Aula 6 de 7Narcisismo religioso

A autoridade como serviço e a resposta da graça

“Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.”Marcos 10.45 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Mc 10.32-45; Lc 22.24-27; Fp 2.1-13; Jo 13.1-17; Rm 3.21-28; Rm 8.14-17; Gl 5.16-26; 2Co 7.8-11; Lc 19.1-10; Gl 6.1-5; 1Jo 4.19-21

Marcos 10.35-45

A grandeza redefinida

Tiago e João pedem os lugares de honra. Os outros dez se indignam, não por humildade, mas por terem chegado atrasados ao pedido. E Jesus reúne todos para redefinir o que é ser grande.

35 Então se aproximaram dele Tiago e João, filhos de Zebedeu, dizendo: Mestre, queremos que o senhor nos conceda o que vamos pedir.

36 E Jesus lhes perguntou: O que querem que eu lhes faça?

37 Eles responderam: Permite-nos que, na sua glória, nos assentemos um à sua direita e o outro à sua esquerda.

38 Mas Jesus lhes disse: Vocês não sabem o que estão pedindo. Será que podem beber o cálice que eu bebo ou receber o batismo com que eu sou batizado?

39 Eles responderam: Podemos. Então Jesus lhes disse: Vocês beberão o cálice que eu bebo e receberão o batismo com que eu sou batizado.

40 Quanto a sentar à minha direita ou à minha esquerda, não me compete concedê-lo, pois é para aqueles a quem está preparado.

41 Quando os outros dez discípulos ouviram isso, começaram a ficar indignados com Tiago e João.

42 Mas Jesus, chamando todos para junto de si, disse: Vocês sabem que os que são considerados governadores dos povos os dominam e que os seus maiorais exercem autoridade sobre eles.

43 Mas entre vocês não é assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vocês, que se coloque a serviço dos outros;

44 e quem quiser ser o primeiro entre vocês, que seja servo de todos.

45 Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.

Marcos 10.35-45 · NAA

A conversa acontece no caminho para Jerusalém, logo depois de Jesus anunciar pela terceira vez que seria entregue, condenado, humilhado e morto (Mc 10.32-34). É a esse anúncio que Tiago e João respondem pedindo tronos. A busca de posição é confrontada pela forma concreta da missão de Cristo: “o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos”. Jesus não apenas manda servir; fundamenta a ordem na entrega da própria vida. A autoridade cristã nasce dessa entrega e é medida por ela.

Repare no contraste: os governadores dos povos “dominam” e “exercem autoridade”; “entre vocês não é assim”. Jesus não diz que não haverá primeiros; diz como se chega a ser o primeiro: sendo “servo de todos”. Na última ceia, com a discussão de novo em curso, ele resumiu tudo numa frase sobre si mesmo: “no meio de vocês, eu sou como quem serve” (Lc 22.27).

Filipenses 2; João 13

O modo de pensar de Cristo

Paulo liga a vida comunitária, sem partidarismo nem vanglória, à atitude de Cristo, que assumiu a condição de servo e se humilhou até a morte de cruz. E João mostra a cena: o Senhor com a toalha na cintura.

3 Não façam nada por interesse pessoal ou vaidade, mas por humildade, cada um considerando os outros superiores a si mesmo,

4 não tendo em vista somente os seus próprios interesses, mas também os dos outros.

5 Tenham entre vocês o mesmo modo de pensar de Cristo Jesus,

6 que, mesmo existindo na forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus algo que deveria ser retido a qualquer custo.

7 Pelo contrário, ele se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se semelhante aos seres humanos. E, reconhecido em figura humana,

8 ele se humilhou, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz.

9 Por isso também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome,

10 para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra,

11 e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.

