“Em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, desde que eu complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus.”Atos 20.24 · NAA
Os primeiros anos
Entre o caminho de Damasco e a primeira viagem missionária passou-se mais de uma década. A Bíblia dedica poucos versículos a esses anos, e é justamente neles que Paulo foi formado.
O próprio Paulo dá as balizas do período: três anos até a primeira visita a Jerusalém (Gl 1.18) e “catorze anos depois” até a seguinte (Gl 2.1). Logo após a conversão ele não correu a Jerusalém pedir credenciais. “Nem fui a Jerusalém para me encontrar com os que já eram apóstolos antes de mim, mas fui para as regiões da Arábia e voltei, outra vez, para Damasco” (Gl 1.17). Só “passados três anos” subiu a Jerusalém, e ficou quinze dias com Pedro (Gl 1.18).
Em Jerusalém quase ninguém quis recebê-lo: os discípulos tinham medo dele e não criam que fosse discípulo (At 9.26). Foi Barnabé quem o tomou e o apresentou aos apóstolos. Depois de uma nova ameaça de morte, os irmãos o levaram até Cesareia e o mandaram de volta para Tarso, a cidade natal (At 9.30).
Anos de silêncio, sem missão pública. O que ele aprendeu ali aparece depois em cada carta.
De volta à terra natal, longe dos centros da fé. As igrejas da Judeia nem o conheciam de vista: “Ouviam somente dizer: Aquele que antes nos perseguia, agora prega a fé que no passado procurava destruir” (Gl 1.22-23).
“Depois Barnabé foi a Tarso à procura de Saulo. E, quando o encontrou, levou-o para Antioquia” (At 11.25-26). Alguém precisou lembrar dele e ir atrás.
Duas lições dos anos escondidos. A primeira: Deus prepara antes de usar, e o tempo em que aparentemente nada acontece raramente é tempo perdido. A segunda: todo convertido precisa de um Barnabé. Sem alguém que acreditasse nele e fosse buscá-lo, a história poderia ter parado em Tarso.
E note o efeito que a mudança dele produzia à distância: as igrejas “glorificavam a Deus” por causa de Paulo (Gl 1.24). Elas não o conheciam. Conheciam o resultado.
Antioquia
Antioquia é a igreja que muda a história. Nasceu de refugiados: os que foram dispersos pela perseguição que começou com a morte de Estêvão (At 11.19).
Ali aconteceu algo novo. Alguns, vindos de Chipre e de Cirene, “falavam também aos gregos, anunciando-lhes o evangelho do Senhor Jesus”, e “a mão do Senhor estava com eles” (At 11.20-21). Foi em Antioquia que os discípulos “foram, pela primeira vez, chamados de cristãos” (At 11.26).
Foi essa igreja, e não uma iniciativa pessoal de Paulo, que deu origem à missão aos gentios:
O envio
Enquanto adoravam ao Senhor e jejuavam, o Espírito Santo falou. E então, “jejuando e orando, e impondo as mãos sobre eles, os despediram” (At 13.3).
Atos 13.2
Vale reparar em três coisas. O chamado veio no culto, e não num momento isolado de introspecção. A igreja participou, com jejum, oração e imposição de mãos. E a liderança de Antioquia era plural e diversa: Barnabé, o cipriota; Simeão, chamado Níger; Lúcio, de Cirene; Manaém, criado com Herodes; e Saulo (At 13.1). Um levita, africanos, um homem da corte e um ex-fariseu, na mesma equipe.
As viagens
Foram três grandes viagens e cerca de vinte anos de estrada, a pé e de navio, por três continentes. Por trás delas há um método reconhecível.
“Paulo, segundo o seu costume, foi procurá-los e, por três sábados, discutiu com eles a respeito das Escrituras” (At 17.2). Partia de onde já se conhecia o Antigo Testamento.
Em Atenas, no Areópago, falou a quem nunca ouvira falar de Israel, citando os poetas gregos: “nele vivemos, nos movemos e existimos” (At 17.28).
Em Corinto, morou e trabalhou com Áquila e Priscila, “porque tinham o mesmo ofício”: fazer tendas (At 18.3). “Estas minhas mãos serviram para o que era necessário a mim e aos que estavam comigo” (At 20.34).
Um ano e seis meses em Corinto (At 18.11), três anos em Éfeso (At 20.31). Não era pregação de passagem: era formação de igrejas.
Ele também escolhia deliberadamente o campo mais difícil: “esforçando-me, deste modo, por pregar o evangelho, não onde Cristo já foi anunciado, para não edificar sobre alicerce alheio” (Rm 15.20). E adaptava a linguagem sem alterar a mensagem: “Fiz-me tudo para com todos, a fim de, por todos os modos, salvar alguns” (1Co 9.22).
