Walker, História da Igreja Cristã · Período VI

Período VI, seções IX a X

IX. A revolta inglesa; X. A revolta escocesa.

Seção IX. A revolta inglesa

Na Inglaterra, os reis mais fortes havia muito controlavam, na prática, as nomeações episcopais, e as que eram feitas diretamente pelo papa costumavam basear-se em algum acordo com o soberano. Os principais cargos políticos eram ocupados por eclesiásticos, em parte porque poucos leigos podiam rivalizar com eles em saber ou experiência, e em parte porque os rendimentos dos altos ofícios da igreja tornavam essas nomeações baratas para o tesouro real. Naturalmente, em tais nomeações, a capacidade e a utilidade no serviço do rei tendiam a ser mais valorizadas do que a aptidão espiritual. Esse era o estado de coisas quando Henrique VIII (1509-1547) começou o seu reinado. Algum wyclifismo sobrevivia em círculos humildes e, de vez em quando, caía sob a censura da igreja. O humanismo entrara na Inglaterra e encontrara adeptos em grupos restritos entre os instruídos. John Colet (1467?-1519), afinal deão de São Paulo em Londres, lecionara em Oxford sobre as epístolas de Paulo, em pleno espírito humanista, já em 1496, e refundara a escola de São Paulo em 1512. Erasmo ensinara em Cambridge de 1511 a 1514, depois de visitar a Inglaterra pela primeira vez em 1499, e fez ali muitos amigos. Um deles foi o excelente John Fisher (1469?-1535), bispo de Rochester, e outro, o famoso Sir Thomas More (1478-1535). Contudo, pouco havia na situação do começo do reinado de Henrique VIII que fizesse parecer possível uma mudança no estado eclesiástico existente. Um traço da vida nacional, porém, era evidente, e seria a base do apoio a Henrique VIII: uma consciência nacional fortemente desenvolvida, um sentimento de “a Inglaterra para os ingleses”, que facilmente se levantava contra toda intromissão estrangeira, viesse de onde viesse.

Henrique VIII, que já foi bem descrito como um “tirano sob formas legais”, era homem de notável capacidade intelectual e vigor executivo, culto e sempre interessado na teologia escolástica, simpático ao humanismo, popular junto à massa do povo, mas egoísta, obstinado e interesseiro. Na primeira parte do reinado teve o apoio de Thomas Wolsey (1475-1530), que entrou no conselho privado em 1511 e em 1515 foi feito lorde chanceler pelo rei e cardeal pelo papa Leão X. Desde então foi o braço direito de Henrique. Quando os escritos de Lutero chegaram à Inglaterra, o seu uso foi proibido, e Henrique VIII publicou contra Lutero, em 1521, a sua Assertio Septem Sacramentorum [Defesa dos sete sacramentos], que lhe valeu de Leão X o título de “Defensor da Fé”. No começo do reinado Henrique se casara com Catarina de Aragão, filha de Fernando e Isabel da Espanha e viúva de seu irmão mais velho, Artur, embora esse casamento tivesse sido só de nome. Júlio II concedera em 1503 a dispensa que autorizava esse casamento com a mulher de um irmão falecido. Dessa união nasceram seis filhos, mas só uma, Maria, sobreviveu à primeira infância. Em 1527, se não antes, Henrique já alegava escrúpulos religiosos quanto à validade do seu casamento. As suas razões não eram inteiramente sensuais. Se fossem, bem poderia ter-se contentado com as amantes. Nunca uma mulher governara a Inglaterra. A Guerra das Duas Rosas terminara havia pouco, em 1485. A falta de um herdeiro varão, se Henrique morresse, provavelmente causaria guerra civil. Não era provável que Catarina tivesse mais filhos. Ele queria outra mulher e um herdeiro varão.

Wolsey foi levado a favorecer o projeto, em parte por sua subserviência ao rei, e em parte porque, se o casamento com Catarina fosse declarado inválido, esperava que Henrique se casasse com a princesa francesa Renata, depois duquesa de Ferrara, e assim fosse atraído mais firmemente do lado espanhol para o lado francês na política continental. Henrique, porém, tinha outros planos. Apaixonara-se por Ana Bolena, uma dama da sua corte. Seguiu-se uma negociação complicada, na qual Wolsey fez o possível para agradar a Henrique, enquanto Catarina se portou com dignidade e firmeza e foi tratada com crueldade. Provavelmente a anulação do casamento teria sido obtida do papa Clemente VII, não fosse o curso da política europeia, que deixou o imperador Carlos V vitorioso na guerra e forçou o papa a submeter-se à política imperial (ver Período VI, seção II). Carlos estava decidido a não deixar que sua tia, Catarina, fosse posta de lado. Henrique, irritado com o insucesso de Wolsey, voltou-se contra ele, e o grande cardeal morreu em 30 de novembro de 1530, a caminho de ser julgado por traição.

Henrique acolheu então uma sugestão de Thomas Cranmer (1489-1556), que ensinava na Universidade de Cambridge: consultar o parecer das universidades. Isso foi feito em 1530, com êxito apenas parcial; mas começou entre o rei e Cranmer uma amizade que teria consequências momentosas.

Estando agora fora de questão uma decisão favorável do papa, Henrique resolveu apoiar-se no sentimento nacional de hostilidade ao domínio estrangeiro, e em sua própria habilidade despótica, para romper de vez com o papado ou para ameaçar a tal ponto o controle papal que obtivesse o que desejava. Em janeiro de 1531, acusou todo o corpo do clero de violar o antigo estatuto de Praemunire, de 1353, por ter reconhecido a autoridade de Wolsey como legado papal, autoridade que o próprio Henrique reconhecera e aprovara. Não só extorquiu uma grande soma como preço do perdão, mas também obteve das convocações, nas quais o clero se reunia, a declaração de que, no que diz respeito à Igreja da Inglaterra, ele era “único e supremo Senhor e, tanto quanto permite a lei de Cristo, até chefe supremo”. No começo de 1532, sob forte pressão real, o Parlamento aprovou uma lei que proibia o pagamento de quaisquer anatas a Roma, salvo com o consentimento do rei.1 Em maio seguinte, o clero reunido em convocação concordou, com relutância, não só em não fazer novas leis eclesiásticas sem a permissão do rei, mas também em submeter todos os estatutos existentes a uma comissão nomeada por ele.2 Por volta de 25 de janeiro de 1533, Henrique casou-se secretamente com Ana Bolena. Em fevereiro o Parlamento proibiu todas as apelações a Roma.3 Henrique usou a proibição condicional das anatas para obter do papa Clemente VII a confirmação da nomeação de Thomas Cranmer como arcebispo de Cantuária. Cranmer foi sagrado em 30 de março; em 23 de maio, reuniu o tribunal e declarou formalmente nulo o casamento de Henrique com Catarina. Em 7 de setembro, Ana Bolena deu à luz uma filha, a princesa Elizabete, mais tarde rainha.

