Walker, História da Igreja Cristã · Período VI

Período VI, seção I

I. A revolução luterana.

Período VI. A Reforma

Seção I. A revolução luterana

A situação religiosa e econômica da Alemanha no começo do século XVI era crítica em muitos aspectos. A tributação papal e a interferência papal nas nomeações eclesiásticas eram em geral tidas por opressivas. O despacho dos negócios eclesiásticos pela cúria papal era considerado caro e corrupto. O clero do próprio país era muito criticado pelo exemplo indigno de muitos dos seus membros, nas posições altas e nas baixas. As cidades comerciais se inquietavam com as isenções de impostos do clero, com a proibição dos juros, com os muitos dias santos e com a tolerância eclesiástica para com os mendigos. Os mosteiros, em muitos lugares, tinham grande necessidade de reforma, e suas extensas propriedades rurais eram vistas com maus olhos, tanto pelos nobres, que de bom grado as possuiriam, como pelos camponeses, que nelas trabalhavam. O campesinato em geral vivia em estado de inquietação econômica, e não estavam entre as menores de suas queixas os dízimos e as taxas cobrados pelo clero local. A essas causas de agitação somavam-se a efervescência intelectual do humanismo alemão em ascensão e os primeiros movimentos de um despertamento religioso popular, que se manifestava num sentimento cada vez mais profundo de terror e de preocupação com a salvação. É evidente que, se essas diversas queixas encontrassem expressão ousada num líder resoluto, a voz dele teria ampla acolhida.

No mundo intelectual da Alemanha, além disso, a divisão foi muito agravada por uma disputa que envolveu um dos humanistas mais pacíficos e respeitados, Reuchlin (ver Período V, seção XVI), e que uniu em sua defesa os partidários do novo saber. Johann Pfefferkorn (1469-1522), judeu convertido, obteve do imperador Maximiliano, em 1509, uma ordem que confiscava os livros judaicos por desonrarem o cristianismo. O arcebispo de Mainz, a quem coube a tarefa de investigar, consultou Reuchlin e Jakob Hochstraten (1460-1527), inquisidor dominicano em Colônia. Os dois tomaram lados opostos. Hochstraten apoiou Pfefferkorn, enquanto Reuchlin defendeu a literatura judaica como desejável, com poucas exceções, insistiu num conhecimento mais pleno do hebraico e propôs que, em vez de confiscar os livros dos judeus, se discutisse amigavelmente com eles. O resultado foi uma tempestade de controvérsias. Reuchlin foi acusado de heresia e levado a julgamento por Hochstraten. O caso subiu em apelação a Roma e arrastou-se até 1520, quando foi decidido contra Reuchlin. Os partidários do novo saber, porém, viram todo o processo como um ataque ignorante e injustificado aos estudos e cerraram fileiras em apoio a Reuchlin.

Desse círculo humanista saiu, em 1514 e 1517, uma das sátiras mais bem-sucedidas que já se publicaram: as Epistolae obscurorum virorum [Cartas de homens obscuros]. Apresentadas como se fossem escritas por adversários de Reuchlin e do novo saber, provocaram zombaria generalizada pelo latim bárbaro, pela trivialidade e pela ignorância, e sem dúvida criaram a impressão de que o partido contrário a Reuchlin era hostil ao saber e ao progresso. A autoria ainda é incerta, mas Crotus Rubeanus (1480?-1539?), de Dornheim, e Ulrich von Hutten (1488-1523) certamente tiveram parte nela. Hutten, vaidoso, imoral e briguento, mas brilhantemente dotado como escritor de prosa e verso, e sem dúvida patriota, haveria de dar a Lutero, nos primeiros anos do movimento da Reforma, um apoio de valor duvidoso. O efeito da tempestade levantada em torno de Reuchlin foi unir os humanistas alemães e traçar uma linha de separação entre eles e os conservadores, dos quais os dominicanos eram os mais visíveis.

Foi quando essa disputa estava no auge que um protesto contra um abuso eclesiástico, feito sem nada de incomum ou espetacular por um professor monge de uma universidade alemã recém-fundada e relativamente obscura, em 31 de outubro de 1517, encontrou resposta imediata e desencadeou a mais gigantesca revolução da história da Igreja cristã.

