Capítulo XXIV

Ricos e pobres

Páginas 318 a 323 da edição de 1835

A felicidade tem de ter a sua sede na mente e, como ela, ser de natureza espiritual; por consequência, os bens terrenos não podem dá-la. Estão tão longe de produzi-la ou obtê-la que sempre geram cuidados e ansiedade, e muitas vezes brigas e contendas.

A abundância é um caminho escorregadio; poucos jamais andaram por ele sem cair. É possível ser fiel na riqueza injusta (cf. Lc 16.11), mas é muito difícil. Ninguém deve desejar riquezas, porque elas trazem consigo tantos laços e tentações que são quase impossíveis de administrar (cf. 1Tm 6.9). Os ricos, mesmo quando piedosos, raramente são felizes: não desfrutam as consolações da religião. Um homem bom, dono de propriedades muito extensas e irrepreensível em todo o seu procedimento, disse-me certa vez: “Deve haver nas riquezas alguma estranha malignidade, para me manterem assim em escravidão contínua e me privarem das consolações do evangelho”. Talvez a uma pessoa para quem as suas propriedades são um laço se apliquem literalmente as palavras do nosso Senhor: “Venda o que você tem, dê aos pobres e você terá um tesouro no céu; e venha, tome a cruz e siga-me”. Mas ele “retirou-se triste, porque era dono de muitas propriedades” (cf. Mc 10.21-22)! [N. do T.: “tome a cruz” está na King James de Mc 10.21; a NAA não traz essas palavras.]

Ser rico é, em geral, uma grande desgraça. Mas que rico pode ser convencido disso? Só o próprio Deus, por um milagre de misericórdia, pode fazê-lo.

O homem piedoso tem de poupar tanto o tempo quanto o dinheiro. Antes de se converter, perdia muito tempo e esbanjava o seu dinheiro. Tudo isso ele agora poupa, e por isso necessariamente haverá bens e riquezas na sua casa (cf. Sl 112.3). E, se ele não socorrer as necessidades dos pobres, elas continuarão a se acumular até se tornarem a sua maldição, ou Deus, pela sua Providência, as varrerá.

O que é você, ó rico? Ora, você é um administrador a quem Deus deu bens para que os reparta com os pobres. Eles são os verdadeiros donos de cada centavo que você tem de sobra, além do seu próprio sustento e do da sua família; e Deus lhe deu o excedente por causa deles. Ao acumular esse tesouro, você priva os verdadeiros donos da sua propriedade? Se fosse um caso civil, a lei o agarraria pelo pescoço e o poria na prisão. Mas é um caso em que só Deus julga. E o que ele fará com você? Ouça! “O juízo é sem misericórdia sobre quem não usou de misericórdia” (Tg 2.13). Leia, sinta, trema e aja com justiça.

Na ordem de Deus, o rico e o pobre vivem juntos e se ajudam mutuamente (cf. Pv 22.2). Sem os pobres, os ricos não poderiam ser supridos dos artigos que consomem, porque os pobres incluem todas as classes trabalhadoras da sociedade. E, sem os ricos, os pobres não teriam saída para o produto do seu trabalho, nem, em muitos casos, o próprio trabalho. Os pobres têm mais tempo para trabalhar do que exigem as simples necessidades da vida. O seu tempo extra é empregado em produzir uma multidão de coisas que se chamam os supérfluos da vida e que os ricos, especialmente, consomem. Todo o tempo do pobre é assim empregado, e o rico lhe paga esse trabalho extra. O rico não deve desprezar o pobre, sem o qual não pode ter os seus confortos nem manter a sua posição. O pobre não deve invejar o rico, sem o qual não poderia conseguir emprego nem as coisas necessárias à vida. Os dois estados estão na ordem da Providência de Deus, e os dois são igualmente importantes aos seus olhos. Considerados simplesmente como seres humanos, Deus ama o simples artesão ou trabalhador tanto quanto ama o rei, embora o ofício deste, por fazer parte do plano do seu governo do mundo, seja de importância infinitamente maior que o ofício do pobre artesão. Nenhum deve desprezar o outro; nenhum deve invejar o outro. Ambos são úteis, ambos importantes, ambos absolutamente necessários ao bem-estar e ao sustento um do outro, e ambos prestam contas a Deus da maneira como cumprem os deveres da vida que ele lhes designou. Os pobres em extremo, os que estão privados de saúde e de meios de vida, Deus na prática os põe à porta do rico, para que sejam sustentados pelo que lhe sobra. Como é sábia a ordenação que fez o rico e o pobre! Pena que não seja mais bem entendida! As grandes posses em geral vêm acompanhadas de orgulho, ociosidade e luxo, e estes são os maiores inimigos da salvação.

