Os Pais Apostólicos · Abertura

John Wesley e os Pais Apostólicos: os prefácios da Christian Library (1749)

O prefácio de John Wesley à sua Christian Library (Kingswood, 1749), em que explica o propósito da coleção, e a sua introdução "Ao Leitor" às cartas de Clemente, Inácio e Policarpo.

Prefácio

1. Costumamos crer que não existe no mundo um corpo de teologia prática mais completo do que o que hoje se encontra na língua inglesa, nos escritos do século passado e do presente. E talvez essa crença não se deva inteiramente a um preconceito natural em favor da nossa própria terra. Parece, antes, fundar-se na verdade das coisas, numa observação sólida e racional.

2. De fato, não pode haver dúvida razoável a esse respeito em quem quer que considere com calma (mesmo antes de conhecer os próprios escritos) que não nos faltaram homens de capacidade natural em nada inferiores aos que outros países produziram, seja em épocas mais antigas, seja em mais recentes. Todos os recursos que a arte podia oferecer, também os desfrutamos largamente. E não podemos acrescentar (“Não a nós, Senhor, mas ao teu nome seja o louvor!”) (Sl 115.1) que a piedade que brilhou em muitos dos nossos compatriotas foi igual ao seu saber? Foram de fato lâmpadas que ardiam e iluminavam (Jo 5.35), cada qual em sua geração: homens a quem o Espírito de Deus dotou da mais verdadeira sabedoria e ensinou a entender até as profundezas de Deus (1Co 2.10).

3. Por isso temos em inglês uma variedade de livros, sobre todos os ramos da religião, tão grande quanto a que se encontra (creio que se pode dizer) em qualquer língua debaixo do céu. E essa variedade cresceu enormemente, sobretudo na era presente, com numerosas traduções de todas as línguas, antigas e modernas. De modo que, se um homem passasse oitenta anos com a mais incansável dedicação, conseguiria avançar só um pouco na leitura do que se publicou em nossa própria língua nestes últimos cento e cinquenta anos.

4. Mas essa mesma abundância cria uma dificuldade. Quem deseja aproveitar ao máximo uma vida breve fica perdido entre quinhentos fólios e não sabe por onde começar. Não pode ler tudo, e de bom grado leria somente aqueles que melhor recompensassem o seu trabalho. Mas quem os indicará? Quem lhe dará um fio com que se guiar por esse labirinto?

5. Isso é necessário no mais alto grau. E não só por causa da imensa variedade, da infinita multiplicidade de livros de que ele está cercado por todos os lados, mas também porque em muitos deles se diz mais do que é verdade. Há neles muita verdade, mas há também muita falsidade; e as duas estão com frequência tão entremeadas, tão misturadas (por acaso ou de propósito), que não é fácil separá-las. Além disso, muitos, embora verdadeiros, são de pouca utilidade: sendo sobretudo, se não inteiramente, polêmicos, tendem mais a promover discussões vãs do que a santidade, seja do coração, seja da vida. Outros, que não são polêmicos, estão escritos num estilo que mal se entende pela maior parte das pessoas. É um defeito que os homens de letras não evitam com facilidade, e que não conseguem evitar sem grande atenção, por ser tão natural imaginar que aquilo que é claro para eles há de sê-lo também para os seus leitores.

6. Os que evitaram esse defeito caíram muitas vezes em outro: os seus pensamentos são tão comuns quanto as suas expressões. Falam com clareza, mas, nesse meio-tempo, nada dizem: nada além do que o mais simples dos seus leitores poderia ter dito por eles. Todas as suas observações são batidas e superficiais: apenas roçam a superfície da religião, mas nada declaram da altura ou da profundidade daquelas grandes verdades que o evangelho trouxe à luz.

7. Daí alguns correram para o extremo oposto. Não são superficiais demais, mas místicos demais. Encontram sentidos ocultos em tudo, sentidos que Deus nunca ensinou nem os antigos filhos de Deus jamais conheceram. Buscam mistérios nas verdades mais simples e as tornam mistérios com as suas explicações. Ao passo que a religião cristã, segundo o relato das Escrituras, é a coisa mais simples e mais clara do mundo: não há nela nada mais estranho nem mais difícil de entender do que isto: “Nós o amamos porque ele nos amou primeiro” (1Jo 4.19).

8. Há ainda outro inconveniente que nasce da vasta variedade de autores na língua inglesa. Eles nem sempre concordam: nem todos dizem as mesmas coisas da mesma maneira. Mesmo em pontos de religião prática, e até naqueles da maior importância, escritores de não pequena reputação falam não só de modo diferente, mas contraditório, uns em relação aos outros. Um nos manda seguir adiante; outro, parar; um aponta para a direita, outro para a esquerda. De modo que, se o leitor não for dotado não só de bom entendimento, mas também de algum conhecimento experimental das coisas de Deus, corre o perigo de ficar inteiramente desnorteado. Mais ainda: alguns homens infelizes foram levados por isso a jogar fora toda a religião, imaginando que nela não havia nada além de jargão e contradição consigo mesma.