Enquanto esses acontecimentos se davam, Clemente VII preparara uma bula que ameaçava Henrique de excomunhão, em 11 de julho de 1533. A resposta de Henrique foi uma série de estatutos obtidos do Parlamento em 1534, pelos quais se proibiram todos os pagamentos ao papa, os bispos passaram a ser eleitos por indicação do rei, e foram abolidos todos os juramentos de obediência papal, as licenças romanas e outros reconhecimentos da autoridade papal.4 As duas convocações abjuraram então formalmente a supremacia papal.5 Em novembro de 1534, o Parlamento aprovou a famosa Lei de Supremacia, pela qual Henrique e seus sucessores foram declarados “o único chefe supremo na terra da Igreja da Inglaterra”, sem cláusulas restritivas e com pleno poder para corrigir “heresias” e “abusos”.6 Nem o rei nem os autores da lei a entendiam como concessão de direitos espirituais, como a ordenação, a administração dos sacramentos e coisas semelhantes, mas em tudo o mais ela praticamente punha o rei no lugar do papa. A ruptura com Roma estava consumada. E esses estatutos não ficaram no papel. Em maio de 1535, vários monges de uma das ordens mais respeitadas da Inglaterra, a dos cartuxos, ou Charterhouse, foram executados com especial barbaridade por negarem a supremacia do rei. Em junho e julho, os dois súditos mais conhecidos do rei, o bispo John Fisher e Sir Thomas More, igualmente notáveis pelo caráter e pela erudição, foram decapitados pelo mesmo delito.

Para essa obra, Henrique encontrara um novo agente em Thomas Cromwell (1485?-1540), homem de origem muito humilde, alternadamente soldado, comerciante e agiota, de quem Wolsey se servira muito como agente de negócios e no Parlamento. Em 1531 Cromwell já fazia parte do conselho privado; em 1534 era master of the rolls [N. do T.: guardião dos arquivos da Chancelaria, um dos altos cargos judiciais da Inglaterra]; e em 1536, leigo como era, vice-regente do rei nos assuntos eclesiásticos. Henrique tinha fome de bens eclesiásticos, tanto para manter sua corte pródiga como para criar e recompensar partidários (a Reforma, em toda parte, foi marcada por essas confiscações), e no fim de 1534 encarregou Cromwell de mandar visitar os mosteiros e relatar o seu estado. Os fatos alegados, cuja verdade ou falsidade ainda é matéria de disputa, foram apresentados ao Parlamento, que em fevereiro de 1536 adjudicou ao rei, “a seus herdeiros e cessionários para sempre, para deles fazerem e usarem segundo a sua e a vontade deles”, todos os estabelecimentos monásticos com renda inferior a duzentas libras anuais.7 O número dos que foram assim confiscados foi de trezentos e setenta e seis.

Entretanto, Henrique ficara em parte livre do perigo de intervenção estrangeira com a morte de Catarina de Aragão, em janeiro de 1536. Parece que agora desejava contrair um casamento que não estivesse sujeito às críticas feitas ao de Ana Bolena, de quem, além disso, estava cansado. Ela foi, por isso, acusada de adultério em maio de 1536, com razão ou sem ela é impossível decidir, embora a acusação pareça suspeita, e no dia 19 foi decapitada. Dois dias antes, Cranmer declarara nulo o seu casamento com Henrique. Onze dias depois, Henrique casou-se com Joana Seymour, que lhe deu um filho, Eduardo, em 12 de outubro de 1537, e morreu doze dias mais tarde. Os atos de Henrique, sobretudo a supressão dos mosteiros, despertaram muita oposição, principalmente no norte da Inglaterra, de modo que no verão de 1536 irrompeu uma insurreição temível, conhecida como a Peregrinação da Graça, que, porém, no começo do ano seguinte, foi eficazmente esmagada.

Embora essas mudanças na Inglaterra fossem antes de política eclesiástica do que de convicção religiosa, o estado agitado do país deu ocasião a um partido protestante real, ainda que pouco numeroso. Em sua origem, parece ter sido mais nativo do que importado, e ter seguido de início mais o caminho apontado por Wyclif do que o de Lutero. Como Wyclif, esperava do Estado a reforma da igreja e via nas riquezas da igreja um obstáculo à sua espiritualidade. Por isso esse partido pouco tinha a censurar nas afirmações e confiscações de Henrique. Como Wyclif, prezava a circulação da Bíblia e passou cada vez mais a julgar a doutrina e as cerimônias por sua conformidade com as Escrituras. À medida que a revolta alemã se desenvolvia, foi sentindo cada vez mais as influências continentais. Um líder destacado foi William Tyndale (1492?-1536). Desejoso de traduzir o Novo Testamento e impossibilitado de publicá-lo na Inglaterra, refugiou-se no Continente em 1524, visitou Lutero e publicou em 1526 uma tradução do grego realmente admirável. As autoridades eclesiásticas e civis tentaram suprimi-la, mas ela foi uma força na difusão do conhecimento das Escrituras. O próprio Tyndale morreu mártir em Vilvorde, perto de Bruxelas, em 1536. O amigo de Tyndale, John Frith (1503-1533), refugiou-se em Marburgo e de lá voltou à Inglaterra, só para ser preso e queimado em Londres em 1533 por negar as doutrinas do purgatório e da transubstanciação. Em simpatia com essas ideias de reforma doutrinária, embora variando na expressão exterior, estavam Cranmer, Nicholas Ridley (1500?-1555), Hugh Latimer (1490?-1555) e John Hooper (?-1555), todos futuros bispos e todos destinados a morrer na fogueira por sua fé. À medida que a oposição de Henrique a Roma crescia, o sentimento protestante espalhou-se entre leigos influentes, sendo exemplo notável a família Seymour, da qual Henrique tomara a sua terceira rainha.

A atitude religiosa do próprio Henrique era a da ortodoxia católica, exceto pela substituição da autoridade do papa pela sua. Só se afastou dela quando o perigo de ataque estrangeiro o obrigou a buscar possível apoio político junto aos protestantes alemães, e mesmo então não foi longe. Uma dessas ocasiões ocorreu nos anos de 1535 e 1536. Enviou uma comissão a Wittenberg para discutir doutrina, embora isso desse em pouco. Em 1536 o próprio Henrique redigiu os Dez Artigos, nos quais fez a sua maior concessão ao protestantismo. Os padrões autorizados de fé são a Bíblia, os credos Apostólico, Niceno e Atanasiano, e os “quatro primeiros concílios”. Só três sacramentos são definidos: o batismo, a penitência e a Ceia do Senhor; os outros não são mencionados nem para aprová-los nem para negá-los. A justificação implica fé somente em Cristo, mas a confissão, a absolvição e as obras de caridade também são necessárias. Cristo está fisicamente presente na Ceia. As imagens devem ser honradas, mas com moderação. Os santos devem ser invocados, mas não porque “nos ouvirão mais depressa do que Cristo”. As missas pelos mortos são desejáveis, mas deve ser rejeitada a ideia de que o “bispo de Roma” possa livrar do purgatório.

