A muitos Deus dá filhos no lugar de bens temporais. A muitos outros dá casas, terras e milhares em ouro e prata, e com eles o ventre que não concebe; e essa é a herança deles. O pobre recebe de Deus vários filhos, sem terras nem dinheiro, e essa é a sua herança; e Deus se mostra Pai deles, alimentando-os e sustentando-os por uma cadeia de providências miraculosas. Onde está o pobre que daria os seus seis filhos, com a perspectiva de ter mais, pelos milhares ou milhões daquele que é o centro da própria existência e não tem nem raiz nem ramo, senão o seu eu solitário e desamparado na face da terra? Que a família numerosa, por mais pobre que seja, ponha isto no coração: “Herança do Senhor são os filhos; o fruto do ventre, seu galardão” (Sl 127.3). E aquele que os deu os alimentará; porque é um fato, e a máxima formada sobre ele nunca falhou: “Onde Deus manda bocas, manda comida”. “Não murmure”, disse um árabe ao seu amigo, “porque a sua família é grande; saiba que é por causa deles que Deus o alimenta.”
A educação é geralmente definida como “aquela série de meios pela qual o entendimento humano é gradualmente iluminado, e as disposições do coração são corrigidas, formadas e desenvolvidas, entre a primeira infância e o período em que o jovem é considerado apto para tomar parte na vida ativa”. Nações inteiras foram corrompidas, enfraquecidas e destruídas pela falta de educação apropriada. Por causa dessa falta, multidões de famílias degeneraram, e um número incontável de indivíduos teve um fim prematuro. Os pais que negligenciam isso negligenciam os interesses presentes e eternos dos seus filhos.
O espírito de investigação é comum a toda criança. O coração humano anseia sempre por conhecimento e, se não for bem dirigido na juventude, irá, como o da nossa primeira mãe, se extraviar atrás de uma ciência proibida. Se queremos que os nossos filhos sejam felizes, devemos mostrar-lhes onde a felicidade se encontra. Se queremos que sejam sábios, devemos conduzi-los a Deus por meio da sua palavra e das suas ordenanças. É natural que a criança pergunte: “O que vocês querem dizer com esse batismo? Com esse sacramento? Com orar? Com cantar salmos e hinos?” etc. E que belas oportunidades essas perguntas dão a pais piedosos e inteligentes para instruir os filhos em cada artigo da fé cristã e em cada fato sobre o qual esses artigos se fundam! Ó, por que se negligencia isso, quando o mandamento de Deus está diante dos nossos olhos e a importância da medida é tão notavelmente evidente?
Deve-se ensinar à criança o que é necessário que ela saiba, assim que essa necessidade existe e a criança é capaz de aprender. Entre as crianças há grande disparidade de inteligência e de capacidade de apreensão e compreensão. Muitas crianças têm tal precocidade de inteligência que são mais capazes de aprender a ler aos dois anos do que outras aos cinco; e seria grande injustiça impedi-las de adquirir muito conhecimento útil, e algumas centenas, se não milhares, de ideias, esperando um prazo fixo de “cinco” anos. Quando a criança é capaz de aprender alguma coisa, ensine-a; mas que o ensino seja graduado com regularidade; que avance passo a passo, nunca obrigando a criança a aprender o que ainda não pode compreender. Começamos muito apropriadamente pelas letras, os sinais elementares da linguagem; ensinamos a criança a distingui-las umas das outras e lhe damos, nos seus nomes, alguma noção do seu valor. Depois lhe ensinamos a combiná-las em sílabas simples; as sílabas em palavras; as palavras em frases; as frases em falas, ou discurso ordenado. Esse processo é tão filosófico quanto natural. Mas quem o segue pelos passos sucessivos da educação? Quase ninguém. Porque a criança entende um pouco e mostra aptidão para aprender, o carinho dos pais, ou a ignorância do professor, entra em ação com força, e a criança é empurrada de modo antinatural para ramos do saber a que não foi gradualmente introduzida. A mente fica confusa e desnorteada; deixa-se para trás um grande abismo que corta toda ligação entre o que já foi aprendido e o que agora se propõe ao entendimento; e o resultado é que a criança fica confundida e desanimada, e ou cai no embotamento ou aprende superficialmente e nunca se torna um estudante seguro. A criança tem de entender o que está fazendo antes de poder fazer o que deve.
