Capítulo XXVI

Anjos bons e maus

Páginas 379 a 387 da edição de 1835

Os anjos bons. A nossa palavra “anjo” vem do grego angelos, que significa literalmente “mensageiro” ou, como se traduzia em algumas das nossas Bíblias antigas, “portador de notícias”. Aplica-se indiferentemente a um agente ou mensageiro humano (2Sm 2.5), a um profeta (Ag 1.13), a um sacerdote (Ml 2.7) e aos espíritos celestiais (Sl 103.19-20,22; 104.4).

A doutrina do ministério dos anjos tem sido muito abusada, não só entre os pagãos, mas também entre judeus e cristãos, e sobretudo entre estes últimos. Anjos com nomes, títulos e influências fictícios foram e ainda são invocados e adorados por certa classe de pessoas, porque descobriram que aprouve a Deus empregá-los no serviço da humanidade; e por isso lhes dirigem súplicas para que estendam a sua proteção, para que os amparem, defendam, instruam etc. Isso é perfeitamente absurdo. 1. Eles são instrumentos de Deus, não agentes que se determinam a si mesmos. 2. Só podem fazer o que foram designados a cumprir, porque não há prova de que tenham poder algum de decidir por conta própria. 3. Deus ajuda o ser humano por dez mil meios e instrumentos: alguns intelectuais, como os anjos; alguns racionais, como os homens; alguns irracionais, como os animais; e alguns puramente materiais, como o sol, o vento, a chuva, o alimento, a roupa e os vários produtos da terra. Ele, portanto, ajuda por meio de quem quer ajudar, e só a ele pertence toda a glória; porque, se ele estivesse decidido a destruir, todos esses instrumentos juntos não poderiam salvar. Em vez de adorá-los, portanto, devemos seguir o próprio conselho deles: “Não faça isso! […] Adore a Deus!” (Ap 19.10).

Os espíritos maus podem tentar prejudicar você, mas não conseguirão. Os anjos de Deus terão uma ordem especial de acompanhar, defender e preservar você (cf. Sl 91.11), e contra o poder deles a influência dos espíritos maus não pode prevalecer. Quando for necessário, eles desviarão os seus passos do caminho do perigo; afastarão o perigo quando ele aparecer no seu caminho comum; sugerirão à sua mente conselhos prudentes, planos proveitosos e propósitos piedosos; e assim servirão a você como filho de Deus e herdeiro da salvação.

Antes da ascensão do nosso Senhor ao céu, esses seres santos podiam ter pouco conhecimento da necessidade, das razões e da economia da salvação humana, e da natureza de Cristo como Deus e homem. São Pedro nos informa que os anjos desejam contemplar essas coisas (1Pe 1.12). E São Paulo diz o mesmo (Ef 3.9-10), ao falar da revelação do plano evangélico da salvação, que ele chama de “o mistério que, durante tempos passados, esteve oculto em Deus”, e que agora foi publicado “para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida dos principados e das potestades nas regiões celestiais”. Até esses seres angélicos receberam um acréscimo à sua bem-aventurança, por um aumento de conhecimento nas coisas que dizem respeito a Jesus Cristo e a todo o plano da salvação humana, por meio da sua encarnação, paixão, morte, ressurreição, ascensão e glorificação.

Os anjos maus. Muitos demônios são mencionados nas Escrituras, mas a palavra Satanás, ou Diabo, nunca se encontra no plural nos originais do Antigo e do Novo Testamento. Daí inferimos com razão que todos os espíritos maus estão sob o governo de um só chefe, o diabo, que é mais poderoso e mais perverso que os demais. Do grego diabolos vêm o latim diabolus, o espanhol diablo, o francês diable, o italiano diavolo, o alemão teuffel, o holandês duivel, o anglo-saxão deovle e o inglês devil, que alguns gostariam de derivar de the evil, “o mal”: o maligno, ou o perverso.

Notei, entre os habitantes simples e honestos dos condados de Antrim e Londonderry, na Irlanda, que o nome comum do diabo ou de Satanás era “o pesar” (the sorrow). É um bom sentido da palavra original: “o perverso, o maligno, o pesar”; aquele que é infeliz em si mesmo e cujo objetivo é tornar todos os outros infelizes também.

