu sangue secou, assim também toda alma que tem a ferida incurável do pecado, a fonte de pensamentos impuros e maus, se vier a Cristo, recupera a saúde; e aquela fonte que jorra pensamentos impuros, somente pelo poder de Jesus, diminui e seca.

6. Só a ele isto é possível. Pois, assim como aquela mulher, que tinha gastado tudo o que possuía com aqueles que haviam prometido curá-la, não foi curada por homem algum até que veio ao Senhor e tocou a orla da sua veste, assim também acontece com a alma que, desde o princípio, foi ferida com esta ferida incurável das paixões pecaminosas, que nenhum dos justos, nem os pais, nem os profetas, nem os patriarcas, foram capazes de curar.

7. Moisés veio, mas não foi capaz de dar a saúde perfeita. Os sacerdotes, as ofertas, os dízimos, as luas novas, as abluções, os sacrifícios, os holocaustos e todos os demais ramos da justiça eram observados pontualmente debaixo da lei; e, no entanto, a alma não podia ser curada e purificada da fonte impura dos pensamentos pecaminosos. Nem toda a sua justiça podia valer coisa alguma, até que veio o próprio Salvador, o verdadeiro Médico, que cura gratuitamente, que se deu a si mesmo em resgate pela raça humana. Só ele realizou a grande e salvadora redenção e cura da alma: foi ele que a libertou do estado de escravidão e a tirou das trevas, tendo-a glorificado com a sua própria luz. Ele secou a fonte dos pensamentos impuros; pois, diz a Escritura: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (Jo 1.29).

8. Os seus próprios remédios tirados da terra, isto é, as suas próprias obras justas, não foram capazes de curá-la de tão grande praga. Mas pela natureza celestial e divina, o dom do Espírito Santo, o homem se tornou capaz de recuperar a saúde, sendo purificado no seu coração pelo Espírito Santo.

Tenhamos, portanto, fé nele e venhamos a ele em verdade, para que realize depressa dentro de nós a sua obra de cura, pois ele prometeu “dar o seu Espírito Santo aos que lhe pedem, abrir aos que batem e ser achado pelos que o buscam” (cf. Lc 11.13; Mt 7.7-8); e aquele que prometeu não pode mentir. A ele a glória e o poder para sempre! Amém.

Homilia XIII

Ninguém, a menos que seja fortalecido por Cristo, é capaz de se livrar das pedras de tropeço de Satanás. E o que devem fazer os que desejam a glória divina.

1. Aqueles em quem a lei divina está enxertada no coração, tendo os olhos da mente iluminados, são capazes de se livrar das pedras de tropeço do maligno. Mas os que não foram honrados com a palavra de Deus, inchados de vaidade, imaginam que pelo seu próprio livre-arbítrio podem cortar todas as ocasiões de pecado, o qual, no entanto, só é condenado pelo mistério da cruz.

2. Pois é impossível andar sobre a áspide e o basilisco e pisar o leão e o dragão, a não ser que primeiro sejamos capacitados por aquele que disse aos apóstolos: “Eis que eu dei a vocês autoridade para pisarem cobras e escorpiões e sobre todo o poder do inimigo” (Lc 10.19). Pois, se a natureza humana fosse capaz, sem a armadura completa do Espírito Santo, de resistir às ciladas do diabo, o apóstolo nunca nos teria dito: “E o Deus da paz, em breve, esmagará Satanás debaixo dos pés de vocês” (Rm 16.20).

Quem deseja, portanto, tornar-se participante da glória divina deve, com um afeto insaciável, de todo o coração e com todas as forças, noite e dia buscar a ajuda de Deus.

3. Por isso, esforcem-se ao máximo para se tornarem filhos de Deus, irrepreensíveis, e para entrarem naquele descanso “onde Cristo, como precursor, entrou por nós” (Hb 6.20). Façam todo o possível para que o seu nome seja escrito na igreja do céu com os primogênitos, para que sejam achados “à direita da Majestade, nas alturas” (Hb 1.3). Empenhem-se por entrar na cidade santa, a pacífica Jerusalém. Derramem lágrimas dia e noite, segundo aquele que disse: “Todas as noites faço nadar o meu leito, de minhas lágrimas o alago” (Sl 6.6). Pois “os que com lágrimas semeiam com júbilo ceifarão” (Sl 126.5). Por isso o profeta se exprime com confiança: “Não fiques insensível às minhas lágrimas” (Sl 39.12).

