Documento fundador · 1780
“Sou teu; salva-me, pois eu busco os teus preceitos.”
Salmo 119.94
Em agosto de 1755, Wesley falou à sua congregação de Londres sobre um meio de aumentar a religião séria que os antepassados praticavam com muita bênção: unir-se numa aliança para servir a Deus de todo o coração. No dia 11, na igreja francesa de Spitalfields, ele recitou o teor da aliança “nas palavras daquele homem abençoado, Richard Alleine”, e cerca de mil e oitocentas pessoas se levantaram em sinal de assentimento. Assim começou o costume metodista de renovar a aliança.
Este folheto, que saiu em 1780, reproduz páginas de Vindiciae Pietatis (1663), do puritano Richard Alleine. Por isso, quando o texto diz “a Providência trouxe há pouco às minhas mãos”, quem fala é Alleine, não Wesley. A linguagem é forte e de época: o pecador se vê como um exilado que só pode escapar embarcando com Cristo, e a oração final une a alma a Cristo numa aliança de casamento. A oração da aliança usada até hoje nos cultos metodistas guarda palavras da seção IV: “emprega-me no que quiseres, coloca-me junto de quem quiseres”.
Orientações para renovar a nossa aliança com Deus.
Segunda edição. Londres: impresso por J. Paramore, na Foundery, em Moorfields; vendido na Capela Nova, na City Road, e nas casas de pregação do Rev. Sr. Wesley, na capital e no interior, 1781.
I. Fixem no coração estes três princípios: as coisas eternas são muito mais importantes do que as temporais; as coisas que não se veem são tão certas quanto as que se veem; da escolha que vocês fizerem agora depende o seu destino eterno. Escolham a Cristo e os seus caminhos, e vocês serão abençoados para sempre; recusem, e estarão perdidos para sempre. E então,
Voltem-se para a direita ou para a esquerda. Ponham os dois lados diante de si, com cada elo de cada um: Cristo, com o seu jugo, a sua cruz e a sua coroa; ou o diabo, com a sua riqueza, o seu prazer e a sua maldição. E então enfrentem a questão assim: “Alma, tu vês o que está diante de ti. Que farás? Qual queres, a coroa ou a maldição? Se escolheres a coroa, lembra que, no dia em que a tomares, terás de te contentar em aceitar a cruz e o jugo, o serviço e os sofrimentos de Cristo, que estão ligados a ela. Que dizes? Preferes tomar os ganhos e os prazeres do pecado e arriscar-te à maldição? Ou queres entregar-te como servo a Cristo e assim garantir a coroa?”
Se o coração de vocês fugir e quiser deixar o assunto de lado, não o deixem assim. Se estiverem indecisos, já decidiram; se continuarem sem se decidir por Cristo, estão decididos pelo diabo. Portanto, não desistam, mas insistam com o coração dia após dia, não lhe deem descanso até que a questão chegue a um termo, e cuidem de fazer uma boa escolha.
Isto é escolher a boa parte: Deus e a bem-aventurança do mundo vindouro como a sua porção e felicidade. E nisto está incluída a renúncia ao mundo e à felicidade mundana.
Arrisquem-se com ele. Lancem-se sobre a justiça dele, como aquilo que os levará a Deus. Pensem num pobre exilado e cativo, lançado numa terra estranha, terra de ladrões e assassinos, onde está a ponto de perecer, sem esperança de ficar ali nem de voltar vivo para casa. Encontrando por fim um piloto que se oferece para levá-lo em segurança para casa, ele embarca com esse piloto e arrisca a si mesmo e tudo o que tem naquela embarcação. Façam vocês o mesmo. Vocês são exilados da presença de Deus, caídos numa terra de ladrões e assassinos: os seus pecados são ladrões, os seus prazeres são ladrões, os seus companheiros de pecado são ladrões e salteadores. Se ficarem onde estão, perecerão, e por si mesmos não conseguirão escapar para casa. Cristo se oferece: se vocês se arriscarem com ele, ele os levará para casa e os levará a Deus. Dirão agora a ele: Senhor Jesus, queres encarregar-te de mim? Queres levar-me a Deus, levar-me à Terra Prometida? Contigo me arriscarei; lanço-me sobre ti, sobre o teu sangue, sobre a tua justiça; deposito em ti toda a minha esperança e arrisco contigo tudo o que tenho, alma e corpo.
