Capítulo XXVIII

As aflições

Páginas 391 a 398 da edição de 1835

Todas as pessoas, na vida presente, hão de estar frequentemente em perigo, em necessidade e em tribulação. Perigos dos quais não podem escapar pelas próprias forças ou pela própria sabedoria; necessidades que nenhuma prudência ou previdência delas pode suprir; e tribulações pelas quais lhes será impossível passar, a não ser que tenham a ajuda divina, tanto nas águas quanto no fogo (cf. Is 43.2).

O trabalho do dia, em várias ocupações da vida, é feito em situações perigosas. A mineração, em que se empregam centenas de milhares de pessoas, é um tecido de perigos; a cada momento a vida está exposta a mortes iminentes e variadas, pelo chamado grisu e pelos desabamentos de partes do poço sobre os mineiros. Os que viajam por terra ou por água não estão menos expostos. Nas diligências comuns, os acidentes não são só frequentes, mas muitas vezes mortais: os relatórios semanais dos registros públicos estão cheios de pormenores de tais desgraças. Os que viajam por água estão ainda mais expostos que os que viajam por terra. No mar, nunca há mais do que algumas polegadas de tábua entre qualquer pessoa e a morte. Numa rajada repentina, um navio pode facilmente soçobrar; numa ventania que sopra para uma costa a sotavento, pode logo ser despedaçado, e toda a tripulação se perder. Um navio pode abrir um rombo que nenhum esforço ou habilidade consiga tapar; e, depois de um trabalho incrível da tripulação, encher-se de água e ir a pique, e todas as pessoas serem entregues a uma sepultura de água. Quando o tempo esteve escuro e tempestuoso por vários dias, de modo que não se pôde fazer nenhuma observação, e o cálculo da rota, por causa das marés contrárias e desencontradas, foi necessariamente imperfeito, o navio, numa atmosfera nebulosa, pode avistar terra com brisa ou ventania, de noite ou de dia, e ser despedaçado de repente. Eu mesmo presenciei alguns desses estados de perigo. Além desses, há uma multidão de outros perigos que acompanham inevitavelmente a vida no mar e que, em numerosos casos, destroem a vida humana. Que necessidade de um Preservador Todo-Poderoso!

Conheci pessoas que, tentando sair do caminho de carroças e carruagens, correram de fato para dentro do perigo. Conheci uma que, andando pela calçada, foi esmagada contra o muro pela roda de uma carroça. Vi uma mulher que, esforçando-se por ver o espetáculo de uma iluminação, caiu de uma mansarda e se despedaçou no calçamento. Vi um homem que tinha bebido demais cavalgando furiosamente: o cavalo caiu, e ele morreu ali mesmo. Vi outro que, entrando em terreno proibido, foi morto a tiro ali mesmo. Conheci outro que caiu de um barranco e estava morto antes que pudessem levantá-lo. Em suma, conheci muitos que correram para vários tipos de perigo e pagaram a sua imprudência, a sua temeridade, ou o que se chamava “acidente”, com a perda da vida. Ao atravessar as ruas de Londres, ou de outras grandes cidades e vilas, lembremo-nos do provérbio: “Há sempre duzentas jardas a mais de espaço atrás de uma carruagem do que à frente dela”. Disso muitos se esquecem tristemente e atravessam as ruas públicas na frente de cavalos e carruagens a trote largo; e não poucos perderam a vida ou um membro por essa loucura.

Assim como a religião de Cristo não dá trégua ao vício, os viciosos não darão trégua a essa religião nem aos que a professam.

Pode alguém que se diz aluno ou discípulo de Jesus Cristo esperar ser bem tratado pelo mundo? Não amará o mundo o que é seu, e só o que é seu (cf. Jo 15.19)? Por que, então, tanta impaciência nos sofrimentos, um sentimento tão excessivo das ofensas, tanta suscetibilidade? Pode você esperar do mundo algo melhor do que o que recebe? Se quer a honra que vem dele, abandone Jesus Cristo, e ele o receberá de novo no seu seio. Mas sem dúvida você calculará o custo antes de fazer isso. Faça o contrário, abandone o amor ao mundo etc., e Deus o receberá.

