Tendo mostrado agora que as passagens das Sagradas Escrituras em que ocorrem os termos eleição, vocação, predestinação e presciência não autorizam as inferências pelas quais os calvinistas tentam restringir o significado das declarações sobre a extensão do benefício da morte de Cristo, expressas em termos tão universais no Novo Testamento, podemos concluir nossa investigação do sentido da Escritura sobre esse ponto considerando alguns dos textos isolados que com mais frequência se apresentam em apoio da mesma conclusão.
“Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora” (Jo 6.37).
Infere-se deste e de algumas passagens semelhantes dos Evangelhos que, por uma transação entre o Pai e o Filho, um número fixo de pessoas, chamadas “os eleitos”, foi dado a Cristo e, com o passar do tempo, atraído a ele pelo Pai; e que, como ninguém pode ser salvo senão os que foram assim “dados” a ele e “atraídos” pelo Pai, fica estabelecida a doutrina da “graça distintiva”; e o restante da humanidade, não tendo sido dado pelo Pai ao Filho, não pode ter nenhuma participação salvadora nos benefícios de uma redenção que não se estendeu a ele. Essa ficção tem sido muitas vezes defendida com muito engenho; mas continua sendo uma ficção, sem o apoio de nenhuma boa interpretação dos textos que se tomaram como seu fundamento.
1. A primeira objeção à interpretação que os calvinistas costumam dar a este texto é que, no caso dos judeus obstinados com quem Cristo mantinha esse discurso, ela situa a razão de não “virem” a Cristo no fato de não lhe terem sido “dados” pelo Pai; ao passo que nosso Senhor, ao contrário, situa essa razão neles mesmos, e mostra que considerava que o caso deles estava em suas próprias mãos, convidando-os a vir a ele e repreendendo-os porque não queriam vir. “Também não têm a palavra dele [a palavra do Pai] permanente em vocês, porque não creem naquele a quem ele enviou” (Jo 5.38). “Contudo, vocês não querem vir a mim para ter vida” (v. 40). “Como podem crer, vocês que aceitam glória uns dos outros” (v. 44). “Porque, se vocês, de fato, cressem em Moisés, também creriam em mim; pois ele escreveu a meu respeito” (v. 46). Ora, essas afirmações não podem subsistir juntas. Pois, se a verdadeira razão por que os judeus obstinados não criam em nosso Senhor era que não lhe tinham sido dados pelo Pai, então ela não estava neles mesmos; mas, se a razão era que “a palavra dele” não permanecia neles, que eles “não queriam vir a ele”, que buscavam a “glória” do mundo e, finalmente, que não criam nos escritos de Moisés, então é inteiramente contraditório com essas declarações situá-la num ato de Deus, ao qual ela não é atribuída em parte alguma do discurso.
2. Ser “dado” pelo Pai a Cristo é uma expressão abundantemente explicada no contexto, que essa classe de intérpretes geralmente não leva em conta.
Ela tinha aplicação especial àqueles judeus piedosos que “esperavam a redenção de Jerusalém” (Lc 2.38): os que liam os escritos de Moisés e neles criam (termo geral, ao que parece, para as Escrituras do Antigo Testamento) e que assim estavam preparados, por concepções mais espirituais que as dos demais, embora não isentas de obscuridade, para receber Cristo como o Messias. Desse tipo eram Pedro, André, Filipe, Natanael, Lázaro e suas irmãs, e muitos outros. Filipe diz a Natanael: “Achamos aquele de quem Moisés escreveu na Lei, e a quem se referiram os profetas” (Jo 1.45); e Natanael era manifestamente um judeu piedoso, pois nosso Senhor disse a respeito dele: “Eis um verdadeiro israelita, em quem não existe fingimento algum!” (Jo 1.47). A luz que esses investigadores sinceros do sentido das Escrituras obtinham quanto ao significado do testemunho delas a respeito do Messias, e quanto ao caráter e às reivindicações de Jesus, é expressamente atribuída ao ensino e à revelação “do Pai”. Assim, depois da confissão de Pedro, nosso Senhor exclamou: “Bem-aventurado é você, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que revelaram isso a você, mas meu Pai, que está nos céus” (Mt 16.17). Esse ensino e a sua influência sobre a mente são chamados, em João 6.44, o “atrair” do Pai: “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer” [N. do T.: a NAA traz “trouxer”; Watson segue a KJV, draw, “atrair”, termo que ele discute]. Pois é evidente que “atrair” e “ensinar” significam a mesma coisa, visto que nosso Senhor acrescenta imediatamente: “Está escrito nos Profetas: ‘E todos serão ensinados por Deus'”; e então junta esta observação explicativa: “Portanto, todo aquele que ouviu e aprendeu do Pai, esse vem a mim” (Jo 6.45). Os que verdadeiramente “criam” nas palavras de Moisés estavam, pois, sob a influência iluminadora do Pai, “ouviram e aprenderam do Pai”, foram “atraídos” pelo Pai e, assim, foram “dados a Cristo” pelo Pai como seus discípulos, para serem ensinados mais plenamente nos mistérios da sua religião e feitos participantes salvadores dos seus benefícios. Pois “a vontade de quem me enviou é esta: que eu não perca nenhum de todos os que ele me deu” (para assim aperfeiçoá-los no conhecimento e elevá-los na santidade); “pelo contrário, eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6.39). Temos assim exposto aquele belo processo da obra de Deus no coração dos judeus sinceros, que se deu na passagem deles de uma dispensação para outra, de Moisés para Cristo. Ensinados pelo Pai, levados à fé sincera e à compreensão espiritual geral das Escrituras quanto ao Messias, quando Cristo apareceu eles foram “atraídos” e “dados” a ele, como o agora visível e acreditado Cabeça, Mestre, Senhor e Salvador da Igreja. Nessa interpretação tudo é natural, explícito e apoiado pelo contexto; na interpretação calvinista tudo parece forçado, obscuro e inaplicável a todo o teor do discurso. Pois com que fim de edificação, de qualquer tipo, se diria aos judeus que ninguém senão um número fixo, eleito desde a eternidade e dado a ele pelo Pai antes que o mundo existisse, viria a ele, e que aqueles a quem ele então falava não eram desse número? Mas a coerência do discurso é manifesta quando, nesses sermões de nosso Senhor, se diz a eles que o fato de não virem a Cristo era a prova da sua incredulidade nos escritos de Moisés; que não eram “ensinados por Deus”; que não tinham “ouvido nem aprendido do Pai”, a quem, no entanto, professavam adorar e buscar; e que, como o impedimento para virem a Cristo estava no estado do seu coração, ele podia ser remediado por um exame diligente e sincero das Escrituras e pela atenção aos ensinos de Deus. A essa mesma classe de judeus nosso Senhor diz, nesse mesmo discurso: “Examinem as Escrituras” [N. do T.: a NAA traz “Vocês examinam as Escrituras” (Jo 5.39), no indicativo; Watson segue a KJV, que lê o verbo como imperativo]. Mas com que fim deveriam eles fazer isso se, no sentido calvinista, não lhe tinham sido dados pelo Pai? O texto em questão, assim esclarecido pela referência a todo o discurso, tem sentido evidente. “Todo aquele que o Pai me dá”, depois desse ensino preparatório, “esse virá a mim” (pois o que se usa é simplesmente o futuro do modo indicativo, e não se transmite nenhuma noção de influência irresistível); “e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora.” Esta última oração é acrescentada para mostrar a perfeita harmonia de desígnio entre Cristo e o Pai, ponto mencionado muitas vezes nesse discurso: “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 6.38). Aqueles, portanto, que o Pai assim me dá, eu recebo: assumo o ofício que me foi designado e serei fiel a ele. Também em relação à obra de Deus no coração dos homens em geral, e não só aos judeus sinceros e investigadores do tempo de nosso Senhor, essas passagens têm aplicação clara e interessante. A obra do Pai se realiza pelo seu Espírito, que convence e ensina; mas esse Espírito “dá testemunho” de Cristo, “guia” a Cristo e “dá” a Cristo, para que recebamos o pleno benefício do seu sacrifício e da sua salvação e sejamos colocados na Igreja de que ele é o Cabeça. Mas nisso não há exclusão. O que impede os outros de virem a Cristo é o que os impede de serem “atraídos” pelo Pai, de “ouvirem e aprenderem” do Pai na sua santa palavra e pelo seu Espírito; e esse impedimento é o estado moral do coração, não algum decreto exclusivo; não a falta de ensino ou de atração, mas, como a Escritura o exprime resumidamente, o “resistir ao Espírito Santo” (At 7.51).