Filipenses 2.3-11 · NAA

O ponto de partida é prático: “Não façam nada por interesse pessoal ou vaidade”. É a definição exata daquilo que este curso chamou de narcisismo religioso, e Paulo a trata como problema de comunidade, não só de indivíduo. O remédio é “o mesmo modo de pensar de Cristo Jesus”, descrito no hino que segue. O esvaziamento de que Paulo fala se explica pela encarnação e pelo serviço obediente; não é preciso entendê-lo como abandono da divindade, e o texto mesmo diz que ele continuava “existindo na forma de Deus”. A aplicação aos cristãos é o abandono da rivalidade e a consideração pelo bem do outro: “cada um considerando os outros superiores a si mesmo”.

3 sabendo este que o Pai tinha confiado tudo às suas mãos, e que ele tinha vindo de Deus e voltava para Deus,

4 levantou-se da ceia, tirou a vestimenta de cima e, pegando uma toalha, cingiu-se com ela.

5 Em seguida Jesus pôs água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha com que estava cingido.

12 Depois de lhes ter lavado os pés, Jesus pôs de novo as suas vestimentas e, voltando à mesa, perguntou-lhes: Vocês compreendem o que eu lhes fiz?

13 Vocês me chamam de Mestre e de Senhor e fazem bem, porque eu o sou.

14 Ora, se eu, sendo Senhor e Mestre, lavei os pés de vocês, também vocês devem lavar os pés uns dos outros.

15 Porque eu lhes dei o exemplo, para que, como eu fiz, vocês façam também.

16 Em verdade, em verdade lhes digo que o servo não é maior do que seu senhor, nem o enviado é maior do que aquele que o enviou.

17 Se vocês sabem estas coisas, bem-aventurados serão se as praticarem.

João 13.3-5,12-17 · NAA

João acrescenta um detalhe precioso: Jesus lava os pés dos discípulos “sabendo que o Pai tinha confiado tudo às suas mãos”. A segurança da sua identidade se expressa em serviço. A humildade, portanto, não exige negar os dons recebidos; exige empregá-los em favor das pessoas. E o serviço é dado como exemplo a ser praticado, com a bem-aventurança reservada a quem pratica, não a quem apenas sabe.

Para o discípulo, a filiação divina oferece um fundamento de identidade que não depende da posição ocupada na igreja: “vocês não receberam um espírito de escravidão, para viverem outra vez atemorizados, mas receberam o Espírito de adoção, por meio do qual clamamos: Aba, Pai” (Rm 8.15). Quem recebe a própria vida como graça consegue reconhecer o valor do outro sem sentir isso como perda de valor pessoal. É essa segurança que faltava a Diótrefes e a Uzias, e que Jesus tinha de sobra na noite da ceia.

O serviço de Cristo também orienta a maneira como o poder deve ser limitado. A disposição de Jesus para entregar-se voluntariamente não dá a nenhum líder o direito de exigir que outra pessoa aceite violência, humilhação ou exploração “em nome do serviço”. O chamado ao serviço responsabiliza quem exerce autoridade pelo bem daqueles que estão sob os seus cuidados; nunca autoriza usar a cruz de Cristo como argumento para que os outros carreguem a cruz que o líder impõe.

Romanos 3; Gálatas 5; John Wesley

A resposta da graça

A resposta bíblica ao orgulho espiritual começa pela graça. Depois de expor a justificação pela fé, Paulo faz a pergunta que resolve o curso inteiro: “Onde fica, então, o orgulho?”

23 pois todos pecaram e carecem da glória de Deus,

24 sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus,

25 a quem Deus apresentou como propiciação, no seu sangue, mediante a fé. Deus fez isso para manifestar a sua justiça, por ter ele, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos,

26 tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, a fim de que o próprio Deus seja justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus.

27 Onde fica, então, o orgulho? Foi totalmente excluído. Por meio de que lei? A lei das obras? Não! Pelo contrário, por meio da lei da fé.

