Tratado · 1774

Reflexões sobre a escravidão

“De um só homem fez todas as nações para habitarem sobre a face da terra.”

Atos 17.26

Antes de ler

Em 1774, quando o tráfico de escravos era um dos negócios mais lucrativos da Inglaterra, Wesley publicou este apelo. Ele descreve a terra e os povos de onde os africanos eram arrancados, o modo como eram capturados, transportados e tratados nas colônias, e responde aos argumentos de quem defendia o comércio. Termina com um apelo direto aos capitães, aos comerciantes e aos fazendeiros, e com uma oração pelos escravizados.

Pouco antes de morrer, em fevereiro de 1791, Wesley ainda escreveu a William Wilberforce encorajando-o na luta contra o tráfico. A Igreja Metodista Livre nasceu em 1860, nos Estados Unidos, também em oposição à escravidão. O texto conserva a linguagem e as informações da época, que foram traduzidas com fidelidade.

REFLEXÕES

SOBRE

A ESCRAVIDÃO.

QUINTA EDIÇÃO.

Por JOHN WESLEY, A. M.

[Ilustração]

LONDRES:

Impresso por G. PARAMORE, North Green, Worship-Street; e vendido por G. Whitfield, na Capela, City-Road; e nas casas de pregação metodistas, na cidade e no interior. 1792.

[Preço: dois pence.]

I. 1. Por escravidão entendo a escravidão doméstica, ou seja, a de um servo em relação a um senhor. Um engenhoso escritor recente observa muito bem: “A variedade de formas em que a escravidão aparece torna quase impossível transmitir dela uma noção justa por meio de uma definição. Há, porém, certas propriedades que acompanharam a escravidão na maioria dos lugares, pelas quais ela se distingue facilmente daquele brando serviço doméstico que vigora em nosso país.”[1]

[1] Veja-se o arrazoado do sr. Hargrave em favor de Somerset, o negro.

2. A escravidão implica uma obrigação de serviço perpétuo, obrigação que só o consentimento do senhor pode dissolver. Em alguns países, nem mesmo o senhor pode dissolvê-la sem o consentimento de juízes designados pela lei. Ela geralmente dá ao senhor um poder arbitrário de aplicar qualquer castigo que não atinja a vida ou os membros. Às vezes, até estes ficam expostos à sua vontade, ou são protegidos apenas por uma multa ou por alguma pena leve, insignificante demais para conter um senhor de temperamento áspero. Ela cria a incapacidade de adquirir qualquer coisa, a não ser em benefício do senhor. Permite ao senhor alienar o escravo da mesma forma que aliena suas vacas e seus cavalos. Por fim, transmite-se em toda a sua extensão de pais para filhos, até a última geração.

3. Seu começo pode ser datado do período mais remoto de que temos notícia na história. Começou no estado bárbaro da sociedade e, com o passar do tempo, espalhou-se por todas as nações. Prevaleceu especialmente entre os judeus, os gregos, os romanos e os antigos germanos, e foi transmitida por eles aos diversos reinos e Estados que surgiram do Império Romano. Mas, depois que o cristianismo prevaleceu, ela foi gradualmente entrando em declínio em quase todas as partes da Europa. Essa grande mudança começou na Espanha, por volta do fim do século VIII, e já se tornara geral na maioria dos outros reinos da Europa antes de meados do século XIV.

4. Desde então, a escravidão esteve quase extinta, até o começo do século XVI, quando a descoberta da América e das costas ocidental e oriental da África deu ocasião ao seu ressurgimento. Ela teve origem com os portugueses, que, para suprir os espanhóis de homens que cultivassem suas novas possessões na América, obtiveram negros da África e os venderam como escravos aos espanhóis da América. Isso começou no ano de 1508, quando importaram os primeiros negros para Hispaniola. Em 1540, Carlos V, então rei da Espanha, decidiu pôr fim à escravidão dos negros, dando ordens expressas de que todos os escravos negros dos domínios espanhóis fossem postos em liberdade. E assim foi feito por Lagasca, a quem ele enviou com poderes para libertar todos eles, sob a condição de continuarem a trabalhar para seus senhores. Mas, pouco depois que Lagasca voltou à Espanha, a escravidão voltou e floresceu como antes. Mais tarde, outras nações, à medida que adquiriam possessões na América, seguiram o exemplo dos espanhóis; e a escravidão lançou raízes profundas na maioria de nossas colônias americanas.

II. Essa é a natureza da escravidão; esse foi o começo da escravidão dos negros na América. Mas alguns talvez queiram saber: de que país são trazidos os negros? Que tipo de homens são eles, de que temperamento e comportamento, em seu próprio país? E de que maneira são geralmente obtidos, levados para a América e ali tratados?

1. Em primeiro lugar, que tipo de país é esse de onde eles são trazidos? Será tão notavelmente horrível, lúgubre e estéril que tirá-los de lá seja uma bondade? Creio que muitos pensaram assim; mas é um completo engano, se pudermos dar crédito aos que viveram ali por muitos anos e não teriam motivo algum para deturpar os fatos.

2. A parte da África de onde os negros são trazidos, comumente conhecida pelo nome de Guiné, estende-se ao longo da costa, ao todo, por três a quatro mil milhas. Do rio Senegal (dezessete graus ao norte da linha do equador) até o cabo de Serra Leoa, compreende setecentas milhas. Dali segue para o leste por cerca de mil e quinhentas milhas, abrangendo a Costa dos Grãos, a Costa do Marfim, a Costa do Ouro e a Costa dos Escravos, com o grande reino de Benin. Dali segue para o sul por cerca de mil e duzentas milhas, e compreende os reinos do Congo e de Angola.

3. Quanto à primeira, a costa do Senegal, Monsieur Bene, que ali viveu dezesseis anos, depois de descrever sua fertilidade perto do mar, diz: “Quanto mais se afasta do mar, mais fértil e bem cultivada é a terra, com abundância de legumes, milho e frutas variadas. Há aqui vastas pastagens, que alimentam grandes rebanhos de gado graúdo e miúdo. E as aldeias, muito próximas umas das outras, mostram que a terra é bem povoada.” E ainda: “Fiquei surpreso ao ver a terra tão bem cultivada; quase nenhum pedaço ficava sem aproveitamento. As terras baixas, divididas por pequenos canais, estavam todas semeadas de arroz; as terras mais altas estavam plantadas de milho e de ervilhas de vários tipos. A carne de boi é excelente; as aves, abundantes e muito baratas, como todas as coisas necessárias à vida.”

4. Quanto à Costa dos Grãos e à Costa do Marfim, sabemos por testemunhas oculares que o solo é em geral fértil, produzindo arroz e raízes em abundância. O anil e o algodão vingam sem cultivo. O peixe é muito abundante; os rebanhos e as manadas são numerosos, e as árvores andam carregadas de frutos.

