Walker, História da Igreja Cristã · Período VI
V. O protestantismo alemão estabelecido; VI. As terras escandinavas; VII. A revolta na Suíça francesa e em Genebra antes de Calvino.
A conclusão vitoriosa da grande guerra com a França e a reconciliação com o papa Clemente VII haviam deixado o imperador livre, em 1529, para intervir enfim com eficácia nos assuntos alemães. A Dieta de Speyer daquele ano, alarmada com o avanço luterano e com a expansão dos anabatistas, e consciente da mudança nas perspectivas do imperador, havia proibido novos avanços luteranos e praticamente ordenado a restauração da autoridade episcopal romana. A minoria luterana protestara. Nessa situação ameaçadora, Filipe de Hesse tentara formar uma liga defensiva de todas as forças evangélicas alemãs e suíças. Os principais obstáculos eram as diferenças doutrinárias entre os dois partidos, mas Filipe esperava que pudessem ser acertadas numa conferência; e, embora Lutero se opusesse, o consentimento foi afinal obtido, e o dia 1º de outubro de 1529 viu Lutero e Melanchthon frente a frente com Zuínglio e Ecolampádio, no castelo de Filipe em Marburgo. Com eles estava certo número de líderes menores de ambos os partidos. Nos dias seguintes o colóquio de Marburgo seguiu seu curso. Lutero desconfiava um tanto da ortodoxia dos suíços quanto às doutrinas da Trindade e do pecado original, mas o verdadeiro ponto de divergência era a presença ou ausência do corpo físico de Cristo na Ceia. Lutero apegava-se firmemente à interpretação literal das palavras: “Isto é o meu corpo.” Zuínglio insistia no argumento conhecido de que um corpo físico não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. O acordo era impossível. Zuínglio insistiu em que ambos os partidos eram, afinal, irmãos cristãos, mas Lutero declarou: “Vocês têm um espírito diferente do nosso.”1
Ainda assim Filipe não deixaria desvanecer-se desse modo a esperança de uma liga protetora, e persuadiu os dois partidos a redigir quinze artigos de fé. Em catorze houve acordo. O décimo quinto tratava da Ceia, e nele houve unanimidade em tudo, exceto no único ponto da natureza da presença de Cristo, onde as divergências foram expostas. Esses Artigos de Marburgo foram então assinados por ambos os lados, com a cláusula de que “cada um mostrasse ao outro amor cristão, até onde a consciência de cada um o permitisse”.2 Lutero e Zuínglio deixaram Marburgo, cada qual convencido de ter sido o vencedor. No caminho de volta, Lutero preparou uma série de artigos um tanto mais incisiva, os Artigos de Schwabach, com base nos de Marburgo.3 Seu maior significado para o desenvolvimento do luteranismo é, talvez, a declaração de que “a igreja não é outra coisa senão os crentes em Cristo que mantêm, creem e ensinam os artigos acima enumerados”. A concepção luterana original de uma igreja composta dos justificados por sua fé transformara-se na de uma igreja composta dos que não apenas têm fé, mas aceitam uma declaração doutrinária definida e exata. Esses Artigos de Schwabach foram então tornados, pelo eleitor da Saxônia e pelo margrave de Brandemburgo-Ansbach, condição para a confederação política. Das grandes cidades do sul da Alemanha, só Nuremberg os aceitou. A liga defensiva dos evangélicos que Filipe esperara era impossível. Os luteranos e os suíços seguiram cada qual seu caminho, pois a divisão era permanente.
Em janeiro de 1530 o imperador enviou da Itália, onde estava para ser coroado pelo papa, a convocação de uma Dieta que se reuniria em Augsburgo. Com inesperada cordialidade, ao mesmo tempo que declarava ser o acerto das diferenças religiosas um dos principais objetivos da reunião, prometia ouvir com benevolência todas as representações. Isso exigia dos protestantes uma exposição de suas crenças e de suas críticas à prática antiga, e eles puseram-se então a prepará-la.4 Lutero, Melanchthon, Bugenhagen e Jonas redigiram suas críticas às práticas romanas, que, retrabalhadas por Melanchthon, constituem a segunda parte, ou parte negativa, da Confissão de Augsburgo; e pouco depois Melanchthon preparou seus artigos afirmativos, que formam a primeira parte. Em 25 de junho de 1530 ela foi lida perante o imperador, em alemão. Trazia as assinaturas de aprovação do eleitor João da Saxônia, de seu herdeiro João Frederico, do margrave Jorge de Brandemburgo-Ansbach, dos duques Ernesto e Francisco de Brunswick-Lüneburg, do landgrave Filipe de Hesse, de Wolfgang de Anhalt e dos representantes de Nuremberg e Reutlingen. Antes do encerramento da Dieta, as cidades de Heilbronn, Kempten, Weissenburg e Windsheim também manifestaram sua aprovação a essa Confissão de Augsburgo.5
A Confissão de Augsburgo foi sobretudo obra do brando e conciliador Melanchthon. Embora informado do curso dos acontecimentos, Lutero, por estar sob o banimento imperial, não podia ir a Augsburgo e permaneceu em Coburgo. Melanchthon modificou seu rascunho e fez concessões, até ser contido por seus companheiros protestantes. Tampouco era só o espírito de conciliação que movia Melanchthon. Seu propósito era mostrar que os luteranos não se haviam afastado em nenhum aspecto vital e essencial da Igreja Católica, nem mesmo da Igreja Romana, tal como se revela em seus escritores mais antigos. Esse acordo é afirmado expressamente, e muitas heresias antigas são cuidadosamente repudiadas pelo nome. Por outro lado, as posições zuinglianas e anabatistas são rejeitadas com energia. A autoridade exclusiva da Escritura não é afirmada expressamente em parte alguma. O papado não é categoricamente condenado em parte alguma. O sacerdócio universal dos crentes não é mencionado. Ainda assim, Melanchthon deu à confissão, em seu conjunto, um tom inteiramente protestante. A justificação pela fé é admiravelmente definida, as marcas protestantes da igreja ficam evidentes; a invocação dos santos, a missa, a negação do cálice, os votos monásticos e os jejuns prescritos são rejeitados.