28 Concluímos, pois, que o ser humano é justificado pela fé, independentemente das obras da lei.

Romanos 3.23-28 · NAA

“Foi totalmente excluído.” A justificação exclui qualquer pretensão de superioridade diante de Deus, porque todos pecaram e todos dependem da mesma misericórdia, “justificados gratuitamente, por sua graça”. Não há fariseu e publicano diante da cruz; há dois pecadores, e só um deles sabe disso. O novo nascimento e a santificação, por sua vez, apontam para a renovação da vida inteira, inclusive das motivações e das relações (Jo 3.3-8; Tt 3.5; Ef 4.22-24).

Na compreensão armínio-wesleyana, que é a minha, a iniciativa dessa transformação pertence a Deus, cuja graça desperta e capacita a resposta humana; mas essa graça precisa ser acolhida em fé e obediência. Filipenses 2.12-13 une as duas coisas: “desenvolvam a sua salvação com temor e tremor, porque Deus é quem efetua em vocês tanto o querer como o realizar”. O reconhecimento da nossa dependência não elimina a responsabilidade pelas nossas escolhas.

22 Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade,

23 mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei.

24 E os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e os seus desejos.

25 Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito.

26 Não nos deixemos possuir de vanglória, provocando uns aos outros, tendo inveja uns dos outros.

Gálatas 5.22-26 · NAA

O fruto do Espírito oferece critérios concretos para acompanhar essa transformação. Amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio precisam alcançar a conversa difícil, a administração dos recursos e a maneira de receber uma crítica. E Paulo fecha a lista com o vício que a contradiz: a vanglória, que provoca e inveja. A profissão de santidade tem de corresponder a essas relações.

John Wesley, no sermão A circuncisão do coração, descreve a santidade como humildade, fé, esperança e amor, e define a humildade como “uma compreensão correta de nós mesmos”, que purifica a mente “das ideias exageradas sobre nossa própria perfeição e da opinião indevida sobre nossas capacidades e realizações”. É difícil encontrar descrição mais exata daquilo que o narcisismo religioso nega. Em Uma Clara Explicação da Perfeição Cristã, Wesley também insiste em que os cristãos amadurecidos no amor “não estão livres da ignorância, nem tampouco do erro”, de modo que a possibilidade de crescer na santidade permanece sempre acompanhada da necessidade de Cristo. Daí uma aplicação pastoral direta: alegar maturidade espiritual não dispensa ninguém de correção ou supervisão.

Os meios de graça. A formação cristã se dá pelos meios que Deus deu: oração, estudo das Escrituras, comunhão dos irmãos, Ceia do Senhor, obras de misericórdia e relacionamentos de prestação de contas. Quando há sofrimento psicológico ou padrões persistentes que exigem cuidado clínico, o acompanhamento profissional faz parte desse cuidado, e a igreja deve evitar prometer que uma experiência religiosa isolada resolverá automaticamente um transtorno de personalidade.

2 Coríntios 7; Lucas 19

Arrependimento que aparece na conduta

Paulo distingue a tristeza segundo Deus, que produz arrependimento, da tristeza do mundo, e descreve a primeira pelos seus efeitos. Zaqueu mostra como é um arrependimento com número: quatro vezes mais.

9 Mas agora me alegro, não porque vocês ficaram tristes, mas porque essa tristeza os levou ao arrependimento. Pois vocês foram entristecidos segundo Deus, para que, de nossa parte, não sofressem nenhum dano.

10 Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte.

11 Vejam quanto cuidado produziu em vocês o fato de serem entristecidos segundo Deus! Que defesa, que indignação, que temor, que saudade, que zelo, que desejo de punir o culpado! Em tudo vocês se mostraram inocentes neste assunto.