9. Ora, quem se dará ao trabalho de extrair o ouro dessas misturas de metal inferior? Quem separará a teologia pura e genuína dessa massa enorme e misturada? Fiz, como pude, uma tentativa desse tipo. Esforcei-me por extrair uma coleção de teologia inglesa que (creio eu) seja toda verdadeira, toda conforme aos oráculos de Deus; que seja toda prática, sem mistura de controvérsia de espécie alguma; e toda inteligível às pessoas simples; que não seja superficial, mas desça à profundidade e descreva a altura do cristianismo; e que, no entanto, não seja mística nem obscura para nenhum dos que são experimentados nos caminhos de Deus. Esforcei-me também, em particular, por preservar a coerência do começo ao fim, para que nenhuma parte contradissesse outra, mas todas concorressem juntas para tornar o homem de Deus perfeito, plenamente preparado para toda boa palavra e obra (2Tm 3.17; 2Ts 2.17).

10. Mas, para isso, fui obrigado não só a omitir a maior parte, de longe, de vários autores eminentes, mas também a acrescentar o que era necessário, seja para esclarecer o seu sentido, seja para corrigir os seus erros. E, num projeto dessa natureza, entendo que estou em plena liberdade para fazê-lo. Por isso não aceito nenhum autor incondicionalmente, para o bem e para o mal (como de fato não ouso chamar homem algum de rabi), mas procuro seguir cada um até onde ele segue a Cristo. E, conscientemente, nem um passo além.

11. Sigo (aproximadamente, não com rigor) a ordem do tempo em que esses autores escreveram. E isso por duas razões: primeiro, para que o leitor sério se convença com mais clareza de que a religião genuína de Jesus Cristo tem sido uma e a mesma desde o princípio; e, segundo, para que, se aprouver a Deus chamar-me daqui antes de a obra chegar ao fim, quem julgar bom levar adiante o mesmo projeto possa com mais facilidade continuar de onde eu parar.

Que o Doador de toda boa dádiva lhe dê a sua bênção e escreva o seu amor no coração de cada leitor!

Escola de Kingswood, 25 de março de 1749.

As epístolas dos Pais Apostólicos, São Clemente, Santo Inácio, São Policarpo, e os martírios de Santo Inácio e São Policarpo

Em parte traduzidas, em parte resumidas.

Ao leitor

1. Os autores da coleção que se segue foram contemporâneos dos santos apóstolos: um deles foi formado pelo próprio Senhor, e os outros, bem instruídos por aqueles grandes homens a quem ele comissionou para ir e ensinar todas as nações. Não podemos, portanto, duvidar de que o que eles nos transmitem é a pura doutrina do evangelho: o que Cristo e os seus apóstolos ensinaram, e o que esses santos homens haviam recebido da própria boca deles.

2. E não tiveram apenas a vantagem de viver nos tempos apostólicos, de ouvir os santos apóstolos e conversar com eles; eram eles mesmos de posição muito eminente na igreja: homens elevados à mais alta honra e autoridade, escolhidos pelos apóstolos para presidir as suas respectivas sés, e algumas delas entre as mais eminentes que havia então no mundo. Podemos, pois, estar bem certos de que tais homens devem ter sido cuidadosamente instruídos no mistério do evangelho e ter tido o conhecimento mais amplo e perfeito da fé, tal como ela está em Jesus.

3. Ainda que tivessem sido homens sem nome e sem autoridade na igreja, a própria época em que viveram teria tornado os seus discursos justamente veneráveis para nós. Mas agora, tratando com homens não só instruídos pelos apóstolos em comum com os demais cristãos daquele tempo, mas formados e estabelecidos particularmente por eles; tendo aqui os escritos de homens que alcançaram um conhecimento tão perfeito do mistério da piedade que os próprios apóstolos os julgaram dignos de ser supervisores das grandes igrejas de Roma, Antioquia e Esmirna, não podemos com razão alguma duvidar do que eles nos transmitem como o evangelho de Cristo; antes, devemos recebê-lo, se não com igual veneração, ao menos com apenas um pouco menos de consideração do que temos pelos escritos sagrados daqueles que foram os seus mestres e instrutores.