Martinho Lutero, de quem partiu esse protesto, é um dos poucos homens de quem se pode dizer que a história do mundo foi profundamente alterada por sua obra. Não era grande erudito, nem organizador, nem político; movia os homens pelo poder de uma profunda experiência religiosa, que resultava numa confiança inabalável em Deus e em relações diretas, imediatas e pessoais com Ele, e que lhe trazia uma salvação segura, sem lugar para as complexas estruturas hierárquicas e sacramentais da Idade Média. Falava a seus compatriotas como alguém profundamente unido a eles em aspirações e simpatias, mas acima deles em virtude de uma fé viva e arrebatadora e de uma coragem, física e espiritual, de têmpera heroica. Contudo, era tão inteiramente da sua raça, nas virtudes e nas limitações, que até hoje um francês ou um italiano o entendem com dificuldade, e mesmo os anglo-saxões raramente compreenderam a plenitude da admiração afetuosa com que um protestante alemão pronuncia o seu nome. Mas, honrado ou combatido, ninguém pode negar o lugar preeminente que ocupa na história da igreja.

Lutero nasceu em 10 de novembro de 1483, em Eisleben, onde seu pai era um camponês mineiro. Pai e mãe tinham uma piedade simples, pouco eclesiástica. O pai, mais enérgico e ambicioso que a maioria dos camponeses, mudou-se para Mansfeld poucos meses depois do nascimento de Martinho; ali conquistou respeito e modesta abastança e encheu-se da ambição de dar ao filho uma educação apropriada à carreira do direito. Depois dos estudos preparatórios em Mansfeld, Magdeburgo e Eisenach, Martinho Lutero entrou na Universidade de Erfurt em 1501, onde era conhecido como estudante sério, sociável e amante da música. O movimento humanista, que começava a se fazer sentir em Erfurt, pouco o influenciou. Seu interesse voltava-se antes para a filosofia escolástica tardia, nominalista, representante da escola de Occam, embora lesse bastante os clássicos latinos.

Lutero sentia intensamente aquele profundo senso de pecado que era a nota fundamental do despertamento religioso da época na Alemanha. Sua formatura como mestre em artes, em 1505, tornava necessário começar então a preparação específica em direito. Ficou profundamente abalado, porém, com a morte repentina de um amigo e com um raio que por pouco não o atingiu; interrompeu, por isso, a carreira e, em profunda ansiedade pela salvação de sua alma, entrou no mosteiro dos eremitas agostinianos de Erfurt, em julho de 1505. A “congregação alemã” dos agostinianos, reformada pouco antes por Andreas Proles (1429-1503) e agora sob a direção de Johann von Staupitz (?-1524), gozava de merecido respeito popular e representava o monaquismo medieval no que tinha de melhor. Inteiramente medieval, em geral, em sua posição teológica, dava grande valor à pregação e contava com alguns homens inclinados à piedade mística e afinados com as percepções religiosas mais profundas de Agostinho e de Bernardo. A Staupitz Lutero haveria de dever muito. Na vida monástica Lutero logo obteve reconhecimento. Em 1507 foi ordenado sacerdote. No ano seguinte estava em Wittenberg, por ordem de seus superiores, preparando-se para uma futura cátedra na universidade que ali fora fundada em 1502 pelo eleitor da Saxônia, Frederico III, “o Sábio” (1486-1525). Ali se graduou bacharel em teologia em 1509, mas no mesmo ano foi mandado de volta a Erfurt, possivelmente para estudar para o grau de sententiarius, isto é, de expositor licenciado daquele grande manual medieval de teologia, as “Sentenças” de Pedro Lombardo (ver Período V, seção V). A serviço de sua ordem fez uma viagem memorável a Roma, provavelmente em 1510. De volta a Wittenberg, que seria daí em diante o seu lar, tornou-se doutor em teologia em 1512 e começou imediatamente a lecionar sobre a Bíblia, tratando dos Salmos de 1513 a 1515, depois de Romanos até o fim de 1516 e, em seguida, de Gálatas, Hebreus e Tito. Suas aptidões práticas foram reconhecidas com a nomeação, em 1515, como vigário distrital encarregado de onze mosteiros da ordem, e ele começou, ainda antes disso, a prática da pregação, na qual mostrou desde o início dons notáveis. Em sua ordem tinha fama de homem de singular piedade, devoção e zelo monástico.