2 Coríntios 7.9-11 · NAA

A lista do versículo 11 é um retrato do arrependimento verdadeiro em ação: cuidado, defesa, indignação, temor, saudade, zelo, desejo de que o culpado seja punido. Não é uma lista de sentimentos; é uma lista de atitudes. Em Lucas 19, a transformação de Zaqueu inclui a devolução em quádruplo do que ele havia roubado: “Senhor, vou dar a metade dos meus bens aos pobres. E, se roubei alguma coisa de alguém, vou restituir quatro vezes mais” (Lc 19.8). Jesus só então declara: “Hoje houve salvação nesta casa”. Esses textos ajudam a avaliar pedidos de perdão: palavras e emoções precisam vir acompanhadas de verdade, reparação e mudança. Os Provérbios já diziam: “Quem encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e abandona alcançará misericórdia” (Pv 28.13). Confessar e abandonar: os dois verbos.

1

Nomear os atos

Em vez de falar genericamente em “erros” ou “falhas”, dizer o que foi feito, a quem e quando. Davi disse “Pequei contra o Senhor” depois que Natã nomeou o ato.

2

Abandonar as justificativas que culpam os prejudicados

“Ela provocou”, “eles não entenderam a visão”, “foi mal interpretado”. Enquanto a culpa é transferida, o arrependimento não começou.

3

Aceitar supervisão

Quem se arrependeu quer ser acompanhado; quem só quer encerrar o assunto resiste a qualquer supervisão.

4

Interromper a conduta

O arrependimento de Zaqueu tinha data: hoje. Uma conduta que continua “enquanto se ora sobre o assunto” não foi interrompida.

5

Respeitar o tempo da confiança

A confiança se reconstrói devagar, e quem feriu não pode exigir que a reconstrução seja rápida. A pessoa arrependida não impõe à vítima a tarefa de defender a sua reputação, nem a de provar que já a perdoou.

Perdão, reconciliação, confiança e aptidão para uma função ministerial são questões relacionadas, mas exigem discernimentos distintos. A disposição de perdoar pode coexistir com limites de contato e com consequências. A retomada de uma relação requer condições de verdade e segurança. E a responsabilidade por um cargo precisa considerar as qualificações bíblicas da aula 4 e a gravidade do dano causado. Por isso o perdão não torna automática a volta ao púlpito: conforme a situação, o afastamento pode ser prolongado ou definitivo, e a pessoa pode continuar recebendo cuidado espiritual sem voltar a ocupar a posição em que feriu outras.

Um líder que humilhou voluntários durante anos pede perdão diante da igreja, chora, e anuncia que “Deus já o restaurou” e que voltará ao ministério no domingo seguinte. Metade da igreja aplaude; a outra metade, que inclui as pessoas humilhadas, fica em silêncio. Aplique os cinco sinais acima ao pedido de perdão. Qual das quatro questões (perdão, reconciliação, confiança, aptidão) o líder tentou resolver sozinho, e qual não cabe a ele resolver?

Gálatas 6; 1 João 4

A comunidade e o cuidado com quem foi ferido

A comunidade também tem a sua parte, e ela não se resume a perdoar. Canais de escuta, supervisão, prestação de contas e procedimentos imparciais são aplicações práticas do dever bíblico de cuidar, examinar os fatos e evitar favoritismo.

Canais de escuta acessíveis, supervisão efetiva, prestação de contas financeira e procedimentos imparciais reduzem a possibilidade de que o prestígio de alguém impeça a correção. Nada disso é burocracia estranha ao evangelho; é o que 1 Timóteo 5.19-21 pede (testemunhas, repreensão, imparcialidade) transformado em prática regular. Uma igreja que só cria o procedimento depois do escândalo chegou tarde para a primeira vítima.

Quanto às pessoas feridas, devem ser ouvidas sem pressão para se reconciliarem depressa ou para confrontarem sozinhas quem as intimidou. Conforme o caso, podem precisar de acompanhamento pastoral independente, isto é, de alguém que não dependa do acusado; de apoio psicológico; e de encaminhamento às autoridades competentes. O processo eclesiástico jamais deve servir para encobrir violência ou suspeita de crime, e a igreja não substitui a polícia nem o juiz nos casos que são deles.