Ao imperador Zuínglio enviou uma exposição vigorosa de suas opiniões, que recebeu pouca atenção. Acontecimento mais significativo foi a apresentação de uma confissão conjunta das cidades do sul da Alemanha inclinadas ao zuinglianismo, Estrasburgo, Constança, Memmingen e Lindau, a Confessio Tetrapolitana, em grande parte da pena de Butzer, na qual se sustentava uma posição intermediária entre a dos zuinglianos e a dos luteranos.
O legado papal, cardeal Campeggio, aconselhou6 que a confissão fosse examinada pelos teólogos romanos presentes em Augsburgo. O imperador aprovou, e o principal desses peritos era o velho adversário de Lutero, Eck. Melanchthon estava disposto a fazer concessões que teriam arruinado toda a causa luterana,7 mas, felizmente para ela, os príncipes evangélicos eram de têmpera mais rija. Os teólogos católicos prepararam uma confutação, que lhes foi devolvida pelo imperador e pelos príncipes católicos como polêmica demais, e foi afinal apresentada à Dieta, em forma muito mais branda, em 3 de agosto.
O imperador ainda esperava a reconciliação, e nomearam-se então comissões de conferência; mas seu trabalho foi vão, resultado para o qual muito contribuiu a firmeza de Lutero.8 A maioria católica expressou a decisão da Dieta de que os luteranos haviam sido devidamente refutados, de que se lhes dava prazo até 15 de abril de 1531 para se conformarem; de que se agisse em conjunto contra zuinglianos e anabatistas, e de que se procurasse, dentro de um ano, um concílio geral para sanar os abusos na igreja. O tribunal imperial reconstituído decidiria, no interesse católico, os casos de secularização.9 Os luteranos protestaram, declararam que sua confissão não fora refutada e chamaram a atenção para a Apologia de Melanchthon, ou defesa da confissão, que ele preparara às pressas quando a inutilidade das concessões se tornava enfim evidente até para ele. Essa Apologia, reescrita e publicada no ano seguinte (1531), viria a ser um dos clássicos do luteranismo.
Tal situação exigia uma união defensiva. Até Lutero, que considerara pecado opor-se ao imperador pela força, estava agora disposto a deixar a legitimidade dessa resistência à decisão dos juristas. No Natal, os príncipes luteranos reuniram-se em Schmalkalden e lançaram os fundamentos de uma liga. Butzer, cujos esforços de união eram incansáveis, persuadiu Estrasburgo a aceitar a Confissão de Augsburgo, exemplo que teve grande efeito sobre outras cidades do sul da Alemanha. Por fim, em 27 de fevereiro de 1531, completou-se a Liga de Schmalkalden. A Saxônia eleitoral, Hesse, Brunswick, Anhalt e Mansfeld uniram-se em acordo defensivo com as cidades de Estrasburgo, Constança, Ulm, Reutlingen, Memmingen, Lindau, Isny, Biberach, Magdeburgo, Bremen e Lübeck.10
Por forte que parecesse na superfície, a posição de Carlos V não o era na realidade diante dessa oposição unida. Os príncipes católicos tinham ciúmes uns dos outros e do imperador. O papa temia um concílio geral. A França ainda tinha de ser levada em conta. O dia fatal, 15 de abril de 1531, passou, portanto, sem o resultado ameaçado. Em outubro de 1531, a morte de Zuínglio em Kappel (ver Período VI, seção III) privou o evangelicalismo suíço de seu vigoroso chefe e inclinou o protestantismo do sul da Alemanha a uma união mais estreita com o de Wittenberg. A primavera de 1532 trouxe um novo perigo ao império como um todo, o da invasão turca. Em 1529 os turcos haviam sitiado Viena, e diante de seu avanço as diferenças religiosas tiveram, em certa medida, de ceder. Em 23 de julho de 1532, o imperador e a Liga de Schmalkalden firmaram a trégua de Nuremberg, pela qual todos os processos existentes sobre secularizações seriam abandonados e a paz ficava assegurada aos protestantes até que se reunisse um concílio geral ou, ao menos, uma nova Dieta.11 Pouco depois, Carlos V deixou a Alemanha rumo à Itália e à Espanha, para só voltar em 1541. Embora ainda precária, a perspectiva protestante melhorara muito.
O protestantismo ganhou então rapidamente novos territórios. Em 1534, Anhalt-Dessau, Hanôver, Frankfurt e Augsburgo haviam sido conquistados. De importância ainda maior foi a conquista de Württemberg para o protestantismo por Filipe de Hesse, arrancando-o ao irmão do imperador, Fernando, e a restauração de seu duque Ulrico, resultado muito favorecido pelo ciúme católico do poder da casa de Habsburgo. À morte do duque Jorge, em 1539, seguiu-se o triunfo do protestantismo na Saxônia ducal, e no mesmo ano obteve-se do Brandemburgo eleitoral uma cautelosa adesão à Reforma.
Essa vitória crescente do luteranismo foi favorecida por um episódio trágico de 1533-1535, que privou o anabatismo de sua influência na Alemanha: a revolução de Münster. Os anabatistas em geral eram gente pacífica, ainda que bastante ignorante, de grande seriedade religiosa e de paciente resistência na perseguição. O episódio de Münster não foi típico deles como um todo. Havia, porém, entre eles muitos radicais, dos quais Hans Hut (ver Período VI, seção IV) foi um exemplo precoce. Um líder desse tipo foi Melchior Hoffmann. A princípio luterano devotado, tornou-se anabatista igualmente fervoroso, com pretensões adicionais de inspiração profética. Seu grande êxito deu-se na Frísia. Declarou que Estrasburgo fora designada por Deus como a nova Jerusalém, onde ele, como profeta da nova dispensação, sofreria prisão por seis meses; mas em 1533 viria o fim do mundo, e todos os que se opunham aos “santos” seriam destruídos. Com essa fé foi a Estrasburgo, e sua profecia cumpriu-se a ponto de ali ser preso; e na prisão permaneceu até sua morte, em 1543.
A pregação apocalíptica de Hoffmann conquistou muitos discípulos nos Países Baixos. Um deles, Jan Mathys, padeiro de Haarlem, apresentou-se como o profeta Enoque e logo espalhou uma propaganda fanática por amplas regiões dos Países Baixos e das partes adjacentes da Alemanha. Ao contrário de Hoffmann, que esperaria o poder de Deus para introduzir a nova era, Mathys queria inaugurá-la pela força. O descontentamento democrático popular deu-lhe a oportunidade.
