Capítulo XXV

Ministros e povo1

Páginas 324 a 378 da edição de 1835

O seu chamado não é simplesmente instruir as pessoas nas doutrinas e nos deveres do cristianismo, mas convertê-las do pecado para a santidade. Uma doutrina que não leva a efeito prático pode ter pouco valor, e os deveres do cristianismo serão pregados em vão a todos os que não têm o princípio da obediência.

É prerrogativa de Deus tanto chamar quanto habilitar alguém para ser pregador bem-sucedido da sua palavra. Nem todos são chamados assim. Entre os milhões que professam o cristianismo, pouquíssimos são empregados na obra do ministério pelo curso ordinário da Providência, e menos ainda por chamado especial. Todo avivamento da religião é prova da concessão de uma influência extraordinária, pois nesses derramamentos do Espírito de Deus sempre encontramos meios e instrumentos extraordinários.

Você está ou entre os mensageiros ordinários ou entre os extraordinários, e tem ou um chamado ordinário ou um extraordinário. Mas, como você não pertence, como ministro cristão, a nenhuma forma de religião oficialmente estabelecida no país, ou é um mensageiro extraordinário, ou não é ministro de modo algum; e ou tem um chamado extraordinário, ou não tem chamado nenhum. [N. do T.: o capítulo começa com trechos da Carta a um pregador de Clarke, dirigida a um pregador metodista; os metodistas não faziam parte da igreja oficial da Inglaterra.]

Considero isso um assunto de primeira importância, pois uma longa experiência me mostrou que aquele de nós que não está convencido de ter um chamado extraordinário para o ministério nunca buscará ajuda extraordinária, sucumbirá aos desânimos e às perseguições e, por consequência, longe de ser luz do mundo, será sal sem sabor (cf. Mt 5.13); e, na nossa Conexão, um servo preguiçoso (cf. Mt 25.26), se não mau, que deveria ser lançado fora do aprisco sagrado como um estorvo à herança do Senhor.

É prerrogativa de Deus chamar e ordenar os seus próprios ministros. Pode ser prerrogativa da igreja designar onde eles devem trabalhar, embora muitas vezes também isso venha por designação divina especial.

Jesus Cristo nunca fez apóstolo alguém que não tivesse sido primeiro seu aluno ou discípulo.

Quem não tem nada além de uma rede e a deixa para fazer bem à alma das pessoas deixa tudo o que tem.

Os que são realmente chamados por Deus ao ministério sagrado são pessoas que foram levadas a um conhecimento profundo de si mesmas, que sentem a própria ignorância e conhecem a própria fraqueza. Conhecem também a tremenda responsabilidade ligada à obra, e nada senão a autoridade de Deus pode levá-las a empreendê-la. Os que Deus nunca chamou correm, por causa da honra e do lucro mundanos; os outros ouvem o chamado com temor e tremor e só conseguem ir na força de Jeová.

Original Tradução
“How ready is the man to go, “Como está pronto a partir o homem
Whom God hath never sent! que Deus nunca enviou!
How tim’rous, diffident, and slow, Como é medroso, desconfiado e lento
God’s chosen instrument!” o instrumento que Deus escolheu!”

[N. do T.: versos de Charles Wesley nos Scripture Hymns (1762), hino 110, sobre Êx 4.10 (na King James, I am not eloquent).]

Ninguém deve ser nomeado para cargos eclesiásticos se não for capaz de exortar pelo reto ensino e de convencer os que contradizem (cf. Tt 1.9). As capacidades necessárias para isso são em parte naturais, em parte da graça e em parte adquiridas. 1. Se alguém não tem boas capacidades naturais, nada senão um milagre do céu pode fazer dele um pregador apropriado do evangelho; e fazer ministro cristão alguém que não está habilitado para nenhuma função da vida civil é sacrilégio diante de Deus. 2. Se a graça de Deus não comunicar as qualificações ministeriais, nenhum dom natural, por mais esplêndido que seja, terá valor algum. Para ser ministro cristão bem-sucedido, a pessoa tem de sentir o valor das almas imortais de um modo que só Deus pode mostrar, para gastar e deixar-se gastar na obra (cf. 2Co 12.15). Quem nunca passou pelas dores de parto da alma na obra da regeneração no próprio coração nunca poderá tornar claro aos outros o caminho da salvação. 3. Quem está empregado no ministério cristão deve cultivar a mente com a maior diligência; não pode aprender nem saber demais. Se for chamado por Deus para ser pregador (e, sem esse chamado, seria melhor ser escravo nas galés), será capaz de pôr todo o seu conhecimento a serviço do êxito do seu ministério. Se tiver saber humano, tanto melhor; e, se for credenciado e designado por aqueles que têm autoridade na igreja, isso será em seu favor. Mas nenhum saber humano, nenhuma nomeação eclesiástica, nenhum modo de ordenação, seja papista, episcopal, protestante ou presbiteriano, pode jamais suprir a unção divina, sem a qual ele nunca pode converter e edificar a alma das pessoas. A piedade do rebanho tem de ser fraca e lânguida quando não é animada pelo zelo celestial do pastor; o rebanho tem de ser cego se ele não for iluminado; e a sua fé tem de ser vacilante quando ele não pode nem encorajá-la nem defendê-la.

Ó vocês, governantes da igreja! Tomem cuidado, como terão de responder a Deus, de nunca impor as mãos sobre a cabeça de alguém que vocês não tenham justa razão para crer que Deus chamou para a obra, e cujo olhar é simples e cujo coração é puro. Que ninguém seja enviado a ensinar o cristianismo sem ter experimentado que ele é o poder de Deus para a salvação da sua própria alma. Se fizerem isso, embora tenham a autoridade de vocês, eles nunca poderão ter a bênção nem a aprovação de Deus. “Eu não os enviei […] e eles não trazem nenhum proveito a este povo, diz o Senhor” (Jr 23.32). Em consequência da nomeação de pessoas impróprias para o ministério cristão, houve não só decadência da piedade, mas também corrupção da religião. Ninguém é verdadeiro ministro cristão se não tem graça, dons e fruto. Se tem a graça de Deus, ela aparecerá na sua vida santa e no seu procedimento piedoso. Se a isso acrescentar capacidades genuínas, dará plena prova do seu ministério; e, se der plena prova do seu ministério, terá fruto: a alma dos pecadores se converterá a Deus pela sua pregação, e os crentes serão edificados na sua santíssima fé. Como deve parecer desprezível aos olhos do bom senso o homem que se gaba da sua educação clerical, da sua ordem sacerdotal, da sua autoridade legítima para pregar, ministrar os sacramentos cristãos etc., enquanto nenhuma alma é beneficiada pelo seu ministério! Tal pessoa pode ter autoridade legal para cobrar dízimos, mas, quanto a uma nomeação de Deus, não tem nenhuma; do contrário, a sua palavra teria poder, e a sua pregação seria o meio de salvação para os ouvintes que perecem.

O que devem sentir os ministros do evangelho sobre esses assuntos? Não é o seu encargo mais importante e mais tremendo do que o de Moisés? Quão poucos consideram isso! É respeitável, é honroso estar no ministério do evangelho; mas quem é capaz de guiar e apascentar o rebanho de Deus? Se, por inaptidão ou negligência do pastor, alguma alma se desviar, ou perecer por falta do devido alimento espiritual, ou por não receber a sua porção no tempo devido, em que estado terrível está o pastor! Essa alma, diz Deus, morrerá na sua iniquidade, mas o seu sangue eu o pedirei da mão do atalaia (cf. Ez 3.18)! Se os candidatos ao ministério do evangelho considerassem devidamente essas coisas, quem se encontraria para empreendê-lo? Teríamos então de fato toda a razão para pedir ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara (Mt 9.38), já que ninguém, considerando devidamente essas coisas, iria se não fosse impelido pelo próprio Deus. Ó vocês, ministros do santuário! Tremam pela sua própria alma e pela alma dos que foram confiados aos seus cuidados, e não entrem nesta obra se Deus não for com vocês. Sem a sua presença, a sua unção e a sua aprovação, vocês não podem fazer nada.

Quem é capaz dessas coisas? É uma pessoa que não tem inteligência suficiente para um ofício ou ocupação comum? Não. O pregador do evangelho deve ser homem do mais sólido bom senso, da mente mais cultivada, da experiência mais ampla; alguém profundamente ensinado por Deus e que estudou profundamente o ser humano; alguém que orou muito, leu muito e estudou muito; que recebe a sua obra como de Deus, a faz como diante de Deus e refere tudo à glória de Deus; que permanece sob o sopro do Todo-Poderoso (cf. Jó 32.8) e guardou a palavra de Deus no coração para não pecar contra ele (cf. Sl 119.11). Nenhum ministro formado pelo homem pode jamais ser o que aqui se exige. Só a escola de Cristo pode formar tal pregador.

Os ministros do evangelho são anéis de selar de Jesus Cristo (cf. Ag 2.23). Ele os usa para imprimir a sua verdade, para dar-lhe crédito e curso. Mas, assim como um selo não pode marcar nada por si mesmo se não for aplicado por uma mão adequada, assim os ministros de Cristo não podem fazer bem algum, selar verdade alguma, impressionar alma alguma, a menos que o grande Dono se digne usá-los.

Um homem perverso não pode ter nem comunicar autoridade para ministrar os mistérios celestiais; e um tolo, ou um cabeça-dura, nunca pode ensinar aos outros o caminho da salvação. As mais altas capacidades não são demais para um pregador do evangelho, nem é possível que ele tenha saber humano demais. Mas tudo é nada se ele não puder trazer a graça e o Espírito de Deus a todas as suas ministrações; e estes nunca o acompanharão se ele não viver no espírito de oração e humildade, temendo e amando a Deus e odiando a avareza.

A palavra de quem tem essa comissão do céu será como fogo e como martelo (cf. Jr 23.29); os pecadores serão convencidos e convertidos a Deus por ela. Mas os outros, embora roubem a palavra do seu próximo (cf. Jr 23.30), tomem emprestado ou furtem um bom sermão, não trazem proveito algum ao povo, porque Deus não os enviou; pois o poder de Deus não acompanha a palavra no seu ministério.

Da minha parte, eu sempre me sentiria disposto a me curvar com respeito diante daquela rara dispensação da Providência e da graça que, em circunstâncias semelhantes, com um chamado tão claro e distinto, levantasse uma mulher de tais talentos e piedade para trabalhar no evangelho, onde o povo estivesse perecendo por falta de conhecimento (cf. Os 4.6), e assim arrebatar tições do fogo eterno (cf. Zc 3.2). Quem é tão preconceituoso que não veja que Deus não honrou Inman, o cura, mas escolheu Susanna Wesley para fazer a obra de evangelista? A abundância de frutos da graça que brotou dessa semente provou que o Semeador mestre era Jesus, o Senhor da seara. Senhor, tu enviarás por meio de quem quiseres, e esconderás do homem o orgulho, para provar que a excelência do poder vem de ti! [N. do T.: Clarke se refere às reuniões que Susanna Wesley dirigia na reitoria de Epworth na ausência do marido, enquanto o cura Inman, que o substituía, pregava com pouco proveito.]

Quando a grande Cabeça da igreja chama alguém para pregar o evangelho, diz na prática: “Vão por todo o mundo e preguem o evangelho a toda criatura” (Mc 16.15). Ele nunca limita de modo absoluto o seu dom e o seu chamado a um lugar determinado, mas os deixa sob a direção e a administração da sua própria Providência. O chamado de Deus para pregar é um chamado missionário, e os que o têm sabem que não pertencem a si mesmos e que devem fazer a obra do Senhor do modo, no lugar e no tempo do Senhor. Por isso todos os ministros do seu evangelho têm espírito missionário; que a Providência dirija o seu caminho como quiser. Alguém pergunta qual é o dever de um ministro do evangelho? Mande-o ao segundo capítulo da carta a Tito para uma resposta completa. Ali encontrará o que deve crer, o que deve praticar e o que deve pregar. Até a sua congregação lhe é repartida: os idosos e os jovens de ambos os sexos, e os que estão a serviço deles, são considerados objeto do seu ministério; e um plano de ensino, em relação a essas diferentes categorias da sociedade, é posto diante dele. Ele encontra ali a doutrina que deve pregar a eles, os deveres que deve inculcar, os motivos com que deve reforçar as suas exortações e o fim que tanto ele quanto o seu povo devem ter sempre em vista.

A exortação de São Paulo aos pastores da igreja de Cristo em Éfeso e em Mileto (cf. At 20.28) contém muita coisa de interesse para todo ministro cristão. 1. Se ele é enviado por Deus, é enviado para apascentar o rebanho. 2. Mas, para apascentá-lo, tem de ter o pão da vida. 3. Esse pão ele tem de distribuir no devido tempo, para que cada um receba a porção adequada ao tempo, ao lugar e ao estado. 4. Enquanto alimenta os outros, deve cuidar de que a sua própria alma seja alimentada: é possível a um ministro ser instrumento para alimentar os outros e, mesmo assim, morrer de fome. 5. Se Jesus Cristo confia aos seus cuidados as almas que comprou com o seu próprio sangue, que conta terrível terá de prestar no dia do juízo, se alguma delas perecer por negligência sua! Embora o pecador que morre nos seus pecados tenha o próprio sangue sobre a cabeça, se o atalaia não o advertiu fielmente, o seu sangue será pedido da mão do atalaia. Que aquele a quem isso diz respeito leia Ezequiel 33.3-5 e pense na conta que em breve terá de prestar a Deus.