4. Além disso, não eram apenas homens tão eminentes, formados com vantagens tão grandes e tão completamente instruídos no conhecimento do evangelho; eram também pessoas de piedade consumada, adornadas de todas aquelas virtudes cristãs que nos recomendam com tanto afeto. Mas, sobretudo, eram vigias zelosos das suas igrejas, cuidadosos em instruí-las na verdadeira fé de Cristo e em preservá-las do contágio das heresias que já então começavam a corrompê-la. Por isso lemos em Eusébio com que santo zelo primeiro Inácio, e depois o seu condiscípulo São Policarpo, se opuseram aos que ensinavam outras doutrinas além das que os apóstolos lhes haviam transmitido; que sábias orientações deram para que se descobrissem os falsos mestres; e com quanto empenho exortaram todas as igrejas a permanecer firmes ao lado dos seus respectivos bispos e presbíteros e da doutrina apostólica que deles receberam.

5. A essa piedade geral da sua vida e a esse cuidado com a pureza da religião, podemos acrescentar a sua coragem e constância em mantê-la. E dois deles, depois de passarem a vida administrando com cuidado o grande encargo para o qual foram chamados, foram por fim aperfeiçoados pelo martírio, que sofreram com uma calma e uma firmeza dignas tanto da religião que professavam quanto da posição eminente que haviam alcançado na igreja.

6. Tanta razão temos, pois, para considerar os escritos desses santos homens como portadores da doutrina pura e incorrupta de Cristo. Mas, para subir ainda mais alto: eles não estavam apenas habilitados por esses meios ordinários a nos transmitir o evangelho, mas eram também dotados da assistência extraordinária do Espírito Santo.

7. Para nos convencermos disso, basta considerar, 1. que os dons extraordinários do Espírito Santo, que as próprias Escrituras nos dizem terem sido conferidos a outros crentes, e não só aos apóstolos, continuaram ainda na igreja depois da partida deles, como atesta expressamente Justino Mártir. E, para termos certeza de que ele nada disse que não fosse inegável, vemos que ele o alega contra Trifão, o judeu, como argumento irrespondível em favor dos cristãos contra os judeus, dos quais aqueles dons já se haviam retirado havia muito tempo.

8. São Clemente declara a mesma coisa na sua epístola aos coríntios, onde repreende os que se orgulhavam desses dons. E Santo Inácio não só supõe (na sua saudação à igreja de Esmirna) que tais dons podiam existir em outros, mas na sua carta aos filadelfos dá claramente a entender que ele próprio era dotado de uma grande porção deles.

9. Sendo assim, não podemos duvidar, 2º, de que os apóstolos tiveram o cuidado de pôr à frente das diversas igrejas os que mais se distinguiam por esses dons; e de que Deus também se agradou de conceder a tais pessoas uma porção mais que ordinária do seu Espírito, para melhor desempenho dos cargos eminentes para os quais foram chamados.

10. Uma das qualificações que os apóstolos exigiam, mesmo dos que haviam de ser ordenados diáconos, sabemos que era esta: que fossem homens cheios do Espírito Santo (At 6.3). E, de acordo com isso, registra-se de Santo Estêvão que era cheio de fé e de poder e fazia sinais e prodígios entre o povo (At 6.8), e os judeus não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito pelo qual ele falava (At 6.10). Quanto mais cuidadosos não terão sido para não admitir à autoridade mais alta senão os que eram ainda mais eminentemente dotados desses mesmos dons!

11. A conclusão evidente é não só que eles não se enganaram nas suas interpretações do evangelho de Cristo, mas que, em todas as partes necessárias dele, foram assistidos pelo Espírito Santo de tal modo que dificilmente podiam errar. Por conseguinte, devemos considerar os seus escritos, embora não de igual autoridade com as Santas Escrituras (porque nem os seus autores foram chamados de modo tão extraordinário a escrevê-los, nem foram dotados de uma porção tão grande do bendito Espírito), como dignos, porém, de respeito muito maior do que quaisquer composições feitas depois, por mais que homens tenham escrito mais tarde com mais arte e maior cabedal de erudição humana do que se encontra não só nas peças que se seguem, mas até no próprio Novo Testamento.

12. De fato, a maneira como estão escritos, a verdadeira simplicidade primitiva que aparece em todas as suas partes, não é objeção justa contra eles, mas antes uma forte recomendação a todos os homens ponderados. Eles conheciam a excelência da sua doutrina e a importância das revelações que ela fazia acerca do estado futuro; por isso se contentaram em declarar essas coisas de maneira clara e simples, e, no entanto, com tal eficácia e poder que superaram toda a retórica do mundo.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de J. B. Lightfoot (The Apostolic Fathers, Londres, Macmillan, 1891, ed. J. R. Harmer), conferida com as imagens das páginas; os prefácios de Wesley, a partir de A Christian Library, vol. 1 (1749; reimpr. 1755); domínio público. Os originais são gregos: esta é, portanto, tradução de tradução. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando o autor antigo cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.