Capítulo XXXVI

Temas diversos

Páginas 432 a 479 da edição de 1835
Nesta página: O conhecimento · A felicidade · A comunhão dos santos · O jejum · A consciência · A dança · O vestuário · Os sonhos · Os fantasmas · O tabaco · Wesley · O metodismo · As Ilhas Shetland · As escolas dominicais · O cisma · A ânsia de poder · O espírito partidário na política · A amizade · A lisonja · O interesse próprio · Recorrer à justiça · A fiança · A usura · A escravidão · A parábola · O milagre · O milênio · O tempo

O conhecimento

É vontade de Deus que os cristãos sejam bem instruídos; que se tornem sábios e inteligentes e tenham o entendimento bem cultivado e aperfeiçoado. O saber sólido tem grande valor, até na religião; os cristãos mais sábios e mais bem instruídos são os mais firmes e podem ser os mais úteis. Se alguém é criança no conhecimento, corre o risco de ser levado de um lado para outro por qualquer vento de doutrina (cf. Ef 4.14), e muitas vezes fica à mercê de homens interesseiros e manipuladores; quanto mais conhecimento tem, mais seguro é o seu estado. Se as nossas circunstâncias são tais que temos poucos meios de nos aperfeiçoar, devemos tirar deles o melhor proveito. O conhecimento parcial é melhor do que a ignorância total. Quem não pode adquirir tudo o que deseja deve cuidar de adquirir tudo o que puder. Se a ignorância total é coisa má e perigosa, todo grau de conhecimento diminui tanto o mal quanto o perigo. Nunca se deve esquecer que as próprias Sagradas Escrituras podem tornar as pessoas sábias para a salvação (cf. 2Tm 3.15), se forem lidas e estudadas com fé em Cristo.

A sabedoria genuína é sempre acompanhada de mansidão e brandura. Aqueles homens orgulhosos, arrogantes e desdenhosos que passam por grandes eruditos e críticos eminentes podem ter saber, mas não têm sabedoria. Esse saber supõe que eles conhecem corretamente a estrutura da língua e a composição em geral; mas sabedoria eles não têm nenhuma, nem domínio de si mesmos. São como o cego que levava uma lanterna em pleno dia para que os outros não o empurrassem na rua. Não é de pouco valor, mas desprezível, o saber que não ensina a pessoa a governar o próprio espírito e a ser humilde na sua conduta para com os outros.

Não devemos supor que dons eminentes impliquem necessariamente disposições cheias de graça. Uma pessoa pode ter muita luz e pouco amor; pode ser muito sábia nos assuntos seculares e conhecer pouco de si mesma, e menos ainda do seu Deus. Há uma ignorância erudita tão verdadeira quanto há um saber refinado e útil. Um dos nossos antigos escritores disse: “O conhecimento que não se aplica é como uma vela que alguém segura para iluminar o próprio caminho para o inferno”. Os coríntios eram ricos em conhecimento, em ciência, em eloquência e em vários dons extraordinários; mas em muitos casos ignoravam grosseiramente o espírito e o propósito do evangelho. Muitos, desde aquele tempo, puseram palavras e observâncias no lugar dos preceitos mais importantes da lei (cf. Mt 23.23) e do espírito do evangelho. O apóstolo se esforçou muito para corrigir esses abusos entre os coríntios e para insistir naquela grande, imutável e eterna verdade: que o amor a Deus e ao próximo, enchendo o coração, santificando as paixões, regulando as afeições e produzindo benevolência e beneficência universais, é o cumprimento de toda a lei (cf. Rm 13.10); e que todas as profissões de fé, o conhecimento, os dons etc., sem ele, são absolutamente inúteis.

A verdade é tão amável e importante em todos os ramos do conhecimento que não se deve poupar esforço para adquiri-la. Ela é excelente não só na sua fonte, mas também nos últimos e tênues lampejos dos seus raios projetados mais longe. Até onde quer que estes tenham brilhado, e por mais misturados que estejam, devem, se possível, ser analisados e rastreados até a sua origem.

A verdade é o contrário da falsidade. A verdade foi definida como “a conformidade das noções com as coisas, e das palavras com os pensamentos”. Ela declara a coisa que é, e como ela é; ao passo que a falsidade, em todas as suas acepções, é aquilo que não é: o que se pretende que seja um fato, mas ou não é fato nenhum, ou não é apresentado como realmente é. A revelação de Deus ao ser humano em relação à sua salvação é a verdade, toda a verdade e nada além da verdade. Ela guarda estrita conformidade com as perfeições da Natureza Divina. Inspira noções conformes às coisas de que são cópias mentais e descreve os seus temas com palavras conformes aos pensamentos que representam.

Todo cristão deve estudar filosofia, porque por meio dela descobrirá com mais evidência: 1. Que aquele que foi formado de modo tão assombrosamente maravilhoso (cf. Sl 139.14), tão maravilhosamente preservado e tão generosamente alimentado deve entregar sem reservas o seu tudo a Deus e consagrar ao serviço do Criador as faculdades que recebeu. 2. Quando ideias ateístas quiserem se intrometer, algumas reflexões sobre a multiforme sabedoria manifestada na criação podem ser o meio de romper o laço sutil de um inimigo astuto. E 3. Pelo estudo da natureza, sob a graça, a alma se amplia e se torna capaz de trazer uma imagem mais extensa, mais profunda e mais bem definida das perfeições divinas.

Supõe-se geralmente que os tempos antigos estavam cheios de ignorância bárbara e que o sistema de filosofia agora em voga, estabelecido por experimentos, é descoberta inteiramente moderna. Mas nada pode ser mais falso do que isso, como a Bíblia mostra claramente ao leitor atento: as doutrinas da estática, a circulação do sangue, a redondeza da terra, os movimentos dos corpos celestes, o processo da geração etc. eram todos conhecidos muito antes que nascessem Pitágoras, Arquimedes, Copérnico ou Newton.

É muito natural supor que Deus implantou os primeiros princípios de todas as ciências na mente da sua primeira criatura; que Adão os ensinou à sua posteridade; e que a tradição os conservou por muitas gerações, com os devidos aperfeiçoamentos. Mas muitos deles se perderam em consequência de guerras, cativeiros etc. Os anos recentes redescobriram muitos deles, principalmente com a ajuda direta ou indireta das Sagradas Escrituras; e outros continuam ocultos, apesar das pesquisas exatas e perseverantes dos modernos.

Quem ensinou Newton a determinar as leis pelas quais Deus governa o universo, descoberta pela qual se abriu à humanidade uma nova fonte de proveito e de prazer em todas as partes do mundo civilizado? Nenhuma leitura, nenhum estudo, nenhum exemplo formou o seu gênio. Deus, que o fez, deu-lhe aquela amplitude e inclinação de mente pela qual ele fez essas descobertas e pela qual o seu nome é celebrado na terra. Quando vejo Napier inventando os logaritmos; Copérnico, Descartes e Kepler contribuindo para derrubar os falsos sistemas do universo, e Newton demonstrando o verdadeiro; e quando vejo a longa lista dos que obtiveram patentes de invenções úteis, por cuja diligência e habilidade se encurtaram processos longos e tediosos nas artes necessárias à vida, se diminuiu muito o trabalho e se economizaram muito tempo e despesa, vejo então, com Moisés, homens hábeis, a quem Deus encheu do espírito de sabedoria (cf. Êx 28.3) para esses mesmos propósitos, a fim de ajudar o homem por meio do homem e, à medida que o tempo passa, dar às suas criaturas inteligentes tais provas da sua existência, da sua sabedoria infinitamente variada e da sua graciosa providência que as levem a depender dele e a lhe dar a glória devida ao seu nome.

O ensino da filosofia, entre os antigos, tornou-se meio de lucro para o mestre; e, enquanto se gabavam de ser livres, eles mesmos eram escravos de várias más disposições e paixões; de modo que se disse com muita propriedade da filosofia, ou sabedoria, nas suas várias fases: “A filosofia foi ímpia com Diágoras; viciosa com Epicuro; hipócrita com Zenão; impudente com Diógenes; avarenta com Demócares; voluptuosa com Metrodoro; fantasiosa com Crates; grosseira com Menipo; licenciosa com Pirro; briguenta com Cleantes; e, por fim, intolerável a todos os homens”.

Os escritores católicos dizem que São João Damasceno era tão zeloso pela verdade que às vezes recorria a fábulas piedosas para sustentá-la. Tal conduta, em qualquer pessoa, deixa muito pouca diferença entre o santo e o pecador. A verdade não precisa de tal apoio; e sempre fica prejudicada e se torna suspeita quando os seus devotos descem ao Egito em busca de socorro (cf. Is 31.1).

Na época atual, homens benévolos e eruditos têm se esforçado, por assim dizer, para descobrir uma estrada real para a geometria. As dificuldades foram declaradamente diminuídas, até que por fim os fundamentos da ciência foram lançados sobre a areia. A erudição profunda raramente se encontra. Ainda temos, é verdade, o esplendor e o brilho do ouro; mas, ao examiná-lo, muitas vezes encontramos uma massa de metal inferior, e até a superfície, embora inteiramente coberta, não está profundamente dourada.

As nossas várias teorias da terra, conflitantes e contraditórias, são provas plenas da nossa ignorância e fortes evidências da nossa tolice. Os atuais sistemas dogmáticos da própria geologia são quase o ne plus ultra de visionários de cabeça doente e de mortais obcecados por sistemas. Falam com tanta segurança da estrutura do globo, e do modo e do tempo em que tudo foi formado, como se tivessem examinado cada parte do centro à circunferência; embora nenhum ser humano jamais tenha penetrado duas milhas em profundidade perpendicular nas entranhas da terra. E, com esse conhecimento escasso, quase nenhum, pretendem construir sistemas do universo e blasfemam contra a revelação de Deus! Pobres almas! Todas essas coisas são para eles uma vereda que a ave de rapina ignora (cf. Jó 28.7). A sabedoria necessária a tais investigações está fora do seu alcance, e eles não têm simplicidade de coração para buscá-la onde se pode encontrá-la.

Se a sabedoria significa buscar o melhor fim pelos meios mais legítimos e apropriados, a grande massa da humanidade parece perecer sem ela. Mas, se considerarmos o assunto mais de perto, descobriremos que todos os homens morrem num estado de ignorância comparativa. Com toda a nossa ciência e as nossas artes de que tanto nos gabamos, quão pouco sabemos! Sabemos com perfeição alguma coisa que pertença ao mundo material ou ao espiritual? Entendemos sequer o que é a matéria? Qual é a sua essência? Entendemos o que é o espírito? Então, qual é a sua essência? Quase todos os fenômenos da natureza, as suas operações mais grandiosas e as leis dos corpos celestes foram explicados pelo princípio da gravitação ou atração; mas em que ela consiste? Quem pode responder? Podemos percorrer todas as partes do imenso oceano sem caminhos por meio da bússola; mas quem entende a natureza do magnetismo do qual tudo isso depende? Comemos e bebemos para sustentar a vida; mas o que é a nutrição? E como ela se realiza? Isso nunca foi explicado. A vida depende da respiração para continuar; mas por que espécie de ação os pulmões, num momento, separam o oxigênio, que é favorável à vida, do nitrogênio, que a destruiria, absorvendo de repente um e expelindo o outro? Quem, entre a geração dos fabricantes de hipóteses, adivinhou isso? A vida continua pela circulação do sangue; mas por que poder e por que lei ele circula? A sístole e a diástole do coração, de que essa circulação depende, já foram explicadas satisfatoriamente? Certamente não. Ai de nós! Morremos sem sabedoria, e temos de morrer para conhecer essas e dez mil outras coisas igualmente desconhecidas e igualmente importantes. Para estarmos seguros em relação à eternidade, temos de conhecer o único Deus verdadeiro e Jesus Cristo, a quem ele enviou; e conhecê-los é a vida eterna (cf. Jo 17.3). Esse conhecimento, obtido e conservado, nos dará direito a todo o resto no mundo eterno.