Em toda essa enumeração, em que o apóstolo nos dá todos os oficiais e dons necessários à constituição de uma igreja, não encontramos uma palavra sobre bispos, presbíteros ou diáconos, e muito menos sobre os vários oficiais e cargos que a igreja cristã apresenta hoje. Talvez os bispos estejam incluídos nos apóstolos, os presbíteros nos profetas e os diáconos nos mestres. Quanto aos outros oficiais eclesiásticos de que a igreja romana está cheia, que os procurem os que estão decididos a encontrá-los, em qualquer lugar fora do Novo Testamento. [N. do T.: comentário a Ef 4.11.]

É natural que as pessoas caiam em extremos, e não há assunto em que tenham caído em extremos mais distantes do que o da necessidade do saber humano. Pois, para a devida compreensão das Sagradas Escrituras, de um lado todo saber foi desprezado, e a necessidade da inspiração do Espírito Santo, como único intérprete, defendida com força e veemência. De outro, toda inspiração foi posta de lado, a sua possibilidade questionada e toda pretensão a ela ridicularizada de um modo que pouco tem de caridade cristã ou de reverência a Deus. Que há um caminho do meio, igualmente distante desses dois extremos, todo homem sincero que crê na Bíblia tem de admitir. Que há uma inspiração do Espírito que todo cristão consciencioso pode reivindicar, e sem a qual ninguém pode ser cristão, está suficientemente estabelecido por inúmeras passagens das Escrituras e pelo testemunho ininterrupto e universal da igreja de Deus; isso foi provado muitas vezes nas notas anteriores. Se alguém que professa ser pregador do evangelho de Jesus nega isso, ou fala ou escreve contra isso, só dá à igreja cristã uma prova terrível de quão inteiramente inapto ele é para a sua função sagrada. Ele não é enviado por Deus e, por isso, não trará proveito algum ao povo. Para esses, o saber humano é tudo: deve substituir a unção de Cristo e a graça e as influências do Espírito Santo.

Mas, enquanto fugimos dessas opiniões como da influência de um vapor pestilento, vamos nos juntar aos que desprezam o saber e a ciência, negando absolutamente que sirvam para alguma coisa na obra do ministério, e muitas vezes chegando a afirmar que são perigosos e subversivos do temperamento e do espírito verdadeiramente cristãos, gerando pouco além de orgulho, autossuficiência e intolerância?

Que houve pretendentes ao saber, orgulhosos e intolerantes, temos provas demais para duvidar; e que houve pretendentes à inspiração divina não menos orgulhosos e intolerantes, temos também muitos fatos para provar. Mas esses são só pretendentes. Pois o homem verdadeiramente instruído é sempre humilde e afável, e quem está sob a influência do Espírito divino é sempre manso, brando e fácil de persuadir. Os orgulhosos e insolentes não são nem cristãos nem eruditos. Tanto a religião quanto o saber os rejeitam como uma desonra para ambos.

Mas não é a simples capacidade de interpretar alguns autores gregos e latinos que pode fazer de alguém um erudito ou habilitá-lo a ensinar o evangelho. Milhares têm esse conhecimento sem serem eles mesmos sábios para a salvação, nem capazes de conduzir ao caminho da vida os que estão desviados. SABER é palavra de sentido amplo: significa conhecimento e experiência; o conhecimento de Deus e da natureza em geral, e do ser humano em particular; do ser humano em todas as suas relações e ligações; da sua história em todos os períodos da sua existência e em todos os lugares em que viveu; dos meios usados pela Providência divina para o seu sustento; da maneira como ele foi levado a empregar as forças e faculdades que o seu Criador lhe deu; e das várias dispensações de graça e misericórdia com que foi favorecido. Para adquirir esse conhecimento, a familiaridade com algumas línguas que há muito deixaram de ser faladas muitas vezes é não só muito conveniente, mas em alguns casos indispensável. Mas quão poucos dos que mais pretendem ao saber, e que gastaram muito tempo e muito dinheiro em centros de estudo para obtê-lo, obtiveram esse conhecimento! Tudo o que muitos deles ganharam são apenas os meios de adquiri-lo; com isso ficam satisfeitos e, com grande ignorância, chamam isso de saber. Parecem pessoas que levam na mão grandes velas apagadas e se gabam de estar bem preparadas para dar luz aos que estão sentados nas trevas, enquanto não emitem nem luz nem calor e são incapazes de acender a vela que seguram. O saber, num sentido próprio da palavra, é o meio de adquirir conhecimento; mas multidões que têm os meios parecem ignorar inteiramente o seu uso, e vivem e morrem numa ignorância erudita. O saber humano, devidamente aplicado e santificado pelo Espírito divino, é de benefício inconcebível para o ministro cristão no ensino e na defesa da verdade de Deus. Ninguém o possuiu mais, no seu tempo, do que São Paulo, e ninguém conheceu melhor o seu uso. Nisso, como em muitas outras excelências, ele é um modelo digníssimo para todos os pregadores do evangelho. Pelo saber, a pessoa pode adquirir conhecimento; pelo conhecimento posto em prática, experiência; e do conhecimento e da experiência vem a sabedoria. O saber que se tira dos livros ou do estudo das línguas é de pouca utilidade para qualquer pessoa, e não tem valor se não for aplicado na prática aos fins da vida. Só aquele cujo saber e conhecimento o habilitaram a fazer o bem entre os seres humanos, e que vive para promover a glória de Deus e o bem-estar dos seus semelhantes, pode esperar, de todos os letrados, ouvir no grande dia: “Muito bem, servo bom e fiel; […] venha participar da alegria do seu senhor” (Mt 25.21).

Quão necessário é hoje o saber para interpretar os Escritos Sagrados, qualquer pessoa pode ver se ler com atenção; mas ninguém pode estar tão plenamente convencido disso quanto quem empreende escrever um comentário da Bíblia. Os que desprezam ajudas desse tipo são dignos de pena. Sem elas podem, é verdade, entender o bastante para a simples salvação da alma; e, mesmo assim, muito disso devem, sob Deus, ao ensino de homens experientes. Afinal, não é o simples conhecimento do latim e do grego que pode capacitar alguém a entender as Escrituras ou a interpretá-las para os outros. Se o Espírito de Deus não tirar do coração o véu da ignorância e não iluminar e vivificar a alma com a sua energia que tudo penetra, todo o saber debaixo do céu não tornará ninguém sábio para a salvação.

Paulo não foi introduzido no ministério cristão por nenhum rito jamais usado na igreja cristã. Nenhum bispo ou presbítero jamais lhe impôs as mãos, e ele faz mais questão de provar isso porque a sua principal honra vinha de ter sido enviado diretamente pelo próprio Deus. A sua conversão e a pureza da sua doutrina mostravam de onde ele vinha. Muitos depois do seu tempo, e nos dias de hoje, estão muito mais ansiosos por mostrar que foram legitimamente nomeados pelos homens do que por Deus, e gostam de exibir as suas credenciais humanas. Essas são fáceis de mostrar; as que vêm de Deus estão fora do seu alcance. Como é vã e inútil uma sucessão apostólica de que se gabam, enquanto a ignorância, a intolerância, o orgulho e a vanglória provam que essas mesmas pessoas não têm nenhuma comissão do céu! Podem ocorrer casos sem fim em que o homem envia e, no entanto, Deus não aprova. E não tem direito de pregar, nem de ministrar os sacramentos da igreja de Cristo, aquele a quem Deus não enviou, ainda que toda a assembleia dos apóstolos lhe tivesse imposto as mãos. Deus nunca enviou, e nunca enviará, para converter os outros, alguém que não esteja ele mesmo convertido. Nunca o enviará para ensinar mansidão, brandura e longanimidade se ele for orgulhoso, autoritário, intolerante e impaciente. Aquele em quem o Espírito de Cristo não habita nunca teve comissão para pregar o evangelho; pode se gabar da sua autoridade humana, mas Deus zombará dele. Por outro lado, que ninguém corra antes de ser enviado; e, quando tiver a autoridade de Deus, que tome cuidado de ter consigo também a da igreja.

Pela bondosa Providência de Deus, parece que ele não permitiu que se preservasse nenhuma sucessão apostólica, para que os membros da sua igreja não procurassem numa sucessão ininterrupta o que só se encontra na CABEÇA. Os papistas, ou católicos romanos, que se gabam de uma sucessão ininterrupta, que é pura fábula, nunca foi e nunca poderá ser provada, levantaram outra cabeça, o papa. E apelo a eles mesmos, no temor de Deus, para que digam se não fazem remontar a ele, no coração e na fala, toda a sua autoridade; e se não se limitam a cumprimentar Cristo por ter nomeado Pedro primeiro bispo de Roma (o que é uma completa falsidade, porque ele nunca foi nomeado para tal cargo ali, nem jamais exerceu tal cargo naquela cidade, nem, no sentido deles, em lugar nenhum). E sustentam também que os papas de Roma não são tanto sucessores de Pedro quanto vigários de Deus; e assim tanto Deus quanto Pedro quase se perdem de vista nas suas enumerações papais. Para eles, a autoridade da igreja é tudo; a autoridade de Cristo raramente é mencionada.

É inútil gastar tempo provando que não existe tal coisa como uma sucessão ininterrupta desse tipo. Ela não existe; nunca existiu. É uma fábula tola, inventada por tiranos eclesiásticos e sustentada por clérigos presunçosos. Mas, ainda que fosse verdade, nada tem a ver com o texto de Hebreus 5.4. Ele fala apenas da nomeação de um sumo sacerdote, da sucessão a ser preservada na tribo de Levi e na família de Arão. Mas mesmo essa sucessão foi interrompida e quebrada, e o próprio cargo devia cessar com a vinda de Cristo, depois de quem não poderia haver sumo sacerdote. Nem Cristo pode ter sucessor, e por isso se diz que ele é “sacerdote para sempre” (Hb 7.17), porque vive sempre como Intercessor e Sacrifício pela humanidade. O versículo, portanto, nada tem a ver com o ofício clerical, com a pregação da santa palavra de Deus ou com a ministração dos sacramentos; e os que o citam desse modo mostram quão pouco entendem as Escrituras e quão ignorantes são da natureza do seu próprio ofício.

Se Cristo é sacerdote para sempre, não pode haver sucessão de sacerdotes. E, se ele tem toda a autoridade no céu e na terra (cf. Mt 28.18), e se está presente onde quer que dois ou três estejam reunidos em seu nome, não pode ter vigários; nem a igreja pode precisar de alguém que aja em seu lugar, já que ele, pela necessidade da sua natureza, enche todos os lugares e está presente em toda parte. Esta única consideração anula todas as pretensões do pontífice romano e prova que tudo é um tecido de impostura.

Uma pessoa pode ser bem ensinada nas coisas de Deus, e capaz de ensinar os outros, sem ter tido as vantagens de uma educação liberal.

Os mestres que pregam por salário, sem outro motivo para entrar no ministério senão ganhar a vida, como alguns dizem de modo agourento, por mais que tenham o hábito e a aparência das ovelhas inocentes e úteis, os verdadeiros pastores comissionados pelo Senhor Jesus, seja qual for o nome, a classe ou o partido a que pertençam, não são, aos olhos do Deus que sonda os corações, outra coisa senão lobos vorazes (cf. Mt 7.15), cujo propósito é alimentar-se da gordura e vestir-se da lã, e assim arruinar o rebanho em vez de salvá-lo.

Quem prega para ganhar a vida, ou para fazer fortuna, é culpado do sacrilégio mais infame.

Mesmo no nosso país esclarecido, encontramos profetas que preferem caçar a lebre ou a raposa, ou perseguir a perdiz e o faisão, a visitar os doentes e ir atrás das ovelhas desgarradas e perdidas da casa de Israel. Pobres almas! Não conhecem nem a Deus nem a si mesmas; e, se visitassem os doentes, não saberiam falar-lhes para exortação, edificação ou consolo. Deus nunca os chamou para a sua obra; por isso não sabem nada dela. Mas, ó, que conta terão de prestar ao Pastor das almas esses falsos profetas amantes dos prazeres!

“O seu sangue eu pedirei da sua mão” (cf. Ez 3.18): pedirei contas da sua alma pela perda da dele. Ó, como isso é terrível! Ouçam isto, sacerdotes, pregadores, ministros do evangelho; vocês, especialmente, que entraram no ministério para ganhar a vida; vocês que reúnem uma congregação para se alimentar da sua gordura e se vestir com a sua lã; em cujas paróquias e congregações almas morrem sem conversão dia após dia, sem nunca terem sido advertidas solenemente por vocês, e a quem vocês nunca mostraram o caminho da salvação, provavelmente porque vocês mesmos não sabem nada dele. Ó, que perdição espera vocês! Ter à sua porta o sangue de cada alma que morreu sem conversão nas suas paróquias ou congregações! Sofrer uma condenação comum por cada alma que perece por negligência de vocês! Quantas cargas de aflição sem fim terão de carregar! Vocês recebem os seus dízimos, os seus salários ou os seus aluguéis até o último grão e o último centavo, enquanto as almas sobre as quais vocês se fizeram atalaias pereceram e estão perecendo por negligência de vocês! Ó homens sem valor e sem sorte! Melhor seria nunca terem nascido! É vã a sua presunção de autoridade apostólica, enquanto não fazem a obra dos apóstolos. É vã a sua presunção de ortodoxia, enquanto nem mostram nem conhecem o caminho da salvação; vãs as suas pretensões a um chamado divino, quando não fazem a obra de evangelistas. A condição dos mais miseráveis da raça humana é invejável em comparação com a desses ministros, pastores, mestres e pregadores.

