Sem confundir
A divindade não se dilui na humanidade nem a humanidade se evapora na divindade. Ele não é uma liga metálica das duas.
“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do Filho único do Pai.”João 1.14 · NAA
Introdução
De todas as perguntas do Evangelho, esta é a que ele mesmo formulou e não deixou ninguém escapar dela.
Em Cesareia de Filipe, Jesus perguntou aos discípulos o que as pessoas andavam dizendo a respeito dele. As respostas eram elogiosas: João Batista, Elias, um dos profetas. Nenhuma era ofensiva. E nenhuma servia. Então ele estreitou o cerco: “E vocês, quem dizem que eu sou?” (Mt 16.15).
Essa é a pergunta desta aula, e ela não admite meio-termo simpático. Quase toda religião e quase toda pessoa educada tem algo elogioso a dizer sobre Jesus. Mestre notável, homem bom, profeta, revolucionário. A fé cristã não nasce de um elogio. Nasce da resposta de Pedro, e ela é de outra ordem.
Repare que a Igreja nunca precisou defender que Jesus foi um bom homem. Ninguém discute isso. O que ela precisou dizer, e dizer com precisão, é quem esse homem é.
Primeira afirmação
Não um ser elevado, não um semideus, não o primeiro dos anjos. Deus.
“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1.1). João não deixa margem: aquele que se fez carne no versículo 14 é o mesmo que era Deus no versículo 1.
Tomé cai diante dele e diz “Senhor meu e Deus meu!” (Jo 20.28). Jesus não corrige. Em toda a Escritura, anjos e apóstolos recusam a adoração que lhes é oferecida (At 10.25-26; Ap 22.8-9). Ele aceita.
Perdoa pecados por conta própria, e os presentes entendem exatamente o que isso significa (Mc 2.5-7). Cria e sustenta todas as coisas (Cl 1.16-17). Ressuscita mortos pela própria autoridade (Jo 11.43-44).
O Pai se dirige ao Filho dizendo “o teu trono, ó Deus, é para todo o sempre” (Hb 1.8). Paulo o chama de “nosso grande Deus e Salvador” (Tt 2.13). E Tomé o chama de Deus sem ser repreendido.
“Antes que Abraão existisse, eu sou” (Jo 8.58). A reação imediata da multidão, apanhar pedras, mostra que ninguém ali entendeu aquilo como figura de linguagem.
Segunda afirmação
E aqui a Igreja teve de lutar tanto quanto no outro lado, porque houve quem achasse indigno de Deus ter um corpo de verdade.
O Novo Testamento não tem qualquer constrangimento com a humanidade de Jesus. Ele teve fome (Mt 4.2) e sede (Jo 19.28). Cansou-se de caminhar e sentou-se à beira de um poço (Jo 4.6). Dormiu num barco em plena tempestade (Mc 4.38). Chorou diante do túmulo de um amigo, mesmo sabendo o que faria em seguida (Jo 11.35). Ficou angustiado a ponto de suar no Getsêmani (Lc 22.44). Cresceu, e Lucas diz isso com todas as letras: “Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça diante de Deus e dos homens” (Lc 2.52).
Por que isso não é detalhe
Hebreus faz o raciocínio inteiro: convinha que ele se tornasse em tudo semelhante aos irmãos, participando da mesma carne e do mesmo sangue, para poder ser um sumo sacerdote misericordioso e fiel, e para socorrer aqueles que são tentados, porque ele mesmo passou pela tentação. Se a humanidade de Jesus fosse aparência, o consolo evaporava junto com ela.
Hebreus 2.14-18
A juntura
Duas naturezas, e um só Jesus. A dificuldade está em segurar as duas pontas sem soltar nenhuma.
O Manual diz de modo direto: “Ele uniu a deidade de Deus com a humanidade do ser humano. Jesus de Nazaré era Deus em carne, verdadeiramente Deus e verdadeiramente humano” (§103). Não é Deus disfarçado de gente, nem um homem promovido a Deus, nem uma mistura da qual resultasse um terceiro ser, meio de cada.
A divindade não se dilui na humanidade nem a humanidade se evapora na divindade. Ele não é uma liga metálica das duas.
Não são dois sujeitos morando no mesmo corpo. Quem tem fome e quem perdoa pecados é a mesma e única pessoa, que diz “eu”.
Nenhuma das duas naturezas é aproximada ou parcial. Ele é inteiramente Deus e inteiramente humano, não cinquenta por cento de cada.