Contudo, apesar de todo o rigor monástico, Lutero não encontrava paz de alma. O senso de pecado o esmagava. Staupitz ajudou-o ao mostrar que a verdadeira penitência começava não com o medo de um Deus que castiga, mas com o amor a Deus. Mas, se Lutero podia dizer que Staupitz foi o primeiro a abrir-lhe os olhos para o evangelho, o clarear de sua visão foi um processo lento e gradual. Até 1509 Lutero dedicou-se aos escolásticos tardios, Occam, d’Ailli e Biel. A eles deveu, de forma permanente, sua disposição de enfatizar os fatos objetivos da revelação e sua desconfiança da razão. Agostinho, porém, já lhe abria novos horizontes no fim de 1509 e o conduzia a uma hostilidade rapidamente crescente contra o domínio de Aristóteles na teologia. O misticismo de Agostinho e sua ênfase no significado salvífico da vida e da morte humanas de Cristo o fascinavam. Anselmo e Bernardo o ajudaram. Quando Lutero lecionou sobre os Salmos (1513-1515), já se havia convencido de que a salvação é uma nova relação com Deus, baseada não em alguma obra de mérito da parte do homem, mas na confiança absoluta nas promessas divinas, de modo que o homem redimido, embora não deixe de ser pecador, é livre e plenamente perdoado, e da nova e alegre relação com Deus em Cristo flui a nova vida de conformidade voluntária com a vontade de Deus. Era uma nova ênfase sobre um lado importantíssimo do ensino paulino. No entanto, não era inteiramente paulino. Para Paulo, o cristão é antes de tudo um ser moral renovado. Para Lutero, ele é antes de tudo um pecador perdoado; mas Lutero, como Paulo, fez da salvação, em essência, uma relação pessoal correta com Deus. O fundamento e a garantia dessa relação correta é a misericórdia de Deus manifestada nos sofrimentos de Cristo em favor do homem. Cristo levou os nossos pecados. Nós, por nossa vez, recebemos a imputação da sua justiça. Os místicos alemães, especialmente Tauler, ajudaram então Lutero a concluir que essa confiança transformadora não era, como ele supusera, uma obra na qual o homem tinha parte, mas inteiramente dom de Deus. O trabalho de preparação de suas preleções sobre Romanos (1515-1516) apenas intensificou essas convicções. Declarou então que a opinião comum, segundo a qual Deus infundiria infalivelmente a graça naqueles que fizessem o que estava ao seu alcance, era absurda e pelagiana. O fundamento de qualquer justiça pelas obras estava derrubado para Lutero.

Embora estivesse assim convencido quanto à natureza e ao método da salvação, a paz de alma do próprio Lutero ainda não estava assegurada. Ele precisava ainda da convicção da certeza de sua própria justificação pessoal. Essa certeza ele a havia negado, com Agostinho. Contudo, enquanto trabalhava na parte final das preleções sobre Romanos, e com clareza ainda maior nos últimos meses de 1516, sua confiança de que a natureza da fé, dada por Deus, envolvia a segurança pessoal tornou-se convicção. Daí em diante, em sua experiência pessoal, a suma do evangelho era o perdão dos pecados. Era a “boa-nova”, que enchia a alma de paz, alegria e confiança absoluta em Deus. Era a dependência absoluta das promessas divinas, da “palavra” de Deus.

Lutero ainda não havia elaborado conscientemente um novo sistema de teologia. Tivera uma experiência profunda e vital. Era uma experiência, porém, que de modo algum se ajustava a boa parte das teorias correntes da salvação, nas quais atos, penitências e satisfações ocupavam lugar de destaque. Nenhuma consideração teórica fez de Lutero um reformador. Foi impelido pela força de uma profunda experiência interior a pôr à prova as crenças e as instituições que via ao seu redor. A profundidade e a nobreza da experiência de Lutero não podem ser postas em dúvida. Pode-se questionar, porém, se ela se aplica como critério universal. Para ele, a fé era um poder vital e transformador, uma relação pessoal nova e vivificante. Muitos homens, no entanto, embora desejem sinceramente servir a Deus e à sua geração, não têm tal senso de perdão pessoal, tal profundidade de sentimento que comova a alma, tal confiança infantil. Desejam, com a ajuda de Deus, fazer o melhor que podem. Para eles a “justificação somente pela fé” é quase sem sentido, ou se torna assentimento intelectual à verdade religiosa. Entrar na experiência de Lutero ou de Paulo não é, de modo algum, possível a todos.

Em 1516 Lutero já não estava sozinho. Na Universidade de Wittenberg sua oposição ao aristotelismo e à escolástica e sua teologia bíblica encontraram muita simpatia. Seus colegas Andreas Bodenstein, de Karlstadt (1480?-1541), que, ao contrário de Lutero, havia representado a escolástica mais antiga de Tomás de Aquino, e Nikolaus von Amsdorf (1483-1565) tornaram-se então seus partidários entusiasmados.

