W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume I · Deus

A existência e a noção de Deus

I, 231DEUS.

I, 233DEUS.

Deus. DEUS é TUDO EM TODOS em toda a extensão da teologia: em toda parte, ao mesmo tempo o seu Sujeito e o seu Objeto, e a unidade de ambos. Há, porém, uma doutrina específica de Deus, que se divide em dois ramos: primeiro, a existência do Ser Supremo como objeto do pensamento e do conhecimento humano em geral; segundo, a revelação mais específica da sua natureza e dos seus atributos. É evidente que esses dois ramos não podem ser mantidos inteiramente separados, pois cada um envolve o outro até certo ponto; mas podem ser distinguidos com proveito como a revelação que Deus faz de si mesmo NO homem e a que faz AO homem, consumada na Sagrada Escritura.

A EXISTÊNCIA E A NOÇÃO DE DEUS.

Ser e noção de Deus. A existência de Deus pode ser considerada ou como uma certeza ou convicção inata da mente humana, que não precisa de prova, ou como uma verdade que se demonstra à razão por meio das suas credenciais. Segundo a primeira visão, essa verdade eterna, a soma de toda verdade, é um elemento necessário da consciência do homem, criado à imagem divina. Mas, em consequência da perturbação da razão humana, é necessário que a teologia esteja preparada para organizar os elementos dessa consciência num sistema formal de argumentos em defesa da existência dele. A isso estão inseparavelmente ligadas a realidade e a medida do conhecimento de Deus possível ao homem.

I, 234A EXISTÊNCIA DE DEUS.

Existência de Deus. O Ser de um Deus é, ao mesmo tempo, uma ideia inata e uma verdade demonstrável e que deve ser demonstrada. Usamos aqui uma linguagem popular, que no devido tempo receberá uma explicação mais completa e suficiente.

INATA.

Ideia inata de Deus. A existência de Deus, só Deus pode revelá-la. Como Criador da natureza humana, ele entreteceu essa verdade suprema na constituição dela. A Escritura, que nunca prova o ser do Supremo, apela para essa consciência; dá também a razão da sua perturbação e assim, de antemão, tira a força de todo argumento contrário a ela. A história da raça humana demonstra, pelas próprias perversões da ideia de Deus de que dá testemunho, o fato de que a existência dele não precisa de demonstração. E não há raciocínio filosófico ou psicológico sólido que possa resistir a esse princípio, corretamente entendido e devidamente resguardado.

Testemunho da Escritura. I. As Escrituras, dirigidas ao homem universal, pressupõem que há na natureza humana uma consciência de um Ser Supremo, de quem o homem depende e a quem tem de prestar contas.

Pressuposto em toda parte. 1. A Escritura expõe os fundamentos dessa sublime pressuposição, isto é, do conhecimento que ela, de Gênesis a Apocalipse, falando a judeus e gentios e a toda a criação humana de Deus, dá por certo em toda parte. Apela para a lei gravada no seu coração (Rm 2.15), o que implica um Legislador; e para o senso de dependência que tateia em busca da Fonte de toda a existência, se, porventura, tateando, o possam achar (At 17.27): achar aquele que já é conhecido, para alívio dos seus temores e satisfação dos seus desejos. Mas vai ainda mais alto e ensina em toda parte que, no dia em que Deus criou o ser humano, à semelhança de Deus o fez (Gn 5.1), semelhança que nunca se perdeu: pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como alguns dos poetas de vocês disseram: “Porque dele também somos geração” (At 17.28). E, embora não devamos forçar demais esse testemunho, ele declara com toda a certeza pelo menos isto: que a própria vida da criatura dependente está ligada à ideia da sua Fonte Independente, e que o próprio pensamento de Deus na mente do homem (para antecipar um argumento futuro) pressupõe que Deus existe. Vai mais alto ainda, se é possível. Declara que o Logos eterno, ou Verbo, é a verdadeira luz, que ilumina todo homem que vem ao mundo (Jo 1.9) [N. do T.: a NAA traz “a verdadeira luz, que, vinda ao mundo, ilumina toda a humanidade”; Pope segue a KJV, que liga o “vir ao mundo” a cada homem, e não à luz, e é nessa leitura que se apoia o argumento]. E isso precede, na ordem do tempo e do pensamento, aquela revelação mais alta que vem a seguir: Ninguém jamais viu Deus; o Unigênito [Filho], que está junto do Pai, é quem o revelou (Jo 1.18) [N. do T.: a NAA traz “o Deus unigênito”, leitura do grego que o próprio Pope cita em outros pontos do Compêndio; o colchete em “Filho” é dele]. Ele mesmo é a manifestação do Deus invisível, mas só enquanto se revela a uma consciência preparatória presente na humanidade. Ἐκεῖνος ἐξηγήσατο: ele expôs, numa exegese final, o texto original implantado na natureza humana universal.