Foi essa a formulação a que a Igreja chegou em Calcedônia, no ano 451, depois de décadas de tentativas fracassadas em cada uma das direções. Como no caso da Trindade, o concílio não inventou nada. Ele traçou os limites dentro dos quais o testemunho dos Evangelhos permanece inteiro.
Uma consequência prática e bonita: quando você fala com Jesus, não está falando com metade de Deus nem com um intermediário. Está falando com Deus, num rosto humano, que sabe por experiência o que é ter medo.
A lógica da salvação
A dupla afirmação não é um enigma para teólogos. É a condição de haver salvação.
Porque quem paga precisa pertencer à família de quem deve. “Visto que os filhos têm participação comum de carne e sangue, também ele, semelhantemente, participou das mesmas coisas” (Hb 2.14). Um anjo não poderia morrer no meu lugar, porque não é meu parente. Por isso Paulo insiste na palavra: “um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, homem” (1Tm 2.5).
Porque nenhuma criatura tem valor bastante para responder pelo pecado do mundo inteiro, nem poder para vencer a morte. Se Jesus fosse apenas um justo exemplar, teria dado um belo exemplo e continuaria morto. O sacrifício é único e suficiente porque quem o oferece é infinito (Hb 9.14; 1Jo 2.2).
Tire uma das duas naturezas e a salvação cai junto. Sem a humanidade, não há representação: ele não é um de nós. Sem a divindade, não há suficiência: ele não alcança todos nós. É por isso que a Igreja nunca tratou este ponto como especulação, e sim como assunto de vida ou morte.
A confirmação
O cristianismo não se apoia numa doutrina bem construída, mas num túmulo vazio.
Paulo resume o que recebeu e transmitiu: Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, e apareceu a Pedro, aos doze e a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, a maioria dos quais ainda estava viva quando ele escreveu (1Co 15.3-6). Era um convite a conferir.
A ressurreição não fez Jesus ser Filho de Deus. Ela o “declarou Filho de Deus com poder” (Rm 1.4). A diferença de verbo é toda a diferença: o que ele era desde sempre veio à luz de modo que ninguém pudesse contestar.
E a história não termina no jardim. O Manual acrescenta o que costumamos esquecer: ele subiu ao céu, onde está assentado como nosso Senhor exaltado, à direita do Pai, “intercedendo por nós” (§104). Neste exato momento, há um homem no trono de Deus orando pelo seu nome.
Cuidado
Cada um deles resolve a dificuldade sacrificando um lado. E cada um continua vivo hoje, com roupa nova.
É o atalho preferido de quem admira Jesus e não quer se comprometer com ele. Simpático, e insustentável.
Onde quebra: nas afirmações do próprio Jesus. Um grande mestre moral não perdoa pecados cometidos contra terceiros (Mc 2.5-7), não diz “antes que Abraão existisse, eu sou” (Jo 8.58) e não aceita ser adorado (Jo 20.28). Ou essas palavras são verdadeiras, ou o homem que as disse não era um bom mestre coisa nenhuma.
É o docetismo, do grego para “parecer”. Nasceu do desconforto com a ideia de Deus ter unhas, fome e suor.
Onde quebra: João escreve contra isso com dureza incomum, dizendo que negar que Jesus Cristo veio em carne é o espírito do anticristo (1Jo 4.2-3). E na carta anterior ele apela ao que ouviu, viu com os olhos e apalpou com as mãos (1Jo 1.1).
Onde aparece hoje: na devoção que se envergonha das partes humanas do Evangelho, como o cansaço, a angústia do Getsêmani e o grito do abandono na cruz, e prefere um Jesus sempre sereno.
É o adopcionismo. Preserva bem a humanidade e perde a eternidade do Filho.
Onde quebra: em João 1.1, o Verbo já era Deus no princípio, antes de qualquer batismo. Em Filipenses 2.6-7, ele subsistia em forma de Deus e esvaziou-se, o que supõe que já era antes de se esvaziar. E em João 17.5, ele fala da glória que tinha junto do Pai antes que o mundo existisse.
É a caricatura mais comum entre nós, e vem quase sempre da boa intenção de simplificar.
Onde quebra: uma metade de Deus não salva ninguém, e uma metade de homem não representa ninguém. O Novo Testamento nunca fraciona. Diz que nele “habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2.9), e ao mesmo tempo o chama de homem sem qualquer ressalva (1Tm 2.5).
Um teste simples: se a sua explicação faz Jesus ser menos Deus ou menos humano para caber na cabeça, ela já saiu do caminho.