Não buscamos lucro temporal, nem pregamos o evangelho como capa da nossa avareza. Deus é testemunha de que não; buscamos vocês, não o que é de vocês. [N. do T.: Clarke parafraseia 1Ts 2.5 e 2Co 12.14.] Ouçam isto, vocês que pregam o evangelho! Podem chamar Deus como testemunha de que, ao pregá-lo, não têm outro fim em vista no seu ministério senão a glória dele na salvação das almas? Ou entram no sacerdócio por um pedaço de pão, ou pelo que se chama, de modo agourento e ímpio, “um sustento, um benefício”? Em dias melhores, o lugar e o ofício de vocês se chamavam “cura de almas”. Que cuidado vocês têm da alma daqueles por cujo trabalho são, em geral, mais que suficientemente sustentados? É estudo de vocês, e trabalho sério de vocês, levar pecadores a Deus, pregar entre os seus paroquianos pagãos as insondáveis riquezas de Cristo?

Mas eu deveria falar aos milhares que não têm paróquias, mas têm as suas capelas, as suas congregações, os aluguéis dos bancos e assentos etc. É por causa dessas coisas que vocês entraram, ou continuam, no ministério do evangelho? É Deus testemunha de que, em todas essas coisas, vocês não têm capa de avareza? Feliz aquele que pode dizer isso, quer tenha o sustento que a lei do país lhe concede, quer viva das ofertas voluntárias do povo.

Muitos cânones foram feitos, em diversas épocas, para impedir que os eclesiásticos se metessem em ocupações seculares. Quem quer pregar o evangelho a fundo, e deseja dar plena prova do seu ministério, precisa não ter nenhum outro trabalho. Deve estar inteiramente nisto, para que o seu progresso seja visto por todos (cf. 1Tm 4.15). Há muitos que pecam contra essa orientação: amam o mundo e trabalham para ele, e não fazem caso das almas confiadas aos seus cuidados. Mas o que são eles, em número ou em culpa, comparados com o imenso bando de homens que professam ser ministros cristãos e que não leem nem estudam e, por consequência, nunca progridem? Esses são conscienciosos demais para se meter em assuntos seculares, mas não têm escrúpulo de consciência em desperdiçar o tempo, em estar entre os primeiros na autoindulgência desnecessária e em se tornar, pelo seu ministério pesado e monótono, um estorvo para a igreja! Você pergunta em que seita ou partido estes se encontram? Respondo: em todos. Zangões ociosos,

Original Tradução
“Born to consume the produce of the soil,” “nascidos para consumir os frutos da terra”,

desonram todas as partes da igreja cristã. Não podem ensinar, porque não querem aprender. [N. do T.: o verso traduz a expressão latina de Horácio, fruges consumere nati.]

O ministro que negligencia os pobres, mas visita com frequência os ricos, sabe pouco da obra do seu Senhor e tem pouco do espírito do seu Senhor.

Os oportunistas e aduladores: pessoas que fingem estar espantadas com a grandeza, a bondade, a sagacidade, o saber, a sabedoria etc. dos ricos e dos grandes, esperando com isso adquirir dinheiro, influência, poder, amigos e coisas semelhantes. Todos os aduladores dos ricos são dessa espécie, e especialmente os que dizem ser ministros do evangelho e que, por causa de uma colocação ou de um benefício mais vantajoso, afagam os ricos até nos seus pecados. Para essas pessoas, o rico é tudo; e, se ele tiver um só grão de graça, a sua piedade é exaltada até os céus. Conheci vários ministros desse caráter e desejaria que todos lessem o versículo 16 de Judas.

“Não como dominadores dos que lhes foram confiados” (1Pe 5.3). [N. do T.: a versão inglesa usada por Clarke diz “dominadores sobre a herança de Deus”, e é nessa palavra que ele apoia o argumento a seguir.] Esta é a voz de São Pedro na sua carta católica à igreja católica. Segundo ele, não deve haver senhores sobre a herança de Deus. Os bispos e presbíteros nomeados pela Cabeça da igreja devem apascentar o rebanho, guiá-lo e defendê-lo, não tosquiá-lo e devastá-lo; e devem esperar a sua recompensa no outro mundo e na aprovação de Deus na sua consciência. E, na humildade, na humilhação de si mesmos, na renúncia de si mesmos e na mente voltada para o céu, devem ser exemplos, modelos para o rebanho, moldes de uma forma celestial nos quais o espírito e a vida do rebanho possam ser fundidos, para que saiam segundo um modelo perfeito. Não precisamos perguntar se a igreja que arroga para si o título exclusivo de “católica”, e se os seus pastores supremos, que pretendem ser sucessores de Pedro e vigários de Jesus Cristo, agem desse modo. Eles são, em todos os sentidos, o contrário disso. Mas podemos perguntar: as outras igrejas, que professam ter sido reformadas das abominações daquela, têm em vista o conselho do apóstolo? Têm pastores segundo o coração de Deus, que as apascentam com conhecimento e com inteligência (cf. Jr 3.15)? Ou os seus pastores apascentam a si mesmos, e não ao rebanho? São senhores sobre a herança de Cristo, governando com mão alta eclesiástico-secular, disputando com os seus rebanhos dízimos e salários de tostões, em vez de lutar pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos (Jd 3)? São moldes celestiais em que o espírito e a conduta dos seus rebanhos possam ser fundidos? Deixo aos interessados responder a essas perguntas; mas faço-as, em nome de Deus, a todos os pregadores do país. Quantos entre eles cuidam devidamente do rebanho? Mesmo entre os tidos por mestres evangélicos, não há alguns que, ao chegar a uma paróquia ou congregação, fazem como primeira tarefa aumentar os dízimos e os salários, onde, em toda a boa consciência, já havia o bastante para prover a eles e às suas famílias não só o necessário, mas todas as conveniências e confortos da vida? Conveniências e confortos que nem Jesus Cristo nem o seu servo Pedro jamais desfrutaram. E não é a grande preocupação entre os ministros procurar os lugares, as paróquias e as congregações onde o sustento é mais farto e o trabalho menor? Pregador ou ministro, quem quer que você seja que lê isto, não aplique a palavra ao seu vizinho, seja ele nomeado pelo Estado, pela congregação ou por si mesmo; tome tudo para você: mutato nomine de te fabula narratur. [N. do T.: Horácio: “mudado o nome, é de você que a história fala”.] Veja se o seu próprio coração, as suas intenções e a sua conduta estão retos diante de Deus.

A igreja de Deus sempre foi perturbada por esses pretensos pastores: homens que apascentam a si mesmos, e não ao rebanho; homens orgulhosos demais para mendigar e preguiçosos demais para trabalhar; que não têm nem graça nem dons para plantar o estandarte da cruz nos territórios do diabo e, pelo poder de Cristo, fazer incursões no seu reino e despojá-lo dos seus súditos. Ao contrário, semeando as sementes da discórdia por meio de discussões duvidosas e da propagação de escândalos, e por discursos brilhantes e insinuantes (pois afetam elegância e boas maneiras), dividem as congregações cristãs, formam um partido para si mesmos e assim vivem dos despojos da igreja de Deus.

Como podem padres mundanos, mercenários, caçadores de raposas e jogadores de cartas ler Ezequiel 34.2 etc. sem tremer até o fundo da alma? Ai dos pais que criam os filhos só para as honras e os lucros da igreja! Suponha-se que alguém tenha todas as rendas da igreja: se tiver o “ai” de Deus, como é miserável a sua porção! Que ninguém aplique esta censura exclusivamente a uma só classe de pregadores.

Quantos, pelo seu apego ao ganho desonesto, perderam a honra de se tornar, ou de continuar sendo, embaixadores do Altíssimo!

Como há de ser indizível o castigo dos que são capelães de príncipes ou de grandes homens e que ou os adulam nos seus vícios ou fecham os olhos aos seus pecados!

Se as pessoas fossem tão zelosas em pescar almas quanto são em sustentar os seus credos particulares e as suas formas de culto, o estado do cristianismo seria mais florescente do que é hoje.

Há multidões de escribas, fariseus e sacerdotes, de reverendos e reverendíssimos; mas poucos trabalham. Jesus deseja trabalhadores, e não cavalheiros que são ou zangões ociosos ou escravos do prazer e do pecado.

Ai, ai! Quantos pregadores há que parecem profetas nos seus púlpitos; quantos escritores e outros obreiros evangélicos, cujos prodígios de trabalho, de saber e de doutrina admiramos, que nada são, e pior que nada, diante de Deus, porque não fazem a vontade dele, mas a sua própria! Que consideração terrível é que um homem de dons eminentes, cujos talentos são fonte de utilidade pública, seja apenas como um marco, ou uma placa de sinalização, no caminho da bem-aventurança eterna, que aponta o caminho aos outros sem andar nele!

Onde está a grande diferença entre o ensino dos escribas e fariseus, dos ministros autoproclamados ou feitos pelos homens, e o daqueles que Deus envia? Os primeiros podem pregar o que se chama doutrina muito boa e sã; mas ela não chega com nenhuma autoridade de Deus à alma do povo. Por isso o profano continua profano, porque a pregação só pode ser eficaz para a conversão das pessoas quando a unção do Espírito Santo está nela. E, como esses não são enviados pelo Senhor, não trarão proveito algum ao povo.

É necessário que quem há de julgar tantos casos de consciência os entenda claramente. Mas isso é possível, se ele não passou pelos estados e circunstâncias em que esses casos se fundam? Creio que não. Quem não foi profundamente exercitado na fornalha da aflição e da provação dificilmente será um obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade (cf. 2Tm 2.15). Como pode um homem sem experiência das provações espirituais edificar a igreja de Cristo?

Quem se gaba dos seus antepassados, fala dos seus grandes sacrifícios e insinua que desceu de muita dignidade, respeitabilidade, conforto e abundância para se tornar pregador metodista é o caráter de que fala o sr. Wesley na regra 8. Tal pessoa afeta ser cavalheiro, quer ser tida como tal pelos outros, e talvez seja tida assim por pessoas tão vazias quanto ela; mas, à luz de todo homem de bom senso, é um asno vaidoso, presunçoso e vazio; é indigna do ministério, deveria ser lançada fora da vinha e vaiada pela sociedade. [N. do T.: as “Regras de um Auxiliar” de Wesley; a oitava diz: “Não afete ares de cavalheiro”.]

Preguem a lei e os seus terrores para abrir caminho ao evangelho de Cristo crucificado. Mas tomem cuidado para que, enquanto anunciam os terrores do Senhor a fim de despertar os pecadores e prepará-los para Cristo, não cedam ao seu próprio espírito, sobretudo se encontrarem oposição.

Cuidado para não desanimar o povo; por isso, evitem estar sempre achando defeito nele. Isso faz muito mal. Se encontrarem uma sociedade decaída ou decaindo, examinem o mais de perto que puderem para descobrir todo o bem que há nela; e, imitando a conduta de Cristo para com as sete igrejas da Ásia, façam preceder tudo o que tiverem a dizer sobre a sua apostasia pelo bem que ainda resta nela; e façam desse bem que ainda possuem a razão para que sacudam a poeira, tomem coragem e se esforcem com fervor por mais.

Evitem o erro dos que estão sempre achando defeito nas suas congregações porque não vem mais gente. Tragam Cristo com vocês e preguem a sua verdade no amor dela, e nunca ficarão sem congregação, se Deus tiver alguma obra para vocês naquele lugar.

O pregador do evangelho não deve ter nada em si que cheire a efeminação e a pompa mundana. Engana-se terrivelmente quem pensa convencer o mundo a ouvi-lo e a receber a verdade conformando-se às suas modas e maneiras. Exceto pela simples cor da roupa, hoje mal conseguimos distinguir um pregador do evangelho, seja da igreja oficial do país, seja de fora dela, do mais mundano dos homens. Babados, cabelos empoados e frivolidades parecem prevalecer em toda parte. Assim a igreja e o mundo começam a apertar as mãos, mantendo este a sua inimizade contra Deus. Como podem agir assim os que professam pregar a doutrina da cruz? Não é um pregador de mente mundana, no sentido mais particular, uma abominação aos olhos do Senhor?

Observe-se bem que o pregador que se conforma ao mundo no vestir nunca está no seu elemento senão quando frequenta as casas e as mesas dos ricos e dos grandes.

Os primeiros pregadores, historiadores e seguidores das doutrinas do evangelho foram homens eminentes pela austeridade da vida, pela simplicidade dos costumes e pela santidade da conduta. Foram autorizados por Deus e cheios dos dons mais preciosos do seu Espírito.

Quem usa o dom de Deus para alimentar e fortalecer o seu orgulho e a sua vaidade certamente será despojado dos bens em que confia e cairá na condenação do diabo.

Não é semeador de Deus quem deseja semear à beira do caminho, e não na terra apropriada; isto é, quem gosta de pregar só a congregações elegantes, a gente de juízo e de moda, e sente como dor e como cruz trabalhar entre os pobres e os ignorantes.

A ambição que leva ao senhorio espiritual é uma grande causa de murmurações e animosidades nas sociedades religiosas, e foi a ruína das igrejas mais florescentes do universo.

Toda espécie de senhorio e de dominação espiritual sobre a igreja de Cristo, como a exercida pela igreja de Roma, é destrutiva e anticristã.

Os pregadores do evangelho, e especialmente os que são instrumentos nas mãos de Deus para muitas conversões, precisam de muita sabedoria celestial, para saberem vigiar, guiar e aconselhar os que foram levados ao senso do seu pecado e do seu perigo. Quantos começos promissores foram arruinados por pessoas que agiram com pressa demais, procurando fazer prevalecer os seus próprios planos e ter para si a honra de um êxito que só a Deus é devida!