5. A Costa do Ouro e a Costa dos Escravos, todos os que as viram concordam, são extremamente férteis e agradáveis, e produzem enormes quantidades de arroz e de outros grãos, frutas e raízes em quantidade, vinho e óleo de palma, e peixe em grande abundância, com muito gado manso e selvagem. Exatamente o mesmo relato nos é dado sobre o solo e a produção dos reinos de Benin, do Congo e de Angola. Daí se vê que a Guiné em geral, longe de ser um país horrível, lúgubre e estéril, é um dos mais férteis e também dos mais agradáveis do mundo conhecido. Diz-se, é verdade, que é insalubre. E de fato o é para os estrangeiros, mas é perfeitamente saudável para os habitantes nativos.

6. Esse é o país de onde os negros são trazidos. Passamos agora a investigar que tipo de homens eles são, de que temperamento e comportamento, não em nossas fazendas, mas em sua terra natal. E aqui também o caminho mais seguro é tomar o relato de testemunhas oculares e auditivas. Ora, os que viveram na região do Senegal observam que ela é habitada por três nações: os jalofos, os fulas e os mandingas. O rei dos jalofos tem sob si vários ministros, que o ajudam na administração da justiça. O juiz principal percorre todos os seus domínios para ouvir queixas e resolver as contendas. E o vice-rei vai com ele, para inspecionar a conduta do alcaide, ou governador de cada aldeia. Os fulas são governados por seus chefes, que governam com muita moderação. Poucos deles bebem algo mais forte que água, pois são maometanos estritos. O governo é fácil, porque o povo é de índole tranquila e boa, e tão bem instruído no que é reto que o homem que lesa a outro é abominado por todos. Não desejam mais terra do que a que usam, e a cultivam com grande cuidado e diligência. Se se sabe que algum deles foi feito escravo pelos homens brancos, todos se unem para resgatá-lo. Não apenas sustentam todos os que entre eles são velhos, cegos ou aleijados, mas muitas vezes têm suprido as necessidades dos mandingas quando estes se viam afligidos pela fome.

7. Os mandingas, diz Monsieur Brue, são maometanos legítimos, que não bebem nem vinho nem aguardente. São trabalhadores e diligentes, mantêm a terra bem cultivada e criam bons rebanhos. Cada cidade tem um governador, e ele distribui o trabalho do povo. Os homens trabalham a terra destinada ao milho; as mulheres e as meninas, a terra do arroz. Depois ele reparte entre eles o milho e o arroz, e decide todas as brigas, se surgir alguma. Todos os negros maometanos vão regularmente às orações públicas três vezes por dia, havendo em cada aldeia um sacerdote que os convoca com regularidade; e é surpreendente ver a modéstia, a atenção e a reverência que guardam durante o culto. Essas três nações praticam vários ofícios: têm ferreiros, seleiros, oleiros e tecelões. E são muito engenhosos em suas diversas ocupações. Seus ferreiros não só fazem todos os instrumentos de ferro de que precisam, mas também trabalham com esmero muitas peças de ouro e prata. São principalmente as mulheres e as crianças que tecem um fino pano de algodão, que tingem de azul e de preto.

8. Foi a respeito dessas partes da Guiné que Monsieur Adanson, correspondente da Real Academia de Ciências de Paris, de 1749 a 1753, dá o seguinte relato, tanto da terra quanto do povo: “Para qualquer lado que voltasse os olhos, eu contemplava uma imagem perfeita da natureza pura: uma agradável solidão, limitada por todos os lados por uma paisagem encantadora; a disposição rústica das choupanas, no meio das árvores; o sossego e a tranquilidade dos negros, reclinados à sombra da folhagem copada, com a simplicidade de suas roupas e de seus costumes. Tudo isso me trouxe de volta à mente a ideia de nossos primeiros pais, e parecia-me contemplar o mundo em seu estado primitivo. Eles são, de modo geral, muito bondosos, sociáveis e prestativos. Fiquei não pouco satisfeito com a primeira acolhida que tive, e ela me convenceu plenamente de que se deve descontar bastante dos relatos que temos sobre o caráter selvagem dos africanos.” E acrescenta: “É assombroso que um povo iletrado raciocine com tanta propriedade a respeito dos corpos celestes. Não há dúvida de que, com os instrumentos adequados, eles se tornariam excelentes astrônomos.”

9. Os habitantes da Costa dos Grãos e da Costa do Marfim são descritos pelos que negociam com eles como sensatos, corteses e os comerciantes mais honestos das costas da Guiné. Raramente bebem em excesso; se alguém o faz, é severamente punido por ordem do rei. Raramente são perturbados pela guerra; se surge uma desavença entre duas nações, geralmente põem fim à disputa de modo amigável.

10. Também os habitantes da Costa do Ouro e da Costa dos Escravos, quando não são astuciosamente incitados uns contra os outros, vivem em grande união e amizade, sendo geralmente de bom temperamento, civis, dóceis e prontos a ajudar quem precisa. Em particular, os nativos do reino de Ajudá são civis, bondosos e prestativos com os estrangeiros. E são os mais cavalheirescos de todos os negros, cheios de boas maneiras uns para com os outros. Os inferiores prestam o máximo respeito aos superiores, assim como as esposas aos maridos e os filhos aos pais. E são notavelmente trabalhadores; todos estão sempre ocupados: os homens na agricultura, as mulheres fiando e tecendo algodão.

11. A Costa do Ouro e a Costa dos Escravos estão divididas em vários distritos, alguns governados por reis, outros pelos homens principais, cada um dos quais cuida de sua própria cidade ou aldeia e previne ou apazigua os tumultos. Punem severamente o homicídio e o adultério, muitas vezes com a morte. O furto e o roubo são punidos com uma multa proporcional aos bens tomados. Todos os nativos dessa costa, embora pagãos, creem que há um só Deus, autor deles e de todas as coisas. Parecem ter também uma noção confusa de um estado futuro. E, de acordo com isso, toda cidade e aldeia tem um lugar de culto público. É notável que não haja mendigos entre eles, tamanho é o cuidado dos homens principais, em cada cidade e aldeia, de providenciar algum trabalho leve até para os velhos e fracos. Alguns se ocupam em soprar o fole do ferreiro; outros, em prensar óleo de palma; outros, em moer tintas. Se são fracos demais até para isso, vendem mantimentos no mercado.