“Jovem santo, velho diabo” era uma máxima de tão inexplicável prevalência antigamente que até os pais tinham medo de revelar qualquer tendência à piedade precoce nos filhos, para que o provérbio não se cumprisse neles. E conheci alguns que, nos seus tenros anos, temiam profundamente a Deus e tinham medo de incentivar tais sentimentos celestiais, para que não fossem o prelúdio da sua perdição eterna! Por esse mesmo motivo, a piedade para com Deus raramente era cultivada na mente infantil, e tanto os pais quanto os professores achavam melhor instruir as crianças nos seus deveres simples, sem mostrar a base sobre a qual deviam repousar nem a fonte de onde deviam brotar. Por isso, embora em geral lhes ensinassem o que Deus tinha feito pela sua alma, raramente, se é que alguma vez, lhes mostravam o que Deus tinha de fazer nelas para que fossem salvas para a vida eterna.
Não admira que a piedade infantil fosse antigamente muito rara, quando consideramos a influência desse provérbio diabólico, junto com a apatia geral dos pais, que ficavam contentes em omitir deveres que tinham pouca disposição de cumprir, com o receio de que a piedade precoce muito provavelmente degenerasse, na idade avançada, num grau mais que comum de devassidão ou irreligião.
Uma máxima muito prejudicial e destrutiva foi apresentada recentemente por alguns indivíduos, que se espera seja rejeitada pela classe de cristãos a que eles pertencem, embora os seus autores queiram ser tidos por cristãos, e cristãos racionais ainda por cima. A essência da máxima é esta: “Não se deve ensinar religião às crianças, para não inclinar a sua mente a algum credo em particular; mas elas devem ser deixadas a si mesmas até serem capazes de fazer uma escolha, e decidirem fazê-la”. Essa máxima está em oposição direta ao mandamento de Deus, e os que a ensinam mostram quão pouco são afetados pela religião que professam. Se a sentissem boa para alguma coisa, certamente desejariam que os filhos a possuíssem; mas não ensinam religião aos filhos porque sentem que ela não tem utilidade para eles mesmos. Ora, a religião cristã devidamente aplicada salva a alma e enche o coração de amor a Deus e ao próximo, porque o amor de Deus é derramado no coração do verdadeiro crente pelo Espírito Santo que lhe foi dado (cf. Rm 5.5). Essas pessoas não têm tal amor, porque não têm a religião que o inspira; e a religião espúria que admite a máxima acima mencionada não é a religião de Deus e, por consequência, é melhor que não seja ensinada. Mas o que dizer daqueles pais que, possuindo uma fé melhor, negligenciam igualmente a instrução dos filhos nas coisas de Deus? São altamente culpados; e, se os seus filhos perecerem por negligência, o que é muito provável, que conta terrível terão de prestar no grande dia! PAIS, ouçam o que o Senhor lhes diz: vocês ensinarão diligentemente aos seus filhos que há um só Senhor, Jeová, Elohim, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e que eles devem amá-lo de todo o coração, de toda a alma e com toda a força (cf. Dt 6.4-7). E, como as crianças são desatentas, esquecidas e propensas a se deixar levar pelas coisas sensíveis, repitam e tornem a repetir a instrução e acrescentem linha sobre linha, preceito sobre preceito, um pouco aqui, um pouco ali (cf. Is 28.10), estudando com cuidado o tempo, o lugar e as circunstâncias, para que o trabalho de vocês não seja em vão. Mostrem a religião na sua beleza; despertem a atenção despertando o interesse; mostrem como ela é boa, útil, bendita, enobrecedora e gloriosa. Afiem essas coisas no coração deles até que se forme o fio mais cortante no desejo mais forte, até que possam dizer: “Quem tenho eu no céu além de ti? E quem poderia eu querer na terra além de ti?” (Sl 73.25).
