Os Pais Apostólicos · Epístola de Barnabé
Uma leitura cristã do Antigo Testamento, com a doutrina dos dois caminhos, o caminho da luz e o caminho das trevas.
1. Eu os saúdo, filhos e filhas, em nome do Senhor que nos amou, em paz.
Visto que as ordenanças de Deus são grandes e ricas para com vocês, alegro-me com uma alegria imensa e transbordante pelos seus espíritos bem-aventurados e gloriosos; tão arraigada está em vocês a graça do dom espiritual que receberam.
Por isso também me congratulo ainda mais comigo mesmo, na esperança de ser salvo, porque vejo verdadeiramente o Espírito derramado entre vocês, vindo da riqueza da fonte do Senhor. Tanto me impressionou, a respeito de vocês, a tão desejada visão de vocês.
Estando, pois, persuadido disso, e tendo consciência de que, por ter falado muito entre vocês, sei que o Senhor me acompanhou no caminho da justiça, e sendo eu mesmo de todo constrangido a isto, a amá-los mais do que à minha própria alma (pois grande fé e amor habitam em vocês pela esperança da vida que é dele), considerando, pois, isto, que, se eu tiver o cuidado de lhes comunicar alguma parte daquilo que recebi, isso se converterá em recompensa para mim por ter servido a tais espíritos, apressei-me em lhes enviar algo pequeno, para que, junto com a fé, vocês tenham também perfeito o seu conhecimento.
Pois bem, três são as ordenanças do Senhor: †a esperança da vida, que é o começo e o fim da nossa fé; e a justiça, que é o começo e o fim do juízo; o amor manifestado em alegria e exultação, testemunho das obras de justiça†.
Pois o Senhor nos deu a conhecer por meio dos seus profetas as coisas passadas e as presentes, dando-nos também as primícias do sabor das coisas futuras. E, vendo cada uma dessas coisas acontecer uma a uma, conforme ele falou, devemos apresentar uma oferta mais rica e mais elevada ao temor dele. Eu, porém, não como se fosse mestre, mas como um de vocês, mostrarei algumas poucas coisas com que vocês se alegrarão nas circunstâncias presentes.
2. Visto, pois, que os dias são maus e que o próprio Operante tem a autoridade, devemos cuidar de nós mesmos e buscar as ordenanças do Senhor.
Os auxílios da nossa fé são, pois, o temor e a paciência, e os nossos aliados são a longanimidade e o domínio próprio.
Enquanto estes permanecem em espírito puro nas coisas que dizem respeito ao Senhor, a sabedoria, o entendimento, a ciência e o conhecimento se alegram com eles.
Pois ele nos deixou claro por meio de todos os profetas que não precisa de sacrifícios, nem de holocaustos, nem de ofertas, dizendo certa vez:
Que me importa a multidão dos seus sacrifícios? diz o Senhor. Estou farto de holocaustos, e não desejo a gordura de cordeiros nem o sangue de touros e de bodes, nem mesmo que vocês venham apresentar-se diante de mim. Pois quem exigiu essas coisas das mãos de vocês? Não continuarão mais a pisar os meus átrios. Se trouxerem flor de farinha, será em vão; o incenso é para mim abominação; as suas luas novas e os seus sábados não posso suportar (Is 1.11-13).
Ele aboliu, pois, essas coisas, para que a nova lei de nosso Senhor Jesus Cristo, livre do jugo da coação, tivesse uma oferta não feita por mãos humanas.
E de novo lhes diz: Acaso ordenei aos pais de vocês, quando saíram da terra do Egito, que me trouxessem holocaustos e sacrifícios? (Jr 7.22)
Não, mas esta foi a minha ordem a eles: Nenhum de vocês guarde no coração rancor maligno contra o seu próximo, e não amem o juramento falso (Jr 7.23; Zc 8.17).
Devemos, portanto, se não formos sem entendimento, perceber o propósito da bondade do nosso Pai; pois ele nos fala desejando que não nos desviemos como eles, mas que busquemos como nos aproximar dele.
Assim, pois, ele nos fala: O sacrifício para Deus é um coração quebrantado (Sl 51.17); aroma suave para o Senhor é um coração que glorifica o seu Criador. Devemos, portanto, irmãos, aprender com exatidão o que diz respeito à nossa salvação, para que o Maligno, abrindo em nós uma entrada para o erro, não nos lance para longe da nossa vida.
3. Ele lhes fala ainda, portanto, a respeito dessas coisas: Por que jejuam para mim, diz o Senhor, de modo que hoje a voz de vocês se ouve em clamor? Não é este o jejum que escolhi, diz o Senhor; não é o homem humilhar a sua alma; nem que vocês dobrem o pescoço como um arco, e vistam pano de saco e façam a cama de cinzas; nem assim chamarão a isso jejum aceitável (Is 58.4-5).
Mas a nós ele diz: Eis que este é o jejum que escolhi, diz o Senhor: solta toda atadura de impiedade, desata os laços apertados dos contratos impostos à força, deixa ir livres os quebrantados e rasga todo título injusto. Reparte o teu pão com o faminto e, se vires alguém nu, veste-o; recolhe em tua casa o desabrigado e, se vires um humilde, não o desprezarás, nem ninguém da tua casa e da tua própria descendência.
Então a tua luz romperá pela manhã, e a tua cura brotará depressa, e a justiça irá adiante de ti, e a glória de Deus te envolverá.
Então clamarás, e Deus te ouvirá; enquanto ainda estiveres falando, ele dirá: “Eis-me aqui”; se tirares de ti o jugo, e o estender do dedo, e a palavra de murmuração, e deres de bom coração o teu pão ao faminto, e tiveres compaixão da alma humilhada (Is 58.6-10).
Para esse fim, portanto, meus irmãos, aquele que é longânimo, prevendo que o povo que ele havia preparado no seu Amado creria com simplicidade, manifestou-nos de antemão todas as coisas, para que não naufragássemos, como novatos, contra a lei deles.
4. Convém-nos, portanto, investigar a fundo as coisas presentes e procurar as que têm poder para nos salvar. Fujamos, pois, inteiramente de todas as obras da iniquidade, para que as obras da iniquidade não nos dominem; e aborreçamos o erro do tempo presente, para que sejamos amados no tempo que há de vir.
Não demos à nossa alma folga para que tenha liberdade de andar com pecadores e homens maus, para que não nos tornemos semelhantes a eles.
O último escândalo está próximo, aquele a respeito do qual fala a Escritura, como diz Enoque. Pois para isso o Soberano abreviou os tempos e os dias, para que o seu amado se apressasse e chegasse à sua herança.