12. Os nativos do reino de Benin são um povo razoável e de boa índole. São sinceros e inofensivos, e não cometem injustiça nem uns contra os outros nem contra os estrangeiros. São extremamente civis e corteses: se você lhes dá um presente, procuram retribuí-lo em dobro. E, se lhes dão crédito até que o navio volte no ano seguinte, com certeza pagam honestamente a dívida inteira. O furto é punido entre eles, embora não com a mesma severidade que o homicídio. Se um homem e uma mulher de alguma condição são apanhados em adultério, são infalivelmente mortos, e seus corpos são lançados num monturo e deixados como presa para os animais selvagens. São rigorosamente justos e honestos em seus negócios, e também muito caridosos: o rei e os grandes senhores cuidam de empregar todos os que são capazes de algum trabalho. E os que são totalmente incapazes, eles os sustentam por amor de Deus; de modo que aqui também não há mendigos. Os habitantes do Congo e de Angola são geralmente um povo tranquilo. Mostram bom entendimento e tratam os estrangeiros de maneira amistosa, sendo de temperamento brando e de trato afável. De modo geral, portanto, os negros que habitam a costa da África, desde o rio Senegal até os limites meridionais de Angola, estão tão longe de ser os bárbaros estúpidos, insensatos, embrutecidos e preguiçosos, os selvagens ferozes, cruéis e pérfidos que têm sido descritos, que, ao contrário, são retratados por aqueles que não têm motivo algum para lisonjeá-los como notavelmente sensatos, considerando as poucas oportunidades que têm de aperfeiçoar o entendimento; como trabalhadores no mais alto grau, talvez mais do que quaisquer outros nativos de clima tão quente; como leais, justos e honestos em todos os seus negócios, a não ser onde os homens brancos lhes ensinaram o contrário; e como muito mais brandos, amistosos e bondosos para com os estrangeiros do que jamais foram quaisquer de nossos antepassados. Nossos antepassados! Onde encontraremos hoje, entre os nativos de rosto claro da Europa, uma nação que pratique em geral a justiça, a misericórdia e a verdade que se encontram entre esses pobres africanos? Supondo que os relatos acima sejam verdadeiros (e não vejo razão nem pretexto para duvidar deles), podemos deixar a Inglaterra e a França para buscar a honestidade genuína em Benin, no Congo ou em Angola.

III. Vimos agora que tipo de país é aquele de onde os negros são trazidos, e que tipo de homens eles eram em seu próprio país (sendo juízes até mesmo os homens brancos). Investiguemos, em terceiro lugar, de que maneira eles são geralmente obtidos, levados para a América e ali tratados.

1. Primeiro. De que maneira são obtidos? Parte deles, por fraude. Capitães de navios, de tempos em tempos, convidavam negros a subir a bordo e depois os levavam embora. Mas muito mais foram obtidos pela força. Os cristãos, desembarcando em suas costas, agarravam todos os que encontravam, homens, mulheres e crianças, e os transportavam para a América. Foi por volta de 1551 que os ingleses começaram a comerciar com a Guiné: a princípio, em ouro e dentes de elefante, mas logo depois, em homens. Em 1556, Sir John Hawkins navegou com dois navios até Cabo Verde, onde mandou oitenta homens à terra para capturar negros. Mas, como os nativos fugiram, eles desceram mais adiante pela costa e ali desembarcaram os homens, “para queimar suas cidades e prender os habitantes”. Encontraram, porém, tal resistência que tiveram sete homens mortos e só apanharam dez negros. Então desceram ainda mais, até que, tendo apanhado o bastante, seguiram para as Índias Ocidentais e os venderam.

2. Passou-se algum tempo até que os europeus descobrissem um modo mais expedito de obter escravos africanos: convencendo-os a guerrear uns contra os outros e a vender seus prisioneiros. Até então, raramente tinham guerras, e eram em geral tranquilos e pacíficos. Mas os homens brancos primeiro lhes ensinaram a embriaguez e a avareza, e depois os contrataram para venderem uns aos outros. Mais ainda: por esse meio, até os seus reis são induzidos a vender os próprios súditos. Assim nos informa o sr. Moore (feitor da Companhia Africana em 1730): “Quando o rei de Barsalli quer mercadorias ou aguardente, manda avisar o governador inglês do Forte James, que imediatamente envia uma chalupa. Para quando ela chegar, ele saqueia algumas das cidades de seus vizinhos e vende o povo pelas mercadorias que deseja. Outras vezes, cai sobre uma de suas próprias cidades e tem o atrevimento de vender os próprios súditos.” Assim também diz Monsieur Brue: “Escrevi ao rei” (não o mesmo) “que, se ele tivesse um número suficiente de escravos, eu negociaria com ele. Ele prendeu trezentos do seu próprio povo e mandou dizer que estava pronto para entregá-los em troca de mercadorias.” E acrescenta: “Alguns dos nativos estão sempre prontos” (quando bem pagos) “a surpreender e levar embora os próprios compatriotas. Vêm à noite, sem ruído, e, se encontram alguma choupana isolada, cercam-na e levam embora toda a gente.” Barbot (outro feitor francês) diz: “Muitos dos escravos vendidos pelos negros são prisioneiros de guerra, ou foram apanhados nas incursões que fazem no território de seus inimigos. Outros são roubados. Grande número de pequenos negros de ambos os sexos são roubados por seus vizinhos, quando encontrados fora de casa, na estrada ou no mato, ou então nos campos de milho, na época do ano em que os pais os deixam ali o dia inteiro para espantar as aves que devoram a plantação.” Que os próprios pais os vendam é inteiramente falso. São os brancos, e não os negros, que não têm afeição natural!

3. Para pôr em luz ainda mais forte a maneira como os negros são obtidos, bastará dar um extrato de duas viagens à Guiné com esse propósito. O primeiro foi tirado palavra por palavra do manuscrito original do diário do cirurgião de bordo.

“SESTRO, 29 de dezembro de 1724. Nenhum comércio hoje, embora muitos negociantes tenham vindo a bordo. Informaram-nos que o povo foi para a guerra terra adentro e trará prisioneiros suficientes dentro de dois ou três dias; na esperança disso, ficamos.

“Dia 30. Nenhum comércio ainda; mas nossos negociantes vieram a bordo hoje e nos informaram que o povo havia queimado quatro cidades, de modo que amanhã esperamos receber escravos.

“Dia 31. Tempo bom, mas nenhum comércio ainda. Vemos cidades queimando todas as noites. Mas ouvimos que muitos dos homens de Sestro foram mortos pelos negros do interior, de modo que tememos que esta guerra seja malsucedida.

“Dia 2 de janeiro. Ontem à noite vimos irromper um incêndio prodigioso por volta das onze horas, e esta manhã vemos a cidade de Sestro queimada até o chão.” (Tinha algumas centenas de casas.) “De modo que vemos que seus inimigos são, no momento, fortes demais para eles, e que, por conseguinte, nosso comércio aqui está arruinado. Por isso, por volta das sete horas, levantamos âncora para seguir mais abaixo pela costa.”