Em 1517 Lutero teve ocasião de aplicar sua nova concepção da salvação a um abuso clamoroso. O papa Leão X decidira em favor das pretensões de Alberto de Brandemburgo a ocupar ao mesmo tempo o arcebispado de Mainz, o arcebispado de Magdeburgo e a administração do bispado de Halberstadt, e um dos argumentos que o moveram a isso foi um grande pagamento em dinheiro. Para se ressarcir, Alberto obteve como sua parte a metade do produto, em seu distrito, das indulgências que o papado vinha emitindo desde 1506 para a construção daquela nova igreja de São Pedro que ainda hoje é um dos ornamentos de Roma. Um dos comissários dessa coleta era Johann Tetzel (1470-1519), monge dominicano eloquente que, empenhado em obter a maior arrecadação possível, pintava os benefícios das indulgências nos termos mais grosseiros.1 A Lutero, convencido de que só uma relação pessoal correta com Deus traria a salvação, tal ensino parecia destruir a verdadeira religião. Quando Tetzel se aproximou (não lhe era permitido entrar na Saxônia eleitoral), Lutero pregou contra o abuso das indulgências e, em 31 de outubro de 1517, afixou na porta da igreja do castelo, em Wittenberg, que servia de quadro de avisos da universidade, as suas sempre memoráveis Noventa e Cinco Teses.2

Consideradas em si mesmas, pode-se bem perguntar por que as Noventa e Cinco Teses foram a faísca que provocou a explosão. Destinavam-se ao debate acadêmico. Não negam o direito do papa de conceder indulgências. Questionam a extensão das indulgências ao purgatório e põem à mostra os abusos do ensino corrente, abusos que, segundo elas dão a entender, o papa repudiará quando for informado. Contudo, embora estejam longe de exprimir todo o alcance do pensamento de Lutero, nelas se veem certos princípios que, se desenvolvidos, revolucionariam a prática eclesiástica da época. O arrependimento não é um ato, mas uma disposição de espírito para a vida inteira. O verdadeiro tesouro da igreja é a graça perdoadora de Deus. O cristão antes busca do que evita a disciplina divina. “Todo cristão que sente verdadeira compunção tem, por direito, remissão plena da pena e da culpa, mesmo sem cartas de perdão.” Na situação inquieta da Alemanha, foi um acontecimento da maior importância que um líder religioso respeitado, ainda que humilde, tivesse falado com ousadia contra um grande abuso, e as Teses percorreram o império de ponta a ponta.

Lutero não previra a agitação. Tetzel respondeu de imediato3 e incitou Konrad Wimpina (?-1531) a replicar. Adversário mais temível foi o hábil e polêmico Johann Maier, de Eck (1486-1543), professor de teologia na Universidade de Ingolstadt, que respondeu com um tratado que circulou em manuscrito, intitulado Obelisci. Lutero foi acusado de heresia. Defendeu sua posição num sermão sobre “Indulgência e graça”;4 respondeu a Eck. No começo de 1518 já haviam sido apresentadas queixas contra Lutero em Roma pelo arcebispo Alberto de Mainz e pelos dominicanos. O resultado foi que o geral dos agostinianos recebeu ordem de pôr fim à disputa, e Lutero foi convocado perante o capítulo geral da ordem, reunido em Heidelberg, em abril. Ali Lutero argumentou contra o livre-arbítrio e contra o domínio de Aristóteles na teologia, e ganhou novos adeptos, dos quais um dos mais importantes foi Martin Butzer (Bucer). Mais ou menos na mesma época Lutero publicou uma defesa mais elaborada de sua posição sobre as indulgências, as Resolutiones.

Lutero não desejara nenhuma briga com o papado. Parece ter acreditado que o papa poderia ver os abusos das indulgências como ele os via, mas o curso dos acontecimentos não deixava outra escolha senão a firme sustentação de suas ideias ou a submissão.

Em junho de 1518, o papa Leão X expediu uma citação para que Lutero comparecesse em Roma e encarregou seu censor de livros, o dominicano Silvestro Mazzolini, de Prierio, de redigir um parecer sobre a posição de Lutero. A citação e o parecer chegaram a Lutero no começo de agosto. Prierio afirmava que “a Igreja Romana é representativamente o colégio dos cardeais e, além disso, é virtualmente o sumo pontífice”, e que “quem diz que a Igreja Romana não pode fazer o que de fato faz em matéria de indulgências é herege”.5 O caso de Lutero aparentemente teria terminado depressa com sua condenação, se ele não contasse com a poderosa proteção de seu príncipe, o eleitor Frederico, “o Sábio”. Até que ponto Frederico simpatizou em algum momento com as crenças religiosas de Lutero é matéria de controvérsia; mas, de qualquer modo, tinha orgulho de seu professor de Wittenberg e era avesso a uma condenação quase certa em Roma. Sua habilidade política conseguiu transferir a audiência do tribunal romano para o legado papal na Dieta de Augsburgo, o erudito comentador de Tomás de Aquino, o cardeal Tomás de Vio (1469-1534), conhecido pelo lugar de nascimento (Gaeta) como Caetano. Caetano era teólogo de renome europeu e parece ter considerado o assunto um tanto abaixo de sua dignidade. Ordenou a Lutero que se retratasse, especialmente das críticas à plenitude do poder papal sobre as indulgências. Lutero recusou-se6 e, em 20 de outubro, fugiu de Augsburgo, depois de apelar ao papa “para que fosse mais bem informado”.7 Não satisfeito com isso, Lutero apelou de Wittenberg, em novembro de 1518, a um futuro concílio geral.8 Quão pouca chance tinha de uma audiência favorável em Roma mostra-o a bula expedida no mesmo mês por Leão X, que definia as indulgências no sentido que Lutero criticara.9 Lutero não tinha esperança real de segurança. Se sua coragem era grande, seu perigo não era menor; mas foi salvo da condenação imediata pela virada favorável dos acontecimentos políticos.