“Será que não me é lícito fazer o que quero com o que é meu? Ou você ficou com inveja porque eu sou bom? Assim, os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos; porque muitos são chamados, mas poucos são escolhidos” (Mt 20.15-16) [N. do T.: a NAA, seguindo outro texto grego, não traz neste versículo a última oração, que Watson cita pela KJV; cf. Mt 22.14].
Essa passagem tem sido muitas vezes apresentada como prova da doutrina da eleição incondicional; e o argumento que se levanta sobre ela é que Deus tem o direito de dispensar a graça e a glória a quem ele quiser, por um princípio de pura soberania, e de deixar os outros perecerem em seus pecados. Que a passagem não tem relação com essa doutrina não precisa de outra prova senão a de que ela é a conclusão da parábola dos trabalhadores da vinha. O dono da casa dá aos que “trabalharam apenas uma hora” uma recompensa igual à concedida aos que haviam trabalhado as doze horas. Estes últimos receberam o preço completo da jornada combinada; e os primeiros foram objeto de uma dispensação especial e soberana de graça. O exercício da soberania divina na concessão de graus de graça ou de recompensa é o assunto da parábola, e ninguém o contesta; mas, segundo a interpretação calvinista, nenhuma graça, nenhuma recompensa é concedida aos não eleitos, que, além disso, são castigados por rejeitarem uma graça que nunca lhes foi oferecida. O absurdo de tal uso da parábola é evidente. Ela não se refere a esse assunto, pois a sua lição moral diz respeito manifestamente à acolhida de grandes transgressores, e especialmente dos gentios, no favor de Cristo e nas abundantes recompensas do céu.
“Entretanto, o firme fundamento de Deus permanece, tendo este selo: ‘O Senhor conhece os que lhe pertencem.’ E mais: ‘Afaste-se da injustiça todo aquele que professa o nome do Senhor'” (2Tm 2.19).
O apóstolo, neste capítulo, fala daqueles antigos hereges que afirmavam “que a ressurreição já aconteceu” e estavam “pervertendo alguns em sua fé” (2Tm 2.18). E daí? A verdade em si não foi derrubada: “o firme fundamento de Deus permanece, tendo este selo”, ou inscrição: “O Senhor conhece”, ou aprova, ou, se preferirem, distingue e reconhece, “os que lhe pertencem”; e: “Afaste-se da injustiça todo aquele que professa o nome do Senhor”. Isso equivale a dizer que ninguém é verdadeiramente “do Senhor” se não se afasta da injustiça, e que aqueles cuja fé é “pervertida” pela influência de princípios e costumes corruptos não são mais considerados “dele”. Tudo isso está em perfeita harmonia com as opiniões dos que sustentam a extensão irrestrita da morte de Cristo. Para com a doutrina calvinista, este texto certamente não apresenta aspecto favorável; pois sem dúvida pouca importância teria para alguém ter a sua “fé pervertida”, se essa fé nunca esteve nem podia estar ligada à salvação.
“Mas vocês não creem, porque não são das minhas ovelhas” (Jo 10.26) [N. do T.: a KJV, citada por Watson, acrescenta “como eu já lhes disse”].
O argumento aqui é que a causa da incredulidade das pessoas a quem ele se dirigia era não serem do número dos que foram dados a Cristo pelo Pai desde a eternidade, com exclusão de todos os outros.1 Observe-se, porém, que, em oposição direta a isso, os homens são chamados ovelhas de Cristo pelo próprio Senhor, não com referência a alguma suposta transação entre o Pai e o Filho na eternidade, que nunca é sequer insinuada, mas por causa das suas qualidades e dos seus atos. “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem” (Jo 10.27). “Mas de modo nenhum seguirão o estranho” (Jo 10.5). Por que, então, os judeus não criam? Porque não tinham as qualidades das ovelhas de Cristo: nem sabiam distinguir a voz do pastor, nem lhe obedeciam. A interpretação calvinista comum apresenta nosso Senhor, neste caso, ensinando aos judeus que a razão por que não criam nele era que não podiam crer! Pois, como diz o sr. Scott na nota abaixo, “não sendo daquele remanescente escolhido, eles foram deixados ao orgulho e à inimizade do seu coração carnal”. Isso não seria muito edificante para eles. Mas as palavras de nosso Senhor são manifestamente palavras de repreensão, fundadas não em atos de Deus, mas em atos deles próprios; e são paralelas às passagens: “Se Deus fosse, de fato, o pai de vocês, certamente me amariam” (Jo 8.42); “Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz” (Jo 18.37).
“Como podem crer, vocês que aceitam glória uns dos outros” (Jo 5.44). “Não falo a respeito de todos vocês, pois eu conheço aqueles que escolhi. Mas é para que se cumpra a Escritura: ‘Aquele que come do meu pão levantou contra mim o seu calcanhar'” (Jo 13.18).
“Ele sabia perfeitamente”, diz o sr. Scott sobre a passagem, “que pessoas tinha escolhido, e também quais delas foram escolhidas para a salvação.” Isso é, sem dúvida, fazer nosso Senhor proferir um truísmo bem sem sentido; pois, como ele escolheu os apóstolos, devia “saber” que os tinha escolhido. A interpretação do dr. Whitby deve, portanto, ser preferida: “Conheço o temperamento e a disposição daqueles que escolhi, e o que posso esperar de cada um deles; por essa razão eu disse: ‘Nem todos estão limpos’. Mas Deus, em sua sabedoria, permitiu isso, para que, assim como Aitofel traiu Davi, embora fosse seu amigo íntimo, também Judas, meu íntimo à minha mesa, traísse o Filho de Deus; e assim as palavras registradas no Salmo 41.9 se cumprissem também naquele de quem o rei Davi foi o tipo” (Notes in loc.). Certamente Judas foi “escolhido”, tanto quanto os demais: “Não é fato que eu escolhi vocês, os doze? Mas um de vocês é um diabo” (Jo 6.70). Nem temos razão alguma para concluir que Cristo usa o termo “escolhido” de modo diferente nas duas passagens. Quando, pois, nosso Senhor diz: “Eu conheço aqueles que escolhi”, o termo “conhecer” deve ser tomado no sentido de discernir o caráter.