Um ato de maior influência nesse tempo, promovido por Cranmer, foi permitir em 1537 a venda de uma tradução inglesa da Bíblia, composta em grande parte da versão de Tyndale, mas em porção considerável do trabalho inferior de Miles Coverdale, e Cromwell ordenou em 1538 que ela fosse colocada ao alcance do público em cada igreja.8 O Pai-Nosso e os dez mandamentos deviam ser ensinados em inglês, e a litania foi traduzida; mas, quanto ao mais, o culto permaneceu substancialmente inalterado, na língua e na forma latinas, enquanto Henrique viveu.

A obra de Henrique nesses anos estivera livre de interferência estrangeira porque Carlos V e Francisco I estiveram em guerra de 1536 a 1538. Com a chegada da paz, os seus perigos aumentaram muito. O papa exigiu um ataque conjunto da França e da Espanha ao rei rebelde. A diplomacia de Henrique e os ciúmes mútuos o afastaram; mas ele tomou várias medidas importantes para diminuir o seu risco. Mostraria ao mundo que era um católico ortodoxo, salvo quanto ao papa. Assim, em junho de 1539, o Parlamento aprovou a Lei dos Seis Artigos.9 Ela afirmava como credo da Inglaterra uma doutrina estrita da transubstanciação, cuja negação seria punida com a fogueira. Rejeitava a comunhão sob as duas espécies, o pão e o vinho, e o casamento dos padres. Ordenava a observância perpétua dos votos de castidade e prescrevia as missas privadas e a confissão auricular. Esse estatuto permaneceu em vigor até a morte de Henrique. Não bastava, porém, que Henrique se mostrasse ortodoxo. Ele estava viúvo, e Cromwell insistia que fortalecesse a sua posição por um casamento que agradasse aos protestantes alemães e o unisse aos adversários do imperador Carlos V. Escolheu-se Ana de Cleves, irmã da mulher de João Frederico, o eleitor da Saxônia. O casamento realizou-se em 6 de janeiro de 1540.

Entretanto, Henrique completara em 1539 a confiscação de todos os mosteiros.10 Estava mais forte do que nunca em seu país. Francisco e Carlos evidentemente logo estariam de novo em guerra, e o imperador começava a cortejar o auxílio de Henrique. Os protestantes alemães olhavam com desconfiança os seus Seis Artigos, e ele já não precisava da ajuda deles. Henrique tinha considerado o casamento com Ana de Cleves um mero expediente político. Obteve-se dos bispos, em julho de 1540, a anulação, sob o fundamento de que o rei nunca dera “consentimento interior” ao casamento, e Ana foi generosamente indenizada em dinheiro. De Cromwell, a quem se devia o casamento, ele já não tinha mais serventia. Fez-se passar no Parlamento um decreto de proscrição (bill of attainder), e o hábil, mas inteiramente inescrupuloso, servidor do rei foi decapitado em 28 de julho de 1540. Esses acontecimentos foram acompanhados de crescente oposição ao elemento protestante, e essa inclinação católica evidenciou-se no casamento de Henrique com Catarina Howard, sobrinha do duque de Norfolk, pouco depois da separação de Ana de Cleves; mas a conduta da nova rainha deu margem a suspeitas, e em fevereiro de 1542 ela foi decapitada. Em julho de 1543, ele se casou com Catarina Parr, que teve a sorte de lhe sobreviver. Em 28 de janeiro de 1547, Henrique morreu.

À morte de Henrique, a Inglaterra estava dividida em três partidos. Destes, o que abrangia a grande massa dos ingleses estava bem de acordo com o falecido rei em não desejar nenhuma mudança considerável na doutrina ou no culto, ao mesmo tempo que rejeitava a jurisdição eclesiástica estrangeira. A força de Henrique estivera em que, com toda a sua tirania, ele representava razoavelmente esse grande partido do meio. Havia, além disso, dois partidos pequenos, nenhum deles realmente representativo: uma ala católica que restauraria o poder do papado, e uma facção protestante que introduziria a reforma tal como era entendida no Continente. Esta última, sem dúvida, vinha crescendo, apesar da repressão, nos últimos anos de Henrique. Seria destino da Inglaterra que os dois partidos menores e pouco representativos estivessem sucessivamente no poder durante os dois reinados seguintes, e que à agitação religiosa se somasse a inquietação agrária, devida às grandes mudanças na propriedade causadas pelas confiscações monásticas e, mais ainda, aos cercamentos das terras comunais por senhores gananciosos e ao empobrecimento dos arrendatários mais humildes pela perda de seus antigos direitos de uso.

Eduardo VI tinha apenas nove anos de idade. O governo foi, portanto, exercido em seu nome por um conselho, cujo chefe, com o título de Protetor, era o conde de Hertford, ou, como logo foi feito, duque de Somerset. Somerset era irmão da mãe do jovem rei, Joana Seymour, que vivera tão pouco. Era homem de simpatias protestantes e de excelentes intenções, partidário de certo grau de liberdade nas questões religiosas e políticas, em marcado contraste com Henrique VIII. Era também amigo sincero das classes agrícolas inferiores, que haviam sido despojadas. Sob o seu governo, a nova e relativa liberdade de expressão religiosa levou a muitas inovações locais e a muita controvérsia, na qual o partido revolucionário foi levando cada vez mais a melhor. Em 1547 o Parlamento ordenou que o cálice fosse ministrado aos leigos.11 No mesmo ano ocorreu a última grande confiscação de terras da igreja, a dissolução das chantries, isto é, capelas dotadas para a celebração de missas. Os bens das confrarias religiosas e das guildas também foram confiscados.12 Os Seis Artigos foram revogados. No começo de 1548 mandou-se retirar as imagens das igrejas. O casamento dos padres foi legalizado em 1549.13

A confusão logo se tornou grande, e, como meio ao mesmo tempo de fazer avançar as reformas e de assegurar a ordem, o Parlamento, em 21 de janeiro de 1549, decretou uma Lei de Uniformidade,14 pela qual se exigia o uso universal de um Livro de Oração Comum em inglês. Esse livro, conhecido como o Primeiro Livro de Oração de Eduardo VI, foi em grande parte obra de Cranmer, baseado nos antigos ofícios ingleses em latim, com algum uso de um breviário romano revisto, publicado em 1535 pelo cardeal Fernández de Quiñones, e da Einfältiges Bedenken [Consultação] provisória, de inclinação luterana, de Hermann von Wied, arcebispo de Colônia, publicada em 1543. Em seus traços maiores, ainda é o Livro de Oração da Igreja da Inglaterra, mas essa edição conservava muito dos pormenores do culto antigo, como as orações pelos mortos, a comunhão nos enterros, a unção e o exorcismo no batismo, e a unção dos enfermos, que logo seriam abandonados. Na Eucaristia, as palavras usadas ao entregar os elementos ao comungante eram a primeira cláusula da atual fórmula anglicana, o que implicava que o corpo e o sangue de Cristo são realmente recebidos.

