O Pai é Deus
Ninguém discute este ponto, e é bom notar por quê: o Pai é chamado Deus em toda a Bíblia, sem ressalva. Jesus o chama de “o único Deus verdadeiro” (Jo 17.3), e Paulo, de “um só Deus, o Pai” (1Co 8.6).
“Ouça, ó Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor.”Deuteronômio 6.4 · NAA
Introdução
A doutrina da Trindade não nasceu no gabinete de um teólogo. Nasceu no meio de gente que orava.
Os primeiros cristãos eram judeus. Recitavam o Shemá desde meninos, de manhã e de noite: o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Nenhum deles teria admitido, nem sob tortura, que havia mais de um Deus. E, no entanto, essas mesmas pessoas passaram a orar a Jesus, a batizar em três nomes e a abençoar as igrejas invocando os três.
Não houve ruptura. Houve descoberta. Eles não trocaram o Deus de Israel por outro; foram levados a ver que o Deus de Israel é maior do que supunham. A doutrina da Trindade é a tentativa fiel de dizer, com palavras cuidadosas, aquilo que a Igreja já fazia quando orava, batizava e adorava.
É por isso que esta aula não começa por definições. Começa por um povo que rezava de um jeito novo e precisou entender o que estava dizendo.
O alicerce
Tudo o que vem depois se apoia aqui. Quem perde este ponto perde a doutrina inteira.
A Bíblia é monoteísta do princípio ao fim. “Ouça, ó Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor” (Dt 6.4). “Eu sou o Senhor, e não há outro; além de mim não há Deus” (Is 45.5). Esse Deus é o Criador e o Conservador de todas as coisas, aquele em quem tudo subsiste (Cl 1.16-17).
O cristianismo não acrescentou duas divindades ao Deus de Israel. Se acrescentasse, seria outra religião, e os apóstolos, que eram judeus fiéis, teriam sido os primeiros a denunciá-la.
Um texto decisivo
Em 1Coríntios 8.6, tratando de carnes sacrificadas aos ídolos, Paulo repete a confissão de Israel. Mas a repete partida em duas: “há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas”, e “um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas”. As duas palavras que o Shemá usa para o Deus único, Deus e Senhor, ele distribui entre o Pai e Jesus. E não conclui que agora há dois. Conclui, na mesma frase, que há um só.
1Coríntios 8.4-6
Guarde este movimento. Ele é o coração de toda a doutrina: a Igreja nunca somou. Ela reconheceu que o Deus único se dá a conhecer como Pai, Filho e Espírito Santo.
A evidência
Nenhum versículo isolado ensina a Trindade. O que a ensina é a soma do que a Escritura afirma sobre cada um dos três.
Ninguém discute este ponto, e é bom notar por quê: o Pai é chamado Deus em toda a Bíblia, sem ressalva. Jesus o chama de “o único Deus verdadeiro” (Jo 17.3), e Paulo, de “um só Deus, o Pai” (1Co 8.6).
“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1.1). Tomé, diante do ressurreto, diz “Senhor meu e Deus meu!”, e Jesus não corrige: aceita (Jo 20.28). O Pai se dirige ao Filho chamando-o Deus (Hb 1.8), e Paulo o chama “nosso grande Deus e Salvador” (Tt 2.13).
Pedro diz a Ananias que ele mentiu ao Espírito Santo e, na frase seguinte, que mentiu a Deus (At 5.3-4). O Espírito sonda o que há em Deus como o nosso espírito sonda o que há em nós (1Co 2.10-11) e é chamado de Espírito eterno (Hb 9.14).
Repare que não se trata de três textos difíceis, arrancados do contexto. Trata-se do modo normal como o Novo Testamento fala. E os três aparecem juntos com frequência, sem que o autor precise justificar a companhia.
“Batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.” Nome está no singular. Os três vêm em seguida.
A bênção com que Paulo encerra a carta invoca a graça do Senhor Jesus, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo.
No batismo de Jesus, os três estão presentes ao mesmo tempo: o Filho na água, o Espírito descendo, a voz do Pai nos céus.
Um só Espírito, um só Senhor, um só Deus e Pai. A unidade da Igreja é fundamentada na unidade dos três.
Uma objeção honesta
É verdade: “Trindade” não aparece na Escritura. Vale entender por que isso não é problema.
Também não aparecem “encarnação”, “onipotência”, “atributo divino” nem “Antigo Testamento”. Usamos todas sem constrangimento, porque são resumos. A palavra não acrescenta nada ao que a Bíblia diz; ela junta numa linha o que a Bíblia diz em cem lugares.
