Muito se tem falado contra a doutrina do chamado livre-arbítrio, por pessoas que parecem não ter entendido o termo. A vontade é um princípio livre. Falar em vontade livre é tão absurdo quanto falar em vontade presa: não é vontade se não for livre; e, se estiver presa, não é vontade. A volição é essencial ao ser da alma e a todos os seres racionais e intelectuais. Esta é a distinção mais essencial entre a matéria e o espírito. A matéria não pode ter escolha; o espírito tem. O raciocínio é essencial ao intelecto, e a volição é inseparável de ambos. Deus trata o ser humano uniformemente como agente livre; e sobre esse princípio se constrói toda a Revelação divina, assim como a doutrina das recompensas e dos castigos futuros. Se uma pessoa é forçada a crer, ela não crê de modo nenhum: é o poder que força que crê, não a máquina forçada. Se é forçada a obedecer, é o poder que força que obedece; e ela, como máquina, mostra apenas o efeito dessa força irresistível. Se o ser humano é incapaz de querer o bem e de querer o mal, é incapaz de ser salvo como ser racional; e, se age apenas sob uma compulsão esmagadora, é igualmente incapaz de ser condenado. Em suma, essa doutrina o reduz ou a um punctum stans, que pela vis inertiae é incapaz de se mover a não ser quando sofre a ação de uma influência externa, ou, como ser intelectual, à não existência. [N. do T.: punctum stans, “ponto imóvel”; vis inertiae, “força de inércia”.]
O poder de querer e o poder de agir têm de vir necessariamente de Deus, que é o Autor tanto da alma quanto do corpo e de todas as suas faculdades e energias; mas o ato de querer e o ato de agir vêm da pessoa. Deus dá o poder de querer, e a pessoa quer por meio desse poder; Deus dá o poder de agir, e a pessoa age por meio desse poder. Sem o poder de querer, a pessoa nada pode querer; sem o poder de agir, nada pode fazer. Deus não quer pela pessoa nem age no lugar dela, mas lhe fornece o poder para fazer as duas coisas; por isso ela presta contas a Deus por essas faculdades.
Só no uso dos meios legítimos temos alguma razão para esperar a bênção e a ajuda de Deus. Um dos antigos observou: “Embora Deus tenha feito o homem sem o homem, não o salvará sem ele”. [N. do T.: a frase é atribuída a Agostinho.] Por isso o concurso da própria vontade humana e a cooperação das suas forças com Deus são essencialmente necessárias à sua preservação e salvação. Essa cooperação é a grande condição, sine qua non, sem a qual Deus não ajudará nem salvará. Mas não é isso tentar merecer a salvação pelas próprias obras? Não; porque isso é impossível, a não ser que pudéssemos provar que todas as faculdades mentais e corporais que possuímos vêm de nós mesmos e por nós mesmos, que as possuímos independentemente do poder e da beneficência do nosso Criador, e que cada ato delas tinha valor infinito, para equivaler ao céu que queríamos comprar. Estender a mão para receber a esmola de um homem generoso nunca pode ser considerado preço de compra da dádiva concedida. Para sempre permanecerá verdadeira, em todas as suas partes, aquela palavra: Cristo “tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem” (Hb 5.9).
Não é por falta de santas resoluções e de influências celestiais que as pessoas não são salvas, mas pela sua própria inconstância: não perseveram, esquecem a necessidade de continuar em oração, e assim o Espírito Santo é entristecido (cf. Ef 4.30), se afasta delas e as deixa entregues às suas próprias trevas e à dureza do seu coração. Quando consideramos as influências celestiais que muitos dos que retrocedem para a perdição (cf. Hb 10.39) recebem, e os bons frutos que por algum tempo produziram, é blasfêmia dizer que não tinham graça genuína ou salvadora. Eles a tinham, mostraram-na, brincaram com ela e pecaram contra ela; e por isso estão perdidos.
Quem é autoconfiante já está meio caído. Quem professa crer que Deus o guardará absolutamente de cair de modo final, e negligencia a vigilância em oração, não está num estado mais seguro. Quem vive momento a momento, anda na luz e mantém a sua comunhão com Deus (cf. 1Jo 1.7) não corre perigo de apostasia.
De que adiantará a qualquer de nós ter chegado perto do céu, se a porta for fechada antes de chegarmos? Que pensamento terrível ter deixado de ser eternamente salvo por pouco! Mirar bem e, mesmo assim, permitir que o diabo, o mundo ou a carne nos impeçam nos últimos poucos passos! Leitor, vigie e seja sóbrio.
Por falta de um pouco mais de dependência de Deus, quantas vezes um excelente começo chega a um fim infeliz! Muitos que estavam nas fronteiras da terra prometida, prestes a atravessar o Jordão, por um ato de infidelidade foram mandados de volta para vagar muitos anos tristes no deserto. Leitor, esteja em guarda. Confie em Cristo e vigie em oração.