Quantas vezes uma obra de Deus é estragada e desacreditada pela loucura humana! Pois a natureza, e Satanás também, sempre se misturarão, tanto quanto puderem, à obra genuína do Espírito, para desacreditá-la e destruí-la. Mesmo assim, nos grandes avivamentos da religião, é quase impossível impedir que o fogo descontrolado se misture ao fogo verdadeiro; mas é dever dos ministros de Deus vigiar contra isso e contê-lo com prudência. Se eles mesmos o incentivarem, haverá “confusão e toda espécie de coisas ruins” (cf. Tg 3.16).

O ministro do evangelho de Deus deve, acima de todos, ser senhor da sua língua. Os seus inimigos, em certos casos, acumularão pergunta sobre pergunta, para confundi-lo e embaraçá-lo de tal modo que ele fale imprudentemente com os lábios e assim prejudique a verdade que se esforçava por promover e defender. A oração seguinte é boa, e todos os que são chamados a defender ou proclamar as verdades do evangelho podem oferecê-la com confiança ao seu Deus: “Que a tua sabedoria e a tua luz, ó Senhor, dissipem o artifício deles e as minhas trevas! Lança os raios brilhantes da tua luz sobre os que têm de se defender de homens sutis e enganadores! Levanta e anima o coração deles, para que não faltem à causa da verdade. Guia a língua deles, para que não lhes falte prudência nem exponham a tua verdade por alguma indiscrição ou por arroubos de zelo fora de hora. Que a mansidão, a brandura e a longanimidade influenciem e dirijam o coração deles; e que sintam sempre todo o peso desta verdade: ‘A ira humana não produz a justiça de Deus’ (Tg 1.20)!”. O seguinte conselho de um dos antigos é bom: “Fique firme como uma bigorna batida; porque é próprio de um bom soldado ser esfolado vivo e, ainda assim, vencer”. [N. do T.: Inácio de Antioquia, Carta a Policarpo, 3.]

O ministro de Deus deve agir com grande cautela. Todo ser humano, propriamente falando, está posto entre o juízo secreto de Deus e a censura pública dos homens. Ele não deve fazer nada temerariamente, para não incorrer com justiça na censura dos homens; e não deve fazer nada senão no temor amoroso de Deus, para não incorrer na censura do seu Criador. Do homem que quase nunca admite estar errado pode-se dizer com segurança: “Ele raramente está certo”. É possível alguém confundir a própria vontade com a vontade de Deus, e a própria teimosia com a adesão inflexível ao dever. Com tais pessoas é perigoso ter qualquer trato. Leitor, ore a Deus para que o livre de uma mente inchada e autossuficiente.

O zelo pela verdade de Deus é essencialmente necessário a todo ministro, e a prudência não o é menos. Devem ser sabiamente temperados juntos, mas isso nem sempre acontece. O zelo sem prudência é como uma tocha nas mãos de um cego: pode iluminar e aquecer, mas também pode destruir o edifício espiritual. A prudência humana deve ser evitada tanto quanto o zelo destemperado. Essa espécie de prudência consiste em a pessoa ter cuidado de não se meter em dificuldades e de não arriscar a sua reputação, o seu crédito, o seu interesse ou a sua fortuna no cumprimento do seu dever. A sabedoria evangélica consiste em sofrermos e perdermos todas as coisas antes que faltar ao cumprimento das nossas obrigações.

A disciplina tem de ser exercida na igreja cristã; sem ela, a igreja logo diferirá pouco do deserto deste mundo. Mas quanto juízo, prudência, piedade e cautela são necessários na execução deste ramo importantíssimo do dever do ministro! Ele pode ser brando e terno demais e deixar a gangrena ficar até que o rebanho seja infectado por ela. Ou pode ser rígido e severo e destruir partes vitais, enquanto diz apenas tirar o que está corrompido. O desviado é alguém que um dia conheceu, mais ou menos, a salvação de Deus. Ouça o que Deus diz a respeito deles: “Voltem para mim, ó filhos rebeldes […]. Porque eu é que sou o esposo de vocês” (Jr 3.14). Veja como ele reluta em abandoná-los! Ele é longânimo e bondoso: faça você o mesmo. E, quando for obrigado a cortar o ofensor da igreja de Cristo, continue a segui-lo com os seus melhores conselhos e as suas orações mais sinceras.

Há alguns que parecem ter um prazer bárbaro em expulsar membros da igreja. Eles devem ser mantidos nela o maior tempo possível. Enquanto estão na igreja, sob as suas ordenanças e a sua disciplina, há alguma esperança de que os seus erros sejam corrigidos; mas, uma vez lançados de novo no mundo, essa esperança tem necessariamente de se extinguir. Assim como o juízo é a obra estranha de Deus (cf. Is 28.21), a excomunhão deve ser a obra estranha, a última e a mais relutantemente realizada, de todo ministro cristão.

“Sem discriminação” (1Tm 5.21): sem preconceito. Não promova a causa de ninguém; não forme opinião sobre nenhum caso até ter pesado os dois lados e ouvido as duas partes, com as suas respectivas testemunhas; e então aja com imparcialidade, conforme o assunto parecer provado. Não trate ninguém, nos assuntos religiosos, segundo a posição que ocupa na vida, nem segundo algum apego pessoal que você tenha por ele. Cada um deve ser tratado na igreja como será tratado diante do tribunal de Cristo. O ministro do evangelho que, no exercício da disciplina na igreja, se deixa levar e distorcer por considerações seculares será antes uma maldição do que uma bênção para o povo de Deus. Fazer acepção dos ricos nos assuntos eclesiásticos tem sido uma fonte de corrupção no cristianismo. Para alguns ministros, a aparência de piedade num rico vale mais do que a mais sólida experiência cristã num pobre. Que conta podem dar tais pessoas da sua administração?

Um pregador útil e zeloso, ainda que não saiba línguas eruditas, é muito maior aos olhos de Deus, e aos olhos do bom senso, do que quem tem o dom dessas línguas eruditas, “a não ser que as interprete” (cf. 1Co 14.5). E raramente encontramos grandes eruditos que sejam bons pregadores. Isso deveria humilhar o erudito, que tende demais a se orgulhar das suas conquistas e a desprezar o seu irmão menos instruído, mas muito útil. Esse juízo de São Paulo é muito pouco considerado.

Tenha sempre o ouvido aberto ao clamor dos aflitos e dos moribundos. Da maneira mais calorosa e afetuosa, dê-lhes orientações e exortações; abra-lhes a Fonte da misericórdia e conduza-os diretamente a Deus pelo sacrifício do seu Filho. Mostre-lhes, prove-lhes que no Senhor há misericórdia e ampla redenção (cf. Sl 130.7), e que com fidelidade ele os afligiu (cf. Sl 119.75). Enquanto estiver pronto a cada chamado, use toda a sua prudência para evitar o contágio. Não respire perto da pessoa infectada. O contágio em geral entra no estômago por meio da respiração. Não que o ar vá ao estômago, mas os eflúvios nocivos, pela inspiração, são levados à boca, ligam-se imediatamente a toda a superfície da língua e da garganta e, ao se engolir a saliva, descem ao estômago; e ali, misturando-se com o alimento no processo da digestão, são levados pelos vasos lácteos por toda a circulação, corrompendo e assimilando a si toda a massa do sangue, e assim levam a morte ao coração, aos pulmões e até os últimos vasos capilares. Ao visitar casos de febre, muitas vezes tive consciência de ter apanhado o contágio. Ao voltar para casa, bebi alguns goles de água morna e então, com a ponta fina de uma pena, irritei o estômago para fazê-lo expelir o seu conteúdo. Por esses meios, pela misericórdia de Deus, consegui muitas vezes escapar de muitos perigos e de muitas mortes. Nunca engula a saliva num quarto de doente, sobretudo onde há contágio; tenha um lenço para isso e lave a boca com frequência com água morna. Fique a barlavento de todo cadáver que for sepultar. Nunca saia de estômago vazio, nem deixe as suas forças se abaterem por longa abstinência de alimento. [N. do T.: as explicações médicas são as da época de Clarke.]

Em mil casos, o pregador apostólico que vai ao deserto procurar a ovelha perdida estará exposto à fome, ao frio e a outros incômodos. Por isso tem de se entregar a Deus, dependendo da sua Providência para as coisas necessárias à vida. Se Deus o enviou, Deus está obrigado a sustentá-lo, e o fará. A ansiedade, portanto, nele é um crime duplo, porque insinua uma má opinião do Senhor que o empregou. Todo missionário deve dominar este assunto.

Agustín, arcebispo de Tarragona, foi um dos homens mais eruditos do seu tempo. Deu literalmente tudo o que tinha aos pobres, de modo que, quando morreu, em 1586, não se encontrou nos seus cofres dinheiro bastante para lhe dar um enterro decente. A qualquer dos seus irmãos arcebispos, “Vá e faça o mesmo” (Lc 10.37) poderia parecer uma palavra dura. [N. do T.: Antonio Agustín (1517-1586), arcebispo de Tarragona, na Espanha.]

Basta que um ministro de Cristo prejudique a saúde pelos seus trabalhos pastorais para que logo se diga: “Ele está desequilibrado; não tem o menor juízo nem discernimento”. Mas que alguém esqueça a sua alma, destrua a sua saúde por devassidões, exponha a vida por ambição, e poderá, apesar disso, passar por homem muito prudente e sensato!

Os homens que se esforçaram para tirar a massa do povo comum da ignorância, da irreligião e da devassidão geral dos costumes, levando-a ao conhecimento de si mesma e de Deus, e ao devido conhecimento do seu dever para com ele e uns para com os outros, muitas vezes foram tachados de desafetos ao Estado e de agitadores de sedição entre o povo!

As provações e os consolos de um ministro são permitidos e enviados para o bem da igreja. Que pregador miserável há de ser aquele que tem toda a sua teologia pelo estudo e pelo saber, e nada pela experiência! Se a sua alma não passou por todas as dores de parto da regeneração, se o seu coração não sentiu o amor de Deus derramado nele pelo Espírito Santo, ele não pode nem instruir o ignorante nem consolar o aflito.

O ministro de Cristo é representado como um trabalhador diarista: ele vem à colheita não para ser dono dela, não para viver do trabalho dos outros, mas para trabalhar e cumprir o seu dia. Embora o trabalho possa ser muito pesado, há, para usar uma expressão familiar, bom pagamento na festa da colheita; e o dia, embora quente, é curto.

Quando Cristo aparecer para julgar o mundo com justiça, vocês, que apascentaram o seu rebanho, que assumiram a supervisão dele não por obrigação, “não por ganância”, não como dominadores da herança, mas “de boa vontade”, empregando corpo, alma, espírito, tempo e talentos em procurar arrancar pecadores como tições do fogo eterno e edificar a igreja de Cristo na sua santíssima fé, VOCÊS receberão a “coroa da glória, que nunca perde o seu brilho” (cf. 1Pe 5.2-4): uma proximidade e uma intimidade eternas com o Deus inefavelmente glorioso, de modo que vocês, que conduziram muitos à justiça, brilharão não só como estrelas (cf. Dn 12.3), mas como sóis no Reino do seu Pai! Ó vocês, pastores de mente celestial, diligentes, que negam a si mesmos, segundo o coração de Deus, estejam na igreja estabelecida pelo Estado ou nas divisões que dela estão muito afastadas ou a ela estreitamente ligadas, tomem coragem! Preguem Jesus; avancem por todas as dificuldades na fé do seu Deus; não temam mal algum enquanto não pensam senão no bem. Vocês são estrelas na mão direita de Jesus, que anda no meio dos candelabros de ouro de vocês (cf. Ap 2.1) e acendeu aquela lâmpada da vida que vocês foram designados a cuidar. Não tenham medo: o trabalho de vocês no Senhor não pode ser vão! Nunca, nunca poderão pregar um só sermão no espírito do seu ofício que o Deus de toda graça permita ficar sem fruto. Vocês levam e semeiam a semente do Reino por ordem e com a autoridade do seu Deus; vocês a semeiam, e os céus farão descer orvalho sobre ela. Podem sair chorando, mesmo levando essa semente preciosa; mas sem dúvida voltarão com júbilo, trazendo os seus feixes (cf. Sl 126.5-6). Amém. Assim seja, Senhor Jesus!

Deus não recompensa os seus servos segundo o êxito do seu trabalho, porque isso depende dele mesmo, mas segundo a quantidade de trabalho fiel que dedicam à sua obra. Neste sentido, ninguém pode dizer: “Tenho trabalhado em vão; gastei as minhas forças por nada” (cf. Is 49.4).

Por outro lado, se forem fiéis, o seu trabalho não será vão, e a sua segurança será grande. Quem toca neles toca na menina dos olhos de Deus (cf. Zc 2.8), e ninguém poderá arrebatá-los da sua mão (cf. Jo 10.28). Eles são os anjos e os embaixadores do Senhor; as suas pessoas são sagradas; são mensageiros das igrejas e glória de Cristo (cf. 2Co 8.23). Se perderem a vida na obra, isso será apenas uma entrada mais rápida numa glória eterna.

Original Tradução
“The rougher the way, the shorter their stay; “Quanto mais áspero o caminho, mais breve a sua estada;
The troubles that rise as tribulações que surgirem
Shall gloriously hurry their souls to the skies.” hão de levar depressa, gloriosamente, a sua alma ao céu.”

