Capítulo XXIX

A providência

Páginas 399 a 402 da edição de 1835

Estou plenamente consciente de que Deus tem leis gerais pelas quais governa o universo; eu as vejo em toda a natureza. E creio igualmente que ele tem uma providência geral adequada a essas leis. Mas, como tudo o que é geral implica os particulares de que se compõe, creio que Deus tem as suas leis particulares e, adequada a elas, a sua providência particular, ajustada a cada acontecimento e aplicável a todas as variedades possíveis de pessoas, lugares e circunstâncias; de modo que nada pode ocorrer a que ele não possa adaptar uma influência particular, pela qual esse acontecimento seja de tal modo dirigido, ou contrariado, que se evite o mal e se produza o bem necessário.

E, ainda que houvesse acontecimentos que parecessem não estar sob o controle de nenhuma lei particular, e ainda que não houvesse meios naturais para enfrentá-los, guiar a sua ação ou dirigir a sua má influência, ele é tão soberano que, sem leis e sem meios, pode, pelas volições criadoras da sua própria mente, neutralizar o mal e produzir o bem. [N. do T.: o original diz literalmente “ainda que não houvesse acontecimentos que parecessem estar sob o controle de nenhuma lei particular”; a dupla negação parece descuido do texto impresso, e a tradução segue o sentido evidente.] E isso ele está fazendo constantemente, em inúmeros casos, em resposta à oração. E, de fato, toda resposta à oração é prova tanto dessa providência particular e especial quanto da sua bondade inata e eterna.

Essa providência não é apenas geral, abrangendo a terra e os seus habitantes em conjunto, dando e estabelecendo leis pelas quais todas as coisas serão governadas; é também particular: abrange as muitas ilhas, tanto quanto os vastos continentes; as diferentes espécies, tanto quanto os gêneros; o indivíduo, tanto quanto a família. Assim como todo todo se compõe das suas partes, sem a menor das quais não poderia ser um todo, assim também tudo o que é geral se compõe de particulares. E é pela providência particular de Deus que se forma a providência geral: ele cuida de cada indivíduo e, por isso, cuida do todo. Portanto, a providência geral de Deus se edifica sobre a sua providência particular. E a providência geral não poderia existir sem a particular, assim como um todo não poderia subsistir independentemente das suas partes. É por essa providência particular que Deus governa as muitas ilhas, repara na queda de um pardal (cf. Mt 10.29), recolhe no seu odre as lágrimas de quem chora (cf. Sl 56.8) e conta os cabelos dos seus seguidores (cf. Mt 10.30). Ora, como Deus é um Ser infinitamente sábio e bom, e governa o mundo com sabedoria e bondade, bem pode a terra alegrar-se, e as muitas ilhas exultar (cf. Sl 97.1).

Admite-se que este é um assunto que não pode ser compreendido. E por quê? Porque Deus é infinito: ele age segundo os seus próprios conselhos, que são infinitos, com vistas a fins que também são infinitos; por isso as razões do seu governo não podem ser compreendidas pelas faculdades fracas e limitadas do ser humano.

A providência de Deus em renovar os ermos da natureza e em fecundar extensões estéreis, de modo a fazer do deserto um pomar (cf. Is 32.15), e até das rochas áridas uma superfície de vegetação, é um assunto de assombrosa beleza e engenho; e, como tal, é digno da contemplação dos anjos e dos homens, e é uma prova soberana da existência e do amor da grande Causa Primeira e Preservador de todas as coisas.

Deus dispõe e governa os negócios do universo, descendo aos mínimos pormenores e administrando o grande todo por meio da direção e da influência sobre todas as suas partes. Essa providência particular ou especial não está restrita a agir por leis gerais; ela é sábia e inteligente, porque é a mente, a vontade e a energia de Deus; ela sai dos caminhos comuns e toma direções particulares, conforme o exijam as necessidades humanas infinitamente variadas, ou o estabelecimento e a manutenção da piedade na terra. Aquela Providência divina que ordena e conduz o todo, e sob cuja orientação e controle especial se regula o curso do estado presente, de modo que todas as operações no mundo natural, civil e moral resultem na manifestação da glória, da justiça e da misericórdia do Ser Supremo, fica muito fora da vista das pessoas e é pouco considerada pela maioria. Por isso uma multidão de acontecimentos parece não ter causa inteligente alguma, ou nenhuma adequada para produzi-los; e, como não se dá atenção às operações da mão divina, os historiadores e os biógrafos muitas vezes se inquietam em vão para descobrir as causas e as razões das circunstâncias e das transações que registram.

