A palavra “igreja” significa simplesmente “assembleia” ou “congregação”, e precisa de alguma outra palavra junto dela para determinar a sua natureza. Assim, a “igreja de Deus” é a congregação reunida por Deus e dedicada ao seu serviço. A “igreja de Cristo” é todo o conjunto dos cristãos, onde quer que se encontrem, porque, pela pregação do evangelho, são chamados para fora do espírito e das máximas do mundo, para viver segundo os preceitos da religião cristã. Essa às vezes é chamada de igreja “católica” ou “universal”, por ser constituída de todos os que professam o cristianismo no mundo, sejam de que seitas ou partidos forem; e daí o absurdo de aplicar o termo “católica”, que significa “universal”, àquela parte tão pequena dela que é a igreja de Roma. Nos tempos primitivos, antes que os cristãos tivessem edifícios fixos, eles adoravam em casas particulares: os que tinham sido convertidos a Deus se reuniam na casa de algum irmão na fé, mais conveniente e espaçosa que as outras. Daí “a igreja que se reúne na casa” de Áquila e Priscila (Rm 16.3,5; 1Co 16.19) e “a igreja que se reúne na casa” de Ninfa (Cl 4.15). Ora, como essas casas eram dedicadas ao culto a Deus, cada uma era chamada kuriou oikos, a “casa do Senhor”. Essa expressão, com o tempo, foi contraída em kurioik e kuriake, e daí vem o kirk dos nossos vizinhos do norte e o kirik dos nossos antepassados saxões, do qual, por corrupção, trocando o c duro saxão por ch, fizemos a palavra church, “igreja”. [N. do T.: Clarke explica a origem da palavra inglesa church; o português “igreja” vem do grego ekklesía, “assembleia”, pelo latim ecclesia. A derivação de church proposta por Clarke não é a aceita hoje, que a liga ao grego kyriakón, “do Senhor”.] Embora esse termo seja geralmente usado para significar o povo que adora num lugar determinado, nós o aplicamos também, por metonímia, tomando o continente pelo conteúdo, como se fazia originalmente, ao edifício que contém o povo que adora.
A igreja de Cristo era considerada um recinto fechado, um campo ou uma vinha bem cercada ou murada. Os que não eram membros dela eram considerados de fora, isto é, não estavam sob aquela proteção e defesa especiais que tinham os verdadeiros seguidores de Cristo. Isso depois se chamou “o cercado da igreja”, de palus, estaca; ou, como define o dr. Johnson, “um pedaço estreito de madeira, unido em cima e embaixo a uma travessa, para cercar terrenos”. Como ser cristão era essencial à salvação da alma, e estar na igreja de Cristo era essencial para ser cristão, concluiu-se que “não há salvação fora do cercado da igreja”. Ora, isso é verdade em todos os lugares onde as doutrinas do cristianismo são pregadas. Mas, quando um grupo de pessoas que professam o cristianismo, com o seu próprio modo de culto e o seu próprio credo, arroga para si, com exclusão de todos os outros, o título de “A igreja”, e então, com base numa máxima verdadeira em si mesma, mas entendida e aplicada falsamente por eles, afirma que, como eles são A igreja e não há outra igreja além deles, você tem de ser um deles, crer como eles creem e adorar como eles adoram, ou será infalivelmente condenado, quando isso se afirma, digo, todo homem que sente ter um espírito imortal é chamado a examinar as pretensões desses monopolistas espirituais. Ora, como a igreja de Cristo está edificada sobre o fundamento dos profetas e apóstolos, sendo o próprio Jesus Cristo a pedra angular (cf. Ef 2.20), as doutrinas dessa igreja cristã têm de ser buscadas nas Sagradas Escrituras. Quanto aos pais, aos concílios e às autoridades humanas de toda espécie, nesta questão são mais leves que a vaidade; só o Livro de Deus deve decidir. A igreja que tanto se apressou a condenar todas as outras e, pela sua autoridade autoproclamada, a fazer-se juíza do destino dos seres humanos, distribuindo as moradas da glória aos seus partidários e as habitações da miséria sem fim a todos os que estão fora do seu cercado anticristão e desumano, essa igreja, digo, foi confrontada com esse padrão e provada, pelas Escrituras, como caída da fé dos eleitos de Deus e terrível e perigosamente corrompida; e estar dentro do seu cercado seria, de todas as que professam o cristianismo, o meio mais provável de pôr em perigo a salvação final da alma. Mesmo assim, até nela se podem encontrar muitas pessoas sinceras e retas que, em espírito e na prática, pertencem à verdadeira igreja de Cristo. Pessoas assim se encontram em todas as confissões religiosas e em todo tipo de sociedade cristã.