O termo aparece pela primeira vez por volta do ano 200, em Tertuliano, e a Igreja o adotou por necessidade prática. Quando alguém começou a ensinar que o Filho seria uma criatura, tornou-se preciso ter uma palavra capaz de dizer, em poucas sílabas, o que os cristãos liam nas Escrituras e cantavam no culto. Um resumo não substitui o texto. Serve para proteger o texto de resumos ruins.
Um cuidado que vem de Wesley. Ele dizia que não obrigaria ninguém a usar as palavras “Trindade” e “Pessoa”, e que ele próprio as usava por não conhecer termos melhores. O que ele não abria mão era do conteúdo. Quem crê que o Pai é Deus, que o Filho é Deus e que o Espírito é Deus, e que há um só Deus, já crê na doutrina, use a palavra que usar.
História
A formulação levou tempo, e levou por um bom motivo: a Igreja só define aquilo que alguém pôs em dúvida.
Ário ensinava que o Filho era a primeira e mais nobre das criaturas, feito antes de todas as coisas. Os bispos responderam que o Filho é da mesma substância do Pai. Se tudo foi feito por meio dele (Jo 1.3; Cl 1.16), ele não pode estar entre as coisas feitas.
Faltava dizer o mesmo do Espírito. O credo passou a confessá-lo como “o Senhor que dá a vida”, adorado e glorificado com o Pai e o Filho. É a confissão que boa parte da cristandade ainda recita.
A Igreja Metodista Livre confessa o mesmo, em português direto: há um só Deus vivo e verdadeiro, Criador e Conservador de todas as coisas; na unidade divina há três pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo, um só em eternidade, deidade e propósito.
Vale notar uma coisa sobre esses concílios. Eles não inventaram a doutrina nem votaram a divindade de Cristo. Eles recusaram uma novidade e puseram por escrito o que a Igreja já cria, orava e cantava havia três séculos.
Cuidado
Toda tentativa de simplificar a Trindade acaba negando alguma coisa. Conhecer os atalhos ajuda a não cair neles sem perceber.
É o modalismo. Deus seria um só que se apresenta ora de um jeito, ora de outro, como quem troca de papel.
Onde quebra: no batismo de Jesus. O Filho está na água, o Espírito desce sobre ele e a voz do Pai fala do céu, tudo ao mesmo tempo (Mt 3.16-17). E em João 17, o Filho ora ao Pai. Ninguém ora a si mesmo.
A ilustração que leva a esse erro: a água em três estados, gelo, líquido e vapor. São estados sucessivos da mesma coisa. É exatamente o que a doutrina nega.
É o arianismo, a controvérsia que levou a Niceia.
Onde quebra: “Todas as coisas foram feitas por meio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (Jo 1.3). Quem faz tudo o que foi feito não está entre as coisas feitas. E Tomé o adora sem ser repreendido (Jo 20.28), o que seria idolatria se ele fosse criatura.
É o triteísmo, e é o erro mais comum entre nós, não por convicção, mas por descuido de linguagem.
Onde quebra: no Shemá (Dt 6.4) e na afirmação de Jesus, “eu e o Pai somos um” (Jo 10.30).
A ilustração que leva a esse erro: o trevo de três folhas. Sugere três partes de um todo, como se cada pessoa fosse um terço de Deus. O Pai não é um pedaço de Deus. Ele é Deus.
Reduz o Espírito a uma influência impessoal, algo que se recebe como se recebe eletricidade.
Onde quebra: o Espírito fala, ouve, ensina e guia (Jo 16.13-14); chama pessoas para o trabalho e diz “separem para mim” (At 13.2); e pode ser entristecido (Ef 4.30). Nada disso se diz de uma força.
A ilustração que leva a esse erro: o sol, a luz e o calor. Faz do Filho e do Espírito efeitos do Pai, e não pessoas.
A conclusão prática é modesta e libertadora: nenhuma analogia dá conta. Sempre que uma parecer perfeita, é sinal de que ela negou alguma coisa. Melhor ensinar pelos textos do que pelas figuras.
Herança wesleyana
Em 1775, John Wesley pregou sobre a Trindade e fez uma distinção que resolve metade das aflições de quem estuda o assunto.
Ele parte de uma constatação de bom senso: a pessoa já crê em muitas coisas que não consegue explicar. Crê que há um sol sobre a sua cabeça, sem saber dizer que força o sustenta. Crê que tem uma alma, sem saber como ela se une ao corpo. Em todos esses casos, o fato é certo e o modo é obscuro, e ninguém acha isso escandaloso.
