Tratado · 1770

O que é um arminiano?

“Pois o amor de Cristo nos domina, porque reconhecemos isto: um morreu por todos; logo, todos morreram.”

2 Coríntios 5.14

Antes de ler

Em 1770, no meio de uma forte controvérsia com os calvinistas, Wesley publicou sem o seu nome, assinando apenas “por um amante da graça livre”, este pequeno tratado. A palavra “arminiano” era usada como insulto, e quase ninguém sabia o que ela queria dizer.

Wesley separa os arminianos dos arianos, conta quem foi Armínio e mostra com clareza onde está a verdadeira diferença entre as duas posições: a predestinação, a graça irresistível e a perseverança final. Termina pedindo que ninguém mais use a palavra como ofensa.

A pergunta “O que é um arminiano?” respondida. Por um amante da graça livre.

1. Dizer “Este homem é arminiano” produz em muitos ouvintes o mesmo efeito que dizer “Este é um cão raivoso”. Isso os deixa imediatamente apavorados: fogem dele com toda a pressa e diligência, e dificilmente param, a não ser para atirar uma pedra no terrível e perigoso animal.

2. Quanto mais ininteligível a palavra, melhor ela cumpre o seu propósito. Aqueles a quem ela é aplicada não sabem o que fazer: não entendendo o que ela significa, não sabem que defesa apresentar nem como se livrar da acusação. E não é fácil remover o preconceito que outros absorveram, os quais nada sabem a respeito dela senão que é “algo muito ruim”, se não “tudo o que há de ruim”!

3. Esclarecer, portanto, o sentido desse termo ambíguo pode ser útil a muitos: aos que com tanta facilidade pregam esse rótulo nos outros, para que não digam o que não entendem; aos que os ouvem, para que não sejam mais enganados por homens que dizem não sabem o quê; e àqueles a quem o rótulo é aplicado, para que saibam como responder por si mesmos.

4. Talvez seja necessário observar, em primeiro lugar, que muitos confundem arminianos com arianos. Mas isso é coisa inteiramente diferente; um não tem semelhança alguma com o outro. Ariano é aquele que nega a divindade de Cristo; mal precisamos dizer a divindade suprema e eterna, porque não pode haver Deus senão o Deus supremo e eterno, a menos que queiramos fazer dois deuses, um Deus grande e um pequeno. Ora, ninguém jamais creu com mais firmeza, nem afirmou com mais vigor, a divindade de Cristo do que muitos dos (assim chamados) arminianos o fizeram, e ainda o fazem nos dias de hoje. O arminianismo, portanto (seja ele o que for), é totalmente diferente do arianismo.

5. A origem da palavra foi esta: James Harmens, em latim Jacobes Arminius, foi primeiro um dos ministros de Amsterdã e depois professor de teologia em Leiden. Foi educado em Genebra, mas no ano de 1591 começou a duvidar dos princípios que até então havia recebido. E, cada vez mais convencido de que estavam errados, quando foi investido na cátedra, ensinou publicamente o que cria ser a verdade, até que, no ano de 1609, morreu em paz. Mas, poucos anos depois de sua morte, alguns homens zelosos, tendo à frente o príncipe de Orange, atacaram furiosamente todos os que sustentavam as chamadas opiniões dele; e, tendo conseguido que fossem solenemente condenados no famoso Sínodo de Dort (não tão numeroso nem tão erudito, mas exatamente tão imparcial quanto o Concílio ou Sínodo de Trento), alguns foram executados, outros banidos, outros presos por toda a vida, todos destituídos de seus cargos e declarados incapazes de exercer qualquer ofício, seja na Igreja, seja no Estado.

6. Os erros imputados a estes (geralmente chamados arminianos) por seus adversários são cinco: (1) que negam o pecado original; (2) que negam a justificação pela fé; (3) que negam a predestinação absoluta; (4) que negam que a graça de Deus seja irresistível; e (5) que afirmam que o crente pode cair da graça.

Quanto às duas primeiras acusações, eles se declaram inocentes. São inteiramente falsas. Nenhum homem que jamais viveu, nem mesmo o próprio João Calvino, afirmou o pecado original ou a justificação pela fé em termos mais fortes, mais claros e mais explícitos do que Armínio o fez. Esses dois pontos, portanto, devem ser postos fora da questão: neles ambos os partidos concordam. Nesse aspecto, não há a diferença de um fio de cabelo entre o Sr. Wesley e o Sr. Whitefield.

