Walker, História da Igreja Cristã · Período VII

Período VII, seções XIV a XV

XIV. Divisões e reuniões na Escócia; XV. O catolicismo romano.

Seção XIV. Divisões e reuniões na Escócia

O presbiterianismo foi estabelecido como igreja oficial da Escócia sob Guilherme e Maria, em 1690. Em 1707, a Inglaterra e a Escócia uniram-se num só reino da Grã-Bretanha; mas os direitos independentes da Igreja da Escócia foram resguardados. Sob a rainha Ana, em 1712, o Parlamento aprovou duas leis importantes. Por uma delas, conferia-se a condição de comunhão tolerada ao episcopalismo, então fortemente entrincheirado no norte da Escócia. A outra, destinada a ser fonte de problemas sem fim, permitia que os “patronos”, em geral a coroa ou os grandes proprietários de terras, impusessem a nomeação de ministros presbiterianos a paroquianos hostis. Logo surgiram controvérsias a agitar a igreja escocesa. Em 1718, uma obra anônima do século XVII, The Marrow of Modern Divinity [A medula da teologia moderna], foi reeditada por instigação de Thomas Boston (1676-1732), de Ettrick, pregador popular e zeloso. A Marrow pareceu antinomiana a boa parte do ministério, por colocar tamanha ênfase na fé em Cristo que excluía até a necessidade do arrependimento. Boston conquistou simpatias. Em 1722, os “homens da Medula” foram censurados pela Assembleia Geral. Representavam, no entanto, sem dúvida alguma, um caloroso espírito evangélico.

Um desses “homens da Medula”, Ebenezer Erskine (1680-1754), de Stirling, pregador vigoroso, denunciou em 1733 toda limitação ao poder da congregação de escolher o seu ministro. Foi disciplinado pelo seu sínodo, e ele e vários companheiros foram depostos pela Assembleia Geral em 1740. Antes que essas censuras se concluíssem, já haviam fundado a primeira igreja livre escocesa, conhecida afinal como Igreja da Secessão. Ela cresceu rapidamente, mas logo se viu agitada pela questão de saber se os burgueses das cidades escocesas podiam licitamente jurar apoiar “a verdadeira religião […] autorizada pelas leis” da Escócia. Em 1747, a Igreja da Secessão dividiu-se em duas alas, a antiburguesa (ou dos que recusavam o juramento) e a burguesa. Houve novas subdivisões, mas a maior parte dos antiburgueses e dos burgueses uniu-se, em 1820, na Igreja da Secessão Unida.

A questão do patronato continuou a dividir. Thomas Gillespie (1708-1774), de Carnock, recusou-se a participar da posse de um ministro numa congregação que não o queria, e foi deposto pela Assembleia Geral em 1752. Em 1761, ele e outros ministros que pensavam do mesmo modo fundaram a organização que veio a ser a Igreja do Alívio. Essas diversas secessões obtiveram grande apoio popular, sobretudo entre os de espírito mais fervoroso. Em 1765, contavam cento e vinte congregações e cem mil adeptos. Em 1847, a Igreja da Secessão Unida e a Igreja do Alívio fundiram-se na Igreja Presbiteriana Unida.

Nessas circunstâncias, a igreja oficial ficou privada de boa parte da sua força espiritual. O pensamento racionalista penetrou na Escócia à medida que avançava o século XVIII, como na mesma época na Inglaterra e na Alemanha. As especulações de Hume (ver Período VII, seção III) não deixaram de ter influência. O resultado foi o crescimento do chamado moderantismo, que predominou na segunda metade do século XVIII e foi influente até bem dentro do século XIX. Para os moderados em geral, o cristianismo era sobretudo ético, e não fortemente experiencial ou doutrinário. Acreditava-se que o sistema de patronato favorecia a nomeação de moderados, onde as congregações muitas vezes teriam escolhido homens de feitio mais evangélico. Com a reação contra a Revolução Francesa, a ascensão do Romantismo e a revolta geral contra o racionalismo do século XVIII, um evangelicalismo caloroso, simpático também às aspirações políticas liberais do povo, começou a disputar o terreno com o moderantismo.