Inicie a criança na entrada do seu caminho (cf. Pv 22.6). Quando ela chega à entrada do caminho da vida, sendo capaz de andar sozinha e de escolher, pare nessa entrada e comece uma série de instruções sobre como ela deve se conduzir em cada passo que der. Mostre-lhe os deveres, os perigos e as bênçãos do caminho; dê-lhe orientações sobre como cumprir os deveres, escapar dos perigos e assegurar as bênçãos que estão todas diante dela. Fixe-as na sua mente pela inculcação diária, até que a impressão se torne indelével. Depois leve-a à prática, por graus lentos e quase imperceptíveis, até que cada impressão indelével se torne um hábito fortemente enraizado. Peça sem cessar a bênção de Deus sobre todo esse ensino e essa disciplina, e então você terá obedecido à ordem do mais sábio dos homens. E não há probabilidade de que tais impressões sejam algum dia apagadas, nem de que tais hábitos sejam algum dia destruídos. [N. do T.: Clarke segue a interpretação de Pv 22.6 em que o verbo hebraico traduzido por “ensinar” significa “iniciar”.]
Ensine à criança que “o Senhor corrige a quem ama” (Hb 12.6). Ensine-lhe que Deus permite que as pessoas passem fome e necessidade para prová-las, se serão fiéis, e para lhes fazer bem no fim (cf. Dt 8.2-3,16). Ensine-lhe que quem suporta com paciência e mansidão as aflições da providência será aliviado e exaltado no devido tempo. Ensine-lhe que não é pecado morrer na pobreza e na aflição mais extremas, trazidas no curso da Providência divina; mas que qualquer tentativa de mudar a sua condição pelo roubo, pela velhacaria, pela trapaça e pela fraude será marcada com pesadas maldições do Todo-Poderoso e terminará necessariamente em perdição e ruína. Uma criança educada assim dificilmente se entregará a caminhos ilícitos.
Não sabemos de quanta instrução religiosa os nossos pequenos são capazes. Nada dessa espécie, dito corretamente e recomendado de modo adequado, se perde. A criança raramente esquece alguma coisa que despertou o seu interesse. Semeie a sua semente de manhã (Ec 11.6): fale-lhes com amor, instrua-as com afeto, encoraje-as com força, repreenda-as o menos possível e elogie-as o mais que puder. Fale-lhes de Jesus: como ele as ama, o que fez por elas, o que fará nelas e como as tornará eternamente felizes! Nenhuma história toca tanto o coração, de velhos ou de jovens, quanto a de Cristo crucificado. E, permitam-me acrescentar, não há história que Deus abençoe tanto quanto esta, porque não há outra coisa que seja, ou possa ser, o poder de Deus para a salvação (Rm 1.16). Ele foi entregue por causa das nossas transgressões, ressuscitou para a nossa justificação (cf. Rm 4.25) e vive sempre para interceder por nós (cf. Hb 7.25)! Como é indizível a sua misericórdia! Como é sem limites a sua graça!
Como são poderosos os efeitos de uma educação religiosa reforçada pelo exemplo piedoso! É um dos meios de graça especiais de Deus. Que alguém apenas faça justiça à sua família, criando-a no temor de Deus, e ele a coroará com a sua bênção. Quantos desculpam a devassidão da sua família, que muitas vezes se deve inteiramente à sua própria negligência, dizendo: “Ah, não podemos dar-lhes a graça!”. Não, não podem; mas podem dar-lhes os meios de graça. Esse é o trabalho de vocês; aquele é o do Senhor. Se, por negligência de vocês quanto ao ensino e ao exemplo, eles perecerem, que conta terrível terão de prestar ao Juiz dos vivos e dos mortos! Era opinião de um grande homem que, se viessem os piores tempos e faltassem tanto a magistratura quanto o ministério, ainda assim, se os pais fossem fiéis ao que lhes foi confiado, a religião pura seria transmitida à posteridade, tanto na sua forma quanto no seu poder.
Os hábitos adquiridos cedo não se arrancam facilmente, sobretudo os maus. Depois da influência e da graça do Espírito de Deus, vem a boa educação religiosa. Os pais devem ensinar os filhos a desprezar e detestar a esperteza baixa, a temer a mentira e a tremer diante de um juramento; e, para ter êxito, devem ilustrar os seus preceitos com o seu próprio exemplo regular e consciencioso.
Não admira que a grande massa das crianças seja tão perversa, quando tão poucas são postas sob o cuidado de Cristo por pais humildes, que oram e creem.