Creio no fato de que Deus é Três e Um. Mas o modo como isto é, não o compreendo, e dele não creio nada. O mistério está no modo, e o modo não me foi revelado.John Wesley, Sermão 55, Sobre a Trindade
A consequência pastoral é grande. Deus nos pede que creiamos naquilo que ele revelou, e ele revelou o fato: o Pai é Deus, o Filho é Deus, o Espírito é Deus, e há um só Deus. Ele não revelou o mecanismo interno da própria vida. Quem exige uma explicação do modo antes de crer está pedindo aquilo que a Escritura em nenhum lugar oferece.
Wesley acrescenta um segundo cuidado, que hoje serve de bom exemplo. Ele distinguia opinião de religião. Alguém pode ter todas as opiniões certas e não ter fé nenhuma; e há cristãos verdadeiros que sustentam opiniões erradas em muitos pontos. A Trindade, porém, ele não punha entre as opiniões. Punha entre as verdades que tocam o coração da fé, porque quem é Deus determina em quem confiamos e a quem adoramos.
Aplicação
Doutrina que não chega à vida vira erudição. Esta chega, e em quatro lugares bem concretos.
A oração cristã tem um endereço e um caminho: oramos ao Pai, por meio do Filho, no Espírito. “Por meio dele, tanto uns como outros temos acesso ao Pai, em um só Espírito” (Ef 2.18). Isso não é técnica de oração. É a razão de podermos chegar.
Ela é obra dos três. O Pai envia por amor, o Filho realiza na cruz, o Espírito aplica em nós e nos renova (Tt 3.4-6). Separar essas três coisas produz um cristianismo capenga, que ou fica só na cruz sem transformação, ou só na experiência sem fundamento.
Deus não precisou do mundo para amar. O Pai ama o Filho desde antes da fundação do mundo (Jo 17.24). Por isso a afirmação “Deus é amor” (1Jo 4.8) não é elogio nem exagero: descreve o que ele é em si mesmo, e não algo que passou a ser quando teve a quem amar.
A comunhão entre os crentes tem um modelo, e Jesus o disse na oração do cenáculo: “para que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim, e eu em ti, que também eles sejam um em nós” (Jo 17.21). A unidade da igreja não é estratégia. É semelhança com Deus.
Fixação
Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, porque errar aqui também ensina.
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Para pensar e conversar
O Novo Testamento é bem mais preciso: oramos ao Pai, por meio do Filho, no Espírito. “Por meio dele, tanto uns como outros temos acesso ao Pai, em um só Espírito” (Ef 2.18). Cada um dos três tem um lugar. O Pai é para quem falamos. O Filho é a razão de sermos recebidos, e não a nossa conduta da semana. O Espírito é quem sustenta a oração por dentro, inclusive quando não sabemos o que pedir (Rm 8.26).
Uma prática simples para esta semana: por sete dias, comece a oração nomeando os três. Não como fórmula, mas para reaprender de onde vem a ousadia de falar com Deus.
Depois, mostre onde a fé cristã diz o mesmo. Dt 6.4 é a nossa confissão tanto quanto a de Israel. E 1Co 8.6 é o texto para ler junto com ele: Paulo repete o Shemá e põe Jesus dentro dele, sem passar a contar dois.
Um conselho prático: resista à tentação de socorrer-se de uma analogia. O trevo e a água parecem ajudar e entregam ao seu amigo, de bandeja, exatamente a caricatura que ele já tinha. Prefira dizer com franqueza que cremos no fato revelado e não explicamos o modo, porque o modo não foi revelado.
E lembre do tom. “Estejam sempre preparados para responder a todo aquele que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês”, diz Pedro, e acrescenta logo em seguida: “fazendo isso com mansidão e temor” (1Pe 3.15-16). A doutrina se defende com argumento; o defensor se prova pelo modo.
Tarefas
Ler João 1.1-18, Mateus 28.16-20 e 1Coríntios 8.4-6 (NAA), anotando o que cada texto afirma sobre o Pai, sobre o Filho e sobre o Espírito. Depois, escrever em meia página a resposta que você daria a alguém que perguntasse por que a nossa igreja batiza em três nomes se crê num só Deus.
Leitura recomendada
O Sermão 55 de John Wesley, Sobre a Trindade, está publicado na íntegra no site. É curto e vale pelo argumento do fato e do modo. Para a redação oficial da nossa fé, veja o §101 do Manual.
Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. · Bispo Ildo Mello