A partir de 1815, quando iniciou um memorável pastorado em Glasgow, o mais eminente do partido evangélico foi Thomas Chalmers (1780-1847), notável como pregador, reformador social, matemático, professor de teologia e estadista eclesiástico. Sob a sua liderança, e no espírito mudado dos tempos, o partido evangélico cresceu rapidamente em força. Sob a orientação de Chalmers inaugurou-se uma grande campanha para atender às necessidades da população crescente da Escócia, que resultou, até 1841, na construção de duzentas e vinte igrejas novas com donativos populares. A velha questão do patronato continuava acesa. Em 1834, o crescente partido evangélico conseguiu que a Assembleia Geral aprovasse uma regra de “veto”, pela qual os presbitérios ficavam proibidos de proceder à posse quando a maioria da congregação se opusesse ao candidato. Essa regra logo provocou uma controvérsia judicial. Os tribunais decidiram que a Assembleia Geral excedera os seus poderes. Pediu-se alívio ao Parlamento, que o recusou. Sob a liderança de Chalmers, portanto, cerca de quatrocentos e setenta e quatro ministros retiraram-se formalmente da igreja oficial em 1843 e fundaram a Igreja Livre da Escócia. Abriram mão de paróquias e salários. Tudo teve de ser provido de novo; mas o entusiasmo e o sacrifício do novo corpo estiveram à altura da tarefa. Em geral, foi uma retirada do elemento evangélico, separando-se dos “moderados”, já bastante modificados, mas menos zelosos e espirituais. Um terço da igreja oficial, e a sua parte mais ativa, havia saído. Contudo, o exemplo dos dissidentes acabou por contribuir para despertar o zelo na própria igreja oficial. Em 1874, os direitos de patronato, motivo original da divisão, foram abolidos por lei.

Os corpos separatistas mais antigos, reunidos desde 1847 na Igreja Presbiteriana Unida, havia muito rejeitavam qualquer vínculo com o Estado. A nova Igreja Livre da Escócia teve, na prática, de adotar a mesma posição, embora Chalmers e os seus primeiros líderes se apegassem à concepção de uma igreja nacional oficial, livre das imposições do Estado que a tolhessem. A lógica dos fatos tornou essa tese meramente acadêmica. Todas as circunstâncias aconselhavam a união e, assim, em 31 de outubro de 1900, a grande maioria da Igreja Livre da Escócia e a Igreja Presbiteriana Unida juntaram-se num só corpo, a Igreja Livre Unida da Escócia.

Uma minoria da antiga Igreja Livre recusou a união, ao todo umas sessenta e três congregações, na maior parte das Terras Altas, pequenas e fortemente conservadoras na teologia e na prática. Esse corpo ficou popularmente conhecido como os Wee Frees [os “livrezinhos”]. Reivindicou na justiça os bens de toda a antiga Igreja Livre. Em 1904, os juízes da Câmara dos Lordes deram aos Wee Frees tudo o que pediam, alegando que a maioria da Igreja Livre, ao unir-se aos presbiterianos unidos, declaradamente independentes do Estado, havia abandonado a crença original da Igreja Livre numa igreja oficial purificada. A situação criada não era apenas injusta, mas absurda. Buscou-se alívio no Parlamento, e em 1905 os bens foram repartidos de modo bastante equitativo, por uma comissão, entre os Wee Frees e os seus antigos irmãos, com base na capacidade de cada um de fazer uso efetivo deles. O avanço das ideias modernas em teologia também foi reconhecido pelo Parlamento, nessa lei de 1905, ao permitir à igreja oficial formular como julgasse conveniente os termos da subscrição às antigas confissões.

Estando assim a grande maioria dos presbiterianos independentes reunida na Igreja Livre Unida da Escócia, e removidos muitos dos motivos de contenda com a igreja oficial, é provável uma união entre as duas num futuro próximo, prenunciada pela fusão, em 1916, das escolas de teologia da igreja oficial e da Igreja Livre Unida em Aberdeen e Edimburgo.

Seção XV. O catolicismo romano

A Contrarreforma esgotara a sua força em meados do século XVII. Sua força estivera no poderio da Espanha e no zelo da ordem jesuíta. A Espanha saíra da Guerra dos Trinta Anos despojada do seu poder. Os jesuítas, embora mais poderosos do que nunca nos conselhos da Igreja Romana, haviam-se tornado mais mundanos e pouco conservavam do seu antigo zelo espiritual. Nenhum dos papas dos séculos XVII e XVIII foi homem de força dominante. Vários, como Inocêncio XI (1676-1689), Inocêncio XII (1691-1700) ou Bento XIV (1740-1758), tinham excelente caráter e boas intenções, mas não eram governantes de homens. O rumo da Igreja Romana foi de fraqueza crescente diante das pretensões cada vez maiores dos governos civis católicos. Um ataque realmente eficaz ao protestantismo já não era possível, a não ser onde ele existia, como na França, em terras predominantemente romanas.