E o profeta também fala desta maneira: Dez reinos reinarão sobre a terra, e depois deles se levantará um rei pequeno, que abaterá três dos reis de uma só vez (Dn 7.24).
Do mesmo modo fala Daniel acerca da mesma coisa: E vi o quarto animal, perverso e forte e mais indomável do que todos os animais da terra, e como dele brotaram dez chifres, e destes um chifre pequeno, uma excrescência, e como ele abateu de uma só vez três dos grandes chifres (Dn 7.7-8).
Vocês devem, portanto, compreender. Peço-lhes ainda mais isto, como um de vocês e como quem ama a todos e a cada um mais do que à própria alma: que agora cuidem de vocês mesmos e não se tornem semelhantes a certas pessoas que acumulam pecado sobre pecado, dizendo que a nossa aliança é também deles.
Nossa ela é; mas eles a perderam assim, para sempre, quando Moisés acabara de recebê-la. Pois diz a Escritura: E Moisés estava no monte jejuando quarenta dias e quarenta noites, e recebeu do Senhor a aliança, tábuas de pedra escritas pelo dedo da mão do Senhor (Êx 34.28; 31.18).
Mas eles a perderam voltando-se para os ídolos. Pois assim diz o Senhor: Moisés, Moisés, desce depressa, porque o teu povo, que tiraste da terra do Egito, cometeu iniquidade (Êx 32.7). E Moisés compreendeu e lançou as duas tábuas das suas mãos; e a aliança deles foi despedaçada, para que a aliança do amado Jesus fosse selada em nossos corações, na esperança que nasce da fé nele.
Mas, embora eu quisesse escrever muitas coisas, não como mestre, mas como convém a quem os ama não ficar aquém daquilo que possuímos, apressei-me a escrever-lhes, eu que sou servo dedicado de vocês. Por isso, tomemos cuidado nestes últimos dias. Pois todo o tempo da nossa fé de nada nos aproveitará, se agora, no tempo da iniquidade e nos escândalos que hão de vir, não resistirmos, como convém a filhos de Deus, para que o Tenebroso não encontre entrada.
Fujamos de toda vaidade, odiemos inteiramente as obras do mau caminho. Não se retirem para dentro, isolando-se como se já estivessem justificados, mas reúnam-se e deliberem juntos sobre o bem comum.
Pois diz a Escritura: Ai dos que são sábios para si mesmos e inteligentes aos próprios olhos (Is 5.21). Tornemo-nos espirituais, tornemo-nos um templo perfeito para Deus. Quanto estiver ao nosso alcance, exercitemo-nos no temor de Deus, [e] esforcemo-nos por guardar os seus mandamentos, para nos alegrarmos nas suas ordenanças.
O Senhor julga o mundo sem acepção de pessoas; cada um receberá conforme as suas obras. Se for bom, a sua justiça irá adiante dele no caminho; se for mau, a paga da sua maldade está diante dele; para que não aconteça que, afrouxando como quem já foi chamado, adormeçamos sobre os nossos pecados, e o príncipe do mal receba poder contra nós e nos expulse do reino do Senhor.
Entendam também isto, meus irmãos. Quando vocês veem que, depois de tantos sinais e prodígios realizados em Israel, mesmo assim eles foram abandonados, tomemos cuidado para que não sejamos achados, como diz a Escritura, muitos chamados, mas poucos escolhidos (Mt 22.14).
5. Pois para isso o Senhor suportou entregar a sua carne à corrupção, para que fôssemos purificados pela remissão dos pecados, purificação que se dá pelo sangue da sua aspersão.
Pois a Escritura a respeito dele contém coisas que se referem a Israel e coisas que se referem a nós. E fala assim: Foi ferido por causa das nossas transgressões e esmagado por causa dos nossos pecados; pelas suas feridas fomos sarados. Como ovelha foi levado ao matadouro, e como cordeiro mudo diante do seu tosquiador (Is 53.5, 7).
Devemos, portanto, ser muito gratos ao Senhor, porque ele não só nos revelou o passado, mas também nos fez sábios no presente, e, quanto ao futuro, não estamos sem entendimento.
Ora, diz a Escritura: Não é injustamente que se estende a rede para as aves (Pv 1.17). Ele quer dizer isto: com justiça perecerá o homem que, tendo o conhecimento do caminho da justiça, se lança à força no caminho das trevas.
Há ainda isto, meus irmãos: se o Senhor suportou sofrer por nossas almas, sendo Senhor do mundo inteiro, a quem Deus disse desde a fundação do mundo: Façamos o ser humano à nossa imagem e semelhança (Gn 1.26), como, então, suportou sofrer pela mão dos homens?
Entendam. Os profetas, recebendo dele a graça, profetizaram a respeito dele. Mas ele mesmo suportou o sofrimento para destruir a morte e mostrar a ressurreição dos mortos, porque era necessário que se manifestasse na carne; para, ao mesmo tempo, resgatar a promessa feita aos pais e, preparando para si o povo novo, mostrar, enquanto estava na terra, que, tendo realizado a ressurreição, ele mesmo exercerá o juízo.
Sim, e além disso pregou, ensinando Israel e realizando tantos prodígios e milagres, e o amou extremamente.
E quando escolheu os seus próprios apóstolos, que haviam de proclamar o seu evangelho, homens que eram pecadores acima de todo pecado, para mostrar que não veio chamar justos, mas pecadores (Mt 9.13), então se manifestou como Filho de Deus.
Pois, se ele não tivesse vindo na carne, também os homens não o teriam contemplado e sido salvos, visto que, ao olharem para o sol, que há de deixar de existir e que é obra das suas próprias mãos, não conseguem fitar os seus raios.
Portanto, o Filho de Deus veio na carne para este fim: para completar a soma dos pecados daqueles que perseguiram e mataram os seus profetas.
Para isso, pois, ele suportou o sofrimento. Pois Deus diz que as feridas da sua carne vieram deles: Quando ferirem o seu próprio pastor, então as ovelhas do rebanho se perderão (Zc 13.7).
Mas ele mesmo quis sofrer assim; pois era necessário que sofresse sobre um madeiro. Pois aquele que profetizou disse a respeito dele: Poupa a minha alma da espada (Sl 22.20); e: Traspassa a minha carne com cravos, porque as assembleias dos malfeitores se levantaram contra mim (Sl 22.16).
E de novo diz: Eis que entreguei as minhas costas aos açoites e o meu rosto às bofetadas, e pus o meu rosto como rocha dura (Is 50.6-7).