4. O segundo extrato, tirado do diário de um cirurgião que partiu de Nova York no mesmo comércio, é o seguinte: “O comandante do navio mandou avisar o rei de que queria uma carga de escravos. O rei prometeu fornecê-la e, para isso, partiu com o intuito de surpreender alguma cidade e fazer prisioneiro todo o povo. Algum tempo depois, o rei mandou dizer-lhe que ainda não tivera o êxito desejado, pois tentara destruir duas cidades, mas fora repelido duas vezes; mas que ainda esperava obter o número de escravos. Persistiu nesse intento até se encontrar com os inimigos em campo aberto. Travou-se uma batalha que durou três dias. E o combate foi tão sangrento que quatro mil e quinhentos homens foram mortos ali mesmo.” Essa é a maneira como os negros são obtidos! É assim que os cristãos pregam o evangelho aos pagãos!

5. Assim são obtidos. Mas em que número e de que maneira são levados para a América? O sr. Anderson, em sua história do comércio, observa: “A Inglaterra supre suas colônias americanas com escravos negros em número de cerca de cem mil por ano.” Isto é, esse é o número dos que são embarcados em nossos navios; mas pelo menos dez mil deles morrem na viagem, e cerca de uma quarta parte a mais morre nas diversas ilhas, no que se chama de aclimatação. De modo que, em média, entre a travessia e a aclimatação, morrem trinta mil, isto é, a rigor, são assassinados. Ó terra, ó mar, não cubram o sangue deles!

6. Quando são trazidos até a praia para serem vendidos, nossos cirurgiões os examinam minuciosamente, e completamente nus, mulheres e homens, sem distinção alguma; os aprovados são postos de um lado. Enquanto isso, um ferro em brasa, com as armas ou o nome da Companhia, fica no fogo, e com ele são marcados no peito. Antes de serem postos nos navios, seus senhores lhes arrancam tudo o que trazem no corpo, de modo que entram a bordo inteiramente nus, mulheres tanto quanto homens. É comum que várias centenas deles sejam postas a bordo de um só navio, onde são arrumados juntos no menor espaço possível em que se consiga amontoá-los. É fácil imaginar em que condição eles logo devem ficar, entre o calor, a sede e o fedor de vários tipos. De modo que não é de admirar que tantos morram na travessia; antes, é de admirar que algum sobreviva a ela.

7. Quando os navios chegam ao porto de destino, os negros são de novo expostos nus aos olhos de todos os que acorrem ali e ao exame de seus compradores; depois são separados para as fazendas de seus diversos senhores, para nunca mais se verem. Ali se podem ver mães debruçadas sobre as filhas, banhando de lágrimas o peito nu delas, e filhas agarradas aos pais, até que o açoitador logo os obriga a se separarem. E o que pode haver de mais miserável do que a condição em que então ingressam? Banidos para sempre de sua terra, de seus amigos e parentes, de todo conforto da vida, são reduzidos a um estado em quase nada preferível ao dos animais de carga. Em geral, umas poucas raízes, e não das melhores, geralmente inhames ou batatas, são o seu alimento; e dois trapos, que não os protegem nem do calor do dia nem do frio da noite, são a sua roupa. Seu sono é muito curto; seu trabalho, contínuo, e muitas vezes acima de suas forças; de modo que a morte põe muitos deles em liberdade antes de terem vivido metade de seus dias. O horário em que trabalham nas Índias Ocidentais vai do raiar do dia ao meio-dia, e das duas horas até escurecer. Durante esse tempo são vigiados por capatazes que, se os acham vagarosos ou acham que algo não foi tão bem feito quanto deveria, os açoitam sem nenhuma misericórdia, de modo que se podem ver seus corpos, muito tempo depois, cobertos de vergões e cicatrizes, geralmente dos ombros até a cintura. E, antes que lhes permitam ir para suas senzalas, costumam ter ainda algo a fazer, como juntar capim para os cavalos ou recolher lenha para as caldeiras. De modo que muitas vezes já passa da meia-noite quando conseguem chegar em casa. Por isso, se a comida não está preparada, às vezes são chamados de novo ao trabalho antes de poderem matar a fome. E nenhuma desculpa vale. Se não estiverem imediatamente no campo, podem esperar sentir o chicote. Terá o Criador planejado que as mais nobres criaturas do mundo visível vivessem uma vida como esta! “São estas as tuas obras gloriosas, ó Pai do bem?”

8. Quanto aos castigos que lhes são infligidos, diz Sir Hans Sloane: “Com frequência os castram ou lhes cortam meio pé, depois de serem açoitados até ficarem em carne viva por todo o corpo. Alguns lhes põem pimenta e sal por cima; outros lhes pingam cera derretida sobre a pele. Outros lhes cortam as orelhas e os obrigam a assá-las e comê-las. Por rebelião” (isto é, por reivindicarem a liberdade que lhes é natural, à qual têm tanto direito quanto ao ar que respiram) “prendem-nos ao chão com estacas curvas em cada membro e depois, aplicando fogo aos poucos aos pés e às mãos, vão queimando-os gradualmente para cima, até a cabeça.”

9. Mas as leis feitas nas fazendas das colônias não haverão de prevenir ou reparar toda crueldade e opressão? Tomaremos apenas algumas dessas leis como amostra, e depois qualquer pessoa julgue.

Para rebitar a corrente da escravidão, a lei da Virgínia determina: “Que nenhum escravo seja posto em liberdade, sob pretexto algum, exceto por algum serviço meritório, a ser julgado e aprovado pelo governador e pelo Conselho; e que, quando algum escravo for posto em liberdade por seu dono de outro modo que não o aqui determinado, os oficiais leigos da paróquia em que tal negro residir pelo espaço de um mês ficam por esta autorizados e obrigados a prender e vender o dito negro em leilão público.”

10. Não haverão estes legisladores de cuidar eficazmente de prevenir a crueldade e a opressão?

A lei da Jamaica determina: “Todo escravo que fugir e permanecer ausente de seu senhor por doze meses será considerado rebelde.” E, por outra lei, concedem-se cinquenta libras a quem matar ou trouxer vivo um escravo rebelde. Assim, a lei deles trata esses pobres homens com tão pouca cerimônia e consideração como se fossem meros animais brutos! Mas o sangue inocente derramado em consequência de uma lei tão detestável há de clamar por vingança contra os assassinos que apoiam e praticam uma maldade tão deliberada.

11. Mas a lei de Barbados vai além até disso: “Se algum negro, sob castigo aplicado por seu senhor, ou por ordem dele, por fuga ou por qualquer outro crime ou delito, sofrer dano na vida ou em algum membro, nenhuma pessoa, seja quem for, ficará sujeita a multa alguma por isso. Mas, se algum homem, por capricho, ou só por sede de sangue ou intenção cruel, matar deliberadamente um negro de sua propriedade” (agora observem a severidade do castigo!) “pagará ao tesouro público quinze libras esterlinas! E não ficará sujeito a nenhuma outra pena ou confisco por isso!”