Sob Luís XIV (1643-1715), a monarquia francesa seguiu uma política ditada pelo absolutismo do rei. Contra as pretensões papais, ele afirmou o direito da coroa a toda a renda dos bispados vacantes e favoreceu a proclamação, pelo clero francês em 1682, das “liberdades galicanas”: que os governantes civis têm plena autoridade nos assuntos temporais, que os concílios gerais estão acima do papa, que os usos da igreja francesa limitam a interferência papal e que o papa não é infalível. A disputa resultante foi resolvida por acordo em 1693, de tal modo que o clero praticamente retirou as suas afirmações, mas o rei ficou com a renda disputada.

Para com os próprios súditos, a política de Luís XIV foi determinada pela sua concepção de unidade nacional e pela influência jesuíta, sobretudo depois do seu casamento com Madame de Maintenon, em 1684. Em 1685, ele revogou o Edito de Nantes (ver Período VI, seção XII) e tornou o protestantismo ilegal sob as penas mais severas. O resultado final foi desastroso para a França. Milhares dos seus cidadãos mais industriosos emigraram para a Inglaterra, a Holanda, a Alemanha e a América. Romperam-se as antigas alianças com as potências protestantes, o que contribuiu muito para os fracassos militares dos últimos anos do reinado de Luís XIV.

A influência jesuíta levou o rei e o papa a uma oposição igualmente desastrosa ao jansenismo. Cornélio Jansênio (1585-1638), bispo de Ypres, católico fervoroso, era agostiniano convicto, persuadido de que era preciso combater as interpretações semipelagianas dos jesuítas acerca do pecado e da graça. Sua obra principal, o Augustinus, foi publicada em 1640, depois da sua morte. O livro de Jansênio foi condenado pelo papa Urbano VIII (1623-1644) em 1642, mas as ideias de Jansênio encontraram muito apoio entre os católicos mais profundamente religiosos da França, notadamente no convento de Port-Royal, perto de Paris. O adversário mais influente dos jesuítas foi Blaise Pascal (1623-1662), sobretudo nas suas Lettres provinciales [Cartas provinciais], de 1656. Luís XIV apoiou a hostilidade jesuíta ao jansenismo e perseguiu os seus seguidores. Em 1710, os edifícios de Port-Royal foram demolidos. O jansenismo encontrara um novo líder vigoroso em Pasquier Quesnel (1634-1719), que teve de buscar refúgio nos Países Baixos. Seu comentário devocional, Réflexions morales sur le Nouveau Testament [Reflexões morais sobre o Novo Testamento], de 1687-1692, despertou amarga hostilidade jesuíta, e por esforço deles o papa Clemente XI (1700-1721), pela bula Unigenitus, de 1713, condenou cento e uma proposições de Quesnel, algumas tiradas literalmente de Agostinho. Louis Antoine de Noailles (1651-1729), cardeal arcebispo de Paris, protestou e apelou para um concílio geral. A oposição, porém, foi vã. Os jesuítas, apoiados pela monarquia francesa, acabaram triunfando.

Em parte por causa dessa controvérsia jansenista, e em parte em razão de disputas entre os jesuítas e o clero romano mais antigo, ocorreu uma divisão em Utrecht, nos Países Baixos, da qual se originou em 1723 uma pequena igreja independente, a chamada Igreja Católica Jansenista, que ainda existe, com um arcebispo em Utrecht e bispos em Haarlem e Deventer.

Para a França, a expulsão dos huguenotes e o triunfo dos jesuítas foram grandes infortúnios. Enquanto na Inglaterra, na Alemanha e na Holanda era possível grande variedade de interpretação religiosa dentro dos limites do cristianismo, na França do século XVIII a escolha era apenas entre o romanismo do estreito tipo jesuíta, que muitos dos seus próprios filhos mais nobres condenavam, e a maré, que subia rapidamente, do novo racionalismo de um Voltaire e dos seus companheiros (ver Período VII, seção III). Milhares preferiram este último, e os resultados destrutivos haveriam de ficar evidentes no tratamento dado à igreja pela Revolução Francesa.