6. Quando, então, ele deu o mandamento, que diz? Quem é que disputa comigo? Que se oponha a mim. Ou quem é que entra em juízo comigo? Que se aproxime do servo do Senhor. Ai de vocês, porque todos envelhecerão como uma roupa, e a traça os consumirá (Is 50.8-9). E de novo diz o profeta, visto que ele foi posto como pedra dura para esmagar: Eis que porei nos alicerces de Sião uma pedra muito preciosa, escolhida, pedra angular, honrosa (Is 28.16).
E depois, que diz ele? E todo aquele que puser nele a sua esperança viverá para sempre. Está, então, a nossa esperança posta sobre uma pedra? De modo nenhum. Mas é porque o Senhor estabeleceu a sua carne em força. Pois ele diz: E me pôs como rocha dura (Is 50.7).
E o profeta diz de novo: A pedra que os construtores rejeitaram, essa se tornou cabeça de esquina (Sl 118.22). E de novo diz: Este é o dia grande e admirável que o Senhor fez (Sl 118.24).
Escrevo-lhes com mais simplicidade, para que entendam, eu que sou a escória do amor de vocês.
Que diz, pois, de novo o profeta? A assembleia dos malfeitores me cercou, rodearam-me como abelhas rodeiam um favo (Sl 22.16; 118.12); e: Sobre a minha veste lançaram sortes (Sl 22.18).
Visto, pois, que ele haveria de manifestar-se na carne e sofrer, o seu sofrimento foi manifestado de antemão. Pois o profeta diz a respeito de Israel: Ai da alma deles, porque tramaram um mau conselho contra si mesmos, dizendo: Amarremos o justo, porque ele nos é inútil (Is 3.9-10).
Que lhes diz o outro profeta, Moisés? Eis que assim diz o Senhor Deus: Entrem na boa terra que o Senhor jurou dar a Abraão, Isaque e Jacó, e herdem-na, terra que mana leite e mel (Êx 33.1-3).
Mas que diz o conhecimento? Entendam. Ponham a sua esperança naquele que está para se manifestar a vocês na carne, Jesus. Pois o homem é terra que sofre; pois da face da terra veio a formação de Adão.
Que diz, então? Para a boa terra, terra que mana leite e mel. Bendito seja o nosso Senhor, irmãos, que pôs em nós a sabedoria e o entendimento dos seus segredos. Pois o profeta fala uma parábola a respeito do Senhor. Quem a compreenderá, senão quem é sábio e prudente e ama o seu Senhor?
Visto, pois, que nos renovou pela remissão dos pecados, fez de nós outro tipo, de modo que tivéssemos alma de criança, como se nos criasse de novo.
Pois a Escritura diz a nosso respeito, como ele diz ao Filho: Façamos o ser humano à nossa imagem e conforme a nossa semelhança, e domine ele sobre os animais da terra, as aves do céu e os peixes do mar (Gn 1.26). E o Senhor disse, ao ver a bela criação de nós, homens: Cresçam e multipliquem-se e encham a terra (Gn 1.28). Estas palavras se referem ao Filho.
De novo te mostrarei como o Senhor fala a nosso respeito. Ele fez uma segunda criação no fim; e o Senhor diz: Eis que faço as últimas coisas como as primeiras. Com referência a isso, então, o profeta pregou: Entrem numa terra que mana leite e mel, e sejam senhores dela.
Eis, pois, que fomos criados de novo, como ele diz ainda em outro profeta: Eis, diz o Senhor, que tirarei destes, isto é, daqueles que o Espírito do Senhor previu, os corações de pedra, e porei neles corações de carne (Ez 11.19; 36.26); pois ele mesmo havia de manifestar-se na carne e habitar em nós.
Pois templo santo para o Senhor, meus irmãos, é a morada do nosso coração.
Pois o Senhor diz de novo: Pois com que aparecerei diante do Senhor, meu Deus, e serei glorificado? Eu te louvarei na assembleia dos meus irmãos e cantarei a ti no meio da assembleia dos santos (Sl 42.2; 22.22). Nós, portanto, somos aqueles a quem ele introduziu na boa terra.
Que são, então, o leite e o mel? É que a criança é sustentada primeiro com mel e depois com leite. Assim também nós, sustentados pela fé na promessa e pela palavra, viveremos e seremos senhores da terra.
Ora, já dissemos acima: E cresçam e multipliquem-se e dominem sobre os peixes. Mas quem é capaz [agora] de dominar sobre animais, peixes e aves do céu? Pois devemos perceber que dominar implica poder, de modo que alguém dê ordens e exerça senhorio.
Se, pois, isso não acontece agora, certamente ele nos falou do que há de vir, quando nós mesmos formos aperfeiçoados a ponto de nos tornarmos herdeiros da aliança do Senhor.
7. Entendam, portanto, filhos da alegria, que o bom Senhor nos manifestou todas as coisas de antemão, para que soubéssemos a quem devemos, em todas as coisas, render ação de graças e louvor.
Se, pois, o Filho de Deus, sendo Senhor e futuro Juiz dos vivos e dos mortos, sofreu para que a sua ferida nos desse vida, creiamos que o Filho de Deus não poderia sofrer senão por nossa causa.
Mais ainda: quando crucificado, deram-lhe de beber vinagre e fel. Ouçam como os sacerdotes do templo revelaram algo a esse respeito. Havendo na Escritura um mandamento: Quem não observar o jejum certamente morrerá (Lv 23.29), o Senhor o ordenou porque ele, em sua própria pessoa, estava para oferecer o vaso do seu Espírito como sacrifício pelos nossos pecados, a fim de que se cumprisse também o tipo dado em Isaque, que foi oferecido sobre o altar.
Que diz ele, então, no profeta? E comam do bode que é oferecido no jejum por todos os seus pecados. Prestem bem atenção: E somente os sacerdotes comam as entranhas não lavadas, com vinagre.
Por quê? Visto que vocês hão de dar a mim, que estou para oferecer a minha carne pelos pecados do meu povo novo, fel com vinagre para beber, comam vocês sozinhos, enquanto o povo jejua e se lamenta em pano de saco e cinzas; para mostrar que ele devia sofrer nas mãos deles.
Prestem atenção aos mandamentos que ele deu. Tomem dois bodes, belos e semelhantes, e ofereçam-nos, e o sacerdote tome um deles para holocausto pelos pecados.
Mas o outro, que devem fazer com ele? Maldito, diz ele, é este. Prestem atenção a como se revela o tipo de Jesus.