Se se seguisse uma linha de conduta apropriada na educação dos filhos, quão poucos filhos e filhas devassos, e quão poucos pais de coração partido, encontraríamos! A negligência da educação religiosa precoce, unida a uma contenção saudável e afetuosa, é a ruína de milhões. Muitos pais, para desculpar a sua indolência e a sua negligência criminosíssima, dizem: “Não podemos dar graça aos nossos filhos”. O que querem dizer com isso? Que Deus, e não eles, é o Autor das desordens e dos vícios dos seus filhos! Podem estremecer diante dessa imputação; mas, quando refletirem que não lhes deram preceitos corretos; que não os puseram sob uma contenção firme e afetuosa; que não lhes mostraram, pelo seu próprio espírito, disposição e conduta, como deviam regular os deles; quando ou o culto a Deus não foi estabelecido nas suas casas, ou permitiram que os filhos se ausentassem dele pelos pretextos mais insignificantes; quando todas essas coisas forem consideradas, descobrirão que, falando à maneira humana, teria sido um milagre muito extraordinário se os filhos preferissem um caminho que não viam os pais trilhar com consciência. Que os pais que continuam a se desculpar dizendo “não podemos dar graça aos nossos filhos” ponham a mão na consciência e digam se alguma vez souberam de um caso em que Deus negou a sua graça enquanto eles, em humilde submissão a ele, cumpriam o seu dever. O verdadeiro estado da questão é este: os pais não podem fazer a obra de Deus, e Deus não fará a deles. Mas, se usarem os meios e ensinarem a criança no caminho em que deve andar, Deus nunca negará a sua bênção.
Não é a ternura paterna, nem a autoridade paterna, tomadas separadamente, que podem produzir esse efeito benéfico. Um pai pode ser tão terno com os filhos quanto Eli, e os seus filhos serem filhos de Belial (cf. 1Sm 2.12; 3.13). Pode ser tão autoritário quanto o Grão-Turco, e os seus filhos o desprezarem e tramarem rebelião contra ele. Mas que a autoridade paterna seja temperada com afeto paterno, e que as rédeas da disciplina sejam seguradas com firmeza por essa mão poderosa mas afetuosa; e ali a vontade de Deus prosperará; ali ele ordenará a sua bênção e a vida para sempre (cf. Sl 133.3). Muitas boas famílias foram estragadas, e muitas arruinadas, pelo exercício separado desses dois princípios. O afeto paterno, quando sozinho, degenera infalivelmente em mimo tolo; e a autoridade paterna, quando sozinha, degenera muitas vezes em tirania brutal. O primeiro tipo de pais será amado sem ser respeitado; o segundo será temido sem respeito nem estima. No primeiro caso, a obediência não é exigida e, por isso, é sentida como desnecessária, já que ofensas de grande gravidade passam sem castigo nem repreensão. No segundo caso, a exigência rígida torna a obediência quase impossível, e a menor falta é muitas vezes punida com a tortura extrema, que, endurecendo a mente, torna o dever uma questão de perfeita indiferença. Pais, ponham essas coisas no coração: lembrem-se de Eli e dos seus filhos; lembrem-se do fim terrível de ambos! Ensinem os seus filhos a temer a Deus; usem uma disciplina saudável; sejam firmes; comecem a tempo; misturem severidade e misericórdia em toda a sua conduta; e orem com fervor a Deus para que apoie a sua disciplina piedosa com o poder e a graça do seu Espírito.
“Pais, não provoquem os seus filhos à ira” (Ef 6.4). Evitem toda severidade: ela fará mal à alma de vocês e nenhum bem a eles; ao contrário, se forem castigados com severidade ou crueldade, eles só ficarão endurecidos e desesperados nos seus pecados. Pais cruéis em geral têm filhos maus. Quem corrige os filhos segundo Deus e a razão sentirá cada golpe no próprio coração mais vivamente do que o filho o sente no corpo. Os pais são chamados a corrigir os filhos, não a puni-los. Os que os punem o fazem por um princípio de vingança; os que os corrigem o fazem por um princípio de cuidado afetuoso.