A segunda metade do século XVIII trouxe aos jesuítas a sua maior catástrofe. Eles se haviam dedicado em larga escala ao comércio colonial, apesar de proibido pelas suas próprias constituições; sua influência política era notória, e tinham contra si a hostilidade do racionalismo radical da época. Nesta última força encontraram os seus inimigos mais decididos. O poderoso ministro do rei José de Portugal (1750-1777), o marquês de Pombal (1699-1782), era homem de simpatias racionalistas. Irritou-se com a resistência jesuíta à sua política no Paraguai. Opunha-se à atitude dos jesuítas em favor do livre comércio. Em 1759, impôs com mão implacável a deportação de todos os jesuítas do território português. Na mesma época, a França foi sacudida pela escandalosa falência do jesuíta Lavalette, na Martinica. A força dominante no governo francês era a do duque de Choiseul (1719-1785), simpatizante do Iluminismo. Ele contou também com a ajuda de Madame de Pompadour, amante de Luís XV (1715-1774). Grande parte do clero francês também era hostil aos jesuítas. Em 1764, os jesuítas foram suprimidos na França. A Espanha e Nápoles os expulsaram em 1767. Os governantes dessas terras arrancaram então do papa Clemente XIV (1769-1774) a abolição da ordem, em julho de 1773. Esses acontecimentos atestaram a fraqueza do papado. Os jesuítas continuaram a existir na Rússia não romana e na Prússia protestante.

O crescimento da tolerância na França revela-se na isenção de perseguição concedida aos protestantes pelo governo de Luís XVI em 1787.

A tremenda tempestade da Revolução Francesa estava para desabar e varrer a igreja, com a nobreza, o trono e outras instituições antigas semelhantes. Os líderes revolucionários estavam imbuídos do espírito racionalista. Viam as igrejas como clubes religiosos. Em 1789, as terras da igreja foram declaradas propriedade nacional. Em 1790, os mosteiros foram abolidos. No mesmo ano, a constituição civil do clero derrubou as antigas divisões eclesiásticas, fez de cada “departamento” um bispado e determinou que todos os sacerdotes fossem eleitos pelos eleitores legais das suas comunidades. A constituição de 1791 garantiu plena liberdade religiosa. Em 1793, os líderes jacobinos conseguiram a abolição do cristianismo. Centenas de eclesiásticos foram decapitados. Passado o “terror”, em 1795, a liberdade religiosa foi mais uma vez proclamada, embora o Estado, como tal, devesse ficar sem religião. Na realidade, era fortemente anticristão. Essa situação estendeu-se, pelas conquistas francesas, aos Países Baixos, ao norte da Itália e à Suíça. Em 1798, Roma foi transformada em república pelas armas francesas, e o papa Pio VI (1775-1799) foi levado prisioneiro para a França, onde morreu.

Os acontecimentos militares de 1800 levaram à eleição de Pio VII (1800-1823) e à restauração dos Estados da Igreja. Napoleão, ao chegar ao poder, embora ele próprio sem sentimento religioso, reconheceu que a maioria do povo francês era católica romana e que a igreja poderia ser usada por ele. O resultado foi a Concordata com o papado, em 1801, e os Artigos Orgânicos, de 1802. Pela primeira, a igreja renunciou a todas as terras confiscadas que o governo já não detinha. As que estavam em poder do governo lhe foram restituídas. A nomeação de bispos e arcebispos caberia ao papa, mediante indicação do Estado. O clero inferior seria nomeado pelos bispos, mas o Estado tinha poder de veto. O clero seria pago pelo tesouro público. Pelos Artigos Orgânicos, nenhum decreto papal podia ser publicado nem nenhum sínodo francês realizado sem permissão do governo. Ao mesmo tempo, concederam-se aos protestantes plenos direitos religiosos, e o Estado assumiu o pagamento dos seus ministros e o controle dos seus assuntos. Napoleão logo se desentendeu com Pio VII, anexou os Estados da Igreja em 1809 e manteve o papa prisioneiro desde então até 1814. A Concordata de Napoleão haveria de reger as relações entre a França e o papado por mais de um século. Destinada a pôr a Igreja Católica francesa sob o controle do governo, e alcançando esse resultado sob Napoleão, seu efeito real foi levar o clero francês a ver no papa o seu único apoio contra o Estado. Ao ignorar todos os antigos direitos locais, arruinou de fato todas as pretensões galicanas a uma liberdade parcial e abriu a porta para o espírito ultramontano característico do catolicismo francês ao longo de todo o século XIX.