Sigam em frente em nome de Deus. Sou amigo constante de vocês; trabalho de manhã cedo até tarde por vocês; sinto pelo povo como se fossem membros da minha própria família. Quanto aos amigos de pouca firmeza, não façam caso deles. Deus está com vocês, e por isso o diabo tem de estar contra vocês. Preguem Jesus e a sua salvação presente e plena. Isso os sustentará até o fim, porque Deus dará infalivelmente testemunho em favor da doutrina que honra devidamente o sangue sacrificial do seu Filho. Nenhuma outra doutrina, por mais que fale bem daquele que o derramou, honra o grande propósito de Deus, senão aquela que mostra que esse sangue salva do poder e da culpa do pecado e purifica de toda injustiça; não num mundo futuro, mas neste, e no tempo presente. [N. do T.: este e os parágrafos seguintes no mesmo tom parecem vir de cartas de Clarke a missionários metodistas, provavelmente os das ilhas Shetland, que ele apoiava.]

Sigam em frente; não temam nada; Deus está com vocês, e nada pode resistir ao sangue que tudo vence e ao Espírito poderoso do Senhor Jesus. Proclamem em alta voz aos pobres pecadores que Jesus Cristo provou a morte por todos e que o seu sangue purifica de toda injustiça. Esta é a doutrina que Deus aprovará. Que fez pelo mundo a miserável doutrina de C…n! Produziu um cristianismo espúrio e deixou o povo nos seus pecados. [N. do T.: a palavra vem abreviada no original impresso (só a inicial e a final); muito provavelmente “Calvino”.] Andem com Deus, e não precisarão temer opróbrio algum. Lutero disse: Evangelium praedicare est furorem mundi in te derivare, “pregar o evangelho é atrair sobre si a fúria do mundo”. Sim: quem prega as doutrinas puras do Deus que o comprou será odiado pelo mundo cristão. Jesus e os seus apóstolos foram perseguidos não pelos pagãos, mas por judeus que professavam a piedade; assim também os cristãos espúrios são os principais perseguidores dos verdadeiros seguidores do Senhor Jesus. Não os temam: o nosso Deus é mais poderoso que o diabo deles! Amém. Selá. O uísque e o tabaco também cairão diante do Espírito de Cristo. Argumentem com brandura com os que são viciados neles; nisso vocês ganharão terreno aos poucos.

Insista, sejam os tempos prósperos ou adversos (cf. 2Tm 4.2), sempre que houver oportunidade; e, quando não houver, procure criar uma. O Juiz está à porta, e para cada pessoa a eternidade está próxima! Onde quer que encontre um pecador, fale-lhe a palavra da reconciliação. Não se contente apenas com os horários fixos e os lugares costumeiros; todo tempo e todo lugar pertencem a Deus e são apropriados para a sua obra. Onde quer que possa ser feito, ali deve ser feito. Satanás não deixará passar tempo nem lugar em que possa destruir. Não deixe passar nenhum em que você possa ser instrumento de salvação para alguém.

Quem deseja salvar almas encontrará poucas oportunidades para descansar. Como Satanás anda “em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar” (1Pe 5.8), o mensageiro de Deus deve imitar a sua diligência para contrariar a sua obra.

Que nenhum ministro de Deus pense que livrou a sua alma enquanto não tiver feito uma oferta de salvação a cada cidade e vila ao seu alcance.

Tomei cuidado para que o seu crédito fosse sempre preservado. Pois considero fatal para a nossa obra missionária, em qualquer lugar, deixar de honrar uma letra de um missionário, ou brincar com as suas justas exigências a ponto de tornar suspeito o seu crédito. Tenha o cuidado de ser sempre prudente e econômico; e, enquanto Deus me poupar em relação ao seu posto, cuidarei para que o seu crédito seja preservado.

Um escândalo ou uma heresia na igreja de Deus é ruinoso em todos os tempos, mas particularmente quando a causa está na sua infância. Por isso os mensageiros de Deus nunca são cuidadosos demais em lançar bem o fundamento na doutrina, em estabelecer a disciplina mais estrita e em ser muito cautelosos sobre quem admitem e reconhecem como membros da igreja de Cristo. É certo que a porta deve ser aberta de par em par para admitir os pecadores arrependidos; mas o atalaia deve estar sempre ao lado, para ver que nenhuma pessoa imprópria entre. A prudência cristã deve estar sempre ligada ao zelo cristão. É grande obra levar pecadores a Cristo; é obra maior preservá-los na fé; e é preciso muita graça e muita sabedoria para manter pura a igreja de Cristo, não só não permitindo a entrada dos profanos, mas expulsando os que apostatam ou praticam a iniquidade. O relaxamento na disciplina geralmente precede a corrupção da doutrina; o primeiro gera a segunda.

Os ministros de Deus são comparados a encarregados, dos quais se exige a mais estrita fidelidade (cf. 1Co 4.2). 1. Fidelidade a Deus, publicando a sua verdade com zelo, defendendo-a com coragem e recomendando-a com prudência. 2. Fidelidade a Cristo, de quem são representantes, recomendando com honestidade e plenitude a sua graça e a sua salvação com base na sua paixão e morte, e pregando as suas máximas com toda a sua força e pureza. 3. Fidelidade à igreja, cuidando de manter uma disciplina piedosa, não admitindo nela senão os que abandonaram os seus pecados e não permitindo que nela permaneçam os que não continuam a manifestar a beleza da doutrina de Deus, seu Salvador. 4. Fidelidade ao seu próprio ministério, andando de modo a não trazer censura ao evangelho; evitando os extremos da brandura indolente, de um lado, e da severidade austera, de outro; considerando o rebanho não como seu, mas como rebanho de Jesus Cristo; vigiando-o, governando-o e apascentando-o segundo a ordem do seu divino Senhor.

O pregador que não é homem de oração não pode ter um conhecimento apropriado da natureza e do propósito do ministério do evangelho, não pode estar vivo para Deus na sua própria alma e dificilmente se tornará instrumento na salvação dos outros. Para fazer o bem, a pessoa tem de receber o bem. A oração é o caminho pelo qual se recebe a ajuda divina; e, na obra do ministério, ninguém pode fazer coisa alguma se não lhe for dado do alto. Em muitos casos, o êxito do trabalho de um pregador depende mais das suas orações do que da sua pregação pública.

Viva para Deus, ore muito, leia muito, trabalhe duro e tenha uma fé sem medida.

A oração sincera e frequente a Deus, e a manutenção de um senso vivo da sua aceitação diante dele, são da primeira e da última necessidade. Respire continuamente a atmosfera divina, e então o contágio do pecado não conseguirá alcançar você. Mantenham-se no amor de Deus (cf. Jd 21), e então o Maligno não tocará em vocês.

Em toda a minha longa experiência, fui levado a ver que noventa e nove em cada cem das ofensas que ocorrem no ministério sagrado são ocasionadas por conversas descuidadas com mulheres e pelo contato imprudente com bebidas destiladas. Contra ambas as coisas vocês não podem estar suficientemente em guarda. Entre gente de costumes simples, a primeira é particularmente perigosa, porque, quando surge a confiança, toda distância é esquecida, segue-se a familiaridade, a intimidade se enxerta nela, e então se produzem facilmente afetos desordenados. “Converse pouco com as mulheres”, diz o sr. Wesley, “especialmente com as jovens.” [N. do T.: terceira das “Regras de um Auxiliar”.] Os que são naturalmente de disposição franca e afetuosa estão, neste caso, em maior perigo. Uma postura altiva fica mal num ministro de Cristo, cuja vocação o obriga a ser servo de todos. Com as jovens, procedam como irmãos; com as idosas, como filhos respeitosos. Mantenham a devida distância: não fiquem longe demais; não cheguem perto demais. A primeira coisa despertará preconceito contra vocês; a segunda levará quase imperceptivelmente ao abismo de onde não há volta.

Quanto à abstinência total de bebidas destiladas onde não se encontra outra bebida, não sei bem o que dizer. Se se tomar alguma, deve ser muito pouco, ou bem diluída; um pouco em água fria, sem açúcar, seria o melhor. Experimente água de pão torrado: até o pão de aveia, onde não se encontra o de trigo, serve. Torre bem o pão, até ficar inteiramente escuro, depois despeje água fervendo sobre ele, cubra e deixe descansar pelo menos duas horas antes de usar. É uma bebida muito saudável e diluente.

Só brilhar é vaidade; e arder sem brilhar nunca edificará a igreja de Deus. Uns brilham, outros ardem, mas poucos ardem e brilham ao mesmo tempo (cf. Jo 5.35); e há muitos chamados pastores que nem brilham nem ardem. Quem deseja salvar almas tem de arder e brilhar: a luz clara dos Registros Sagrados deve encher o seu entendimento, e a chama santa do zelo amoroso deve ocupar o seu coração. O zelo sem conhecimento está sempre errando, e o conhecimento sem zelo não converte ninguém a Cristo.

Nunca tome um texto que você não entenda plenamente, e faça questão de consciência de dar ao povo o sentido literal dele. É assunto de grande e solene importância. Dar às palavras de Deus um sentido diferente do que ele quis transmitir por elas, ou interpretá-las de um modo que não temos a mais plena prova de que ele pretendeu, é de fato terrível!

Nunca pareça contradizer o Espírito Santo pelo que se chama tratar um assunto de modo negativo e positivo. Raramente tome um texto muito curto. Nunca tome um texto que, fora da sua ligação própria, não pode significar nada. Eu o advertiria com a maior solenidade contra o que se chama pregação fina ou florida. Não me refiro à pregação em linguagem elegante, correta e digna, pois tudo isso está bem no seu lugar quando empregado para proclamar e ilustrar os registros da nossa salvação; mas me refiro a um nascimento espúrio que procura honrar-se com esse título. Alguns pregadores pensam que melhoram muito os seus discursos tomando emprestados os belos ditos dos outros; e, quando estes aparecem com frequência ao longo de um sermão, diz-se que o pregador é florido. Tais flores, usadas desse modo, me trazem à lembrança o costume, em alguns países, de pôr rosas abertas, ou raminhos de alecrim, lavanda e tomilho, nas mãos dos mortos quando são postos nos caixões.

Mas o principal defeito dessa espécie de pregação é o uso de um grande número de palavras longas e altissonantes, às quais o próprio pregador parece não ter ligado nenhuma ideia determinada, e que muitas vezes, na ligação em que ele as põe, são estranhas ao sentido que radicalmente transmitem.

Como os ministros de Cristo devem tomar cuidado para não proclamar nada como verdade, nem dar crédito a nada como verdade, senão ao que vem do seu Senhor! Devem tomar cuidado para que, depois de pregar aos outros, eles mesmos não sejam desqualificados (cf. 1Co 9.27); para que Deus não lhes diga o que disse de Jeconias: “Tão certo como eu vivo, diz o Senhor, ainda que Jeconias, filho de Jeoaquim […] fosse o anel de selar na minha mão direita, eu dali o arrancaria” (Jr 22.24).

É digno de nota que, em todos os avivamentos da religião que conhecemos, Deus parece ter usado muito pouco a eloquência humana, mesmo quando possuída por homens piedosos. As suas próprias verdades vigorosas, anunciadas com simples bom senso, ainda que em linguagem caseira, têm sido o meio geral da convicção e da conversão dos pecadores. A eloquência e o saber humanos têm sido empregados muitas vezes com êxito na defesa das fortificações externas do cristianismo; mas a simplicidade e a verdade preservaram a cidadela. Devemos ter cuidado ao apelar para os pagãos, por mais eminentes que sejam, em favor da moral, porque muita coisa se pode recolher deles do outro lado. Do mesmo modo, devemos tomar cuidado ao citar os pais da igreja como prova das doutrinas do evangelho, porque quem os conhece melhor sabe que, em muitos desses assuntos, eles sopram ora quente, ora frio.

Na maioria das igrejas cristãs parece haver um só ofício, o de pregador, e um só dom, aquele pelo qual ele professa pregar. Os apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres (cf. Ef 4.11) estão todos reunidos na classe dos “pregadores”; e muitos a quem Deus não deu senão o dom da exortação tomam textos para explicá-los, e assim perdem o tempo e estragam o seu ministério.

“Não adulterando a palavra de Deus” (cf. 2Co 4.2): não usando as doutrinas do evangelho para servir a algum propósito secular ou carnal; não esvaziando a sua força com explicações, de modo a atenuar ou desculpar o pecado; não generalizando os seus preceitos de modo a dispensar muitos, em circunstâncias particulares, da obediência, especialmente naquilo que mais contrariava as suas inclinações. Havia em Corinto quem a manipulasse com engano desse modo, e ainda há muitos assim sob as vestes de ministros cristãos: pessoas que disfarçam aquela parte do seu credo que, embora creiam que vem de Deus, as tornaria impopulares; que afetam moderação para conseguir um público maior e um sustento mais amplo; que não atacam os vícios dominantes e populares; que chamam a dissipação da mente de descanso, e os prazeres mundanos e carnais de diversões inocentes etc. Numa palavra, que viram com a maré e mudam com o vento da opinião popular, do preconceito, da moda etc.

A verdade de Deus deve ser pregada a todos os membros da igreja de Deus de modo que todos recebam aumento de graça e de vida, para que cada um, em qualquer estado em que esteja, avance no caminho da verdade e da santidade. Na igreja de Cristo há pessoas em vários estados: o descuidado, o penitente, o morno, o tentado, o inseguro, a criancinha, o jovem e o pai. Quem tem talento para a edificação de apenas uma dessas classes não deve ficar muito tempo num lugar, do contrário todo o corpo não poderá crescer em todas as coisas sob o seu ministério.