I, 235O único ateísmo. 2. A Escritura desfaz toda objeção que se possa levantar contra a universalidade dessa consciência, mostrando que duas razões obscureceram a verdade na natureza humana: por causa do pecado, os homens desprezaram o conhecimento de Deus; e por isso o próprio Deus os entregou a um modo de pensar reprovável (Rm 1.28), ou seja, a uma mente desprovida de juízo. O único ateísmo que a Escritura admite é o ateísmo prático: aquele que o insensato diz no seu coração (Sl 14.1). São Paulo fala dos gentios como ἄθεοι ἐν τῷ κόσμῳ, ateus no mundo (Ef 2.12) [N. do T.: a NAA traz “sem Deus no mundo”, sentido que Pope defende logo a seguir]. Mas isso se opõe a estar em Cristo e significa antes “abandonados por Deus” do que “que o negam” ou “que o ignoram por completo”, embora esses sentidos não possam ser de todo excluídos do texto.

Inata e congênita. 3. Daí a proposição geral de que a existência do Supremo é inata e congênita. Isso não quer dizer que esse conhecimento pleno se forme em toda mente como objeto de consciência, mas que a constituição da natureza humana é tal que ela desenvolve naturalmente uma consciência de Deus quando Deus se apresenta, assim como, ao crescer, chega à consciência de si mesma e do mundo exterior. Essa consciência do Ser Infinito pode ser pervertida moralmente, assim como a consciência de si e do mundo externo pode ser pervertida intelectualmente por uma falsa filosofia. Pode assumir mil formas: do fetiche cego da superstição mais abjeta, passando por todas as variações do politeísmo, até o panteísmo, ou até as teorias materialistas que, sem o perceber, fazem das eternas evoluções de uma lei sem inteligência o próprio Ser que rejeitam. Isso nos leva diretamente aos argumentos teológicos que provam essa verdade fundamental.

I, 236DEMONSTRÁVEL.

Demonstrações. Todos os desenvolvimentos deste argumento repousam, afinal, na análise daquela consciência original de Deus que é o direito de nascença do homem como criatura. Por isso, eles derivam, em primeiro lugar, de um apelo à natureza do próprio espírito humano; em segundo lugar, do exame da relação entre a mente humana e os fenômenos do universo; e, em terceiro lugar, do teísmo universal da raça humana, como resultado de ambos. Esses argumentos servem para mostrar a falta de fundamento de todas as teorias ateístas, quer excluam Deus de modo negativo, quer afirmem positivamente a sua não existência. Mas há um limite para a sua força demonstrativa como evidências humanas: precisam do reforço da influência do Espírito Santo, como credenciais divinas, e em todos os casos têm de tirar a sua força da revelação ulterior que Deus faz da sua própria essência e das suas perfeições.

A CONSTITUIÇÃO DA NATUREZA HUMANA.

Na natureza humana. As primeiras e melhores credenciais da existência de um Ser Supremo encontram-se nos elementos da própria natureza humana.

1. A forma mais simples do argumento deve ser buscada na Moral. constituição moral do homem, que, na razão ou consciência, proclama a existência de um Legislador Supremo e, nos seus desejos e aspirações, a existência de um Objeto Supremo, com o qual foi feita para ter comunhão. Esses são elementos da nossa natureza, e não resultado da educação; são primários, intuitivos e universais, e recusam de saída toda discussão sobre a sua origem. Se a consciência moral é a consciência no plano moral (a única definição correta dela), ela implica um mundo espiritual no qual o homem nasce, tanto quanto a consciência em geral implica o mundo natural. Se ela é a razão, ou o coração, ou a personalidade central do homem, dá um testemunho, soberano na alma, de um Poder que governa com justiça e odeia a iniquidade. A lei racional da nossa natureza é a sua lei moral. Ela aponta para um Governante santo, que ela sugere ou a quem apela, acima do mundo visível, no qual nada é capaz de despertar as emoções dela. E o sentimento universal de dependência de um Ser ou de uma Pessoa superior a nós reforça esse argumento: o mesmo coração humano que treme diante de uma autoridade acima de si anseia por poder confiar nele. A isso se pode chamar a demonstração MORAL.