Está agora na moda negar a existência desse espírito mau; e isso é uma das que São João chama de “as coisas profundas de Satanás” (Ap 2.24). Pois ele sabe muito bem que os que negam a sua existência não terão medo do seu poder e da sua influência; não vigiarão contra as suas ciladas e artimanhas; não orarão a Deus pedindo livramento do maligno; não esperarão vê-lo pisado debaixo dos seus pés, já que ele não existe; e, consequentemente, se tornarão presa fácil e sem resistência do inimigo da sua alma. Levando as pessoas a não crer na sua existência e a negá-la, ele as faz baixar a guarda, e então é o seu senhor absoluto, e elas são levadas cativas por ele para fazer o que ele quer. É bem sabido que, entre todos os que fazem alguma profissão de religião, os que negam a existência do diabo são os que oram pouco ou nada, e parecem tão despreocupados com a existência de Deus quanto com a existência de um diabo. Para eles, a piedade para com Deus está fora de questão; porque os que não oram, especialmente em particular (e nunca encontrei um negador do diabo que orasse), não têm religião de espécie alguma, sejam quais forem as pretensões que resolvam ter.

Os que negam a existência de Satanás são em geral homens de caráter perdido e de situação arruinada; e, como não querem ouvir a voz da razão nem os Oráculos Sagrados, têm de ser deixados entregues ao próprio desespero.

Porque as pessoas não conseguem ver tão longe quanto o Espírito de Deus, negam o seu testemunho. “Não havia diabo; não pode haver nenhum.” Por quê? “Porque nunca vimos nenhum e achamos a doutrina absurda.” Excelente razão! E vocês acham que alguém que crê conscienciosamente na sua Bíblia lhes dará algum crédito? Homens enviados por Deus para dar testemunho da verdade nos dizem que havia endemoninhados no seu tempo; vocês dizem: “Não; eram apenas doenças”. Em quem vamos acreditar: nos homens enviados por Deus ou em vocês?

A doutrina da influência demoníaca é falsa? Se é, Jesus tomou o caminho mais direto para perpetuar a crença nessa falsidade, acomodando-se tão completamente ao povo enganado. Mas isso era impossível; logo, a doutrina da influência demoníaca é verdadeira, do contrário Cristo nunca lhe teria dado o menor apoio ou aprovação.

Deus muitas vezes permitiu que os demônios agissem sobre os corpos de homens e mulheres e dentro deles; e não é improvável que a maior parte das doenças inexplicáveis e sem causa conhecida ainda venha da mesma fonte.

Satanás esteve um dia na verdade, na justiça e na verdadeira santidade; e caiu dessa verdade no pecado e na falsidade, de modo que se tornou o pai da mentira e o primeiro assassino (cf. Jo 8.44).

Deus, na sua infinita misericórdia, pôs inimizade entre os seres humanos e Satanás (cf. Gn 3.15); de modo que, embora toda a humanidade ame o seu serviço, todos invariavelmente o odeiam a ele. Se fosse de outro modo, quem poderia ser salvo? Um grande passo para a conversão de um pecador é convencê-lo de que é a Satanás que ele tem servido; de que é a ele que tem entregado a sua alma, o seu corpo, os seus bens etc. Ele se sobressalta de horror quando essa convicção se fixa na sua mente e estremece ao pensar que está aliado ao velho assassino.

Muito raramente Deus permite que Satanás destrua os bens ou aflija o corpo de alguém; mas em todo tempo esse espírito malévolo pode ter acesso à mente de qualquer pessoa e nela injetar dúvidas, medos, desconfiança, perplexidades e até incredulidade. E aqui está o conflito espiritual. A luta desses não é contra a carne e o sangue, contra homens como eles, nem sobre assuntos seculares; mas eles têm de combater contra anjos, principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso e contra as forças espirituais do mal nas regiões celestiais (cf. Ef 6.12). Em tais casos, muitas vezes se permite que Satanás espalhe trevas no entendimento e envolva os céus em nuvens. Daí se geram ideias falsas sobre Deus e a sua providência, sobre os homens e o mundo espiritual, e particularmente sobre o estado e as circunstâncias da própria pessoa. Tudo fica distorcido, e tudo é visto através de um meio falso. Com isso se produzem distrações e inquietações indescritíveis. A mente é como um mar agitado, sacudido por uma tempestade que parece confundir o céu e a terra. Injetam-se tentações fortes para coisas que a alma contempla com aversão, e elas são seguidas de acusações imediatas, como se as sugestões fossem fruto do próprio coração; e a perturbação e o desânimo produzidos são apresentados como o sentimento de culpa de quem tem consciência de ter cometido esses males no coração. Assim Satanás tenta, acusa e repreende, para deixar a alma perplexa, induzir ao ceticismo e destruir o império da fé. Vejam aqui a permissão de Deus; e vejam também o seu controle soberano: durante todo esse tempo, o grande tentador não tem permissão de tocar no coração, sede das afeições, nem de fazer a mínima violência à vontade. A alma fica abatida, mas não destruída; perplexa, mas não desesperada (cf. 2Co 4.8-9). É atormentada por todos os lados: lutas por fora, temores por dentro (cf. 2Co 7.5); mas a vontade está inflexível do lado de Deus e da verdade, e o coração, com todo o seu cortejo de afeições e paixões, a segue. A pessoa não se afasta perversamente do seu Deus; as fortificações externas são violentamente atacadas, mas não tomadas; a cidade continua a salvo, e a cidadela, inexpugnável. O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã (cf. Sl 30.5). Vê-se Jesus andando sobre as águas. Ele fala paz aos ventos e ao mar, e imediatamente há bonança. Satanás é esmagado debaixo dos pés do que sofre (cf. Rm 16.20); as nuvens se dispersam; os céus reaparecem; e a alma, para sua surpresa, descobre que a tempestade, em vez de atrapalhá-la, a impeliu para mais perto do porto aonde devia chegar.