Os nomes se acumulam ao longo de Atos e das cartas: Barnabé, João Marcos, Silas, Timóteo, Lucas, Tito, Áquila e Priscila, Lídia, Febe, Epafrodito. Priscila e Áquila chegaram a corrigir a pregação de Apolo, um orador eloquente, expondo-lhe “com mais exatidão o caminho de Deus” (At 18.26). Um casal de artesãos ensinando um pregador culto.
Nem tudo foi harmonia. Paulo e Barnabé se separaram por causa de João Marcos: “houve tal desavença entre eles, que vieram a separar-se” (At 15.39). O texto não esconde nem enfeita. Guarde este nome, porque ele voltará no fim da história.
Quando precisou defender seu ministério, Paulo não listou resultados. Listou cicatrizes: “Cinco vezes recebi dos judeus quarenta açoites menos um. Três vezes fui açoitado com varas. Uma vez fui apedrejado. Três vezes naufraguei” (2Co 11.24-25). E acrescentou o que mais pesava: “ainda pesa sobre mim diariamente a preocupação com todas as igrejas” (2Co 11.28).
Em Mileto, despedindo-se dos presbíteros de Éfeso, resumiu tudo numa frase: “Em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, desde que eu complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus” (At 20.24). Ao fim, “houve grande pranto entre todos, e, abraçando Paulo, o beijavam” (At 20.37). O homem que chegou a Antioquia sob suspeita virou pai espiritual de uma geração.
Atos 15
A maior crise da igreja primitiva não veio de fora. Veio de dentro, e o assunto era o evangelho.
Alguns que vieram da Judeia ensinavam em Antioquia: “Se vocês não forem circuncidados segundo o costume de Moisés, não podem ser salvos” (At 15.1). A pergunta era simples e decisiva: o gentio precisa virar judeu para ser cristão? Ou seja, a salvação é pela graça ou pela graça mais alguma coisa?
O texto registra que houve “um conflito e grande discussão” (At 15.2). Não se fingiu que estava tudo bem. Mas o conflito foi levado a um lugar: apóstolos e presbíteros reunidos, com testemunhos de Pedro, Barnabé, Paulo e Tiago.
A conclusão
E o parecer final: “julgo que não devemos perturbar aqueles que, entre os gentios, se convertem a Deus” (At 15.19), formulado com uma expressão notável: “pareceu bem ao Espírito Santo e a nós” (At 15.28).
Atos 15.11
Três coisas merecem atenção nesse desfecho. A doutrina foi preservada: a salvação é pela graça, e não pela circuncisão. A comunhão foi mantida: Tiago, Pedro e João estenderam “a mão direita da comunhão” a Paulo e Barnabé (Gl 2.9). E a decisão foi tomada em conjunto, ouvindo experiência, Escritura e Espírito Santo, e não por imposição de um líder.
Firmeza também entre os apóstolos. Quando, mais tarde, Pedro recuou em Antioquia e passou a se afastar dos gentios, Paulo “resisti-lhe face a face, porque havia se tornado repreensível” (Gl 2.11), e o repreendeu diante de todos (Gl 2.14). O evangelho da graça valia mais do que o conforto de uma boa relação. E, ainda assim, a comunhão entre eles não se rompeu.
É um modelo raro e necessário: conflito enfrentado abertamente, decidido em conjunto, sem quebrar a unidade e sem ceder no essencial.
As cartas
As cartas de Paulo não nasceram em um gabinete. Nasceram no meio do trabalho, para responder a problemas concretos de igrejas que ele conhecia pelo nome.
Corinto tinha divisões, imoralidade e desordem no culto: daí 1Coríntios. Os gálatas estavam voltando à Lei: daí Gálatas, escrita com urgência. Os tessalonicenses estavam confusos quanto à volta de Cristo. Filemom precisava receber de volta um escravo fugido, agora irmão. Timóteo e Tito precisavam organizar igrejas jovens.
Romanos é a mais sistemática, e mesmo ela tem endereço e propósito de viagem: Paulo queria o apoio da igreja de Roma para seguir até a Espanha (Rm 15.23-24). A maior exposição do evangelho no Novo Testamento é, em parte, uma carta de apresentação missionária.
Cada grande doutrina paulina responde a uma dor real. A justificação pela fé não é tese abstrata: é a resposta a pessoas que estavam sendo obrigadas a se circuncidar para pertencer.
Há no portal Cursos os comentários completos de Romanos e de Efésios, capítulo a capítulo, e o estudo O Dilema de Paulo, sobre Romanos 7.
E a experiência de Damasco continuou governando o que ele escrevia. A frase que resume tudo é dele: “Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gl 2.20).
O último trecho
Paulo sempre quis chegar a Roma. Chegou, mas não do jeito que planejara: chegou algemado, depois de anos de processos e de um naufrágio.
Preso em Jerusalém, quase linchado, ele passa por audiências diante do Sinédrio, dos governadores Félix e Festo e do rei Agripa. Foram cerca de dois anos parado em Cesareia, sem ministério público, enquanto a burocracia se arrastava e um governador esperava suborno.