Em parte alguma esse novo ensino teve mais influência do que em Münster, onde Bernt Rothmann, o pregador evangélico, foi conquistado para as ideias radicais em janeiro de 1534. Para lá foram, pouco depois, Mathys e um alfaiate de Leiden, Jan Beukelssen. Afirmava-se agora que Deus rejeitara Estrasburgo por causa de sua incredulidade e escolhera Münster, em seu lugar, como a nova Jerusalém. Radicais afluíram para lá em grande número. Em fevereiro de 1534 assenhorearam-se da cidade e expulsaram os que não aceitavam a nova ordem. O bispo de Münster sitiou a cidade. Mathys foi morto em combate. Jan Beukelssen foi proclamado rei. Estabeleceu-se a poligamia, impôs-se a comunhão de bens, e todos os opositores foram reprimidos com sangue. A luta, embora heroicamente sustentada, não tinha esperança. O bispo, auxiliado por tropas católicas e luteranas, tomou a cidade em 24 de junho de 1535, e os líderes sobreviventes foram executados sob torturas extremas. Para o anabatismo alemão foi uma catástrofe. Supunha-se popularmente que tal fanatismo era característico dos anabatistas, e o nome tornou-se ignominioso. Para o luteranismo foi um ganho. Livrou a causa luterana da rivalidade anabatista, mas fez do luteranismo, ainda mais decididamente do que antes, um partido de simpatias principescas e burguesas. Quanto ao próprio movimento anabatista, passou, sobretudo nos Países Baixos, à liderança sábia, pacífica e antifanática de Menno Simons (1492-1559), a quem se deveu principalmente sua digna reorganização e de quem deriva o termo “menonita”.
Carlos V nunca deixara de esperar e de trabalhar por um concílio geral, pelo qual se pudessem sanar as divisões da igreja e efetuar reformas administrativas. De Clemente VII não conseguiu obtê-lo. Paulo III (1534-1549), sucessor de Clemente, embora de modo algum fosse um homem religioso de coração íntegro, compreendia muito melhor do que Clemente a gravidade da situação causada pela Reforma. Prontamente nomeou cardeais Gasparo Contarini (1483-1542), Jacopo Sadoleto (1477-1547), Reginald Pole (1500-1558) e Giovanni Pietro Caraffa (1476-1559), todos homens desejosos de reforma nos costumes, no zelo e na administração, os quais apresentaram ao papa, em 1538, extensas recomendações para o melhoramento eclesiástico.12 Por Paulo III foi efetivamente convocado um concílio geral para reunir-se em Mântua em 1537. Antes da data marcada, a nova guerra entre Carlos V e Francisco I da França (1536-1538) tornara impossível a assembleia. Carlos pusera o coração no concílio e, antes da época em que este deveria ter sido aberto, exigiu dos líderes protestantes reunidos em Schmalkalden, em fevereiro de 1537, que concordassem em tomar parte nele. A ordem imperial colocou-os em posição difícil. Havia muito falavam de um concílio geral. Lutero apelara a tal assembleia já em 1518. Mas viam claramente que seriam vencidos no voto, e recusaram-se a participar do concílio, por ser numa cidade italiana e sob o domínio do papa.
Carlos viu que um concílio era por ora impossível, e tentou então a experiência de discussões de reunião. Elas de fato se realizaram em Hagenau, em junho de 1540, em Worms, mais tarde no mesmo ano, e em Regensburg, em abril de 1541. Melanchthon, Butzer, Calvino e outros tomaram parte em um ou mais desses colóquios do lado protestante; Eck, Contarini e outros do lado católico. Foi em vão, porém. As diferenças eram vitais demais para permitir acordo.
Era evidente para Carlos V que o caminho da conciliação não tinha esperança e que os protestantes não participariam de um concílio geral a menos que antes se reduzisse sua força militar e política. Aquela união de interesses protestantes não era menor perigo para a autoridade imperial nos assuntos políticos. Estava rompendo sem remédio o pouco de unidade que restava no império. Carlos, portanto, lentamente e com muitas hesitações, desenvolveu seu grande plano. Teria um concílio geral em funcionamento. Reduziria pela força o poder do protestantismo a ponto de os protestantes aceitarem o concílio como árbitro final; e o concílio poderia então fazer as concessões menores necessárias para a reunião da cristandade e corrigir os abusos que protestantes e católicos igualmente condenavam. Para realizar esse plano precisava obter três resultados preliminares. Devia, se possível, dividir politicamente a Liga de Schmalkalden; devia afastar o perigo de um ataque francês; e o perigo sempre ameaçador da invasão turca tinha de ser, ao menos por algum tempo, reduzido ao mínimo.
O propósito do imperador de dividir os protestantes foi favorecido por um dos episódios mais curiosos da história da Reforma. O landgrave Filipe de Hesse, o gênio político da Liga de Schmalkalden, embora abnegado em sua dedicação à causa protestante, era, como a maioria dos príncipes daquela época, homem de baixa moralidade pessoal. Casado cedo com uma filha do duque Jorge da Saxônia, que lhe deu sete filhos, não tinha afeição por ela. Seus constantes adultérios perturbavam-lhe a consciência a ponto de, de 1526 a 1539, ter participado da Ceia do Senhor uma única vez. Inquietava-se com a salvação de sua alma, sem melhorar sua conduta. Durante alguns anos acalentou a ideia de um segundo casamento como solução para suas perplexidades. Os patriarcas do Antigo Testamento haviam praticado a poligamia. O Novo Testamento em parte alguma a proibia expressamente. Por que não ele? Esse raciocínio fortaleceu-se com o conhecimento de Margarete von der Sale, atraente moça de dezessete anos, filha de uma dama da pequena corte de sua irmã. O consentimento da mãe foi obtido sob a condição de que o eleitor e o duque da Saxônia, e alguns outros, fossem informados de que se trataria de um casamento verdadeiro. A primeira esposa de Filipe também consentiu. Filipe estava plenamente convencido da legitimidade do passo, mas, por causa da opinião pública, desejava a aprovação dos teólogos de Wittenberg. Mandou, pois, chamar Butzer, de Estrasburgo, a quem, em parte persuadindo, em parte assustando com a ameaça de buscar dispensa do imperador ou do papa, levou a apoiar plenamente seu plano. Butzer tornou-se então o mensageiro de Filipe junto a Lutero e Melanchthon e ao eleitor saxão, embora o assunto fosse apresentado como questão abstrata, sem menção da pessoa com quem se cogitava o casamento. Em 10 de dezembro de 1539, Lutero e Melanchthon deram seu parecer. A poligamia, declararam, era contrária à lei primordial da criação, que Cristo aprovara; mas um caso especial exigia muitas vezes um tratamento que não se conformava à regra geral. Se Filipe não conseguia reformar sua vida, seria melhor casar-se como propunha do que viver como vivia. O casamento, porém, deveria ser mantido em absoluto segredo, de modo que a segunda esposa parecesse uma concubina. O conselho foi inteiramente mau, embora os reformadores de Wittenberg pareçam ter sido movidos por um desejo sincero de beneficiar a alma de Filipe.