Enquanto isso, o verão de 1518 vira a posse, como professor de grego em Wittenberg, de um jovem erudito natural de Bretten e sobrinho-neto de Reuchlin, Filipe Melanchthon (1497-1560), que haveria de estar singularmente unido a Lutero na obra posterior de ambos. Nunca houve contraste maior. Melanchthon era tímido e reservado; mas não tinha superior em erudição e, sob a forte influência da personalidade de Lutero, dedicou suas notáveis capacidades, quase desde a chegada a Wittenberg, ao avanço da causa luterana.

O imperador Maximiliano aproximava-se visivelmente do fim da vida, que viria em janeiro de 1519, e era iminente o tumulto de uma eleição disputada. O papa Leão X, como príncipe italiano, via com desfavor a candidatura de Carlos da Espanha ou de Francisco da França, porque aumentaria a influência estrangeira na Itália, e buscava a boa vontade do eleitor Frederico, que de bom grado veria escolhido. Não era momento de proceder contra o professor protegido de Frederico. Leão, por isso, enviou seu camareiro, o saxão Karl von Miltitz, como núncio, levando ao eleitor uma rosa de ouro, presente que exprimia alto favor papal. Miltitz julgava-se capaz de sanar a disputa eclesiástica e foi muito além de suas instruções. Por iniciativa própria desautorizou Tetzel e teve uma entrevista com Lutero, a quem persuadiu a concordar em guardar silêncio sobre as questões em disputa, a submeter o caso, se possível, a bispos alemães eruditos e a escrever uma carta humilde ao papa.10

Qualquer acordo real era impossível. O colega de Lutero em Wittenberg, Andreas Bodenstein, de Karlstadt (1480?-1541), sustentara em 1518, contra Eck, que o texto da Bíblia deve ser preferido até à autoridade da igreja inteira. Eck exigiu um debate público, com o que Karlstadt concordou, e Lutero logo se viu arrastado para o combate, propondo-se a sustentar que a supremacia da Igreja Romana não tem apoio na história nem na Escritura. Em junho e julho de 1519 realizou-se em Leipzig o grande debate. Karlstadt, debatedor pouco ágil, conseguiu apenas moderadamente fazer frente ao arguto Eck. A seriedade de Lutero saiu-se muito melhor; mas a habilidade de Eck levou Lutero a admitir que suas posições eram, em alguns aspectos, as de Hus, e que o venerado Concílio de Constança errara ao condenar Hus. A Eck isso pareceu um triunfo forense, e ele julgou ter a vitória, declarando que quem podia negar a infalibilidade de um concílio geral era um gentio e um publicano.11 Foi, de fato, uma declaração de enorme alcance aquela a que Lutero fora levado. Já havia rejeitado a autoridade final do papa; agora admitia a falibilidade dos concílios. Esses passos implicavam ruptura com todo o sistema de autoridade da Idade Média e só admitiam apelação final às Escrituras, e às Escrituras, além disso, interpretadas pelo juízo individual. Eck sentiu que toda a controvérsia poderia agora terminar depressa com uma bula papal de condenação, que se pôs então a obter e que foi expedida em 15 de junho de 1520.12

Lutero estava agora, de fato, no centro da batalha. Suas próprias ideias se cristalizavam rapidamente. Partidários humanistas, como Ulrich von Hutten, acorriam então a ele como alguém capaz de liderar um conflito nacional com Roma. O próprio Lutero começava a ver sua tarefa como uma redenção nacional da Alemanha diante de um papado que ele passava a considerar o anticristo, mais do que a pessoa individual do papa. Sua doutrina da salvação dava frutos mais amplos. Em seu pequeno tratado Das Boas Obras, de maio de 1520, depois de definir que “a mais nobre de todas as boas obras” é “crer em Cristo”, afirmou a bondade essencial dos ofícios e ocupações normais da vida e denunciou os que “limitam as boas obras tão estreitamente que elas têm de consistir em orar na igreja, jejuar ou dar esmolas”.13 Essa defesa da vida humana natural como o melhor campo para o serviço de Deus, em lugar das limitações antinaturais do ascetismo, haveria de ser uma das contribuições mais importantes de Lutero ao pensamento protestante, bem como um dos seus afastamentos mais significativos das concepções cristãs antigas e medievais.

