O arrependimento implica que uma medida de sabedoria divina é comunicada ao pecador e que ele, por meio dela, se torna sábio para a salvação; que a sua mente, os seus propósitos, as suas opiniões e as suas inclinações são mudados; e que, em consequência, há uma mudança total na sua conduta. Mal é preciso observar que, nesse estado, a pessoa sente uma profunda angústia de alma, porque pecou contra Deus, se tornou imprópria para o céu e expôs a sua alma ao inferno. Por isso o verdadeiro penitente tem aquela tristeza pela qual abandona o pecado, não só porque ele foi a ruína da sua própria alma, mas porque ofendeu a Deus.
Muitos, sem dúvida, sentiram repetidas vezes agudas fisgadas na consciência e procuraram acalmá-las com algumas breves súplicas como estas: “Senhor, tem misericórdia de mim! Senhor, perdoa-me e não me imputes este pecado, por amor de Cristo!”. Assim, da obra do arrependimento sabem pouco. Não deixaram que as dores da consciência se transformassem em verdadeiro arrependimento, isto é, numa convicção profunda do seu estado perdido e arruinado, tanto por natureza quanto pela prática. A convicção do pecado e a contrição pelo pecado tiveram apenas uma influência superficial no coração deles. O seu arrependimento não é uma obra profunda e radical. Não se deixaram conduzir pelas diversas salas da casa das imagens (Ez 8.12) [N. do T.: Clarke segue a King James, chambers of his imagery; a NAA traz “sala de imagens”] para descobrir as abominações escondidas que em toda parte foram erguidas contra a honra de Deus e a segurança da sua própria alma. Quando sentiram um pouco de dor por alguma ferida do pecado, trataram de curá-la superficialmente (Jr 6.14), e o seu arrependimento é daqueles de que eles mesmos teriam de se arrepender: foi parcial e ineficaz, e o seu fim o prova. Não correram, pelo excesso de tristeza pelo pecado, para tomar posse da esperança que lhes foi proposta (Hb 6.18), nem se recusaram a ser consolados até sentirem dita com poder ao seu coração aquela palavra: “Filho! Filha! Coragem, os seus pecados estão perdoados” (cf. Mt 9.2). Ninguém deve considerar que o seu arrependimento alcançou um fim salvador para a sua alma enquanto não sentir que “Deus, em Cristo, o perdoou” (Ef 4.32) e enquanto o Espírito de Deus não confirmar ao seu espírito que ele é filho de Deus (Rm 8.16). Como são poucos os que confessam com franqueza o próprio pecado! Não veem a sua culpa; estão sempre arranjando desculpas para os seus crimes. A força e a sutileza do tentador, a fraqueza natural da própria mente, as circunstâncias desfavoráveis em que se encontravam etc. são todas alegadas como desculpas para os seus pecados, e assim se fecha a possibilidade do arrependimento. Pois, enquanto alguém não assumir o seu pecado, enquanto não reconhecer que só ele é culpado, não pode ser humilhado e, por consequência, não pode ser salvo. Leitor, enquanto você não acusar a si mesmo, e só a si mesmo, e não sentir que só você é responsável por todas as suas iniquidades, não há esperança para a sua salvação.
Leitor, saiba que o verdadeiro arrependimento é uma obra, e não a obra de uma hora. Não é um pesar passageiro, mas uma convicção profunda e alarmante de que você é um espírito caído, quebrou as leis de Deus, está sob a sua maldição e corre perigo do fogo do inferno.
A tristeza profunda e esmagadora não depende apenas do grau da culpa real, mas antes do grau de luz celestial derramada na alma. O ser humano é um espírito caído; o seu interior é a própria maldade; na sua queda, perdeu a imagem de Deus. Que Deus brilhe dentro de um coração assim; que visite cada sala dessa casa das imagens; que traga tudo à luz da sua própria santidade e justiça. E, ainda que se suponha que não houve um único ato de transgressão, o que deve sentir quem assim viu, na única luz que poderia manifestá-la, a profunda depravação do seu coração! O pecado se mostrando indizivelmente pecaminoso, e o mandamento revelando o seu desvio e expondo toda a sua vileza! Quem vê o próprio interior na luz de Deus não precisará de transgressões acrescentadas para sentir compunção e arrependimento.