Filipe foi mais honrado do que o conselho. Em 4 de março de 1540 casou-se com Margarete de um modo que, embora privado, não se pode chamar secreto. Um pregador da corte celebrou a cerimônia, e Melanchthon, Butzer e um representante do eleitor saxão estiveram entre as testemunhas. Embora se tentasse manter o caso em sigilo, isso logo se mostrou impossível. Lutero só soube aconselhar “uma boa e forte mentira”; mas Filipe foi homem bastante para declarar: “Não mentirei.”
O escândalo foi grande, tanto entre protestantes quanto entre católicos. Os demais príncipes evangélicos não quiseram defender o ato de Filipe nem prometer-lhe proteção contra suas consequências. O imperador viu nisso sua oportunidade. Em 13 de junho de 1541 obteve de Filipe, como preço de não sofrer consequências piores, o compromisso de que o landgrave não faria alianças com Estados estrangeiros, nem pessoalmente nem como representante da Liga de Schmalkalden. As promissoras negociações com a França, a Inglaterra, a Dinamarca e a Suécia, que teriam fortalecido muito o poder da Liga de Schmalkalden contra o imperador, tiveram de ser abandonadas. Pior ainda, Filipe teve de prometer não ajudar o duque Guilherme de Cleves, de inclinação evangélica, cujos direitos sobre Gelders Carlos contestava. Como o eleitor saxão era cunhado de Guilherme e estava decidido a apoiá-lo, o resultado foi uma séria divisão na Liga de Schmalkalden, que mostrou suas consequências desastrosas quando o imperador derrotou Guilherme, em 1543, tomou Gelders em posse permanente e obrigou Guilherme a repudiar o luteranismo. Essa derrota frustrou uma tentativa promissora de ganhar para a causa protestante o grande arcebispado de Colônia.13
A sorte favoreceu Carlos no restante de seu programa. Paulo III foi persuadido a convocar o Concílio Geral para reunir-se em Trento, cidade então pertencente ao império, mas praticamente italiana, em 1542. A guerra causou um adiamento, mas em dezembro de 1545 ele começou enfim de fato suas sessões, que haveriam de seguir um curso acidentado e interrompido até 1563. Com promessas vagas e indefinidas, Carlos obteve, na Dieta de Speyer de 1544, o apoio passivo dos protestantes, e alguma ajuda ativa, para as guerras contra a França e os turcos. A campanha contra a França foi breve. O imperador, aliado a Henrique VIII da Inglaterra, avançou quase até Paris, quando, para surpresa da Europa, fez a paz com o rei francês, sem, ao que parecia, obter nenhuma das vantagens que tinha ao alcance da mão. Na realidade, eliminara a intervenção francesa em possível auxílio ao protestantismo alemão para o futuro imediato.14 Os turcos, ocupados com uma guerra na Pérsia e com disputas internas, fizeram uma trégua com o imperador em outubro de 1545. Tudo parecia ter concorrido para o seu golpe contra o protestantismo alemão.
Foi enquanto as perspectivas assim escureciam que Lutero morreu, numa visita a Eisleben, cidade onde nascera, em 18 de fevereiro de 1546, em consequência de um ataque cardíaco ou de apoplexia. Seus últimos anos estiveram longe de ser felizes. Sua saúde havia muito era péssima. As querelas dos reformadores, para as quais contribuíra com sua plena parte, afligiam-no. Acima de tudo, entristecia-o o fato de a pura pregação da justificação somente pela fé não ter transformado grandemente a vida social, cívica e política ao seu redor. Consolavam-no uma vida doméstica feliz e plena confiança em seu evangelho. A obra que ele começara ultrapassara de longe o poder de qualquer homem, por mais dotado que fosse, de controlá-la. Ele já não era necessário; mas sua memória há de ser sempre a de uma das figuras mais titânicas da história da igreja.
Antes de entrar de fato na guerra, Carlos conseguiu dividir ainda mais os protestantes. A Saxônia ducal tornara-se plenamente protestante sob o duque Henrique (1539-1541), mas a seu breve reinado seguira-se a ascensão de seu jovem filho, Maurício (1541-1553). De grandes aptidões políticas, Maurício era um caráter difícil de avaliar, porque, numa época dominada por motivos religiosos professados, ainda que na realidade muitas vezes políticos, ele não se importava nada com as questões religiosas envolvidas e importava-se com tudo o que dissesse respeito ao seu próprio avanço político. Embora genro de Filipe de Hesse e primo do eleitor João Frederico da Saxônia (1532-1547), Maurício brigara com o eleitor e não estava em muito boas relações com Filipe. O imperador então, em junho de 1546, obteve secretamente o seu apoio, com a promessa de transferir a Maurício a dignidade eleitoral do primo em caso de guerra vitoriosa, e outras concessões importantes. Assim enfim preparado, o imperador declarou João Frederico e Filipe banidos por deslealdade ao império; Carlos desejava que a guerra parecesse política, e não religiosa. A Liga de Schmalkalden não fizera preparativos adequados. A defecção de Maurício foi um grande golpe. Embora a princípio a campanha corresse bem para os protestantes, a Saxônia eleitoral foi esmagada na batalha de Mühlberg, sobre o Elba, em 24 de abril de 1547, na qual João Frederico foi capturado. Filipe viu que a causa estava perdida e entregou-se ao imperador. Ambos os príncipes foram aprisionados. Maurício recebeu o título eleitoral e metade dos territórios do primo. Politicamente, o protestantismo estava esmagado. Só algumas cidades do norte, das quais Magdeburgo era a principal, e alguns príncipes menores do norte ainda ofereciam resistência.