Isto é firmar acordo com Cristo como seu Sacerdote. [N. do T.: “closing with Christ”, expressão puritana: aceitar os termos da oferta de Cristo e fechar com ele o acordo.] E nisto está incluída a renúncia à própria justiça. Vocês nunca poderão, nunca hão de se lançar somente sobre ele, enquanto toda a esperança que têm em si mesmos não tiver entregado o espírito.
Duas coisas precisam necessariamente ser pressupostas para que um pecador venha a Cristo.
1. Um profundo senso do seu pecado e da sua miséria.
2. Um completo desespero de si mesmo e de todas as coisas além de Cristo.
I. Um profundo senso do seu pecado e da sua miséria.
Ninguém fará caso de um Salvador se não se vir como pecador: os sãos não fazem caso do médico. Por isso se diz que o Espírito de Deus, quando viesse cristianizar o mundo, em primeiro lugar convenceria o mundo do pecado (Jo 16.8). Ele convencerá o mundo do pecado; demonstrará que os homens são pecadores, porá os pecados deles diante dos seus olhos, fará esses pecados pesarem sobre a consciência deles e os fará ver-se e sentir-se as mais vis e abomináveis das criaturas. O pecado se esconde dos olhos do pecador, com toda a sua vileza e deformidade. Mas o Espírito de Deus arranca o manto e faz o pecado aparecer como pecado; faz todos os deuses do pecador parecerem outros tantos demônios; traz à vista a negrura e a imundícia do pecado, faz o pecador ver-se como coisa impura e abominável. Além disso, traz à tona a culpa do pecado, põe todos esses demônios a atormentar o pecador, enchendo-o de medo, terror e espanto. Nesse sentido ele é chamado de Espírito de escravidão, que produz medo e angústia no coração. Quando o Espírito desperta um pecador adormecido, é uma espécie de despertar no inferno. Senhor, o que sou eu! Que significam estas legiões ao meu redor? Estas cadeias e grilhões que estão sobre mim? Que significa este negro rol de maldições, ira e ais diante dos meus olhos? Senhor, onde estou! Tenho estado a brincar, a divertir-me e a fazer festa, com a minha alma num estado como este? Mas não há esperança de escapar desta condição miserável? Vejo que não posso permanecer assim; sou um homem morto se continuar como estou. Que devo fazer para ser salvo?
Quando chega a esse ponto, abre-se de algum modo o caminho para que ele receba a Cristo. Mas isso não é tudo o que é necessário; ele ainda precisa ser levado a
II. Um completo desespero de si mesmo e de todas as coisas além de Cristo.
Ao tomar consciência do seu pecado e do seu perigo, o pecador procurará ajuda e livramento, mas procurará em todo lugar antes de olhar para Cristo. Nada leva um pecador a Cristo senão a necessidade absoluta. Ele tentará abandonar os seus pecados, pensará em deixar a embriaguez e tornar-se sóbrio, em deixar os seus adultérios e tornar-se casto, para ver se assim pode escapar. Irá às orações, aos sermões e aos sacramentos, e investigará se não há salvação neles. Mas, embora tudo isso seja útil no seu lugar, o pecador, se não olhar além, vê que não há socorro aí. A sua justiça não pode ajudá-lo, pois não passa de trapos. Os seus deveres não podem ajudá-lo, pois podem ser contados entre os seus pecados. Os meios da graça (ordenanças) não podem ajudar, pois não passam de cisternas vazias. E todos lhe dizem: Você está batendo à porta errada; a salvação não está em nós. Pois bem, o Senhor tenha misericórdia de mim, diz o pecador. Que farei? Ficar como estou, não ouso, e como ajudar a mim mesmo, não sei. As minhas orações não me ajudarão, ouvir a pregação não me ajudará. Ainda que eu dê todos os meus bens aos pobres, ainda que entregue o meu corpo para ser queimado, nada disso salvará a minha alma. Ai de mim! Que farei, e para onde irei?
E agora, levado a essa aflição, a esse completo desamparo, o seu desespero o empurra para a única porta de esperança que ficou aberta. Cristo será bem-vindo quando ele vir que ninguém senão Cristo pode ajudá-lo. O apóstolo nos diz: “estávamos sob a tutela da lei e nela encerrados, para essa fé que, no futuro, haveria de ser revelada” (Gl 3.23). Todas as outras portas estavam fechadas para nós; não havia esperança de escapar senão por aquela única porta deixada aberta, “essa fé que, no futuro, haveria de ser revelada”. Como os sitiados numa cidade, que têm todas as portas bloqueadas e só uma passagem difícil aberta, pela qual ainda há alguma possibilidade de fugir, para ali se aglomeram a fim de salvar a vida. Ficam encerrados para aquela porta, à qual nunca teriam ido se houvesse outro caminho aberto.