A confissão do pecado é essencial ao verdadeiro arrependimento. E, enquanto alguém não assumir toda a culpa, não pode sentir a necessidade absoluta que tem de lançar a sua alma sobre a misericórdia de Deus, para ser salvo.
O verdadeiro penitente não esconderá nada do seu estado. Ele vê e lamenta não só os atos de pecado que cometeu, mas a disposição que o levou a esses atos. Deplora não só a transgressão, mas “a inclinação da carne”, que “é inimizade contra Deus” (Rm 8.7). A luz que brilha na sua alma lhe mostra a própria fonte de onde procede a transgressão; ele vê a sua natureza caída, assim como a sua vida pecaminosa; pede perdão pelas suas transgressões e pede lavagem e purificação para a sua contaminação interior.
Se cada penitente estivesse tão pronto a jogar fora a sua justiça própria e os seus estorvos pecaminosos quanto o cego estava a jogar fora a sua capa (Mc 10.50), haveria menos demoras nas conversões do que há hoje, e todos os que foram convencidos do pecado teriam sido levados ao conhecimento da verdade.
Todo verdadeiro penitente admira a lei moral, anseia ardentemente por se conformar a ela e sente que nunca ficará satisfeito enquanto não acordar com essa semelhança divina (Sl 17.15). E odeia a si mesmo, porque sente que a quebrou e que as suas más paixões ainda estão em estado de hostilidade contra ela.
Há uma doutrina relativa à economia da Providência divina a que as pessoas dão pouca atenção: refiro-me à doutrina da restituição. Quando alguém fez mal ao seu próximo, embora Deus lhe perdoe o pecado mediante o arrependimento e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo, ele exige que faça restituição à pessoa prejudicada, se isso estiver ao seu alcance. Se não o fizer, Deus cuidará de cobrá-la no curso da sua Providência. Tal é o respeito que ele tem pelos ditames da Justiça infinita que nada desse tipo passará despercebido. Já ocorreram vários exemplos disso nesta história, e veremos ainda vários outros. [N. do T.: trecho tirado do Comentário de Clarke; “nesta história” se refere ao livro bíblico que ele comentava naquele ponto, que Dunn não identifica.] Ninguém deve esperar misericórdia da mão de Deus se, tendo prejudicado o seu próximo, se recusa a fazer restituição quando tem condições de fazê-la. Ainda que chorasse lágrimas de sangue, tanto a justiça quanto a misericórdia de Deus rejeitariam a sua oração, se ele não reparasse ao próximo o dano que lhe causou. Só a misericórdia de Deus, pelo sangue da cruz, pode perdoar a sua culpa; mas nenhum desonesto pode esperar isso, e é desonesto quem retém ilegalmente nas mãos a propriedade de outro. Ninguém deve adiar a sua salvação para algum tempo futuro. Se Deus fala hoje, é hoje que deve ser ouvido e obedecido. Adiar a reconciliação com Deus para algum momento futuro é a presunção mais censurável e destruidora. Supõe que Deus vai tolerar as nossas inclinações sensuais e fazer a sua misericórdia esperar por nós até que tenhamos consumado os nossos propósitos iníquos. Mostra que preferimos, ao menos por enquanto, o diabo a Cristo, o pecado à santidade e a terra ao céu. E podemos supor que Deus se deixará zombar assim? Podemos supor que seja compatível com a sua misericórdia estender o perdão a uma provocação tão abominável? Aquilo que a pessoa semear, isso também colherá. Quem semeia para a sua própria carne, da carne colherá corrupção (Gl 6.7-8). Leitor, horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo (Hb 10.31).