1 Irmãos, se alguém for surpreendido em alguma falta, vocês, que são espirituais, restaurem essa pessoa com espírito de brandura. E que cada um tenha cuidado para que não seja também tentado.

2 Levem as cargas uns dos outros e, assim, estarão cumprindo a lei de Cristo.

3 Porque, se alguém julga ser alguma coisa, não sendo nada, engana a si mesmo.

Gálatas 6.1-3 · NAA

Que o pecado esteja presente em todos nós é razão para humildade no julgamento; não é razão para igualar a responsabilidade de quem abusou do poder à de quem sofreu o abuso. Em Gálatas 6.1, a restauração de quem caiu é feita “com espírito de brandura”, e com cuidado para que o restaurador não seja também tentado. Levar as cargas uns dos outros inclui a carga de quem foi ferido, que costuma ser a mais pesada e a menos vista. É isso que permite unir compaixão, verdade e responsabilidade.

E João lembra o teste final de toda religiosidade: “Se alguém disser: Amo a Deus, mas odiar o seu irmão, esse é mentiroso. Pois quem não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1Jo 4.20). O amor a Deus se torna visível na maneira como tratamos aqueles que ele nos confiou. O narcisismo religioso fala muito de Deus e trata mal o irmão; a resposta da graça é o contrário, e ela se vê.

O que a igreja deve a quem feriu

Verdade sem humilhação, restauração com brandura, supervisão, cuidado espiritual contínuo, e a honestidade de dizer que cargo e perdão são coisas distintas.

O que a igreja deve a quem foi ferido

Escuta protegida, apuração imparcial, tempo, acompanhamento independente, apoio profissional quando necessário, e nunca a pressão de reconciliar-se depressa ou de calar.

Para terminar

O que o curso pede

O estudo bíblico produz o seu fruto quando as perguntas chegam a decisões reais: uma conversa sem intimidação, um erro reconhecido, uma prestação de contas aberta, uma pessoa ferida finalmente ouvida.

Antes de aplicar este curso a alguém, é preciso deixar que a Palavra examine as nossas próprias atitudes. O autoexame não substitui a proteção de quem sofre, mas impede que a denúncia do orgulho se transforme em mais uma ocasião de superioridade. Seis perguntas resumem o percurso até aqui:

1

O que acontece comigo quando não sou reconhecido, quando outro recebe o destaque que eu esperava ou quando alguém demonstra que eu estava errado?

2

Consigo ajudar sem registrar, aceitar que outra pessoa conte a história e celebrar um resultado sem destacar a minha participação?

3

Quem pode discordar de mim sem receio de perder amizade, espaço ou função?

4

O que acontece, na minha igreja e comigo, com quem adoece, se cansa ou deixa de render?

5

Como reajo quando alguém usa a Bíblia para me corrigir, e como uso a Bíblia quando preciso me defender?

6

Que mudança concreta devo assumir nesta semana para servir com mais liberdade e prestar contas com sinceridade?

Escrevo como pastor e como bispo, isto é, como alguém que exerce autoridade na igreja e que, por isso mesmo, precisa deste curso antes de qualquer outro leitor. Na tradição armínio-wesleyana em que me situo, a santidade nunca foi entendida como posição conquistada, mas como amor recebido de Deus e devolvido a ele e ao próximo; e o amor, como Paulo lembra, “não busca os seus interesses” (1Co 13.5). Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes (Tg 4.6): a graça é o começo e o fim deste curso.

Para usar em grupo. Reservem um encontro inteiro para esta aula. Leiam Marcos 10.35-45 e João 13.3-17, e, se o grupo aceitar, lavem os pés uns dos outros em silêncio. Depois leiam Romanos 3.23-28 e respondam por escrito às seis perguntas, sem partilhar. Encerrem com a oração acima, em voz alta, e com um compromisso concreto de cada um para a semana. Para grupos de liderança, acrescentem uma revisão honesta dos canais de escuta e de prestação de contas da igreja, com prazo para as mudanças.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Seis questões, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe.