A sra. Wesley ensinava aos filhos, desde a mais tenra idade, o seu dever para com os pais. Teve pouca dificuldade em quebrar a vontade deles, ou reduzi-los à sujeição completa. Desde cedo eram trazidos, por meios racionais, a um jugo suave; eram perfeitamente obedientes aos pais e eram ensinados a esperar a decisão deles em tudo o que deviam ter e em tudo o que deviam fazer. Eram ensinados também a pedir a bênção sobre a comida, a comportar-se em silêncio no culto doméstico e a respeitar o dia de descanso. Nunca lhes era permitido dar ordens aos criados ou usar palavras de autoridade ao se dirigir a eles. A sra. Wesley mandava aos criados que não fizessem nada para nenhuma das crianças a não ser que pedissem com humildade e respeito; e as crianças eram devidamente informadas de que os criados tinham essa ordem. Esse é o fundamento, e de fato a essência, da boa educação. Crianças insolentes, atrevidas e desagradáveis se encontram em toda parte, porque se negligencia esse modo de criação simples, mas importante. “Molly, Robert, por favor, façam isto e aquilo” era a forma habitual de pedido, tanto dos filhos quanto das filhas; e, porque as crianças se comportavam assim com decência, os empregados da casa as respeitavam e amavam, eram estritamente atenciosos e sentiam como privilégio servi-las. Nunca lhes era permitido brigar entre si; quaisquer que fossem as diferenças, os pais eram os árbitros, e a sua decisão nunca era contestada. A consequência foi que havia poucos desentendimentos entre eles, e nenhuma paixão vingativa ou pouco fraterna; e tinham a fama geral de ser a família mais amorosa do condado de Lincoln! Quanto mal pode ser evitado, e quanto bem pode ser feito, por uma condução judiciosa da educação dos filhos! A sra. Wesley nunca se considerou dispensada do cuidado dos filhos. Acompanhava-os em todas as situações com as suas orações e os seus conselhos; e os seus filhos, mesmo quando estavam na universidade, experimentaram a utilidade das suas instruções sábias e maternas. Apresentavam-lhe todas as suas dúvidas e a consultavam em todas as dificuldades. [N. do T.: Susanna Wesley (1669-1742), mãe de John e Charles Wesley; a família morava em Epworth, no condado de Lincoln.]
Considero quase totalmente perdido o tempo gasto nos internatos ensinando às moças música, desenho, pintura e dança. A razão e as necessidades do caso, se fossem consultadas, determinariam que se ensinassem às moças coisas que as habilitassem para a vida social e doméstica. Mas isso está tão longe de acontecer que, quando se casam, em geral se descobrem inteiramente ignorantes dos vários deveres que lhes cabem. Por isso as expectativas do marido são frustradas: ele descobre, para sua tristeza, que a moça fina e bem-educada sabe tocar cravo, fazer uma reverência, esboçar uma paisagem ou pintar uma rosa melhor do que se comportar como esposa e mãe ou conduzir com discrição os assuntos da casa. Todas essas coisas, portanto, devem ser consideradas outras tantas conformidades inúteis com o mundo, que não podem trazer nenhuma vantagem nos aspectos e nas relações mais importantes da vida.
Para a maioria das pessoas é mais fácil andar com coração perfeito na igreja, ou mesmo no mundo, do que na própria família. Quantos são mansos como cordeiros entre os outros e, em casa, são vespas ou tigres! Quem, no meio das provocações da família, mantém um caráter cristão, sendo manso, brando e paciente com a esposa, os filhos e os empregados, tem um coração perfeito e manifesta em todas as coisas a beleza da doutrina de Deus, seu Salvador (cf. Tt 2.10).
Como pode esperar a bênção de Deus a família em que o culto a Deus não é realizado diariamente? Não admira que os seus empregados sejam perversos, os seus filhos devassos e os seus bens amaldiçoados. Que acerto de contas terrível terão com o Juiz, no grande dia, os chefes de família que se recusaram a pedir aquela misericórdia que poderiam ter tido só por pedir!
Como são ruinosas as discórdias de família! Uma casa dividida contra si mesma não pode subsistir (cf. Mc 3.25). Os pais devem tomar muito cuidado para que a sua própria conduta não seja a primeira e mais poderosa causa dessas discórdias, despertando inveja em alguns dos filhos por uma parcialidade indevida em favor de outros. Mas é inútil falar disso à maioria dos pais. Eles cedem a preferências tolas até que, nas discórdias que dominam a família, encontram o castigo da sua imprudência, quando os lamentos são inúteis e o mal não tem mais remédio.