“Não foram vocês que me escolheram; pelo contrário, eu os escolhi e os designei para que vão e deem fruto” (Jo 15.16). O sr. Scott, que, por ser um comentarista calvinista moderno, preferimos citar outra vez, interpreta: “escolheu-os para a salvação”. Em seu sentido próprio, não fazemos objeção a essa expressão: é bíblica; mas deve ser tomada em sua própria ligação. Aqui, porém, ou o termo “escolhi” deve ser entendido com referência ao ofício apostólico, o que se ajusta muito bem ao contexto; ou, se diz respeito à salvação dos discípulos, não pode ter relação alguma com a doutrina da eleição eterna. Pois, se a eleição mencionada não fosse um ato realizado no tempo, teria sido desnecessário que nosso Senhor dissesse: “Não foram vocês que me escolheram”, porque é óbvio que eles não podiam escolhê-lo antes de virem a existir. Outra passagem, no mesmo discurso, prova ainda que a eleição mencionada foi um ato realizado no tempo: “eu dele [do mundo] os escolhi” (v. 19). Mas, se foram escolhidos do mundo, foram escolhidos depois de estarem “no mundo”; e, portanto, a eleição de que se fala não é eterna. Esta última observação também privará esses intérpretes de outra passagem favorita: “Aqueles que me deste, eu os guardei, e nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição” (Jo 17.12) [N. do T.: Watson cita pela KJV; a NAA, seguindo outro texto grego, traz “guardava-os no teu nome, que me deste; eu os protegi e nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição”]. O “dar” aqui mencionado não foi um ato de Deus na eternidade, como eles alegam, assim como não o foi o “escolher” a que já nos referimos; pois, no mesmo discurso, os apóstolos são chamados “aqueles que me deste do mundo” (Jo 17.6), e foram, portanto, dados a Cristo no tempo. A exceção relativa a Judas prova também que esse “dar” exprime o discipulado efetivo. Judas tinha sido “dado” tanto quanto os demais, ou não poderia ter sido mencionado como exceção; isto é, ele tinha sido “achado” uma vez, ou não poderia ter sido “perdido”. “Que nos salvou e nos chamou com santa vocação, não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos” (2Tm 1.9) [N. do T.: onde a NAA traz “determinação”, Watson lê “propósito” (purpose), termo que ele discute a seguir].
O sr. Scott defende aqui a doutrina da eleição pessoal das pessoas de quem se fala: “desde o princípio, ou antes dos tempos eternos”, que é a tradução mais literal; e argumenta que isso não pode ser negado sem supor “que todos os que vivem e morrem impenitentes podem ser considerados salvos e chamados com santa vocação, porque um Salvador foi prometido desde o princípio do mundo”. “De fato”, acrescenta ele, “o propósito de Deus é mencionado como a razão por que eles, e não outros, foram salvos e chamados.” Veremos a passagem sob uma luz muito diferente se atentarmos para as seguintes considerações.
“O propósito e a graça”, ou propósito gracioso, “que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos”, é apresentado como tendo estado “oculto nas eras passadas”; pois o apóstolo acrescenta imediatamente: “e manifestada agora pelo aparecimento de nosso Salvador Cristo Jesus” (2Tm 1.10). Não pode ser, portanto, a eleição pessoal dos crentes aquilo de que o apóstolo fala aqui, porque nada significaria declarar que o propósito divino de elegê-los não foi manifestado nas eras anteriores, mas ficou reservado para o aparecimento de Cristo. Qualquer que seja o grau de manifestação que o propósito divino de eleição pessoal recebe quanto aos indivíduos, até os calvinistas reconhecem que ele só se torna evidente pelas mudanças morais pessoais que se dão neles por meio da sua “vocação eficaz”, da fé e da regeneração. Portanto, enquanto o indivíduo não vem a existir, o propósito de Deus de elegê-lo não pode ser manifestado; e os que foram assim eleitos, mas não viveram até o aparecimento de Cristo, não poderiam ter a sua eleição manifestada antes de ele aparecer. Além disso, se o texto se refere à eleição pessoal, e se o chamado e a conversão são as provas da eleição pessoal, então não é verdade que a eleição de indivíduos para a vida eterna ficou oculta até o aparecimento de Cristo; pois toda conversão verdadeira, em qualquer época anterior, era tanto uma manifestação da eleição pessoal, isto é, do favor peculiar e da “graça distintiva” de Deus, quanto o é sob o evangelho. Uma passagem paralela da Epístola aos Efésios, porém, explicará a que temos diante de nós: “Ao lerem o que escrevi, poderão entender a minha compreensão do mistério de Cristo, o qual, em outras gerações, não foi dado a conhecer aos filhos dos homens, como agora foi revelado aos seus santos apóstolos e profetas, pelo Espírito. O mistério é que os gentios são coerdeiros, membros do mesmo corpo e coparticipantes da promessa em Cristo Jesus por meio do evangelho” (Ef 3.4-6). E no versículo 11 isso é chamado, em exata conformidade com a expressão usada na Epístola a Timóteo, “o eterno propósito que Deus estabeleceu em Cristo Jesus, nosso Senhor”. O “propósito”, ou “propósito gracioso”, mencionado nos dois lugares como antes oculto, mas “agora manifestado”, era, portanto, o propósito de formar uma única Igreja universal de judeus e gentios crentes; e, no texto diante de nós, o apóstolo, falando em nome de todos os seus irmãos cristãos, judeus ou gentios, diz que eles foram salvos e chamados segundo aquele propósito e plano anterior: “que nos salvou e nos chamou” etc. A razão por que o apóstolo Paulo se refere tantas vezes a “esse eterno propósito” de Deus é justificar e confirmar o seu próprio ministério como mestre dos gentios e defensor dos direitos espirituais deles, iguais aos dos judeus; e que era esse o assunto presente à sua mente quando escreveu essa passagem, e não uma eleição pessoal eterna, fica manifesto pelo versículo 11, que faz parte do mesmo parágrafo: “Para este evangelho eu fui designado pregador, apóstolo e mestre dos gentios” [N. do T.: a NAA, seguindo outro texto grego, não traz “dos gentios” (2Tm 1.11); Watson cita pela KJV].
Mas, diz o sr. Scott, “todos os que vivem e morrem impenitentes poderiam então ser considerados ‘salvos e chamados com santa vocação’, porque um Salvador foi prometido desde o princípio do mundo”. Nós, porém, não dizemos que alguém é salvo apenas porque um Salvador foi prometido desde o princípio do mundo; mas que o apóstolo simplesmente afirma que a salvação dos crentes, gentios ou judeus, e os meios dessa salvação foram consequências do propósito anterior de Deus, antes que o mundo existisse. Todos os que são de fato salvos podem dizer “Somos salvos” segundo esse propósito; mas, se a salvação efetiva deles excluísse a salvação de todos os outros, então não teriam sido salvos mais do que os incluídos pelo apóstolo no pronome “nos”, o que provaria demais. Mas o sr. Scott nos diz que “‘o propósito de Deus’ é mencionado como a razão por que eles, e não outros, foram assim salvos e chamados”. Não é mencionado com essa intenção. O propósito de Deus é apresentado pelo apóstolo como a sua autoridade para fazer “aos gentios” a oferta da salvação, e como motivo para levar Timóteo a prosseguir a mesma obra gloriosa depois da morte dele. Esse é, evidentemente, o alcance do capítulo inteiro.