Como todos pecaram contra Deus, todos devem se humilhar diante daquele contra quem pecaram. Mas a humilhação não é expiação pelo pecado; por isso o arrependimento é insuficiente, se não for acompanhado da fé em nosso Senhor Jesus Cristo. O arrependimento dispõe e prepara a alma para a misericórdia que perdoa, mas nunca pode ser considerado uma compensação pelos atos de transgressão passados. Esse arrependimento e essa fé eram necessários à salvação tanto dos judeus quanto dos gentios, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus (Rm 3.23). Os judeus tinham de se arrepender, eles que haviam pecado tanto e por tanto tempo contra a luz e o conhecimento. Os gentios tinham de se arrepender, eles cuja vida escandalosa era uma vergonha para a humanidade. A fé em Jesus Cristo também era absolutamente necessária. Pois um judeu podia se arrepender, ficar triste pelo seu pecado e supor que, cumprindo devidamente os seus deveres religiosos e trazendo os sacrifícios apropriados, poderia ganhar o favor de Deus. Não, isso não basta: nada basta senão a fé em Jesus Cristo, como fim da lei e o grande e único Sacrifício substitutivo. Por isso ele lhes testemunhou a necessidade da fé nesse Messias. Os gentios podiam se arrepender da sua vida dissoluta, voltar-se para o verdadeiro Deus e renunciar a toda idolatria. Isso é bom, mas não é suficiente. Eles também pecaram, e a sua emenda presente e a sua fé não podem fazer expiação pelo que passou. Por isso também eles têm de crer no Senhor Jesus, que morreu pelos pecados deles e ressuscitou para a justificação deles (cf. Rm 4.25). [N. do T.: o trecho parece vir do comentário de Clarke a At 20.21; “ele lhes testemunhou” se refere ao apóstolo Paulo.]
Pecador arrependido! Você pecou contra Deus e contra a sua própria vida! O vingador do sangue está nos seus calcanhares (Nm 35.19). Jesus derramou o seu sangue por você; ele é o seu Intercessor diante do trono. Corra para ele! Tome posse da esperança da vida eterna que lhe é oferecida no evangelho! Não demore um só momento! Você nunca estará seguro enquanto não tiver a redenção no sangue dele! Deus o convida! Jesus estende as mãos para recebê-lo! Deus jurou que não quer a morte do pecador (cf. Ez 33.11); então ele não pode querer a sua morte. Tome o juramento de Deus, tome a sua promessa, dê crédito ao que ele falou e jurou! Tenha ânimo! Creia no Filho de Deus, e você não perecerá, mas terá a vida eterna (Jo 3.16)!
Se o pecado produziu sofrimento, é possível que o sofrimento destrua o pecado? Está na natureza de todos os efeitos depender das suas causas. Eles não têm ser nem operação senão o que recebem dessas causas, e, em relação a elas, são absolutamente passivos. A causa pode existir sem o efeito, mas o efeito não pode subsistir sem a causa. Agir contra a sua causa é impossível ao efeito, porque ele não tem ser nem operação independentes; por isso o ser ou o estado da causa nunca pode ser afetado por ele. Do mesmo modo, os sofrimentos, voluntários ou involuntários, não podem afetar o ser ou a natureza do pecado de que procedem. E, se pudéssemos por um momento admitir o absurdo de que eles poderiam expiar, corrigir ou destruir a causa que lhes deu origem, teríamos de conceber um efeito que depende inteiramente da sua causa para existir levantando-se contra essa causa, destruindo-a, e ainda assim continuando a ser efeito quando a sua causa já não existe! O sol, num determinado ângulo, ao brilhar contra uma pirâmide, projeta uma sombra conforme esse ângulo e a altura da pirâmide. A sombra, portanto, é o efeito da interceptação dos raios do sol pela massa da pirâmide. Pode alguém supor que essa sombra continuaria bem definida e visível, ainda que a pirâmide fosse aniquilada e o sol se apagasse? Não, pois o efeito pereceria necessariamente com a sua causa. Assim é com o pecado e o sofrimento: este brota daquele. O pecado não pode destruir o sofrimento, que é o seu efeito necessário; e o sofrimento não pode destruir o pecado, que é a sua causa produtora. Logo, a salvação pelo sofrimento é absurda, contraditória e impossível.