A felicidade

À alma pertence a felicidade: só ela é capaz dela; e, como é um ser espiritual, a felicidade de que é capaz tem de ser espiritual e tem de ser produzida pela posse, não de um bem terreno, mas de um bem espiritual. Uma pessoa pode ter tantas casas quantas pode habitar, tantas roupas quantas pode vestir, tantas camas quantas pode usar e tanto alimento quanto pode comer, e, com tudo isso, ter saúde e força perfeitas; e, no entanto, a sua alma estar na miséria, enquanto o seu corpo não tem um só desejo insatisfeito nem uma só necessidade não suprida. O semelhante pode se apegar ao semelhante e assimilar-se a ele. Os produtos da terra são adequados às necessidades animais; mas que relação têm o alimento, a roupa, o ouro, a prata e os bens terrenos com um espírito imortal? A abundância deles não o satisfaz; a falta deles não o aflige. Não foram feitos para a alma ou para o espírito; não têm na sua natureza nada adequado à natureza de uma substância espiritual. Deus constituiu o corpo de modo que recebesse satisfação e sustento das coisas naturais e dotou essas coisas naturais de propriedades que as tornam adequadas a esses corpos; mas fez a alma de natureza diferente e destinou a ela uma felicidade que nenhuma coisa sublunar pode comunicar, afetar ou remover. Deu-lhe capacidades sem limites e desejos infinitos. Quero dizer com isso que as suas capacidades não são limitadas pelas coisas criadas, e que os seus anseios se estendem além de todo bem e de toda excelência finitos. Como, portanto, as capacidades da alma se estendem muito além de todo bem e de toda excelência materiais criados, só Deus pode ser a sua porção: só ele pode satisfazer os seus desejos infinitos; só ele pode fazê-la feliz.

É bom, inefavelmente bom, ter uma felicidade que não é afetada pelas grandes e muitas mudanças a que os objetos exteriores estão sujeitos. Que bênção poder sentar-se calmo sobre a roda da fortuna e prosperar no meio da adversidade!

A alma foi feita para Deus, e nada senão Deus pode enchê-la e fazê-la feliz. Os anjos não puderam ser felizes na glória quando rejeitaram a fidelidade ao seu Senhor. Assim que o seu coração se afastou de Deus, Adão quis por força ir ao fruto proibido para satisfazer um desejo que era apenas indício de que já tinha sido infiel ao seu Deus. Salomão na sua glória, possuindo tudo o que o coração podia desejar, achou que tudo era vaidade e correr atrás do vento (cf. Ec 1.14), porque a sua alma não tinha a Deus por porção. Acabe, no trono de Israel, se deita na cama e não quer comer pão (cf. 1Rs 21.4), não só porque não consegue a vinha de Nabote, mas porque não tinha no coração a Deus, o único que podia satisfazer os seus desejos. Hamã, pelo mesmo motivo, embora fosse o primeiro favorito do rei, é infeliz porque não consegue uma reverência daquele homem que o seu coração até desprezava (cf. Et 3.2-5; 5.13). Ó, como são aflitivas as inquietações da vaidade! E como é infeliz o homem que não tem o Deus de Jacó por seu auxílio (cf. Sl 146.5) e em cujo coração Cristo não habita pela fé!

A religião é um intercâmbio entre Deus e o ser humano, e se destina a ser o meio de restabelecê-lo naquela comunhão com o seu Criador, e na felicidade que dela resulta, que ele perdeu pela queda. Todas as noções de religião como simples sistema de deveres que devemos a Deus ficam, a meu ver, infinitamente aquém da sua natureza e do seu propósito. Para a perfeição, a felicidade ou a satisfação da Mente Infinita, nenhuma criatura pode ser necessária. A religião não foi feita para Deus, mas para o ser humano. É uma instituição da Benevolência Divina para a felicidade humana. Nem pode Deus se agradar da religião ou da fé de alguém senão na medida em que o levem à felicidade, isto é, ao gozo de Deus, sem o qual não pode haver felicidade nenhuma. Porque Deus é a fonte da felicidade intelectual, e só dele ela pode ser derivada, e só em união com ele pode ser desfrutada. As satisfações animais podem ser obtidas por meio das várias coisas adequadas aos sentidos; mas satisfação e felicidade são coisas muito diferentes: a primeira pode existir onde a segunda é inteiramente desconhecida.

Deus é Espírito (cf. Jo 4.24), a alma humana é espírito, e a felicidade adequada à natureza e ao estado do ser humano tem de ser espiritual. A alma tem desejos e anseios infinitos, e o que pode satisfazer esses anseios tem de ser infinito. Só Deus é esse BEM, e só nele se encontra essa felicidade.

Se é vontade dele que a felicidade perdida pelo pecado seja restaurada aos crentes em Cristo, então é vontade dele que eles sejam feitos santos. A miséria nunca foi conhecida até que o pecado entrou no mundo; e a felicidade nunca pode ser conhecida por ninguém até que o pecado seja expulso da sua alma. Sem santidade, não há felicidade; e não há felicidade plena e permanente sem santidade plena e permanente. Repito: dar felicidade verdadeira e permanente aos crentes é o propósito daquele Deus cujo nome é Misericórdia e cuja natureza é Amor.

A verdadeira felicidade consiste no conhecimento de Deus e na obediência a ele. Uma pessoa não é feliz porque sabe muito, mas porque recebe muito da Natureza Divina e se conforma em toda a sua conduta à vontade divina.

A felicidade do cristão genuíno está muito além do alcance das perturbações terrenas e não é afetada pelas mudanças e pelos acasos a que as coisas mortais estão expostas. Os mártires eram mais felizes nas chamas do que os seus perseguidores podiam ser nas suas camas de penas.

Deus é o Centro para o qual tendem todos os espíritos imortais, e só em ligação com ele podem encontrar descanso. Tudo o que está separado do seu centro está num estado de violência e, se for inteligente, não pode ser feliz. Todas as almas humanas, enquanto separadas de Deus pelo pecado, estão num estado de violência, agitação e miséria. De Deus vêm todos os espíritos; para ele todos têm de voltar, para serem afinal felizes.

Conheci um homem que se distingue entre muitos pelos seus escritos, e que ainda vive, que achava que o dito de Cristo, “amem os seus inimigos” (Mt 5.44), e a prática desse dito eram o maior insulto que se podia fazer à natureza humana. “O quê?”, dizia ele, “roubar dos homens aqueles sentimentos elevados que lhes são tão comuns? Não!” E então blasfemou, e não repetirei as suas palavras. Podemos ver onde estava esse homem; e podemos ter certeza de que, se alguém é cristão, não pode odiar outra pessoa sem ser infeliz enquanto sente esse ódio. DEUS É BENEVOLÊNCIA, e proíbe as pessoas de nutrir qualquer sentimento de malícia ou má vontade para com os outros, porque, se o fizerem, não podem ser felizes. Se eu pudesse odiar o próprio diabo, se pudesse desejar-lhe mais fogo penal ou maiores castigos da ira de Deus, naquele momento eu não poderia amar Jesus Cristo.

A comunhão dos santos

Em todas as épocas da igreja, uma profissão pública e séria da religião de Cristo foi considerada não só muito conveniente, mas indispensavelmente necessária à salvação. Quem confessa a Cristo diante dos outros com coerência será confessado por ele diante de Deus e dos seus anjos (cf. Mt 10.32; Lc 12.8). O judeu usava os seus filactérios na testa, nas mãos e em volta das vestes, para ser respeitado aos olhos dos pagãos; gloriava-se na sua lei e exultava porque Abraão era o seu pai (cf. Jo 8.39). Cristão! Com um zelo não menos conveniente, e sustentado com mais coerência, que as palavras da sua boca, as obras das suas mãos e todos os seus passos mostrem que você pertence a Deus; que tomou o Espírito dele como guia do seu coração, a palavra dele como regra da sua vida, o povo dele como seus companheiros, o céu dele como sua herança e ele mesmo como porção da sua alma. E cuide de reter firmemente a verdade e de retê-la em justiça.

Não basta ter o coração reto diante de Deus; é preciso fazer uma profissão firme, corajosa e pública de Cristo diante dos outros.

Seja singular. A singularidade, quando está do lado certo, nunca pode ser criminosa. O caminho do pecado é tão completamente vergonhoso que, se não houvesse uma multidão andando nele, que se dão coragem uns aos outros, todo pecador solitário seria obrigado a esconder a cabeça.

Uma profissão religiosa sustentada por um procedimento coerente produz reverência e respeito até nos perversos. E, mesmo enquanto ridicularizam a religião, eles confiarão nos que a professam, darão crédito às suas palavras e se servirão dos seus serviços de preferência a todos os outros. “Como são persuasivas as palavras retas!” (Jó 6.25). Que pena que nem todos os que professam a religião sejam sempre fiéis ao que lhes foi confiado e coerentes na sua conduta! Como a incredulidade e o vício perderiam a sua jactância, e a fé e a esperança do evangelho triunfariam em toda parte! Mas, ai! quão poucos estão limpos neste assunto! Ó Deus, corrige a tua igreja e os teus ministros.

O cristão genuíno é santo, e feliz porque é santo. Ele não só vive uma vida inocente, mas vive uma vida útil: trabalha pelo bem-estar da sociedade, e a paz de Deus guarda e governa o seu coração. Vive para se tornar mais sábio e melhor, e não erra o alvo. Na aflição, é paciente e submisso; na adversidade, a sua confiança em Deus é inabalável; na morte, não tem medo, porque Cristo habita no seu coração pela fé; vence o seu último inimigo e por fim triunfa, sendo o próprio Satanás abatido debaixo dos seus pés; e, tendo vencido, senta-se com Cristo no seu trono, assim como ele, tendo vencido, está sentado com o Pai no trono do Pai (cf. Ap 3.21). Assim, a sua salvação na terra resulta num eterno peso de glória (cf. 2Co 4.17).

Pode-se dizer que damos glória a Deus quando mostramos, na luz mais clara e do modo mais impressionante que podemos, as várias excelências do nosso Deus e Pai; e, quando o fazemos de tal modo que pelo nosso exemplo outros são levados a estimá-lo, adorá-lo e pôr nele a sua confiança, nós o glorificamos, mostrando a glória dos seus vários atributos: contando com que eficácia ele ensina, com que poder sustenta, com que misericórdia salva e com que bondade supre todas as nossas necessidades, nos socorre na aflição, fica ao nosso lado nas dificuldades, nos defende nos perigos, nos guia com o seu conselho e promete por fim nos receber na sua glória sem fim.