O método comum de Satanás na tentação é instigar fortemente ao pecado, cegar o entendimento e inflamar as paixões; e, quando consegue, triunfa com insultos e acusações. Ninguém está então mais pronto do que ele para dizer à pobre alma quão profunda, vergonhosa e ingratamente ela pecou! Leitor, tome cuidado!

Parte dos sofrimentos de Jó provavelmente veio de representações aterradoras feitas aos seus olhos ou à sua imaginação por Satanás e pelos seus agentes. Não acho isso nem irracional nem improvável. Que ele e os seus demônios têm poder para se manifestar em ocasiões especiais foi crido em todas as épocas do mundo, não só pelos fracos, crédulos e supersticiosos, mas também pelos mais sábios, mais eruditos e melhores dos homens. Estou persuadido de que muitas passagens do livro de Jó se referem a isso e admitem uma interpretação fácil com esse fundamento.

Satanás, que atua no coração dos filhos da desobediência (cf. Ef 2.2), se apodera da natureza corrompida do ser humano, produz maus motivos num mau coração, cega o entendimento, excita apetites desordenados, e daí más disposições, más palavras e ações ímpias.

Satanás anda sempre em derredor, “como leão que ruge procurando alguém para devorar” (1Pe 5.8); para conseguir o que quer, cega o entendimento dos pecadores, e então acha fácil derrubá-los no abismo da perdição.

Que desgraça e que mal devastador é um só pecador! Ele espalha desolação e morte por onde passa. Satanás o impele, e ele corre; ou, agindo de boa vontade junto com o tentador, é levado cativo por ele para fazer o que ele quer (cf. 2Tm 2.26). Por meio de um só homem perverso, Satanás pode fazer dez mil vezes mais mal do que pode fazer pessoalmente. Ele seduz o mundo (cf. Ap 12.9), rega a semente infernal e atua poderosamente no coração dos filhos da desobediência. Que desonra ser servo, e muito mais ser escravo, do diabo! Ó, por que os pecadores não levam isso a sério!

Satanás se aproveita do nosso temperamento natural, do nosso estado de saúde e das nossas circunstâncias exteriores para atormentar e arruinar a nossa alma.

Um espírito ímpio é o único lugar onde Satanás pode exercer plenamente a sua atuação e mostrar toda a plenitude do seu poder destruidor.

Nem o diabo nem os seus servos jamais dizem a verdade, a não ser quando esperam cumprir com ela algum mau propósito.

Satanás se faz senhor do coração, dos olhos e da língua do pecador. O coração, ele o enche do amor ao pecado; os olhos, ele os cega para que não veja a sua culpa e a perdição que o espera; e a língua, ele a impede de oração e súplica, embora lhe dê cada vez mais liberdade para blasfêmias, mentiras, calúnias etc. Ninguém senão Jesus pode resgatar desse triplo cativeiro.

Depois de semear a sua semente, Satanás desaparece. Se aparecesse como ele é, poucos acolheriam a solicitação para pecar; mas raramente é descoberto nos maus pensamentos.

Satanás tem um broto de iniquidade para cada broto de graça; e, quando Deus aviva a sua obra, Satanás aviva também a dele. Não é de admirar, portanto, que surjam de repente escândalos para desacreditar uma obra da graça onde Deus começou a derramar o seu Espírito.

É do interesse de Satanás introduzir hipócritas e pessoas perversas nas sociedades religiosas, para desacreditar a obra de Deus e favorecer os seus próprios planos.