No meio disso, uma visita:
A noite depois do tumulto
Deus não o livrou da prisão. Deu-lhe o próximo passo e a companhia para dá-lo.
Atos 23.11
Na viagem, a tempestade. Depois de dias sem sol nem estrelas, quando todos já haviam perdido a esperança, o prisioneiro vira o líder do navio: “Tenham coragem! Pois eu confio em Deus que tudo vai acontecer conforme me foi dito” (At 27.25). E, num gesto que qualquer cristão reconhece, tomou um pão, deu graças diante de todos e começou a comer (At 27.35). O navio levava “duzentas e setenta e seis pessoas ao todo” (At 27.37), e “todos se salvaram em terra” (At 27.44).
Perto de Roma, os irmãos saíram ao seu encontro até a Praça de Ápio: “Ao vê-los, Paulo deu graças a Deus e sentiu-se mais animado” (At 28.15). O apóstolo que encorajava a todos também precisava ser encorajado.
A prisão não parou o evangelho. Da cadeia ele escreveu Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom, e pôde dizer: “as coisas que me aconteceram têm até contribuído para o progresso do evangelho”, a ponto de toda a guarda pretoriana saber por que ele estava preso, e de outros irmãos ousarem falar “com mais coragem” (Fp 1.12-14).
Atos termina de um jeito surpreendente. Não conta o julgamento, nem a morte de Paulo. Termina assim: durante dois anos, numa casa alugada, “pregava o Reino de Deus, e, com toda a ousadia, ensinava as coisas referentes ao Senhor Jesus Cristo, sem impedimento algum” (At 28.30-31).
A última palavra do livro, no grego, é justamente essa: sem impedimento. Lucas não fecha a história porque ela não terminou. O prisioneiro está preso; a Palavra, não.
O fim e o começo
A última carta que temos dele foi escrita já sem ilusões: “Quanto a mim, já estou sendo oferecido por libação, e o tempo da minha partida chegou” (2Tm 4.6).
O balanço tem três frases e nenhuma estatística: “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé” (2Tm 4.7). Nenhum número de igrejas, nenhuma contagem de conversões. Fidelidade até o fim.
E o quadro humano ao redor é duro e honesto. “Na minha primeira defesa, ninguém foi a meu favor; todos me abandonaram”, e ele acrescenta, sem rancor: “Que isto não lhes seja posto na conta!” (2Tm 4.16). Mas: “o Senhor esteve ao meu lado e me revestiu de forças” (2Tm 4.17).
Um detalhe que muda tudo
Marcos é o mesmo jovem por causa de quem Paulo e Barnabé se separaram em Atos 15. No fim da vida, Paulo pede a presença dele. A reconciliação aconteceu, e a Bíblia registra os dois momentos.
2Timóteo 4.11
Catorze anos entre a conversão e a primeira viagem. Quem tem pressa de aparecer costuma pular a parte em que é formado.
Barnabé foi buscá-lo; Priscila, Áquila, Silas, Timóteo e Lucas caminharam com ele; os irmãos de Roma o animaram. Cristianismo solitário não é o modelo bíblico.
Atos 15 mostra um desacordo grave enfrentado às claras, decidido em conjunto e resolvido sem ceder no evangelho nem romper a igreja.
Açoites, naufrágios, prisões e a preocupação diária com as igrejas. O evangelho é gratuito para quem recebe, e caro para quem leva.
Ele queria ir à Espanha e foi para a cadeia. Da cadeia saíram quatro cartas que a Igreja lê até hoje. Deus cumpre o que promete pelo caminho que escolhe.
Fixação
Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Cinco questões, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, e errar aqui também ensina.
0 de 7
Para pensar e conversar
Quem tem pressa de aparecer costuma pular a parte em que é formado. Vale perguntar o que Deus pode estar construindo agora, num período que parece parado.
Pode ser alguém afastado da igreja, um convertido de quem todos ainda desconfiam, ou um obreiro desanimado. Sem Barnabé, a história de Paulo poderia ter parado em Tarso.
Missão não é aventura particular. Paulo foi enviado, sustentado e cobrado por uma comunidade, e voltava para prestar contas a ela.
O modelo tem três marcas: enfrentar às claras, decidir em conjunto ouvindo a Escritura e o Espírito, e não ceder no essencial nem quebrar a comunhão.
“As coisas que me aconteceram têm até contribuído para o progresso do evangelho” (Fp 1.12). Não é conformismo: é reconhecer que o propósito de Deus é maior do que o nosso roteiro.
A Bíblia registra os dois momentos, a ruptura e o reencontro. Um ministério longo dá tempo para consertar o que se quebrou no meio do caminho.
Paulo: de Damasco a Roma · Bispo Ildo Mello · Igreja Metodista Livre do Brasil