As guerras dos períodos republicano e napoleônico produziram mudanças de grande alcance na Alemanha. Os antigos territórios eclesiásticos praticamente deixaram de existir em 1803 e foram repartidos entre os Estados seculares. Em 1806, Francisco II (1792-1835) renunciou ao título de Sacro Imperador Romano. Já havia assumido o de Imperador da Áustria. Era o desaparecimento de uma instituição venerável, o Sacro Império Romano, que de fato era havia muito apenas uma sombra, mas que estava ligada às memórias medievais das relações entre igreja e Estado.

À queda de Napoleão seguiu-se uma reação universal. O antigo parecia valioso pela sua antiguidade. Levaria anos até que se manifestasse o progresso real alcançado pela era revolucionária. Essa reação foi favorecida pela ascensão do Romantismo, com a sua nova apreciação do medieval e a sua rejeição daquele espírito do século XVIII que dominara na Revolução. O papado tirou proveito de todos esses impulsos e logo desenvolveu uma força maior do que a que mostrara em cem anos. Prova característica dessa nova posição do papado foi a restauração dos jesuítas por Pio VII, em agosto de 1814; eles rapidamente recuperaram o antigo ascendente nos conselhos papais e as suas atividades de grande alcance, embora não o antigo poder político. Por sua vez, têm estado na linha de frente do desenvolvimento e da defesa da autoridade papal. Ao mesmo tempo, a restauração do poder da Igreja Romana foi acompanhada e tornada possível por um verdadeiro reavivamento da piedade, que continua a caracterizá-la até hoje.

O desenvolvimento romano durante o século XIX tem seguido na direção da afirmação da supremacia papal, o chamado ultramontanismo, isto é, “além dos montes”, do ponto de vista do norte e do oeste da Europa, ou seja, italiano. Para essa tendência ultramontana de exaltar o papado acima de todo eclesiasticismo nacional ou local, os jesuítas contribuíram poderosamente. O sucessor de Pio VII, Leão XII (1823-1829), foi reacionário e condenou, como o seu antecessor, o trabalho das sociedades bíblicas. Gregório XVI (1831-1846) foi um patrono do saber, mas reacionário diante dos ideais sociais e políticos modernos. Essa perspectiva essencialmente medieval e a recusa de chegar a termos com o mundo moderno levaram à formação, na primeira metade do século XIX, de partidos clericais e anticlericais nos países católicos, cujas disputas têm determinado em grande parte a política dessas terras até o presente.

As tendências ultramontanas encontraram a sua ilustração mais notável no pontificado de Pio IX (1846-1878). Tendo iniciado o pontificado num tempo em que os Estados da Igreja estavam à beira da revolta, porque os principais cargos políticos eram ocupados pelo clero, foi a princípio um reformador político; mas a tarefa mostrou-se grande demais para ele, e ele adotou uma política reacionária que o obrigou a buscar o apoio de soldados estrangeiros e deixou o povo descontente com o seu governo político. Em matéria de religião, estava sinceramente convencido de que o papado é uma instituição divinamente estabelecida à qual o mundo moderno pode recorrer para a decisão dos seus problemas religiosos controvertidos. Desejava tornar isso evidente. Em dezembro de 1854, depois de consultar os bispos da Igreja Romana, proclamou a imaculada conceição da Virgem, isto é, que Maria não teve parte em nenhuma mancha do pecado original. A questão estava em discussão desde a Idade Média, embora no século XIX o peso da opinião católica fosse esmagadoramente favorável à tese aprovada pelo papa. Por ato próprio, ele a elevou a dogma de fé obrigatório.

Em 1864, um Syllabus de erros, preparado sob os auspícios papais, condenou muitas coisas a que a maioria dos cristãos se opõe; mas repudiou também muito do que é fundamento dos Estados modernos, como a separação entre igreja e Estado, as escolas não confessionais e a tolerância da diversidade religiosa, e terminou condenando a tese de que “o Romano Pontífice pode e deve reconciliar-se e harmonizar-se com o progresso, o liberalismo e a civilização tal como recentemente introduzida”.