“Logo, para que é a lei?” (Gl 3.19). Que utilidade real ela pode ter na economia da salvação? Respondo: ela serve aos propósitos mais importantes. 1. A sua pureza e o seu rigor nos mostram a sua origem: ela veio de Deus. Todas as instituições religiosas meramente humanas, ainda que se pretendam vindas do céu, mostram a sua origem por exigências extravagantes em alguns casos e por concessões pecaminosas em outros. Na lei de Deus não aparece nada disso, e por isso a vemos como uma cópia da natureza divina. 2. Ela nos mostra a perfeição do estado original do ser humano. Pois, assim como essa lei era adequada ao seu estado, e a lei é santa e o mandamento é santo, justo e bom (Rm 7.12), assim também era a sua natureza. Ela é, portanto, um comentário daquelas palavras: “Deus fez o ser humano à sua imagem e conforme a sua semelhança”. 3. Ela serve para mostrar a natureza do pecado. O desvio real de uma linha torta só pode ser determinado quando se lhe encosta uma linha reta. Assim a queda do ser humano, e a profundidade dessa queda, são determinadas pela lei. 4. Ela serve para convencer o ser humano do pecado, da justiça e do juízo. Mostra-lhe o estado deplorável em que caiu e o grande perigo a que está exposto. 5. Ela serve de guardião (ou condutor das crianças à escola) para nos convencer da absoluta necessidade e do valor do evangelho. [N. do T.: Clarke explica o grego paidagogós de Gl 3.24, o escravo que levava as crianças à escola; a NAA traduz “guardião”.] Pois essa lei pura e moral tem de ser escrita no coração dos crentes, e os seus preceitos, na letra e no espírito, se tornam a regra da sua vida.
Pela lei vem o conhecimento do pecado. Pois como se podem determinar os desvios mais finos de uma linha reta sem a aplicação de uma régua reconhecidamente reta? Sem essa regra do que é reto, o pecado só pode ser conhecido de um modo geral. Os inúmeros desvios da retidão positiva só podem ser conhecidos pela aplicação dos justos estatutos de que a lei se compõe. E era necessário que essa lei fosse dada para que a verdadeira natureza do pecado fosse vista e para que as pessoas ficassem mais bem preparadas para receber o evangelho, descobrindo que essa lei só suscita a ira (Rm 4.15), isto é, anuncia castigo, já que todos pecaram. Ora, Deus ordenou sabiamente que, onde quer que o evangelho vá, a lei vá também, entrando em toda parte para que se veja o pecado aumentar (Rm 5.20) e para que as pessoas sejam levadas a desesperar da salvação por qualquer outro caminho, ou em quaisquer outros termos, que não os propostos no evangelho de Cristo. Assim o pecador se torna um verdadeiro penitente e, vendo a maldição da lei pairando sobre a sua alma, fica feliz em correr para o refúgio da esperança que lhe é proposta no evangelho.
A lei é apenas o meio de revelar essa inclinação pecaminosa, não de produzi-la. É como um raio claro de sol que, entrando num quarto, mostra milhões de partículas de pó que parecem dançar nele em todas as direções. Mas elas não foram trazidas pela luz; já estavam ali antes, só que não havia luz suficiente para torná-las visíveis. Assim a inclinação má já estava ali antes, mas não havia luz suficiente para descobri-la.
Um dos propósitos da lei era mostrar a natureza abominável e destruidora do pecado, além de ser uma regra de vida. Seria quase impossível alguém ter a noção correta do demérito do pecado, a ponto de produzir arrependimento, ou ver a natureza e a necessidade da morte de Cristo, se a lei não fosse aplicada à sua consciência pela luz do Espírito Santo. É só então que ele vê que é carnal, vendido à escravidão do pecado (Rm 7.14), e que a lei e o mandamento são santos, justos e bons. E observe-se que a lei não cumpriu esse fim apenas entre os judeus nos dias do apóstolo; ela é igualmente necessária aos gentios até hoje. Também não vemos verdadeiro arrependimento acontecer onde a lei moral não é pregada e aplicada. Os que pregam aos pecadores somente o evangelho, quando muito, curam superficialmente a ferida do meu povo (Jr 6.14). A lei, portanto, é o grande instrumento nas mãos de um ministro fiel para alarmar e despertar os pecadores. E ele pode mostrar com segurança que todo pecador que não correu para o refúgio da esperança oferecida pelo evangelho está debaixo da lei e, por consequência, debaixo da maldição. Pois também neste sentido “o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10.4).