O pregador que tem a mente bem abastecida de verdades divinas e um juízo sólido adaptará os seus discursos às circunstâncias e aos estados dos seus ouvintes. Quem prega o mesmo sermão a todas as congregações dá a prova mais plena de que, por melhor que fale, não é um escriba instruído no Reino dos Céus (cf. Mt 13.52).

Ao pregar sobre parábolas e comparações, deve-se ter grande cuidado em descobrir o seu objetivo e o seu propósito, e as grandes circunstâncias principais pelas quais o autor ilustra os seus assuntos.

Todo pregador da palavra de Deus deve tomar cuidado para que seja a mensagem de Deus o que entrega ao povo. Que não suponha que, por estar de acordo com o seu credo ou a sua confissão de fé, é palavra de Deus. Falsas doutrinas e falácias sem fim são impingidas ao mundo desse modo. Leve primeiro o credo à palavra de Deus e examine escrupulosamente se ele está certo; e, feito isso, deixe-o onde quiser; tome a Bíblia e advirta o povo pela palavra de Deus ali registrada.

Evite parafrasear um livro ou uma carta inteira numa série de discursos; é tedioso e muitas vezes produz muitos que dormem.

De alguém da casa real de Jorge III recebi a seguinte anedota: “O falecido bispo F., de Salisbury, tendo conseguido que um jovem de habilidades promissoras pregasse diante do rei, e tendo o jovem, segundo a avaliação de sua senhoria, se saído bem, o bispo, conversando depois com o rei e querendo saber a opinião de sua majestade, tomou a liberdade de dizer: ‘Vossa majestade não acha que o jovem que teve a honra de pregar diante de vossa majestade promete ser um bom clérigo e fez esta manhã um sermão muito bom?’. Ao que o rei, com o seu jeito franco, respondeu prontamente: ‘Pode ter sido um bom sermão, meu senhor, pelo que sei; mas não considero bom nenhum sermão que não tenha nada de Cristo’”. [N. do T.: provavelmente John Fisher, bispo de Salisbury de 1807 a 1825.]

Em 1790 a Conferência se reuniu em Bristol, a última presidida por aquele eminentíssimo homem de Deus, John Wesley, que parecia ter a mente particularmente impressionada com a necessidade de fazer alguma regra permanente que tendesse a diminuir o trabalho excessivo dos pregadores, o qual ele via encurtar a vida de muitos homens úteis. Numa reunião particular com alguns dos pregadores principais e mais antigos, realizada no escritório do sr. Wesley para preparar os assuntos da Conferência, ele propôs que se fizesse uma regra pela qual nenhum pregador pregasse três vezes no mesmo dia. Os srs. Mather, Pawson, Thompson e outros disseram que isso seria impraticável, já que era absolutamente necessário, na maioria dos casos, que os pregadores pregassem três vezes todo domingo, sem o que os lugares não poderiam ser atendidos. O sr. Wesley respondeu: “Isso tem de ser abandonado; vamos perder os nossos pregadores com esse trabalho excessivo”. Eles responderam: “Todos nós fizemos isso, e o senhor, mesmo em idade avançada, continuou a fazê-lo”. “O que eu fiz”, disse ele, “está fora de questão. A minha vida e as minhas forças estiveram sob uma Providência especial; além disso, sei melhor do que eles como pregar sem me prejudicar; e ninguém pode pregar três vezes por dia sem se matar, mais cedo ou mais tarde; e o costume não continuará.” Eles não insistiram mais, vendo que ele estava decidido; mas, afinal, o enganaram, alterando a ata assim, quando foi para a impressão: “Nenhum pregador pregará mais três vezes no mesmo dia (à mesma congregação)”. Com essa cláusula, a ata ficou inteiramente anulada. Quem prega o evangelho como deve tem de fazê-lo com toda a força do corpo e da alma; e quem empreende um trabalho desses três vezes todo domingo encurtará infalivelmente a vida com isso. Quem, em vez de pregar, conversa com o povo, apenas fala de coisas boas ou conta uma história religiosa, nunca se prejudicará com tal ocupação. Tal pessoa não trabalha na palavra e no ensino (cf. 1Tm 5.17): conta a sua história, e, assim como ele prega, a sua congregação crê, e os pecadores ficam como ele os encontrou.

Vá dos joelhos para a capela. Obtenha uma renovação da sua comissão cada vez que for pregar, num senso renovado do favor de Deus. Leve a sua autoridade para anunciar o evangelho de Cristo não na mão, mas no coração. No púlpito, seja sempre solene; não diga nada que faça a congregação rir. Lembre-se de que você está falando para a eternidade, e a leviandade é incompatível com assuntos tão tremendos quanto o grande Deus, a agonia e a morte de Cristo, os tormentos do inferno e a bem-aventurança do céu.

Nunca assuma ar de importância no púlpito: você está num lugar tremendo, e Deus odeia o orgulhoso. Nunca seja barulhento nem dogmático. A autoconfiança logo levará ao esquecimento da presença de Deus, e então você falará as suas próprias palavras, e talvez no seu próprio espírito também.

Evite todas as atitudes esquisitas e extravagantes: todos os acenos de cabeça estranhos, as inclinações ridículas e os empertigamentos do corpo, os pulos de um lado para outro do púlpito, o franzir das sobrancelhas e todo outro ar teatral ou afetado que tenda a desonrar o púlpito e a tornar você desprezível. Nunca sacuda nem agite o lenço; isso é abominável. Nem o enfie no peito; isso é inconveniente. Não fique olhando ao redor para a congregação. Procure ganhar a atenção dela. Lembre-a da presença de Deus.

Anuncie a página e a métrica do hino, e o próprio hino, com clareza e em voz plena. Enquanto ora, mantenha os olhos fechados: nesse momento você não tem nada a ver com os objetos exteriores; os assuntos mais importantes estão em jogo entre Deus e você, e ele deve ser contemplado com os olhos da mente. Se quer que o povo se una a você nesta parte do culto, fale de modo a ser ouvido, até no começo. Sussurrar pedidos a Deus pode ser elegante, pelo que sei; mas tenho certeza de que não serve para edificação. Nas suas orações, evite longos prefácios e rodeios; você não encontra nada disso na Bíblia. Alguns adquiriram o costume de cumprimentar o Altíssimo pela dignidade da sua natureza e pela glória dos seus céus; isso você deve evitar com cuidado. Leia o seu texto com clareza e comece a falar mais ou menos no meio do seu registro de voz, não só para ser facilmente ouvido, mas para poder subir ou descer conforme a ocasião exigir. Nunca deixe a voz cair no fim da frase; isso é bárbaro e intolerável.

Tenha certeza de ter bem organizado na mente o assunto do seu texto antes de subir ao púlpito, para não ficar confuso enquanto fala. Mas cuidado com o excesso de divisões e subdivisões; por esses meios a palavra de Deus tem sido levada a dizer alguma coisa, qualquer coisa ou nada, segundo o credo ou o preconceito do pregador. Seja qual for o modo como você trate o seu texto, tome cuidado, depois de esgotar o seu assunto, para não voltar a ele. Aplique tudo o que for importante à medida que avança; e, quando terminar, aprenda a parar. Há alguns que cantam hinos longos e fazem orações longas só para preencher o tempo; isso é uma profanação chocante dessas ordenanças sagradas e tende diretamente a trazê-las ao desprezo.

Enquanto estiver no púlpito, recomendando a salvação de Deus, procure sentir a verdade que prega e difunda uma animação divina por todas as partes. Assim como o pregador parece pregar, o povo ouve e crê. Pode ter como verdade incontestável que nenhum dos seus ouvintes será mais tocado pelo seu discurso do que você mesmo. Um pregador apático e morto faz uma congregação apática e morta.

Fuja de todas as controvérsias sobre política, e especialmente dessa desonra do púlpito que é a pregação política. Já vi isso fazer muito mal; mas, embora a tenha ouvido muitas vezes, nunca soube de um caso em que fizesse bem.

Uma ou duas frases de oração afetuosa em diferentes partes do discurso têm uma tendência maravilhosa a animá-lo e a fazer o povo ouvir com interesse e atenção.

Nunca imite ninguém, por mais eminente que seja em piedade ou em capacidade ministerial. Cada um tem o seu forte, como se diz; e, se ficar dentro dele, é inexpugnável.

Uma bela aparência e uma bela voz encobrem muitas fraquezas e defeitos e recomendam com força e vigor o que se diz, ainda que não seja notável pela profundidade do pensamento ou pela solidez do raciocínio. Muitos oradores populares têm pouco além da sua pessoa e da sua voz para recomendá-los.

Quando batizar, que seja, se possível, diante da congregação, e não na sacristia nem em particular. Aproveite a ocasião para explicar em poucas palavras a sua natureza e a sua importância, tanto à congregação quanto aos pais; e insista na presença pessoal destes, para que você possa dar-lhes as orientações e as exortações que o caso exige quanto a criar os filhos na disciplina e na admoestação do Senhor (cf. Ef 6.4). E cuide de que todos os que batizar sejam devidamente registrados; e que o livro de registro seja guardado no lugar mais seguro, porque é de grande importância; e, em todos os casos em que um registro de batismo possa ser aplicado, esses registros são provas completas perante a lei. Ao ministrar o sacramento da Ceia do Senhor, seja profundamente reverente e devoto em toda a sua postura. Despeje o vinho nos cálices sem pressa e tome cuidado para não derramar uma só gota. Derramar o vinho na toalha é, para dizer o mínimo, muito inconveniente e deselegante. Segure com firmeza tanto o pão quanto o cálice até sentir que o comungante os segurou com você.

A única pregação que vale alguma coisa na avaliação de Deus, e que o fogo não queimará (cf. 1Co 3.13), é a que trabalha para pôr o pecador sob convicção e convencê-lo do seu pecado, para levá-lo à contrição por ele, para convertê-lo dele; para levá-lo ao sangue da aliança, a fim de que a sua consciência seja purificada da culpa; ao Espírito de juízo e de ardor, a fim de que seja purificado do seu contágio; e então para edificá-lo na sua santíssima fé, fazendo-o orar no Espírito Santo e manter-se no amor de Deus, esperando a misericórdia do nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna (cf. Jd 20-21). Este é o sistema seguido pelos apóstolos, e é o único que Deus aprovará para a conversão dos pecadores. Falo pela experiência de quase cinquenta anos no ministério público da palavra. Este é o modo mais provável de produzir a alma ativa da teologia, enquanto o corpo é pouco mais que o credo do pregador.

O homem que prega numa linguagem que o povo não pode compreender pode servir para ator de teatro ou para charlatão, mas não para ministro de Cristo.

Como é tolo o pregador que usa palavras finas e difíceis na sua pregação, que, embora admiradas pelos superficiais, não transmitem instrução nenhuma à multidão!

Um modo duro e insensível de pregar as promessas do evangelho e um modo sorridente de apresentar os terrores do Senhor são igualmente censuráveis. Alguns pregadores são sempre severos e magistrais; outros são sempre brandos e insinuantes. Nenhum desses pode fazer a obra de Deus; e seriam precisos dois desses para fazer um pregador.

Como deve ser imprudente o pregador que traz com frequência ao seu povo questões abstratas sobre direitos civis e injustiças civis, política partidária, razões de Estado, erros financeiros, prerrogativas reais, direito divino dos reis, questões sobre as quais se podem dizer mil coisas a favor e contra! E, afinal, um homem sábio e desapaixonado acha extremamente difícil, depois de ouvir os dois lados, decidir a qual deve aderir por dever e por interesse.

A retórica ou oratória é estudada por muitos muito mais do que a teologia. Um fluxo abundante e elegante de linguagem, palavras de som esplêndido, epítetos imponentes e figuras e comparações impressionantes são procurados em toda parte, para formar frases harmoniosas e períodos bem torneados. Assim se introduz na igreja de Cristo uma linguagem empolada, mal chamada de oratória. Mas, quando as suas palavras são analisadas, por mais musicalmente que estejam dispostas, descobre-se que não têm força; de modo que uma dúzia dessas expressões trabalhará em vão para produzir uma só ideia impressionante que possa iluminar o entendimento, corrigir o juízo ou persuadir a consciência a odiar o pecado ou amar a justiça. “Como são persuasivas as palavras retas!” (Jó 6.25) nunca pode ser aplicado a esses sermões. Eles podem agradar aos levianos e superficiais, mas não edificam o santo nem levam convicção ao peito do pecador. E o que mais os desacredita e envergonha é que são flores roubadas vergonhosamente dos jardins alheios.

Os ministros que vivem repetindo “Vocês estão mortos, vocês estão mortos; há pouco ou nenhum cristianismo entre vocês” etc. etc. são um contágio numa igreja e espalham desolação e morte por onde passam. É muito melhor dizer, nesses casos: “Vocês perderam terreno, mas não perderam todo o seu terreno. Poderiam estar muito mais adiantados, mas, por misericórdia, ainda estão no caminho. O Espírito de Deus está entristecido com vocês, mas é evidente que não os abandonou. Vocês não andaram na luz como deveriam, mas o seu candelabro ainda não foi removido, e a luz ainda brilha. Vocês não têm muito zelo, mas têm um pouco. Em suma, Deus ainda luta com vocês, ainda os ama, ainda espera para lhes ser gracioso; tomem coragem, recomecem, venham a Deus por meio de Cristo; creiam, amem, obedeçam, e logo encontrarão dias mais benditos do que jamais experimentaram”. Exortações e encorajamentos desse tipo certamente produzem os efeitos mais benditos; e, sob eles, a obra de Deus infalivelmente se aviva.