Entretanto, Somerset viu-se cercado de dificuldades políticas. Para contrabalançar o poder crescente da França na Escócia, promoveu a união dos dois países pelo futuro casamento do rei Eduardo com a princesa escocesa Maria, que viria a ser a “Rainha dos Escoceses”, e apoiou os seus esforços com uma invasão da Escócia, na qual os escoceses foram terrivelmente derrotados em Pinkie, em 10 de setembro de 1547, mas que frustrou o seu propósito principal. Os líderes escoceses, irritados, apressaram-se a prometer Maria em casamento ao herdeiro da França, o futuro Francisco II, acontecimento de primeira importância para a reforma escocesa.

A queda de Somerset, porém, veio por causas que o honram. Ele percebeu o descontentamento agrário e julgou que se deviam promover esforços para conter os cercamentos. Nisso teve a oposição encarniçada das classes proprietárias de terras, das quais ninguém era mais ganancioso do que os recentes compradores de bens monásticos. Houve extensos levantes em 1549. Foram reprimidos com dificuldade, em grande parte pela eficiência do conde de Warwick. Assim, nas boas graças das classes proprietárias, Warwick encabeçou uma conspiração que tirou Somerset do protetorado em outubro de 1549.

Warwick, ou duque de Northumberland, como se tornou depois, embora nunca tenha assumido o título de Protetor, era agora o homem mais poderoso da Inglaterra. A situação religiosa mudou rapidamente. Somerset fora homem de grande moderação, desejoso de conciliar todos os partidos. Northumberland, ele próprio sem princípios religiosos, impulsionou a causa protestante por razões políticas, e o movimento assumiu então um caráter muito mais radical. Embora aparentemente reconciliado com Somerset, desconfiava da popularidade do antigo protetor e mandou decapitá-lo em 1552. A sua própria ganância, tirania e mau governo fizeram-no cordialmente odiado.

O Livro de Oração de 1549 não foi popular. Os conservadores não gostaram das mudanças. Os protestantes achavam que ele conservava demais do uso romano. Essas críticas foram apoiadas por vários teólogos estrangeiros de destaque, expulsos da Alemanha pelo Ínterim, que encontraram acolhida na Inglaterra, dos quais o mais influente foi Butzer, de Estrasburgo. Essa hostilidade pôde agora tornar-se eficaz sob a política mais radical de Northumberland, e levou à revisão do Livro de Oração e à sua reedição sob uma nova Lei de Uniformidade, em 1552.15 Muito mais do cerimonial antigo foi então abolido. Omitiram-se as orações pelos mortos, substituiu-se o altar por uma mesa de comunhão, usou-se na Ceia pão comum em vez de uma hóstia especial, puseram-se de lado o exorcismo e a unção, restringiram-se as vestes dos sacerdotes à sobrepeliz, e adotou-se o que é hoje a segunda cláusula da fórmula anglicana de entrega dos elementos, o que implicava uma doutrina voltada para a concepção zuingliana da Ceia.

Cranmer vinha preparando um credo, que por ordem do Conselho de Governo foi submetido em 1552 a seis teólogos, entre os quais John Knox. O resultado foram os Quarenta e Dois Artigos, autorizados pela assinatura do jovem rei em 12 de junho de 1553, menos de um mês antes da sua morte. Embora moderados para a época, eram de tom decididamente mais protestante do que o Livro de Oração.

Impopular como era, Northumberland estava decidido a manter o seu poder. Eduardo VI era visivelmente frágil de corpo, e Northumberland temia pela própria vida se Maria subisse ao trono. O plano que então adotou foi desesperado. Induziu o jovem rei a fixar a sucessão em Lady Jane Grey, mulher do quarto filho de Northumberland, Guilford Dudley, e neta de Maria, irmã de Henrique VIII. Eduardo VI não tinha direito legal de fazê-lo. Passou por cima dos direitos de suas meias-irmãs, Maria e Elizabete, e de Maria, “Rainha dos Escoceses”, cujo título genealógico era melhor do que o de Lady Jane. A esse plano insensato Cranmer deu relutante consentimento. Em 6 de julho de 1553, Eduardo VI morreu.

A trama de Northumberland fracassou por completo. A sua impopularidade era tal que até as partes mais protestantes da Inglaterra, como a cidade de Londres, se uniram em torno de Maria. Ela logo estava segura no trono, e Northumberland foi decapitado, declarando no cadafalso que era um verdadeiro católico. Maria procedeu de início com cautela, guiada pelos conselhos astutos de seu primo, o imperador Carlos V. O Parlamento declarou válido o casamento de sua mãe com Henrique VIII. A legislação eclesiástica do reinado de Eduardo VI foi revogada, e o culto público restaurado às formas do último ano de Henrique VIII.16 Cranmer foi preso. O imperador viu no provável casamento de Maria uma oportunidade de ganhar a Inglaterra e propôs então como marido seu filho Filipe, que logo seria Filipe II da Espanha. O casamento realizou-se em 25 de julho de 1554 e foi extremamente impopular, por ameaçar a Inglaterra com o domínio estrangeiro.

A reconciliação com Roma fora adiada até então, embora bispos e outros clérigos de simpatias reformadoras tivessem sido removidos, e muitos dos protestantes mais fervorosos tivessem fugido para o Continente, onde foram calorosamente recebidos por Calvino, embora tratados com frieza pelos luteranos, como hereges na questão da presença física de Cristo na Ceia do Senhor. A razão dessa demora era o receio de que os bens confiscados da igreja fossem tirados de seus atuais possuidores. Diante da indicação de que essa não seria a política papal, o cardeal Reginald Pole (1500-1558) foi admitido na Inglaterra. O Parlamento votou a restauração da autoridade papal, e em 30 de novembro de 1554 Pole a proclamou, e a nação foi absolvida da heresia. O Parlamento passou então a restabelecer as antigas leis contra a heresia17 e a revogar a legislação eclesiástica de Henrique VIII, restaurando assim a igreja ao estado em que estivera em 1529, salvo que o estatuto garantia os antigos bens da igreja a seus atuais possuidores.18