4. Busquem somente aquele que disse: “Eu vim para lançar fogo sobre a terra, e bem que eu gostaria que já estivesse aceso” (Lc 12.49). Pois é este ardor do Espírito que acende uma vida nova no coração. Este fogo divino serve para iluminar as almas e para prová-las como o ouro puro na fornalha, mas para consumir o pecado como espinhos e palha. Foi ele que inflamou o coração de Cleopas e do seu companheiro, quando o nosso Salvador lhes falava depois da ressurreição. Ele queima a trave do olho interior e restitui à mente a sua pureza, para que, recuperando a sua capacidade natural de ver, ela contemple incessantemente as maravilhas de Deus. Peçamos a este fogo que venha também a nós, para que, andando sempre na luz, nunca, nem sequer por um momento, tropecemos “em alguma pedra” (Sl 91.12), mas, como luzeiros que brilham no mundo, retenhamos a palavra da vida eterna; para que, desfrutando os bens de Deus, descansemos com o Senhor na vida, glorificando o Pai, e o Filho, e o Espírito Santo. A ele a glória para sempre! Amém.

Homilia XIV

Sobre a verdade e a excelência da alma; e como ela é tentada por Satanás e alcança libertação.

1. Não despreze a natureza intelectual da alma. A alma imortal é um vaso de grande valor. Veja como são grandes o céu e a terra, e, no entanto, Deus não teve neles grande complacência, mas somente em você. Contemple o seu próprio valor e a sua alta linhagem: o Senhor veio numa embaixada, e não por meio de anjos, mas em pessoa, com o propósito de chamar de volta você, que estava perdido, e de lhe restituir a formação original de Adão na sua pureza. Pois o homem era senhor de tudo, desde o céu lá em cima até os abismos lá embaixo, e puro do pecado, a imagem e semelhança de Deus. Mas, pela transgressão, caiu, foi ferido e está morto.

2. Pergunta. A concupiscência natural é arrancada pela raiz com a vinda do Espírito Santo?

Resposta. O pecado é arrancado pela raiz, e o homem recebe a formação original de Adão na sua pureza. Pelo poder do Espírito, ele chega à altura do primeiro Adão; sim, torna-se maior do que ele.

3. Pergunta. Satanás é solto até certo grau, ou faz guerra como lhe apraz?

Resposta. Se lhe fosse permitido guerrear à vontade, acabaria com tudo. Se o prateiro e o ourives põem o fogo com medida (pois, se houver mais do que o necessário, o ouro e a prata se perdem), e se o homem tem habilidade bastante para proporcionar a carga ao seu animal, conforme a força que ele tem para carregar, quanto mais Deus, que conhece a capacidade dos homens, solta as rédeas do poder adversário em diferentes graus? Na mesma proporção, portanto, em que cada um é capaz de receber e suportar o combate, nessa medida Satanás é solto contra ele.

4. Pergunta. Satanás alguma vez fica quieto, e o homem é libertado da guerra? Ou ele tem guerra enquanto vive?

Resposta. Satanás nunca dorme. Enquanto alguém vive neste mundo e traz a carne, encontra guerra. Mas, quando os dardos inflamados do maligno forem apagados, que haverá então que faça mal ao homem? Uma vez que tem o Rei como amigo, alguém que lhe estende a mão, não sofre dano algum. Pois, quando um homem passou por todos os graus e se tornou amigo do Rei, pode depois disso sofrer dano de alguém?

5. Os cristãos estão vestidos do Espírito e estão em descanso. E, embora a guerra se levante de fora, por dentro eles estão fortificados com o poder do Senhor e já não se preocupam com Satanás. Foi assim quando ele tentou o nosso Senhor no deserto durante quarenta dias: que dano real houve em poder aproximar-se exteriormente do seu corpo? Pois dentro estava Deus. Da mesma maneira os cristãos, embora sejam tentados exteriormente, interiormente estão cheios da natureza divina e, assim, nada sofrem. Quem alcança esses graus chegou ao perfeito amor de Cristo e à plenitude da Divindade. Mas quem não está assim ainda retém a guerra por dentro. Numa hora é revigorado na oração e noutra está em aflição; pois assim é a vontade do Senhor: porque ele ainda é apenas uma criança, o Senhor o treina para a batalha. E brotam nele tanto luz como trevas, tanto descanso como aflição; e isso sejam quais forem os dons que tenha, pois muitos dos irmãos tiveram dons de cura, de revelação e de profecia; contudo, não tendo alcançado o amor perfeito, a guerra veio sobre eles, e caíram. De fato, se alguém chega ao amor perfeito, fica para sempre atado e cativo da graça. Mas, se alguém avança só um pouco em direção a ele, ainda está na escravidão do medo, da guerra e da queda.

