No que cremosAula 2

Jesus Cristo, o Filho

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do Filho único do Pai.”João 1.14 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Jo 1.1-18; Fp 2.5-11; Hb 2.14-18; Cl 1.15-20

Introdução

A pergunta que Jesus fez

De todas as perguntas do Evangelho, esta é a que ele mesmo formulou e não deixou ninguém escapar dela.

Em Cesareia de Filipe, Jesus perguntou aos discípulos o que as pessoas andavam dizendo a respeito dele. As respostas eram elogiosas: João Batista, Elias, um dos profetas. Nenhuma era ofensiva. E nenhuma servia. Então ele estreitou o cerco: “E vocês, quem dizem que eu sou?” (Mt 16.15).

Essa é a pergunta desta aula, e ela não admite meio-termo simpático. Quase toda religião e quase toda pessoa educada tem algo elogioso a dizer sobre Jesus. Mestre notável, homem bom, profeta, revolucionário. A fé cristã não nasce de um elogio. Nasce da resposta de Pedro, e ela é de outra ordem.

Repare que a Igreja nunca precisou defender que Jesus foi um bom homem. Ninguém discute isso. O que ela precisou dizer, e dizer com precisão, é quem esse homem é.

Primeira afirmação

Verdadeiramente Deus

Não um ser elevado, não um semideus, não o primeiro dos anjos. Deus.

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1.1). João não deixa margem: aquele que se fez carne no versículo 14 é o mesmo que era Deus no versículo 1.

Recebe adoração

Tomé cai diante dele e diz “Senhor meu e Deus meu!” (Jo 20.28). Jesus não corrige. Em toda a Escritura, anjos e apóstolos recusam a adoração que lhes é oferecida (At 10.25-26; Ap 22.8-9). Ele aceita.

Faz o que só Deus faz

Perdoa pecados por conta própria, e os presentes entendem exatamente o que isso significa (Mc 2.5-7). Cria e sustenta todas as coisas (Cl 1.16-17). Ressuscita mortos pela própria autoridade (Jo 11.43-44).

É chamado Deus

O Pai se dirige ao Filho dizendo “o teu trono, ó Deus, é para todo o sempre” (Hb 1.8). Paulo o chama de “nosso grande Deus e Salvador” (Tt 2.13). E Tomé o chama de Deus sem ser repreendido.

Toma para si o Nome

“Antes que Abraão existisse, eu sou” (Jo 8.58). A reação imediata da multidão, apanhar pedras, mostra que ninguém ali entendeu aquilo como figura de linguagem.

Segunda afirmação

Verdadeiramente humano

E aqui a Igreja teve de lutar tanto quanto no outro lado, porque houve quem achasse indigno de Deus ter um corpo de verdade.

O Novo Testamento não tem qualquer constrangimento com a humanidade de Jesus. Ele teve fome (Mt 4.2) e sede (Jo 19.28). Cansou-se de caminhar e sentou-se à beira de um poço (Jo 4.6). Dormiu num barco em plena tempestade (Mc 4.38). Chorou diante do túmulo de um amigo, mesmo sabendo o que faria em seguida (Jo 11.35). Ficou angustiado a ponto de suar no Getsêmani (Lc 22.44). Cresceu, e Lucas diz isso com todas as letras: “Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça diante de Deus e dos homens” (Lc 2.52).

A juntura

Uma só pessoa

Duas naturezas, e um só Jesus. A dificuldade está em segurar as duas pontas sem soltar nenhuma.

O Manual diz de modo direto: “Ele uniu a deidade de Deus com a humanidade do ser humano. Jesus de Nazaré era Deus em carne, verdadeiramente Deus e verdadeiramente humano” (§103). Não é Deus disfarçado de gente, nem um homem promovido a Deus, nem uma mistura da qual resultasse um terceiro ser, meio de cada.

1

Sem confundir

A divindade não se dilui na humanidade nem a humanidade se evapora na divindade. Ele não é uma liga metálica das duas.

2

Sem dividir

Não são dois sujeitos morando no mesmo corpo. Quem tem fome e quem perdoa pecados é a mesma e única pessoa, que diz “eu”.

3

Sem diminuir

Nenhuma das duas naturezas é aproximada ou parcial. Ele é inteiramente Deus e inteiramente humano, não cinquenta por cento de cada.

Foi essa a formulação a que a Igreja chegou em Calcedônia, no ano 451, depois de décadas de tentativas fracassadas em cada uma das direções. Como no caso da Trindade, o concílio não inventou nada. Ele traçou os limites dentro dos quais o testemunho dos Evangelhos permanece inteiro.

Uma consequência prática e bonita: quando você fala com Jesus, não está falando com metade de Deus nem com um intermediário. Está falando com Deus, num rosto humano, que sabe por experiência o que é ter medo.