“Confessem os seus pecados uns aos outros” (Tg 5.16). Esta é uma boa orientação geral para os cristãos que procuram manter entre si a comunhão dos santos. Essa confissão mútua contribui muito para humilhar a alma e torná-la vigilante. Desejamos naturalmente que os nossos amigos em geral, e os nossos amigos religiosos em particular, pensem bem de nós; e, quando lhes confessamos ofensas que, sem essa confissão, eles nunca poderiam ter conhecido, sentimo-nos humilhados, somos guardados do autoelogio e levados a vigiar em oração, para não aumentar as nossas ofensas diante de Deus nem sermos obrigados a passar de novo pela humilhação dolorosa de reconhecer diante dos nossos irmãos na fé a nossa fraqueza, a nossa inconstância ou a nossa infidelidade.

Não se diz: “Confessem os seus pecados aos presbíteros, para que eles os perdoem ou prescrevam penitência a fim de perdoá-los”. Não; os membros da igreja deviam confessar os seus pecados uns aos outros; portanto, a confissão auricular a um sacerdote, como a que a igreja romana prescreve, não tem fundamento nesta passagem. De fato, se tivesse algum fundamento aqui, provaria mais do que eles desejam, porque exigiria que o sacerdote confessasse os seus pecados ao povo, assim como o povo confessa os seus ao sacerdote.

“E orem uns pelos outros” (Tg 5.16). Não há caso nenhum, na confissão auricular, em que o penitente e o sacerdote orem juntos pelo perdão; mas aqui se manda que as pessoas orem umas pelas outras, para que sejam curadas.

Sem a comunhão dos santos, quem tem probabilidade de se tornar um cristão firme e coerente, ainda que a sua conversão tenha sido a mais sincera e a mais notável?

Quem frequenta a companhia de homens maus ou corrompidos logo será como eles. Pode ser são na fé e ter a vida e o poder da piedade, e a princípio frequentar a companhia deles só por causa da sua conversa agradável ou dos seus dotes literários; e pode pensar que a sua fé está à prova da incredulidade deles; mas logo descobrirá, por meio dos seus discursos lisonjeiros, que a sua fé enfraqueceu; e, quando entrar no domínio da dúvida, a incredulidade logo prevalecerá; as más companhias corromperão os seus costumes; e as duas achas secas logo queimarão a verde.

O jejum

Em todos os países e em todas as religiões, o jejum foi considerado não só um dever, mas de virtude extraordinária para obter bênçãos e afastar males. Por isso, muitas vezes foi praticado com rigor extraordinário e desvirtuado para os fins mais supersticiosos.

Entre os hindus há doze tipos de jejum.

O jejum é considerado pelos maometanos parte essencial da piedade. Os seus teólogos ortodoxos o chamam de “a porta da religião”. Para eles, há dois tipos: o voluntário e o obrigatório.

Quando uma pessoa jejua, supondo que o faça por motivo religioso, deve dar o alimento daquele dia, de que se abstém, aos pobres e famintos, que, no curso da Providência, são chamados a suportar muitos jejuns involuntários, além de sofrer privações gerais. Ai daquele que economiza a comida de um dia com o seu jejum religioso! Deve dá-la aos pobres, ou o seu valor em dinheiro.

A consciência

A consciência é definida por alguns como “o juízo que a alma racional faz das suas próprias ações”, e seria uma faculdade da própria alma e, consequentemente, natural a ela. Outros dizem: “É um raio da luz divina”. Milton a chama de “árbitro de Deus”, e o Dr. Young parece chamá-la de “um Deus no homem”. [N. do T.: Milton, Paraíso perdido, livro III; Edward Young, poeta inglês do século XVIII.] A mim me parece que ela não é outra coisa senão uma faculdade da mente, capaz de receber luz e informação do Espírito de Deus; e é para a alma, nas coisas espirituais, o mesmo que o olho é para o corpo nas coisas que dizem respeito à visão. O olho não é luz em si mesmo, nem é capaz de discernir objeto algum senão por meio da luz natural ou artificial. Mas tem órgãos devidamente adaptados para receber os raios de luz e as várias imagens dos objetos que eles mostram. Quando estes estão presentes a um olho de estrutura perfeita, há discernimento ou percepção dos objetos que estão no campo da visão; mas, quando a luz está ausente, não há percepção da forma, das dimensões, da posição ou da cor de objeto algum, por mais inteiros e perfeitos que sejam os nervos ópticos. Do mesmo modo, comparando as coisas espirituais com as naturais, o Espírito de Deus ilumina aquele olho da alma a que chamamos consciência; penetra-o com o seu resplendor; e, falando tanto quanto a linguagem humana permite sobre o assunto, ela tem órgãos devidamente adaptados para receber as emanações do Espírito, que, quando recebidas na consciência, mostram uma visão real da situação, do estado etc. da alma tal como ela está em relação a Deus e à eternidade. Assim diz a Escritura: “O próprio Espírito confirma ao nosso espírito” (Rm 8.16); isto é, ele brilha na consciência e reflete por toda a alma uma convicção, proporcional ao grau de luz comunicada, de condenação, de perdão ou de absolvição, conforme o propósito da sua vinda.

Diz-se às vezes que a consciência é boa, má, sensível ou cauterizada. Boa, se absolve ou aprova; má, se condena ou desaprova; sensível, se se alarma com a menor aproximação do mal e é severa ao examinar as várias operações da mente e das paixões, assim como as ações do corpo; e cauterizada, se já não age assim, porque o Espírito de Deus foi entristecido de tal modo que a sua luz já não é concedida, e a consciência já não julga as ações da pessoa. Esses epítetos dificilmente lhe podem pertencer, se se admite a definição comum; mas, pela definição geral já dada, esses termos se entendem facilmente e são muitíssimo apropriados. Por exemplo, uma boa consciência é aquela a que o Espírito de Deus trouxe a notícia do perdão de todos os pecados da alma e da sua reconciliação com Deus pelo Sangue da Aliança; e essa boa consciência, conservada, implica a aprovação contínua de Deus à conduta dessa pessoa. Uma consciência má ou perversa é aquela que registra uma acusação de culpa feita contra a alma pelo Espírito Santo, por causa da transgressão da santa lei de Deus, mostrando a luz desse Espírito à alma a natureza do pecado e a sua própria conduta culpada. Uma consciência sensível é aquela que está plenamente iluminada pela luz do Espírito Santo, a qual capacita a alma a ver o bem como bem e o mal como mal, em todos os aspectos importantes, e consequentemente a leva a abominar este e a apegar-se àquele; e, se em algum momento ela agir, por pouco que seja, contra essas percepções, é severa em repreender a si mesma e amarga no seu pesar. Uma consciência obscurecida, cauterizada ou endurecida é aquela que tem pouco ou nada dessa luz divina, tendo a alma, por transgressões repetidas, entristecido de tal modo o Espírito de Deus que ele retirou a sua luz; em consequência disso, a pessoa não sente remorso, mas continua em repetidos atos de transgressão, sem se comover com ameaças nem com promessas, e despreocupada com a destruição que a espera. É isso o que as Escrituras querem dizer com “consciência cauterizada” (cf. 1Tm 4.2), isto é, por transgressões repetidas e por resistir ao Espírito Santo. A própria palavra consciência justifica a explicação acima: ela se compõe de con, “junto” ou “com”, e scio, “eu sei”; porque ela sabe, ou se combina, com o Espírito de Deus, por meio dele ou junto com ele. [N. do T.: Clarke segue a King James, seared with a hot iron, “cauterizada como com ferro em brasa”.]

Do que ficou dito, penso que podemos tirar com segurança as seguintes conclusões: 1. Todas as pessoas têm o que comumente se chama consciência, e a consciência supõe claramente a influência do Espírito Divino nela, convencendo do pecado, da justiça e do juízo (cf. Jo 16.8). 2. O Espírito de Deus é dado para iluminar, convencer, fortalecer e trazer as pessoas de volta para Deus e prepará-las para a glória, purificando-lhes o coração. 3. Portanto, todas as pessoas que atendem às convicções e à luz comunicadas, e concordam com elas, podem ser salvas; porque o Deus dos cristãos não dá às pessoas o seu Espírito para iluminá-las apenas para deixá-las sem desculpa, mas para que ele as dirija, as fortaleça e as leve a si, a fim de que sejam afinal salvas. 4. Que esse Espírito vem da graça de Deus se demonstra por isto: é um dom bom e perfeito, e São Tiago diz que todos esses vêm “do Pai das luzes” (cf. Tg 1.17). Além disso, é uma graça tal que não pode ser merecida, porque, sendo o Espírito de Deus, é de valor infinito; e, no entanto, é dado. Ora, o que não é merecido e, no entanto, é dado tem de ser da graça; não uma graça que condena ou que é ineficaz, porque nenhum princípio assim vem da Divindade nem reside nela.

Assim se vê que todas as pessoas participam da graça de Deus, porque todos reconhecem que a consciência é comum a todos; e isso implica, como espero ter provado, o Espírito da graça dado por Cristo Jesus, não para que o mundo seja condenado por ele, mas para que seja salvo. Contudo, multidões que participam desse dom celestial pecam contra ele, o perdem e perecem eternamente, não por algum defeito do dom, mas pelo abuso que dele fazem.

É perigoso brincar com a consciência, mesmo quando ela está errada; deve-se ter paciência com ela e instruí-la; ela tem de ser ganha, não tomada de assalto. Os seus sentimentos devem ser respeitados, porque sempre se referem a Deus e têm o seu fundamento no temor dele. Quem peca contra a sua consciência em coisas que todos os outros sabem ser indiferentes logo fará o mesmo naquelas coisas que mais de perto dizem respeito à sua salvação. É uma grande bênção ter uma consciência bem informada; é uma bênção ter uma consciência sensível; e até uma consciência ferida é infinitamente melhor do que nenhuma.

As pessoas de consciência sensível demais e escrupulosa podem ser muito incômodas numa sociedade cristã; mas, como esse escrúpulo excessivo vem da falta de mais luz, de mais experiência ou de mais juízo, devemos ter paciência com elas. Ainda que muitas vezes caiam em extremos ridículos, devemos tomar cuidado para não tentar curá-las com zombaria ou com ira. Os extremos geralmente geram extremos; e tais pessoas exigem o tratamento mais judicioso, do contrário logo tropeçarão e se desviarão do caminho. Devemos tomar muito cuidado para não ocasionar a sua queda ao usar o que se chama liberdade cristã (cf. 1Co 8.9); e, por amor de nós mesmos, devemos cuidar de não dar o nome de “liberdades cristãs” a indulgências pecaminosas.

“Na verdade, estamos sendo castigados” (Gn 42.21). Como se exemplificam bem o ofício e a influência da consciência nessas palavras (dos irmãos de José)! [N. do T.: Clarke segue a King James, We are verily guilty, “somos verdadeiramente culpados”.] Fazia uns vinte e dois anos que tinham vendido o irmão, e provavelmente a sua consciência estivera adormecida até aquela hora. Deus combina e produz as circunstâncias favoráveis que despertam a atenção e a reflexão e dão peso às advertências da consciência. Como é necessário ouvir a sua voz a tempo! Porque aqui ela pode ser instrumento de salvação; mas, se não for ouvida neste mundo, terá de ser ouvida no outro; e lá, associada ao fogo que não se apaga, será o verme que não morre. Leitor, o seu pecado ainda não o encontrou (cf. Nm 32.23)? Ore a Deus para que tire o véu do seu coração (cf. 2Co 3.16) e lhe dê aquele senso profundo de culpa que o obrigue a correr em busca de refúgio na esperança que lhe é proposta (cf. Hb 6.18) no evangelho de Cristo.