Contudo, curiosamente, o imperador que acabara de esmagar politicamente o protestantismo nunca estivera em piores termos com o papa. Paulo III ajudara-o no início da guerra, mas recuara, temendo que o imperador vitorioso se tornasse poderoso demais. Carlos queria que o Concílio de Trento andasse devagar até ter os protestantes prontos para reconhecê-lo. Queria que fizesse então as concessões menores que parecessem capazes de aplacar o preconceito protestante. O papa queria que o concílio definisse depressa a fé católica e se dissolvesse. Já em abril de 1546 o concílio dificultara o acordo ao definir a tradição como fonte de autoridade em matéria de fé.15 Para reduzir ao mínimo a influência imperial, o papa declarou o concílio transferido para Bolonha, em março de 1547. O imperador recusou-se a reconhecer essa transferência e a sujeitar-se às decisões tridentinas já formuladas. Era preciso chegar a algum método de acordo religioso sob o qual a Alemanha pudesse viver até a cura do cisma que Carlos esperava do concílio. O imperador, portanto, mandou uma comissão eclesiástica redigir um Ínterim. Era essencialmente romano, embora concedesse o cálice aos leigos, permitisse o casamento dos clérigos e limitasse ligeiramente os poderes do papa. Os príncipes católicos recusaram-se a aceitá-lo como aplicável a eles. O papa denunciou-o. Carlos teve de abandonar a esperança de fazer dele um programa provisório de reunião, mas obteve sua adoção, em 30 de junho de 1548, pela Dieta de Augsburgo, como aplicável aos ex-protestantes. Esse Ínterim de Augsburgo passou então a impor com mão pesada. Maurício da Saxônia prestara tal serviço à causa imperial que se permitiu em suas terras uma modificação, conhecida como o Ínterim de Leipzig. Afirmava a justificação somente pela fé, mas restabelecia muito do uso e do governo romanos. Melanchthon consentiu nele com relutância, considerando suas partes romanas como “adiáforas”, isto é, matéria não essencial. Por essa fraqueza foi amargamente denunciado pelos luteranos desafiadores da invicta Magdeburgo, em especial por Matias Flácio Ilírico (1520-1575) e Nikolaus von Amsdorf (1483-1565). Flácio, sobretudo, fez muito para manter o luteranismo popular nesse tempo sombrio; mas as amargas querelas entre os teólogos luteranos haviam começado.
Ainda assim, superficialmente, parecia que Carlos se aproximava de seu objetivo. O papa Paulo III morreu em 1549 e teve por sucessor Júlio III (1550-1555), que se mostrou mais dócil ao imperador. O novo papa convocou o concílio para reunir-se outra vez em Trento, e teólogos protestantes chegaram de fato a comparecer perante ele em 1552. Na realidade, a Alemanha estava profundamente descontente: os protestantes gemiam sob o jugo imperial, e os príncipes católicos tinham ciúmes do poder aumentado de Carlos e de sua tentativa, aparentemente bem-sucedida, de assegurar por fim a sucessão imperial a seu filho, mais tarde famoso como Filipe II da Espanha. Maurício da Saxônia estava insatisfeito porque seu sogro, Filipe de Hesse, continuava preso; sentia, além disso, que já obtivera tudo o que podia esperar do imperador, que seus súditos eram luteranos e que só como líder luterano contra o imperador sua ambição sem limites poderia ser ainda mais satisfeita.
A redução da desafiadora Magdeburgo, em nome do imperador, deu a Maurício pretexto para levantar um exército. Fizeram-se acordos com os príncipes luteranos do norte da Alemanha. A ajuda do rei Henrique II da França (1547-1559) foi obtida ao preço da entrega à França das cidades fronteiriças alemãs de Metz, Toul e Verdun. Carlos conhecia a trama, mas não tomou medidas adequadas para enfrentá-la. O golpe veio rápido. Henrique invadiu a Lorena e tomou as cidades cobiçadas. Maurício marchou velozmente para o sul, quase capturando o imperador, que escapou fugindo de Innsbruck. Toda a estrutura que Carlos erguera com tanto esforço desabou como um castelo de cartas, não tanto diante do poder do luteranismo quanto diante da independência territorial dos príncipes. Em 2 de agosto de 1552, o Tratado de Passau pôs fim à breve luta.
Pelo Tratado de Passau, a solução da questão religiosa foi remetida à Dieta seguinte. Esse corpo só pôde reunir-se três anos depois. Rivalidades entre os príncipes agitavam a Alemanha. Maurício perdeu a vida, em 1553, na guerra contra o desordeiro margrave Alberto de Brandemburgo. Carlos, conscienciosamente avesso a tolerar o protestantismo, mas vendo tal tolerância como inevitável, entregou plena autoridade para negociar a seu irmão Fernando, embora este só viesse a ser escolhido imperador em 1558. A Dieta reuniu-se em Augsburgo. Os luteranos exigiram plenos direitos e a posse de todos os bens eclesiásticos secularizados até então ou dali em diante. Pediram tolerância para os luteranos em todos os territórios católicos, mas propunham não conceder nenhuma aos católicos nos seus. Essas exigências extremas sofreram naturalmente resistência, e o resultado foi um compromisso, a Paz de Augsburgo, de 25 de setembro de 1555.16 Por suas disposições, direitos iguais no império foram estendidos a católicos e luteranos; nenhum outro evangélico foi reconhecido. Cada príncipe leigo determinaria qual das duas fés seria professada em seu território (nenhuma escolha se permitia a seus súditos), e só uma fé seria permitida num dado território. Era o princípio usualmente definido como cujus regio, ejus religio. Quanto aos territórios e bens eclesiásticos, chegou-se ao acordo de que a época do Tratado de Passau seria a norma. Tudo o que então estava em posse luterana assim permaneceria, mas um governante espiritual católico que se tornasse protestante depois disso perderia seu cargo e suas possessões, assegurando-se assim aos católicos a posse continuada dos territórios espirituais não perdidos até 1552. Era a “reserva eclesiástica”. Ao homem comum, insatisfeito com a fé do território onde vivia, concedeu-se pleno direito de emigração sem impedimento e de venda justa de seus bens, grande avanço sobre a punição por heresia; mas sua escolha era apenas entre o catolicismo e o luteranismo.