I, 237Ontológico. 2. Esse argumento é conhecido e lido por todos. Outra linha de raciocínio, também baseada na constituição da nossa natureza, não é, contudo, tão evidente, ou não é tão imediatamente evidente para todas as mentes. Consiste nisto: há no espírito ou na razão do homem uma ideia clara de um Ser Perfeito, e tem de haver uma realidade objetiva que lhe corresponda. O argumento é apresentado de várias formas. Por exemplo: não podemos conceber a não existência do espaço e do tempo; tem de haver uma Substância Infinita, da qual estes sejam os acidentes, ou que esteja no fundamento deles. As ideias de infinito, de eternidade e de absoluto têm de ter uma realidade em algum lugar: muitos que negaram o ser de Deus viram-se obrigados a revestir a matéria ou o mundo de algumas dessas qualidades. São leis primárias do pensamento e sugerem fortemente aquilo que talvez não sejam capazes de provar. Em todo caso, protestam silenciosamente contra o antiteísmo em todas as suas formas. A esta classe pertencem todos esses argumentos impressionantes, e para certos tipos de mente muito convincentes, que dela derivam: as ideias de bondade infinita e de verdades imutáveis na alma, que têm de ter o seu fundamento último num Ser de bondade e verdade absolutas e essenciais. As Ideias platônicas, essenciais e não fenomênicas, têm de ser eternamente inerentes a um Supremo Perfeito. Foram elaborados inúmeros argumentos que não passam de variações deste. Eles mostram ao mesmo tempo a sua força e a sua fraqueza na tese de Descartes de que o pensamento de Deus implica a existência de Deus. Esse raciocínio chama-se ONTOLÓGICO e, às vezes, por abuso do termo, A PRIORI. É abstrato demais para o uso comum e, da forma como costuma ser apresentado, o seu raciocínio é na verdade A POSTERIORI: infere um Ser Divino a partir de premissas que já estão dentro de nós; e, a rigor, pertence à próxima divisão da nossa demonstração.

I, 238O UNIVERSO EXTERIOR.

No universo. Os argumentos tirados dos fenômenos do universo dividem-se em dois ramos intimamente relacionados e, em certo sentido, idênticos.

Cosmológico. 1. Em primeiro lugar, o raciocínio COSMOLÓGICO exige uma causa suficiente para todo efeito; por isso, às vezes é chamado argumento etiológico, de αἰτία, causa. Tem sido usado em todas as épocas, dentro e fora da esfera da revelação. Agostinho deu-lhe nobre expressão quando disse: Interrogavi mundi molem de Deo meo, et respondit mihi: non ego sum, sed ipse me fecit [Interroguei a mole do mundo acerca do meu Deus, e ela me respondeu: Não sou eu, mas ele me fez] (Agostinho, Confissões X, 6). Mas as primeiras palavras da Bíblia respondem de antemão ao apelo por uma razão suficiente de todas as coisas, uma Causa permanente de toda a existência fenomênica e transitória. A ideia de causalidade é uma lei primária do pensamento, que não nasce da observação da sequência nas coisas. A mente do homem exige uma causa do seu próprio ser e do universo que o rodeia: a Causa Primeira Eterna é uma necessidade absoluta do pensamento. Muitas têm sido as discussões sobre a natureza da causalidade e a origem da nossa noção dela. Tudo o que fizeram foi ajudar-nos, ao insistir em que não temos o direito de supor que toda existência tenha de ter aquilo que chamamos causa. Não conseguem derrubar a nossa convicção de que todo acontecimento e todo efeito de origem conhecida têm de ter uma razão para a sua existência ou ocorrência. A criação material é um universo: só a conhecemos como tal; e, como tal, a ciência demonstra que ela teve um começo e uma lei. Não há nada absolutamente permanente na matéria tal como a conhecemos; não podemos segui-la para além dos seus arranjos; a sua constituição última é uma composição de átomos. E, para o universo tal como o conhecemos, tem de ter havido uma Causa de Poder e Sabedoria sobrenaturais. Isso vale para toda combinação de moléculas e para o próprio universo estupendo. Nenhuma causa subordinada pode ser causa no sentido próprio. A mente só descansa numa Causa não causada: livre, inteligente e, talvez possamos acrescentar, onipotente.