A dança

A dança foi para mim uma influência pervertedora, um mal moral sem mistura. Porque, embora, pela misericórdia de Deus, não me tenha levado à depravação dos costumes, enfraqueceu muito o princípio moral, abafou a voz de uma consciência bem instruída e foi a primeira causa que me impeliu a buscar a minha felicidade nesta vida. Tudo cedeu à disposição que ela tinha produzido, e tudo foi absorvido por ela. Tenho-a com razão em abominação, pelo dano moral que me fez; e posso testemunhar (até onde se estenderam as minhas observações, e elas tiveram um alcance bem amplo) que a vi produzir nos outros o mesmo mal que produziu em mim. Considero-a, portanto, um ramo daquela educação mundana que leva do céu para a terra, das coisas espirituais para as sensuais e de Deus para Satanás. Que a defenda quem quiser; eu sei que ela é um mal, e só um mal. Os que criam os filhos dessa maneira, ou os mandam para as escolas onde se ensina a dança, os estão consagrando ao serviço de Moloque e cultivando as paixões de modo a fazê-las produzir as ervas daninhas de uma natureza caída com exuberância maior, raízes mais profundas e fertilidade inesgotável. Nemo sobrius saltat, “Ninguém em seu juízo dança”, disse Cícero, um pagão. Vergonha para os cristãos que defendem uma causa pela qual muitos filhos se tornaram devassos e muitas filhas foram arruinadas! [N. do T.: a frase de Cícero está no discurso Em defesa de Murena.]

Depois de um exemplo tão fatal disso (a decapitação de João Batista, cf. Mt 14.6-11), podemos duvidar de que os bailes sejam laços para as almas, destruidores da castidade, da modéstia e às vezes até da própria humanidade, e uma invenção perniciosa para excitar as paixões mais criminosas? Quantos, em tais ocasiões, sacrificaram a sua castidade e depois, para esconder a vergonha, sufocaram a humanidade e o sentimento de pai ou de mãe e, por meios diretos ou indiretos, puseram fim à vida da prole inocente das suas relações! “Infeliz a mãe que expõe a filha ao mesmo naufrágio que ela própria sofreu e faz da sua filha o instrumento da sua luxúria e da sua vingança!” Vejam aqui, pais que professam ser religiosos, os frutos daquilo que sem dúvida se chamava naqueles tempos “educação elegante e dança refinada”. “Fixem os olhos naquela mãe viciosa, naquela filha prostituída, e especialmente naquele embaixador de Deus assassinado; e então mandem os seus filhos para internatos finos, para aprender a prenda da dança.”

O vestuário

Se São Paulo visse o modo como as mulheres cristãs se vestem agora e aparecem nas ordenanças da religião, o que pensaria? O que diria? Como poderia sequer distinguir a cristã da incrédula? E, se os que estão em Cristo são nova criatura (cf. 2Co 5.17), e se as pessoas que comumente aparecem nas assembleias religiosas são realmente novas criaturas em Cristo (como em geral professam ser), ele poderia razoavelmente perguntar: “Se estas são novas criaturas, como terá sido então a sua aparência quando eram velhas criaturas?”. Vestimo-nos para sermos vistos? E vamos à casa de Deus para nos exibir? Infeliz o homem ou a mulher que vai à casa de Deus para ser visto por alguém que não seja o próprio Deus.

Quando mulheres ou homens gastam muito tempo, dinheiro e atenção em enfeitar a sua pessoa, isso dá uma prova dolorosa de que por dentro há pouca excelência e de que estão tentando suprir a falta de inteligência e de bem moral com os recursos fracos e tolos das roupas e dos enfeites. Ainda que a religião ficasse fora de questão, o senso comum diria em todas essas coisas: “Seja decente; mas seja moderado e modesto”.

A esposa de Fócion, célebre general ateniense, ao receber a visita de uma senhora elegantemente enfeitada com ouro e joias, e com pérolas no cabelo, aproveitou a ocasião para chamar a atenção da visitante para a elegância e o preço do seu vestido, observando ao mesmo tempo: “O meu enfeite é o meu marido, agora pelo vigésimo ano general dos atenienses”. Quão poucas mulheres cristãs fazem esse papel! As mulheres em geral se dão tanto trabalho e gastam tanto com a roupa como se por ela tivessem de ser recomendadas a Deus e aos homens. Isso, porém, é sempre sinal ou de uma mente superficial ou de um coração vaidoso e corrompido.

A simplicidade reinava nos tempos primitivos; só se usavam então os enfeites naturais. O comércio e os negócios trouxeram os luxos; e o luxo trouxe o orgulho e toda a extravagância absurda do vestuário. Nenhuma cabeça feminina fica tão bem como quando enfeitada só com o próprio cabelo. Este é o enfeite designado por Deus. Cortá-lo ou cobri-lo é uma prática antinatural; e trocar o cabelo que Deus deu por cabelo de outra cor é um insulto ao Criador. Como a delicadeza do caráter feminino pode se rebaixar ao uso de cabelo postiço, especialmente quando se considera que a maior parte desse tipo de cabelo foi um dia propriedade natural de algum soldado brutal que caiu em batalha de muitos ferimentos horríveis, é mais do que posso compreender.

Raramente se verá que as mulheres que gostam de se vestir bem, e são extravagantes nisso, tenham alguma sujeição ao marido além da que vem da pura necessidade. De fato, o seu vestuário, com que pretendem atrair os olhos dos outros, é prova suficiente de que não têm amor nem respeito pelo próprio marido. Que as interessadas refutem a acusação.

Não deveriam as vestes de todos os que ministram nas coisas santas ser ainda emblemáticas das coisas em que ministram? Não deveriam ser “para glória e beleza” (cf. Êx 28.2), expressando a dignidade do ministério do evangelho e aquela beleza da santidade (cf. Sl 96.9) sem a qual ninguém verá o Senhor (cf. Hb 12.14)? Assim como as vestes dos sumos sacerdotes, sob a lei, eram emblemáticas do que havia de vir, não deveriam as vestes dos ministros do evangelho ter alguma semelhança com o que já veio? É então o preto lúgubre, usado agora por quase todo tipo de sacerdotes e ministros, para glória e beleza? É emblemático de alguma coisa boa, gloriosa ou excelente? Como é imprópria para as boas-novas anunciadas pelos ministros cristãos uma cor que não simboliza nada senão luto e desgraça, pecado, desolação e morte! Como são incoerentes o traje e o ofício desses homens! Se se disser: “Essas coisas são apenas sombras e são inúteis, porque a substância já veio”, pergunto: “Por que, então, se usa o preto quase universalmente? Por que se prefere uma cor determinada, se não há significado em nenhuma? Não há o perigo de que, no nosso zelo contra as sombras, destruamos a própria substância ou a mudemos essencialmente?”. O mesmo tipo de argumento não excluiria a água no batismo e o pão e o vinho no sacramento da Ceia do Senhor? A sobrepeliz branca no culto da Igreja é quase a única coisa que resta daquelas vestes antigas e convenientes que Deus mandou fazer para glória e beleza. A roupa que simboliza o ofício tem mais importância do que geralmente se imagina. Se os grandes oficiais da coroa e os grandes oficiais da justiça se vestissem como o povo comum quando aparecem no exercício das suas funções públicas, tanto a sua pessoa quanto as suas decisões logo seriam tidas em pouca estima.

Os sonhos

Os sonhos têm sido, de um lado, considerados com superstição e, de outro, desprezados com ceticismo. Que alguns são proféticos não pode haver dúvida; que outros são vãos ninguém pode hesitar em crer. Os sonhos podem ser divididos nos seis tipos seguintes: 1. Os que são simplesmente o resultado noturno das reflexões e perplexidades da mente durante os afazeres do dia. 2. Os que nascem de um estado doentio do corpo, ocasionando sobressaltos, terrores etc. 3. Os que nascem de um estado impuro do coração: repetições mentais daqueles atos ou imagens de prazer ilícito, de orgia e de excesso que formam a ocupação de uma vida devassa. 4. Os que procedem de uma mente doente, ocupada com planos de orgulho, ambição, grandeza etc. Estes, por formarem a conduta característica da vida, são repetidamente reencenados nas vigílias profundas da noite e agitam fortemente a alma com gozos e decepções ilusórios. 5. Os que vêm diretamente de Satanás, que instilam pensamentos e princípios opostos à verdade e à justiça, deixando na mente impressões fortes adequadas à sua inclinação e tendência natural, que, no decorrer do dia, por circunstâncias favoráveis, podem ser postas em ação. 6. Os que vêm de Deus e que necessariamente levam a ele, sejam proféticos de bem ou de mal futuro, sejam impressões de propósitos santos e de resoluções celestiais. Tudo o que afasta de Deus, da verdade e da justiça tem de vir da fonte do mal; tudo o que leva à obediência a Deus e a atos de benevolência para com o próximo tem de vir da fonte da bondade e da verdade. Leitor, muitas vezes há tanta superstição em desprezar os sonhos quanto em dar atenção a eles; e quem teme a Deus escapará dela nos dois casos.

Os fantasmas

A história das perturbações na casa paroquial de Epworth não é caso único. Eu mesmo, e outros dos meus conhecidos particulares, fomos testemunhas oculares e auriculares de acontecimentos de tipo semelhante, que nunca se puderam atribuir a nenhuma fonte de truque ou de impostura e que pareceram ser precursores de dois acontecimentos muito trágicos na família perturbada; depois deles, nunca mais houve ruído ou perturbação alguma. [N. do T.: os ruídos e perturbações relatados na casa paroquial de Samuel Wesley, pai de John e Charles, em Epworth, entre 1716 e 1717.]

Um filósofo não deveria se satisfazer com as razões apresentadas pelo Dr. Priestley. Quem quer manter o seu credo contra os próprios sentidos e o testemunho mais franco das testemunhas mais respeitáveis faria melhor, pelo próprio crédito, em lançar de uma vez toda a história na região da dúvida, onde todos esses relatos, por mais autenticados que sejam,

Original Tradução
“Upwhirl’d aloft, “Arrebatados ao alto,
Fly o’er the backside of the world far off, voam por sobre as costas do mundo, para muito longe,
Into a limbus large and broad.” para um limbo largo e amplo.”

E, em vez de se chamar “o paraíso dos tolos”, pode ser chamado de “o limbo dos filósofos materialistas”, para dentro do qual eles atiram às pressas tudo o que não conseguem compreender, não querem crer ou lhes agrada chamar de supersticioso e absurdo. E tratam assim esses assuntos porque não se ajustam a princípios que não se fundam no testemunho divino, que são fracamente sustentados pela verdadeira filosofia e que contradizem o bom senso comum, simples e sem preconceito, de dezenove vigésimos de todos os habitantes da terra.1 [N. do T.: o químico e teólogo Joseph Priestley publicou em 1791 as cartas da família Wesley sobre o caso de Epworth e procurou explicá-lo sem recorrer ao sobrenatural. Os versos são de Milton, Paraíso perdido, livro III, onde se descreve o “paraíso dos tolos”.]