A grande realização de Lutero no ano de 1520, que completou o seu título à liderança, foi a preparação de três obras que marcaram época. O primeiro desses tratados foi publicado em agosto, com o título À Nobreza Cristã da Nação Alemã.14 Escrito com convicção ardente por um mestre da língua alemã, logo percorreu o império de lado a lado. Declarava derrubadas três muralhas romanas com que o papado escorara o seu poder. A pretensa superioridade do estado espiritual sobre o temporal não tem fundamento, pois todos os crentes são sacerdotes. Essa verdade do sacerdócio universal derruba a segunda muralha, a do direito exclusivo do papa de interpretar as Escrituras; e também a terceira, a de que um concílio reformador só pode ser convocado pelo papa. “Um concílio verdadeiro e livre” para a reforma da igreja deveria ser convocado pelas autoridades temporais. Lutero passava então a traçar um programa de ação reformadora, e suas sugestões eram mais práticas que teológicas. O desgoverno papal, as nomeações e a tributação papais deviam ser refreados; os cargos onerosos, abolidos; os interesses eclesiásticos alemães deviam ficar sob um “primaz da Alemanha”; o casamento do clero, permitido; os dias santos, demasiado numerosos, reduzidos em benefício do trabalho e da sobriedade; a mendicância, inclusive a das ordens mendicantes, proibida; os bordéis, fechados; o luxo, refreado; e o ensino teológico nas universidades, reformado. Não admira que o efeito da obra de Lutero tenha sido profundo. Ele dera voz ao que homens sérios vinham pensando havia muito tempo.

Dois meses depois Lutero publicou em latim o seu Do Cativeiro Babilônico da Igreja,15 em que tratou de questões do mais alto alcance teológico e atacou sem piedade o ensino da Igreja Romana. O único valor de um sacramento, ensinava Lutero, é o seu testemunho da promessa divina. Ele sela ou atesta o penhor, dado por Deus, da união com Cristo e do perdão dos pecados. Fortalece a fé. Postos à prova pelo critério da Escritura, há só dois sacramentos, o batismo e a Ceia do Senhor, embora a penitência tenha certo valor sacramental como retorno ao batismo. Votos monásticos, peregrinações e obras de mérito são substitutos de invenção humana para o perdão dos pecados prometido gratuitamente à fé no batismo. Lutero criticou a negação do cálice aos leigos, pôs em dúvida a transubstanciação, em lugar da qual poria uma teoria da consubstanciação derivada de d’Ailli, e rejeitou especialmente a doutrina de que a Ceia é um sacrifício a Deus. Os outros sacramentos romanos, confirmação, matrimônio, ordens e extrema-unção, não têm base sacramental na Escritura.

É uma das maravilhas da carreira tempestuosa de Lutero que ele tenha conseguido compor e publicar, ao mesmo tempo que esses tratados intensamente polêmicos, e enquanto a bula papal era publicada na Alemanha, o seu terceiro grande tratado de 1520, Da Liberdade Cristã.16 Com serena confiança expôs o paradoxo da experiência cristã: “O cristão é o mais livre senhor de todos e não está sujeito a ninguém; o cristão é o mais obediente servo de todos e está sujeito a todos.” É livre porque, justificado pela fé, já não está debaixo da lei das obras e vive em nova relação pessoal com Cristo. É servo porque o amor o obriga a conformar sua vida à vontade de Deus e a ser útil ao próximo. Nesse tratado, numa medida que não se iguala em nenhuma outra parte, tornam-se evidentes a força e as limitações do luteranismo. Para Lutero, a essência do evangelho é o perdão dos pecados, operado por meio de uma fé que, como em Paulo, é nada menos que uma relação vital, pessoal e transformadora da alma com Cristo. É, sem dúvida, a mais elevada das experiências cristãs. Sua limitação, como já se observou, é que essa experiência, se for tida como o único tipo de verdadeira religião, está fora do alcance prático de muitos homens sérios. A esse tratado Lutero antepôs uma carta ao papa Leão X, documento muito curioso, que respira boa vontade para com o pontífice pessoalmente, mas está cheio de denúncias contra a corte papal e suas pretensões em favor do papado, e na qual o papa é representado como “sentado como um cordeiro no meio de lobos”. Embora a visão de Lutero ainda viesse a se esclarecer quanto a muitos pormenores, seu sistema teológico estava assim praticamente completo, em suas linhas principais, já em 1520.