Teleológico. 2. Em segundo lugar, a forma TELEOLÓGICA deste argumento (de τέλος, o fim) observa as infinitas provas de uma Mente que planeja, presentes nas leis e na ordenação do universo. Não se trata de Causas Finais, às quais a mente humana é incapaz de subir, isto é, de finais no sentido de últimas. Trata-se da adaptação de cada coisa a um fim em si mesma, e também de todas as coisas a fins que se relacionam com outras coisas, unidas num só Físico-teológico. agregado ou unidade. Este argumento físico-teológico tira os seus materiais da criação em toda parte, e também da adaptação das faculdades mentais e espirituais do homem ao mundo que o rodeia. Por isso, o campo em que ele se espraia é literalmente ilimitado. Todas as ciências físicas fornecem ao argumento, sem o saber, as suas premissas; e nenhuma ciência sadia, física ou metafísica, rejeita a conclusão. A matemática, o alfabeto da ciência física, apenas detecta as leis quantitativas do universo. E toda ciência, sem exceção, mostra que a ordem, a adaptação e as harmonias da natureza são tais que tornam as probabilidades nada menos que infinitas contra a hipótese do Caos, ou da ausência da nossa inteligência planejadora [N. do T.: assim no original, our designing intelligence; entenda-se a Inteligência que planeja, cuja existência o argumento sustenta]. As palavras de Newton sobre a astronomia valem para todas as regiões da ciência: Elegantissima hæcce compages solis, planetarum, et cometarum et stellarum non nisi consilio et dominio entis cujusdam potentis et intelligentis oriri potuit [Esta elegantíssima estrutura do sol, dos planetas, dos cometas e das estrelas não poderia ter surgido senão do desígnio e do domínio de um ser poderoso e inteligente]. E tudo o que se diz das adaptações da natureza inorgânica e orgânica pode-se dizer da relação da mente humana com o todo. O argumento cumulativo é literalmente irresistível para todos, exceto para os que negam por completo as causas finais e, com essa negação, fazem de tudo o resultado do acaso.

I, 239O CONSENSUS GENTIUM [CONSENSO DOS POVOS].

Crença universal. Essas duas classes de argumentos, separadamente ou em conjunto, de modo consciente ou inconsciente, têm influenciado amplamente o pensamento geral da humanidade. O mundo tem sido mais ou menos TEÍSTA desde o princípio: a ideia de um mundo sobrenatural e de seres sobrenaturais nunca esteve ausente. Esse é o testemunho da Escritura; a história universal concorda com ele; e o próprio fato é um forte auxiliar subordinado de todos os outros raciocínios. A chamada ciência moderna das religiões comparadas prestou um bom serviço ao mostrar que até as formas de perversão do teísmo dão testemunho da verdade: o politeísmo e o panteísmo, que não passam de distorções da única grande ideia e que, na maior parte, dividiram entre si a humanidade, são evidências quase universais da força das conclusões tiradas da constituição da natureza humana e das evidências de poderes inferiores controlados pelo Poder Supremo no universo. A religião natural é, ao mesmo tempo, prova da força irresistível desses argumentos e, ela mesma, um argumento a mais.

I, 240LIMITE DE TODO ARGUMENTO.

Limitações. Isso nos leva a considerar o valor ou a suficiência da argumentação sobre este assunto; em outras palavras, a questão de saber se a existência de Deus pode, de algum modo, ser demonstrada. Há uma limitação que se pode atribuir à própria grande questão, e também outra que se pode atribuir à mente daquele que não crê.

Na mente incrédula. 1. Não se pode negar que a perversão do intelecto humano sob a influência do mal é tal que ele pode recusar-se a aceitar, ou ser incapaz de perceber, a evidência da existência de um Ser como aquele que esses argumentos demonstram. O homem pode afundar num estado tal que chegue a julgar-se ateu; de fato, pode suprimir por completo a ideia de Deus na sua natureza. Embora, de modo geral, o ateísmo puro seja raro, e mais raro ainda o antiteísmo, ou seja, a revolta contra a possibilidade da existência de um só Governante do universo, ambos se encontram entre homens de inteligência indiscutivelmente vigorosa. É um fenômeno que se pode explicar bem. Pode-se dizer com justiça que, em geral, a ideia de Deus só é rejeitada no sentido de ser disfarçada. A Força desconhecida e incognoscível da filosofia da Nesciência [N. do T.: “nesciência”, o não saber, é o termo que Pope usa para o agnosticismo], ou o Absoluto panteísta que evolui em todas as coisas, não passa do Criador cristão sob um nome muito indigno. O materialista moderno, cujo credo é “Conheço a matéria e conheço a força; mas Deus, o que é?”, está afirmando, sem o saber, o Poder que nega: pertence à classe dos seres humanos que, por meio da sua injustiça, suprimem a verdade (Rm 1.18). A injustiça deles pode não ser um desafio deliberado às leis eternas da moralidade; mas é, com toda a certeza, injustiça para com as exigências mais claras e explícitas da sua própria natureza, que clama pelo Deus vivo.