Muito próxima desta é aquela lei da Virgínia: “Depois de publicado edital contra escravos que fogem, é lícito a qualquer pessoa, seja quem for, matar e destruir tais escravos, pelos modos e meios que julgar conveniente.”

Já vimos alguns dos modos e meios que foram julgados convenientes em tais ocasiões. E muitos outros poderiam ser mencionados. Um cavalheiro, quando eu estava no exterior, julgou conveniente assar vivo o seu escravo! Mas, se o ato mais natural de “fugir” de uma tirania intolerável merece tão implacável severidade, que castigo esses legisladores devem esperar no futuro, por causa de suas próprias ofensas enormes?

IV. 1. Esta é a pura verdade dos fatos, sem exagero. Essa é a maneira como nossos escravos africanos são obtidos; essa, a maneira como são tirados de sua terra natal e como são tratados em nossas fazendas. Eu gostaria agora de perguntar se essas coisas podem ser defendidas segundo os princípios até mesmo da honestidade pagã. Se podem ser conciliadas (deixando a Bíblia fora da questão) com algum grau de justiça ou de misericórdia.

2. O grande argumento é: “Elas são autorizadas por lei.” Mas pode a lei, a lei humana, mudar a natureza das coisas? Pode transformar as trevas em luz, ou o mal em bem? De modo nenhum. Apesar de dez mil leis, o certo continua sendo certo, e o errado continua sendo errado. Ainda há de permanecer uma diferença essencial entre justiça e injustiça, entre crueldade e misericórdia. De modo que continuo perguntando: quem pode conciliar esse tratamento dado aos negros, do começo ao fim, com a misericórdia ou com a justiça?

Onde está a justiça de infligir os males mais graves àqueles que não nos fizeram mal algum? De privar de todo conforto da vida aqueles que nunca nos ofenderam por palavra ou por obra? De arrancá-los de sua terra natal e privá-los da própria liberdade? Liberdade à qual um angolano tem o mesmo direito natural que um inglês, e à qual dá um valor igualmente alto? Sim, onde está a justiça de tirar a vida de homens inocentes e inofensivos? De assassinar milhares deles em sua própria terra, pelas mãos de seus próprios compatriotas; muitos milhares, ano após ano, a bordo dos navios, para depois lançá-los ao mar como esterco! E dezenas de milhares naquela cruel escravidão a que são tão injustamente reduzidos?

3. Mas, deixando de lado, por ora, todas as outras considerações, vou à raiz dessa complicada vilania. Nego absolutamente que a posse de escravos seja compatível com qualquer grau de justiça natural.

Não posso pôr isso em luz mais clara do que já o fez aquele grande ornamento de sua profissão, o juiz Blackstone. Parte de suas palavras é a seguinte:

“As três origens do direito de escravidão apontadas por Justiniano estão todas construídas sobre fundamentos falsos. 1. Diz-se que a escravidão nasce do cativeiro na guerra. O vencedor, tendo direito à vida de seu cativo, se a poupa, tem então o direito de dispor dele como lhe aprouver. Mas é falso, tomado de modo geral, que pelo direito das gentes um homem tenha o direito de matar seu inimigo. Ele só tem o direito de matá-lo em casos particulares, em casos de absoluta necessidade de legítima defesa. E é evidente que essa absoluta necessidade não existia, visto que ele não o matou, mas o fez prisioneiro. A própria guerra só é justificável com base no princípio da autopreservação. Portanto, ela não nos dá direito algum sobre os prisioneiros, a não ser o de impedi-los de nos fazer mal, mantendo-os presos. Muito menos pode dar o direito de torturar, matar ou mesmo escravizar um inimigo depois de terminada a guerra. Visto, pois, que o direito de fazer de nossos prisioneiros escravos depende de um suposto direito de matá-los, caindo esse fundamento, deve cair igualmente a consequência que dele se tira.”

“Diz-se, em segundo lugar, que a escravidão pode começar quando um homem se vende a outro. E é verdade que um homem pode vender-se para trabalhar para outro; mas não pode vender-se para ser escravo, no sentido definido acima. Toda venda implica um equivalente dado ao vendedor em troca do que ele transfere ao comprador. Mas que equivalente pode ser dado pela vida ou pela liberdade? Também a propriedade dele, junto com o próprio preço que ele parece receber, passa ipso facto ao seu senhor no instante em que se torna seu escravo; nesse caso, portanto, o comprador nada dá. Que validade pode ter, então, uma venda que destrói o próprio princípio sobre o qual se fundam todas as vendas?”

“Dizem-nos, em terceiro lugar, que os homens podem nascer escravos, por serem filhos de escravos. Mas, estando isso construído sobre os dois direitos anteriores, deve cair juntamente com eles. Se nem o cativeiro nem o contrato podem, pela clara lei da natureza e da razão, reduzir o pai a um estado de escravidão, muito menos podem reduzir a ele os filhos.” Daí se segue claramente que toda escravidão é tão inconciliável com a justiça quanto com a misericórdia.

4. Que a posse de escravos é inteiramente incompatível com a misericórdia é quase evidente demais para precisar de prova. Na verdade, diz-se: “Esses negros, sendo prisioneiros de guerra, nossos capitães e feitores os compram apenas para salvá-los de serem mortos. E isso não é misericórdia?” Respondo: 1. Sir John Hawkins e muitos outros agarraram homens, mulheres e crianças que estavam em paz em seus próprios campos e casas apenas para salvá-los da morte? 2. Foi para salvá-los da morte que arrebentaram os miolos daqueles que não conseguiam levar consigo? 3. Quem ocasionou e fomentou aquelas guerras em que essas pobres criaturas foram feitas prisioneiras? Quem as incitou, com dinheiro, com bebida, por todos os meios possíveis, a cair umas sobre as outras? Não foram eles mesmos? Eles sabem, em sua própria consciência, que foram, se ainda lhes resta alguma consciência. Mas, 4., para resolver a questão em poucas palavras: podem eles dizer diante de Deus que alguma vez fizeram uma única viagem ou compraram um único negro por esse motivo? Não podem. Sabem muito bem que ganhar dinheiro, e não salvar vidas, era a única e exclusiva mola de suas ações.

5. Mas, se essa maneira de obter e arrancar negros de sua terra não é compatível nem com a misericórdia nem com a justiça, há contudo um argumento em seu favor que todo homem de negócios reconhecerá como plenamente suficiente. Há cinquenta anos, alguém que encontrou um eminente estadista no saguão da Câmara dos Comuns lhe disse: “O senhor tem falado muito tempo sobre justiça e equidade. Diga-me: o que é este projeto de lei? Equidade ou justiça?” Ele respondeu, curto e direto: “Que se dane a justiça: é necessidade.” Aqui também o senhor de escravos firma o pé; aqui ele apoia toda a força de sua causa. “Se não é inteiramente certo, ainda assim tem de ser assim: há uma absoluta necessidade disso. É necessário que obtenhamos escravos; e, uma vez obtidos, é necessário tratá-los com severidade, considerando sua estupidez, sua teimosia e sua maldade.”