0 de 6

Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Uma pergunta para dentro e outra para a conversa com quem pensa diferente. Cada uma traz uma resposta sugerida.

De que maneira a identidade de filho ou filha de Deus pode diminuir a minha dependência de títulos, posições e aplausos?Ver resposta sugerida

Comece pelo diagnóstico: faça a lista do que sustenta o seu senso de valor num dia comum. Se a lista tiver mais cargos, resultados e reconhecimentos do que a frase “sou filho de Deus”, você encontrou por que uma crítica dói tanto e por que um elogio ao outro incomoda.

Depois, leia Romanos 8.14-17 devagar, trocando “vocês” por “eu”: eu não recebi um espírito de escravidão; eu recebi o Espírito de adoção; eu sou herdeiro. Jesus lavou os pés sabendo quem era e de onde vinha. É essa segurança que permite servir sem medo de perder valor e reconhecer o valor do outro sem sentir isso como perda.

Por fim, escolha um título ou uma posição que você teria dificuldade de perder, e imagine-se sem ele por um ano. O que restaria? Se a resposta for “um filho de Deus”, você está livre. Se não for, o curso ainda tem trabalho a fazer em você, como tem em mim.

Um irmão diz que exigir o afastamento de um líder arrependido é falta de perdão e “não é cristão”. Como responder com mansidão?Ver resposta sugerida

Comece afirmando o perdão com toda a força: o evangelho perdoa todo pecado confessado (1Jo 1.9), e ninguém está sendo condenado ao inferno por ter sido afastado de um cargo. A aula pede restauração com brandura (Gl 6.1) e cuidado espiritual contínuo para quem feriu.

Depois, mostre que a Bíblia trata perdão e função como coisas distintas. Davi foi perdoado por Natã no mesmo dia (“também o Senhor perdoou o seu pecado”, 2Sm 12.13) e, ainda assim, colheu consequências pelo resto da vida. As qualificações de 1 Timóteo 3 e Tito 1 não são suspensas por um pedido de perdão; “irrepreensível” e “bom testemunho dos de fora” são condições para o cargo, não para o perdão. E Zaqueu mostrou que o arrependimento verdadeiro aceita reparar, não exige recompensa.

Por fim, faça a pergunta que costuma resolver: para quem é o cargo? Se o cargo existe para o bem do rebanho (Ez 34; 1Pe 5), então a decisão sobre ele precisa perguntar primeiro pelo rebanho, e em especial por quem foi ferido. Perdoar é dever de todos; devolver o púlpito é decisão da igreja, com tempo, supervisão e verdade.

Que mudança concreta devo assumir nesta semana para servir com mais liberdade e prestar contas com sinceridade? E que mudança a nossa comunidade deve assumir?Ver resposta sugerida

Para a mudança pessoal, escolha uma só, pequena e verificável: um serviço em segredo, uma decisão apresentada com razões e aberta a objeções, uma visita a alguém que não rende nada, uma correção recebida sem responder no mesmo dia. Anote a data. Uma mudança que não pode ser verificada não é mudança; é intenção.

Para a comunidade, use o que o curso deixou pronto: as quatro perguntas da aula 3, a tabela das qualificações da aula 4 e o quadro de discernimento da aula 5. Proponha à liderança uma revisão honesta dos canais de escuta e de prestação de contas, por escrito e com prazo. Se a sua igreja já os tem, pergunte se os membros sabem que existem. Se não os tem, o primeiro passo é dizer isso em voz alta.

E encerre onde a aula encerra: com a oração. Nenhum procedimento substitui o coração examinado por Deus, e nenhum coração examinado dispensa o procedimento. Os dois juntos são a resposta da graça a um problema que a igreja conhece desde Diótrefes.

A autoridade como serviço e a resposta da graça · Aula 6 de 7 do curso Narcisismo religioso. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada. As citações de John Wesley levam ao trecho exato das obras publicadas neste site.