No próprio argumento. 2. Mas o argumento que se levanta para provar o ser do Supremo está, sem dúvida, cercado de muitas dificuldades. Elas se encontram sobretudo nas anomalias do mundo moral, considerado como sujeito à vontade de uma suposta Providência divina: anomalias que se refletem, por assim dizer, no mundo físico, como esfera dessa Providência. Teremos de enfrentar essas dificuldades mais adiante, em muitos pontos em que elas pesam de modo especial. Por ora, basta dizer que tais obstáculos à fé produzem efeitos diferentes em mentes diferentes. A alguns levam ao ATEÍSMO puro, isto é, à simples omissão da noção de Deus da soma das coisas, de modo que nada resta senão um universo material cuja energia cega, sem direção e sem causa tem no pensamento a sua forma mais alta. Mas isso pode tomar uma forma cética e recusar-se a pronunciar-se sobre a não existência de Deus. Pode objetar ao sistema do MATERIALISMO ou do POSITIVISMO, por ser positivo de modo pouco filosófico, e contentar-se com a afirmação da NESCIÊNCIA. Mas pode também remoer de tal modo as distorções do universo conhecido que chegue a um ANTITEÍSMO desolado e ousado, que declara impossível a existência de um só Supremo, ao mesmo tempo todo-poderoso e infinitamente amoroso.

I, 241Segredo do antiteísmo. 3. Um dos segredos desse sentimento antiteísta entre os homens é deixar de pesar bem o argumento inteiro, por todos os lados. Nenhuma demonstração isolada basta por si mesma. Cada uma dá e recebe força quando é vista como um elemento de um raciocínio que dispõe de recursos ilimitados. Uma visão estreita das coisas, que fixa o pensamento numa só dissonância fascinante, pode levar à rejeição de Deus; uma visão larga e ampla do todo, como que por uma necessidade do pensamento sob a supremacia de alguma vasta unidade de governo, jamais pode aceitar nem o ateísmo nem o antiteísmo. Mas outro segredo é que a perturbação causada pelo pecado tornou necessária uma afirmação divina do próprio Deus. O homem pode recusar-se a crer e, à força de argumentar, chegar a algo muito parecido com livrar e despojar a sua mente de toda ideia de divindade. Por isso, em segundo lugar, todas as demonstrações que se costumam dar da existência do Supremo não passam de preliminares da revelação da natureza divina pelo Verbo eterno e pelo Espírito eterno. Na verdade, e falando com ousadia, elas servem mais aos que já creem do que aos que não creem. Seja como for, mesmo a melhor exposição dos argumentos em favor da existência da Divindade deixa o assunto incompleto, até que a revelação da sua natureza, do seu nome e dos seus atributos dê à demonstração a sua coroa e o seu acabamento.

I, 242A NOÇÃO DE DEUS.

Noção de Deus. A revelação é, no sentido mais elevado, teologia, ou seja, a ciência do conhecimento de Deus. Esse conhecimento deve ser considerado, primeiro, como possível ao homem e, depois, como comunicado a ele. O primeiro ponto envolve a questão de em que sentido o homem pode conhecer o Ser Supremo e Absoluto; o segundo, a questão de que maneira esse Ser revelou a sua essência e os seus atributos à sua criatura capaz desse conhecimento. A concepção da natureza divina que é possível ao homem é, por necessidade, parcial e limitada; mas é conhecimento verdadeiro, visto que corresponde à realidade no seu Objeto; e, para a regulação da vida de fé do homem, é suficiente. O estabelecimento dessas proposições mostrará a harmonia entre toda filosofia sã e a revelação divina.

A NOÇÃO DE DEUS, PARCIAL, MAS REAL E SUFICIENTE.

Conhecimento de Deus limitado. I. Quando a Escritura fala de Deus como aquele que habita em luz inacessível, a quem ninguém jamais viu, nem é capaz de ver (1Tm 6.16), quer dizer o mesmo que a filosofia quer dizer quando afirma que não podemos definir o Infinito no nosso pensamento. Não podemos compreender Deus, no sentido de entendê-lo na sua essência, nos seus atributos e nas suas relações universais. Deus cognosci potest, comprehendi non potest [Deus pode ser conhecido, mas não pode ser compreendido]. Não podemos esquadrinhá-lo e descobri-lo com perfeição. Ele é, e há de ser, para toda faculdade criada, e isso para sempre, em certo sentido um DEUS DESCONHECIDO. Só o Infinito pode conhecer o Infinito. Pode-se dizer que o testemunho de são Paulo, citado acima, encerra a longa série de testemunhos da Escritura sobre esse assunto. Depois de uma abundância sem fim de revelações, em que o conhecimento que o homem tem de Deus é afirmado com quase todas as variações do termo conhecimento, esse testemunho declara que, em certo sentido, Deus ainda permanece incompreensível. Algo já foi dito sobre esse assunto quando se tratou da revelação, e algo se dirá ao tratarmos dos atributos divinos; agora será necessário apenas mostrar que a doutrina bíblica da incognoscibilidade de Deus medeia entre dois extremos do pensamento filosófico. Por um lado, ela corrige o erro de que não pode haver conhecimento algum do Ser divino como objeto de fé; e, por outro, corrige o erro de que o Ser divino é, ou pode ser, revelado de modo perfeito na razão do homem.