Em geral, talvez não seja bom que os pais contem aos filhos as suas falhas ou os seus vícios anteriores, pois isso poderia diminuir a sua autoridade ou o respeito por eles, e os filhos poderiam usar isso mal para atenuar os próprios pecados. Mas há certos casos, que pela natureza das circunstâncias podem ocorrer com frequência, em que um reconhecimento franco, com conselhos apropriados, pode impedir que os filhos repitam o mal. Mas isso deve ser feito com grande delicadeza e cautela, para que o próprio conselho não sirva de incentivo ao mal.
Soberano dos céus e da terra, olha para esta minha filha no aniversário do seu nascimento! Trago-a especialmente diante de ti. Enche-a da tua luz, da tua vida e do teu poder; e, assim como em ti ela vive, se move e existe (cf. At 17.28), que ela viva sempre para ti. Fortalece-a, ó Todo-Poderoso! Instrui-a e aconselha-a, ó Onisciente! Sê o seu apoio, o seu esteio, o seu escudo e o seu Senhor. Põe todos os seus inimigos debaixo dos seus pés; adorna-a de glória e honra; faze dela um exemplo para a sua família, um modelo de piedade para os seus amigos, um consolo para os pobres e uma mestra de sabedoria para os que são ignorantes e andam fora do caminho; e sobre toda a sua glória haja uma proteção que a preserve e a torne eficaz em todos os aspectos (cf. Is 4.5)! Que por ela o teu nome seja sempre glorificado; e que nela o Salvador adorabilíssimo veja sempre o fruto do trabalho da sua alma e fique satisfeito (cf. Is 53.11). Amém, amém! Assim seja! E que o coração dela ouça e sinta o teu Amém, que quer dizer: Assim será. Aleluia!
Ai dos pais que se esforçam, por amor ao ganho desonesto, para impedir que o filho atenda a um chamado para pregar Jesus aos seus compatriotas que perecem, ou aos pagãos, porque veem que a vida de um verdadeiro evangelista é uma vida de relativa pobreza, e preferem que ele ganhe dinheiro a que salve almas.
Como é estranha a cegueira de alguns pais, que os leva a desejar honrarias mundanas ou eclesiásticas para os filhos! Tem de ser muito amante da cruz quem deseja que o filho seja ministro do evangelho; porque, se ele for tal como Deus aprova para a obra, a sua vida será uma vida de trabalho e sofrimento; ele terá de provar, pelo menos, se não beber em grandes goles, o cálice de Cristo (cf. Mt 20.22). Não sabemos o que pedimos quando, ao colocar os nossos filhos na igreja, tomamos sobre nós a responsabilidade de responder pelo seu chamado ao ofício sagrado e pela salvação das almas postas sob o seu cuidado. Pais cegos! Antes deixem os seus filhos mendigar o pão do que empurrá-los para um ofício a que Deus não os chamou, e no qual não só arruinarão a própria alma, mas serão o meio de condenação de centenas. Porque, se Deus não os enviou, eles não trarão proveito algum ao povo (cf. Jr 23.32).
Podemos aprender facilmente, pela criança, o que será o homem. Em geral, as crianças dão indicações dos ofícios e das profissões para os quais são aptas por natureza. E, de modo geral, não podemos seguir guia mais seguro, ao preparar os nossos filhos para a vida futura, do que observar as suas inclinações precoces. O futuro engenheiro se vê no pequeno artesão de dois anos. Muitas crianças são contrariadas nessas inclinações precoces para um determinado ofício, com grande prejuízo para elas e perda para os pais, já que raramente se firmam ou prosperam no ofício a que são presas e para o qual a natureza não lhes deu nenhuma tendência. Essas predileções infantis por determinados ofícios devemos considerá-las indicações da Providência divina, que as chama à obra para a qual são especialmente aptas.