Respondo: você tropeça logo na soleira. Nego que a vilania seja jamais necessária. É impossível que alguma vez seja necessário a uma criatura racional violar todas as leis da justiça, da misericórdia e da verdade. Nenhuma circunstância pode tornar necessário a um homem romper todos os laços da humanidade. Nunca pode ser necessário a um ser racional rebaixar-se abaixo de um animal bruto. Um homem não pode estar sob nenhuma necessidade de degradar-se até se tornar um lobo. O absurdo da suposição é tão gritante que é de admirar que alguém deixe de vê-lo.

6. Isso, em geral. Mas, para ser mais preciso, pergunto: 1. O que é necessário? E, em segundo lugar, para que fim? Pode-se responder: “Todo o método agora usado pelos compradores originais de negros é necessário para abastecer nossas colônias, a cada ano, com cem mil escravos.” Concedo que isso é necessário para esse fim. Mas como é necessário esse fim? Como você provará que é necessário que cem, que um só desses escravos seja obtido? “Ora, é necessário para que eu ganhe cem mil libras.” Talvez seja; mas como isso é necessário? É bem possível que você fosse um homem melhor e mais feliz se não tivesse a quarta parte disso. Nego que ganhar mil libras seja necessário à sua felicidade, presente ou eterna. “Mas, seja como for, você há de admitir que esses escravos são necessários para o cultivo de nossas ilhas, visto que os homens brancos não conseguem trabalhar em climas quentes.” Respondo: 1. Seria melhor que todas essas ilhas ficassem sem cultivo para sempre; sim, seria mais desejável que fossem inteiramente afundadas nas profundezas do mar do que serem cultivadas a um preço tão alto quanto a violação da justiça, da misericórdia e da verdade. Mas, em segundo lugar, a suposição em que você baseia seu argumento é falsa. Pois os homens brancos, até mesmo os ingleses, são bem capazes de trabalhar em climas quentes, desde que sejam moderados no comer e no beber e se acostumem a isso aos poucos. Não falo mais do que sei por experiência. Pelo termômetro se vê que o calor do verão na Geórgia é frequentemente igual ao de Barbados, e até ao que se sente sob a linha do equador. E, no entanto, eu e minha família (oito pessoas) empregávamos ali todo o nosso tempo livre em derrubar árvores e limpar o terreno, trabalho tão pesado quanto qualquer outro em que um negro precise ser empregado. A família alemã, igualmente, de quarenta pessoas, se ocupava em toda sorte de trabalhos. E isso esteve tão longe de prejudicar a nossa saúde que todos continuamos perfeitamente bem, enquanto os ociosos ao nosso redor eram varridos como por uma peste. Não é verdade, portanto, que os homens brancos não consigam trabalhar, mesmo em climas quentes, tão bem quanto os negros. Mas, se não conseguissem, seria melhor que ninguém trabalhasse ali, que o trabalho ficasse por fazer, do que miríades de homens inocentes serem assassinados e outras miríades serem arrastadas para a mais vil escravidão.

7. “Mas abastecer-nos de escravos é necessário para o comércio, para a riqueza e para a glória da nossa nação.” Aqui há vários enganos. Pois, 1., a riqueza não é necessária à glória de nação alguma; mas sim a sabedoria, a virtude, a justiça, a misericórdia, a generosidade, o espírito público, o amor à pátria. Estas coisas são necessárias à verdadeira glória de uma nação; a abundância de riquezas, não. Os homens de entendimento admitem que a glória da Inglaterra era tão alta no tempo da rainha Elizabeth quanto é agora, embora nossas riquezas e nosso comércio fossem então tanto menores quanto nossa virtude era maior. Mas, em segundo lugar, não é claro que teríamos menos dinheiro ou menos comércio (apenas menos daquele detestável comércio de roubo de gente) se não houvesse um único negro em todas as nossas ilhas, ou em toda a América inglesa. É demonstrável que os homens brancos, acostumados a isso aos poucos, podem trabalhar tão bem quanto eles; e o fariam, se os negros estivessem fora do caminho e lhes fosse dado o devido incentivo. Contudo, em terceiro lugar, volto ao mesmo ponto: melhor nenhum comércio do que um comércio obtido pela vilania. É muito melhor não ter riqueza alguma do que obtê-la à custa da virtude. Melhor é a pobreza honesta do que todas as riquezas compradas com as lágrimas, o suor e o sangue de nossos semelhantes.

8. “Seja como for, quando temos escravos, é necessário tratá-los com severidade.” O quê? Açoitá-los por qualquer falta pequena, até ficarem todos banhados em sangue? Aproveitar a ocasião para esfregar pimenta e sal em sua carne viva? Pingar lacre fervente sobre a pele deles? Castrá-los? Cortar-lhes meio pé com um machado? Pendurá-los em forcas, para que morram aos poucos, de calor, de fome e de sede? Prendê-los ao chão com estacas e depois queimá-los aos poucos, dos pés à cabeça? Assá-los vivos? Quando foi que um turco ou um pagão achou necessário tratar assim um semelhante?

Pergunto: para que fim é necessário esse tratamento? “Ora, para impedir que fujam, e para mantê-los constantemente no trabalho, a fim de que não percam o tempo na ociosidade. Tão miseravelmente estúpida é essa raça de homens; sim, tão teimosa e tão má.” Admitindo que sejam tão estúpidos como você diz, a quem se deve essa estupidez? Sem dúvida a culpa está inteiramente à porta de seus senhores desumanos, que não lhes dão nenhum meio, nenhuma oportunidade de aperfeiçoar o entendimento; e, de fato, não lhes deixam nenhum motivo, nem de esperança nem de medo, para tentar tal coisa. Eles não eram de modo algum notáveis pela estupidez enquanto permaneciam em seu próprio país. Os habitantes da África, onde têm iguais motivos e iguais meios de aperfeiçoamento, não são inferiores aos habitantes da Europa; e são muito superiores a alguns deles. Observe com imparcialidade, em seu próprio país, os nativos de Benin e os nativos da Lapônia. Compare (deixando de lado o preconceito) os samoiedos e os angolanos. De que lado está a vantagem quanto ao entendimento? Certamente o africano não é em nada inferior ao europeu. A estupidez deles em nossas fazendas, portanto, não é natural, a não ser no sentido de que é o efeito natural de sua condição. Por conseguinte, a culpa não é deles, mas sua: você terá de responder por isso diante de Deus e dos homens.