E assim como Cristo nunca será aceito, tampouco o pecador será recebido por ele enquanto não largar todos os outros apoios e não confiar somente nele. Cristo não admite sócio na obra de salvar almas. “Se é a mim que vocês estão procurando, deixem que estes vão embora” (Jo 18.8), como ele disse em outra ocasião. Deixem ir não só os seus pecados, mas deixem ir a sua justiça, todos os refúgios de mentira em que confiaram; deixem ir tudo, se querem que eu seja um refúgio para vocês. Não vim chamar os justos; se os chamasse, não viriam; ou, se vierem, que voltem como vieram, que voltem à sua justiça, em que confiam; e que venham a mim os pecadores nus e desamparados, os pecadores aflitos, pois vim com este fim: buscar e salvar os perdidos.
Pecadores, vocês virão agora? Vocês se arriscarão aqui? Para se arriscarem assim em Cristo, vocês têm esta tríplice autorização:
1. A designação de Deus. Este é aquele que Deus Pai designou e enviou ao mundo para trazer os seus exilados de volta a si e salvar os pecadores. Este é aquele que Deus Pai selou, marcando-o como a pessoa escolhida em quem está a salvação, e selou o encargo dele de redimir e reconciliar o mundo consigo. Deus, irado com os três amigos de Jó, disse-lhes: “Vão até o meu servo Jó, e ele oferecerá sacrifício por vocês, ele orará por vocês, pois a ele aceitarei” (Jó 42.8) [N. do T.: assim no original; a NAA traz “vão até o meu servo Jó, e ofereçam holocaustos em favor de vocês. O meu servo Jó orará por vocês, e eu aceitarei a intercessão dele”]. Assim também diz o Senhor aos pecadores: Vão até o meu servo Jesus; ele oferecerá sacrifício por vocês, ele fará a reconciliação por vocês. “Eis aqui o meu servo, a quem sustenho; o meu escolhido, em quem a minha alma se agrada. Pus sobre ele o meu Espírito, e ele promulgará o direito para os gentios” (Is 42.1).
2. O mandamento de Deus: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho, Jesus Cristo” (1Jo 3.23).
3. A promessa de Deus: “Eis que ponho em Sião uma pedra angular, eleita e preciosa; e quem nela crer não será envergonhado” (1Pe 2.6).
Tendo agora essa tríplice autorização, a da designação, do mandamento e da promessa de Deus, vocês podem ousar arriscar-se em Cristo e dirigir-se a ele assim: Senhor Jesus, aqui estou, pobre exilado e cativo, criatura perdida, inimigo de Deus, debaixo da sua ira e maldição. Queres, Senhor, encarregar-te de mim, reconciliar-me com Deus e salvar a minha alma? Não me recuses, Senhor, pois, se me recusares, a quem irei? Não és tu aquele, e somente tu, a quem Deus Pai selou como Salvador dos pecadores? O Senhor Deus me enviou a ti, mandou-me vir, ordenou-me crer e lançar-me sobre ti. Senhor Jesus, recusarás ajudar uma criatura aflita que o Pai enviou a ti em busca de socorro? Se eu tivesse vindo por conta própria ou em meu próprio nome, bem poderias mandar-me de volta; mas, já que venho por ordem do Pai, não me rejeites. Senhor, ajuda-me; Senhor, salva-me. Não és tu aquele de quem o Pai prometeu: “quem crer nele não será envergonhado”? [N. do T.: a NAA traz “quem nela crer”, referindo-se à pedra.] Eu venho, Senhor; eu creio, Senhor; lanço-me sobre a tua graça e misericórdia; lanço-me sobre o teu sangue e a tua compaixão; não me recuses. Não tenho outro lugar para onde ir. Aqui ficarei, não sairei da tua porta. Em ti confiarei, em ti descansarei, em ti me arriscarei. Deus pôs sobre ti o meu socorro, e sobre ti ponho a minha esperança de perdão, de vida, de salvação. Se eu perecer, perecerei sobre os teus ombros; se eu afundar, afundarei na tua embarcação; se eu morrer, morrerei à tua porta. Não me mandes embora, porque não irei.