Pelo pecado, as pessoas se tornaram a própria casa e morada de Satanás, tendo se entregado de livre vontade a esse possuidor injusto; porque quem entrega a sua alma ao pecado a entrega ao diabo. É Jesus, e só Jesus, quem pode livrar do poder dessa escravidão. Quando Satanás é expulso, Jesus purifica o coração e habita nele.

Já que um demônio não pode entrar nem mesmo num porco sem ser enviado pelo próprio Deus (cf. Mt 8.31-32), como é pouco de temer o poder ou a malícia de qualquer deles para os que têm a Deus como sua porção e proteção!

O próprio diabo tem as suas correntes; e quem muitas vezes prende os outros está sempre preso ele mesmo.

A pessoa tem de consentir no pecado antes de poder pecar. Deus constituiu a vontade humana de tal modo que ela não pode ser forçada. Satanás pode apresentar imagens falsas à imaginação, obscurecer a mente e confundir a memória; mas não pode forçar a vontade. Pode lisonjear, acalmar e prometer prazer para conquistar a vontade; mas, antes de poder nos arruinar, tem de ter o nosso consentimento. Se fosse de outro modo, não poderíamos de forma alguma ser salvos.

Nunca se permite que Satanás bloqueie o nosso caminho sem que a providência de Deus abra uma passagem no muro. Deus sempre abre uma brecha na fortificação dele, que de outro modo seria inexpugnável. Se uma alma reta se vir em dificuldades e apertos, pode ter certeza de que há um caminho de saída, como houve um de entrada, e de que a provação nunca será acima das forças que Deus lhe der para suportá-la (cf. 1Co 10.13).

O diabo não pode vencer vocês se continuarem a resistir. Por mais forte que seja, Deus nunca lhe permite vencer quem continua a resistir a ele. Ele não pode forçar a vontade humana. Quem, no nome tremendo de Jesus, se opõe até ao próprio diabo, tem certeza de uma vitória rápida e gloriosa. Ele foge desse nome e do seu sangue vitorioso.

Sejam vigilantes: acordem e permaneçam acordados; estejam sempre atentos; nunca baixem a guarda; os seus inimigos estão alertas e nunca baixam a deles. “O inimigo de vocês, o diabo”: eis uma razão por que vocês devem ser sóbrios e vigilantes: vocês têm de combater contra um inimigo sempre ativo, implacável e astuto. Ele “anda em derredor”: tem acesso a vocês em toda parte; conhece os seus sentimentos e as suas inclinações e se informa de todas as suas circunstâncias; só Deus pode saber mais e fazer mais do que ele, e por isso vocês devem lançar sobre Deus a sua ansiedade. “Como leão que ruge” (1Pe 5.8): Satanás tenta sob três formas: 1. Como a serpente astuta, para seduzir os nossos sentidos, perverter o nosso juízo e encantar a nossa imaginação. 2. Como anjo de luz (cf. 2Co 11.14), para nos atrair com ideias falsas sobre as coisas espirituais, com refinamentos na religião e com presunção diante da providência e da graça de Deus. 3. Como leão que ruge, para nos abater e destruir por meio de oposição violenta, perseguição e morte.

Que pensamento consolador é para os seguidores de Cristo que nem homens nem demônios podem agir contra eles senão com a permissão do seu Pai celestial; e que ele não permitirá que nenhum dos que confiam nele seja provado além do que pode suportar (cf. 1Co 10.13), e fará a provação resultar numa salvação maior para eles e na glória dele!

“Todo homem tem o seu preço” era a máxima de um grande estadista, sir Robert Walpole. “Mas o senhor não comprou fulano.” “Não, porque eu não quis chegar ao preço dele. Ele se avaliava em mais do que eu achava que valia, e eu podia conseguir outros mais baratos que, no conjunto, serviriam igualmente bem!” Sem dúvida sir Robert encontrou muitos desses; e o diabo, muitos mais. Mas Deus ainda tem multidões que não venderão a alma, a consciência nem a pátria por preço nenhum; que, ainda que Deus as matasse, continuariam a confiar nele (cf. Jó 13.15) e seriam pessoas honestas, por mais que fossem tentadas pelo diabo e pelos seus representantes. Assim fez Jó; assim fizeram milhares; assim farão todos aqueles em cujo coração Cristo habita pela fé (cf. Ef 3.17). [N. do T.: a alusão a Jó 13.15 segue a King James, Though he slay me, yet will I trust in him; a NAA traz “Eis que ele me matará, já não tenho esperança”.]

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Adam Clarke, Christian Theology, selecionada e organizada por Samuel Dunn (Londres, Thomas Tegg and Son, 1835), exemplar digitalizado pelo Google (Universidade de Illinois). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).