Fique o mais possível no seu alojamento, para ter tempo para oração e estudo.

Quem conhece o valor do tempo, e o resgata da conversa fiada inútil e das visitas frívolas, encontrará o bastante para todos os propósitos da sua própria salvação, do cultivo da sua mente e da obra do ministério.

Aquele para quem o tempo não é precioso, e que não vive com regra, nunca encontra tempo suficiente para nada; está sempre embaraçado, sempre com pressa, e nunca é capaz de levar a bom termo um só bom propósito.

Raramente frequente as mesas dos ricos ou dos grandes. Se o fizer, isso será inevitavelmente um laço para você: a unção de Deus perecerá da sua mente, e a sua pregação será apenas uma repetição seca e estéril de coisas velhas. O pão de Deus nas suas mãos será como as crostas secas e bolorentas dos gibeonitas, mencionadas em Josué (Js 9.5). Visite o povo e fale-lhe da sua alma tanto e tão frequentemente quanto puder; mas não fique à mercê de todo convite para sair a comer um pedaço de pão. Se não seguir este conselho, não fará bem nenhum, não receberá bem nenhum e evaporará por completo a sua influência e a sua importância.

Tenho noções tão elevadas do mérito literário, e das distinções acadêmicas a que ele dá direito, que não daria em consciência, nem faria dar em meu favor, nenhum passo para possuir um ou para assumir as outras. Toda coisa desse tipo deve vir não só sem ser comprada, mas sem ser solicitada. Eu tanto pensaria em ser erudito por procuração quanto em obter honras acadêmicas por influência; e, se um vintém pudesse me comprar o grau mais alto debaixo do sol, eu não o daria. Não que eu despreze tais honras; creio que, quando dadas por mérito, vêm logo depois das que vêm de Deus. Mas as considero mal colocadas quando conferidas em consequência de influência ou recomendação em que o interessado tenha alguma parte, próxima ou remota.

Os compêndios de teologia (Bodies of Divinity), eu os desaprovo de todo o coração: tendem a substituir a Bíblia e, independentemente disso, são extremamente perigosos. Muitas vezes dão noções falsas, trazem o seu próprio tipo de provas para confirmar essas noções e, pelo seu modo de citar textos isolados das Escrituras, pervertem muito o verdadeiro sentido da palavra de Deus. Esta é a minha opinião sobre eles: os ministros que pregam a partir deles enchem a cabeça dos seus ouvintes de conhecimento sistemático. [N. do T.: Body of Divinity era o título comum dos compêndios de teologia sistemática da época.]

Nas línguas mortas, é bom escolher os melhores autores e estabelecê-los como modelos de composição pura e elegante, porque em tais línguas não se pode esperar maior excelência. Mas nas línguas que continuam vivas o caso é muito diferente: elas ainda podem ser aperfeiçoadas e polidas, e por isso nenhum escritor deve ser posto como modelo de excelência insuperável. Por que, por exemplo, a língua inglesa não pode esperar escritores que superem Addison, Steele, Johnson, Spenser, Shakespeare, Milton e Pope tanto quanto estes superaram os seus antecessores? Certamente a língua inglesa e o gênio britânico, apesar da sua excelência quase sem rival, ainda são capazes de maior perfeição.

O bom pastor não guardará para si o que tem, como um avarento, para agradar à sua fantasia; nem negociará com isso, como um comerciante, para se enriquecer; mas, como um pai generoso ou um dono de casa, o distribuirá com mão liberal, embora judiciosa, para o consolo e o sustento de toda a família celestial.

O estudante que se levanta tarde é preguiçoso e raramente se tornará um verdadeiro erudito; e quem fica acordado até tarde da noite não só queima a vela da vida nas duas pontas, mas põe um ferro em brasa no meio.

O povo. Sejam muito cautelosos em receber más notícias contra aqueles cuja função é pregar aos outros e corrigir os seus vícios. Não considerem um presbítero culpado de nenhum crime alegado, a não ser que seja provado por duas ou três testemunhas (cf. 1Tm 5.19). A lei de Moisés exigia isso em relação a todos. Entre os romanos, um plebeu podia ser condenado pelo depoimento de uma única testemunha digna de crédito; mas eram necessárias duas para condenar um senador. A razão dessa diferença é evidente: os que têm a função de corrigir os outros em geral têm muitos inimigos; por isso se deve ter grande cautela ao admitir acusações contra tais pessoas.

Deus exige que o seu povo ore pelos seus ministros, e não admira que os que não oram pelos seus pregadores não recebam nenhum benefício do seu ensino. Como podem esperar que Deus envie uma mensagem por meio daquele por quem eles, os mais interessados, não oraram? Se a graça e o Espírito de Cristo não valem as orações mais fervorosas que alguém pode oferecer, eles, e o céu a que conduzem, não valem a pena ser tidos. Até o êxito dos apóstolos dependia, de certo modo, das orações da igreja. Poucas congregações cristãs sentem, como deveriam, que é seu dever indeclinável orar pelo êxito do evangelho, tanto entre elas quanto no mundo. A igreja é fraca, escura, pobre e imperfeita porque ora pouco.

Há pessoas que não estão dispostas a conceder as coisas necessárias à vida aos que velam por elas no Senhor. Pois há gente assim até na igreja cristã! Se os pregadores do evangelho fossem tão mesquinhos com o pão da vida quanto algumas congregações e sociedades cristãs são com o pão que perece; e se o pregador lhes desse um alimento espiritual tão vil, tão mesquinho e tão escasso quanto o sustento temporal que lhe dão, a alma delas teria, sem dúvida, quase uma fome do pão da vida.

São Paulo sustenta que o pregador do evangelho tem direito ao seu sustento, e provou isso pela lei, pelo evangelho e pelo senso comum e consentimento dos homens (cf. 1Co 9.7-14). Se alguém que não trabalha recebe o seu sustento da igreja de Deus, isso é não só um furto doméstico, mas um sacrilégio. Quem dá o seu tempo a esse trabalho tem direito ao sustento seu e da sua família. Os que recusam ao trabalhador o seu salário são condenados por Deus e pelas pessoas de bem. Como muitos são generosos com os lugares públicos de diversão, ou com alguma caridade popular onde o seu nome certamente será divulgado, enquanto o homem que vela pela sua alma é alimentado com a mão mais mesquinha! Não abaterá Deus esse orgulho e não repreenderá essa dureza de coração?

Contribuam para o sustento do homem que se dedicou à obra do ministério e que dá o seu tempo e a sua vida para pregar o evangelho. Parece que alguns dos crentes da Galácia conseguiam receber o ministério cristão sem contribuir para o seu sustento (cf. Gl 6.6). Isso é ingrato e vil. Não esperamos que um professor comum dê o seu tempo para ensinar o alfabeto aos nossos filhos sem ser pago por isso; e podemos supor que seja justo alguém se sentar sob a pregação do evangelho para se tornar sábio para a salvação por ela, sem contribuir para o sustento do mestre espiritual? É injusto.

Que todas as igrejas, todas as congregações de cristãos, das quais os seus ministros e pregadores não podem exigir nada por lei, e para as quais o Estado não faz provisão alguma, se perguntem: “Tratamos esses homens de modo digno de Deus e digno da profissão que fazemos? Deixamos que lhes falte o pão que perece, enquanto eles nos ministram, com mão nada avara, o pão da vida?”. Que certa classe de pessoas religiosas, que se reconhecerá ao ler isto, considere se, quando os seus pregadores lhes ministraram durante o seu tempo certo ou fixo e são chamados a ir servir outras igrejas, elas os enviam de modo digno de Deus, fazendo uma provisão razoável para a viagem que são obrigados a fazer. No ministério itinerante dos apóstolos, parece que cada igreja arcava com as despesas do apóstolo até a igreja ou o distrito seguinte aonde ele ia pregar a palavra da vida. Assim deveria ser ainda na missão e no ministério itinerante.

Vi muitos ministros idosos e esgotados reduzidos a grande necessidade e quase literalmente obrigados a mendigar o pão entre aqueles cuja opulência e cuja salvação eram, sob Deus, fruto do seu ministério! Essas pessoas podem pensar que prestam serviço a Deus contestando “os dízimos, como instituições legais há muito abolidas”, enquanto deixam os seus ministros esgotados morrer de fome. Mas como comparecerão naquele dia em que Jesus disser: “Tive fome, e vocês não me deram de comer; tive sede, e vocês não me deram de beber; estava nu, e vocês não me vestiram” (cf. Mt 25.42-43)?

A religião que não nos custa nada não vale nada para nós.

É privilégio das igrejas de Cristo sustentar entre elas o ministério do seu evangelho. Os que não contribuem com a sua parte para o sustento do ministério do evangelho ou não se importam nada com ele, ou não tiram dele bem nenhum.

Nada pode ser mais razoável do que dedicar ao serviço de Deus uma porção do bem terreno que recebemos da sua livre misericórdia, sobretudo quando, fazendo isso, servimos essencialmente a nós mesmos. Se os ministros de Deus dão todo o seu tempo, os seus talentos e as suas forças para velar pelo povo, trabalhar por ele e instruí-lo nas coisas espirituais, a justiça exige que recebam da obra o seu sustento. Como há de ser sem valor e perverso o homem que está sempre recebendo bens das mãos do Senhor sem devolver nenhuma parte para o sustento da verdadeira religião e para fins caridosos! A esses Deus diz: “Que a mesa deles se torne em laço diante deles” (Sl 69.22), e que ele amaldiçoará as suas bênçãos (cf. Ml 2.2). Deus espera de cada pessoa retribuições de gratidão desse modo: quem tem muito deve dar com abundância; quem tem pouco deve se esforçar para dar desse pouco.

É uma honra ter permissão de fazer qualquer coisa para o sustento do culto público; e há de ter um coração estranho, insensível e ímpio quem não considera um alto privilégio ter na casa de Deus uma pedra posta ou obtida por ele. Com que facilidade se poderiam levantar todos os edifícios necessários ao culto público, se o dinheiro gasto em autoindulgência desnecessária por nós mesmos, pelos nossos filhos e pelas nossas filhas fosse dedicado a esse fim! Com sacrifícios desse tipo, a casa do Senhor logo seria edificada, e a pedra de remate seria posta “em meio a aclamações: ‘Haja graça e graça para ela!’” (Zc 4.7).

Embora eu estivesse quase exausto pelo trabalho do dia anterior, insistiram que eu pregasse em Lisburn às onze, já que era a sua reunião trimestral. Em vão argumentei e protestei. Disseram: “Certamente o senhor veio para pregar; por que não haveria de pregar em toda oportunidade?”. “Preciso descansar.” “Certamente o senhor pode descansar depois de pregar!” Respondi: “Tenho de pregar amanhã em Lurgan e terei pouco tempo para descansar”. “Ah, quanto mais o senhor pregar, mais forças terá.” “Vim para cá por causa da saúde e do descanso.” “Ah, descanse quando voltar para casa.” “Não consigo descansar em casa, porque tenho lá mais trabalho do que consigo dar conta.” “Então”, disseram eles, “o senhor terá descanso no túmulo.” Dou este exemplo da irreflexão e da insensibilidade de muitas pessoas religiosas, que pouco se importam com a rapidez com que os seus ministros se esgotam, porque acham os seus trabalhos excessivos confortáveis para a própria mente; e, se o pregador morrer por causa dos seus esforços extraordinários, têm este consolo: “Deus pode logo levantar outro”. [N. do T.: Lisburn e Lurgan ficam no Ulster, norte da Irlanda, região natal de Clarke.]

Nenhum mestre deve ser exaltado acima de outro ou oposto a ele. Assim como o olho não podia dizer à mão: “Não preciso de você” (cf. 1Co 12.21), assim o luminoso Apolo não podia dizer ao laborioso Paulo: “Posso edificar e preservar a igreja sem você” (cf. 1Co 3.4-6). Como o pé plantado no chão para sustentar todo o edifício, como as mãos que se movem em liberdade e como o olho que está continuamente recebendo os objetos próximos e distantes são todos necessários ao todo, e mutuamente úteis e dependentes uns dos outros, assim também são os diferentes ministros e membros da igreja de Cristo.

A doutrina e o mestre mais prezados e seguidos pelos homens mundanos e pela multidão alegre, estouvada e vistosa não vêm de Deus. Têm sabor da carne, não impõem restrições, não prescrevem carregar a cruz e deixam cada um na plena posse das concupiscências do seu coração e dos pecados que facilmente o assediam. E por esses sinais se reconhecem facilmente a falsa doutrina e os falsos mestres.

Felizes os que, ao ouvir falar da salvação de Cristo, se apegam imediatamente ao seu Autor! As demoras são sempre perigosas e, neste caso, muitas vezes fatais. Leitor, alguma vez lhe foi apontado Cristo como sacrifício pelo seu pecado? Se foi, você o seguiu? Se não, você não está no caminho para o Reino de Deus. Não perca mais um momento! A eternidade está próxima, e você não está preparado para encontrar o seu Deus. Ore para que ele alarme a sua consciência e desperte a sua alma para buscar até encontrar.

Se você está perguntando a sério onde Cristo mora, tome o seguinte como resposta: ele não mora no tumulto dos negócios mundanos, nem nas assembleias profanas, nem nos prazeres mundanos, nem no lugar onde os bêbados proclamam a sua vergonha, nem no descuido e na ociosidade. Mas ele se encontra no seu templo, onde dois ou três estão reunidos em seu nome; na oração secreta, na renúncia de si mesmo, no jejum, no exame de si mesmo. Ele mora também no espírito humilde e contrito, no espírito de fé, de amor, de perdão e de obediência universal. Numa palavra, ele mora no céu dos céus, para onde graciosamente se propõe levar você, se você vier aprender dele e receber a salvação que ele comprou para você com o seu próprio sangue.