Começou imediatamente uma perseguição severa. A primeira vítima foi John Rogers, prebendário de São Paulo, queimado em Londres em 4 de fevereiro de 1555. A atitude do povo, que o aclamou a caminho da fogueira, era de mau agouro para essa política; mas, antes do fim do ano, setenta e cinco pessoas haviam sofrido o fogo em várias partes da Inglaterra, das quais as mais notáveis foram os antigos bispos Hugh Latimer e Nicholas Ridley, cuja heroica firmeza ao morrerem em Oxford, em 16 de outubro, causou profunda impressão no povo. Outra vítima destacada desse ano foi John Hooper, antigo bispo de Gloucester e Worcester. Maria estava decidida a atingir o mais alto dos clérigos antirromanos, o arcebispo Cranmer. Cranmer não era feito da matéria heroica de Latimer, Ridley, Hooper e Rogers. Foi formalmente excomungado por sentença em Roma em 25 de novembro de 1555, e Pole foi pouco depois feito arcebispo de Cantuária em seu lugar. Cranmer encontrava-se agora num dilema lógico. Afirmara, desde a sua nomeação sob Henrique VIII, que o soberano é a autoridade suprema na igreja inglesa. O seu protestantismo era real, mas esse soberano era agora católico romano. Na sua angústia, fez então uma submissão, declarando que reconhecia a autoridade papal tal como estabelecida por lei. Maria não tinha intenção de poupar o homem que declarara inválido o casamento de sua mãe. Cranmer tinha de morrer. Mas esperava-se que, por uma abjuração pública do protestantismo na hora da morte, ele desacreditasse a Reforma. Essa esperança quase se realizou. Cranmer assinou outra retratação, negando inteiramente o protestantismo; mas no dia da sua execução, em Oxford, em 21 de março de 1556, recobrou a coragem. Repudiou absolutamente as suas retratações, declarou a sua fé protestante e manteve na chama a mão culpada, que assinara as submissões agora renegadas, até que fosse consumida. O dia da sua morte foi o mais nobre da sua vida.

Filipe deixara a Inglaterra em 1555, e essa ausência, somada à sua própria falta de filhos, pesou sobre o espírito de Maria, levando-a a sentir que não fizera o bastante para satisfazer o juízo de Deus. Por isso a perseguição continuou sem trégua até a sua morte, em 17 de novembro de 1558. Ao todo, foram queimadas pouco menos de trezentas pessoas, número pequeno em comparação com o total de vítimas nos Países Baixos. Mas o sentimento inglês revoltou-se profundamente. Esses martírios fizeram mais pela difusão do sentimento antirromano do que todos os esforços governamentais anteriores. Era certo que a ascensão do próximo soberano traria uma mudança ou a guerra civil.

Elizabete (rainha de 1558 a 1603) passara muito tempo por ilegítima, embora o seu lugar na sucessão tivesse sido assegurado por lei do Parlamento ainda em vida de Henrique VIII. De todos os filhos de Henrique, foi a única que realmente se pareceu com ele em capacidade, perspicácia e popularidade pessoal. A uma força de caráter masculina juntava um curioso gosto pelos adornos pessoais, herdado de sua mãe leviana. Sentimento religioso verdadeiro não tinha nenhum, mas o seu nascimento e a negação romana da validade do casamento de sua mãe fizeram dela necessariamente uma protestante, embora sob Maria, quando a sua vida estivera em perigo, se tivesse conformado ao ritual romano. Felizmente a sua ascensão teve o apoio de Filipe II da Espanha, que logo seria o seu mais amargo inimigo. Esse favor a ajudou junto aos católicos ingleses. Romano fervoroso como era, Filipe era político o bastante para não querer ver a França, a Inglaterra e a Escócia sob o governo de um só casal real; e, se Elizabete não fosse rainha da Inglaterra, então Maria, “Rainha dos Escoceses”, mulher do príncipe que em 1559 se tornaria o rei Francisco II da França, teria direito legítimo ao trono inglês. Em suas primeiras medidas ao subir ao trono, Elizabete contou, além disso, com o auxílio de um dos estadistas mais cautelosos e previdentes que a Inglaterra já produziu, William Cecil (1521-1598), mais conhecido como Lord Burghley, a quem logo fez seu secretário e que seria o seu principal conselheiro até a morte. Foi também grande vantagem para Elizabete ser inteiramente inglesa de sentimento e profundamente identificada com as ambições políticas e econômicas da nação. Essa qualidade representativa reconciliou com o seu governo muitos a quem considerações apenas religiosas teriam afastado. Ninguém duvidava de que ela punha a Inglaterra em primeiro lugar.

Elizabete procedeu com cautela em suas mudanças. O Parlamento aprovou a nova Lei de Supremacia,19 com muita oposição, em 29 de abril de 1559. Por ela foram rejeitados a autoridade do papa e todos os pagamentos e apelações a ele. Apareceu, porém, uma significativa mudança de título, por insistência da própria Elizabete. Em vez do antigo “Chefe Supremo”, tão odioso aos católicos, ela passou a ser chamada “Governadora Suprema” da igreja na Inglaterra, expressão muito menos censurável, embora na prática equivalesse à mesma coisa. Os critérios de heresia passaram a ser as Escrituras, os quatro primeiros concílios gerais e as decisões do Parlamento. Entretanto, uma comissão vinha revendo o Segundo Livro de Oração de Eduardo VI (ver acima, nesta seção). Omitiu-se a oração contra o papa, assim como a declaração de que ajoelhar-se na Ceia não implicava adoração, enquanto a questão da presença física de Cristo ficou intencionalmente indeterminada pela combinação das fórmulas de entrega dos dois livros eduardinos (ver acima, nesta seção). Essas modificações destinavam-se a tornar o novo ofício mais aceitável aos católicos. A Lei de Uniformidade20 ordenou então que, a partir de 24 de junho de 1559, todo o culto fosse celebrado de acordo com essa liturgia, e determinou que os ornamentos da igreja e as vestes dos seus ministros fossem os do segundo ano de Eduardo VI.