I, 243Deus insondável. 1. Por paradoxal que pareça, é verdade que a teologia tem de defender a doutrina da insondabilidade da Divindade. Há uma filosofia panteísta e transcendental que, em certo sentido, faz do homem a medida de Deus e se gaba de que a razão humana é capaz de conhecer o Supremo no mesmo sentido e na mesma medida em que é capaz de qualquer outro conhecimento. Esse erro pode ser visto sob dois aspectos.

Razão. (1.) Ele exagera a prerrogativa da razão como órgão da verdade. Por razão entende-se aqui aquela faculdade transcendental que, segundo se supõe, toma conhecimento do Infinito de modo intuitivo. Segundo Hegel, que, apesar de toda a sua obscuridade, é o melhor representante dessa filosofia panteísta, Deus conhece a si mesmo no homem; a consciência humana de Deus é a própria consciência dele, que se expressa no pensamento humano de modo mais ou menos distinto, conforme a medida do intelecto, mas sempre como uma clara intuição do Infinito. Há na humanidade uma razão infinita, impessoal e divina, da qual cada indivíduo tem a sua parte; em suma, o conhecimento que o homem tem de Deus é simplesmente Deus conhecendo a si mesmo nele. Por isso, Deus é o homem em miniatura, e o homem é um fragmento de Deus.

O homem não é a medida de Deus. (2.) Esse erro faz do homem a medida da Divindade e reduz a essência suprema a uma criação subjetiva da própria mente humana. Aquele que é infinito e absoluto é trazido para dentro dos limites do pensamento humano, sendo apenas a negação do finito, ou o seu correlativo: o finito e o infinito são, cada um, uma concepção distinta, e encontram a sua unidade no termo Deus. Mas dessa negativa, ou negação, ao nada positivo dos antigos místicos panteístas não há mais que um passo. Essa filosofia, que professa fazer de Deus simplesmente o que ele é para nós e em nós, na verdade o afasta a uma distância sem medida: ele está ἐπέκεινα πασῆς οὐσίας [além de toda essência], o ser superessencial, que, naturalmente, não é ser nenhum. Assim os extremos se tocam: a Divindade que é encerrada nos limites do pensamento humano e é trazida perto demais é, na realidade, lançada para longe (Jr 23.23). Uma teoria tão temerária, de um conhecimento perfeito do Infinito por uma faculdade humana que é o próprio Deus dentro de nós, na verdade destrói por completo o conhecimento do Ser infinito e eterno.

I, 244Limitação. (3.) Por isso, devemos gravar na mente o fato de que todo o nosso conhecimento de Deus é limitado: limitado em nós para sempre, porque somos criaturas; limitado na maneira como nos é comunicado, porque somos criaturas cujas faculdades de conhecimento estão, em si mesmas, sujeitas às limitações do tempo e do espaço; e limitado ainda mais, porque as nossas faculdades estão debilitadas e perturbadas pelo pecado.

Deus não é incognoscível. 2. A filosofia religiosa moderna tem mostrado uma tendência a ir ao extremo oposto e a exagerar o caráter impensável e incognoscível de Deus. Os limites do pensamento religioso são definidos por uma teoria estreita demais, que postula três coisas: que não pode haver conhecimento algum do Absoluto como Pessoa, pois uma personalidade absoluta e incondicionada é inconcebível e incogitável; que aquilo que não podemos conhecer de Deus podemos, ainda assim, e devemos crer, a despeito da razão; e que, por consequência, todo o nosso conhecimento de Deus é simplesmente Conhecimento Regulador, que não corresponde à verdade nele, mas nos é dado nesta vida para dirigir os nossos pensamentos e a nossa vida. [N. do T.: Pope alude a The Limits of Religious Thought (1858), de Henry L. Mansel, que, seguindo William Hamilton, defendia essa teoria e chamava de “regulador” o nosso conhecimento de Deus.] Sobre essa teoria podem-se fazer algumas observações, como preparação para o princípio seguinte: o de que o nosso conhecimento de Deus, até onde vai, é real.

Petitio principii. (1.) Ela dá por resolvido, do começo ao fim, justamente o que está em questão. Presume conhecer aquele mesmo Absoluto e Infinito que declara não conhecer. Ela mesma está pensando o impensável e concebendo o inconcebível. Como sabe que o Infinito não pode ser uma Pessoa, que infinitude e personalidade são termos contraditórios? Como sabe que a personalidade é, em essência, uma limitação e uma relação? Assim é numa criatura finita; mas quem, não conhecendo o Ser infinito, pode ousar dizer que assim é com ELE, ou com ISSO? Aqui se poderia deixar todo o assunto: essa hipótese perigosa é, em todos os pontos, uma flagrante petitio principii [petição de princípio].