“Entreguem-se ao Senhor” (2Cr 30.8), isto é, como servos dele, entreguem a Cristo o domínio e o governo de si mesmos. “Não ofereçam os membros do corpo ao pecado, como instrumentos de injustiça, mas, como pessoas que passaram da morte para a vida, ofereçam a si mesmos a Deus e ofereçam os seus membros a Deus, como instrumentos de justiça” (Rm 6.13). “Ao se oferecerem como servos para obediência, vocês são servos daquele a quem obedecem” (Rm 6.16). Entreguem-se de tal modo ao Senhor que, daí em diante, sejam do Senhor. “Sou teu”, diz o salmista. Os que se entregam ao pecado e ao mundo dizem no coração: Pecado, sou teu; mundo, sou teu; riquezas, sou de vocês; prazeres, sou de vocês. “Sou teu”, diz o salmista: dedicado ao teu temor, consagrado ao teu serviço; “Sou teu; salva-me” (Sl 119.94). Entreguem-se a Cristo, pecadores, dediquem-se ao temor dele.
E essa entrega a ele deve ser tal que pressuponha que vocês se contentam de coração
1. Com que ele lhes designe o trabalho.
2. Com que ele lhes designe o lugar.
1. Com que ele lhes designe o trabalho: que ele os ponha a fazer o que lhe agradar. Os servos, assim como devem fazer o trabalho do seu senhor, devem fazer o trabalho que o seu senhor lhes designa. Têm de estar prontos para qualquer trabalho que o seu senhor tenha para eles. Não devem escolher e dizer: isto farei, aquilo não farei. Não devem dizer: isto é duro demais, isto é baixo demais, isto bem pode ficar por fazer. Os bons servos, depois de escolher o seu senhor, deixam que o senhor escolha o trabalho deles, não discutem a vontade dele, mas a cumprem.
Cristo tem muitos serviços a serem feitos. Alguns são mais fáceis e honrosos, outros mais difíceis e humilhantes. Alguns convêm às nossas inclinações e aos nossos interesses, outros contrariam ambos. Em alguns podemos agradar a Cristo e agradar a nós mesmos, como quando ele nos pede que nos alimentemos e nos vistamos, que providenciemos o que é digno e decente para o nosso sustento. Sim, e há deveres espirituais mais agradáveis do que outros, como alegrar-se no Senhor, bendizer e louvar a Deus, alimentar-se dos deleites e consolos da religião: essas são as doces obras de um cristão. Mas há outras obras em que só podemos agradar a Cristo negando a nós mesmos, como dar e emprestar, suportar e ter paciência, repreender os homens pelos seus pecados, afastar-nos da companhia deles, testemunhar contra a sua maldade, confessar a Cristo e o seu nome quando isso nos custar vergonha e opróbrio; navegar contra o vento, nadar contra a maré, conduzir o leme contra a corrente da época; abrir mão do nosso conforto, das nossas liberdades e das nossas comodidades pelo nome do nosso Senhor Jesus.
É necessário, amados, assentar-se e considerar quanto lhes custará ser servos de Cristo, fazer um exame completo de toda a questão do cristianismo e não se comprometer de olhos fechados com algo que nem sabem o que é.
Primeiro, vejam o que Cristo espera e então entreguem-se a toda a vontade dele. Não pensem em negociar nem em impor as próprias condições a Cristo; isso nunca lhes será permitido.
Vão a Cristo e digam-lhe: Senhor Jesus, se me receberes na tua casa, se apenas me reconheceres como teu servo, não farei questão de condições. Impõe-me a condição que te agradar, escreve os teus próprios artigos, ordena-me o que quiseres, põe-me a fazer o que achares bom. Deixa-me entrar debaixo do teu teto, deixa-me ser teu servo, e não poupes as ordens. Não serei mais meu, mas me entrego à tua vontade em todas as coisas.