Assim o luteranismo obteve pleno estabelecimento legal. A Alemanha ficou permanentemente dividida. O sonho de Lutero de uma purificação de toda a igreja alemã desvanecera-se, mas também se desvanecera a concepção católica da unidade visível.
Os líderes mais antigos desapareciam rapidamente. Lutero morrera nove anos antes. Melanchthon viveria até 1560. Carlos V renunciaria à posse dos Países Baixos em 1555, e à da Espanha um ano depois, e buscaria o retiro em Yuste, na Espanha, até que a morte lhe chegasse em 1558.
Dinamarca, Noruega e Suécia estavam nominalmente unidas sob um só soberano desde a União de Kalmar, em 1397. Desde 1460, Schleswig-Holstein também estava sob controle dinamarquês. Em nenhuma dessas terras a coroa era poderosa. Em todas, os grandes eclesiásticos eram impopulares como opressores, e muitas vezes nascidos no estrangeiro, e em todas rivalizavam com a nobreza. Em nenhuma parte da Europa, nem mesmo na Inglaterra, a Reforma haveria de ser mais completamente política. No alvorecer da Reforma, o trono dinamarquês era ocupado por Cristiano II (1513-1523), déspota esclarecido de simpatias renascentistas. Ele via o principal mal de seu reino no poder dos nobres e dos eclesiásticos, e, para limitar o dos bispos introduzindo o movimento luterano, obteve um pregador luterano na pessoa de Martin Reinhard, em 1520, e um conselheiro em Karlstadt, por breve tempo, em 1521. Ao menos em parte por conselho deste último, uma lei de 1521 proibiu as apelações a Roma, reformou os mosteiros, limitou a autoridade dos bispos e permitiu o casamento dos sacerdotes. A oposição impediu sua execução, e a hostilidade das classes privilegiadas, que Cristiano II despertara de muitos modos, expulsou-o do trono em 1523 e fez rei, em seu lugar, seu tio Frederico I (1523-1533).
Embora inclinado ao luteranismo, Frederico foi obrigado pelos partidos que o haviam posto no trono a prometer respeitar os privilégios dos nobres e impedir toda pregação herética. Ainda assim, o luteranismo penetrou no país. Em Hans Tausen (1494-1561), antigo monge e ex-estudante de Wittenberg, encontrou um pregador de força popular a partir de 1524. No ano anterior publicara-se uma tradução dinamarquesa do Novo Testamento. Em 1526, o rei Frederico tomou Tausen sob sua proteção como seu capelão. No mesmo ano o rei tomou em suas mãos a confirmação da nomeação dos bispos. Uma lei de 1527 converteu isso em estatuto, concedeu tolerância aos luteranos e permitiu o casamento dos sacerdotes.17 Essas mudanças foram favorecidas pelo apoio de grande parte da nobreza, conquistada pela anuência do rei a seus ataques contra os direitos e bens eclesiásticos. Em 1530, o mesmo ano da Confissão de Augsburgo, Tausen e seus companheiros apresentaram ao Parlamento dinamarquês os Quarenta e Três Artigos de Copenhague. Nenhuma decisão se tomou na ocasião, mas o luteranismo fez progressos crescentes até a morte de Frederico, em 1533.
A morte de Frederico deixou tudo em confusão. De seus dois filhos, a maioria dos nobres favorecia o mais velho, Cristiano III (1536-1559), luterano decidido, enquanto os bispos apoiavam o mais novo, João. Seguiu-se um período turbulento de conflito civil, do qual Cristiano III saiu vencedor em 1536. Os bispos foram presos, sua autoridade abolida e os bens da igreja confiscados para a coroa.18 Cristiano recorreu então a Wittenberg em busca de ajuda. Johann Bugenhagen, companheiro de Lutero, veio em 1537, e sete novos superintendentes luteranos, nomeados pelo rei, mas conservando o título de “bispo”, foram ordenados pelo reformador alemão, que era ele mesmo presbítero. A igreja dinamarquesa foi então reorganizada em moldes plenamente luteranos.19
A Noruega era um reino separado, mas, por eleição, sob o rei dinamarquês. A Reforma mal tocou o país durante o reinado de Frederico I. Nas lutas que se seguiram, o arcebispo Olaf Engelbrektsson de Trondhjem, chefe do clero norueguês, liderou um partido contemporizador e fugiu do país com o triunfo de Cristiano III. A Noruega foi transformada em província dinamarquesa, e a nova constituição religiosa luterana dinamarquesa foi nominalmente introduzida. A pregação e a superintendência efetivas na Noruega foram, porém, em grande parte negligenciadas por Cristiano III, de modo que a Reforma, imposta de cima, demorou a tomar posse efetiva das simpatias populares.
Quase a mesma história pode contar-se da distante possessão dinamarquesa, a Islândia. A Reforma chegou lá lentamente. O bispo Gissur Einarsson de Skálholt, educado na Alemanha e de simpatias luteranas, iniciou uma reforma luterana conservadora em 1540, e no mesmo ano publicou-se um Novo Testamento islandês. Em 1548, uma forte reação católica, liderada pelo bispo Jón Arason de Hólar, tentou sacudir o jugo dinamarquês. Em 1554 a rebelião estava sufocada e o luteranismo estabelecido à força, embora por muito tempo com pouca aprovação popular.
A reforma da Suécia esteve em grande parte ligada a uma luta nacional pela independência. Cristiano II da Dinamarca encontrou amarga resistência a seus esforços para obter o trono sueco. Seu principal partidário era Gustavo Trolle, arcebispo de Uppsala. Gustavo obteve do papa Leão X a aprovação da excomunhão de seus adversários, embora essa oposição fosse puramente política. Em 1520 Cristiano II tomou Estocolmo e fez seguir sua coroação como rei da Suécia de um ato da maior crueldade. Mandou executar os nobres desprevenidos, reunidos para a cerimônia, nominalmente como hereges excomungados. O Banho de Sangue de Estocolmo levantou a Suécia numa rebelião contra Cristiano II, que logo encontrou um líder enérgico em Gustavo Vasa. Os dinamarqueses foram expulsos e, em 1523, Gustavo foi escolhido rei (1523-1560).