Se, para agradar a um pai ou a um irmão que se opõem à piedade vital, abandonamos as ordenanças de Deus e os seus seguidores, não somos dignos de nada senão do inferno.

Não é prova certa do desagrado de Deus que um povo inteiro, ou um indivíduo, se encontre em estado de grande opressão e aflição; nem a abundância e a prosperidade são sinais certos da sua aprovação. Deus certamente amava mais os israelitas do que os egípcios; e, no entanto, os primeiros estavam na mais profunda adversidade, enquanto os segundos estavam no auge da prosperidade.

Embora a religião seja frequentemente perseguida, e as pessoas religiosas sofram a princípio onde não são bem conhecidas, um caráter verdadeiramente religioso e benevolente será em geral apreciado onde quer que seja bem conhecido. A inveja das pessoas é prova da excelência daquilo que elas invejam.

Leitor, seja grato a Deus, que, tendo pena da sua fraqueza, o chamou para crer e desfrutar, e não para sofrer por amor dele. Não nos cabe cobiçar tempos de martírio; achamos difícil ser fiéis até nas provações comuns; contudo, como os escândalos podem vir, e podem ocorrer tempos de dura provação e prova, devemos estar preparados para eles; e devemos saber que nada menos que Cristo em nós, a esperança da glória (cf. Cl 1.27), nos capacitará a ficar firmes no dia nublado e escuro. Vistamo-nos, portanto, com toda a armadura de Deus (cf. Ef 6.11); e, lutando sob o Capitão da nossa salvação, esperemos a rápida destruição de todo inimigo interior, e triunfemos na certeza de que a morte, o último inimigo (cf. 1Co 15.26), será em breve, nas suas destruições, levada a um fim perpétuo. Aleluia! “Pois reina o Senhor, nosso Deus, o Todo-Poderoso” (Ap 19.6). Amém e amém.

As comunicações eminentes do favor divino preparam para grandes serviços e grandes combates, e dão direito a eles.

19 de janeiro de 1830. O meu propósito é suportar os males e as calamidades da vida com menos dor de espírito; se sofrer injustiça, deixar que Deus me faça justiça; não murmurar contra nenhuma disposição da sua Providência; suportar a ingratidão e a falta de bondade como coisas inteiramente fora do meu controle, e por isso coisas pelas quais não devo me afligir; e, ainda que amigos e confidentes falhem, depender mais do meu Amigo Eterno, que nunca pode falhar e que fará todas essas coisas cooperarem para o bem dos que forem maltratados (cf. Rm 8.28).

Não é provável que Deus, que preservou você por tanto tempo, e o alimentou e sustentou durante toda a sua vida, cingindo-o quando você não o conhecia, esteja menos disposto agora a salvá-lo e a prover para você e para os seus do que estava quando você provavelmente confiava menos nele. Aquele que o fez, e deu o seu Filho para resgatá-lo, nunca pode ser indiferente ao seu bem-estar; e, se lhe deu poder para orar e confiar nele, é de algum modo provável que esteja agora procurando uma ocasião contra você, para destruí-lo? Acrescente-se a isso: a própria luz que mostra a sua miséria, a sua ingratidão e a sua desobediência é, em si mesma, prova de que ele está esperando para ter misericórdia de você (cf. Is 30.18); e as dores de arrependimento que você sente, e o seu amargo pesar pela sua infidelidade, provam que a luz e o fogo foram acesos pelo próprio Deus e são enviados para guiar e purificar, não para expulsá-lo do caminho e destruí-lo. Nem lhe teria ele contado tais coisas do seu amor, da sua misericórdia, da sua bondade e da sua relutância em destruir os pecadores, como lhe contou na sua Palavra Sagrada, se estivesse decidido a não estender a você a sua misericórdia.

Muitos foram humilhados pelas aflições e ensinados a conhecer a si mesmos e a se humilhar diante de Deus, e provavelmente sem isso nunca poderiam ter sido salvos; depois disso, foram sérios e fiéis. A aflição santificada é uma grande bênção; não santificada, é uma maldição a mais.

Às vezes há uma espécie de necessidade de que os seguidores de Deus sejam afligidos. Quando não têm provações, tendem a ficar descuidados; e, quando têm prosperidade material, tendem a se tornar mundanos. “Deus”, disse um homem bom, “não pode me confiar nem saúde nem dinheiro; por isso sou pobre e aflito.” Mas os discípulos de Cristo podem ser muito felizes na alma, ainda que gravemente afligidos no corpo e nos bens.