Com que exatidão tudo acontece na condução da Providência! E com que perfeição tudo se ajusta ao tempo, ao lugar e à ocasião! Tudo está em peso, medida e número. Aquelas simples ocorrências que as pessoas agarram e põem a serviço dos seus próprios desejos, chamando-as de “aberturas providenciais”, podem de fato ser elos de uma cadeia providencial em relação a outros assuntos; mas, a não ser que se veja que falam a mesma linguagem em todas as suas partes, correspondendo uma ocorrência à outra, não devem ser interpretadas como indicações da vontade divina em relação aos que as reivindicam. Muitas pessoas, fracassando por causa desses equívocos, foram levadas a atribuir falta a Deus (cf. Jó 1.22) pelo mau resultado de algum negócio em que as suas paixões, e não a providência dele, as levaram a se meter.

Nada escapa à sua consideração misericordiosa, nem mesmo as menores coisas, das quais se pode dizer que ele é apenas o Criador e o Preservador; quanto menos aqueles de quem ele é o Pai, o Salvador e a Felicidade sem fim!

Não há uma circunstância na nossa vida, nem um acontecimento nos nossos negócios, que Deus não faça servir à nossa salvação, se tivermos um coração simples e um espírito disposto a aprender.

Nada é mais assombroso do que o cuidado e o interesse de Deus pelos seus seguidores. As menores circunstâncias da vida deles são reguladas, não só por aquela providência geral que se estende a todas as coisas, mas por uma providência particular, que ajusta e dirige todas as coisas ao propósito da salvação deles, fazendo-as todas cooperar para o seu bem presente e eterno.

“Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8.31). Aquele que é infinitamente sábio se encarregou de nos dirigir; aquele que é infinitamente poderoso se encarregou de nos proteger; aquele que é infinitamente bom se encarregou de nos salvar. Que astúcia, que força ou que malícia pode prevalecer contra a sua sabedoria, o seu poder e a sua bondade? Nenhuma. Portanto, nós, que amamos a Deus, estamos seguros; e não só não sofreremos dano essencial algum com as perseguições dos ímpios, como até essas coisas cooperam para o nosso bem (cf. Rm 8.28).

A pessoa que Cristo chama de “feliz” é aquela que não está sob a influência do destino ou do acaso, mas é governada por uma providência todo-sábia, que dirige cada um dos seus passos para alcançar a glória imortal, enquanto ela é transformada pelo poder dele à semelhança do Deus eternamente bendito.

A crença numa providência todo-sábia, que tudo dirige, é um poderoso amparo nas mais dolorosas vicissitudes da vida.

Aprenda o ser humano, que foi feito para Deus e para a eternidade, com uma flor do campo, até onde se inclina o cuidado da providência (cf. Mt 6.28-30).

É próprio de um pai sábio e terno prover aos filhos as coisas necessárias, e não as supérfluas. Não esperar as primeiras é uma ofensa à sua bondade; esperar as segundas é uma injúria à sua sabedoria.

A passagem da desconfiança para a apostasia é muito curta e fácil; e quem está insatisfeito com a condução da providência não está longe de murmurar contra ela. Devemos depender de Deus tão plenamente para a preservação dos seus dons quanto para os próprios dons.

Confiar tanto na providência a ponto de não usar as próprias forças e faculdades com que o Ser divino nos dotou é tentar a Deus.

Que Deus prometeu proteger e sustentar os seus servos não admite discussão; mas, como o caminho do dever é o caminho da segurança, eles não têm direito a bem nenhum quando saem dele.

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Adam Clarke, Christian Theology, selecionada e organizada por Samuel Dunn (Londres, Thomas Tegg and Son, 1835), exemplar digitalizado pelo Google (Universidade de Illinois). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).