Que opinião deveríamos formar de um rico que, numa coleta para uma caridade pública, jogasse só um punhado de moedinhas?

Que cegueira é alguém entesourar o que tem necessariamente de perecer (cf. Mt 6.19)! Um coração destinado a Deus e à eternidade se degrada terrivelmente ao se fixar nas coisas sujeitas à corrupção. “Mas não podemos juntar tesouros inocentemente?” Sim: 1. se você puder fazê-lo sem pôr nele o coração, o que é quase impossível; e 2. se não houver viúvas nem órfãos, nem pessoas desamparadas ou aflitas, no lugar onde você mora.

A todo aquele que professa o cristianismo, a religião de Jesus Cristo diz com a maior autoridade: “Reparta com todo aquele que está apertado pela pobreza o que a Providência de Deus não tornou absolutamente necessário ao seu próprio sustento”.

Rico é aquele que ganha tudo o que pode, poupa tudo o que pode e guarda tudo o que ganhou. Fale, razão! Fale, consciência! (pois Deus já falou): pode uma pessoa assim entrar no Reino de Deus? Todos: Não! [N. do T.: parece haver aqui uma alusão às três regras de Wesley no sermão “O uso do dinheiro” (ganhe tudo o que puder, poupe tudo o que puder, dê tudo o que puder); o rico descrito cumpre as duas primeiras e troca a terceira por “guarde tudo o que ganhou”.]

O homem do mundo não pode ser verdadeiramente religioso. Quem dá o seu coração ao mundo rouba-o de Deus e, ao tentar agarrar a sombra do bem terreno, perde a bem-aventurança substancial e eterna.

Os ricos opulentos, cheios de sensualidade e mimados com as boas coisas desta vida, só se ocupam do que comerão, do que beberão, de como se divertirão e se distrairão e de com que se vestirão, segundo as mudanças sem fim das modas fantasiosas e fúteis. Estão ocupados demais, ou brutalmente felizes demais, para atender ao chamado do evangelho; e, porque ele perturbaria os seus prazeres, odeiam a religião, desprezam um Salvador crucificado e os homens que proclamam a salvação somente pelo seu nome.

Quem, por maior que fosse a sua autoridade ou as suas qualificações, conseguiu causar muitas impressões favoráveis na alma dos poderosos, e particularmente dos ricos e opulentos, de modo a deter a torrente da impiedade da moda e estabelecer entre eles a “forma” da piedade, ou, se já estabelecida, impregná-la do “poder” da piedade (cf. 2Tm 3.5)?

Nem o bem nem o mal podem ser conhecidos pelos acontecimentos desta vida. Tudo prova a certeza de um estado futuro e a necessidade de um dia de juízo. Os que costumam tomar os acidentes (sobretudo se as vítimas são pessoas de quem não gostam) como sinais do desagrado divino só mostram ignorância das dispensações de Deus e uma malevolência de espírito que de bom grado se armaria com os trovões celestes para atravessar aqueles que consideram seus inimigos.

“Bem-aventurados os pobres!” (cf. Lc 6.20). Esta é a palavra de Deus; mas quem crê nela? Não dizemos: “Antes, bem-aventurado o rico”?