A lógica da salvação

Por que ele precisava ser os dois

A dupla afirmação não é um enigma para teólogos. É a condição de haver salvação.

Precisava ser humano

Porque quem paga precisa pertencer à família de quem deve. “Visto que os filhos têm participação comum de carne e sangue, também ele, semelhantemente, participou das mesmas coisas” (Hb 2.14). Um anjo não poderia morrer no meu lugar, porque não é meu parente. Por isso Paulo insiste na palavra: “um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, homem” (1Tm 2.5).

Precisava ser Deus

Porque nenhuma criatura tem valor bastante para responder pelo pecado do mundo inteiro, nem poder para vencer a morte. Se Jesus fosse apenas um justo exemplar, teria dado um belo exemplo e continuaria morto. O sacrifício é único e suficiente porque quem o oferece é infinito (Hb 9.14; 1Jo 2.2).

Tire uma das duas naturezas e a salvação cai junto. Sem a humanidade, não há representação: ele não é um de nós. Sem a divindade, não há suficiência: ele não alcança todos nós. É por isso que a Igreja nunca tratou este ponto como especulação, e sim como assunto de vida ou morte.

A confirmação

A ressurreição e o que ela declara

O cristianismo não se apoia numa doutrina bem construída, mas num túmulo vazio.

Paulo resume o que recebeu e transmitiu: Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, e apareceu a Pedro, aos doze e a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, a maioria dos quais ainda estava viva quando ele escreveu (1Co 15.3-6). Era um convite a conferir.

A ressurreição não fez Jesus ser Filho de Deus. Ela o “declarou Filho de Deus com poder” (Rm 1.4). A diferença de verbo é toda a diferença: o que ele era desde sempre veio à luz de modo que ninguém pudesse contestar.

E a história não termina no jardim. O Manual acrescenta o que costumamos esquecer: ele subiu ao céu, onde está assentado como nosso Senhor exaltado, à direita do Pai, “intercedendo por nós” (§104). Neste exato momento, há um homem no trono de Deus orando pelo seu nome.

Cuidado

Quatro atalhos que não funcionam

Cada um deles resolve a dificuldade sacrificando um lado. E cada um continua vivo hoje, com roupa nova.

1“Jesus foi um grande mestre moral, e só”+

É o atalho preferido de quem admira Jesus e não quer se comprometer com ele. Simpático, e insustentável.

Onde quebra: nas afirmações do próprio Jesus. Um grande mestre moral não perdoa pecados cometidos contra terceiros (Mc 2.5-7), não diz “antes que Abraão existisse, eu sou” (Jo 8.58) e não aceita ser adorado (Jo 20.28). Ou essas palavras são verdadeiras, ou o homem que as disse não era um bom mestre coisa nenhuma.

2“Ele só parecia humano; o corpo era aparência”+

É o docetismo, do grego para “parecer”. Nasceu do desconforto com a ideia de Deus ter unhas, fome e suor.

Onde quebra: João escreve contra isso com dureza incomum, dizendo que negar que Jesus Cristo veio em carne é o espírito do anticristo (1Jo 4.2-3). E na carta anterior ele apela ao que ouviu, viu com os olhos e apalpou com as mãos (1Jo 1.1).

Onde aparece hoje: na devoção que se envergonha das partes humanas do Evangelho, como o cansaço, a angústia do Getsêmani e o grito do abandono na cruz, e prefere um Jesus sempre sereno.

3“Ele era um homem que Deus adotou, no batismo ou na ressurreição”+

É o adopcionismo. Preserva bem a humanidade e perde a eternidade do Filho.

Onde quebra: em João 1.1, o Verbo já era Deus no princípio, antes de qualquer batismo. Em Filipenses 2.6-7, ele subsistia em forma de Deus e esvaziou-se, o que supõe que já era antes de se esvaziar. E em João 17.5, ele fala da glória que tinha junto do Pai antes que o mundo existisse.

4“Metade Deus, metade homem”+

É a caricatura mais comum entre nós, e vem quase sempre da boa intenção de simplificar.

Onde quebra: uma metade de Deus não salva ninguém, e uma metade de homem não representa ninguém. O Novo Testamento nunca fraciona. Diz que nele “habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2.9), e ao mesmo tempo o chama de homem sem qualquer ressalva (1Tm 2.5).

Um teste simples: se a sua explicação faz Jesus ser menos Deus ou menos humano para caber na cabeça, ela já saiu do caminho.

Herança wesleyana

Para que ele veio

Saber quem Jesus é leva à pergunta seguinte, e Wesley a respondeu num sermão inteiro: para que ele veio?

A resposta de Wesley vem de João: “o Filho de Deus se manifestou para destruir as obras do diabo” (1Jo 3.8). E ele faz questão de dizer o que isso não significa. Não significa apenas cancelar uma dívida e deixar a pessoa como estava. A obra do diabo foi desfigurar em nós a imagem de Deus, e desfazer essa obra é refazer a imagem.