9. “Mas a estupidez deles não é a única razão de os tratarmos com severidade. Pois é difícil dizer o que é maior, isso ou a teimosia e a maldade deles.” Pode ser; mas não estão também estas coisas, tanto quanto a outra, à sua porta? Não são a teimosia, a astúcia, os pequenos furtos e diversos outros vícios os frutos naturais e necessários da escravidão? Não é esta uma observação feita em todas as épocas e em todas as nações? E que meios você usou para remover essa teimosia? Já experimentou o que a brandura e a mansidão podem fazer? Conheci um que o fez, que teve a prudência e a paciência de fazer a experiência: o sr. Hugh Bryan, que então vivia nas divisas da Carolina do Sul. E qual foi o efeito? Ora, todos os seus negros (e ele tinha não pequeno número deles) o amavam e o reverenciavam como a um pai, e o obedeciam de bom grado, por amor. Sim, tinham mais medo de uma cara feia dele do que de muitos golpes de um capataz. E que esforço você fez, que método você usou para resgatá-los de sua maldade? Você lhes ensinou cuidadosamente

“Que há um Deus, um ser sábio, poderoso e misericordioso, Criador e Governador do céu e da terra? Que ele marcou um dia em que há de julgar o mundo e pedir contas de todos os nossos pensamentos, palavras e ações? Que naquele dia ele há de recompensar cada filho do homem segundo as suas obras: que ‘então’ os justos herdarão ‘o Reino que está preparado para’ eles ‘desde a fundação do mundo’, e os ímpios serão lançados no ‘fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos'” (Mt 25.34, 41)? Se você não fez isso, se não teve nenhum cuidado nem pensamento a esse respeito, pode admirar-se da maldade deles? Que admira se eles lhe cortassem a garganta? E, se o fizessem, a quem você poderia agradecer por isso senão a si mesmo? Foi você quem primeiro agiu como vilão, ao fazê-los escravos (quer os tenha roubado, quer os tenha comprado). Você os manteve estúpidos e maus, privando-os de toda oportunidade de progredir em conhecimento ou em virtude; e agora alega a falta de sabedoria e de bondade deles como razão para tratá-los pior do que a animais brutos!

V. 1. Resta apenas fazer uma breve aplicação das observações precedentes. Mas a quem deve ser feita essa aplicação? Isso pode ser posto em questão. Devemos dirigir-nos ao público em geral? Que efeito isso pode ter? Pode inflamar o mundo contra os culpados, mas não é provável que remova essa culpa. Devemos apelar à nação inglesa em geral? Isso também é atirar longe do alvo, e dificilmente obterá algum remédio para o grave mal de que nos queixamos. Tampouco adiantaria, com toda a probabilidade, recorrer ao Parlamento. Tantas coisas que parecem de maior importância estão diante dele que não é provável que dê atenção a esta. Por isso, acrescento algumas palavras àqueles que estão mais diretamente envolvidos, sejam capitães, comerciantes ou fazendeiros.

2. E, em primeiro lugar, aos capitães empregados neste comércio. A maioria de vocês conhece a terra da Guiné, ao menos várias partes dela, entre o rio Senegal e o reino de Angola. Talvez agora, por meio de vocês, parte dela se tenha tornado um deserto lúgubre e inculto, tendo sido seus habitantes todos assassinados ou levados embora, de modo que não resta ninguém para lavrar a terra. Mas vocês sabem muito bem quão populosa, quão fértil, quão agradável ela era há poucos anos. Vocês sabem que o povo não era estúpido nem falto de juízo, considerando os poucos meios de aperfeiçoamento de que dispunha. Nem o acharam selvagem, feroz, cruel, traiçoeiro ou rude com os estrangeiros. Ao contrário, era, na maioria das regiões, um povo sensato e engenhoso. Eram bondosos e amistosos, corteses e prestativos, e notavelmente leais e justos em seus negócios. Esses são os homens que vocês pagam aos seus próprios compatriotas para arrancar daquela terra tão bela: parte às escondidas, parte à força, parte feitos cativos naquelas guerras que vocês provocam ou fomentam de propósito. Vocês os viram arrancados, os filhos dos pais, os pais dos filhos, os maridos das esposas, as esposas dos maridos amados, irmãos e irmãs uns dos outros. Vocês arrastaram de sua praia natal, talvez acorrentados, homens que nunca lhes tinham feito mal algum. Forçaram para dentro de seus navios, como uma vara de porcos, homens que tinham almas tão imortais quanto as de vocês (só que alguns deles saltaram no mar e ficaram resolutamente debaixo d’água, até não poderem mais sofrer nada nas mãos de vocês). Vocês os arrumaram juntos, tão apertados quanto lhes era possível ficar deitados, sem nenhuma consideração pela decência ou pelo conforto. E, quando muitos deles tinham sido envenenados pelo ar viciado ou tinham sucumbido a diversos sofrimentos, vocês viram seus restos entregues ao abismo, até que o mar entregue os seus mortos. Vocês levaram os sobreviventes para a mais vil escravidão, que só termina com a vida: escravidão tal que não se encontra entre os turcos de Argel, não, nem entre os pagãos da América.

3. Posso falar-lhe com franqueza? Preciso. O amor me constrange: amor a você, tanto quanto àqueles com quem você lida.

Existe um Deus? Você sabe que existe. É ele um Deus justo? Então deve haver um estado de retribuição, um estado em que o Deus justo recompensará cada homem segundo as suas obras. Então que recompensa ele dará a você? Ah, pense nisso a tempo! Antes de cair na eternidade! Pense agora: “o juízo é sem misericórdia sobre quem não usou de misericórdia” (Tg 2.13). Você é um homem? Então deveria ter um coração humano. Mas será que tem mesmo? De que é feito o seu coração? Não há nele nenhum princípio de compaixão? Você nunca sente a dor alheia? Não tem nenhuma solidariedade? Nenhum senso da desgraça humana? Nenhuma piedade dos miseráveis? Quando você viu os olhos rasos de lágrimas [N. do T.: a edição usada traz “flourishing eyes”, provável erro de impressão por “flowing eyes”, olhos que choram.], os peitos ofegantes, ou os flancos sangrando e os membros torturados de seus semelhantes, você era uma pedra ou um animal bruto? Olhou para eles com olhos de tigre? Quando você espremia as criaturas agonizantes no porão do navio, ou quando lançava ao mar os seus pobres restos mutilados, não sentiu nenhum abrandamento? Não lhe caiu dos olhos uma lágrima, não lhe escapou do peito um suspiro? Não sente nenhum abrandamento agora? Se não sente, há de continuar até que se encha a medida de suas iniquidades. Então o grande Deus tratará você como você tratou a eles, e pedirá contas, das suas mãos, de todo o sangue deles. E naquele dia haverá menos rigor para Sodoma e Gomorra do que para você! Mas, se o seu coração se abranda, ainda que em pequeno grau, saiba que é um chamado do Deus de amor. E hoje, se você ouvir a sua voz, não endureça o coração. Hoje mesmo, com a ajuda de Deus, decida fugir para salvar a sua vida. Não faça caso do dinheiro! Um homem é capaz de dar tudo o que tem pela sua vida! Perca o que perder, não perca a sua alma: nada pode compensar essa perda. Abandone imediatamente esse comércio horrível: aconteça o que acontecer, seja um homem honesto.