Homilia XV

Sobre o valor e a condição do cristão.

1. Conheça, ó homem, a sua alta linhagem e o seu valor: quão precioso você é, como irmão de Cristo, amigo do Rei, esposa do Esposo celestial. Pois quem descobrir o valor da sua alma é capaz também de descobrir o poder e os mistérios da natureza divina, e por isso de se humilhar ainda mais, visto que é pelo poder de Deus que alguém vê a sua queda. Mas, da mesma maneira que ele passou pelos sofrimentos e pela cruz, e assim foi glorificado e se assentou à direita do Pai, assim também convém a vocês sofrer com ele, ser crucificados com ele, e assim ressuscitar, e assentar-se com ele, e ser unidos a Cristo, e reinar com ele para sempre.

2. O cristianismo, portanto, não é coisa trivial: é um grande mistério. Considere, pois, bem a sua alta linhagem: você foi chamado à dignidade real, “geração eleita, sacerdócio real, nação santa” (1Pe 2.9). Pois o mistério do cristianismo é estranho a este mundo. A glória de um rei, que se vê, e as suas riquezas são terrenas, corruptíveis e passageiras; mas aquele reino e aquelas riquezas são coisas divinas, celestiais e gloriosas, que nunca passam; pois eles reinam com o Rei celestial na igreja do céu. E ele é verdadeiramente “o primogênito dentre os mortos” (Cl 1.18); mas eles também são primogênitos. Contudo, aos seus próprios olhos, são os menores de todos e muito desprezíveis. Mais ainda, tornou-se para eles como que natural, e cravado neles, o considerarem-se nada.

3. Pergunta. Eles então não sabem que possuem algo que antes não tinham?

Resposta. Sabem; mas ainda assim se consideram sem valor algum. Embora diante de Deus sejam preciosos, diante de si mesmos não o são, mas é como se nada tivessem conhecido.

4. Pergunta. Como é que o apóstolo diz: “Ainda que eu tenha toda a ciência e toda a profecia, e fale as línguas dos anjos, nada sou” (cf. 1Co 13.1-2)?

Resposta. Em comparação com aquele amor que é perfeito, essas coisas são pequenas; e quem está em qualquer desses graus pode cair. Eu vi homens que foram admitidos a todo o círculo dos dons e se tornaram participantes do Espírito, e essas mesmas pessoas, não tendo alcançado o amor perfeito, caíram. Um deles, da classe nobre, vendeu todos os seus bens e libertou os que eram escravos; era ele mesmo pessoa prudente e inteligente; e, no entanto, no meio de tudo isso, por conceber uma alta opinião de si mesmo, acabou caindo em impurezas escandalosas e em males sem fim.

Outro, em tempo de perseguição, entregou o seu corpo, foi pendurado e perdeu os sentidos; depois foi lançado na prisão. Uma das mulheres da fé o assistia; e, tendo criado familiaridade com ela, ainda estando preso, caiu em fornicação. Vejam! O rico que vendeu os seus bens e aquele que entregou o corpo ao martírio, como caíram!

Outro, que morava comigo na mesma casa e orava comigo, era rico em graça. Foi-lhe dado o dom de cura, e ele não somente expulsava demônios, mas também curava os que sofriam de doenças graves, apenas impondo-lhes as mãos. Depois disso, tornando-se descuidado, ensoberbeceu-se e caiu nos mais baixos abismos do pecado. Vejam! Até aquele que tinha o dom de cura caiu. Vocês veem como caem antes de chegar ao amor perfeito. Mas quem chega a ele fica mergulhado por inteiro e é levado cativo para outro mundo.