“E creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna” (At 13.48) [N. do T.: Watson cita pela KJV, que traz ordained, “ordenados”; é essa palavra que ele discute a seguir]. O sr. Scott é um tanto menos confiante do que alguns outros quanto ao apoio que se julga o sistema calvinista receber da palavra traduzida por “ordenados”. Ele procura, contudo, deixar na mente dos seus leitores a impressão de que ela significa “designados para a vida eterna”.
Podemos, porém, observar:
1. Que as pessoas de quem aqui se fala eram os gentios a quem os apóstolos pregaram o evangelho depois que os judeus do mesmo lugar o “rejeitaram” e se “julgaram”, ou se mostraram, “indignos da vida eterna” (At 13.46). Mas, se a única razão por que os gentios creram foi que eles tinham sido “ordenados para a vida eterna”, no sentido de predestinação pessoal, então a razão por que os judeus não creram foi a falta de tal ato predestinador de Deus, e não, como se afirma, um ato deles próprios: o rejeitá-lo.
2. Essa interpretação supõe que todos os gentios eleitos de Antioquia creram naquele momento, e que não restaram outros, ao menos em idade adulta, para crer. Isso é bem difícil de admitir; e por isso o sr. Scott diz: “embora seja provável que nem todos os que foram assim afetados de início tenham, naquele momento, crido para a salvação, muitos creram”. Mas isso não está de acordo com o texto, que diz expressamente: “E creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna”; de modo que tais comentaristas têm de aceitar, junto com a sua interpretação, esta circunstância inconveniente: que todos os eleitos de Antioquia foram, naquele momento, trazidos para a Igreja de Cristo.
3. Até alguns calvinistas, não julgando que seja costume dos apóstolos e evangelistas erguer o véu dos decretos tão alto quanto essa interpretação supõe, preferem traduzir as palavras assim: “todos os que estavam determinados”, ou “dispostos”, para a vida eterna.
4. Por fim, podemos observar que em nenhum lugar do Novo Testamento em que a mesma palavra ocorre ela é empregada para transmitir a ideia de destino ou predestinação: uma consideração que é fatal para o argumento que dela se tem extraído. [N. do T.: o verbo grego em discussão é tasso, o mesmo que a NAA traduz por “destinados” em At 13.48; nas passagens a seguir a NAA o verte de vários modos.] Estes são os únicos casos em que ela aparece. Mt 28.16: “Os onze discípulos partiram para a Galileia, para o monte que Jesus lhes havia designado.” Aqui a palavra significa ordenado ou, no máximo, combinado de antemão, e certamente não transmite nenhuma ideia de destino. Lc 7.8: “Porque também eu sou homem sujeito à autoridade.” Aqui a palavra significa “posto” ou “colocado”. At 15.2: “foi resolvido que esses dois [Paulo e Barnabé] e mais alguns fossem a Jerusalém.” Aqui significa acordo e decisão mútuos. At 22.10: “Levante-se, entre em Damasco, onde lhe dirão tudo o que você precisa fazer.” Aqui significa confiado a alguém, ou determinado à maneira de uma ordem; mas não se transmite nenhuma ideia de destino. At 28.23: “Tendo eles marcado um dia”, isto é, quando haviam fixado um dia por acordo mútuo; pois são Paulo não estava sob o comando ou o controle dos visitantes que vinham a ele para ouvir a sua doutrina. Rm 13.1: “as autoridades que existem foram por ele instituídas”, o que claramente significa constituídas e ordenadas. 1Co 16.15: “eles se consagraram ao serviço dos santos”: aqui não pode significar outra coisa senão que se aplicaram, que se dedicaram a isso. Assim, a palavra nunca assume o sentido de predestinação; ao contrário, quando são Lucas quer transmitir essa noção, ele a combina com uma preposição e usa um verbo composto: “havendo fixado os tempos previamente estabelecidos” (At 17.26). Isso era preordenação, e por isso ele assim a denomina; mas no texto em questão ele não fala de preordenação, e sim simplesmente de ordenação. A palavra empregada significa “pôr, ordenar, designar, dispor, determinar”, e é aplicada de modos muito variados. A ideia predominante é a de fixar, ordenar e resolver; e o sentido do texto é que creram todos quantos estavam firmados e resolvidos quanto à vida eterna, todos quantos estavam atentos à salvação e decididos a alcançá-la. Pois é evidente, pelo contexto, que o historiador está falando da parte imparcial e séria dos ouvintes dos apóstolos, em oposição aos judeus que blasfemavam; isto é, daqueles gentios que, “ouvindo isto, se alegravam e glorificavam a palavra do Senhor”. As pessoas que então creram parecem ter passado por uma preparação prévia para receber o evangelho, e provavelmente eram prosélitos piedosos que se associavam aos judeus.
Lc 10.20: “No entanto, alegrem-se […] porque o nome de cada um de vocês está registrado no céu.” A inferência que se tira deste texto é que existe um registro de todos os eleitos no “Livro da Vida”, e que o número deles, segundo a doutrina do sínodo de Dort, é fixo e determinado. Nossos amigos calvinistas se esquecem, porém, de que nomes podem ser “apagados do Livro da Vida”; e assim a teoria cai por terra: “E, se alguém tirar qualquer coisa das palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte do Livro da Vida” (Ap 22.19). [N. do T.: a NAA, seguindo outros manuscritos, traz “da árvore da vida”.]
Pv 16.4: “O Senhor fez todas as coisas para si mesmo; até o ímpio, para o dia do mal.” [N. do T.: Watson cita a KJV; a NAA traz “O Senhor fez todas as coisas para determinados fins; até o ímpio, para o dia da calamidade”.] Se esta passagem tem alguma relevância para a teoria calvinista, ela tem de ser tomada no sentido supralapsariano, isto é, de que a causa final da criação dos ímpios é o seu castigo eterno. Daí se segue que o pecado não é a causa do castigo, mas que este procede da mera vontade de Deus; o que já é refutação suficiente. As pessoas de que se fala são “ímpias”. Ou elas se tornaram ímpias por si mesmas, ou foram feitas assim por Deus. Se não foi por Deus, então fazer o ímpio para o dia do mal só pode significar que ele torna aqueles que se fizeram ímpios, e assim permanecem incorrigivelmente, instrumentos para glorificar a sua justiça “no dia do mal”, isto é, no dia do castigo. A expressão hebraica, traduzida literalmente, é: “o Senhor opera todas as coisas para si mesmo”; o que se aplica tanto aos atos de governo quanto aos atos de criação. Assim, pois, a passagem nos ensina, não que Deus criou os ímpios para castigá-los, mas que ele governa, controla e sujeita todas as coisas a si mesmo, e as ordena de tal modo para o cumprimento do seu propósito, que os ímpios não escaparão ao seu justo desagrado, já que sobre tais homens o dia do mal virá por fim. Por isso se acrescenta no versículo seguinte: “é evidente que este não ficará impune” (Pv 16.5).2
Jo 12.37-40: “E, embora tivesse feito tantos sinais na presença deles, não creram nele, para se cumprir a palavra do profeta Isaías, que diz: ‘Senhor, quem creu em nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do Senhor?’ Por isso, não podiam crer, porque Isaías disse ainda: ‘Cegou os olhos deles e endureceu-lhes o coração, para que não vejam com os olhos, nem entendam com o coração, e se convertam, e sejam por mim curados.'”