Dessa gloriosa igreja, cada alma cristã é um resumo; pois, assim como Deus habita na igreja em geral, habita em cada crente em particular: cada um é morada de Deus no Espírito (cf. Ef 2.22). São vãs todas as pretensões de seitas e partidos ao privilégio de ser a igreja de Cristo se não têm a doutrina e a vida de Cristo. As tradições e as lendas não são doutrinas apostólicas, e as cerimônias vistosas não são a vida de Deus na alma humana.
A religião não precisa de enfeites nem de adornos humanos; ela brilha pela sua própria luz e resplandece com a sua própria glória. Onde ela não está em vida e poder, as pessoas procuraram produzir uma imagem enganosa, vestida e enfeitada pelas suas próprias mãos. Nela Deus nunca soprou; por isso ela não pode fazer bem algum ao ser humano e só engana os ignorantes e crédulos com uma vã exibição de pompa e esplendor sem vida. Esse fantasma, chamado “verdadeira religião” e “a igreja” pelos seus devotos, no céu se chama “vã superstição”: o símbolo mudo de uma piedade que já morreu.
O governo da igreja de Cristo é muito diferente dos governos seculares. Está fundado na humildade e no amor fraterno; deriva de Cristo, a grande Cabeça da igreja, e é sempre conduzido pelas suas máximas e pelo seu Espírito. Quando questões políticas são trazidas para dentro da igreja de Cristo, as duas coisas se arruínam. A igreja mais de uma vez arruinou o Estado; o Estado muitas vezes corrompeu a igreja. É certamente do interesse de ambos que se mantenham separados. Isso já foi abundantemente exemplificado nos dois casos, e continuará a ser, no mundo inteiro, onde quer que igreja e Estado se unam em assuntos seculares.
“Os principais sacerdotes […] ficaram indignados” (Mt 21.15), ou “ficaram enfurecidos”. Enfurecidos com quê? Com a purificação do templo profanado! Era uma obra que eles mesmos deveriam ter feito, mas para a qual não tinham nem graça nem influência; e o seu orgulho e a sua inveja não lhes permitem deixar que outros a façam. Por estranho que pareça, o próprio sacerdócio, em todos os tempos de corrupção, sempre foi o mais apressado em impedir uma reforma na igreja. Seria porque tinham consciência de que um reformador os acharia não melhores que cambistas e profanadores da casa de Deus, e de que eles e o seu sistema teriam de ser derrubados se o verdadeiro culto a Deus fosse restaurado? Que aquele a quem isso diz respeito responda à sua consciência.
Nenhum braço secular, nenhuma prudência humana, nenhuma política terrena, nenhuma ação judicial jamais será usada para fundar, estender e preservar a minha igreja. Mas o espírito do mundo diz: “Esses são todos meios a que temos de recorrer; do contrário, a causa de Deus pode se arruinar”. Satanás, você mente!
Como é estranho que pessoas que professam o cristianismo possam supor que, com um espírito mundano, companhias mundanas e uma vida governada por máximas mundanas, possam estar no favor de Deus ou chegar algum dia ao Reino dos Céus! Quando o mundo entra na igreja, a igreja se torna um sepulcro pintado de branco (cf. Mt 23.27); a sua vitalidade espiritual se extingue.
Creio que Deus nunca quis que a sua igreja tivesse o governo civil do mundo. A sua igreja, como o seu Fundador e Cabeça, nunca será governante e repartidor entre os homens (cf. Lc 12.14). Os que, a pretexto de santidade superior, pretendem isso não são de Deus. A verdade de Deus não está neles; estão inchados de orgulho e caem na condenação do diabo. “Ai dos que moram na terra” (Ap 8.13) quando a igreja tomar nas mãos o governo civil do mundo! Se fosse possível que Deus confiasse o governo civil aos religiosos, logo viria a anarquia; porque cada crente professo em Cristo se consideraria igual a qualquer outro e a todos os outros crentes. O direito de governar e a necessidade de obedecer se perderiam imediatamente, e cada um faria o que achasse mais certo (cf. Jz 21.25). Pois, onde a graça de Deus torna todos iguais, quem pode ter a presunção de dizer: “Tenho autoridade divina para governar os meus semelhantes”? A igreja de Roma reivindicou esse direito, e o papa, em consequência, se tornou um príncipe secular. Mas as nações do mundo viram a vaidade e a iniquidade dessa pretensão e recusaram obediência. Aqueles a quem ela governou, governou com força e crueldade; e esse jugo odioso agora foi lançado fora em toda parte. Certos fanáticos e hipócritas, que não eram daquela igreja, também tentaram estabelecer uma quinta monarquia, um governo civil dos santos! E santos diabólicos eles eram. A tais pretendentes Deus não dá nem aprovação nem apoio. [N. do T.: referência aos “Homens da Quinta Monarquia”, movimento radical da Inglaterra do século XVII que pretendia instaurar o governo dos santos.] Deus sempre manterá distintos o governo secular e o espiritual. E a igreja não terá outro poder senão o de fazer o bem, e isso apenas na proporção da sua santidade, da sua mente voltada para o céu e da sua piedade para com Deus.