5. Pergunta. Qual é o sentido destas palavras: “Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano” (1Co 2.9)?

Resposta. Naquele tempo, os grandes homens, os justos e os reis sabiam que o Redentor havia de vir; mas que o seu sangue seria derramado sobre a cruz, isso eles nem sabiam nem tinham ouvido, nem lhes tinha penetrado no coração; que haveria o batismo de fogo e do Espírito Santo; e que os cristãos receberiam o Consolador, seriam revestidos de poder do alto, seriam cheios da Divindade e misturados com o Espírito Santo: disso nada sabiam, nem lhes tinha penetrado no coração. Pois os cristãos agora se enriquecem de um modo totalmente diferente e são elevados até a Divindade. Mas, embora possuam tanta alegria e consolação, ainda vivem em temor e tremor.

Pergunta. Que temor e tremor?

Resposta. Um temor zeloso de não darem nenhum passo em falso em coisa alguma, mas de viverem em harmonia com a graça. Pois o homem não chega imediatamente à perfeição. Primeiro ele entra na arena e luta com Satanás, e, depois de longa carreira e combate, leva os troféus da vitória e se torna cristão.

Pois, se só por ouvir um homem se tornasse perfeito, sem mais nenhum esforço, então até os que frequentam o teatro e os devassos entrariam todos no reino. Mas isso não pode ser: o caminho é apertado e estreito; temos de passar por este caminho áspero, perseverar com paciência, ser afligidos, e assim entrar na vida.

6. Mas este é o caminho para Deus, a saber: percorrer a estrada da vida com muita paciência, com esperança, com humildade de espírito, com pobreza de espírito, com mansidão; e por estas coisas o homem possui a justiça dentro de si. Mas a justiça de que falamos é o próprio Senhor. Estes mandamentos são como os marcos da estrada real, que conduzem os que nela andam até a cidade celestial. Pois ele diz: “Bem-aventurados os pobres em espírito; bem-aventurados os mansos; bem-aventurados os misericordiosos; bem-aventurados os pacificadores” (Mt 5.3-9). Isto é o cristianismo. Glória à terna misericórdia do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, para sempre! Amém.

Homilia XVI

A miséria da alma quando, por causa do pecado, o Senhor não habita nela.

1. Ai daquele caminho por onde ninguém anda e onde não se ouve voz humana! Pois se tornou covil de feras. Ai da alma quando o Senhor não anda nela nem expulsa dela com a sua voz as feras espirituais da maldade! Ai da casa quando o seu dono não mora nela! Ai da terra quando não tem lavrador que a cultive! Ai do navio quando não tem piloto, pois então é jogado de um lado para outro pelas ondas e tempestades! Ai da alma quando não tem dentro de si o verdadeiro Piloto! Pois então, estando no mar das trevas, jogada de um lado para outro pelas ondas das paixões desenfreadas, à mercê dos espíritos maus, acaba na destruição. Ai da alma quando lhe falta Cristo para cultivá-la com cuidado, para que produza os bons frutos do Espírito! Pois, ficando abandonada e cheia de espinhos e abrolhos, no fim é queimada no fogo. Ai da alma quando não tem Cristo, o seu Senhor, habitando nela! Pois então é um deserto; sim, fica cheia do mau cheiro das paixões desordenadas, o esgoto de toda corrupção.

2. Assim como no Egito, durante os três dias de trevas, o filho não via o pai, nem o irmão o seu irmão, porque as trevas os escondiam, assim também, quando Adão transgrediu o mandamento, o véu das trevas desceu sobre a sua alma, e já não via o seu verdadeiro Pai celestial, nem o seu irmão, o Senhor, nem os seus amigos e parentes, os santos anjos. E até hoje aqueles sobre quem Cristo, “o sol da justiça” (Ml 4.2), não nasceu, e em quem os olhos da alma não foram abertos, estão debaixo das mesmas trevas do pecado e não têm olhos para contemplar o seu Pai.

3. Pois todos devem saber isto: há olhos dentro destes olhos exteriores, e uma audição mais interior do que esta do ouvido exterior. E, assim como estes nossos olhos contemplam e reconhecem sensivelmente o rosto de um amigo ou de alguém que amamos, assim também os olhos de uma alma fiel, iluminada pela luz divina, veem o verdadeiro Amigo, o Esposo, o Senhor. E, contemplando assim a única beleza, que ultrapassa toda expressão, ela é ferida pelo amor divino, é dirigida a todas as virtudes do Espírito e alcança o amor sem limites e sem fim do seu Senhor.