O tabaco

Todo médico sabe bem que a saliva, drenada tão copiosamente pelo infame naco de fumo de mascar e pelo escandaloso cachimbo, é o primeiro e maior agente que a natureza emprega para digerir o alimento.

Mas a elegante caixa de rapé é tão perigosa quanto o cachimbo e o fumo de mascar? Ouçamos o testemunho. “O menor mal”, diz o sr. D. Bomare, “que se pode esperar que o rapé produza é secar o cérebro, emagrecer o corpo, enfraquecer a memória e destruir, se não inteiramente, pelo menos em grande parte, o delicado sentido do olfato.” Isso já foi notado e lamentado no caso de muitos homens eminentes que se entregaram a esse hábito destrutivo. [N. do T.: provavelmente o naturalista francês Valmont de Bomare.]

As mulheres mais delicadas têm a sua pele inteiramente arruinada pelo rapé. Estranho que a caixa de rapé seja considerada um sacrifício grande demais por aquilo pelo qual a maioria das pessoas está pronta a sacrificar tudo o mais! Observaram-se muitos casos em que o apetite quase se destruiu e se produziu uma tísica pelo uso imoderado desse pó.

Desejo de coração que a Corporação dos Cirurgiões, e os anatomistas em geral, obtivessem o maior número possível de corpos de fumantes e consumidores de rapé habituais, para que, dissecados, pudéssemos saber até onde se estende aquele mal, sempre de temer, que J. Borrhi diz ter ocorrido no cérebro de um fumante imoderado, que, na dissecação, foi encontrado seco e encolhido pelo uso excessivo do cachimbo.

Uma pessoa conhecida minha, que tinha sido consumidora imoderada de rapé por mais de quarenta anos, era frequentemente acometida de uma súbita suspensão da respiração, ocasionada por um estado paralítico dos músculos que servem à respiração. Esses ataques se tornaram cada vez mais alarmantes e ameaçavam seriamente a sua vida. O único alívio que ela tinha nesses casos vinha de uma xícara de água fria derramada na sua garganta. Isso se tornou tão necessário para ela que nunca se arriscava a ir nem mesmo a um lugar de culto público sem levar consigo uma pequena vasilha de água e uma amiga por perto para lhe dar. Por fim, ela deixou o rapé: os músculos recuperaram o seu tônus próprio, e pouco tempo depois ela estava inteiramente curada de um mal ocasionado unicamente pelo seu apego à caixa de rapé, do qual quase tinha sido vítima.

Uma só gota do óleo químico do tabaco, posta na língua de um gato, produziu convulsões violentas e o matou no espaço de um minuto. Um fio molhado no mesmo óleo e passado por uma ferida feita com uma agulha num animal o matou no espaço de sete minutos. De fato, o forte óleo cáustico e o sal acre que o tabaco contém hão de produzir efeitos maus além de todo cálculo.

Que é pecaminoso usá-lo como a maioria usa não tenho dúvida, se arruinar a saúde e desperdiçar vilmente o tempo e o dinheiro que Deus deu para outros fins pode ser chamado “pecaminoso”.

Observei algumas famílias inteiras, e muito pobres, que usaram o tabaco de todas as maneiras possíveis, e algumas delas por mais de meio século. Ora, supondo que toda a família, composta de quatro, cinco ou seis pessoas, tenha usado só o equivalente a um xelim e seis pence por semana, então, só no artigo do tabaco, quase duzentas libras esterlinas se perdem total e irremediavelmente no decurso de cinquenta anos. Se se enumerassem todas as despesas ligadas a essa prática, provavelmente cinco vezes essa soma, em vários casos, não seria uma estimativa grande demais; especialmente se se levarem em conta a bebida forte, sua companheira habitual, o descuido do trabalho e os utensílios próprios. Podem os que professam chamar-se cristãos justificar a sua conduta neste aspecto?

Mas a perda de tempo nesse trabalho vergonhoso é um mal sério. Conheci alguns que, por estranho que pareça, fumavam três ou quatro horas por dia, por confissão própria; e outros que gastavam seis horas na mesma ocupação. Como essas pessoas podem responder por isso diante do tribunal de Deus? “Mas foi um médico que me receitou.” Nenhum homem que preze a sua reputação como médico jamais o receitará dessa maneira.

Admito que uma pessoa que caiu sob o domínio do cachimbo ou da caixa de rapé pode sentir grande mal-estar ao tentar deixá-lo, e pode conseguir que algum médico, por falsa compaixão ou por dinheiro, lhe receite o uso continuado; mas isso não o justifica, e não se deve confiar em quem receita assim. Ou não tem princípios, ou não tem competência.

A impiedade manifestada por vários no uso dessa erva merece a mais cortante repreensão. Quando muitos dos consumidores de tabaco se veem em dificuldade, ou debaixo de alguma cruz ou aflição, em vez de olharem para Deus em busca de amparo, recorrem ao cachimbo, à caixa de rapé ou ao fumo de rolo com fervor quadruplicado; de modo que se consome nessas ocasiões quatro vezes (eu poderia dizer, em alguns casos, dez vezes) a quantidade de costume. Que consolo é essa erva no tempo da tristeza! Que amparo no tempo da angústia! Numa palavra, que deus!

Outra coisa: a perturbação causada nos lugares de culto público pelo uso da caixa de rapé é assunto de séria preocupação para todos os que não são culpados dela. Quando os assuntos mais solenes e importantes relativos a Deus e ao ser humano, à glória eterna e à ruína eterna, formam o tema do discurso de um pregador que põe a alma inteira na sua obra, não é raro ver a caixa de rapé ser tirada e passada com toda a oficiosidade a meia dúzia de pessoas no mesmo banco.

Para grande escândalo das pessoas religiosas, os abomináveis costumes de cheirar rapé e mascar fumo entraram em muitas congregações e ameaçam produzir grande mal. As igrejas e as capelas são escandalosamente maltratadas pelos mascadores de fumo que as frequentam; e ajoelhar-se diante do Ser Supremo, coisa tão conveniente e necessária quando os pecadores se aproximam do seu Criador em oração, torna-se impraticável em muitos bancos, por causa da grande quantidade de saliva de tabaco cuspida em todas as direções.

Alguns, de fato, foram francos a ponto de reconhecer que, “embora não o usem como tal, o tomam como uma ajuda para a sua devoção”. Ó terra, terra, terra! “Não consigo”, diz um, “ouvir com proveito sem ele; ele aviva a minha atenção, e então aproveito mais o sermão.” Inclino-me a pensar que há alguma verdade nisso; e tais pessoas se parecem exatamente com as que se acostumaram a doses frequentes de ópio, que, pelo efeito bem conhecido do uso muito livre dessa droga, estão num torpor contínuo, exceto por um pouco de tempo depois de cada dose. Assim são obrigadas a recorrer constantemente a um estimulante que, na proporção do seu uso, aumenta a doença.

Pessoas assim não estão em condições de aparecer na casa de Deus. Essa conduta prova suficientemente que estão inteiramente destituídas do espírito de piedade e do senso das suas necessidades espirituais, quando precisam de tais estímulos para ajudar a sua devoção. Não pode ter compaixão dos desgraçados quem não eleva a alma em oração a Deus em favor de gente tão miserável.

Mas não são muitos levados ao hábito de fumar pelos seus pastores? Lamento ter de dizer que esse costume ocioso e vergonhoso prevalece muito atualmente entre os ministros da maioria das denominações. Podem essas pessoas pregar contra a autoindulgência desnecessária, contra a destruição do tempo ou contra o desperdício de dinheiro? Esses homens prejudicam muito a sua própria utilidade; desperdiçam em fumaça a sua importância ministerial nas famílias que visitam de vez em quando; até as crianças e as criadas fazem piadas com o “pastor do cachimbo”; e, se por infelicidade conseguirem levar os que não estavam contaminados ao seu hábito vil, o mal se dobra. Conheci sérios desentendimentos produzidos em certas famílias onde o exemplo do pastor ocioso levou o marido ou a mulher, contra o consentimento do outro, a adotar o uso do cachimbo ou da caixa de rapé.

Alguns estão tão dominados por esse hábito vergonhoso que precisam do cachimbo imediatamente antes de subir ao púlpito. Que preparação para anunciar a justiça de Deus e pregar o evangelho do nosso Senhor Jesus! Fazia São Paulo alguma coisa parecida? “Não”, vocês dizem, “porque ele tinha a inspiração do Espírito Santo.” Então vocês o tomam para suprir o lugar dessa inspiração! Como essas pessoas podem sorrir da própria conduta? “Sejam nossos imitadores, como também nós somos de Cristo Jesus” (cf. 1Co 11.1) nunca poderá sair da sua boca. Com tais pessoas, a compaixão estaria fora de lugar; elas não merecem senão desprezo.

Se todos os outros argumentos não conseguirem produzir uma reforma na conduta dos consumidores de tabaco, há um que se dirige à boa educação e à benevolência e que, por amor da cortesia e da humanidade, deveria prevalecer. Considerem como o seu costume é desagradável para os que não o seguem. Uma atmosfera de emanações de tabaco os rodeia aonde quer que vão. Tudo o que vocês têm cheira a ele: os seus aposentos, as suas roupas e até o seu próprio hálito. Nem há na natureza cheiro mais desagradável que o do tabaco velho, que se levanta em exalações mornas do corpo humano, tornado ainda mais ofensivo ao passar pelos poros e ficar fortemente impregnado daquela matéria nociva que antes se transpirava sem se perceber.

Aos que ainda não se incorporaram à companhia elegante dos consumidores de tabaco, eu diria: “Nunca entrem”. Aos que já entraram, eu diria: “Desistam. Primeiro, por amor da sua saúde, que tem de ser materialmente prejudicada, se não destruída, por ele. Segundo, por amor dos seus bens, que, se você é pobre, têm de ser consideravelmente diminuídos por ele. Mas, supondo que você possa arcar com essa despesa extra, considere como seriam bem-vindos os tostões (para não ir mais longe) que você gasta nessa ocupação ociosa e desnecessária para muitos que muitas vezes estão sem pão, e para quem um só tostão às vezes seria como um anjo de Deus! Terceiro, por amor do seu tempo, do qual uma grande parte se perde irremediavelmente, sobretudo no fumar. Você tem tempo para dispor, para matar? Não há necessidade de oração, de leitura, de estudo? Quarto, por amor dos seus amigos, que não podem deixar de sofrer na sua companhia, pelas razões já apresentadas. Quinto, por amor da sua voz, que a continuação do uso do rapé arruinará infalivelmente, porque as passagens nasais ficam quase inteiramente obstruídas por ele. Sexto, por amor da sua memória, para que seja vigorosa e retentiva, e por amor do seu juízo, para que seja claro e correto até o fim. Por último, por amor da sua alma. Não acha você que Deus lhe pedirá contas da sua perda de tempo, do seu desperdício de dinheiro e da sua autoindulgência desnecessária? Não viu que o uso do tabaco leva à embriaguez? Não sabe que os fumantes habituais têm muitas vezes o copo à mão e recorrem a ele com frequência? Nem é de admirar, porque a grande quantidade de umidade necessária que se tira da boca etc. por esses meios tem de ser suprida de algum outro modo. Você treme só de pensar nisso. Com razão, porque está em grande perigo. Que Deus olhe para você e o salve antes que seja tarde demais!”