Desonra à razão e à fé. (2.) Ela desonra tanto a razão que deprecia quanto a fé que enaltece. Faz a razão declarar que uma consciência infinita é uma contradição, que não pode haver uma causa absoluta de coisa alguma que não seja ela mesma; e, ao mesmo tempo, exige que a fé aceite o que a razão nega de modo absoluto. Isso põe a razão e a fé num conflito dos mais incongruentes, em que uma degrada a outra. Se a posição fosse esta, que a razão é a faculdade que julga segundo os sentidos, e a fé, a faculdade que leva a razão à região da existência espiritual, corrigindo o seu erro e suprindo as suas deficiências, poderíamos entendê-la e aceitá-la. Mas a ideia de que a fé é obrigada a aceitar o que não só está acima da razão, mas é diretamente contradito por ela, a ideia de que a fé se dirige a um Objeto totalmente desconhecido e totalmente incognoscível, é uma suposição que mina os fundamentos da verdade.

I, 245Conhecimento regulador. 3. Essa teoria leva a consequências muito perigosas, visto que ensina a doutrina de um conhecimento meramente regulador. A própria palavra regulador indica o perigo: o nosso conhecimento de Deus nos é dado para dirigir não só os nossos pensamentos, mas também a nossa vida. Se os nossos pensamentos sobre ele não correspondem à realidade, o Autor da nossa constituição mental nos força a crer no que não é verdadeiro. Mas Deus, que não pode errar, não pode enganar-nos. Se a nossa consciência e o nosso senso de responsabilidade diante de um Juiz, se os nossos anseios de comunhão com um Pai pessoal não têm realidades que lhes correspondam, onde está a nossa religião, e onde o evangelho em que ela se apoia? Não há como exagerar a importância do que está em jogo aqui.

Real e verdadeiro. II. Mas o conhecimento que temos de Deus é, portanto, um conhecimento real. Há muitas maneiras pelas quais apraz ao Supremo revelar-se; mas todas implicam que ele nos dá uma percepção verdadeira da sua própria natureza, até onde essa percepção alcança. Ele não nos engana quanto ao seu ser; e a concepção mental de si mesmo, para a qual nos educa, corresponde à realidade: assim o nosso conhecimento é real enquanto está em nós e real enquanto é conhecimento dele.

Conhecimento. 1. Aqui tudo depende do sentido e da extensão do termo conhecimento; e, além disso, muito depende também da distinção entre o conhecimento em geral e o conhecimento específico que, na Escritura, é apropriado ao nosso uso no que diz respeito à Divindade.

Relação entre sujeito e objeto. (1.) Conhecimento é a relação verdadeira e reta da mente que conhece com o objeto conhecido. Deus é a verdade absoluta, e, quando as nossas concepções são conformes a esse objeto, conhecemos a Deus. Ora, é da essência do Infinito que ele excede o conhecimento; e a concepção de um Ser que não pode ser plenamente compreendido na sua natureza eterna é um conhecimento verdadeiro dele, um conhecimento em nós conforme à verdade nele. A concepção do termo geral para Deus é fiel à sua natureza. Faz parte da verdade dessa concepção não pretender perceber, por apresentação imediata, a própria essência de Deus. Em sentido nenhum ela presume ver a Deus. Mas é verdadeiro o conhecimento que temos dele, assim como é verdadeiro o conhecimento que temos da nossa alma, que não vemos, da existência da matéria, que não vemos, e de todos os demais objetos do nosso conhecimento, no que diz respeito à natureza deles em si mesmos e à parte das suas propriedades secundárias. Não há definição de conhecimento que não admita que conhecemos a Deus de verdade.

I, 246Conhecimento superior da fé. (2.) Mas é preciso lembrar que as Escrituras distinguem o conhecimento ligado à verdadeira fé de todo outro tipo de conhecimento. Elas admitem que os gentios conheceram a Deus; e o conhecimento deles estava, em certo sentido, ligado à sua fé no testemunho da própria consciência e do mundo exterior. Essa fé chegou a um ponto muito alto em alguns dos mais esclarecidos dentre os pagãos; por exemplo, em Platão, cuja definição de Deus jamais foi superada em sublimidade: A luz é a sombra da Divindade, Lumen est umbra Dei, et Deus est Lumen luminis [e Deus é a Luz da luz]. Nem precisamos duvidar de que as influências do Espírito divino ardiam na mente de muitos dos antigos filósofos, para os quais, como disse Jâmblico, Esse nostrum est Deum cognoscere, conhecer a Deus é o nosso próprio ser. Não devemos, porém, esquecer que, desde que vimos o Pai em Cristo (Jo 14.9), tanto a fé quanto o conhecimento se revestiram da sua perfeição. A fé em Jesus foi fortalecida para contemplar, mais diretamente do que antes, o seu Objeto eterno; a nossa concepção obscura foi transfigurada na certeza do conhecimento: γνῶσις [conhecimento] tornou-se, por assim dizer, ἐπίγνωσις [pleno conhecimento]. A noção que o homem tem do Ser divino passou, neste mundo, pela sua mudança final; e a realidade do nosso conhecimento tornou-se mais real. Pode-se dizer que os termos mais enfáticos que se poderiam empregar são empregados para descrever o conhecimento íntimo que nos é possível ter do Ser divino.