4. Isso diz respeito igualmente a todo comerciante que está envolvido no tráfico de escravos. É você que induz o vilão africano a vender seus compatriotas e, para isso, a roubar, saquear e assassinar homens, mulheres e crianças sem conta, ao dar ao vilão inglês os meios de pagá-lo por fazê-lo; e a este você paga em excesso por seu execrável trabalho. É o seu dinheiro que é a mola de tudo, que dá a ele condições de continuar; de modo que tudo o que ele ou o africano fazem nesse assunto é inteiramente obra e ato seu. E a sua consciência está inteiramente conformada com isso? Ela nunca o repreende em nada? O ouro cegou de todo os seus olhos e entorpeceu o seu coração? Você não consegue ver, não consegue sentir nenhum mal nisso? É isso fazer como você gostaria que lhe fizessem? Ponha-se no lugar deles. “Patrão”, disse um escravo em Liverpool (ao comerciante que era seu dono), “e se alguns dos meus compatriotas viessem aqui e levassem a minha patroa, e o sinhozinho Tommy e o sinhozinho Billy, e os levassem para a nossa terra e os fizessem escravos, o senhor gostaria?” A resposta dele foi digna de um homem: “Nunca mais comprarei um escravo enquanto eu viver.” Ah, que a resolução dele seja a sua! Não tenha mais parte alguma neste negócio detestável. Deixe-o imediatamente para aqueles miseráveis insensíveis “que zombam da natureza humana e da compaixão!” Seja você um homem! Não um lobo, um devorador da espécie humana! Seja misericordioso, para que alcance misericórdia!

5. E isso diz respeito igualmente a todo cavalheiro que tem propriedades em nossas fazendas americanas; sim, a todos os senhores de escravos, de qualquer posição e condição, visto que os compradores de gente estão exatamente no mesmo nível dos ladrões de gente [N. do T.: alusão a 1Tm 1.10, onde a NAA traz “sequestradores”.]. Na verdade, você diz: “Pago honestamente pelas minhas mercadorias, e não me cabe saber como foram obtidas.” Não, pelo contrário, cabe sim: cabe-lhe profundamente saber se foram obtidas honestamente. Do contrário, você é cúmplice de um ladrão, e nem um pouco mais honesto do que ele. Mas você sabe que não foram obtidas honestamente: sabe que são obtidas por meios que nem de longe são tão inocentes quanto bater carteiras, arrombar casas ou assaltar na estrada. Sabe que são obtidas por uma série deliberada de vilanias mais complicadas (de fraude, roubo e assassinato) do que jamais foram praticadas por maometanos ou por pagãos; em particular, por assassinatos de toda espécie, pelo sangue dos inocentes derramado no chão como água. Ora, é o seu dinheiro que paga o comerciante, e por meio dele o capitão e os carniceiros africanos. Você, portanto, é culpado, sim, o principal culpado, de todas essas fraudes, roubos e assassinatos. Você é a mola que põe todo o resto em movimento: eles não dariam um passo sem você. Portanto, o sangue de todos esses infelizes que morrem antes do tempo, seja na terra deles, seja em outro lugar, recai sobre a sua cabeça. “A voz do sangue do seu irmão” (pois, quer você queira crer, quer não, irmão ele é aos olhos daquele que o fez) “clama da terra” (Gn 4.10) contra você, do navio e das águas. Ah, custe o que custar, faça cessar esse clamor antes que seja tarde demais: imediatamente, a qualquer preço, ainda que seja a metade dos seus bens, livre-se dos crimes de sangue! As suas mãos, a sua cama, os seus móveis, a sua casa, as suas terras estão neste momento manchados de sangue. Certamente já basta; não acumule mais culpa; não derrame mais o sangue do inocente! Não contrate outro para derramar sangue; não lhe pague para fazê-lo! Quer você seja cristão, quer não, mostre-se um homem! Não seja mais selvagem que um leão ou um urso!

6. Talvez você diga: “Eu não compro negros; apenas uso os que meu pai me deixou.” Até aí, muito bem; mas isso basta para satisfazer a sua própria consciência? Tinha o seu pai, tem você, tem qualquer homem vivo o direito de usar outro como escravo? Não pode ser, mesmo deixando de lado a revelação. Não pode ser que a guerra ou o contrato deem a algum homem sobre outro uma propriedade como a que ele tem sobre suas ovelhas e seus bois. Muito menos é possível que algum filho do homem nasça escravo. A liberdade é direito de toda criatura humana, desde o momento em que respira o ar da vida. E nenhuma lei humana pode privá-la desse direito, que lhe vem da lei da natureza.

Se você, portanto, tem alguma consideração pela justiça (para nada dizer da misericórdia, nem da lei revelada de Deus), dê a todos o que lhes é devido. Dê liberdade a quem a liberdade é devida, isto é, a todo filho do homem, a todo participante da natureza humana. Que ninguém o sirva senão por ato e decisão próprios, por sua livre escolha. Fora com todos os chicotes, todas as correntes, toda coação! Seja brando com todos os homens, e cuide de fazer sempre a cada um o que você gostaria que ele fizesse a você.

7. Ó Deus de amor, tu que és bom para com todo homem e cujas misericórdias permeiam todas as tuas obras; tu que és o Pai dos espíritos de toda a carne e que és rico em misericórdia para com todos; tu que de um só sangue fizeste todas as nações que há sobre a terra: tem compaixão destes rejeitados dentre os homens, que são pisados como esterco sobre a terra! Levanta-te e socorre estes que não têm quem os ajude, cujo sangue é derramado no chão como água! Não são também estes obra das tuas próprias mãos, comprados pelo sangue do teu Filho? Desperta-os para clamarem a ti na terra do seu cativeiro; e que o seu lamento suba à tua presença; que chegue aos teus ouvidos! Faze que até aqueles que os levam cativos tenham piedade deles, e muda a sorte do seu cativeiro como as torrentes no Sul. Ó, despedaça tu todas as suas correntes, e mais especialmente as correntes dos seus pecados: tu, Salvador de todos, liberta-os, para que sejam verdadeiramente livres!

A servil descendência de Cam
toma-a como a compra do teu sangue!
Que todos os pagãos conheçam o teu nome
e passem dos ídolos ao Deus vivo;
converte os americanos em trevas
e resplandece em todo coração pagão.

FIM

Tradução para o português a partir de Thoughts upon Slavery, 5ª edição, Londres, G. Paramore, 1792, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.

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