E cuspam todos sobre ele e o aguilhoem, e ponham lã escarlate em volta da sua cabeça, e assim seja lançado no deserto. E, feito isso, aquele que leva o bode ao deserto o conduz, tira-lhe a lã e a coloca sobre o arbusto chamado raquia, do qual costumamos comer os brotos quando os encontramos no campo. Somente desta sarça o fruto é assim doce.
Que significa, então, isso? Prestem atenção. Um para o altar, e o outro maldito. E, além disso, o maldito coroado. Pois naquele dia o verão vestindo a longa túnica escarlate em volta da sua carne, e dirão: Não é este aquele a quem outrora crucificamos, desprezamos e cuspimos? Na verdade era ele, que então dizia ser o Filho de Deus.
Pois como ele é semelhante ao bode? Por esta razão se diz que os bodes devem ser belos e semelhantes: para que, quando o virem vindo então, se espantem com a semelhança do bode. Eis, portanto, o tipo de Jesus, que havia de sofrer.
Mas que significa colocarem a lã no meio dos espinhos? É um tipo de Jesus apresentado para a igreja, visto que quem quisesse tirar a lã escarlate precisava sofrer muitas coisas por causa da natureza terrível do espinho, e só pela aflição conseguiria apoderar-se dela. Assim, diz ele, os que desejam ver-me e alcançar o meu reino devem apoderar-se de mim pela tribulação e pela aflição.
8. Mas que pensam vocês que significa o tipo, quando se ordena a Israel que os homens cujos pecados chegaram ao cúmulo ofereçam uma novilha, a matem e a queimem, e que depois meninos recolham as cinzas e as ponham em vasos, e enrolem a lã escarlate num madeiro (vejam aqui de novo o tipo da cruz e a lã escarlate), e o hissopo, e que, feito isso, os meninos aspirjam o povo, um por um, para que sejam purificados dos seus pecados?
Entendam como isso lhes é dito com toda a clareza: o bezerro é Jesus; os homens que o oferecem, sendo pecadores, são os que o ofereceram ao matadouro. †Depois disso já não são homens (que oferecem); a glória já não é para os pecadores.†
Os meninos que aspergem são os que nos anunciaram o perdão dos pecados e a purificação do coração, aqueles a quem, sendo doze em número, como testemunho para as tribos (pois doze são as tribos de Israel), ele deu autoridade sobre o evangelho, para que o pregassem.
Mas por que são três os meninos que aspergem? Como testemunho de Abraão, Isaque e Jacó, porque estes são grandes diante de Deus.
Depois há a colocação da lã sobre o madeiro. Isso significa que o reino de Jesus está sobre a cruz e que os que nele põem a sua esperança viverão para sempre.
E por que estão juntos a lã e o hissopo? Porque no seu reino haverá dias maus e impuros, nos quais seremos salvos; pois quem sofre dor na carne é curado pela impureza do hissopo.
Ora, para nós é manifesto que estas coisas aconteceram assim por esta razão, mas para eles eram obscuras, porque não ouviram a voz do Senhor.
9. Além disso, ele fala a respeito dos ouvidos, de como foi o nosso coração que ele circuncidou. Diz o Senhor no profeta: Com o ouvir dos ouvidos me escutaram (Sl 18.44). E de novo diz: Os que estão longe ouvirão com os seus ouvidos e perceberão o que eu fiz (Is 33.13). E: Circuncidem-se em seus corações, diz o Senhor (Jr 4.4).
E de novo diz: Ouve, ó Israel, pois assim diz o Senhor, teu Deus. Quem é que deseja viver para sempre? Ouça com os seus ouvidos a voz do meu servo. E de novo diz: Ouve, ó céu, e dá ouvidos, ó terra, pois o Senhor falou estas coisas como testemunho (Is 1.2). E de novo diz: Ouçam a palavra do Senhor, governantes deste povo (Is 1.10). E de novo diz: Ouçam, ó meus filhos, a voz do que clama no deserto (Is 40.3). Portanto, ele circuncidou os nossos ouvidos, para que, ouvindo a palavra, crêssemos.
Mas, além disso, a circuncisão em que eles confiam foi abolida; pois ele disse que se praticasse uma circuncisão que não fosse da carne. Mas eles transgrediram, porque um anjo mau os instruiu na esperteza.
Ele lhes diz: Assim diz o Senhor, o seu Deus (assim encontro o mandamento): Não semeiem sobre espinhos, circuncidem-se para o seu Senhor (Jr 4.3-4). E que diz ele? Circuncidem a dureza do seu coração, e então não endurecerão a sua cerviz (Dt 10.16). Tomem ainda isto: Eis, diz o Senhor, todos os gentios são incircuncisos no prepúcio, mas este povo é incircunciso de coração (Jr 9.26).
Mas você dirá: Na verdade, o povo foi circuncidado como selo. Sim, mas assim também todo sírio e árabe e todos os sacerdotes dos ídolos. Acaso pertencem também todos esses à aliança deles? Até os egípcios estão entre os circuncidados.
Aprendam, portanto, filhos do amor, a respeito de todas as coisas com abundância: Abraão, que foi o primeiro a instituir a circuncisão, olhava adiante, em espírito, para Jesus quando circuncidou, tendo recebido as ordenanças de três letras.
Pois diz a Escritura: E Abraão circuncidou, da sua casa, dezoito homens e trezentos (Gn 17.23; 14.14). Qual foi, então, o conhecimento que lhe foi dado? Entendam que ele diz primeiro dezoito e depois, num intervalo, trezentos. Em dezoito, o “I” vale dez e o “H” oito. Aqui você tem JESUS (IHSOYS). E, porque a cruz, no “T”, havia de conter a graça, ele diz também trezentos. Assim revela Jesus nas duas letras e, na restante, a cruz.
Sabe-o aquele que pôs em nós o dom inato da sua aliança; ninguém jamais aprendeu de mim palavra mais genuína; mas sei que vocês são dignos.
10. Mas, quanto ao que Moisés disse: Não comerão porco, nem águia, nem falcão, nem corvo, nem peixe algum que não tenha escamas, ele recebeu, no seu entendimento, três ordenanças.
Sim, e além disso lhes diz em Deuteronômio: E porei como aliança sobre este povo as minhas ordenanças. Portanto, não é mandamento de Deus que eles não mordam com os dentes; mas Moisés falou em espírito.
Assim, mencionou o porco com esta intenção. Não te unirás, diz ele, a homens que são semelhantes aos porcos; isto é, quando estão na fartura, esquecem o Senhor, mas, quando estão em necessidade, reconhecem o Senhor, assim como o porco, quando come, não conhece o seu dono, mas, quando tem fome, grita, e, depois de receber comida, de novo se cala.