A interpretação do sr. Scott é, à primeira vista, mais moderada que a de muitos teólogos da mesma escola. É esta: “Eles havia muito tempo fechavam os próprios olhos e endureciam o próprio coração; e por isso Deus entregaria muitos deles a uma cegueira judicial tal que tornava impossível a sua conversão e salvação. A profecia não foi o motivo nem a causa da sua maldade; mas foi a declaração do propósito de Deus, que não podia ser frustrado. Portanto, enquanto essa profecia permanecia na Escritura contra eles, e contra outros de caráter semelhante, que odiavam a verdade por amor ao pecado, o desfecho se tornou certo; e é nesse sentido que se diz que eles não podiam crer.”
Admite-se que, em alguns casos especiais e agravados, e especialmente no que consistia em atribuir os milagres de Cristo a Satanás, blasfemando assim contra o Espírito Santo (casos, porém, que provavelmente atingiram apenas alguns poucos indivíduos, sobretudo os principais fariseus e rabinos do tempo de nosso Senhor), houve um abandono judicial como esse de que fala o sr. Scott. Mas pode-se negar que ele se estendesse ao conjunto dos judeus que naquele tempo não criam na missão e nos milagres de Cristo. O contrário se evidencia pelo empenho com que Cristo e os seus apóstolos buscaram a salvação deles depois dessa declaração, e também pelo fato de que grande número desse mesmo povo foi depois levado a reconhecer e abraçar a Cristo e a sua religião. Essa é a nossa objeção à primeira parte dessa interpretação. Nem todo aquele que finalmente se perde é antes entregue à cegueira judicial. Ser assim abandonado antes da morte é um procedimento especial, que o próprio nosso Senhor restringe ao caso especial da blasfêmia contra o Espírito Santo. À segunda parte do comentário a objeção é ainda mais forte. O sr. Scott reconhece que a cegueira perversa e voluntária desses judeus é a causa do suposto abandono judicial. Daí se seguiria naturalmente que esse cegar-se e endurecer o coração voluntariamente foi a verdadeira razão por que eles “não podiam crer”, visto que provocou Deus a retirar deles o seu Espírito Santo. Mas o sr. Scott não consegue parar aí. Ele quer outra causa para a incapacidade deles de crer: não, é verdade, a profecia de Isaías citada pelo evangelista, mas “o propósito de Deus”, do qual aquela predição, diz ele, era a “declaração”. Segue-se, então, que eles “não podiam crer” porque era “propósito de Deus, que não podia ser frustrado”. De acordo com isso, o sr. Scott entende que a predição afirma que o agente que cegou os olhos do povo repreendido, isto é, dos judeus obstinados, era o próprio Deus.
Examinemos agora, portanto, mais detidamente esta passagem, e descobriremos:
1. Que ela não afirma que os olhos deles seriam cegados, ou os seus ouvidos fechados, por uma ação divina, como supõem o sr. Scott e outros calvinistas. Essa noção não se encontra em Isaías 6, de onde a citação é tirada. Ali o agente é apresentado como sendo o próprio profeta: “Torne insensível o coração deste povo, endureça-lhes os ouvidos e feche os olhos deles, para que não venham a ver com os olhos” etc. (Is 6.10). Ora, como o profeta não podia exercer nenhuma influência secreta e direta sobre a mente dos judeus desobedientes, ele teria cumprido essa incumbência, se ela for tomada literalmente, pregando-lhes uma doutrina enganosa e endurecedora, como a dos falsos profetas. Mas se, como sabemos, ele não pregou tal doutrina, então as palavras devem ser entendidas segundo o gênio da língua hebraica, que muitas vezes apresenta como agente aquele que é a ocasião, ainda que inocente e não intencional, de algo que é feito por outro. Assim o profeta, em consequência da incredulidade dos judeus do seu tempo quanto às promessas do Messias que ele fora designado para anunciar, a qual o levou a queixar-se: “Quem creu em nossa pregação?” (Is 53.1), tornou-se para os judeus a ocasião de “tornarem insensível o próprio coração, endurecerem os próprios ouvidos e fecharem os olhos” ao seu testemunho. Os verdadeiros agentes, porém, eram os próprios judeus; e todos os que conheciam o gênio da língua hebraica entenderiam que o profeta os acusava assim. Desse modo, a Septuaginta e as versões árabe e siríaca concordam todas em traduzir o texto de modo que o próprio povo a quem o profeta escrevia é apresentado como agente daquilo que, no estilo dos hebreus, é atribuído ao próprio profeta. Também é manifesto que assim entendeu o profeta são Paulo, que cita a mesma passagem em At 28.25-27: “Bem falou o Espírito Santo aos pais de vocês, por meio do profeta Isaías, quando disse: ‘Vá a este povo e diga: Ouvindo, vocês ouvirão e de modo nenhum entenderão; vendo, vocês verão e de modo nenhum perceberão. Porque o coração deste povo está endurecido; ouviram com os ouvidos tapados e fecharam os olhos; para não acontecer que vejam com os olhos, ouçam com os ouvidos, entendam com o coração, se convertam e sejam por mim curados.'” Tampouco na passagem tal como é dada por são João a cegueira dos olhos dos judeus é atribuída a Deus. É verdade que na nossa versão inglesa se lê: “Ele cegou os olhos deles” etc. Mas os verbos gregos não têm sujeito expresso, e fica a cargo do leitor supri-lo. Nem o contexto menciona o agente; e, além disso, se suprirmos o pronome “ele”, não podemos referi-lo a Deus, já que a passagem termina com uma mudança de pessoa: “e sejam por mim curados”. O agente que cega e endurece e o agente que procura “curar” não podem, portanto, ser o mesmo, porque estão em oposição um ao outro, não apenas gramaticalmente, mas no propósito e na ação. Esse agente, então, pode ser “o deus deste mundo”, a quem o apóstolo Paulo atribui expressamente a obra de cegar “o entendimento dos descrentes” (2Co 4.4); ou são João, familiarizado com o estilo hebraico, poderia referi-lo ao profeta, que, por consequência e por causa da perversidade voluntária dos judeus, foi a ocasião de eles “endurecerem o coração e taparem os ouvidos”; ou, finalmente, o verbo pessoal pode ser usado impessoalmente, e a forma ativa no lugar da passiva, de que os críticos fornecem exemplos paralelos.3 Mas, em todas essas interpretações, o verdadeiro agente responsável e autor culpado é “este povo”, este povo perverso e obstinado; ponto do qual todas as partes das suas Escrituras dão abundante testemunho.
2. Pode-se negar que a profecia de Isaías aqui citada seja, como o sr. Scott a apresenta, “uma declaração do propósito de Deus, que não podia ser frustrado”. Uma simples profecia não é, de modo algum, uma declaração de propósito, mas a declaração de um acontecimento futuro. Se é declarado um propósito de Deus, a ser cumprido no futuro, essa declaração passa a ser mais do que uma simples profecia: ela liga o ato a um agente; e, no caso diante de nós, supõe-se que esse agente seja Deus. Mas já mostramos que em parte alguma se diz que o agente que cega os olhos e fecha os ouvidos desses judeus perversos seja Deus; e, portanto, a profecia não é uma declaração do propósito dele. Além disso, mesmo que fosse uma declaração do propósito de Deus, não se seguiria que ele não pudesse ser frustrado; pois as ameaças proféticas não são absolutas, mas implicam condições. Isso está tão longe de ser mera suposição que é estabelecido pela autoridade do próprio Deus Todo-Poderoso, que declara em Jr 18.7-8: “No momento em que eu falar a respeito de uma nação ou de um reino para o arrancar, derrubar e destruir, se essa nação se converter da maldade contra a qual eu falei, também eu mudarei de ideia a respeito do mal que pensava fazer-lhe.” Temos aqui uma ameaça profética proferida: “No momento em que eu falar”, “essa nação […] contra a qual eu falei”. Temos também o propósito na mente de Deus: “do mal que pensava fazer-lhe”; e, no entanto, essa predição podia falhar e esse propósito podia ser frustrado. Assim, no caso de Nínive arrependida, a destruição predita não se cumpriu e o propósito de ira foi frustrado, sem nenhum prejuízo para os atributos divinos; ao contrário, eles foram ilustrados por essa manifestação da justiça e da graça combinadas na sua administração. O sr. Scott, como muitos outros, argumenta como se a predição de um acontecimento lhe desse certeza.