Quem muda de opinião em opinião, e de uma seita ou partido para outro, nunca merece confiança; há muita razão para crer que tal pessoa ou é mentalmente fraca, ou nunca foi convencida da verdade de modo racional e divino.
O apóstolo mostra aqui (Hb 3.12-13) cinco graus de apostasia: 1. Consentir no pecado, sendo enganado pelas suas solicitações. 2. A dureza de coração, por ceder ao pecado. 3. A incredulidade, em consequência dessa dureza, que leva a pessoa a pôr em dúvida até a verdade do evangelho. 4. Essa incredulidade, que a leva a falar mal do evangelho e da provisão que Deus fez para a salvação da sua alma. 5. A própria apostasia, ou o afastamento do Deus vivo, extinguindo assim toda a luz que havia nela e, por fim, entristecendo o Espírito de Deus de tal modo que ele vai embora e a deixa entregue a uma consciência cauterizada (cf. 1Tm 4.2) e a uma mente reprovável (cf. Rm 1.28). Quem começa a ceder minimamente ao pecado corre perigo de apostasia final. O melhor remédio contra isso é ter removido o coração mau; porque um assassino dentro de casa é mais de temer do que dez do lado de fora.
Todo crente em Cristo corre perigo de apostasia enquanto se encontram nele restos do coração mau e descrente. Deus prometeu purificar o coração, e o sangue de Cristo purifica de todo pecado (cf. 1Jo 1.7). É, portanto, a mais alta sabedoria dos cristãos genuínos buscar em Deus a completa purificação da sua alma; isso eles não podem ter cedo demais, e por isso não podem se empenhar demais.
Quem pode descrever adequadamente a miséria e a desgraça da alma que perdeu a sua união com a Fonte de todo bem e, ao perdê-la, perdeu a possibilidade da felicidade, até que o olho simples lhe seja dado mais uma vez e a linha reta seja traçada mais uma vez?
Como é estranho que se encontre algum desviado! Que alguém que um dia sentiu o poder de Cristo chegue a se desviar! Mas é ainda mais estranho que alguém que o sentiu, e deu na sua vida e no seu procedimento prova plena de que o sentiu, não só o deixe escapar, mas por fim negue tê-lo tido e até ridicularize a obra da graça no coração! Casos assim têm aparecido entre os homens.
Onde há tantos laços e perigos, é impossível ser vigilante e cauteloso demais. Satanás, como leão que ruge, como serpente astuta ou disfarçado de anjo de luz, anda em derredor a todo momento procurando a quem enganar, cegar e devorar; e, quando se considera que o coração humano, até ser inteiramente renovado, está do lado dele, é um milagre da misericórdia que alguma alma escape da perdição. Ninguém está seguro por mais tempo do que mantém o espírito de vigilância e de oração; e, para manter tal espírito, precisa de todos os meios de graça. Quem negligencia qualquer deles que a misericórdia de Deus pôs ao seu alcance tenta o diabo a tentá-lo. Como preventivo contra o desvio e a apostasia, o apóstolo recomenda a exortação mútua (cf. Hb 3.13). Nenhum cristão deve viver só para si; deve considerar o seu irmão em Cristo como membro do mesmo corpo, sentir por ele de acordo com isso, e amá-lo, socorrê-lo e protegê-lo. Quando se cuida disso com atenção numa sociedade religiosa, Satanás acha muito difícil fazer uma incursão na igreja; mas, quando se instalam a frieza, a distância e a falta de amor fraterno, Satanás pode atacar cada um isoladamente e, por vitórias sucessivas sobre os indivíduos, logo fazer uma conquista fácil do todo.
“Pois aquele que não tem estas coisas” (2Pe 1.9): aquele, seja judeu ou gentio, que professa ter fé em Deus e não acrescentou a essa fé a fortaleza, o conhecimento, o domínio próprio, a perseverança, a piedade, a fraternidade e o amor universal “é cego”; o seu entendimento está obscurecido, e ele vê só o que está perto, fechando os olhos à luz, piscando, incapaz de olhar a verdade de frente e de contemplar aquele Deus que antes sabia estar reconciliado com ele; e assim parece que ele é voluntariamente cego, “e se esqueceu da purificação dos seus antigos pecados”. Por não fazer bom uso da graça que recebeu de Deus, e tendo a sua fé deixado de atuar pelo amor (cf. Gl 5.6), perdeu por fim a convicção de fatos que não se veem (cf. Hb 11.1). Porque, tendo entristecido o Espírito Santo por não proclamar as virtudes daquele que o chamou para a sua maravilhosa luz (cf. 1Pe 2.9), perdeu o testemunho da sua filiação; e então, tendo as trevas e a dureza tomado o lugar da luz e da confiança filial, ele primeiro põe em dúvida toda a sua experiência anterior e se pergunta se não pôs o entusiasmo no lugar da religião. Por esses meios aumentam as suas trevas e a sua dureza, a sua memória se torna indistinta e confusa, até que por fim ele esquece a obra de Deus na sua alma, depois a nega, e por fim afirma que o conhecimento da salvação pela remissão dos pecados é impossível e que ninguém pode ser salvo do pecado nesta vida. De fato, alguns chegam a renegar o Senhor que os resgatou (cf. 2Pe 2.1), a renunciar a Jesus Cristo como aquele que fez expiação por eles, e terminam a sua carreira de apostasia negando completamente a sua divindade. Conheci muitos casos desse tipo; e todos são consequência de os crentes não continuarem a ser cooperadores com Deus (cf. 2Co 6.1) depois de terem experimentado o seu amor perdoador.