Nem comerás a águia, nem o falcão, nem o milhafre, nem o corvo. Não te unirás, diz ele, nem te tornarás semelhante a homens que não sabem prover o próprio sustento com trabalho e suor, mas, em sua iniquidade, tomam o que pertence aos outros e, como se andassem em inocência, vigiam e procuram ao redor alguém a quem roubar em sua rapacidade, assim como essas aves são as únicas que não provêm o próprio alimento, mas ficam ociosas e procuram como comer a carne que pertence aos outros, pestilentas em suas maldades.
E não comerás, diz ele, a lampreia, nem o polvo, nem a siba. Não te tornarás, quer dizer, semelhante a homens assim, que são perversos ao extremo e já estão condenados à morte, assim como somente esses peixes são malditos e nadam nas profundezas, não nadando na superfície como os demais, mas habitam no fundo, debaixo do mar profundo.
Além disso, não comerás a lebre. Por quê? Não serás achado corruptor de meninos, nem te tornarás semelhante a tais pessoas; pois a lebre ganha cada ano uma passagem no corpo; pois, quantos são os anos que vive, tantos orifícios tem.
De novo, também não comerás a hiena; não te tornarás, diz ele, adúltero nem fornicador, nem te assemelharás a tais pessoas. Por quê? Porque esse animal muda de natureza a cada ano e se torna ora macho, ora fêmea.
Além disso, ele odiou também a doninha, e com razão. Não te tornarás, diz ele, como aqueles homens de quem ouvimos que praticam iniquidade com a boca por impureza, nem te unirás a mulheres impuras que praticam iniquidade com a boca. Pois esse animal concebe pela boca.
Quanto aos alimentos, Moisés recebeu, então, três decretos com esse sentido e os proferiu em sentido espiritual; mas eles os aceitaram segundo o desejo da carne, como se se referissem ao comer.
E também Davi recebe o conhecimento desses mesmos três decretos e diz: Bem-aventurado o homem que não andou no conselho dos ímpios, assim como os peixes andam nas trevas, nas profundezas; e não se deteve no caminho dos pecadores, assim como os que fingem temer o Senhor pecam como porcos; e não se assentou na cadeira dos destruidores, como as aves que ficam pousadas à espera da presa (Sl 1.1). Vocês têm agora a lição completa a respeito do comer.
De novo diz Moisés: Comerão de todo animal que tem o casco dividido e rumina (Lv 11.3). Que quer dizer? Aquele que recebe o alimento conhece aquele que lhe dá o alimento e, revigorado, mostra alegrar-se nele. Bem falou ele, tendo em vista o mandamento. Que quer dizer, então? Unam-se aos que temem o Senhor, aos que meditam no coração na distinção da palavra que receberam, aos que falam das ordenanças do Senhor e as guardam, aos que sabem que a meditação é obra de alegria e que ruminam a palavra do Senhor. Mas por que o que tem o casco dividido? Porque o justo anda neste mundo e, ao mesmo tempo, aguarda o santo mundo que há de vir. Vejam quão sábio legislador era Moisés.
Mas como eles poderiam perceber ou entender essas coisas? Nós, porém, tendo percebido corretamente os mandamentos, os anunciamos como o Senhor quis. Para isso ele circuncidou os nossos ouvidos e corações, para que entendêssemos essas coisas.
11. Mas investiguemos se o Senhor teve o cuidado de indicar de antemão algo a respeito da água e da cruz. Ora, a respeito da água está escrito, com referência a Israel, que não receberiam o batismo que traz a remissão dos pecados, mas edificariam para si mesmos.
Pois o profeta diz: Espanta-te, ó céu, e que a terra estremeça ainda mais diante disto, porque este povo cometeu dois males: abandonaram a mim, a fonte da vida, e cavaram para si uma cova de morte (Jr 2.12-13).
Acaso o meu santo monte Sinai é uma rocha deserta? Pois vocês serão como os filhotes de uma ave, que esvoaçam no alto quando privados do ninho (Is 16.1-2).
E de novo diz o profeta: Irei adiante de ti, nivelarei os montes, despedaçarei portões de bronze e quebrarei trancas de ferro, e te darei tesouros escuros, escondidos, invisíveis, para que saibam que eu sou o Senhor Deus (Is 45.2-3).
E: Habitarás numa caverna elevada de rocha forte. E: A sua água será segura; vocês verão o Rei em glória, e a alma de vocês meditará no temor do Senhor (Is 33.16-18).
E de novo diz em outro profeta: E aquele que faz estas coisas será como a árvore plantada junto às correntes de águas, que dá o seu fruto no tempo próprio, e cuja folha não cai, e tudo o que fizer prosperará.
Não são assim os ímpios, não são assim, mas são como o pó que o vento espalha da face da terra. Por isso os ímpios não subsistirão no juízo, nem os pecadores no conselho dos justos; pois o Senhor conhece o caminho dos justos, e o caminho dos ímpios perecerá (Sl 1.3-6).
Vejam como ele indicou ao mesmo tempo a água e a cruz. Pois o sentido é este: Bem-aventurados os que puseram a esperança na cruz e desceram à água; pois ele fala da recompensa no tempo próprio; então, diz ele, retribuirei. Mas agora, que diz ele? A sua folha não cairá; quer dizer com isso que toda palavra que sair da boca de vocês com fé e amor servirá para a conversão e a esperança de muitos.
E de novo outro profeta diz: E a terra de Jacó era louvada acima de toda a terra. Quer dizer isto: ele glorifica o vaso do seu Espírito.
Depois, que diz ele? E havia um rio que corria do lado direito, e dele brotavam árvores formosas; e quem comer delas viverá para sempre (Ez 47.1-12).
Isso ele diz porque descemos à água carregados de pecados e de imundícia, e dela subimos dando fruto no coração, tendo no espírito o temor e a esperança em Jesus. E quem comer destas viverá para sempre; quer dizer isto: quem, diz ele, ouvir estas coisas faladas e crer, viverá para sempre.
12. Do mesmo modo, ele define ainda a respeito da cruz em outro profeta, que diz: E quando se cumprirão estas coisas? diz o Senhor. Quando uma árvore for dobrada e se levantar, e quando sangue gotejar de uma árvore. De novo você é instruído a respeito da cruz e daquele que havia de ser crucificado.