O acontecimento culminante do pontificado de Pio IX foi o Concílio Vaticano. Aberto em 8 de dezembro de 1869, com uma presença notavelmente numerosa vinda de todo o mundo romano, o seu resultado mais importante foi a afirmação, em 18 de julho de 1870, da doutrina da infalibilidade papal, por quinhentos e trinta e três votos contra dois. Estava longe de afirmar que todos os pronunciamentos papais são infalíveis. Para que o sejam, o papa deve expor, na sua condição oficial, “a revelação ou depósito da fé transmitido pelos apóstolos”. “O Romano Pontífice, quando fala ex cathedra, isto é, quando, no desempenho do ofício de pastor e doutor de todos os cristãos, em virtude da sua suprema autoridade apostólica, define uma doutrina sobre fé ou costumes a ser sustentada pela igreja universal, possui, pela assistência divina que lhe foi prometida no bem-aventurado Pedro, aquela infalibilidade com que o divino Redentor quis que a sua igreja fosse dotada.” Assim o Concílio Vaticano selou o triunfo do ultramontanismo. Foi o remate da monarquia papal absoluta e a derrubada daquela doutrina da supremacia do concílio geral que tivera tamanho vulto no século XV (ver Período V, seção XIII) e não deixara de ter representantes desde então.

Embora fosse sem dúvida o resultado lógico de séculos de desenvolvimento papal, essa definição doutrinária encontrou considerável oposição, sobretudo na Alemanha. O mais eminente dos que se recusaram a submeter-se foi o ilustre historiador de Munique Johann Joseph Ignaz von Döllinger (1799-1890); mas, embora excomungado, recusou-se a dar início a um cisma. O que ele recusou, outros realizaram, e o resultado foi a organização dos velhos católicos, que receberam a ordenação episcopal da Igreja Jansenista de Utrecht (ver acima, nesta seção). Sua principal expansão deu-se na Alemanha, na Suíça e na Áustria, onde ainda contam mais de cem mil adeptos. Chegaram até, embora muito debilmente, aos Estados Unidos. Contudo, o movimento velho-católico parece ter pouco futuro. Seus afastamentos de Roma, embora importantes, não foram vitais o bastante para servir de base duradoura a um ramo da Igreja cristã.

Enquanto isso, a maré da unidade nacional italiana vinha subindo. A guerra travada em conjunto pelo reino da Sardenha, sob Vítor Emanuel II (1849-1878), e pela França, sob Napoleão III (1852-1870), contra a Áustria, completada pelo entusiasmo italiano conduzido por Giuseppe Garibaldi (1807-1882), resultou na criação do reino da Itália sob Vítor Emanuel, em 1861, e na inclusão nele da maior parte dos antigos Estados da Igreja. Roma e os seus arredores foram preservados para o papa pela política ultramontana de Napoleão III. Ao estourar a guerra entre a França e a Alemanha, em 1870, as tropas francesas foram retiradas. Em 20 de setembro de 1870, Vítor Emanuel tomou Roma, e os habitantes da região votaram a anexação à Itália por cento e trinta e três mil votos contra mil e quinhentos. O governo italiano garantiu ao papa os privilégios de soberano e a posse absoluta do Vaticano, do Latrão e de Castel Gandolfo. Assim chegaram ao fim os Estados da Igreja, a mais antiga soberania secular contínua então existente na Europa. Pio IX protestou, declarou-se prisioneiro e excomungou Vítor Emanuel. O papado tem continuado a desejar a restauração das suas possessões temporais; mas, para quem não é romano, esse sacrifício parece ter sido uma vantagem. Livrou o papado de uma tarefa secular para a qual estava mal preparado e cuja tentativa de execução o expunha a acusações bem fundadas de má administração. Deu ao papado campo livre para o desenvolvimento das suas funções espirituais. Não é por acaso que, nos quarenta e sete anos decorridos desde a perda das suas possessões territoriais, o papado tem sido mais influente e tem gozado do respeito geral da humanidade em grau maior do que em qualquer período desde antes da Reforma.