Não tenho grande opinião dos negócios poliglotas, embora seja admirador das Bíblias poliglotas. Químico, droguista, merceeiro e livreiro é coisa demais de uma vez. O químico, se bem entendido, é uma profissão de ciência e de prática suficiente para ocupar toda a vida de um homem. O químico é um estudioso pelo fogo, e os seus olhos devem estar sempre despertos para contemplar as operações da natureza e a síntese e a análise de substâncias infinitamente variadas, que exigem tal exatidão de observação e tal paciência de investigação, para descobrir todas as múltiplas atrações eletivas, duplas e simples, que exigiriam a atenção de uma mente de primeira ordem. Como droguista, ele deve entender a natureza e a ação químicas de todos os simples que entram na composição de toda a matéria médica, e o modo apropriado de aviar as receitas dos médicos. Quanto ao merceeiro, seja atacadista ou varejista, ele precisa não só do conhecimento dos produtos simples com que negocia, mas também de familiaridade com o estado das relações comerciais do seu próprio país e com as das nações com que mantemos comércio e tráfico, e cada uma dessas coisas exige conhecimento particular. Ora, quanto ao ofício de livreiro, é uma ciência, além de um comércio, de grande extensão e dificuldade. Quem o exerce deve ter conhecimento exato de todas as operações da tipografia, da composição dos papéis e das tintas, do espaçamento, da pontuação, do registro etc.; e, em suma, da bibliografia, sem a qual não pode dar uma descrição apropriada de um livro, nem será capaz de distinguir uma edição boa de uma má, uma genuína de uma espúria, nem de julgar os méritos das diferentes edições. Eu poderia dizer muito mais sobre todos esses assuntos, mas me contenho. Se, porém, “químico” quiser dizer só alguém que vende alguns produtos preparados pelos químicos, sem saber nada da ciência em si; “droguista”, o vendedor dos produtos usados pelos boticários e receitados pelos médicos aos pacientes, sem saber um til das suas propriedades medicinais, ou se servem, no caso (pro re nata), para matar ou para curar; “merceeiro”, o negociante de libras ou de vinténs de chá, açúcar, especiarias, passas, sabão, goma, anil etc. etc.; e “livreiro”, apenas um vendedor de cartilhas de leitura, geografias, histórias da Inglaterra e as lamúrias e baboseiras dos escritores sentimentais; então tudo isso pode ser negociado pela mesma pessoa e reunido na mesma loja, contanto que ela seja grande o bastante. Confesso que tenho grande respeito pelos ditados antigos, e entre eles me lembro de: “Faz-tudo, mestre de nada”; “Quem tem ferros demais no fogo deixa alguns esfriarem”.
Um casamento arranjado pela própria pessoa, quando guiado pela razão e pela religião, será necessariamente feliz. Quando os pais e as mães arranjam casamentos para os filhos, ditados por motivos não de afeto, mas apenas de conveniência, lucro mundano etc. etc., esses casamentos em geral são desgraçados: é Lia no lugar de Raquel (cf. Gn 29.25) até o fim da peregrinação da vida.
Se me perguntarem: “Devem os pais cristãos juntar dinheiro para os filhos?”, respondo: é dever de todo pai que puder juntar o necessário para pôr cada filho em condições de ganhar o seu pão. Se negligenciar isso, sem dúvida peca contra Deus e contra a natureza. “Mas não deve alguém juntar, além disso, uma fortuna para os filhos, se puder fazê-lo honestamente?” Respondo: sim, se não houver pobres ao seu alcance, nenhuma boa obra que ele possa ajudar, nenhuma região pagã da terra para onde possa contribuir para enviar o evangelho de Jesus; mas não de outro modo. Deus mostra, no curso da sua Providência, que esse juntar fortunas para os filhos não é correto; porque quase nunca há um caso em que se tenha juntado dinheiro para tornar os filhos independentes e cavalheiros em que Deus não tenha amaldiçoado a bênção. Esse dinheiro foi poupado à custa dos pobres, dos ignorantes, da causa de Deus; e a ferrugem do seu desagrado consumiu essa propriedade mal poupada.
Cristo ama as criancinhas porque ama a simplicidade e a inocência; santificou a própria idade delas passando por ela. O santo Jesus foi um dia uma criancinha.