Enquanto isso, Eck e Girolamo Aleandro (1480-1542) tinham vindo à Alemanha como núncios, com a bula papal. Em Wittenberg recusou-se a sua publicação, e em grande parte da Alemanha sua recepção foi morna ou hostil; mas Aleandro conseguiu publicá-la nos Países Baixos e obteve a queima dos livros de Lutero em Lovaina, Liège, Antuérpia e Colônia. Em 10 de dezembro de 1520 Lutero respondeu queimando a bula papal e o direito canônico, com a presença aprovadora de estudantes e cidadãos de Wittenberg e sem oposição das autoridades civis. Era evidente que uma parte considerável da Alemanha estava em rebelião eclesiástica, e a situação exigia que as mais altas autoridades do império tomassem conhecimento dela.

Em 28 de junho de 1519, enquanto se realizava a disputa de Leipzig, a eleição imperial resultara na escolha do neto de Maximiliano, Carlos V (1500-1558). Herdeiro da Espanha, dos Países Baixos e dos territórios austríacos da casa de Habsburgo, senhor de considerável parte da Itália e dos territórios recém-descobertos do outro lado do Atlântico, sua eleição como imperador do Sacro Império Romano fez dele o chefe de um território mais vasto que o de qualquer soberano isolado desde Carlos Magno. Era uma autoridade muito limitada, porém, na Alemanha, pelos poderes territoriais dos príncipes locais. Carlos era ainda jovem e desconhecido, e os dois lados nas lutas religiosas da época tinham forte esperança de contar com o seu apoio. Na realidade, era um católico romano fervoroso, do tipo de sua avó, Isabel de Castela, cujas ideias reformadoras partilhava, desejoso de melhorias na moral, na instrução e na administração do clero, mas sem nenhuma simpatia por qualquer afastamento do sistema doutrinal ou hierárquico da Idade Média. Viera por fim à Alemanha e, em parte para regular seu governo naquela terra, em parte para se preparar para a guerra que estava para estourar em torno das pretensões rivais da França e da Espanha na Itália, convocara uma Dieta para se reunir em Worms em novembro de 1520. Embora houvesse muitos outros assuntos, todos consideravam de alta importância a decisão do caso de Lutero. O núncio papal Aleandro insistia numa condenação imediata, especialmente depois que a bula papal definitiva contra Lutero foi expedida em 2 de janeiro de 1521. Visto que Lutero já estava condenado pelo papa, a Dieta não tinha outro dever, insistia Aleandro, senão tornar efetiva essa condenação. Por outro lado, Lutero tinha amplo apoio popular, e o seu soberano, o eleitor Frederico, o Sábio, mestre da intriga diplomática, era, felizmente para Lutero, de opinião que o monge condenado nunca tivera um julgamento adequado. Frederico e outros nobres achavam que ele devia ser ouvido perante a Dieta antes de qualquer ação daquele corpo. Entre os dois conselhos o imperador hesitava, convencido de que Lutero era um herege condenável, mas suficientemente político para não contrariar com muita aspereza o sentimento alemão, nem desperdiçar a possível vantagem de fazer do destino do herege uma alavanca para trazer o papa ao lado imperial na luta com a França.