Enquanto isso, a doutrina luterana era ensinada por dois irmãos que haviam voltado em 1519 de estudos em Wittenberg, Olaf (1497-1552) e Lars Petersson (1499-1573), os quais trabalharam em Strängnäs e logo conquistaram o arquidiácono Lars Andersson (1482-1552). Em 1524 o rei Gustavo favorecia decididamente esses líderes. Andersson tornou-se seu chanceler, e Lars Petersson professor de teologia em Uppsala. Em 27 de dezembro de 1524, uma disputa em Uppsala entre Olaf Petersson, agora pregador em Estocolmo, e o campeão romano Peter Galle pareceu uma vitória dos reformadores.20 Parte do apoio do rei devia-se provavelmente a convicção religiosa, mas porção não pequena devia-se à extrema pobreza da coroa, que Gustavo julgava só poder ser remediada por amplo confisco dos bens da igreja. Em junho de 1527 o rei desferiu o golpe. Na Dieta de Västerås, Gustavo exigiu, e obteve com a ameaça de abdicar, a atribuição à coroa de todos os bens episcopais ou monásticos que o rei julgasse desnecessários à devida obra religiosa, a entrega aos herdeiros dos proprietários originais de todas as terras isentas de impostos adquiridas pela igreja desde 1454, e a pregação “pura” da “Palavra de Deus”. Tomaram-se providências para a reconstituição da igreja sob a autoridade real.21 Embora senhor da igreja sueca, e agora possuidor de grande parte de seus bens, Gustavo usou seu poder em matéria religiosa de modo conservador. A maioria dos antigos prelados deixou o país. O ofício episcopal foi mantido, embora seus titulares fossem agora nomeados pelo rei. Novos bispos foram consagrados, com os ritos antigos, em 1528, pelas mãos do bispo Peter Magni, de Västerås, que recebera seu ofício nos dias católicos e por meio de quem se acreditava ter sido transmitida a sucessão apostólica ao episcopado luterano sueco. Novas medidas de reforma foram tomadas pelo sínodo de Örebro em 1529.22 Publicou-se um culto em sueco em 1529, e a Missa Sueca em 1531. Neste último ano, Lars Petersson foi feito arcebispo de Uppsala, embora sem jurisdição sobre os demais bispos, que permaneceu nas mãos do rei. A maior parte do clero inferior aceitou a Reforma e conservou seus postos, mas tais mudanças por poder real estiveram longe de conquistar imediata aprovação popular, e muito tempo passou antes que a Suécia se tornasse inteiramente evangélica. Seu tipo de luteranismo, na doutrina e na prática, era fortemente conservador. A reforma da Suécia levou consigo a da Finlândia, então parte da monarquia sueca. A igreja sueca haveria de passar por um período de reação romanizante, sobretudo sob o reinado do filho de Gustavo, João III (1569-1592); mas este terminou em 1593, quando o sínodo de Uppsala adotou formalmente a Confissão de Augsburgo como credo da Suécia.
Zurique era a potência mais forte no norte da Suíça; Berna, no sul. Esta última vivia em constante rivalidade com os duques de Saboia, sobretudo pela posse de territórios de língua francesa nas vizinhanças do lago de Genebra. A adoção das ideias evangélicas por Berna, em 7 de fevereiro de 1528 (ver Período VI, seção III), levou o governo bernense a promover a introdução da Reforma nesses distritos dependentes, incentivando a pregação de Guillaume Farel (1489-1565). Farel era natural de Gap, na província francesa do Delfinado. Como estudante em Paris, ficou sob a influência do reformador humanista Jacques Lefèvre d’Étaples e, por volta de 1521, pregava sob os auspícios de Guillaume Briçonnet, bispo de Meaux, moderadamente reformista. Orador de ardor veemente, sentimento intenso e voz estentórea, logo pregava a Reforma de tal modo que teve de deixar a França. Em 1524 instava pela reforma em Basileia, mas sua impetuosidade levou à sua expulsão.
Os meses seguintes foram um período de andanças, durante o qual Farel visitou Estrasburgo e conquistou a amizade de Butzer; mas, em novembro de 1526, sua obra na Suíça de língua francesa começou em Aigle, onde o governo bernense o defendeu, embora ainda não estivesse plenamente comprometido com a Reforma.23 Com a vitória completa das ideias novas em Berna, a obra de Farel avançou mais depressa. Em 1528, Aigle, Ollon e Bex adotaram a
Reforma, destruindo as imagens e pondo fim à missa.24 Depois de tentar em vão invadir Lausanne, iniciou um ataque tempestuoso em Neuchâtel, em novembro de 1529, que acabou assegurando ali a vitória da Reforma.25 Morat seguiu-se em 1530;26 mas em Grandson e Orbe, que, como Morat, estavam sob a soberania conjunta da protestante Berna e da católica Friburgo, só conseguiu obter a tolerância de ambas as formas de culto.27 Uma visita, a convite, em setembro de 1532, a um sínodo dos valdenses nos altos vales dos Alpes Cotianos resultou na aceitação da Reforma por grande parte desse corpo,28 e foi seguida, em outubro, por uma tentativa, a princípio malsucedida, de pregar a reforma em Genebra.29 Em toda parte Farel enfrentou a oposição com coragem indômita, às vezes com risco de vida e à custa de ferimentos, mas ninguém podia ficar indiferente à sua presença enérgica.