Deus pode levar os seus seguidores a apertos e dificuldades severos, para que tenham melhor oportunidade de conhecer e de mostrar a sua própria fé e obediência, e para que ele aproveite essas ocasiões para lhes mostrar a abundância da sua misericórdia e assim confirmá-los na justiça todos os seus dias. Há entre algumas pessoas religiosas um ditado tolo, que não pode ser censurado com severidade suficiente: “Graça não provada não é graça”. Pelo contrário, pode haver muita graça, ainda que Deus, por boas razões, não ache conveniente submetê-la por algum tempo a nenhuma provação ou prova severa. Mas a graça certamente não é plenamente conhecida senão quando é chamada a provas de obediência severa e dolorosa. Mas, como todos os dons de Deus devem ser usados (e são aumentados e fortalecidos pelo exercício), seria injusto negar provações e exercícios à graça, porque isso seria privá-la das oportunidades de ser fortalecida e aumentada.

Deus nunca permite que sobrevenha aos seus seguidores nenhuma tribulação que ele não pretenda transformar em proveito deles. Quando permite que passemos fome, é para que a sua misericórdia se veja melhor quando nos provê as coisas necessárias à vida. As privações, no curso da Providência, são precursoras de misericórdia e de bondade abundantes.

Multidões que condenam a conduta deste miserável rei egípcio agem de modo semelhante. [N. do T.: o faraó do Êxodo; o trecho vem do comentário de Clarke sobre as pragas do Egito.] Elas se abrandam quando sentem a dor dos juízos de Deus, mas endurecem o coração quando esses juízos são removidos. Tenho presenciado numerosos casos desse tipo. A essas pessoas Deus diz pelo seu profeta: “Por que vocês ainda haveriam de ser castigados? Vocês se rebelarão cada vez mais” (cf. Is 1.5). Leitor, não estão sobre você os votos feitos a Deus? Muitas vezes, quando você ou a sua família estavam aflitos, você não disse, como Faraó: “Perdoa o meu pecado ainda esta vez” e “tira de mim somente esta praga mortal” (cf. Êx 10.17)? E, no entanto, quando teve alívio, não endureceu o coração e, com a volta da saúde e das forças, não voltou à iniquidade? E não está ainda no caminho largo da transgressão? “Não se enganem: de Deus não se zomba” (Gl 6.7). Ele adverte você, mas não se deixará escarnecer por você. O que você semear, isso terá de colher. Pense, então, na terrível colheita que pode esperar das sementes de vício que já semeou!

Não é sinal de muita graça desejar ir para o céu por causa dos problemas e das dificuldades da vida presente; os que amam a Cristo estão sempre dispostos a sofrer com ele; e ele pode ser tão glorificado pelo sofrimento paciente quanto pela fé mais ativa ou pelo amor mais laborioso. Há tempos em que, por aflição ou por outros impedimentos, não podemos fazer a vontade de Deus, mas podemos sofrê-la; e, nesses casos, ele procura um coração que suporte com submissão, sofra com paciência e persevere como quem vê aquele que é invisível (cf. Hb 11.27), sem queixas nem murmuração. Isso é uma prova tão plena da perfeição cristã quanto o amor mais intenso e ardente. A mansidão, a brandura e a longanimidade são, no nosso estado presente, de mais utilidade para nós mesmos e para os outros, e de mais importância aos olhos de Deus, do que todos os êxtases dos espíritos dos justos aperfeiçoados (cf. Hb 12.23) e todos os arrebatamentos de um arcanjo. A igreja ou sociedade cristã cujos membros manifestam a operosidade da fé, a dedicação do amor e a firmeza da esperança (cf. 1Ts 1.3) é a que está mais próxima do céu, e está nos subúrbios da glória.