E ele fala de novo em Moisés, quando Israel era atacado por homens de outra nação, e para lhes lembrar, quando a guerra era movida contra eles, que por causa dos seus pecados haviam sido entregues à morte; o Espírito fala ao coração de Moisés que fizesse um tipo da cruz e daquele que havia de sofrer, porque, diz ele, se não puserem nele a esperança, a guerra será movida contra eles para sempre. Moisés, então, empilha armas umas sobre as outras no meio do combate e, de pé num lugar mais alto do que todos, estendeu as mãos, e assim Israel voltou a vencer. Depois, sempre que ele as abaixava, eram mortos à espada.
Por que isso? Para que aprendessem que não podem ser salvos se não puserem nele a esperança.
E de novo, em outro profeta, ele diz: O dia inteiro estendi as minhas mãos a um povo desobediente, que contradizia o meu caminho justo (Is 65.2).
De novo Moisés faz um tipo de Jesus, mostrando que ele devia sofrer e que ele mesmo, a quem pensarão ter destruído, dará vida, num sinal, quando Israel estava caindo. Pois o Senhor fez que toda sorte de serpentes os mordesse, e eles morriam (visto que a transgressão se deu em Eva por meio da serpente), para convencê-los de que, por causa da sua transgressão, seriam entregues à aflição da morte.
Sim, e além disso, embora o próprio Moisés tivesse dado o mandamento: Não terão imagem de fundição nem de escultura como seu deus (Dt 27.15), ele mesmo fez uma, para lhes mostrar um tipo de Jesus. Assim, Moisés faz uma serpente de bronze, ergue-a à vista de todos e convoca o povo por proclamação.
Quando, pois, estavam reunidos, suplicaram a Moisés que oferecesse intercessão por eles, para que fossem curados. E Moisés lhes disse: Sempre que um de vocês, disse ele, for mordido, venha à serpente que está posta sobre o madeiro, e creia e espere que ela, embora morta, pode dar vida; e logo será salvo. E assim fizeram. Aqui de novo você tem, também nestas coisas, a glória de Jesus, pois nele e para ele são todas as coisas.
Que diz ainda Moisés a Jesus (Josué), filho de Num, quando lhe dá esse nome, sendo ele profeta, para que todo o povo desse ouvidos somente a ele, porque o Pai revela todas as coisas a respeito do seu Filho Jesus?
Moisés, portanto, diz a Jesus, filho de Num, dando-lhe esse nome quando o enviou a espiar a terra: Toma um livro em tuas mãos e escreve o que diz o Senhor: que o Filho de Deus arrancará pela raiz toda a casa de Amaleque nos últimos dias (Êx 17.14).
Eis de novo que é Jesus, não filho de homem, mas o Filho de Deus, revelado em figura na carne. Visto, pois, que os homens dirão que o Cristo é filho de Davi, o próprio Davi profetiza, temendo e compreendendo o erro dos pecadores: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por estrado debaixo dos teus pés (Sl 110.1).
E de novo assim diz Isaías: Disse o Senhor ao meu Cristo, o Senhor, a quem tomei pela mão direita, para que as nações lhe deem ouvidos, e quebrarei a força dos reis (Is 45.1). Vejam como Davi o chama Senhor, e não o chama Filho.
13. Vejamos agora se é este povo ou o primeiro que tem a herança, e se a aliança se refere a nós ou a eles.
Ouçam, pois, o que diz a Escritura a respeito do povo: E Isaque orou por Rebeca, sua mulher, porque era estéril. E ela concebeu. Então Rebeca saiu para consultar o Senhor. E o Senhor lhe disse: Duas nações estão no teu ventre, e dois povos nas tuas entranhas, e um povo vencerá o outro povo, e o maior servirá o menor (Gn 25.21-23).
Vocês devem entender quem é Isaque, quem é Rebeca, e em quem ele mostrou que um povo é maior do que o outro.
E em outra profecia Jacó fala mais claramente a José, seu filho, dizendo: Eis que o Senhor não me privou do teu rosto; traze-me os teus filhos, para que eu os abençoe (Gn 48.11, 9).
E ele trouxe Efraim e Manassés, desejando que Manassés fosse abençoado, porque era o mais velho; pois José o levou à mão direita de seu pai Jacó. Mas Jacó viu em espírito um tipo do povo que viria depois. E que diz? E Jacó cruzou as mãos e pôs a mão direita sobre a cabeça de Efraim, o segundo e mais novo, e o abençoou. E José disse a Jacó: Passa a tua mão direita para a cabeça de Manassés, porque ele é o meu filho primogênito. E Jacó disse a José: Eu sei, meu filho, eu sei; mas o maior servirá o menor. Contudo, também este será abençoado (Gn 48.14-19).
Vejam em quem ele determinou que este povo fosse o primeiro e herdeiro da aliança.
Se, pois, além disso, ele o registrou também por meio de Abraão, alcançamos a perfeição do nosso conhecimento. Que diz, então, a Abraão, quando somente ele creu e isso lhe foi atribuído como justiça? Eis que te fiz, Abraão, pai das nações que creem em Deus na incircuncisão (Gn 17.5).
14. Sim, de fato; mas, quanto à aliança que ele jurou aos pais dar ao povo, vejamos se ele realmente a deu. Ele a deu, mas eles mesmos não foram achados dignos de recebê-la por causa dos seus pecados.
Pois o profeta diz: E Moisés jejuava no monte Sinai quarenta dias e quarenta noites, para receber a aliança do Senhor e dá-la ao povo. E [Moisés] recebeu do Senhor as duas tábuas, escritas em espírito pelo dedo da mão do Senhor. E Moisés as tomou e as levou para baixo, para dá-las ao povo (Êx 24.18; 31.18).
E o Senhor disse a Moisés: Moisés, Moisés, desce depressa, porque o teu povo, que tiraste da terra do Egito, cometeu iniquidade. E Moisés percebeu que tinham feito de novo para si imagens de fundição, e as lançou das mãos, e as tábuas da aliança do Senhor foram despedaçadas (Êx 32.7-19).
Moisés as recebeu, mas eles mesmos não foram achados dignos. Mas como nós as recebemos? Prestem atenção. Moisés as recebeu como servo, mas o próprio Senhor as deu a nós, para sermos o povo da sua herança, tendo sofrido com paciência por nossa causa.
Mas ele foi manifestado para que, ao mesmo tempo, eles completassem a medida dos seus pecados e nós recebêssemos a aliança por meio daquele que a herdou, o Senhor Jesus, que para isso foi preparado de antemão, a fim de que, aparecendo em pessoa, resgatasse das trevas os nossos corações, já entregues à morte e abandonados à iniquidade do erro, e assim estabelecesse em nós a aliança pela palavra.