Não há em todo o Livro de Deus nenhuma evidência de que alguma criança morra eternamente pelo pecado de Adão. Nada desse tipo se dá a entender na Bíblia. E, como Jesus tomou sobre si a natureza humana e se dignou nascer de uma mulher num estado de infância perfeitamente indefesa, ele santificou, por consequência, esse estado, e disse, sem limitação ou exceção: “Deixem que os pequeninos venham a mim; não os impeçam, porque dos tais é o Reino de Deus” (Mc 10.14). Podemos inferir com justiça, e toda a justiça, assim como a misericórdia da Divindade, sustenta essa inferência, que todos os seres humanos que morrem na infância são regenerados pela graça de Deus que traz salvação a todos (cf. Tt 2.11), e vão infalivelmente para o Reino dos Céus. Quem pode explicar a preservação e o sustento contínuos das criancinhas, expostas a tantos perigos, senão por uma Providência especial e extraordinária? A juventude é o tempo, e o único tempo, em que se pode adquirir o saber. Vejo que agora consigo lembrar muito pouco além do que aprendi quando era jovem. É verdade que adquiri muitas coisas depois, mas com grande trabalho e dificuldade, e vejo que não consigo retê-las como retenho as que adquiri na juventude. Se eu não tivesse obtido rudimentos e princípios no começo, certamente teria avançado pouco na vida.
Ouçam, filhos: Deus nos deu apenas dez mandamentos, essencialmente necessários à nossa felicidade na vida religiosa, civil e doméstica; e um dos dez fala da obediência aos pais e a recomenda com força (Êx 20.12). A natureza e o bom senso nos ensinam que há um grau de respeito afetuoso que se deve aos pais e que nenhuma outra pessoa pode reivindicar com propriedade. Durante um tempo considerável, os pais estão, de certo modo, no lugar de Deus para os filhos; e por isso a rebelião contra as suas ordens legítimas tem sido considerada rebelião contra Deus. Esse preceito, portanto, proíbe não só todos os atos ofensivos e as falas irreverentes e indelicadas para com os pais, mas exige todos os atos necessários de bondade, de respeito filial e de obediência.
Mal podemos supor que honra os pais quem, quando eles ficam fracos, cegos ou doentes, não se esforça ao máximo para sustentá-los. Nesses casos, Deus exige tão verdadeiramente que os filhos provejam aos pais quanto exigiu que os pais alimentassem, nutrissem, instruíssem, sustentassem e defendessem os filhos quando estavam no estado mais baixo de infância indefesa.
Todas as ordens razoáveis dos pais, os filhos devem obedecer pontualmente enquanto estiverem sob a sua autoridade. E, mesmo nos casos em que os pais não têm direito de ordenar (como nos assuntos de religião, que se referem só a Deus e à consciência, e na escolha do cônjuge para a vida, em que só as próprias partes estão interessadas, porque vão viver juntas a vida inteira), o seu conselho e a sua opinião devem ser buscados com respeito, já que a sua idade e a sua experiência muitas vezes os habilitam a falar oportunamente sobre esse assunto.
Há pouca razão para duvidar de que a morte prematura de muitos jovens foi consequência judicial da sua desobediência aos pais. A maioria dos que têm um fim prematuro é obrigada a confessar que isso, junto com a violação do dia de descanso, foram as principais causas da sua ruína. Leitor, você é culpado? Humilhe-se, então, diante de Deus e arrependa-se.
O dever dos filhos para com os pais só cessa quando os pais são postos na sepultura, e esse dever vem logo depois, em ordem e importância, do dever que temos para com Deus. Nenhuma circunstância pode alterar a sua natureza ou diminuir a sua importância. “Honre o seu pai e a sua mãe” é o mandamento soberano e eterno de Deus. Enquanto existirem as relações de pai e filho, esse mandamento estará em pleno vigor.
O afeto filial é um dos primeiros deveres que o ser humano tem na terra; só o seu dever para com Deus está acima dele. Não pode haver, aos olhos de um filho, representação mais próxima de um Cristo empobrecido do que um pai ou uma mãe na aflição. Nem a aprovação de Deus será expressa com mais força, no dia da retribuição final, do que àquele filho que honrou o Senhor com os seus bens (cf. Pv 3.9), suprindo as necessidades daqueles de quem, sob Deus, recebeu o seu ser. E os que socorreram as necessidades dos pais estarão no alto da lista daqueles de quem a Fonte da justiça e o Pai das misericórdias fala quando diz: “Tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; estava nu, e vocês me vestiram; enfermo e preso, e vocês me socorreram” (cf. Mt 25.35-36).
1. “A leitura das interessantes Memórias da Família Wesley, do Dr. Clarke, por todos os pais e filhos, tem a minha mais calorosa recomendação. S. D.” ↩