O resultado foi que Lutero foi convocado a Worms sob a proteção de um salvo-conduto imperial. Sua viagem de Wittenberg até lá foi quase uma ovação popular. Em 17 de abril de 1521, Lutero compareceu perante o imperador e a Dieta. Mostraram-lhe uma fileira de livros seus e perguntaram-lhe se os retratava ou não. Lutero pediu tempo para refletir. Deram-lhe um dia, e na tarde seguinte ele estava outra vez diante da assembleia. Ali reconheceu que, no calor da controvérsia, se expressara com demasiada força contra pessoas, mas que não podia retratar a substância do que escrevera, a menos que fosse convencido de seu erro pela Escritura ou por argumento adequado. O imperador, que mal podia crer que fosse possível tamanha temeridade a ponto de negar a infalibilidade de um concílio geral, cortou a discussão. Que Lutero tenha exclamado: “Não posso fazer outra coisa. Aqui estou. Deus me ajude. Amém”, não é certo, mas não parece improvável. As palavras ao menos exprimiam a substância de sua determinação inabalável. Ele dera um grande testemunho histórico da verdade de suas convicções perante o mais alto tribunal de sua nação. De sua coragem indômita dera a prova mais completa. O juízo de seus ouvintes ficou dividido; mas, se ele afastou de si o imperador e os prelados com sua afirmação firme e, como lhes pareceu, obstinada, causou impressão favorável em muitos membros da nobreza alemã e, felizmente, no eleitor Frederico. Esse príncipe, embora achasse Lutero ousado demais, confirmou-se na determinação de que nenhum mal sobreviesse ao reformador. Contudo, o resultado pareceu uma derrota para Lutero. Um mês depois de Lutero ter iniciado a viagem de volta, foi formalmente posto sob o banimento do império, embora só depois que muitos membros da Dieta já se haviam retirado. Devia ser preso para ser punido, e seus livros queimados.17 Esse banimento nunca foi formalmente revogado, e Lutero permaneceu pelo resto da vida sob condenação imperial.

Se a Alemanha fosse governada por uma autoridade central forte, a carreira de Lutero logo teria terminado no martírio. Nem mesmo um edito imperial, porém, podia ser executado contra a vontade de um soberano territorial vigoroso, e Frederico, o Sábio, mostrou-se mais uma vez a salvação de Lutero. Não querendo apresentar-se abertamente como seu defensor, talvez um tanto receoso de fazê-lo, mandou que mãos amigas prendessem Lutero quando o reformador voltava de Worms e o levassem secretamente ao castelo de Wartburg, perto de Eisenach. Durante meses o esconderijo de Lutero foi praticamente desconhecido; mas que ele vivia e participava das vicissitudes da luta, sua pena pronta logo o tornou evidente. Seus ataques à prática romana tornaram-se mais intensos, mas o fruto mais duradouro desse período de retiro forçado foi a sua tradução do Novo Testamento, começada em dezembro de 1521 e publicada em setembro do ano seguinte. Lutero não foi de modo algum o primeiro a traduzir as Escrituras para o alemão, mas as versões anteriores tinham sido feitas a partir da Vulgata e eram duras e desajeitadas na expressão. A obra de Lutero não só foi feita a partir do grego, para o qual os trabalhos de Erasmo forneceram a base, como era idiomática e de leitura agradável. Determinou em grande parte a forma de linguagem que marcaria a futura literatura alemã (a da chancelaria saxônica da época), trabalhada e polida por um mestre da expressão popular. Poucos serviços maiores do que essa tradução já foram prestados ao desenvolvimento da vida religiosa de uma nação. Nem, com toda a sua deferência pela Palavra de Deus, estava Lutero sem os seus próprios cânones de crítica. Consistiam na relativa clareza com que se ensina a sua interpretação da obra de Cristo e do método da salvação pela fé. Julgados por esses critérios, ele achava que Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse tinham valor inferior. Mesmo na própria Escritura havia diferenças de valor.

O mês que viu o início do trabalho de Lutero como tradutor, dezembro de 1521, testemunhou a publicação em Wittenberg de um pequeno volume de Melanchthon, os Loci Communes, isto é, Pontos Capitais da Teologia. Com ele pode-se dizer que começou a apresentação sistemática da teologia luterana.18 Ele haveria de ser ampliado, desenvolvido e modificado em muitas edições posteriores.

Notas

1. Ver extratos em Kidd, Documents Illustrative of the Continental Reformation, pp. 12-20.

2. Kidd, pp. 21-26; trad. inglesa em Wace e Buchheim, Luther’s Primary Works, pp. 6-14.

3. Kidd, pp. 30, 31.

4. Ibid., p. 29.

5. Kidd, pp. 31, 32.

6. Ibid., pp. 33-37.

7. Ibid., pp. 37-39.

8. Ibid., p. 40.

9. Ibid., p. 39.

10. Kidd, pp. 41-44.

11. Ibid., pp. 44-51.

12. Kidd, pp. 74-79.

13. Robinson, Readings, 2: 66-68.

14. Traduzido na íntegra em Wace e Buchheim, Luther’s Primary Works, pp. 17-92.

15. Luther’s Primary Works, pp. 141-245.

16. Ibid., pp. 95-137.

17. Kidd, Documents, pp. 79-89.

18. Extratos em Kidd, Documents, pp. 90-94.

Tradução para o português a partir de Williston Walker, A History of the Christian Church (Nova York, Charles Scribner’s Sons, 1918), 1ª edição, conferida com as imagens das páginas; domínio público. As notas são de Walker; as que eram só referência bíblica passaram para o texto. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.