Aqui (2Pe 2.22) está uma triste prova da possibilidade de cair da graça, e de graus muito elevados dela. Essas pessoas tinham escapado das contaminações do mundo; tinham tido verdadeiro arrependimento e vomitado “o seu bocado agridoce de pecado”; tinham sido lavadas de toda a sua imundícia, e isso deve ter sido pelo sangue do Cordeiro; e, no entanto, depois de tudo isso, voltaram atrás, se enredaram de novo nos seus antigos pecados, engoliram de novo as concupiscências que antes tinham rejeitado e voltaram a rolar na lama da corrupção. Não é de admirar que Deus diga: “O seu último estado se tornou pior do que o primeiro” (2Pe 2.20). A razão e a natureza dizem: “Tem de ser assim”; e a justiça divina diz: “Deve ser assim”; e a própria pessoa tem de confessar que é justo que seja assim. Mas como é terrível esse estado! Como é perigoso, quando a pessoa se entregou aos seus antigos pecados! Contudo, não se diz que lhe é impossível voltar ao seu Criador; embora o seu caso seja deplorável, não é inteiramente sem esperança: o leproso ainda pode ser purificado, e o morto pode ser ressuscitado. Leitor, o seu desvio é para você um pesar e um fardo? Então você não está longe do Reino de Deus (cf. Mc 12.34): “Creia no Senhor Jesus e você será salvo” (At 16.31).
A alma do desviado, que antes, sob a influência do Espírito de Deus, se dilatava e se expandia sob as suas influências celestiais, torna-se mais capaz de refinamento na iniquidade, já que as suas faculdades são mais amplas do que antes. Os maus hábitos se formam e se fortalecem pelas recaídas; e as recaídas se multiplicam e se tornam mais incuráveis por meio de novos hábitos.
Uma alma separada do rebanho de Deus está num estado terrível! A sua defesa exterior se afastou dela; e, não tendo mais de prestar contas a ninguém pela sua conduta, ela geralmente mergulha em profundezas de iniquidade sem precedentes; e o último estado dessa pessoa se torna pior do que o primeiro (cf. Mt 12.45). Leitor, você está fora do redil da igreja de Deus? Lembre-se de que está escrito: “Os de fora, esses Deus julgará” (1Co 5.13).
As afeições e os desejos do desviado não se ocupam mais das coisas de Deus, mas vagueiam, como um ocioso, entre as vaidades de um mundo que perece. Varridos do amor, da mansidão e de todo o fruto do Espírito; e arrumados, isto é, adornados, decorados, com as bugigangas vãs e vistosas da tolice e da moda (cf. Mt 12.44). Isso pode incluir também os ditos espirituosos, as respostas astutas etc., pelos quais muitos que perderam a vida de Deus são muito notáveis.
Num estado de prova tudo pode mudar. Enquanto estamos em vida, podemos ficar de pé ou cair. A nossa firmeza na fé depende da nossa união com Deus; e essa depende de vigiarmos em oração e de continuarmos a possuir aquela fé que atua pelo amor (cf. Gl 5.6). O maior santo debaixo do céu só pode ficar de pé enquanto depender de Deus e continuar na obediência da fé. Quem deixa de fazer isso cairá no pecado, terá um entendimento obscurecido e um coração endurecido, e poderá continuar nesse estado até que Deus venha tomar a sua alma. Portanto, aquele que com mais segurança está de pé veja que não caia (cf. 1Co 10.12), não só parcialmente, mas de modo final.
Quando a prova termina, começa a eternidade. Num estado de provação, o bom pode se tornar mau, e o mau, bom. É inteiramente absurdo dizer que o dia da graça pode terminar antes do dia da vida. É impossível, porque então o estado de prova se confundiria com a eternidade. As passagens das Escrituras alegadas por alguns em favor dessa opinião são inteiramente mal entendidas e mal aplicadas. Não pode haver provérbio mais verdadeiro do que este: “Enquanto há vida, há esperança”. A prova implica necessariamente a possibilidade de mudança.