Mas a certeza ou incerteza dos acontecimentos não é criada pela profecia. A profecia resulta da presciência; e a presciência diz respeito àquilo que será, mas não necessariamente àquilo que tem de ser. Disso, porém, trataremos no lugar próprio.
3. Mesmo que esta profecia pudesse suportar tudo o que os calvinistas lhe impõem, não serviria ao propósito deles. Mesmo então, ela não ofereceria prova alguma de uma eleição e reprovação gerais, visto que se aplica exclusivamente à parte incrédula do povo judeu, e nunca é apresentada, nem por são João nem por são Paulo, como fundamento de qualquer doutrina geral.
Jd 4: “Pois certos homens se infiltraram sem serem notados, os quais desde muito tempo foram ordenados para esta condenação, homens ímpios” etc. [N. do T.: Watson cita a KJV, cuja redação ele examina a seguir; a NAA traz “Pois certos indivíduos, cuja sentença de condenação foi promulgada há muito tempo, se infiltraram no meio de vocês sem serem notados. São pessoas ímpias”.]
A palavra aqui traduzida por “ordenados” significa literalmente “escritos de antemão”; e a palavra traduzida por “condenação” significa castigo legal, ou julgamento. A passagem significa, portanto, ou que a classe de homens de que se fala havia sido predita nas Escrituras, ou que o seu castigo fora ali prefigurado outrora, naqueles exemplos de tempos antigos, dos quais vários são citados nos versículos seguintes, como Caim, Balaão, Corá e as cidades da planície. O sr. Scott, portanto, interpreta muito bem o texto quando diz: “o Senhor os havia previsto, pois desde a antiguidade estavam registrados para esta condenação: muitas predições, desde o princípio, haviam sido feitas nesse sentido”. Mas quando acrescenta: “Mais ainda, essas predições eram como que extratos dos registros do céu, isto é, dos decretos secretos e eternos de Deus, nos quais ele havia determinado deixá-los entregues ao seu orgulho e às suas paixões, até que merecessem e recebessem esta condenação”, bem podemos pedir a prova. Tudo isso é manifestamente gratuito: trazido ao texto, e não deduzido dele; e, por isso, muito indigno de um comentarista. Os “extratos” do registro dos decretos de Deus, tal como se encontram nas Escrituras, não contêm nenhuma ideia como a de que esses abusadores da graça de Deus apenas fizeram aquilo que não podiam deixar de fazer, por terem sido “deixados entregues ao seu orgulho e às suas paixões” e excluídos, antes de nascerem, das misericórdias de Cristo. Se, então, essa ideia não está nos “extratos”, não está no registro original; ou então existe ali algo que Deus, na sua palavra revelada, não extraiu, e a respeito do qual o comentarista teria de ter recebido alguma revelação independente, ou então foi culpado de falar com muita temeridade. Ao contrário, na passagem paralela de 2Pe 2.1-3, onde certamente se fala da mesma classe de pessoas, eles estão tão longe de ser apresentados como excluídos dos benefícios da redenção de Cristo que são acusados de um crime específico, o qual implica necessariamente a participação deles nessa redenção: o crime de “renegar o Soberano Senhor que os resgatou“.
1Co 4.7: “Pois quem faz você diferente de outro?” [N. do T.: Watson segue a KJV, “who maketh thee to differ from another?”, expressão consagrada na controvérsia; a NAA traz “Pois quem é que faz com que você sobressaia?”.]
O contexto mostra que o apóstolo procurava aqui reprimir a ostentação que surgira entre muitas pessoas da igreja de Corinto por causa dos seus dons e capacidades espirituais. Ele o faz atribuindo esses dons a Deus, como o único doador: “pois quem faz você diferente”, ou seja, quem lhe confere superioridade, como é obviamente o sentido; “e o que é que você tem que não tenha recebido?” O sr. Scott reconhece que “o apóstolo está falando aqui mais diretamente de capacidades naturais e de dons espirituais, e não da graça especial e eficaz”. Se é assim, então a passagem nada tem que ver com esta controvérsia. Ele afirma, porém, que o argumento vale igualmente num caso e no outro; e no seu sermão sobre a eleição o aplica assim: “Que as bênçãos do evangelho sejam honestamente oferecidas, com advertências solenes e convites insistentes, a dois homens de caráter e disposição exatamente iguais: se forem deixados a si mesmos em circunstâncias inteiramente semelhantes, o efeito tem de ser precisamente o mesmo. Mas eis que, enquanto um despreza com orgulho a oferta da graça e se ressente dela, o outro treme, chora, ora, se arrepende e crê! Quem faz este homem diferente do outro? Ou o que tem ele que não tenha recebido? A resposta bíblica a essa pergunta, quando devidamente entendida, decide toda a controvérsia.”4
Como este é um argumento favorito e um dilema popular nas mãos dos calvinistas, e tanto se supõe depender da sua solução, podemos examiná-lo um tanto detidamente.