2. Com que ele lhes designe o lugar e a condição, mais alta ou mais baixa, próspera ou aflita. Contentem-se com que Cristo escolha tanto o trabalho como a condição de vocês, com que ele tenha o comando de vocês e disponha de vocês. Faze de mim o que quiseres, Senhor, e põe-me onde quiseres. Que eu seja um vaso de prata ou de ouro, ou um vaso de madeira ou de pedra, contanto que seja um vaso para honra. Seja qual for a forma ou o metal, mais alto ou mais baixo, mais fino ou mais grosseiro, estou contente. Se eu não for a cabeça, o olho ou o ouvido, um dos instrumentos mais nobres e honrosos que empregas, que eu seja a mão ou o pé, um dos mais esforçados, dos mais baixos e dos mais desprezíveis entre todos os servos do meu Senhor. Que a minha morada seja no monturo, a minha porção no deserto, o meu nome e a minha sorte entre os rachadores de lenha ou os tiradores de água, entre os porteiros da tua casa; em qualquer lugar onde eu possa ser útil. Ponho-me inteiramente nas tuas mãos. Emprega-me no que quiseres, coloca-me junto de quem quiseres. Põe-me a fazer, põe-me a sofrer. Que eu seja empregado a teu serviço ou posto de lado por tua causa, exaltado por tua causa ou pisado por tua causa. Que eu esteja cheio, que eu esteja vazio. Que eu tenha todas as coisas, que eu não tenha nada. Livremente e de coração, entrego tudo à tua vontade e à tua disposição.
Isto é firmar acordo com Cristo como seu Rei e Senhor soberano. E nisto está incluída a renúncia ao diabo e às suas obras, à carne e às suas paixões, junto com o consentimento a todas as leis e ordenanças de Cristo e ao seu governo providencial.
Amados, esse acordo com Cristo, para o qual vocês foram aqui exortados, é aquilo em que está a essência do cristianismo. Quando vocês tiverem escolhido a coroa incorruptível, isto é, quando tiverem escolhido a Deus como a sua porção e felicidade; quando se tiverem arriscado e depositado com Cristo tudo o que têm e toda a sua esperança, lançando-se inteiramente sobre os méritos da justiça dele; quando, com entendimento e de coração, se tiverem rendido e entregado a ele, resolvidos a estar para sempre sob o seu comando e à sua disposição: então vocês serão de fato cristãos, e nunca antes disso. Cristo não será o Salvador de ninguém senão dos seus servos; ele é o Autor da salvação eterna para os que lhe obedecem. Cristo não terá servos senão por consentimento; o seu povo é um povo voluntário. E Cristo não aceitará consentimento que não seja pleno, a tudo o que ele exige: ele será tudo em todos, ou nada será.
Entreguem-se ao Senhor como servos dele e vinculem-se a ele como servos da aliança.
Quando vocês entram em aliança com Deus, a aliança de Deus fica firme para com vocês. Deus permite a cada um pôr o próprio nome na escritura de doação da aliança. Se ele não for achado ali no fim, a culpa será de vocês. Se não estiver ali, nada será achado em toda a aliança que lhes pertença; se estiver ali, tudo é de vocês. Se tiverem entrado no vínculo da aliança, terão a sua parte nas bênçãos da aliança. “Hoje vocês declararam que o Senhor será o seu Deus, e que vocês andarão nos seus caminhos, guardarão os seus estatutos, os seus mandamentos e os seus juízos e que darão ouvidos à sua voz. E hoje o Senhor declarou que vocês serão o seu povo próprio, como ele prometeu” (Dt 26.17-18). Observem: no mesmo dia em que eles declararam que o Senhor era o seu Deus, no mesmo dia o Senhor os declara seu povo próprio. No mesmo dia em que eles se comprometem a guardar os mandamentos de Deus, no mesmo dia o Senhor se compromete a cumprir a promessa que lhes fez.
Há um duplo modo de fazer aliança com Deus, por profissão e em realidade: inscrever o nosso nome ou comprometer o nosso coração. O primeiro se faz no batismo, por todos os que são batizados, os quais, ao receber esse selo da aliança, entram nela visivelmente, ou por profissão. O segundo também é duplo:
1. Virtual. É feito por todos os que firmaram sinceramente esse acordo com Deus em Cristo. Os que escolheram o Senhor, embarcaram com Cristo, renderam-se e entregaram-se ao Senhor são todos pessoas comprometidas e fizeram virtualmente aliança com ele. [N. do T.: “virtual” no sentido antigo: real em substância, embora sem ato formal.]
2. Formal. É o ato de nos vincularmos ao Senhor por voto ou promessa solene de manter a nossa escolha. E isso pode ser apenas interior, na alma, ou exterior, expresso por palavras, por levantar as mãos, por assinar com a própria mão, ou coisa semelhante. E quanto mais expressa e solene for a nossa aliança com Deus, tanto mais sensível e fortemente tenderá a prender o nosso coração a ele.