Ens reale e ens rationis. 2. É o conhecimento verdadeiro de uma realidade em Deus, daquele ENS REALE [ente real] que corresponde ao ENS RATIONIS [ente de razão] na mente humana. Aqui devemos lembrar que não ficamos entregues à especulação ontológica ou metafísica. O pressuposto da nossa teologia é que Deus se revela ao homem como a um ser feito à sua própria imagem e lhe permite inferir, no seu Criador, a perfeição daquilo que nele mesmo é imperfeito. Todo o curso da Escritura sanciona e incentiva esse modo de ver. O que se chama ANTROPOMORFISMO é Antropomorfismo. o estilo adotado pelo Todo-Poderoso quando fala e age como homem. Esse é o método predominante da Bíblia, em que Deus fala ao homem como à cópia finita do seu Eu infinito. Ele diz: os meus pensamentos não são os pensamentos de vocês (Is 55.8), mas só no sentido de serem mais nobres; e: os caminhos de vocês não são os meus caminhos, mas só no sentido de serem melhores. Ele não nos engana quando nos encoraja a pensar que as mesmas coisas são verdadeiras nele e em nós (1Jo 2.8). Personalidade, poder, bondade, verdade, amor são reflexos da sua imagem em nós; realidades em nós que correspondem a realidades nele. Aquele que fez o ouvido será que não ouve? Aquele que formou os olhos será que não enxerga? (Sl 94.9). Essa é a poesia do antropomorfismo; mas ela ensina a verdade profunda de que somos transcrições de um Arquétipo eterno, segundo o qual somos refeitos ao sermos conformados à imagem do Deus invisível, o Filho de Deus encarnado, o primogênito de toda a criação (Cl 1.15). A encarnação é a garantia de que a natureza humana pode ter um conhecimento verdadeiro do divino.

I, 247Suficiente. III. O conhecimento de que o homem é capaz, e que ele recebe, é suficiente: suficiente para o fim da provação no seu estado presente, em que ele apenas espera, no limiar do conhecimento eterno, a visão mais direta de Deus.

Regulador no verdadeiro sentido. 1. Há um sentido importante em que a expressão moderna Conhecimento Regulador é rigorosamente apropriada e pode ser resgatada do seu mau uso. Trata-se de uma revelação adaptada à nossa condição de provação; e, como tal, é suficiente para o nosso culto e o nosso dever, para a nossa esperança e o nosso temor, para a nossa contemplação e o nosso desejo. Por ora temos uma apresentação refletida, como num espelho, de forma obscura; o nosso conhecimento é incompleto (1Co 13.12). Mas é preciso lembrar que o Salvador, o único Revelador, nos assegurou quão elevado é esse conhecimento regulador e imperfeito. Ele é isso, de fato, mas muito mais do que isso: é a luz da vida (Jo 8.12). O Salvador o apresenta, com a maior ênfase, como continuação e dádiva do seu próprio conhecimento divino-humano: ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar (Mt 11.27). O Ser que o Novo Testamento revela é muito diferente da forma abstrata e inconcebível de ser, antes algo do que alguém, que a filosofia moderna quer pôr no seu lugar. Um Deus assim, sem forma e vazio, nem o conhecimento do entendimento nem o conhecimento do coração se contentarão em receber.

I, 248Teologia do caminho. 2. Os teólogos de outrora distinguiam entre uma THEOLOGIA VIATORUM e uma THEOLOGIA BEATORUM: a teologia dos peregrinos e a teologia dos bem-aventurados. Sobre a noção futura de Deus, de que a visão beatífica será o meio, a Escritura nos diz que será aquela que agora temos, levada à perfeição. Depois CONHECEREMOS como também SOMOS CONHECIDOS (1Co 13.12): o conhecimento incompleto não será trocado por um conhecimento mais verdadeiro, mas apenas por um conhecimento mais pleno. Um conhecimento é a preparação do outro e passará (1Co 13.8): passará apenas enquanto sobrecarregado de símbolos e imagens e das inumeráveis restrições da carne, que pesa sobre o espírito incorruptível; passará apenas como passou a antiga lei, quando desapareceu e, contudo, reapareceu numa nova lei, a lei do evangelho eterno.

Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. I, pp. 231-248, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.