Em vez de supor o caso de dois homens “de caráter e disposição exatamente iguais”, por que não supor o mesmo homem em dois estados morais? Pois um homem que “despreza com orgulho” o evangelho não difere mais de outro que o recebe com arrependimento do que o mesmo homem que antes o rejeitou com escárnio, e depois se submeteu a ele com mansidão, difere de si mesmo; como, por exemplo, Saulo, o fariseu, difere de Paulo, o apóstolo. Ora, para explicar o caso de dois homens, um que recebe o evangelho e outro que o rejeita, recorre-se à teoria da eleição; mas no caso de um só homem em dois estados diferentes, não se pode recorrer a essa teoria. O homem era eleito desde a eternidade; não é um excluído da misericórdia do seu Deus e da redenção do seu Salvador; e, no entanto, num período da sua vida ele despreza com orgulho a misericórdia oferecida por Cristo, e em outro a aceita. É claro, então, que a doutrina da eleição, considerada simplesmente em si mesma, não resolve este último caso; e, por consequência, não resolve o primeiro. Pois o simples fato de um homem rejeitar o evangelho enquanto outro o recebe não é prova maior da não eleição daquele que não o recebe do que o fato de um homem rejeitá-lo agora, e depois vir a recebê-lo, é prova da não eleição dele. A solução, então, tem de ser buscada em alguma comunicação da graça de Deus, em alguma operação interior sobre o coração, que se supõe ser consequência da eleição; mas isso nos leva a outra questão, distinta. Essa questão não é, porém, a da vencibilidade ou invencibilidade da graça de Deus, pelo menos não em primeiro lugar. Na verdade, é se existe alguma operação da graça de Deus no homem que tenda à salvação nos casos em que vemos o evangelho rejeitado. O homem que rejeita com perseverança, e aquele que rejeita apenas por um tempo, talvez por um longo período da sua vida, são deixados sem nenhum bom impulso nem influência auxiliadora da graça de Deus, ou não? Esta pergunta parece admitir apenas uma de três respostas. Ou ele não tem assistência alguma da graça que o disponha a receber o evangelho; ou tem uma influência suficiente da graça para assim dispô-lo; ou essa influência graciosa lhe é dispensada em medida insuficiente. Se for dada a primeira resposta, então não só os não eleitos ficam sem nenhuma visitação da graça durante toda a vida, mas também os eleitos ficam sem ela até o momento do seu chamado eficaz. Se for oferecida a segunda, então, tanto no caso do homem não eleito que finalmente rejeita a Cristo quanto no caso do homem eleito que o rejeita durante grande parte da sua vida, é preciso admitir que a graça salvadora de Deus atua de tal maneira que pode ser contrariada e efetivamente resistida. Se isso for negado, então é preciso adotar a terceira resposta, e admitir que a graça de Deus influencia de tal modo que é propositalmente insuficiente para os fins para os quais é dada; isto é, que ela é dada para nenhum fim salvador, seja quanto aos não eleitos, seja quanto aos eleitos durante todo o tempo em que permanecem num estado de real afastamento de Cristo. Pois, se é concedido um grau insuficiente de graça, quando um grau suficiente poderia ter sido comunicado, então deve ter havido uma razão para restringir o grau da graça a uma medida insuficiente; e essa razão só poderia ser a de que ela fosse insuficiente e, portanto, não salvadora. Ora, duas dessas três posições são manifestamente contrárias à palavra de Deus. Dizer que nenhuma influência graciosa do Espírito Santo atua sobre os não convertidos é tirar-lhes a culpa; pois eles não podem ser culpados de rejeitar o evangelho se não têm poder para abraçá-lo, nem por si mesmos nem por comunicação, ao passo que a Escritura apresenta isso como a maior culpa dos homens. Todas as exortações, repreensões e convites da Escritura também se transformam, por essa doutrina, em zombaria e ilusão; e, finalmente, não pode haver neste caso coisa alguma como “resistir ao Espírito Santo” (At 7.51), “entristecer” e “apagar o Espírito” (Ef 4.30; 1Ts 5.19), “insultar o Espírito da graça” (Hb 10.29), nem no caso dos não eleitos, que nunca se convertem, nem no dos eleitos antes da conversão. De modo que estes últimos nunca teriam sido culpados de teimosia, obstinação, rebelião e resistência à graça, embora depois sempre as reconheçam entre os seus pecados. Nem teriam sentido jamais algum bom impulso, ou atração do Espírito de Deus, antes do que chamam o seu chamado eficaz; embora se presuma que poucos deles, se é que algum, negarão isso de fato.
Se a doutrina de que nenhuma graça é comunicada antes da conversão é, então, contrariada tanto pela Escritura quanto pela experiência, como fica a questão quanto à restrição intencional dessa graça a um grau insuficiente para dispor o seu objeto à aceitação do evangelho? Se se sustenta essa opinião, ela tem de ser mantida igualmente quanto aos eleitos antes da conversão e quanto aos não eleitos. Nesse caso, então, temos a mesma dificuldade para explicar a culpa do homem que temos quando se supõe que nenhuma graça é comunicada; e também para explicar as repreensões, os chamados, os convites e as ameaças da palavra de Deus. Pois onde está a diferença entre a absoluta não comunicação da graça e uma graça comunicada de tal modo que seja propositalmente insuficiente para a salvação? Claramente não há nenhuma, a não ser que não conseguimos ver fim algum em dar uma graça insuficiente; circunstância que só serviria para tornar ainda mais desconcertantes os princípios e a prática da administração divina. Ela não tem nenhum fim de misericórdia, nenhum de justiça e, até onde se pode perceber, nenhum de sabedoria. Não de misericórdia, pois nada efetua de misericordioso, nem tem o propósito de efetuá-lo; não de justiça, pois não coloca homem algum sob uma responsabilidade equitativa; não de sabedoria, pois não tem nenhum fim que se possa indicar. A Escritura trata todos os homens a quem o evangelho é pregado como dotados de poder (não, de fato, por si mesmos, mas pela graça de Deus) para se voltarem diante da sua “repreensão”, para virem ao seu “chamado”, para abraçarem a sua “graça”; mas eles não têm capacidade para nenhum desses atos se qualquer dessas opiniões for verdadeira; e assim a palavra de Deus é contrariada. O mesmo se dá com a experiência, em ambos os casos; pois não poderia haver nenhum sentimento de culpa por ter rejeitado a Cristo e entristecido o Espírito Santo, nem nos não eleitos que nunca se convertem, nem nos eleitos antes da conversão, se eles não tivessem tido nenhuma visitação da graça, ou se estas lhes tivessem sido concedidas propositalmente em grau insuficiente.
Segue-se, então, que se deve admitir a doutrina da comunicação da graça aos não convertidos em grau suficiente para capacitá-los a abraçar o evangelho; e com essa doutrina entra a de um poder no homem para usar ou desprezar esse dom celestial e essa assistência graciosa. Em outras palavras: um poder de querer vir a Cristo, mesmo quando os homens não vêm; um poder de considerar os seus caminhos e voltar-se para o Senhor, quando não os consideram nem se voltam para ele; um poder de orar, quando não oram; e um poder de crer, quando não creem. São poderes todos da graça, todos resultados da obra do Espírito no coração; mas poderes a ser exercidos pelo homem, visto que é o homem, e não Deus, quem quer, se volta, ora e crê, enquanto a influência sob a qual isso é feito vem somente da graça de Deus. Essa é a doutrina claramente contida nas palavras de são Paulo: “desenvolvam a sua salvação com temor e tremor, porque Deus é quem efetua em vocês tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2.12-13); onde não só a operação de Deus, mas também a cooperação do homem, são distintamente indicadas, e ambas são apresentadas como necessárias para a produção do grande resultado: a “salvação”.