Genebra, à chegada de Farel, estava na luta de uma crise revolucionária. Situada numa das principais rotas comerciais através dos Alpes, era uma comunidade de negócios enérgica, muito atenta a seus interesses e liberdades, de padrões morais bastante complacentes, apesar de seus numerosos mosteiros e fundações eclesiásticas. As liberdades genebrinas eram mantidas com grande dificuldade contra as usurpações do poderoso duque de Saboia. No começo do século XVI, três poderes partilhavam o governo da cidade e das aldeias adjacentes: o bispo; seu vicedominus, ou administrador temporal; e os cidadãos, que se reuniam anualmente numa Assembleia Geral e escolhiam quatro “síndicos” e um tesoureiro. Além da Assembleia Geral, os cidadãos eram governados por um Pequeno Conselho de vinte e cinco membros, do qual faziam parte os “síndicos” do ano e os do ano anterior. Questões de política mais ampla eram discutidas por um Conselho dos Sessenta, nomeado pelo Pequeno Conselho, e em 1527 acrescentou-se um Conselho dos Duzentos, que incluía o Pequeno Conselho e cento e setenta e cinco outros escolhidos por esse corpo interno. Os agressivos duques de Saboia nomeavam o vicedominus desde 1290 e controlavam o bispado desde 1444. A luta era, portanto, uma luta dos cidadãos pela liberdade contra os interesses saboianos, representados pelo bispo e pelo vicedominus.
Em 1519 os cidadãos genebrinos fizeram uma aliança protetora com Friburgo, mas o duque Carlos III de Saboia levou a melhor, e o patriota genebrino Philibert Berthelier foi decapitado. Sete anos depois Genebra renovou o esforço, desta vez entrando em aliança tanto com Berna quanto com Friburgo. Em 1527 o bispo, Pierre de la Baume, deixou a cidade, que não conseguia controlar, e ligou-se plenamente aos interesses saboianos. A autoridade do vicedominus foi repudiada. O duque Carlos atacou a valente cidade, mas Berna e Friburgo vieram em seu auxílio em outubro de 1530, e ele teve de comprometer-se a respeitar as liberdades genebrinas.30 Até então havia pouca simpatia pela Reforma em Genebra, mas Berna era protestante e desejava ver ali estabelecida a fé evangélica. Cartazes que criticavam as pretensões papais e apresentavam a doutrina reformada foram afixados em 9 de junho de 1532, mas a aliada de Genebra, Friburgo, era católica, e o governo genebrino negou qualquer inclinação para o luteranismo.31 Em outubro seguinte veio Farel, como se viu, mas não conseguiu firmar o pé na cidade. Farel enviou a Genebra seu amigo Antoine Froment (1508-1581), que ali achou lugar como mestre-escola e, sob essa proteção, propagou a doutrina reformada. Em 1º de janeiro de 1533, Froment encorajou-se a pregar publicamente, mas o resultado foi um tumulto. Na Páscoa seguinte já havia protestantes em número suficiente para ousar celebrar a Ceia do Senhor, e em dezembro Farel voltou, agora com eficácia. O governo genebrino estava em posição difícil. Sua aliada católica, Friburgo, exigia que Farel fosse silenciado. Sua aliada protestante, Berna, insistia na prisão de Guy Furbity, o principal defensor da causa romana.32 Farel e seus amigos realizaram uma disputa pública e, em 1º de março de 1534, apoderaram-se de uma igreja. Sob pressão bernense, o governo rompeu a liga com a católica Friburgo. O bispo levantou então tropas para atacar a cidade. Sua ação fortaleceu muito a oposição genebrina, e em 1º de outubro de 1534 o Pequeno Conselho declarou vago o bispado, embora Genebra ainda estivesse longe de ser predominantemente protestante.33
No ano seguinte, Farel, encorajado pelo resultado favorável de um debate público em maio e junho, passou a uma ação ainda mais decidida. Em 23 de julho de 1535 apoderou-se da igreja de La Madeleine e, em 8 de agosto, da própria catedral de São Pedro. Um tumulto iconoclasta varreu as igrejas. Dois dias depois a missa foi abolida e, logo em seguida, os monges e as freiras foram expulsos da cidade. Em 21 de maio de 1536, a obra completou-se pelo voto da Assembleia Geral, que expressou sua determinação de “viver nesta santa lei evangélica e palavra de Deus”.34 Enquanto isso, o duque de Saboia vinha apertando duramente Genebra, mas Berna veio enfim poderosamente em seu auxílio em janeiro de 1536. Genebra viu afastado o perigo saboiano, apenas para surgir o risco de cair sob o controle bernense. Mas a coragem de seus cidadãos esteve à altura da situação, e em 7 de agosto de 1536 Berna reconheceu a independência genebrina.35 A corajosa cidade estava agora livre e aceitara o protestantismo, mais por razões políticas do que religiosas. Suas instituições religiosas tinham de ser todas formadas de novo. Farel sentiu-se incapaz da tarefa e, em julho de 1536, constrangeu um jovem conhecido francês que passava pela cidade a ficar e ajudar na obra. O amigo era João Calvino.36
1. Kidd, pp. 247-254.
2. Ibid., pp. 254, 255.
3. Kidd, p. 255.
4. Ibid., pp. 257-259.
5. Ibid., pp. 259-289; em tradução inglesa, Schaff, Creeds of Christendom, vol. 3, pp. 3-73.
6. Kidd, pp. 289-293.
7. Ibid., pp. 293, 294.
8. Ibid.
9. Kidd, pp. 298-300.
10. Ibid., p. 301.
11. Kidd, pp. 302-304.
12. Kidd, pp. 307-318.
13. Kidd, pp. 350-354.
14. Ibid., p. 354.
15. Kidd, pp. 355, 356.
16. Kidd, pp. 363, 364.
17. Kidd, p. 234.
18. Kidd, pp. 322-328.
19. Ibid., pp. 328-335.
20. Kidd, pp. 155-164.
21. Ibid., pp. 234-236.
22. Ibid., pp. 236-239.
23. Kidd, pp. 477-481.
24. Kidd, pp. 481, 482.
25. Ibid., pp. 483-489.
26. Ibid., p. 489.
27. Ibid., pp. 489-491.
28. Ibid., pp. 491, 492.
29. Ibid., pp. 492-494.
30. Kidd, pp. 494-500.
31. Ibid., pp. 500-504.
32. Ibid., pp. 504-508.
33. Ibid., pp. 508-512.
34. Kidd, pp. 512-519.
35. Ibid., pp. 519-521.
36. Ibid., p. 544.
Tradução para o português a partir de Williston Walker, A History of the Christian Church (Nova York, Charles Scribner’s Sons, 1918), 1ª edição, conferida com as imagens das páginas; domínio público. As notas são de Walker; as que eram só referência bíblica passaram para o texto. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.