A religião verdadeira é uma restauração não só ao favor, mas também à imagem de Deus, o que implica não meramente a libertação do pecado, mas o ser cheio de toda a plenitude de Deus.John Wesley, Sermão 62, O propósito da vinda de Cristo

Guarde esse par: favor e imagem. O favor é o perdão, o nosso lugar restaurado diante de Deus. A imagem é o caráter, aquilo que voltamos a ser. Uma cristologia que para no favor produz gente perdoada e inalterada. É por isso que, entre nós, a doutrina de Cristo e a busca da santidade nunca andaram separadas.

Ler o sermão de Wesley

Aplicação

O que muda na prática

Quem é Jesus determina como oramos, como sofremos, como falamos dele e como esperamos.

Na oração

Você não fala com um estranho. Fala com alguém que teve sono, que perdeu um amigo e chorou, e que suou de angústia diante do que vinha pela frente. “Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas” (Hb 4.15). Quando faltarem palavras, isto basta: ele sabe.

No sofrimento

A fé cristã não explica a dor, mas diz onde Deus estava quando ela veio. Não de longe, comentando. Dentro dela. Um Deus que nunca sofreu teria pouco a dizer numa UTI. Este tem.

No testemunho

Diante de quem admira Jesus sem se render a ele, o caminho não é discutir moral. É devolver a pergunta que ele mesmo fez: e você, quem diz que ele é? A conversa muda de assunto e vai para onde precisa ir.

Na esperança

Ele não voltou ao Pai deixando a nossa carne para trás. Levou-a consigo. O corpo humano tem lugar no trono de Deus, e é por isso que a nossa esperança final não é virar espírito, e sim ressuscitar (1Co 15.20-23).

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, porque errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Em que parte da sua vida você trata Jesus como mestre, e não como Senhor?Ver resposta sugerida
A pergunta é incômoda de propósito. Quase todo cristão tem uma área da vida em que Jesus é consultado como bom conselheiro e não obedecido como Senhor. Costuma ser a área do dinheiro, ou a de um relacionamento, ou a de uma mágoa antiga que a gente prefere administrar sozinho.

O diagnóstico é simples de fazer. Onde você pesa a opinião dele junto com as outras, ele é mestre. Onde a palavra dele encerra a discussão, ele é Senhor. Pedro não respondeu “você é um grande professor”. Respondeu “tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16.16), e essa confissão custou a ele a vida inteira.

Uma providência para esta semana: escolha uma dessas áreas, a que veio à mente primeiro, e leve a Deus em oração com um pedido específico, não genérico. Depois, conte a alguém de confiança. Coisas assim raramente mudam em segredo.

Alguém lhe diz: “Jesus nunca afirmou ser Deus, isso foi invenção da Igreja depois”. Como responder com mansidão?Ver resposta sugerida
Comece reconhecendo o que há de razoável na objeção. É verdade que Jesus não sai por aí anunciando “eu sou Deus” com essas palavras, e quem nota isso está lendo com atenção, não de má-fé. Diga isso primeiro.

Depois mostre por onde a afirmação aparece, que é pelo que ele faz e pelo que aceita. Ele perdoa pecados e os presentes entendem na hora a implicação (Mc 2.5-7). Recebe adoração sem corrigir (Jo 20.28), coisa que anjos e apóstolos recusam (At 10.25-26; Ap 22.8-9). E toma para si o Nome revelado a Moisés, com uma reação que não deixa dúvida sobre o que os ouvintes entenderam (Jo 8.58-59).

Sobre a “invenção posterior”, há um dado histórico útil e verificável: Filipenses 2.6-11 é reconhecido como um hino já em circulação antes de Paulo escrever a carta, isto é, coisa de vinte a trinta anos depois da cruz, e ele já adora Jesus como Senhor. Niceia, no ano 325, chega quase três séculos depois para recusar uma novidade, e não para criar uma.

Termine sem querer vencer. “Estejam sempre preparados para responder a todo aquele que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês”, e Pedro emenda: “fazendo isso com mansidão e temor” (1Pe 3.15-16).

Para casa

Tarefas

Ler João 1.1-18, Filipenses 2.5-11 e Hebreus 2.14-18 (NAA), anotando em duas colunas o que cada texto afirma sobre a divindade e sobre a humanidade de Jesus. Depois, escrever em meia página a resposta que você daria a um amigo que admira Jesus como mestre e não sabe o que fazer com as afirmações dele sobre si mesmo.

Leitura recomendada

O Sermão 62 de John Wesley, O propósito da vinda de Cristo, está publicado na íntegra no site. Para a redação oficial da nossa fé, veja o §103 do Manual, sobre a encarnação, e o §104, sobre a ressurreição e a ascensão.

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. · Bispo Ildo Mello