Destas observações se verá, então, que a pergunta “Quem faz você diferente?”, tal como é usada pelo sr. Scott e por outros desde o tempo de Calvino, é muito imprópria para o propósito deles, pois:
Primeiro, é uma pergunta que o apóstolo faz sem nenhuma referência a uma diferença de estado religioso, mas apenas com respeito a dons e capacidades. Segundo, o Espírito Santo, em nenhuma outra parte da Escritura, dá autorização para que as suas palavras sejam aplicadas como aqui se aplicam. Terceiro, ela não pode ser empregada para o fim com que é tantas vezes arrancada do seu contexto e do seu sentido; pois, no uso que assim se faz dela, supõe-se falsamente que os dois homens tomados como exemplo, o que rejeita e o que abraça o evangelho, não são ambos dotados de graça suficiente para capacitá-los a receber a oferta graciosa de Deus. Ora, isso, podemos dizer de novo, tem de ser negado ou afirmado. Se for afirmado, então a diferença entre os dois homens não consiste onde eles a põem, isto é, na privação ou deficiência, de um lado, ou na plenitude, do outro, da graça de Deus, mas no uso da graça; e quando dizem que “é Deus quem os faz diferentes”, dizem de fato que é Deus quem não só dá graça suficiente a cada um, mas também usa essa graça por eles. Pois, se se admite que a cada um é dada graça suficiente para o arrependimento e a fé, então a verdadeira diferença entre eles é que um se arrepende e o outro não se arrepende, um crê e o outro não crê; se, portanto, essa diferença deve ser atribuída diretamente a Deus, então o ato de arrepender-se e o ato de crer são ambos atos de Deus. Se eles hesitam em confessar isso (pois é um absurdo), então ou têm de abandonar a pergunta como inteiramente inútil para eles, ou então tomar o outro lado da alternativa: que a todos os que rejeitam o evangelho não é dada graça suficiente para recebê-lo. Como isso, então, lhes servirá? Podem dizer, é verdade, tomando o homem que abraça o evangelho: “Quem o faz diferente, senão Deus, que lhe dá essa graça suficiente?” Mas então temos igual direito de tomar o homem que rejeita o evangelho e perguntar: “Quem o faz diferente” do homem que o abraça? A isso não podem responder que ele faz a si mesmo diferente; pois o que aqui estabelecem é que ele ou não tem graça alguma comunicada para capacitá-lo a agir como o outro, ou, o que vem a dar no mesmo, não tem dela um grau suficiente para produzir uma fé verdadeira; que ele nunca teve essa graça; que ele está, e sempre há de permanecer, tão destituído dela como quando nasceu. Ele não faz, portanto, a si mesmo diferente do homem que abraça o evangelho; pois não tem poder para imitar o seu exemplo e tornar-se igual a ele; e a única resposta à nossa pergunta é “que é Deus quem o faz diferente do outro”, ao reter a graça pela qual somente ele poderia ser impedido de rejeitar o evangelho. E isso, longe de “decidir toda a controvérsia”, é justamente o ponto em debate.
Esse dilema, então, examinado, mostrar-se-á incômodo para eles mesmos. Pois, se se admite a suficiência da graça aos não convertidos, então os calvinistas fazem dos atos da graça, tanto quanto do próprio dom da graça, obra de Deus nos eleitos; se se nega a suficiência da graça, então a incredulidade e a condenação dos ímpios não vêm deles mesmos, mas de Deus.5 O fato é que esse suposto enigma sempre foi usado ad captandum (para impressionar o público), e é indigno de uma controvérsia tão séria. E quanto à alegação de que admitir no homem um poder de usar ou de abusar da graça de Deus envolve algum mérito ou motivo de glória no próprio homem, ela é igualmente falaciosa. O poder de “querer e realizar” é unicamente resultado da operação de Deus no homem. Tudo é da graça: “Pela graça de Deus, sou o que sou” (1Co 15.10), é o que cada um deve dizer. Aqui não há disputa. Todo bom pensamento, desejo e inclinação do coração, e todo o seu poder de converter tudo isso em proveito prático pela oração, pela fé e pelo uso dos meios da graça (pelos quais se comunica novo poder de “querer e realizar”, novo poder de usar a graça, assim como nova graça), vêm de Deus. Todo bom ato, portanto, é o uso de um poder comunicado, dado pela graça; assim como o estender da mão ressequida do homem que foi curado foi o uso do poder comunicado à sua fraqueza, poder que ainda operava junto com o ato, embora não fosse o próprio ato. E tentar estabelecer um motivo de jactância e de autossuficiência na aceitação assistida da graça de Deus por nós, e na submissão capacitada do nosso coração a ela, é tão manifestamente absurdo quanto seria dizer que o homem cujo braço estava ressequido tinha grande razão para felicitar a si mesmo pela sua parte na glória do milagre, porque ele mesmo estendeu o membro revigorado à ordem de Cristo, e porque esse membro não foi, de fato, levantado pela mão daquele que, naquele ato de fé e obediência, o havia curado.
A questão da invencibilidade da graça divina é um ponto a ser considerado em outro lugar.
At 18.9-10: “Não tenha medo! Pelo contrário, fale e não fique calado, porque eu estou com você, e ninguém ousará lhe fazer mal, pois tenho muito povo nesta cidade.”
O sr. Scott, para quem a doutrina da eleição está sempre presente, diz: “Nisto Cristo evidentemente falava daqueles que eram seus pela eleição, dom do Pai e aquisição sua, embora naquele tempo estivessem em estado de não conversão” (Notes in loc.). Teria sido mais “evidente” se isso tivesse sido dito pelo autor de Atos, além do sr. Scott, ou qualquer coisa que se aproximasse disso. A “evidência”, tememos, estava toda na predisposição de espírito do sr. Scott, pois em nenhum outro lugar aparece. A expressão admite, pelo menos, duas interpretações muito satisfatórias, independentes da teoria da eleição calvinista. Pode significar que havia muitos inquiridores bem-dispostos e sérios entre os “gregos” de Corinto; pois, quando Paulo se afastou dos judeus, “entrou na casa de um homem chamado Tício Justo, que era temente a Deus” (At 18.7). Esse homem era um prosélito grego; e por várias partes dos Atos dos Apóstolos fica claro que essa classe de pessoas não só era numerosa, mas em geral recebia o evangelho com alegria, e estava entre os primeiros que se uniram às igrejas primitivas. Eles mostraram a sua disposição para receber o evangelho na própria Corinto, quando os judeus “se opuseram e blasfemaram” (At 18.6); e não é improvável que a esses prosélitos, que em muitos lugares eram “um povo preparado” para o Senhor (Lc 1.17), se faça referência quando nosso Salvador, falando a Paulo nessa visão, diz: “tenho muito povo nesta cidade”. Suponhamos, porém, que ele fale de modo prospectivo e profético, fazendo da sua presciência de um acontecimento o meio de animar os trabalhos do seu dedicado apóstolo: a doutrina da eleição não decorre nem do fato da presciência de Deus nem das declarações proféticas fundadas nela. Nem mesmo Calvino funda a eleição na presciência de Deus, mas no seu decreto.
Poderiam ser acrescentadas algumas outras passagens que às vezes são apresentadas como provas da teoria calvinista da “eleição” e da “graça distintiva”; mas todas elas ou são explicadas pela concepção da eleição bíblica que foi exposta por extenso, ou são de interpretação muito óbvia. Creio não ter omitido nenhuma em que se ponha grande peso na controvérsia; e o leitor julgará até que ponto as que foram examinadas sustentam as inferências que tendem a limitar o alcance universal daquelas declarações que provam, no sentido literal dos termos, que nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, “pela graça de Deus, provasse a morte por todos” (Hb 2.9).
1. “A verdadeira razão por que não creram foi a falta daquela disposição simples, dócil e inofensiva que caracterizava as suas ovelhas; pois, não fazendo parte daquele remanescente escolhido, foram deixados entregues ao orgulho e à inimizade do seu coração carnal.” (Scott, Commentary.) ↩
2. Holden traduz o versículo assim: “Jeová fez todas as coisas para si mesmo; sim, até o ímpio ele sustenta diariamente”; e observa: “se a tradução corrente for julgada correta, ‘o dia do mal’ seria entendido por um judeu do tempo de Salomão como o dia da angústia e da aflição”. ↩
3. Ver a Paraphrase and Annotations de Whitby e o seu Discourse on the Five Points, cap. 1. ↩
4. Calvino apresenta a questão de modo muito semelhante. Institutas, liv. III, cap. 24. ↩
5. Isto Calvino não hesita em dizer: “O Senhor supremo, portanto, privando da comunicação da sua luz e deixando nas trevas aqueles que reprovou, abre caminho para o cumprimento da sua própria predestinação.” (Institutas, liv. III, cap. 24.) ↩