O juramento de supremacia foi recusado por todos os membros do episcopado de Maria, exceto dois dos mais obscuros, mas entre o baixo clero a resistência foi em geral pequena, não chegando os obstinados a duzentos. Era preciso prover novos bispos, e Elizabete mandou eleger arcebispo de Cantuária Matthew Parker (1504-1575), que fora capelão de sua mãe. A sua sagração era uma questão embaraçosa; mas havia na Inglaterra quem tivesse recebido a ordenação episcopal sob Henrique VIII e Eduardo VI. Parker foi então sagrado em 17 de dezembro de 1559 pelas mãos de quatro destes: William Barlow, John Scory, Miles Coverdale e John Hodgkin. A validade desse ato, da qual depende a sucessão apostólica do episcopado inglês, sempre foi vigorosamente afirmada pelos teólogos anglicanos, ao passo que foi atacada pelos teólogos romanos por vários motivos e declarada inválida pelo papa Leão XIII em 1896, por defeito de “intenção”. Assim inaugurado, um novo episcopado anglicano estabeleceu-se rapidamente. Adiou-se de propósito uma definição do credo além da que estava implícita no Livro de Oração; mas em 1563 os Quarenta e Dois Artigos de 1553 (ver acima, nesta seção) foram um tanto revistos e, como os famosos Trinta e Nove Artigos, tornaram-se a declaração de fé da Igreja da Inglaterra.21

Assim, em 1563, o acordo elisabetano estava concluído. Era ameaçado por dois lados: pelo de Roma e, mais perigosamente ainda, pelo dos reformadores fervorosos que queriam ir além e que logo seriam apelidados de puritanos. O traço notável da revolta inglesa é que ela não produziu nenhum líder religioso de primeira grandeza, nenhum Lutero, Zuínglio, Calvino ou Knox. Nem manifestou, antes do começo do reinado de Elizabete, nenhum despertamento espiritual considerável no povo. Os seus impulsos foram políticos e sociais. Viria um grande avivamento da vida religiosa da Inglaterra, cuja história inicial coincidiria com o reinado de Elizabete, mas que nada lhe deveria.

Seção X. A revolta escocesa

No alvorecer do século XVI, a Escócia era um país pobre e atrasado. As suas condições sociais eram medievais. O poder dos seus reis era pequeno. Os seus nobres eram turbulentos. Relativamente, a sua igreja era rica em terras, possuindo cerca de metade das do país, mas os cargos eclesiásticos serviam em grande parte para colocar os filhos mais novos das casas nobres, e muitos bens do clero estavam nas mãos dos nobres leigos. A fraca monarquia costumava apoiar-se na igreja contra a nobreza leiga. A instrução era atrasada, embora no século XV se tivessem fundado universidades em St. Andrews, Glasgow e Aberdeen. Comparadas com os centros de saber do Continente, eram fracas.

O motivo determinante da maior parte da história política escocesa nesse período foi o temor do domínio ou da anexação pela Inglaterra, que levava o país a ligar a sua sorte à da França. Três derrotas penosas infligidas pelos ingleses, Flodden (1513), Solway Moss (1542) e Pinkie (1547), fortaleceram esse sentimento de antagonismo, mas mostraram que nem mesmo a superioridade de força inglesa podia conquistar a Escócia. Por outro lado, a Escócia aliada à França era um grande perigo para a Inglaterra, ainda mais sério depois que a Inglaterra rompera com o papado. Por isso tanto a Inglaterra quanto a França procuraram formar partidos e fortalecer facções que lhes fossem favoráveis na Escócia.

De modo geral, a poderosa família Douglas inclinava-se para a Inglaterra, enquanto a dos Hamilton favorecia a França. A França tinha também fortes partidários no arcebispo James Beaton (?-1539), de St. Andrews, primaz da Escócia, e em seu sobrinho, o cardeal David Beaton (1494?-1546), seu sucessor na mesma sé. Embora o rei Jaime V (reinou de 1513 a 1542) fosse sobrinho de Henrique VIII, e seu neto, Jaime VI, viesse a ser Jaime I da Inglaterra em 1603 e a unir as duas coroas depois da morte de Elizabete, Jaime V ligou a sua sorte à França, casando-se sucessivamente com uma filha de Francisco I e, depois da morte desta, com Maria de Lorena, da poderosa família católica francesa dos Guise. Esta última união, tão importante na história da Escócia, teria como fruto Maria, “Rainha dos Escoceses”.

Cedo houve na Escócia alguns começos protestantes. Patrick Hamilton (1504?-1528), que visitara Wittenberg e estudara em Marburgo, pregou a doutrina luterana e foi queimado em 29 de fevereiro de 1528. A causa cresceu lentamente. Em 1534 e 1540 houve outras execuções. Contudo, em 1543 o Parlamento escocês autorizou a leitura e a tradução da Bíblia. Foi apenas uma fase passageira, devida à influência inglesa, e em 1544 o cardeal Beaton e o partido francês já empregavam forte repressão. O principal pregador desse tempo foi George Wishart (1513?-1546), queimado pelo cardeal Beaton em 2 de março de 1546. Em 29 de maio, o próprio Beaton foi brutalmente assassinado, em parte por vingança pela morte de Wishart e em parte por hostilidade à sua política francesa. Os assassinos apoderaram-se do castelo de St. Andrews e ali reuniram os seus simpatizantes. Em 1547, um pregador protestante perseguido, aparentemente convertido por Wishart e certamente amigo dele, sem nenhum destaque anterior considerável, refugiou-se com eles e tornou-se o seu mestre espiritual. Era John Knox, que seria o herói da reforma escocesa.

Nascido em Haddington ou perto dali, entre 1505 e 1515, Knox teve uma carreira inicial obscura. Certamente foi ordenado sacerdote, mas, quando Wishart foi preso, estava com aquele mártir e pronto a defendê-lo. Forças francesas enviadas para submeter os rebeldes do castelo de St. Andrews obrigaram-no a render-se, e Knox foi levado para a França, para suportar durante dezenove meses a cruel sorte de escravo das galés. Libertado afinal, foi para a Inglaterra, então sob o governo protestante que governava em nome de Eduardo VI, tornou-se um dos capelães reais e em 1552 recusou o bispado de Rochester. A ascensão de Maria obrigou-o a fugir em 1554, mas os refugiados ingleses aos quais primeiro se juntou em Frankfurt dividiram-se por causa das suas críticas ao Livro de Oração eduardino,22 e ele logo encontrou acolhida em Genebra, onde se tornou ardente discípulo de Calvino e trabalhou na versão genebrina da Bíblia inglesa, mais tarde tão apreciada pelos puritanos ingleses.

Entretanto, os ingleses tinham afastado a Escócia mais do que nunca com a derrota de Pinkie, em 1547. Maria, “Rainha dos Escoceses”, fora prometida em casamento ao herdeiro do trono francês e enviada para a França, por segurança, em 1548, enquanto sua mãe, a Guise, Maria de Lorena, se tornou regente da Escócia em 1554.