Uma pessoa pode estar gravemente aflita e, mesmo assim, ter os olhos voltados para o bem temporal. Das suas aflições ela não pode tirar proveito algum, embora muitos pensem que a sua glorificação tem de ser consequência necessária das suas aflições. Por isso não é raro ouvirmos entre os pobres aflitos: “Bem, não vamos sofrer aqui e no outro mundo também!”. As aflições podem ser o meio de nos preparar para a glória, se durante elas recebermos graça para salvar a alma. Mas as aflições em si mesmas não têm nenhuma tendência espiritual ou salvadora; ao contrário, azedam a mente não regenerada e provocam murmurações contra as dispensações da Providência divina. Olhemos, pois, para Deus, para que elas sejam santificadas; e, quando o forem, então poderemos dizer com exultação: “A nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um eterno peso de glória, acima de toda comparação” (2Co 4.17). Ó mundo vindouro, em troca do presente! Ó eternidade, por um momento! Ó comunhão eterna na vida santa, bendita e eterna de Deus, pelo sacrifício de uma vida pobre, miserável e corrompida aqui na terra!

Tive ocasião de observar, em muitos milhares de casos, ao longo das observações de uma longa vida feitas em várias partes, que a verdadeira religião avança tão pouco entre os miseravelmente pobres quanto entre os opulentamente ricos. Os primeiros, cheios de incredulidade, baixeza de espírito e amargura que os consome, nem oram a Deus nem se importam em ouvir falar da provisão que ele fez para a sua salvação. Quem jamais conseguiu espalhar a religião com muito êxito entre os ocupantes de um asilo paroquial de pobres?

E agora, vocês, pobres: levantem-se, sacudam a poeira (cf. Is 52.2) e clamem ao Senhor. A sua miséria presente não vem ou da sua preguiça, ou do abuso das misericórdias já recebidas? Deus pode restaurar a sua sorte (cf. Sl 126.4). Examinem o coração, humilhem-se diante dele; quem sabe se ele não voltará a vocês com misericórdias, e a sua esperança não será frustrada para sempre (cf. Sl 9.18)?

Sejam prudentes; sejam cautelosos; não comam, não bebam, não vistam senão o que pagarem. Não vivam a crédito, porque esse é o caminho de pagar em dobro; e por esse meio os pobres continuam pobres. Quem compra fiado, mesmo comida ou roupa, sem ter meios prováveis de pagar a dívida, é desonesto. Não é pecado morrer por falta das coisas necessárias à vida quando a Providência de Deus negou os meios de sustento; mas é pecado levar mercadorias sem a probabilidade de poder pagá-las. Pobre homem! Suporte um pouco a pobreza; talvez Deus esteja apenas provando você por algum tempo; e quem sabe se ele não restaurará a sua sorte? Trabalhe duro para viver honestamente; se Deus ainda parecer negar a bênção da sua providência, não se desespere; deixe tudo com ele; não faça uma escolha pecaminosa; ele não pode errar. Ele abençoará a sua pobreza, enquanto amaldiçoa as bênçãos do ímpio.

Os mais pobres podem praticar as obras de misericórdia e de caridade, já que até “um copo de água fria”, dado em nome de Jesus, não perderá a sua recompensa (cf. Mt 10.42). Como é espantosa a bondade de Deus! Não são só os ricos que ele chama a ser caridosos, mas até os pobres, e os mais empobrecidos dos pobres!

Quase nunca podemos falar de pobreza e de aflição em sentido absoluto: elas são apenas comparativas. Até os pobres são chamados a socorrer os que são mais pobres que eles, e os aflitos a consolar os que estão mais aflitos que eles. As igrejas pobres e aflitas da Macedônia sentiram esse dever e, por isso, se apresentaram, até o limite das suas forças, para socorrer os seus irmãos mais empobrecidos e aflitos da Judeia (cf. 2Co 8.1-4).

“Fui moço e agora sou velho, porém jamais vi o justo desamparado, nem a sua descendência a mendigar o pão” (Sl 37.25). Creio que isso é literalmente verdade em todos os casos. Eu mesmo já tenho cabelos brancos, viajei por diferentes países e tive muitas oportunidades de ver pessoas religiosas e conversar com elas em todas as situações da vida; e não vi, que eu saiba, um só caso em contrário. Não vi nenhum justo desamparado, nem filhos de justos mendigando o pão. Deus confere essa honra a todos os que o temem, e tal é o cuidado que tem deles e da sua descendência.

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Adam Clarke, Christian Theology, selecionada e organizada por Samuel Dunn (Londres, Thomas Tegg and Son, 1835), exemplar digitalizado pelo Google (Universidade de Illinois). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).