Homilia XVII

Deus realiza de dois modos as dispensações da sua graça sobre a humanidade.

1. Sendo a sabedoria de Deus infinita e incompreensível, ele realiza as dispensações da sua graça sobre a humanidade de modo insondável e com grande variedade, para que se manifestem os que o buscam de todo o coração e suportam por causa dele toda sorte de perigo e de trabalho. Alguns são antecipados pelos favores e dons do Espírito Santo imediatamente, logo que pedem, sem labuta, sem suor e sem fadiga, concedendo-lhes Deus a graça não por acaso, mas por uma sabedoria que ultrapassa toda expressão. Que estes, que tão depressa alcançam a graça divina, sejam conscientes do benefício e da bondade que lhes foram mostrados, e da doçura de Deus, na proporção da graça recebida sem nenhum esforço próprio: deem prova da sua diligência e do seu combate, e retribuam devidamente esses dons, entregando-se inteiramente ao amor do Senhor, fazendo somente a sua vontade e afastando-se perfeitamente de todo desejo carnal.

2. A outros (embora tenham se retirado do mundo e perseverem na oração, no jejum e na diligência) Deus não concede imediatamente a sua graça, o seu descanso e a alegria do Espírito, mas retém o dom, para ver se o tiveram por Deus fiel e verdadeiro, que prometeu dar aos que pedem e abrir aos que batem a porta da vida; para observar se perseveram até o fim, pedindo e buscando, ou se por negligência desistem, não aguentando até o fim.

3. Pois alguns que não recebem em pouco tempo ficam ainda mais desejosos das coisas celestiais; e a cada dia acrescentam ao seu empenho anterior mais rapidez, mais luta, mais fome e sede do que é bom; em nada desanimados pelas provações presentes na sua alma, nem se voltando para a impaciência ou o desespero; antes, quanto mais o Senhor os põe à prova, tanto mais ávidos, diligentes e obstinados ficam em buscar o dom de Deus, plenamente certos de que Deus não pode mentir, ele que prometeu dar a sua graça aos que continuam pedindo.

4. Por isso, de acordo com essa certeza, examinam a si mesmos para ver em que são deficientes, seja no trabalho, seja no combate, seja na aplicação, seja em qualquer outro ponto; e, quando fazem esse exame com toda a exatidão de que são capazes, forçam-se e impelem-se, quanto podem, a fazer o que é agradável ao Senhor, tendo esta plena confiança: Deus, que é verdadeiro, não os privará do dom do Espírito, se perseverarem até o fim na expectativa dele; antes, receberão a graça celestial enquanto ainda estiverem na carne e alcançarão a vida eterna.

5. E assim dirigem os olhos para o Senhor, esperando somente por ele com grande desejo, aguardando sempre a consolação da graça e não encontrando consolo em coisa alguma deste mundo. Ao mesmo tempo, o próprio Senhor já está presente com eles de modo oculto, socorre-os, preserva-os e é o seu amparo. Ainda que não tenham alcançado a graça do Espírito e o refrigério do dom celestial, não temam: os que assumem tal propósito, empenho, esforço e desejo de virtude, e nele perseveram até o fim, alcançarão de fato a vida e o reino eterno.

6. Que nenhum dos irmãos, portanto, se exalte contra o seu irmão, a ponto de dizer: “Eu tenho o dom espiritual, e você não tem.” Pois vocês não sabem o que o amanhã pode trazer, nem qual será o fim dele e qual será o seu. Mas que cada um, olhando bem para si mesmo, examine a sua consciência em todo tempo e prove a obra do seu coração, que aplicação e que combate tem na sua mente em direção a Deus. E, mirando o alvo perfeito da liberdade e da libertação das paixões desordenadas, corra sem cessar, nunca pondo a sua confiança em dom algum nem em ato algum de justiça. Glória e adoração ao Pai, e ao Filho, e ao Espírito Santo, para sempre! Amém.

Tradução para o português a partir do extrato publicado por John Wesley no primeiro volume da sua Christian Library (Bristol, 1749; textos conferidos nas edições de 1755 e 1819); domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando o autor cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.