Ora, aquilo a que eu gostaria de persuadi-los é essa aliança solene e expressa com Deus. A Providência trouxe há pouco às minhas mãos o conselho de um querido amigo e fiel trabalhador na obra do Senhor sobre este assunto, junto com uma excelente fórmula de palavras composta para ajudar os cristãos mais fracos e bem ajustada a tudo o que é essencial na aliança do nosso batismo. Como foi muito bem recebida por muitos, eu a recomendo com muito zelo, para firmar as almas na santidade e no consolo, ao uso não só dos recém-convertidos, mas também dos cristãos mais maduros que não tiveram a experiência deste ou de semelhante caminho. [N. do T.: quem fala aqui é Richard Alleine, autor do texto que Wesley reproduz; o amigo não é nomeado.]
E, para pôr isso em prática, darei primeiro estas poucas orientações.
Primeiro, separem algum tempo, mais de uma vez, para passar em secreto diante do Senhor:
1. Buscando com empenho o seu auxílio especial e a sua graciosa aceitação de vocês.
2. Considerando uma a uma todas as condições da aliança, como lhes foram expostas.
3. Examinando o coração para ver se já fizeram, ou se podem fazer agora livremente, esse acordo com Deus em Cristo para o qual foram exortados. Em especial, considerem quais são os seus pecados e examinem se conseguem resolver abandoná-los todos. Considerem quais são as leis de Cristo, como são santas, estritas e espirituais, e se conseguem, depois de refletir, escolhê-las todas (mesmo as que mais contrariam os seus interesses e as suas inclinações corrompidas) como regra de toda a sua vida. Tenham plena clareza nessas questões; cuidem de não mentir a Deus.
Segundo, disponham o espírito da maneira mais séria possível, como convém a um ato de tão alta importância.
Terceiro, apeguem-se à aliança de Deus e confiem na promessa dele de dar graça e força, com as quais vocês serão capazes de cumprir a sua promessa. Não confiem na própria força, na força das próprias resoluções, mas apeguem-se à força dele.
Quarto, resolvam ser fiéis. Tendo comprometido o coração, aberto a boca e assinado com a mão diante do Senhor, resolvam, na força dele, nunca voltar atrás.
Por último, assim preparados, em algum momento conveniente separado para isso, ponham mãos à obra. Da maneira mais solene possível, como se o Senhor estivesse visivelmente presente diante dos seus olhos, ponham-se de joelhos e, estendendo as mãos para o céu, abram o coração ao Senhor com estas palavras ou outras semelhantes.
Ó Deus sumamente temível, pela paixão do teu Filho, suplico-te que aceites o teu pobre filho pródigo, agora prostrado à tua porta. Caí, afastando-me de ti pela minha iniquidade; sou por natureza filho da morte e, pela minha prática perversa, mil vezes mais filho do inferno. Mas, pela tua graça infinita, prometeste-me misericórdia em Cristo, se eu me voltar para ti de todo o coração. Portanto, ao chamado do teu evangelho, venho agora e, lançando fora as minhas armas, submeto-me à tua misericórdia.
E, porque exiges, como condição da minha paz contigo, que eu abandone os meus ídolos e desafie todos os teus inimigos, com os quais reconheço ter-me aliado perversamente contra ti, aqui, do fundo do coração, renuncio a todos eles. Faço contigo a firme aliança de não me permitir nenhum pecado conhecido, mas de usar com consciência todos os meios que sei que prescreveste para a morte e a total destruição de todas as minhas corrupções. E, visto que no passado derramei de modo desordenado e idólatra os meus afetos sobre o mundo, entrego aqui o meu coração a ti, que o fizeste. Declaro humildemente, diante da tua gloriosa majestade, que é firme resolução do meu coração, e que desejo sem fingimento a tua graça para isso, que, quando me chamares a tanto, eu pratique esta minha resolução de abandonar tudo o que me é caro neste mundo, em vez de me desviar de ti para os caminhos do pecado. E que vigiarei contra todas as tentações do mundo, sejam de prosperidade ou de adversidade, para que não afastem de ti o meu coração. Suplico-te também que me ajudes contra as tentações de Satanás, a cujas perversas sugestões resolvo, pela tua graça, nunca ceder. E, porque a minha própria justiça não passa de trapo da imundícia, renuncio a toda confiança nela e reconheço que sou, por mim mesmo, uma criatura sem esperança, sem socorro, perdida, sem justiça nem força.