Para grande parte dos nobres e do povo escocês, essa dependência total da França era tão odiosa quanto o teria sido qualquer submissão à Inglaterra. O protestantismo e a independência nacional pareciam ligados, e foi nessa dupla luta que Knox seria o líder. Knox ousou então voltar à Escócia, em 1555, e pregou durante seis meses; mas a situação ainda não estava madura para a revolta, e Knox voltou a Genebra para ser pastor da igreja dos refugiados de língua inglesa dali. Tinha, porém, lançado semente fecunda. Em 3 de dezembro de 1557, vários nobres escoceses protestantes e antifranceses fizeram um pacto (covenant) para “estabelecer a santíssima Palavra de Deus e a sua congregação”, donde receberam o apelido de “Os Lordes da Congregação”.23 O casamento de Maria com o herdeiro francês, em 24 de abril de 1558, deu novo alimento a essa dissidência.24 A Escócia parecia agora uma província da França, pois, se houvesse um filho dessa união, ele seria soberano das duas terras, e o domínio francês foi duplamente assegurado por um acordo assinado por Maria, mantido em segredo na época, pelo qual a França receberia a Escócia se ela morresse sem herdeiros. Antes do fim de 1558, Elizabete era rainha da Inglaterra, e Maria, “Rainha dos Escoceses”, a denunciava como usurpadora ilegítima e se proclamava a legítima ocupante do trono inglês.

Nessas circunstâncias, os defensores da independência escocesa e do protestantismo aumentaram rapidamente e se fundiram cada vez mais num só partido. Além disso, podia-se esperar que Elizabete ajudasse, ainda que só para a sua própria proteção. Knox viu que a hora chegara. Em 2 de maio de 1559, estava de volta à Escócia. Nove dias depois pregou em Perth. A multidão destruiu os estabelecimentos monásticos da cidade.25 A regente naturalmente considerou esse ato como franca rebelião. Tinha tropas francesas à sua disposição, e os dois lados prontamente se armaram para o combate. Mostraram-se bastante equilibrados, e o resultado ficou indeciso. Igrejas foram destruídas e bens monásticos saqueados, para desgosto de Knox, em muitas partes da Escócia. Em 10 de julho de 1559, morreu Henrique II da França, e o marido de Maria, Francisco II, tornou-se rei em seu lugar. Reforços franceses foram prontamente enviados à regente na Escócia. As coisas iam mal para os reformadores. Por fim, em janeiro de 1560, chegou o auxílio inglês. A luta arrastou-se. Em 11 de junho de 1560, a regente morreu, e a sua causa pereceu com ela. Em 6 de julho fez-se um tratado entre a França e a Inglaterra, pelo qual os soldados franceses foram retirados da Escócia e os franceses foram excluídos de todos os cargos importantes do seu governo. A revolução triunfara graças ao auxílio inglês, mas sem sacrificar a independência nacional escocesa, e o seu inspirador fora Knox.26 Nessa luta, as classes médias escocesas mostraram-se pela primeira vez uma força, e a sua influência foi a favor da nova ordem.

O partido vitorioso levou então o seu triunfo ao Parlamento escocês. Em 17 de agosto de 1560, uma confissão de fé calvinista, preparada em grande parte por Knox, foi adotada como credo do reino.27 Uma semana depois, o mesmo corpo aboliu a jurisdição papal e proibiu a missa sob pena de morte na terceira infração.28 Embora o rei e a rainha, na França, recusassem a sua aprovação, a maioria da nação havia falado.

Knox e seus companheiros passaram então a completar a sua obra. Em dezembro de 1560, realizou-se uma reunião que é considerada a primeira “Assembleia Geral” escocesa; em janeiro seguinte, o Primeiro Livro de Disciplina foi apresentado ao Parlamento.29 Era um documento notabilíssimo, que tentava aplicar a todo um reino o sistema elaborado por Calvino, embora o sistema presbiteriano ainda estivesse longe de plenamente desenvolvido. Em cada paróquia deveria haver um ministro e presbíteros que exercessem o cargo com o consentimento da congregação. O ministro e os presbíteros constituíam o conselho disciplinar, o futuro “consistório” (session), com poder de excomunhão. Nas cidades maiores haveria reuniões para discussão, das quais nasceriam os “presbitérios”; acima de grupos de ministros e congregações estavam os sínodos, e acima de todos a “Assembleia Geral”. A necessidade do tempo e o estado incipiente da igreja levaram a duas instituições a mais: os “leitores”, nos lugares onde não havia ministros ou onde o trabalho era grande, e os “superintendentes”, sem autoridade espiritual, mas com o direito administrativo de supervisionar a organização das paróquias e recomendar candidatos ao ministério. Além desses traços eclesiásticos, o Livro esboçava planos notáveis de educação nacional e de assistência aos pobres. Knox queria que a igreja, a educação e os pobres fossem sustentados com os antigos bens da igreja; mas aqui o Livro encontrou a resistência do Parlamento, que não o adotou, embora muitos dos seus membros o aprovassem. A constituição eclesiástica entrou gradualmente em vigor; mas os nobres se apoderaram de tal modo das terras da igreja que esta, de uma das mais ricas da cristandade em proporção aos recursos do país, tornou-se uma das mais pobres. Essa pobreza relativa imprimiu-lhe, porém, um caráter democrático que faria da igreja da Escócia o baluarte do povo contra as usurpações dos nobres e da coroa.

Todas as observâncias sem autoridade bíblica foram eliminadas. O domingo foi o único dia santo que restou. Para a condução do culto público, Knox preparou um Livro de Ordem Comum, às vezes chamado “Liturgia de Knox”, aprovado pela “Assembleia Geral” em 1564.30 Baseava-se em grande parte no da congregação inglesa de Genebra, que por sua vez se modelava no de Calvino. Permitia, porém, um uso ainda maior da oração livre, sendo as fórmulas dadas consideradas modelos, cujo emprego estrito não era obrigatório, embora a ordem geral e o conteúdo do culto fossem bastante definidos.

Knox logo teve de defender o que conquistara. O rei Francisco II da França morreu em 5 de dezembro de 1560, e em agosto seguinte Maria voltou à Escócia. A sua posição de jovem viúva era de molde a despertar uma simpatia que o seu grande encanto pessoal aumentava. Já não era rainha da França, e o elemento que apoiara o protestantismo, não por motivo religioso, mas por desejo de independência nacional, bem podia pensar que passara o perigo urgente do domínio francês, que o levara a aceitar a revolução religiosa. Maria portou-se a princípio com grande prudência. Embora não fizesse segredo da sua própria fé e mandasse dizer missa em sua capela, sob a furiosa reprovação de Knox, que era agora ministro de St. Giles, em Edimburgo, e admirado pelos burgueses daquela cidade, não interferiu no arranjo religioso feito em 1560. Esforçou-se por obter reconhecimento como herdeira de Elizabete ao trono inglês, coisa que Elizabete não tinha a menor intenção de conceder. Maria tinha os sábios conselhos de seu meio-irmão, James Stewart, mais tarde conde de Moray (1531?-1570), que fora um dos chefes dos “Lordes da Congregação”. Procurou, em entrevistas pessoais de grande habilidade, ganhar Knox, mas ele recusou qualquer aproximação e continuou a ser a alma do partido protestante. Ainda assim, as perspectivas escureciam para ele. Maria ganhava amigos. Os nobres protestantes estavam divididos. A missa era cada vez mais celebrada. Knox tinha bons motivos para temer que Maria desse à Escócia um rei católico, casando-se com algum grande príncipe estrangeiro. Discutiu-se seriamente um casamento com o filho de Filipe II da Espanha. Ainda mais alarmante para a causa protestante na Escócia e na Inglaterra foi o casamento efetivo de Maria, em 29 de julho de 1565, com seu primo Henry Stewart, Lord Darnley (1545-1567), por quem se apaixonara. O direito de Darnley ao trono inglês vinha logo depois do da própria Maria. Ele era popular entre os católicos ingleses e, embora tivesse passado por protestante na Inglaterra, declarava-se agora católico. O casamento aumentou o perigo de Elizabete em seu próprio país e fortaleceu o partido católico na Escócia. Moray opôs-se a ele, foi expulso da corte e logo exilado, e Maria fez grandes progressos em subjugar, um após outro, os lordes protestantes que simpatizavam com Moray. Perdeu assim o seu conselheiro mais sábio.