A igreja ou capela em que os cegos e os coxos não são curados não tem Cristo dentro dela e não merece ser frequentada.

Os que vêm aos lugares de culto público sob a influência do Espírito de Deus certamente encontrarão aquele que é o consolo e a salvação de Israel.

A alma que aprecia a palavra de Deus está sempre crescendo na graça por meio dela.

Os que se julgam superiores a todos os outros em piedade, entendimento etc., enquanto são duros, censuradores e autoritários, provam que não têm o amor que “não se ressente do mal” (1Co 13.5) e que, aos olhos de Deus, são apenas “como o bronze que soa ou como o címbalo que retine” (1Co 13.1). Não há gente mais censuradora ou menos caridosa do que a que se encontra entre certos religiosos que alegam ter mais luz e uma comunhão mais profunda com Deus. Em geral são levados por uma espécie de fraseologia sublime e altissonante que parece mostrar um conhecimento maravilhosamente profundo das coisas divinas. Despojados disso, muitos deles são como Sansão sem o cabelo (cf. Jz 16.19-20).

A simples pregação do evangelho fez muito para convencer e converter os pecadores; mas a vida dos seguidores sinceros de Cristo, como ilustração da verdade dessas doutrinas, fez muito mais. A verdade representada na ação parece tomar corpo e assim se torna palpável. Nos países pagãos que estão sob o domínio de potências cristãs, o evangelho, embora estabelecido ali, faz pouco bem por causa da vida profana e irreligiosa dos que o professam. Por que toda a península da Índia não foi há muito evangelizada? O evangelho foi pregado ali; mas a vida dos europeus que professam o cristianismo ali foi, em geral, devassa, sórdida e vil. Deles não ecoou boa fama do evangelho; e por isso os maometanos continuam a preferir o seu Alcorão, e os hindus os seus Vedas e Shastras, à Bíblia.

Não suponham que não precisam de instrução contínua; sem ela vocês não podem preservar a vida cristã nem avançar para a perfeição. Deus sempre enviará uma mensagem de salvação, por meio de cada um dos seus ministros, a todo ouvinte fiel e atento. Não suponham que já são sábios o bastante; vocês não são mais sábios o bastante do que são santos o bastante. Os que desprezam ou negligenciam os meios de graça, e especialmente a pregação da santa palavra de Deus, são em geral pessoas vaidosas, vazias e presunçosas, e muito superficiais tanto em conhecimento quanto em piedade.

“Sempre aprendendo e nunca conseguindo chegar ao conhecimento da verdade” (cf. 2Tm 3.7). Ainda há muitos que professam o cristianismo e correspondem à descrição acima. Ouvem, ouvem repetidamente, talvez, bons sermões; mas, como raramente meditam no que ouvem, tiram pouco proveito das ordenanças de Deus. Não têm mais graça agora do que tinham há vários anos, embora estivessem ouvindo o tempo todo, e talvez sem se afastar perversamente do Senhor. Não meditam, não pensam, não põem em prática o que ouvem; por isso, mesmo sob a pregação de um apóstolo, não poderiam se tornar sábios para a salvação.

Se o alimento mais nutritivo fosse recebido no estômago sem se misturar com os sucos acima mencionados, seria antes meio de morte do que de vida; ou, nas palavras do apóstolo, não traria proveito, porque não foi assim misturado (cf. Hb 4.2). [N. do T.: Dunn parece ter omitido a frase anterior do comentário de Clarke, onde ele falava dos sucos digestivos. A imagem depende da King James, not being mixed with faith, “não sendo misturada com a fé”; a NAA diz “não foram unidos por meio da fé”.] A fé na palavra pregada, em relação ao Deus que a enviou, é o grande meio de ela se tornar o poder de Deus para a salvação da alma. Não é provável que quem não dá crédito a uma ameaça, quando vem a ouvi-la, seja dissuadido por ela de repetir o pecado contra o qual ela se dirige; nem pode tirar consolo de uma promessa quem não crê nela como penhor da veracidade e da bondade de Deus. A fé, portanto, tem de ser misturada a tudo o que ouvimos, para tornar a palavra de Deus eficaz para a nossa salvação.

A semente do Reino nunca pode produzir muito fruto em coração nenhum enquanto os espinhos e os cardos dos afetos viciosos e dos desejos impuros não forem arrancados pela raiz e queimados.

É muito difícil levar a Cristo um homem de mente mundana e justo aos próprios olhos. Os exemplos significam pouco para ele. Insista no exemplo de um santo eminente, e ele desanima. Mostre-lhe um pecador devasso convertido a Deus, e ele tem vergonha de reconhecê-lo e segui-lo; e, quanto à conduta da maioria dos seguidores de Cristo, ela não é marcante o bastante para impressioná-lo.

Quantos dos que se chamam cristãos deixam perder-se o Reino, as graças e a salvação que tinham nas mãos, enquanto negros das Índias Ocidentais, índios americanos, politeístas hindus e hotentotes ateus obtêm a salvação!

Muitos, depois de cumprir o seu dever, como dizem, frequentando um lugar de culto, esquecem a missão que os levou ali e passam o tempo, na volta, antes em conversa fiada do que em ler a palavra de Deus ou conversar sobre ela. Não admira que estejam sempre “aprendendo e nunca conseguindo chegar ao conhecimento da verdade”.

Não é, portanto, a nação, a família, a profissão, o modo ou a forma de culto que o Deus justo considera, mas o caráter, o estado do coração e a conduta moral (cf. At 10.34-35). Pois o que são as profissões etc. aos olhos daquele Deus que prova os espíritos e pesa as ações? Ele procura a graça que deu, as vantagens que concedeu e o aproveitamento de tudo isso. Observe-se ainda que ninguém pode ser aceito por esse Deus justo se não viver à altura das vantagens do estado em que a Providência o pôs.

É possível alguém dar crédito aos quatro evangelistas e, ainda assim, viver e morrer como incrédulo, no que diz respeito à sua própria salvação.

Deus diz ao que jura e ao profano: “Não tome o nome do Senhor, seu Deus, em vão” (Êx 20.7); e, no entanto, o juramento comum e a profanação são escandalosamente comuns entre multidões que levam o nome cristão e que presumem da misericórdia de Deus para chegar por fim ao Reino dos Céus! Ele diz também: “Lembre-se do dia de sábado, para o santificar. Não mate. Não cometa adultério. Não furte. Não dê falso testemunho. Não cobice” (cf. Êx 20.8-17); e sanciona todos esses mandamentos com as penas mais terríveis. E, no entanto, com todas essas coisas diante de si, e com a crença professa de que vieram de Deus, encontram-se às centenas e aos milhares profanadores do dia de descanso, homicidas, adúlteros, fornicadores, ladrões, desonestos, falsas testemunhas, mentirosos, caluniadores, maledicentes, cobiçosos, “mais amigos do mundo do que amigos de Deus” (cf. 2Tm 3.4)! O que foram os crimes do pobre rei egípcio meio cego, comparados com estes? Ele pecou contra um “Deus” relativamente “desconhecido” (cf. At 17.23); estes pecam contra o Deus dos seus pais, contra o Deus e Pai daquele a quem chamam seu Senhor e Salvador, Jesus Cristo! Pecam com a Bíblia na mão e com a convicção da sua autoridade divina no coração. Pecam contra a luz e o conhecimento, contra os freios da consciência, as repreensões dos amigos e as advertências dos mensageiros de Deus; contra Moisés e Arão na lei, contra o testemunho de todos os profetas, contra os evangelistas, os apóstolos, o Criador do céu e da terra, o Juiz de todos e o Salvador do mundo! O que foram os crimes de Faraó comparados com os crimes destes? Na comparação, o seu átomo de torpeza moral se perde no mundo de iniquidade deles. E, no entanto, quem supõe que estes estejam sob algum decreto que os obrigue a continuar pecando e a ir para a perdição? Nem estão; nem estava Faraó. Em todas as coisas Deus provou que tanto a sua justiça quanto a sua misericórdia são claras neste ponto.

Tomarei agora a liberdade de lhes dar algumas orientações sobre como ouvir a palavra com proveito.

Procurem ter a mente profundamente impressionada com o valor da palavra de Deus.

Se possível, reservem alguns minutos para a oração particular antes de ir à casa de Deus, para suplicar ao seu trono uma bênção sobre a sua própria alma e sobre a congregação.

Quando chegarem à capela, considerem-na como a casa de Deus, a morada do Altíssimo; que ele está ali para abençoar o seu povo, e que vocês não podem agradá-lo mais do que estando dispostos a receber as abundantes misericórdias que ele está pronto a comunicar.

Misturem toda a sua audição com oração.

Ouçam com fé. Recebam as Escrituras como palavras de Deus.

Recebam o pregador como embaixador de Deus, enviado particularmente a vocês com uma mensagem de salvação. Escutem com atenção cada parte do sermão; há uma porção para vocês em algum lugar dele. Ouçam tudo, e certamente discernirão o que lhes pertence.

Não suponham que conhecem sequer todas as linhas gerais do plano da salvação. Há uma altura, um comprimento, uma largura e uma profundidade nas coisas de Deus de que vocês ainda têm uma ideia muito inadequada.

Não pensem que este ou aquele pregador não pode instruí-los. Ele pode ser, relativamente falando, um pregador fraco; mas o mais humilde servo enviado por Deus sempre será dirigido a trazer aos cristãos mais sábios e mais santos alguma coisa que eles ainda não conheceram ou desfrutaram plenamente.

Nunca se ausentem da casa de Deus quando puderem de algum modo comparecer. Considerem quão grande é a bênção de que gozam! O que daria uma alma condenada pelo privilégio de se sentar cinco minutos no lugar de vocês, para ouvir Jesus pregado, com a mesma possibilidade de ser salva?

Não repartam a palavra com o seu vizinho; ouçam para vocês mesmos. Repartam com ele as suas roupas, o seu dinheiro, o seu pão etc., mas não repartam a palavra pregada.

Considerem que este pode ser o último sermão que lhes será permitido ouvir.

Considerem que a bênção de vocês não consiste em lembrar os tópicos, as divisões etc., mas em sentir a influência divina.

Terminado o sermão, vão para casa o mais depressa que puderem e passem alguns momentos de joelhos em oração particular. Meditem no que ouviram.

Orem pelos seus pregadores, para que Deus os encha da unção do seu Espírito.

E, quando lerem as Santas Escrituras, considerem que é a palavra de Deus que estão lendo e que a fidelidade dele está empenhada em cumprir tanto as suas promessas quanto as suas ameaças.

Leiam a Bíblia inteira, e leiam-na em ordem: dois capítulos do Antigo Testamento e um do Novo por dia, se puderem dispor de tempo.

Pensem que os olhos de Deus estão sobre vocês enquanto leem; e lembrem-se de que a palavra não é enviada a pessoas determinadas, como que pelo nome, e não pensem que não têm parte nela porque não são nomeados ali. Ela não é enviada assim: é dirigida a tipos particulares de pessoas, aos santos, aos pecadores, aos mundanos, aos orgulhosos etc. Por isso, examinem o seu próprio estado, vejam a qual desses tipos pertencem e então apliquem a vocês mesmos a palavra dirigida a esse tipo; porque ela é dita a vocês tão certamente quanto se o seu nome estivesse impresso na Bíblia, posto ali pela própria inspiração divina.

Quando encontrarem uma ameaça e souberem, pelo seu próprio estado, que essa palavra terrível é dita contra vocês, parem e implorem a Deus, pelos sofrimentos e pela morte do seu Filho, que perdoe o pecado que os expõe ao castigo ameaçado. Quando encontrarem uma promessa feita aos penitentes, aos tentados, aos aflitos etc., tendo descoberto o seu próprio caso, parem e implorem a Deus que cumpra essa promessa.

Se descobrirem, ao se examinar, que a ameaça foi afastada por terem se voltado para Deus, e que a promessa foi cumprida pela sua fé em Cristo, parem também aí e deem graças a Deus. Assim encontrarão sempre, na leitura do Livro de Deus, matéria para despertar o arrependimento, exercitar a fé, produzir confiança e consolo e gerar gratidão; e a gratidão nunca deixará de gerar obediência.

É sempre útil ler uma porção das Escrituras antes da oração, seja feita em família, seja no quarto.

Mantenham os olhos da mente firmemente fixos naquele que é o Fim da Lei e a Soma do Evangelho.

Que as Escrituras, portanto, os levem àquele Espírito Santo pelo qual foram inspiradas; que esse Espírito os leve a Jesus Cristo, que os resgatou pela sua morte; e que esse Cristo os leve ao Pai, para que ele os adote na família do céu. E assim, ensinados por ele, justificados pelo seu sangue e santificados pelo seu Espírito, vocês serão salvos com todo o poder de uma vida sem fim (cf. Hb 7.16).

Notas de Samuel Dunn

1. “Foram selecionados poucos trechos da Carta a um pregador do Doutor. Presume-se que os que se interessarem pelo conteúdo deste capítulo comprarão esse interessante folheto. Ele merece a atenção de todos os ministros do evangelho e é inestimável para os pregadores metodistas. S. D.” ↩

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Adam Clarke, Christian Theology, selecionada e organizada por Samuel Dunn (Londres, Thomas Tegg and Son, 1835), exemplar digitalizado pelo Google (Universidade de Illinois). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).