Pois está escrito como o Pai lhe ordena que nos livre das trevas e prepare para si um povo santo.
Por isso diz o profeta: Eu, o Senhor, teu Deus, te chamei em justiça, e te tomarei pela mão e te fortalecerei, e te dei como aliança da raça, luz para os gentios, para abrir os olhos dos cegos, e tirar das suas cadeias os que estão presos, e da prisão os que se assentam nas trevas (Is 42.6-7). Percebemos, então, de onde fomos resgatados.
De novo diz o profeta: Eis que te pus como luz para os gentios, para que sejas a salvação até os confins da terra; assim diz o Senhor que te resgatou, Deus (Is 49.6-7).
De novo diz o profeta: O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para anunciar boas-novas aos humildes; enviou-me a curar os quebrantados de coração, a proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, a apregoar o ano aceitável do Senhor e o dia da retribuição, a consolar todos os que choram (Is 61.1-2).
15. Além disso, a respeito do sábado também está escrito nas Dez Palavras, em que ele falou a Moisés face a face no monte Sinai: E santifiquem o sábado do Senhor com mãos puras e com coração puro (Êx 20.8; Sl 24.4).
E em outro lugar diz: Se os meus filhos guardarem o sábado, então derramarei sobre eles a minha misericórdia (Jr 17.24-25).
Do sábado ele fala no princípio da criação: E Deus fez as obras das suas mãos em seis dias, e terminou no sétimo dia, e nele descansou, e o santificou (Gn 2.2-3).
Prestem atenção, filhos, ao que isto significa: Terminou em seis dias. Quer dizer isto: que em seis mil anos o Senhor levará todas as coisas ao fim; pois o dia, para ele, significa mil anos; e disso ele mesmo me dá testemunho, dizendo: Eis que o dia do Senhor será como mil anos (Sl 90.4). Portanto, filhos, em seis dias, isto é, em seis mil anos, tudo chegará ao fim.
E descansou no sétimo dia. Quer dizer isto: quando o seu Filho vier e puser fim ao tempo do Iníquo, e julgar os ímpios, e mudar o sol, a lua e as estrelas, então descansará verdadeiramente no sétimo dia.
Sim, e além disso diz: Tu o santificarás com mãos puras e com coração puro. Se, portanto, alguém agora é capaz de santificar o dia que Deus santificou, ainda que seja puro de coração, estamos inteiramente enganados.
Mas, se afinal então, e não antes, descansaremos verdadeiramente e o santificaremos, quando nós mesmos formos capazes de fazê-lo, depois de justificados e de recebida a promessa, quando já não houver iniquidade e todas as coisas tiverem sido feitas novas pelo Senhor, então poderemos santificá-lo, porque nós mesmos teremos sido santificados primeiro.
Por fim, ele lhes diz: As suas luas novas e os seus sábados não posso suportar (Is 1.13). Vejam o que ele quer dizer: não são os sábados de agora que [me] são aceitáveis, mas o sábado que eu fiz, no qual, depois de pôr todas as coisas em repouso, farei o começo do oitavo dia, que é o começo de outro mundo.
Por isso também guardamos o oitavo dia com alegria, no qual também Jesus ressuscitou dos mortos e, depois de se manifestar, subiu aos céus.
16. Além disso, falarei também a vocês a respeito do templo, como esses miseráveis, desencaminhados, puseram a esperança no edifício, como se fosse casa de Deus, e não no seu Deus, que os fez.
Pois, quase como os gentios, eles o consagraram no templo. Mas que diz o Senhor, abolindo o templo? Aprendam. Quem mediu o céu a palmos, ou mediu a terra com a mão? Acaso não fui eu, diz o Senhor? O céu é o meu trono, e a terra, o estrado dos meus pés. Que casa vocês me edificarão? Ou qual será o lugar do meu repouso? (Is 40.12; 66.1). Vocês percebem que a esperança deles é vã.
Além disso, ele diz de novo: Eis que os que derrubaram este templo, eles mesmos o edificarão.
Assim está acontecendo; pois, por terem ido à guerra, ele foi derrubado pelos inimigos. Agora também os próprios servos dos seus inimigos o reconstruirão.
De novo, foi revelado como a cidade, o templo e o povo de Israel haveriam de ser entregues. Pois diz a Escritura: E acontecerá nos últimos dias que o Senhor entregará à destruição as ovelhas do pasto, o redil e a sua torre. E aconteceu como o Senhor falou.
Mas investiguemos se existe algum templo de Deus. Existe, no lugar onde ele mesmo se propõe fazê-lo e completá-lo. Pois está escrito: E acontecerá que, quando a semana se completar, o templo de Deus será edificado gloriosamente no nome do Senhor.
Encontro, pois, que existe um templo. Como, então, será edificado no nome do Senhor? Entendam. Antes de crermos em Deus, a morada do nosso coração era corrupta e fraca, um templo verdadeiramente edificado por mãos; pois estava cheio de idolatria e era casa de demônios, porque fazíamos tudo o que era contrário a Deus.
Mas será edificado no nome do Senhor. Prestem atenção, então, para que o templo do Senhor seja edificado gloriosamente.
Como? Entendam. Recebendo a remissão dos nossos pecados e esperando no Nome, tornamo-nos novos, criados de novo desde o princípio. Por isso Deus habita verdadeiramente em nossa morada, dentro de nós. Como? A palavra da sua fé, o chamado da sua promessa, a sabedoria das ordenanças, os mandamentos do ensino; ele mesmo profetizando em nós, ele mesmo habitando em nós, abrindo para nós, que estávamos escravizados à morte, a porta do templo, que é a boca, e dando-nos arrependimento, nos introduz no templo incorruptível.
Pois quem deseja ser salvo não olha para o homem, mas para aquele que nele habita e fala, maravilhado por nunca ter ouvido da boca de quem fala essas palavras, nem ter ele mesmo jamais desejado ouvi-las. Este é o templo espiritual edificado para o Senhor.
17. Tanto quanto foi possível declarar-lhes com toda simplicidade, a minha alma espera que eu não tenha omitido nada [das coisas que dizem respeito à salvação, e assim falhado no meu desejo].
Pois, se eu lhes escrevesse a respeito das coisas imediatas ou futuras, vocês não as entenderiam, porque estão postas em parábolas. Basta, então, quanto a isso.
18. Mas passemos a outra lição e ensino. Há dois caminhos de ensino e de poder, um da luz e outro das trevas; e há grande diferença entre os dois caminhos. Pois sobre um estão postados os anjos portadores de luz de Deus; sobre o outro, os anjos de Satanás.