Algumas das coisas mais desagradáveis relativas ao hábito contra o qual tenho escrito ainda estão atrás da cortina, e propositalmente detidas ali; e é SÓ ALI que desejo que todo fumante persistente procure certo recipiente chamado escarradeira, que, com abuso de toda a boa educação e insulto a todo sentimento delicado, é frequentemente introduzido nas reuniões públicas. Que eles e os seus utensílios, enquanto ocupados nessa obra abominável, sejam sempre mantidos LONGE DA VISTA!

Wesley

Quando o sr. Wesley e o seu irmão Charles voltaram da América, ambos fervorosos de espírito, proclamaram com poder o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo (cf. At 20.21) e insistiram fortemente na necessidade de nascer de novo (cf. Jo 3.3) e de ter o testemunho do Espírito de Deus com o seu espírito de que tinham nascido assim de Deus. A princípio, todas as igrejas de Londres lhes estavam abertas; e o povo acorria para ver e ouvir dois missionários curtidos pelo tempo, cuja pele parecia queimada pela exposição contínua aos sóis e aos ventos do verão e do inverno no continente americano. Deus acompanhava a sua pregação com o poder e a demonstração do Espírito Santo. Multidões se converteram das trevas para a luz e do poder de Satanás para Deus (cf. At 26.18); e muitos obtiveram aquela fé em Cristo pela qual se removia a culpa do pecado e se tirava o medo da morte, e tinham o Espírito de Deus testificando com o seu espírito que eram filhos e filhas do Deus Todo-Poderoso. As multidões que frequentavam as igrejas onde eles pregavam eram tão grandes que o clero achou conveniente recusar-lhes daí em diante o uso dos seus púlpitos; e, por isso, expulsos destes, foram pelos caminhos e atalhos para obrigar os pecadores a vir à festa de casamento (cf. Lc 14.23; Mt 22.9-10). Porque, como tinham aprendido suficientemente que nada senão o evangelho podia ser o poder de Deus para a salvação dos que creem (cf. Rm 1.16), proclamavam com ousadia e zelo a Cristo crucificado onde quer que encontrassem uma multidão de pecadores, usando a oração espontânea e pregando sem anotações. Isso pareceu uma coisa nova na terra; e, enquanto muitos eram despertados e se convertiam a Deus, vários que não achavam necessários esforços tão extraordinários ridicularizavam o seu zelo; e outros, que imaginavam que Deus não podia aprovar nenhum tipo de serviço espiritual que não fosse feito dentro das paredes de uma igreja, ficaram muito ofendidos. E é fato que não poucos se opuseram e blasfemaram.

O metodismo

Um ministério itinerante estabelecido nestes reinos há mais de oitenta anos, ensinando as doutrinas puras e não adulteradas do evangelho, juntamente com a justeza e a necessidade da obediência às leis, tem sido o principal meio, nas mãos de Deus, de preservar estas terras daquelas convulsões e revoluções que arruinaram e quase dissolveram o continente europeu. O ministério itinerante a que isto se refere é o que foi estabelecido nestas terras pelo falecido, verdadeiramente reverendo, muito erudito e culto, profundamente piedoso e leal JOHN WESLEY, mestre em artes, antigo membro do Lincoln College, em Oxford; cujos seguidores são conhecidos pelo nome de METODISTAS; um povo que é uma honra para o seu país e uma bênção para o governo do seu excelentíssimo e venerado rei Jorge III, que, durante um longo reinado, tem sido o patrono da religião e do saber e o pai do seu povo.

A declaração seguinte foi escrita pelo Dr. Clarke num álbum, durante a última Conferência de que participou, exatamente um mês antes da sua morte:

IN PERPETUAM REI MEMORIAM. [N. do T.: “Para perpétua memória do fato”.]

Vivi mais de setenta anos; viajei bastante, por mar e por terra; conversei com muita gente e vi muitas pessoas, em diferentes países e vindas deles; estudei os principais sistemas religiosos do mundo; li muito, pensei muito e raciocinei muito; e o resultado é que estou persuadido da verdade simples e não adulterada de nenhum livro senão a Bíblia, e da verdadeira excelência de nenhum sistema de religião senão o contido nas Sagradas Escrituras, e especialmente o CRISTIANISMO, a que se alude no Antigo Testamento e que está plenamente revelado no Novo. E, embora eu pense bem de todas as seitas e partidos religiosos e lhes deseje bem, e especialmente a todos os que amam com sinceridade o nosso Senhor Jesus Cristo, um conhecimento longo e completo do assunto me leva a concluir, com toda a consciência, que o próprio cristianismo, tal como existe entre os chamados metodistas wesleyanos, é o mais puro, o mais seguro, o que mais contribui para a glória de Deus e o bem do ser humano; e isso tanto quanto ao credo ali professado, quanto à forma de disciplina ali estabelecida e quanto à consequente prática moral ali defendida. E creio que entre eles se encontra a melhor forma e o melhor corpo de teologia que jamais existiu na igreja de Cristo, desde a promulgação do cristianismo até o dia de hoje. A quem me dissesse: “Doutor Clarke, o senhor não é um sectário?”, eu responderia sem hesitar: “Não, não sou; porque, pela graça de Deus, sou metodista!”. Amém.

ADAM CLARKE. Liverpool, 26 de julho de 1832.

“Londres, 15 de maio de 1824. MEU QUERIDO SAMMY, [N. do T.: provavelmente o próprio Samuel Dunn, então missionário nas Ilhas Shetland.]

“Os nossos amigos daqui concordaram todos em celebrar o ‘Centenário da Ordenação do Sr. Wesley ao Sagrado Ministério’. Ele foi ordenado pelo bispo Potter em 19 de setembro de 1725; assim, o centenário será em 19 de setembro de 1825, quando você já terá voltado das Shetland para a Conferência de Bristol. Haverá dois cultos nesse dia, e se prepararão dois textos para cada pregador ler depois do sermão: o da manhã conterá um resumo da vida do sr. Wesley, do seu chamado ao ministério e do seu êxito nele; o da noite, um resumo das nossas doutrinas e da nossa disciplina. Depois de cada culto se fará uma coleta, para construir o que provavelmente se chamará ‘o Salão Wesleyano’, destinado a realizar todas as nossas reuniões públicas, acomodar a Comissão Missionária, ter salas para um museu de curiosidades ou antiguidades estrangeiras enviadas para cá pelos missionários e uma para uma biblioteca pública, além de escritórios para o registro das escrituras das nossas capelas, dos registros de batismo etc. etc. Esse edifício, que calculamos que comportará seis ou oito mil pessoas, será construído o mais perto possível do centro da cidade e pago com o dinheiro coletado em todos os nossos circuitos e estações, no país e no exterior, e com uma subscrição prévia. O projeto partiu do sr. Butterworth; foi proposto, considerado, aprovado e organizado na Comissão Missionária; depois, um número seleto de amigos foi convidado para tomar juntos o café da manhã na capela da manhã, por um bilhete assinado pelo sr. Butterworth e por mim. Vieram cerca de cem pessoas; o projeto foi recebido com entusiasmo, e quase imediatamente se subscreveram 2.400 libras! Mando-lhe isto como a principal notícia que temos agora.2

“Sempre o seu irmão afetuoso,

“ADAM CLARKE.”

As Ilhas Shetland

Perguntas3 relativas às Ilhas Shetland.

I. As ilhas e os seus produtos.
1. Qual é o seu número? Os seus nomes atuais? Os nomes originais, e o significado deles na língua nórdica ou dinamarquesa?
2. Qual é o solo? Argiloso, cascalhento, de turfa etc.? Qual a sua profundidade geral?
3. Qual é a base de cada uma? Rocha basáltica, granito, argila ou marga?
4. Metais e minerais. Encontra-se nelas algum ouro, prata, cobre ou chumbo? Em que quantidades? E como e onde se encontram? Algum quartzo, fluorita, calcedônia, aragonita, barita ou qualquer outro? E qual?

II. Grãos, sementes etc.
1. Que grãos se cultivam? Trigo, aveia, cevada, centeio?
2. Como cultivam a terra? De que tipo é o adubo, e como se aplica para produzir as diferentes colheitas?
3. Quando semeiam o trigo, a aveia, o centeio etc. e plantam as batatas?
4. Batatas. De que tipos, cores, tamanho e qualidade? Quando as plantam e quando as colhem? Quanto de cada uma se semeia ou planta por acre, e qual é a produção? Isto é, quantos alqueires por acre para cada um semeado ou plantado, nos diferentes solos?
5. Semeia-se linho ou cânhamo? Como se preparam para a roda de fiar e para o tear, e em que espécie de pano se transformam?

III. Horticultura e plantio.
1. Hortas. Que legumes, favas, ervilhas, de que tipos, e quanto tempo ficam na terra? Cenouras, pastinacas, nabos etc.? Que ervas e flores notáveis?
2. Pomares. Que frutas? Maçãs, peras, ameixas, groselhas-espinhosas, groselhas etc.? De que tamanho e qualidade? Quais são as suas várias espécies, e como se usam?
3. Plantas. De que tipos? Há algumas próprias das ilhas? Capim de prado, de que tipos? Trevo, cornichão, alfafa, agróstide (fiorin) etc.?
4. Árvores florestais. Pinheiro, freixo, olmo, algumas plantações? De que espécies, de que extensão, e onde?
5. Que arbustos, aveleira, tojo; zimbro ou outras bagas, nas charnecas?

IV. Peixes.
1. Mariscos. Ostras, mexilhões, navalhas, ostras perlíferas, caranguejos, lagostas, lapas, berbigões etc.?
2. Peixes do mar. Toninha, baleia, tubarão, cação, bacalhau, maruca, salmão, arenque, hadoque, ruivo, congro, cavala, eperlano?
3. Como se curam ali os peixes para o inverno, como o salmão, o bacalhau, a maruca, o arenque?
4. Cardumes. De que espécies? Quando aparecem, de onde vêm e para onde vão etc.?
5. Pérolas das ostras ou dos mexilhões. De que forma, cor e tamanho? Como se usam, se vendem ou se trabalham?

V. Aves.
1. Aves selvagens. Gansos, patos, gansos-de-faces-brancas, gaivotas, lagópodes, faisões, perdizes, cucos, carriças, narcejas, maçaricos, galinholas e aves de arribação em geral? De que espécies? Quando costumam aparecer e desaparecer?
2. Aves domésticas. Gansos, patos, galinhas, pombos, perus? De que tamanho, e de que proveito para os habitantes?

VI. Animais.
1. De que tipos é o gado? Vacas: de que cor, tamanho, quanto leite por dia, e quanta manteiga de uma dada quantidade de leite? Cavalos: tamanho, cores, força etc.? Descreva o pônei das Shetland.
2. Ovelhas. De que tamanho; a sua lã, de que qualidade? Dão à luz gêmeos com frequência? Qual é o tempo da tosquia? Quantas libras de lã de cada uma?
3. Cabras. Como se usam? Andam soltas ou presas por corda? São criadas principalmente para reprodução ou para leite?
4. Cães e gatos. Tamanho, cor, inclinações? Alguma coisa notável na sua forma ou nas suas qualidades?
5. Animais selvagens. Veados, raposas, texugos, toirões, lebres, coelhos, lontras, doninhas, esquilos etc.?
6. Forragem de inverno para cavalos, vacas, ovelhas, cabras etc.?