Como foram vãs as tentativas dos homens e dos demônios de destruir a luz do evangelho pela perseguição e pela morte! Apesar delas, ela cresceu; e, debaixo delas, floresceu! As portas do inferno, ainda que abertas de par em par para despejar todas as suas hostes, não puderam prevalecer contra ela (cf. Mt 16.18); e a perseguição, como uma boa semeadura a lanço, espalhou a semente da vida eterna pelo mundo inteiro. Os perseguidos iam por toda parte pregando a palavra da verdade do evangelho (cf. At 8.4). E, se os primeiros cristãos não tivessem sido expulsos de Jerusalém pelo fogo da perseguição, humanamente falando, teria passado muito tempo antes que a Síria, a Ásia Menor, a Grécia e a Itália pudessem ouvir as palavras da vida eterna! Satanás e os seus filhos os perseguiram e os expulsaram de cidade em cidade. Um grupo corria e semeava a boa semente do Reino; outro, impelido pela mesma ação, vinha atrás e regava a semente; e Deus continuava a colher uma “seara abundante”. Nunca o diabo, sábio e experiente, errou tanto nos seus cálculos como quando contou com a destruição do cristianismo pelo fogo e pela espada. Sob a sua direção, os judeus se distinguiram em primeiro lugar; e, em vez de derrubar o cristianismo, tropeçaram e caíram, e não se levantaram mais! A Roma pagã seguiu pelo mesmo caminho: a espada, o fogo, o machado, a forca, as garras e os dentes de feras ferozes foram experimentados em vão; e afinal, pelo poder do cristianismo, ela, os seus ídolos e os seus instrumentos de crueldade foram derrotados e derrubados, até o chão. A Roma papal, tendo apostatado do espírito e do poder do evangelho, copiou a sua mãe antiga e perseguiu duramente todos os que sustentavam a verdade de Deus contra as doutrinas corrompidas e as tradições incertas dos homens; mas não prevaleceu. O poder secular e o espiritual se uniram para aniquilar os que testemunhavam contra as suas corrupções e os seus crimes; e agora aquela verdade que fez um protesto solene contra essas corrupções se espalha rapidamente pela terra; e, por meio dela, mais da metade do mundo recebeu aquela luz celestial concentrada na Bíblia que aquela igreja primeiro obscureceu com falsas interpretações e, por fim, arrancou violentamente das mãos do povo. Mas Deus reclamou a sua própria palavra e a entregou à humanidade; e os que não quiseram andar na luz, mas perseguiram até a morte os que andavam nela, estão agora entregues à sua fraqueza, às suas trevas, aos seus ouropéis e à sua tolice naturais; e o seu poder secular foi derrubado para sempre. E, depois de governar a terra com o seu cetro de ferro, ela desapareceu como potência entre as nações da terra! Onde está agora o seu terror? Onde está agora o medo que inspirava? E onde o respeito? O anjo forte levantou a pedra, como “uma grande pedra de moinho”, e a lançou “no mar”, dizendo: “Assim, com ímpeto, será lançada Babilônia, a grande cidade, e nunca mais será achada” (Ap 18.21). Alegrem-se por causa dela, ó céus, e vocês, santos apóstolos e profetas, por causa do sangue de profetas, de santos e de todos os que foram mortos sobre a terra (cf. Ap 18.20,24). Enquanto dizemos: “Ai! Ai desta grande cidade!” (cf. Ap 18.10), oremos para que, enquanto o seu poder anticristão é esmagado e dissolvido, se levante uma Roma cristã, “vestida do sol com a lua debaixo dos pés” (cf. Ap 12.1); e assim, abrilhantada pela sã doutrina, pela santidade sem mancha e pela erudição útil, seja mais uma vez respeitável entre as nações e uma bênção para a terra! Amém! Amém!

Se as pessoas tivessem aqui bem-estar ininterrupto, talvez nem uma só alma buscasse preparar-se para o céu. As provações e as aflições humanas, a guerra geral da vida humana, são a mais alta prova de uma Providência tão benevolente quanto sábia. Se o estado das coisas humanas fosse diferente do que é, o inferno seria mais densamente povoado, e haveria menos habitantes na glória. Há razão para duvidar de que haveria alguma religião sobre a terra se não tivéssemos senão prosperidade temporal.

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Adam Clarke, Christian Theology, selecionada e organizada por Samuel Dunn (Londres, Thomas Tegg and Son, 1835), exemplar digitalizado pelo Google (Universidade de Illinois). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).