E, visto que, na tua misericórdia sem fundo, ofereceste com tanta graça a mim, miserável pecador, ser de novo o meu Deus por meio de Cristo, se eu te aceitasse, invoco hoje o céu e a terra por testemunhas de que aqui te declaro solenemente o Senhor meu Deus. Com toda a veneração possível, curvando a cerviz da minha alma sob os pés da tua santíssima majestade, tomo aqui a ti, Senhor Jeová, Pai, Filho e Espírito Santo, como a minha porção, e entrego-me, corpo e alma, como teu servo, prometendo e fazendo voto de te servir em santidade e justiça todos os dias da minha vida.
E, visto que designaste o Senhor Jesus Cristo como o único meio de vir a ti, aqui, sobre os joelhos dobrados da minha alma, eu o aceito como o único novo e vivo caminho pelo qual os pecadores podem ter acesso a ti, e uno-me aqui solenemente a ele numa aliança de casamento.
Ó bendito Jesus, venho a ti faminto, desgraçado, miserável, cego e nu; um infeliz sumamente repugnante e poluído, um malfeitor culpado e condenado, indigno de lavar os pés dos servos do meu Senhor, quanto mais de me casar solenemente com o Rei da Glória. Mas, já que o teu amor é sem igual, aqui, com todas as minhas forças, eu te aceito e te tomo como meu Cabeça e Esposo, para o melhor e para o pior, na riqueza e na pobreza, em todos os tempos e condições, para te amar, honrar e obedecer acima de todos os outros, e isto até a morte. Abraço-te em todos os teus ofícios. Renuncio à minha própria dignidade e te reconheço aqui como o Senhor, minha Justiça. Renuncio à minha própria sabedoria e te tomo aqui como meu único guia. Renuncio à minha própria vontade e tomo a tua vontade como minha lei.
E, visto que me disseste que preciso sofrer se quero reinar, faço aqui aliança contigo de aceitar a minha sorte contigo, como vier, e, com o auxílio da tua graça, correr contigo todos os riscos, com o firme propósito de que nem a vida nem a morte nos separem.
E, porque te agradou dar-me as tuas santas leis como regra da minha vida e como caminho pelo qual devo andar até o teu reino, aqui ponho de boa vontade o pescoço sob o teu jugo e o ombro sob o teu fardo e, subscrevendo todas as tuas leis como santas, justas e boas, eu as tomo solenemente como regra das minhas palavras, pensamentos e ações. Prometo que, embora a minha carne se oponha e se rebele, me esforçarei por ordenar e governar toda a minha vida segundo a tua direção e não me permitirei negligenciar nada que eu saiba ser meu dever.
Agora, Deus todo-poderoso, Sondador dos corações, tu sabes que faço hoje esta aliança contigo sem nenhum engano ou reserva de que eu tenha conhecimento, e suplico-te que, se notares nela alguma falha ou falsidade, tu me mostres e me ajudes a fazê-la bem.
E agora, glória a ti, ó Deus Pai, a quem de hoje em diante ousarei ter como meu Deus e meu Pai, por teres encontrado tal caminho para a recuperação de pecadores perdidos. Glória a ti, ó Deus Filho, que me amaste e me lavaste dos meus pecados no teu próprio sangue, e agora te tornaste meu Salvador e Redentor. Glória a ti, ó Deus Espírito Santo, que, pelo dedo do teu poder onipotente, fizeste o meu coração voltar-se do pecado para Deus.
Ó temível Jeová, Senhor Deus onipotente, Pai, Filho e Espírito Santo, tu agora te tornaste o meu amigo da aliança, e eu, pela tua graça infinita, tornei-me teu servo da aliança. Amém. Assim seja. E a aliança que fiz na terra seja ratificada no céu.
Aconselho vocês a fazer esta aliança não só no coração, mas em palavras; não só em palavras, mas por escrito. E que, com toda a reverência possível, estendam o escrito diante do Senhor, como se o apresentassem a ele como ato e obra de vocês. Feito isso, assinem-no e guardem-no como memorial dos atos solenes que se passaram entre Deus e vocês, para que possam recorrer a ele nas dúvidas e tentações.
Fim.
Tradução para o português a partir de Directions for Renewing our Covenant with God, 2ª edição, Londres, J. Paramore, 1781, com os pontos duvidosos consultados nas edições de 1784 e 1794, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.