Até então Maria agira com bastante astúcia, mas o protestantismo escocês foi salvo agora pelos erros e pela falta de domínio próprio de Maria. Darnley era certamente desagradável e vicioso. Os sentimentos dela por ele mudaram. Por outro lado, o ciúme dele foi despertado pelo favor que Maria mostrava a David Riccio, um italiano que ela empregava como secretário para assuntos estrangeiros e que os lordes protestantes consideravam seu inimigo. Darnley e vários nobres protestantes entraram, por isso, numa conspiração pela qual Riccio foi arrancado da presença de Maria e assassinado no palácio de Holyrood, em 9 de março de 1566. Maria agiu com grande astúcia. Dissimulando a sua cólera contra o fraco Darnley, obteve dele os nomes dos seus companheiros de conspiração, declarou fora da lei os que tinham de fato participado do crime e recebeu os outros de volta em seu favor, sabendo eles, naturalmente, que eram apenas tolerados. Em 19 de junho de 1566, nasceu o filho de Maria e Darnley, o futuro Jaime VI da Escócia e Jaime I da Inglaterra. Maria nunca pareceu mais segura no trono escocês.

Na realidade, Maria nunca perdoara o marido, e agora convivia muito com um nobre protestante, James Hepburn, conde de Bothwell (1536?-1578), homem rude e libertino, mas valente, leal e marcial, cujas qualidades contrastavam com as do seu fraco marido. Bothwell encabeçou então uma conspiração para livrar Maria de Darnley; quanta parte a própria Maria teve nela ainda é uma das questões disputadas da história. Darnley, que se recuperava da varíola, foi levado por Maria de Glasgow para uma casa nos arredores de Edimburgo, onde Maria passou com ele parte da última noite. Na madrugada de 10 de fevereiro de 1567, a casa foi pelos ares, e o corpo de Darnley foi encontrado perto dela. A opinião pública acusou Bothwell do assassinato, e acreditou-se amplamente, provavelmente com razão, que Maria também era culpada. Seja como for, ela cumulou Bothwell de honras, e ele conseguiu ser absolvido por uma farsa de julgamento. Em 24 de abril, Bothwell foi ao encontro de Maria numa de suas viagens e a fez cativa com uma demonstração de força, segundo a crença geral com a conivência dela. Ele era casado, mas divorciou-se da mulher por adultério em 3 de maio, e em 15 de maio ele e Maria casaram-se segundo o rito protestante.

Essas transações desavergonhadas despertaram hostilidade geral na Escócia, ao mesmo tempo que privaram Maria, por algum tempo, da simpatia católica na Inglaterra e no Continente. Protestantes e católicos na Escócia uniram forças contra ela. Exatamente um mês depois do casamento, Maria era prisioneira, e em 24 de julho de 1567 foi obrigada a abdicar em favor do filho de um ano e a nomear Moray regente, enquanto ela própria ficava presa no castelo de Lochleven. Em 29 de julho, John Knox pregou o sermão na coroação de Jaime VI. Com a queda de Maria veio o triunfo do protestantismo, que foi definitivamente estabelecido pelo Parlamento em dezembro. A própria Maria escapou de Lochleven em maio de 1568, mas Moray prontamente derrotou os seus partidários, e ela fugiu para a Inglaterra, onde permaneceria, como centro de intrigas católicas, até ser executada por conspirar contra a vida de Elizabete, em fevereiro de 1587.

A carreira ardente de Knox estava quase no fim. Morreu em 24 de novembro de 1572, tendo influenciado não só a religião, mas o caráter da nação, mais do que qualquer outro homem da história escocesa. A obra de Knox seria continuada por Andrew Melville (1545-1623), que ensinara como colega de Beza em Genebra, de 1568 até a sua volta à Escócia, em 1574. Foi o reformador do ensino nas universidades de Glasgow e St. Andrews e, mais ainda, distinguiu-se como o aperfeiçoador do sistema presbiteriano na Escócia e seu vigoroso defensor contra as usurpações régias e episcopais de Jaime VI, que o obrigou a passar os últimos dezesseis anos da vida exilado de sua terra natal.

Notas

1. Gee e Hardy, Documents Illustrative of English Church History, pp. 178-186.

2. Ibid., pp. 176-178.

3. Ibid., pp. 187-195.

4. Gee e Hardy, pp. 201-232.

5. Ibid., pp. 251, 252.

6. Ibid., pp. 243, 244.

7. Gee e Hardy, pp. 257-268.

8. Gee e Hardy, p. 275.

9. Gee e Hardy, pp. 303-319.

10. Ibid., pp. 281-303.

11. Gee e Hardy, pp. 322-328.

12. Gee e Hardy, pp. 328-357.

13. Ibid., pp. 366-368.

14. Ibid., pp. 358-366.

15. Gee e Hardy, pp. 369-372.

16. Gee e Hardy, pp. 377-380.

17. Ibid., p. 384.

18. Gee e Hardy, pp. 385-415.

19. Gee e Hardy, pp. 442-458.

20. Gee e Hardy, pp. 458-467.

21. Schaff, Creeds of Christendom, 3.487-516.

22. Kidd, p. 691.

23. Ibid., p. 696.

24. Ibid., p. 690.

25. Kidd, p. 697.

26. Ibid., pp. 698-700.

27. Ibid., pp. 700, 704-707; Schaff, Creeds of Christendom, 3.437-479.

28. Ibid., pp. 701, 702.

29. Ibid., p. 707.

30. Kidd, pp. 708-715.

Tradução para o português a partir de Williston Walker, A History of the Christian Church (Nova York, Charles Scribner’s Sons, 1918), 1ª edição, conferida com as imagens das páginas; domínio público. As notas são de Walker; as que eram só referência bíblica passaram para o texto. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.