Herança wesleyana
Saber quem Jesus é leva à pergunta seguinte, e Wesley a respondeu num sermão inteiro: para que ele veio?
A resposta de Wesley vem de João: “o Filho de Deus se manifestou para destruir as obras do diabo” (1Jo 3.8). E ele faz questão de dizer o que isso não significa. Não significa apenas cancelar uma dívida e deixar a pessoa como estava. A obra do diabo foi desfigurar em nós a imagem de Deus, e desfazer essa obra é refazer a imagem.
A religião verdadeira é uma restauração não só ao favor, mas também à imagem de Deus, o que implica não meramente a libertação do pecado, mas o ser cheio de toda a plenitude de Deus.John Wesley, Sermão 62, O propósito da vinda de Cristo
Guarde esse par: favor e imagem. O favor é o perdão, o nosso lugar restaurado diante de Deus. A imagem é o caráter, aquilo que voltamos a ser. Uma cristologia que para no favor produz gente perdoada e inalterada. É por isso que, entre nós, a doutrina de Cristo e a busca da santidade nunca andaram separadas.
Aplicação
Quem é Jesus determina como oramos, como sofremos, como falamos dele e como esperamos.
Você não fala com um estranho. Fala com alguém que teve sono, que perdeu um amigo e chorou, e que suou de angústia diante do que vinha pela frente. “Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas” (Hb 4.15). Quando faltarem palavras, isto basta: ele sabe.
A fé cristã não explica a dor, mas diz onde Deus estava quando ela veio. Não de longe, comentando. Dentro dela. Um Deus que nunca sofreu teria pouco a dizer numa UTI. Este tem.
Diante de quem admira Jesus sem se render a ele, o caminho não é discutir moral. É devolver a pergunta que ele mesmo fez: e você, quem diz que ele é? A conversa muda de assunto e vai para onde precisa ir.
Ele não voltou ao Pai deixando a nossa carne para trás. Levou-a consigo. O corpo humano tem lugar no trono de Deus, e é por isso que a nossa esperança final não é virar espírito, e sim ressuscitar (1Co 15.20-23).
Fixação
Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, porque errar aqui também ensina.
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Para pensar e conversar
O diagnóstico é simples de fazer. Onde você pesa a opinião dele junto com as outras, ele é mestre. Onde a palavra dele encerra a discussão, ele é Senhor. Pedro não respondeu “você é um grande professor”. Respondeu “tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16.16), e essa confissão custou a ele a vida inteira.
Uma providência para esta semana: escolha uma dessas áreas, a que veio à mente primeiro, e leve a Deus em oração com um pedido específico, não genérico. Depois, conte a alguém de confiança. Coisas assim raramente mudam em segredo.
Depois mostre por onde a afirmação aparece, que é pelo que ele faz e pelo que aceita. Ele perdoa pecados e os presentes entendem na hora a implicação (Mc 2.5-7). Recebe adoração sem corrigir (Jo 20.28), coisa que anjos e apóstolos recusam (At 10.25-26; Ap 22.8-9). E toma para si o Nome revelado a Moisés, com uma reação que não deixa dúvida sobre o que os ouvintes entenderam (Jo 8.58-59).
Sobre a “invenção posterior”, há um dado histórico útil e verificável: Filipenses 2.6-11 é reconhecido como um hino já em circulação antes de Paulo escrever a carta, isto é, coisa de vinte a trinta anos depois da cruz, e ele já adora Jesus como Senhor. Niceia, no ano 325, chega quase três séculos depois para recusar uma novidade, e não para criar uma.
Termine sem querer vencer. “Estejam sempre preparados para responder a todo aquele que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês”, e Pedro emenda: “fazendo isso com mansidão e temor” (1Pe 3.15-16).
Tarefas
Ler João 1.1-18, Filipenses 2.5-11 e Hebreus 2.14-18 (NAA), anotando em duas colunas o que cada texto afirma sobre a divindade e sobre a humanidade de Jesus. Depois, escrever em meia página a resposta que você daria a um amigo que admira Jesus como mestre e não sabe o que fazer com as afirmações dele sobre si mesmo.
Leitura recomendada
O Sermão 62 de John Wesley, O propósito da vinda de Cristo, está publicado na íntegra no site. Para a redação oficial da nossa fé, veja o §103 do Manual, sobre a encarnação, e o §104, sobre a ressurreição e a ascensão.
Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. · Bispo Ildo Mello