Pio IX teve como sucessor um papa estadista, Leão XIII (1878-1903). Ele pôs fim aos conflitos entre o papado e o governo imperial da Alemanha. Exortou os católicos franceses a apoiar a república. Com a Itália teve menos êxito, por insistir na restauração dos Estados da Igreja. Declarou Tomás de Aquino (ver Período V, seção VII) o padrão do ensino romano, retornando assim ao melhor período do pensamento religioso medieval. Incentivou o estudo das Escrituras. Abriu os tesouros do Vaticano aos estudiosos de história. As relações entre trabalho e capital e os interesses dos trabalhadores atraíram a sua atenção. Buscou a reunião das Igrejas romana e orientais; mas declarou inválidas as ordens anglicanas em 1896. Em 1878, restaurou o episcopado católico romano na Escócia. Homem de gostos eruditos e amplas simpatias, estava longe de qualquer complacência com o protestantismo, mas conquistou merecida admiração pela habilidade, sabedoria, zelo cristão e seriedade religiosa com que exerceu o seu grande ofício.

Pio X (1903-1914) foi, em muitos aspectos, um contraste com Leão XIII. Este era de nascimento nobre. Pio X era de origem humilde. Leão XIII tinha grande habilidade diplomática e visão de longo alcance. Pio X era um fiel pároco cuja paróquia se tornara mundial. Coube-lhe tratar de duas questões de grande dificuldade. A primeira dizia respeito às relações entre igreja e Estado na França. Apesar dos esforços de Leão XIII, a maioria dos católicos franceses era considerada morna em relação à república. As relações vinham-se tornando tensas havia muito. Em 1901, as ordens religiosas não sujeitas ao controle do Estado foram proibidas de ensinar. A recusa de submissão por parte de algumas foi seguida, em 1903, pela supressão de muitos mosteiros e conventos e pelo confisco dos seus bens. Em 1904, o presidente Loubet, da França, fez uma visita de Estado ao rei da Itália, em Roma. Pio X, considerando o soberano italiano possuidor ilegítimo de Roma, protestou. A França retirou o seu embaixador da corte papal e pouco depois rompeu todas as relações diplomáticas. Em dezembro de 1905, o governo francês decretou a separação entre igreja e Estado. Retirou-se todo auxílio governamental a católicos e protestantes. Todos os templos e demais bens eclesiásticos foram declarados propriedade do Estado, a ser alugada para uso por associações locais de culto responsáveis perante o Estado, com preferência para as que representassem a fé em cujo serviço os bens haviam sido empregados por último. Embora muitos bispos franceses estivessem prontos a formar tais organizações, Pio X proibiu. O resultado foi um impasse, que ainda continua, embora o governo francês tenha permitido que o culto prossiga como antes. Desde então, católicos e protestantes têm tido de prover o custo dos seus cultos com donativos voluntários. O ajuste tem sido difícil; mas a tarefa, que tem sido realizada com êxito, parece ter servido, pelas suas próprias dificuldades, para despertar o interesse religioso da nação.

O segundo problema foi ocasionado pelo surgimento dos modernistas. Apesar do ultramontanismo crescente, a crítica histórica moderna, a investigação bíblica e as concepções científicas de crescimento por desenvolvimento encontraram apoio, ainda que escasso, na comunhão romana. A alguns homens sérios e reflexivos pareceu imperativa uma reinterpretação do catolicismo nos termos do mundo intelectual moderno. Tais foram Hermann Schell (1850-1906), na Alemanha, Alfred Loisy (1857-), na França, George Tyrrell (1861-1909), na Inglaterra, e um grupo considerável na Itália. O modernismo não se restringiu a nenhum país. Contra esse movimento Pio X se pôs firmemente. Por um “sílabo” e uma “encíclica”, em 1907, o modernismo foi condenado, e tomaram-se medidas rigorosas para reprimi-lo. Essas medidas parecem ter tido êxito, mas só o futuro poderá dizer se tais tendências podem ser esmagadas para sempre. Pio X dedicou-se com proveito a muitas reformas administrativas.

O papa atual, Bento XV (1914-), é de espírito erudito e natureza pacífica, mas a brevidade do seu pontificado e os interesses dominantes da grande guerra mundial têm tornado difícil, por enquanto, uma avaliação do seu pontificado.

Tradução para o português a partir de Williston Walker, A History of the Christian Church (Nova York, Charles Scribner’s Sons, 1918), 1ª edição, conferida com as imagens das páginas; domínio público. As notas são de Walker; as que eram só referência bíblica passaram para o texto. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.