VII. Habitantes.
1. Habitantes. Estatura, cor, feições, cabelo? Alguma coisa peculiar na formação da cabeça, da boca, do nariz, dos pés e das pernas? Descreva a compleição geral dos homens e das mulheres.
2. Temperamento. Fleumáticos ou coléricos, reservados ou francos?
3. Há furtos? De que tipos?
4. Nos seus modos. São cruéis, rabugentos, bondosos com os estrangeiros, demandistas, propensos a brigar?

VIII. Alimentação etc.
1. Alimento para as diferentes estações do ano. De que tipos, e como se prepara? Alguma coisa peculiar no seu modo de cozinhar? A hora habitual das refeições, e que proporção de tempo se reserva ao sono?
2. Bebidas. Cerveja, aguardentes, hidromel temperado (metheglin) ou hidromel comum? Há grande consumo de chá, de bebidas destiladas e de tabaco?
3. Vestuário. De que tipos? Nomes e formas das suas roupas?
4. Combustível. Carvão, turfa, algas secas, lenha, madeira de pântano, pinho etc.?

IX. Utensílios.
1. Agrícolas. Que tipo de arados, grades, pás, gadanhas, foices? Qual é o arreio dos cavalos?
2. Carroças ou carros. Que tipo de rodas? Para que usos? Construção: é boa, leve ou tosca?
3. Utensílios domésticos. Os seus nomes, forma etc., de madeira, lata, ferro, latão, barro?
4. Casas. Como se constroem? De que materiais, cabanas, janelas, chaminés, dependências; ou anexos, cavalariças, boieiras (bouvières) ou estábulos de vacas (byars); apriscos e chiqueiros; separados ou juntos?

X. Mulheres e crianças.
1. Mulheres. Como são tratadas? Em que se ocupam? Boas donas de casa; asseadas? Dão à luz gêmeos com frequência?
2. Crianças. Como são criadas e educadas? Os nascimentos ilegítimos são comuns?

XI. Ofícios etc.
1. Ofícios, manufaturas e comércio. O que se importa e exporta, e com quem?
2. Economia doméstica. Fiação, tricô, costura, tecelagem?
3. Diaristas. Qual é o seu pagamento? Quantas horas trabalham? Criados e criadas? Qual é o seu salário anual? São ativos, preguiçosos, fiéis, asseados etc.?

XII. Vícios, passatempos.
1. Que vícios prevalecem mais entre eles?
2. Esportes e passatempos. Quais? Quando se praticam? Os seus nomes, e como se realizam?
3. Tradições. Relativas à sua própria origem, às façanhas dos seus antepassados? Contos, lendas: de que tipos? Algum dos contos de Ossian, Oscar, Ullin, Fin M’Cuol Odo ou de algum dos chefes escandinavos?
4. Armas de defesa. Espingardas, espadas, punhais, arcos, escudos; alguma armadura antiga ou moedas encontradas nas ilhas?

XIII. Religião.
1. Religião. Prevalece de modo geral? Credo ou noções, forma do culto público?
2. Ordenanças religiosas. Quando e como se realizam? O dia do Senhor é bem guardado? Há culto doméstico em alguma casa, ou de modo geral?
3. Ministros. Como são sustentados? Por dízimos, por côngruas, por ofertas voluntárias etc.?
4. Escolas. Clássicas, comerciais, ou só de inglês; ou da língua do lugar?
5. Gostam naturalmente de aprender? A maioria sabe ler?
6. As famílias que você visita estão bem providas de Bíblias?
7. Quais são os livros usados geralmente no ensino? De que tipo de leitura parecem gostar mais?

XIV. Língua e belas-letras.
1. Qual é a língua predominante? Qual era a língua original? Restam algumas palavras dela misturadas à fala atual?
2. Como o povo era originalmente escandinavo, ou norueguês, como chegou a perder a sua língua nativa? Onde e como entrou a língua inglesa e suplantou de modo geral a língua original?
3. Como se passam as noites de inverno? Enquanto alguns trabalham, outros contam histórias, repetem lendas etc.?
4. O povo gosta de poesia, de música, de dança etc.?
5. Quais são os seus instrumentos musicais?

XV. Superstições populares.
1. Festas. Costumes ou ritos religiosos no dia de São João (meio do verão), no dia de Todos os Santos ou na véspera de Todos os Santos? No Natal, na Candelária, na Páscoa?
2. Superstições. Amuletos, encantamentos, observação das nuvens, do voo das aves, do canto dos galos em horas desacostumadas? Sobre demônios, fadas, duendes, espectros, ou aparições que anunciam a morte; a segunda vista; o caruncho-relógio (cujo tique-taque anunciaria a morte); batidas etc.?

XVI. População, doenças etc.
1. Longevidade. Vivem em geral até uma boa velhice? Qual a duração geral da vida?
2. Proporção de homens para mulheres?
3. Doenças. Das crianças; dos adultos? Que tipos prevalecem mais? Métodos populares de cura? Mortes, velórios, enterros etc., e as circunstâncias que os acompanham?

XVII. Leis, tribunais etc.
1. Alguma coisa peculiar nos seus costumes civis, leis, tribunais e castigos?
2. Advogados, médicos, curandeiros? Há muitos desses nas ilhas?

XVIII. Fenômenos.
1. A aurora boreal, ou “luzes do norte”. Quando aparece? Só no inverno? A que hora da noite começa? Descreva o seu aspecto e quanto tempo dura. Compensa a brevidade dos dias?
2. Qual é a opinião comum sobre a sua origem?
3. Marés. Alguma coisa notável nelas? Quando são maiores?
4. Estações. Inverno, verão, outono, primavera? Quando começam e quanto duram?
5. Tempo. Quais são os sinais de que se aproxima tempo bom ou mau? Neve, chuva, geada, ventos, algum sinal notável no céu? E de onde a gente do campo tira os seus prognósticos?
6. A agulha magnética sofre agitações, variações singulares no seu movimento ou na sua inclinação durante a aurora boreal? Ou a atmosfera mostra então algum sinal peculiar de eletricidade?

XIX. Arrendamento de terras, rendas, posses etc.
1. Como se arrendam as terras? Que tipos de posse prevalecem? Algum dos lavradores tem propriedade livre (freehold), posse por cópia do registro senhorial (copyhold), arrendamento por prazo de anos ou por vidas, ou de natureza mista? Como pagam as rendas? Em dinheiro, em espécie, em serviço? Há serviços feudais ou jeiras (dias de trabalho gratuito) devidas aos senhores da terra?

XX. Impostos, contratos civis e religiosos etc.
1. Quais são os principais impostos e direitos alfandegários?
2. O povo está em geral satisfeito com a sua forma de governo? É afeiçoado à Casa de Brunswick ou à dos Stuart?
3. Prevalece entre eles o sistema de clãs? De que caráter são os seus chefes? Orgulhosos, altivos, bondosos, benevolentes?
4. Casamentos. Dotes, banquetes de casamento, a condução da noiva para casa, ou festa de chegada? Quais são os costumes ou as cerimônias?
5. Batizados e desmames. Há cerimônias ou festas peculiares nessas ocasiões?

XXI. Perguntas diversas.
1. Há relatos de monstros marinhos, homens-peixes, sereias, o craquem ou kraken, a serpente do mar?
2. Há ruínas, templos, monumentos druídicos, igrejas, fortalezas antigas notáveis? E de que forma?
3. Há inscrições rúnicas, em ogam, celtas etc.?

Observação: respostas de certo tipo a muitas das perguntas anteriores podem ser obtidas de viajantes, historiadores etc. Mas estes geralmente copiam uns aos outros e não merecem muita consideração. Desejo, portanto, que você veja com os próprios olhos e ouça com os próprios ouvidos, e que responda com base no conhecimento e nos fatos. Olhe para a natureza e para os costumes tais como estão diante de você; mas, quando for obrigado a relatar alguma coisa pelo testemunho de outros, veja se o testemunho é digno de crédito, e em geral dê as razões em que se funda a sua própria convicção.

Pobre Shetland, trabalhei muito por ti; muitas mãos de papel, muitas resmas escrevi para descrever as tuas necessidades e pedir socorro; e viajei vários milhares de milhas para levantar aquele socorro que eu tinha solicitado por cartas para ti. Agora isso está “quase feito e quase acabado”. Que Deus te levante outro amigo que seja, se possível, mais dedicado e fiel, e ao mesmo tempo mais bem-sucedido! E agora tenho de dizer: Que a SANTA TRINDADE seja o teu Amigo incessante, ó minha pobre Shetland! Amém.

As escolas dominicais

O êxito espantoso das escolas dominicais quase aniquilou o provérbio “Santo quando jovem, diabo quando velho”; porque encontramos em toda parte homens e mulheres, sejam esposas e maridos, sejam patrões e criados, andando irrepreensivelmente em todas as ordenanças e mandamentos de Deus, que foram levados a conhecer a Deus quando eram criancinhas nessas escolas; cuja piedade nunca os abandonou, mas os conduziu através da maioria das relações difíceis e provadoras da vida; até que agora, passado o seu meio-dia, o seu sol se torna mais brilhante e mais amplo à medida que se aproxima do ocaso, tendo antes brilhado mais e mais até ser dia claro (cf. Pv 4.18). Nem conheço uma escola dominical na nação, sob a direção de professores piedosos, que não tenha sido coroada com exemplos desse tipo e que não tenha tido a satisfação de registrar a verdadeira conversão bíblica e a morte feliz de vários dos seus alunos. Quando esses resultados foram tão numerosos e testemunhados de modo tão satisfatório, não é de admirar que pais piedosos tenham sido encorajados a cultivar a mente dos filhos com mais assiduidade do que antes, olhando para Deus para que abençoe os seus esforços, derramando luz na mente dos seus pequenos e paz e amor no seu coração. Em toda parte se veem os frutos mais benditos desse trabalho; e afirmamos com segurança que a salvação das crianças é agora tão frequente quanto a dos adultos era há um século, enquanto a destes está numa proporção dez vezes maior do que foi, pelo menos ao alcance da memória da geração presente. E não é raro que aquilo que antes começava pelos maiores e descia até os menores (pelos pais, descendo deles aos filhos) agora, em muitos casos, tome a direção contrária; pois eu mesmo conheci muitos casos em que criancinhas de uma escola dominical piedosa, tendo sido levadas ao verdadeiro conhecimento da salvação pela fé, se tornaram instrumentos nas mãos de Deus para a conversão dos seus pais. Há alguns anos, o espírito da incredulidade se esforçou muito para impedir toda instrução religiosa das crianças. “Deixem-nas por conta própria”, dizia esse espírito de erro; “não lhes encham a mente de antemão com noções religiosas e credos religiosos! Não as influenciem; e, quando chegarem à idade, deixem que escolham por si mesmas; e então teremos religião sem superstição.” Isso foi experimentado, ai! em numerosos casos; e a criança negligenciada achou mais racional, isto é, mais de acordo com a inclinação pecaminosa e sem freio da sua própria mente, ser cética ou incrédula do que crer como os ortodoxos; ou cumprir um conjunto fácil de deveres morais, com os descuidados e os não despertados, vivendo à vontade em Sião e confiando nos montes da sua Samaria (cf. Am 6.1).