E um é Senhor desde toda a eternidade e por toda a eternidade, ao passo que o outro é senhor do tempo presente da iniquidade.
19. Este é, pois, o caminho da luz, se alguém, desejando viajar pelo caminho até o lugar que lhe foi designado, for zeloso nas suas obras. O conhecimento que nos foi dado para andarmos nele é o seguinte.
Amarás aquele que te fez, temerás aquele que te criou, glorificarás aquele que te resgatou da morte; serás simples de coração e rico de espírito; não te unirás aos que andam no caminho da morte; odiarás tudo o que não agrada a Deus; odiarás toda hipocrisia; jamais abandonarás os mandamentos do Senhor.
Não te exaltarás, mas serás humilde em todas as coisas. Não tomarás glória para ti. Não alimentarás um desígnio mau contra o teu próximo; não darás entrada à arrogância em tua alma.
Não cometerás fornicação, não cometerás adultério (Êx 20.14), não corromperás meninos. A palavra de Deus não sairá de ti onde houver impuros. Não farás acepção de pessoa ao repreender alguém por uma transgressão. Serás manso, serás tranquilo, temerás as palavras que ouviste. Não guardarás rancor contra o teu irmão.
Não terás dúvida se uma coisa acontecerá ou não. Não tomarás o nome do Senhor em vão (Êx 20.7). Amarás o teu próximo mais do que a tua própria alma. Não matarás uma criança pelo aborto, nem a matarás depois de nascida. Não retirarás a mão de teu filho ou de tua filha, mas desde a juventude lhes ensinarás o temor de Deus.
Não serás achado cobiçando os bens do teu próximo; não serás achado ávido de lucro. Nem unirás a tua alma aos altivos, mas andarás com os humildes e justos. Os acontecimentos que te sobrevierem receberás como bons, sabendo que nada acontece sem Deus. Não serás de mente dividida nem de língua dobre.
Serás submisso aos teus senhores, como a uma figura de Deus, com pudor e temor. Não darás ordens com amargura ao teu escravo ou à tua escrava, que põem a esperança no mesmo Deus, para que não deixem de temer o Deus que está acima de ambos; pois ele não veio chamar com acepção de pessoas, mas chamar aqueles que o Espírito preparou.
Farás o teu próximo participar de todas as coisas e não dirás que coisa alguma é tua. Pois, se vocês são coparticipantes no que é imperecível, quanto mais nas coisas perecíveis! Não serás precipitado com a tua língua, porque a boca é laço de morte. Quanto puderes, serás puro por amor da tua alma.
Não sejas achado estendendo as mãos para receber e retraindo-as para dar. Amarás como a menina dos teus olhos todo aquele que te fala a palavra do Senhor.
Lembrarás o dia do juízo noite e dia, e buscarás dia após dia a companhia dos santos, ou trabalhando com a palavra, indo exortá-los e meditando em como salvar almas pela palavra, ou trabalharás com as tuas mãos para resgate dos teus pecados.
Não hesitarás em dar, nem murmurarás ao dar, mas saberás quem é o bom pagador da tua recompensa. Guardarás o que recebeste, sem acrescentar nem tirar. Odiarás inteiramente o Maligno. Julgarás com justiça.
Não provocarás cisma, mas apaziguarás os que contendem, reconciliando-os. Confessarás os teus pecados. Não irás à oração com má consciência. Este é o caminho da luz.
20. Mas o caminho do Tenebroso é tortuoso e cheio de maldição. Pois é caminho de morte eterna com castigo, no qual estão as coisas que destroem a alma dos homens: idolatria, arrogância, exaltação do poder, hipocrisia, duplicidade de coração, adultério, homicídio, rapina, soberba, transgressão, traição, malícia, obstinação, feitiçaria, magia, avareza, ausência do temor de Deus; perseguidores dos bons, que odeiam a verdade, amam a mentira, não conhecem a recompensa da justiça, não se unem ao bem nem ao justo juízo, não dão atenção à viúva e ao órfão, vigilantes não para o temor de Deus, mas para o mal; homens de quem a mansidão e a paciência estão afastadas e distantes; que amam coisas vãs, correm atrás de recompensa, não têm compaixão do pobre, não se afadigam por aquele que está oprimido pela fadiga, prontos para a calúnia, que não reconhecem aquele que os fez, assassinos de crianças, corruptores das criaturas de Deus, que dão as costas ao necessitado, oprimem o aflito, advogados dos ricos, juízes injustos dos pobres, pecadores em todas as coisas.
21. É bom, portanto, aprender as ordenanças do Senhor, quantas foram escritas acima, e andar nelas. Pois quem as pratica será glorificado no reino de Deus; ao passo que quem escolhe o contrário perecerá juntamente com as suas obras. Por isso existe a ressurreição, por isso a retribuição.
Rogo aos que dentre vocês ocupam posição mais elevada, se quiserem receber de mim algum bom conselho: tenham entre vocês aqueles a quem possam fazer o bem. Não falhem.
Está próximo o dia em que tudo será destruído juntamente com o Maligno. Está próximo o Senhor e a sua recompensa.
Uma e outra vez lhes rogo: sejam bons legisladores uns para os outros; permaneçam conselheiros fiéis de vocês mesmos; tirem do meio de vocês toda hipocrisia.
E Deus, que é Senhor do mundo inteiro, lhes dê sabedoria, discernimento, instrução, conhecimento das suas ordenanças, paciência.
E sejam ensinados por Deus, buscando com diligência o que o Senhor requer de vocês, e procedam de modo a serem achados no dia do juízo.
Mas, se vocês têm alguma lembrança do bem, lembrem-se de mim quando praticarem estas coisas, para que tanto o meu desejo como a minha vigilância conduzam a algum bom resultado. Rogo-lhes, pedindo isso como favor.
Enquanto o bom vaso (do corpo) estiver com vocês, não lhes falte nenhuma destas coisas, mas busquem-nas constantemente e cumpram todo mandamento; pois elas o merecem.
Por isso me apressei ainda mais a escrever-lhes, tanto quanto pude, para lhes dar alegria. Passem bem, filhos do amor e da paz. O Senhor da glória e de toda graça esteja com o espírito de vocês.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de J. B. Lightfoot (The Apostolic Fathers, Londres, Macmillan, 1891, ed. J. R. Harmer), conferida com as imagens das páginas; os prefácios de Wesley, a partir de A Christian Library, vol. 1 (1749; reimpr. 1755); domínio público. Os originais são gregos: esta é, portanto, tradução de tradução. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando o autor antigo cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.