7. Mas há uma diferença inegável entre os calvinistas e os arminianos quanto às outras três questões. Aqui eles se dividem: os primeiros creem na predestinação absoluta; os últimos, apenas na condicional. Os calvinistas sustentam (1) que Deus decretou absolutamente, desde toda a eternidade, salvar tais e tais pessoas, e nenhuma outra; e que Cristo morreu por estas, e por nenhuma mais. Os arminianos sustentam que Deus decretou, desde toda a eternidade, a respeito de todos os que têm a palavra escrita: “Quem crer […] será salvo; quem, porém, não crer será condenado” (Mc 16.16); e, para isso, que Cristo “morreu por todos” (2Co 5.14-15), por todos os que estavam “mortos em suas transgressões e pecados” (Ef 2.1), isto é, por todo filho de Adão, visto que “em Adão, todos morrem” (1Co 15.22).

8. Os calvinistas sustentam, em segundo lugar, que a graça salvadora de Deus é absolutamente irresistível; que ninguém é mais capaz de resistir a ela do que de resistir ao golpe de um raio. Os arminianos sustentam que, embora possa haver alguns momentos em que a graça de Deus age de modo irresistível, em geral qualquer homem pode resistir, e isso para a sua ruína eterna, à graça pela qual era vontade de Deus que ele fosse eternamente salvo.

9. Os calvinistas sustentam, em terceiro lugar, que um verdadeiro crente em Cristo não pode de modo algum cair da graça. Os arminianos sustentam que um verdadeiro crente pode “naufragar na fé”, rejeitando “a boa consciência” (1Tm 1.19); que pode cair, não só de modo vergonhoso, mas definitivamente, a ponto de perecer para sempre.

10. Na verdade, os dois últimos pontos, a graça irresistível e a perseverança infalível, são a consequência natural do primeiro, isto é, do decreto incondicional. Pois, se Deus decretou eterna e absolutamente salvar tais e tais pessoas, segue-se tanto que elas não podem resistir à sua graça salvadora (do contrário, poderiam perder a salvação) quanto que não podem cair definitivamente daquela graça à qual não podem resistir. De modo que, na prática, as três questões se reduzem a uma só: “A predestinação é absoluta ou condicional?” Os arminianos creem que é condicional; os calvinistas, que é absoluta.

11. Fora, então, com toda ambiguidade! Fora com todas as expressões que só confundem a causa! Que os homens honestos falem abertamente e não brinquem com palavras difíceis que não entendem. E como pode alguém saber o que Armínio sustentava, se nunca leu uma única página de seus escritos? Que ninguém vocifere contra os arminianos antes de saber o que o termo significa; e então saberá que arminianos e calvinistas estão exatamente no mesmo nível. E os arminianos têm tanto direito de se irritar com os calvinistas quanto os calvinistas têm de se irritar com os arminianos. João Calvino foi um homem piedoso, erudito e sensato; e assim foi James Harmens. Muitos calvinistas são homens piedosos, eruditos e sensatos; e assim são muitos arminianos. Apenas os primeiros sustentam a predestinação absoluta; os últimos, a condicional.

12. Mais uma palavra: não é dever de todo pregador arminiano, primeiro, nunca, em público ou em particular, usar a palavra “calvinista” como termo de censura, visto que isso não é nem melhor nem pior do que xingar, prática tão incompatível com o bom senso e as boas maneiras quanto com o cristianismo? Segundo, fazer tudo o que estiver ao seu alcance para impedir que seus ouvintes o façam, mostrando-lhes o pecado e a insensatez disso? E não é igualmente dever de todo pregador calvinista, primeiro, nunca, em público ou em particular, na pregação ou na conversa, usar a palavra “arminiano” como termo de censura? Segundo, fazer tudo o que estiver ao seu alcance para impedir que seus ouvintes o façam, mostrando-lhes o pecado e a insensatez disso; e tanto mais séria e diligentemente se eles estiverem acostumados a fazê-lo, talvez encorajados nisso pelo seu próprio exemplo!

Tradução para o português a partir de The Works of John Wesley, edição de Thomas Jackson (1872), vol. X, p. 358-361, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.

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