O cisma

O cisma na religião é coisa perigosa e deve ser cuidadosamente evitado por todos os que temem a Deus. Mas é preciso entender bem essa palavra. Na teologia, admite-se geralmente que ela significa “uma ruptura ou um afastamento da doutrina e da prática dos apóstolos, especialmente entre os que antes estavam unidos nessa doutrina e nessa prática”. O afastamento de instituições humanas na religião não é cisma, por esta razão: só a palavra de Deus é a regra suficiente da fé e da prática dos cristãos; e, quanto às instituições, formas, modos etc. humanos, os de um partido podem ser tão bons quanto os de outro.

A ânsia de poder

Que coisa verdadeiramente diabólica é a ânsia de poder! Ela destrói todos os afetos da vida e torna os que estão sob a sua influência as imagens mais fiéis do arquidemônio.

O espírito partidário na política

O espírito partidário, especialmente nos assuntos políticos, é a grande vergonha e maldição da Inglaterra. Esse espírito não conhece amigo, não sente obrigação, desconhece todos os ditames da honestidade, da caridade e da misericórdia, e não poupa esforços para arruinar o objeto do seu ódio. Pela lei, não temos eleições mais do que uma vez a cada sete anos; e o dano que então se faz ao caráter moral da nação mal se repara nos sete anos seguintes. Todos os afetos da vida são ultrajados e pisados por ele; a simples honestidade não é ouvida, e as mentiras e a difamação se espalham por atacado. A ralé apanha os boatos maldosos que os candidatos adversários e as suas comissões espalham uns dos outros, e a reputação dos melhores homens do país é ferida e fica sangrando até que o lento esquecimento apague a lembrança dos acontecimentos que lhe deram origem.

A amizade

Pobre amizade! Foi tão chutada de um lado para outro no mundo que agora se tornou completamente aleijada e andará coxeando usque ad Graecas Calendas. [N. do T.: “até as calendas gregas”, isto é, nunca, já que os gregos não tinham calendas; aqui, indefinidamente.] Contudo, em todas as suas andanças, tem sempre certa uma pousada para a noite conosco; parece estar muito à vontade debaixo do nosso teto; e declara, e suponho que com sinceridade, que a nossa casa é uma das pouquíssimas de onde nunca foi expulsa e onde sempre pode esperar com confiança ser recebida. Ela e eu nunca tivemos nenhum desentendimento; e, tendo envelhecido juntos, estamos decididos a continuar em bons termos. Muitas vezes ela se interessou por mim; e, embora muitas vezes não tenha tido êxito, conhecendo a sua sinceridade, tomei a boa vontade pelo feito bem-sucedido e continuei a recebê-la com bondade, com todos aqueles que ela me recomendou. Alguns destes têm boa aparência, falam de modo confortador e estão cheios de boas resoluções e promessas; mas a disposição de se ofender prevalece de modo tão universal que vários deles vão embora sem nenhum aviso prévio; e outros, depois de saírem, demoram-se um pouco à porta e falam e olham como de costume; mas cada dia os acho progressivamente mais longe, até que por fim a distância é tal que não consigo ouvi-los, embora pareçam ainda falar; e com o tempo saem inteiramente de vista! Nada resta deles na nossa casa senão o nome, com uma inscrição, de meu próprio punho, debaixo de cada um: “Quando estiveres disposto a voltar, encontrarás aqui a mesma acolhida de antes”.

Posso dizer que nunca formei uma amizade que eu tenha rompido. A minha lista de amigos não tem um só borrão; alguns deles, é verdade, se esgueiraram; alguns parecem ter saído às pressas, e outros estão a grande distância; mas não fiz nenhuma rasura na minha lista; e, quando quiserem voltar, nunca poderá aparecer, por uma nova inscrição, que eles foram falsos para com o seu amigo ou descuidados com ele.

Multidões se queixam da traição dos amigos, que revelam os seus segredos etc., sem nunca considerar que elas mesmas foram as primeiras a traí-los, confiando a outros aquilo que dizem desejar que fosse segredo para o mundo inteiro! Se alguém nunca deixar o seu segredo sair do próprio peito, é impossível que seja traído.

A lisonja

Os homens que nos elogiam na nossa cara devem sempre ser vistos com suspeita. Os italianos têm um provérbio muito expressivo sobre este assunto: “Quem te acaricia mais do que costumava ou já te enganou, ou está para te enganar”. Nunca vi falhar o sentimento deste provérbio.

O interesse próprio

Deve-se suspeitar de alguém quando ele recomenda mais as boas obras das quais tira mais vantagem. O interesse próprio é um casuísta muito decidido e remove num instante uma infinidade de escrúpulos. É sempre o primeiro a ser consultado e o mais prontamente obedecido. Não é pecado dar-lhe ouvidos, mas ele não deve governar nem decidir sozinho.

Recorrer à justiça

“Defenda a sua causa diretamente com o seu próximo” (Pv 25.9). Aceite o conselho dos amigos. Que ambos os lados atendam aos seus conselhos; mas não conte a ninguém o segredo do seu negócio. Depois de vocês esbanjarem o seu dinheiro com advogados, tanto eles quanto o juiz acabarão deixando a questão para ser resolvida por doze dos seus concidadãos! Ó loucura de recorrer à justiça! Ó cegueira dos homens e rapacidade dos advogados!

Um cristão processa outro na justiça (cf. 1Co 6.6)! Isso é quase o maior escândalo que pode existir numa sociedade cristã. Os que, numa comunidade religiosa, não se submetem a uma arbitragem apropriada, feita por pessoas do seu próprio meio, devem ser expulsos da igreja de Deus.

A fiança

Se você se compromete em favor de outro, tira o fardo de cima dele e o põe sobre os próprios ombros. E, quando ele sabe que tem alguém que se põe entre ele e as exigências da lei e da justiça, sentirá pouca responsabilidade; o seu espírito de esforço ficará aleijado, e se instalará a indiferença quanto ao resultado. O seu próprio crédito sofrerá pouco; os seus bens, nada, porque o seu amigo carrega todo o fardo; e talvez a mesma pessoa por quem ele carregou esse fardo o trate com descaso e, para que não lhe exijam a devolução do penhor, evite tanto a vista quanto a presença do seu amigo. Dê o que puder; mas, exceto em casos extremos, não seja fiador de ninguém.

A usura

“Quem aumenta os seus bens com juros e ganância” (Pv 28.8): isto é, cobrando juros ilegais pelo seu dinheiro, emprestando a alguém em grande aflição um dinheiro por cujo uso exige uma soma exorbitante. Oxalá os nomes de todos esses vilões insensíveis, de coração duro e consumados do país, que assim se aproveitam das necessidades do próximo para se enriquecer, fossem publicados em todos os cruzeiros de mercado, e os delinquentes fossem todos mandados para os seus irmãos selvagens da Nova Zelândia! Seria um feliz alívio para o país.

A escravidão

“Sequestradores” (1Tm 1.10): os traficantes de escravos; sejam os que fazem o comércio de carne e sangue humanos, sejam os que roubam uma pessoa para vendê-la como escrava, sejam os que compram esses homens ou mulheres roubados, não importa de que cor ou de que país, sejam os que semeiam dissensões entre tribos bárbaras para que os capturados na guerra possam ser vendidos como escravos, sejam as nações que legalizam esse comércio ou fazem vista grossa a ele: todos esses são sequestradores de homens, e Deus os classifica com os mais celerados dos mortais. [N. do T.: Clarke segue a King James, men-stealers, “ladrões de homens”.]

Registro aqui o meu testemunho contra o tráfico de escravos, sem princípios, desumano, anticristão e diabólico, com todos os seus autores, promotores, cúmplices e lucros sacrílegos, assim como contra o grande diabo, pai dele e deles.

A parábola

A parábola é uma comparação ou semelhança em que uma coisa é comparada com outra, especialmente as coisas espirituais com as naturais, por meio da qual essas coisas espirituais se entendem melhor e causam impressão mais profunda numa mente atenta.

O milagre

Entendo por milagre algo produzido ou conhecido de que nenhum poder é capaz senão o onipotente, e para o qual nenhum conhecimento é adequado senão o onisciente. A conversão de uma só alma rebelde é um milagre maior, e mais digno de admiração, do que tudo o que se possa operar nas criaturas inanimadas.

O milênio

Que decepção e que confusão foram trazidas à mente de muitos por cálculos relativos ao término de certos impérios, o papal e o turco, a besta e o falso profeta; à segunda vinda de Cristo para estabelecer um império universal, cujas leis serão administradas pela sua presença corporalmente manifestada na terra; e também ao tempo do juízo final e ao fim do mundo! Quando se persegue uma fantasia, a linha da perseguição só é dirigida por uma espécie de fantasmas telegráficos, marcos irreais para objetos irreais; e, quando o último fogo-fátuo termina a sua dança incerta, absorvido por algum outro vapor que o neutralizou, ficamos de repente em trevas, no lamaçal onde todas essas aberrações mentais têm necessariamente de terminar; e assim se prostitui a profecia, a fé e a esperança (mal empregadas) se decepcionam, e a própria religião cai em descrédito.

É realmente espantoso que as pessoas prefiram a esperança ao gozo e se contentem antes com bênçãos em perspectiva do que em posse!

Milhares, nas suas afeições, na sua conversa e na sua conduta, andam atrás de um período indefinido e indefinível, comumente chamado glória milenar, enquanto a expectativa fica paralisada, e a oração e a fé ficam contidas em relação à salvação presente; e, no entanto, nenhum deles pode dizer o que até um dia pode trazer (cf. Pv 27.1); porque estamos agora à beira da eternidade, e, por ser assim, “Eis agora o tempo oportuno! Eis agora o dia da salvação!” (2Co 6.2).

O tempo

Comprem aqueles momentos que os outros parecem jogar fora; aproveitem com constância cada momento presente, para que possam, em alguma medida, recuperar o tempo que perderam. Que o tempo seja a sua principal mercadoria; negociem só com ele; comprem-no todo e usem vocês mesmos cada porção dele. O tempo é aquilo de que a eternidade depende; no tempo é que vocês devem obter a preparação para o Reino de Deus; se não a obtiverem no tempo, a sua ruína é inevitável; portanto, comprem o tempo (cf. Ef 5.16). [N. do T.: Clarke traduz literalmente o verbo grego de Ef 5.16 e Cl 4.5, “resgatar” ou “comprar” o tempo; a NAA traz “aproveitando bem o tempo”.]

Notas de Samuel Dunn

1. “Para muitos pormenores interessantes relativos às perturbações em Epworth, devo remeter o leitor às Memórias da Família Wesley, do Dr. Clarke. S. D.” ↩

2. “Como o projeto acima não foi executado, espera-se que o ano de 1839, centenário da fundação da sociedade metodista wesleyana, não passe sem cultos de algum modo semelhantes aos mencionados pelo Doutor. As coletas, e os fins a que se aplicar o dinheiro, são considerações secundárias. S. D.” ↩

3. “Que respostas foram dadas a estas perguntas não é necessário que o leitor saiba. A carta é inserida como curiosidade, e é provável que seja útil a outros missionários em diferentes partes do mundo. O êxito da Missão às Ilhas pode ser conhecido pelas cartas e diários publicados no Wesleyan-Methodist Magazine desde 1832. S. D.” ↩

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Adam Clarke, Christian Theology, selecionada e organizada por Samuel Dunn (Londres, Thomas Tegg and Son, 1835), exemplar digitalizado pelo Google (Universidade de Illinois). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).