O processo da tentação costuma ser este: 1. Um simples pensamento mau. 2. Uma imaginação forte, ou uma impressão feita na imaginação pela coisa para a qual somos tentados. 3. O prazer em contemplá-la. 4. O consentimento da vontade para praticá-la. Assim a cobiça é concebida, o pecado se consuma e a morte é gerada (cf. Tg 1.15).
A tentação faz parte da nossa guerra cristã; e Jesus, nosso Senhor e Modelo, foi tentado, e duramente tentado; e, pela sua tentação, nos mostrou como podemos frustrar o nosso adversário e glorificar o nosso Deus no dia de tal provação.
Uma pessoa pode ser tentada, e estar em estado de tentação, sem entrar nela. “Entrar nela” significa ceder, aderir a ela e abraçá-la. Entrou na tentação aquele que sente o coração inclinado a ela e agiria de acordo, se o tempo, o lugar e a oportunidade o permitissem. Cristo foi tentado até a adorar o diabo; mas não entrou em nenhuma das tentações do seu adversário: veio o príncipe deste mundo e nada encontrou nele (cf. Jo 14.30), nenhuma natureza má por dentro que se juntasse à tentação má de fora. [N. do T.: Clarke segue a King James, hath nothing in me, “nada tem em mim”; a NAA traz “ele não tem poder sobre mim”.] Ora, uma pessoa pode estar à beira de cair por algum pecado poderoso e cercado de circunstâncias favoráveis; pode estar nela; mas a ajuda oportuna de Deus pode socorrê-la e impedi-la de entrar na tentação; e assim um toco de lenha é tirado do fogo (cf. Zc 3.2). Ela foi aquecida, e até chamuscada por ele, mas foi salva do ato devastador e ruinoso.
A tentação que nos desvia pode ser tão repentina quanto bem-sucedida. Podemos perder num só momento o fruto de uma vida inteira! Com que frequência isso acontece, e quão poucos o levam a sério! Uma pessoa pode cair por meio do seu entendimento, tanto quanto por meio das suas paixões.
Vocês têm muitos inimigos, astutos e fortes; muitas provações, grandes demais para as suas forças naturais; muitas tentações a que nenhum poder humano é capaz de resistir com êxito; muitos deveres a cumprir que não podem ser realizados pela força humana; por isso vocês precisam de força divina; precisam ter poder, e precisam ser fortalecidos em toda parte e fortificados de todos os modos por esse poder; fortalecidos com poder e com toda a eficácia.
Saber quando lutar e quando fugir é de grande importância na vida cristã. Algumas tentações devem ser enfrentadas com coragem, resistidas e assim vencidas; de outras devemos fugir. Quem para a fim de discutir ou argumentar, especialmente num caso como o que aqui se menciona, está infalivelmente arruinado. Principiis obsta, “resista às primeiras investidas do pecado”, é uma boa máxima. Os remédios posteriores chegam tarde demais.
Ninguém, por mais santo que seja, está isento de tentação; porque Deus manifestado na carne foi tentado pelo diabo.
Ser tentado até às maiores abominações (enquanto a pessoa resiste) não é pecado; porque Cristo foi tentado a adorar o diabo.
O estado da nossa saúde física e das nossas circunstâncias materiais pode dar ao nosso adversário muitas oportunidades de nos fazer um mal imenso.
Devemos fechar os sentidos aos objetos perigosos, para evitar a ocasião de pecar. Não há tentação que seja irresistível pela sua própria natureza ou por circunstâncias favoráveis. Deus prometeu esmagar até Satanás debaixo dos nossos pés (cf. Rm 16.20).
O medo de ser tentado pode se tornar um laço muito perigoso. As pessoas muitas vezes se separam de algum membro do corpo, a critério de um cirurgião, para preservar o tronco e morrer um pouco mais tarde; e, no entanto, não se privam de um olhar, de um toque, de um pequeno prazer, que expõem a alma ao perigo da morte eterna.
Força humana e fraqueza humana são apenas nomes na religião. O homem mais poderoso, na hora da provação, não pode fazer nada sem a força de Deus; e a mulher mais fraca pode fazer todas as coisas, se Cristo a fortalecer (cf. Fp 4.13).
Não cedam à tentação. Não é pecado ser tentado; o pecado está em ceder. Enquanto o pecado existe só na solicitação de Satanás, é pecado do diabo, não nosso; quando cedemos, fazemos do pecado do diabo o nosso pecado; então entramos em tentação (cf. Mt 26.41).
Devemos estar em guarda contra os chamados pequenos pecados e contra todas as ocasiões e incitações ao pecado. Tenham cuidado com as companhias que frequentam. Uma coisa aparentemente inofensiva pode levar, por elos quase imperceptíveis, a pecados da mais profunda gravidade.
O melhor modo de frustrar o adversário é pela “espada do Espírito, que é a palavra de Deus” (Ef 6.17).
Quem, pela graça de Deus, resiste à tentação e a vence sempre sai melhor dela.
Uma medida mais que comum de consolação divina será a consequência de cada vitória.
Talvez nada contribua tanto para revelar o que somos quanto as provações, venham elas dos homens ou dos demônios.
As provações, as decepções, os insultos e as necessidades dos seguidores de Cristo se tornam, nas mãos do Deus todo-sábio, instrumentos dos seus melhores interesses; por isso nada lhes pode acontecer sem que tirem proveito disso, a não ser por culpa própria.
A vantagem das provações é nos fazer conhecer a nossa fraqueza, de modo a nos obrigar a recorrer a Deus pela fé em Cristo.
As provações põem à prova a religião e todas as graças de que ela se compõe; quem permanece firme nessas provações dá prova de que a sua religião é sólida, e a evidência que isso oferece à sua própria mente o leva a tomar coragem, suportar com paciência e perseverar.