Capítulo XXXV

Princípios gerais

Páginas 426 a 431 da edição de 1835

1. Que há um só Ser não criado, sem origem, infinito e eterno: o Criador, Preservador e Governador de todas as coisas.

2. Que há nessa Essência Infinita uma pluralidade do que comumente se chamam Pessoas; não subsistindo separadamente, mas pertencendo essencialmente à Divindade; Pessoas que comumente se denominam Pai, Filho e Espírito Santo, ou Deus, o Logos e o Espírito Santo; e estas se chamam geralmente Trindade, termo que, embora não se encontre no Novo Testamento, parece aplicado com bastante propriedade, já que nunca lemos de mais de três pessoas na Divindade.

3. Que as Sagradas Escrituras, ou Livros Santos, que formam o Antigo e o Novo Testamento, contêm uma revelação completa da vontade de Deus em relação ao ser humano; que são, sozinhas, suficientes para tudo o que se refere à fé e à prática do cristão; e que foram dadas por inspiração de Deus.

4. Que o ser humano foi criado em justiça e verdadeira santidade, sem nenhuma imperfeição moral nem qualquer espécie de propensão ao pecado, mas livre para ficar de pé ou cair.

5. Que ele caiu desse estado, tornou-se moralmente corrompido na sua natureza e transmitiu a sua contaminação moral a toda a sua posteridade.

6. Que, para contrariar o princípio mau e colocar o ser humano num estado em que pode ser salvo, Deus, por seu amor infinito, formou o propósito de redimir o ser humano do seu estado de perdição por meio de Cristo Jesus; e, nesse ínterim, enviou o seu Espírito Santo para iluminar os homens, lutar com eles e convencê-los do pecado, da justiça e do juízo (cf. Jo 16.8).

7. Que, no tempo devido, o Logos divino, chamado depois Jesus, o Cristo, o Filho de Deus, o Salvador etc., se encarnou e habitou entre os homens, ensinando a verdade mais pura e realizando os milagres mais estupendos e benéficos.

8. Que essa Pessoa divina, predita pelos profetas e descrita pelos evangelistas e apóstolos, é real e propriamente Deus; tendo-lhe atribuído os escritores inspirados todos os atributos essenciais à Divindade; sendo um com aquele que é chamado Deus, Jeová etc.1

9. Que ele é também homem perfeito, em consequência da sua encarnação; e que nesse homem, ou humanidade, habitou corporalmente toda a plenitude da divindade (cf. Cl 2.9); de modo que a sua natureza é dupla, divina e humana, ou Deus manifestado na carne (cf. 1Tm 3.16).

10. Que a sua natureza humana deriva da bendita Virgem Maria, pela energia criadora do Espírito Santo; mas a sua natureza divina, porque é Deus, infinito e eterno, é não criada, não derivada e não gerada; e, se fosse de outro modo, ele não poderia ser Deus em nenhum sentido próprio da palavra; mas, como ele é Deus, a doutrina da filiação eterna tem de ser falsa.2 [N. do T.: neste artigo Clarke se afasta de John Wesley e da posição oficial da Conferência Metodista Wesleyana britânica do seu tempo, como mostra a nota de Dunn. Clarke não nega a divindade eterna de Cristo, que afirma nos artigos 7 a 10; nega a geração eterna e entende que o título “Filho de Deus” se refere a Cristo encarnado.]

11. Que, tendo tomado sobre si a natureza humana, ele morreu por toda a raça humana, sem acepção de pessoas; igualmente por todos e por cada pessoa.

12. Que, no terceiro dia depois da sua crucificação e sepultamento, ele ressuscitou dos mortos; e, depois de se mostrar durante muitos dias aos seus discípulos e a outros, subiu ao céu, onde, como Deus manifestado na carne, continua e continuará a ser o Mediador da raça humana até a consumação de todas as coisas.

13. Que não há salvação senão por meio dele; e que em todas as Escrituras a sua paixão e a sua morte são consideradas sacrificiais, obtendo-se o perdão e a salvação pelo derramamento do seu sangue.

14. Que nenhum ser humano, desde a queda, tem ou pode ter mérito ou dignidade em si mesmo ou por si mesmo, e por isso nada tem a reclamar de Deus senão pelo caminho da sua misericórdia por meio de Cristo; portanto, o perdão e todas as outras bênçãos prometidas no evangelho foram comprados pela sua morte sacrificial e são dados às pessoas, não por causa de qualquer coisa que tenham feito ou sofrido, ou possam fazer ou sofrer, mas só por amor dele ou por meio do seu mérito.

15. Que essas bênçãos são recebidas pela fé, porque não vêm das obras nem dos sofrimentos.

16. Que o poder de crer, ou a graça da fé, é dom gratuito de Deus, sem o qual ninguém pode crer; mas que o ato de fé, ou o crer efetivamente, é ato da alma, sob a influência desse poder. Mas esse poder de crer, como todos os outros dons de Deus, pode ser desprezado, não usado ou mal usado; e é em consequência disso que se faz aquela declaração: “Quem crer será salvo; quem, porém, não crer será condenado” (cf. Mc 16.16).

17. Que a justificação, ou o perdão do pecado, é um ato instantâneo da misericórdia infinita de Deus em favor de uma alma arrependida que confia só nos méritos de Jesus Cristo; e que esse ato é absoluto em relação a todo o pecado passado, pois, onde algum pecado é perdoado, todos são perdoados.

18. Que a alma de todos os crentes pode ser purificada de todo pecado nesta vida; e que uma pessoa pode viver sob a influência contínua da graça de Cristo, sem pecar contra o seu Deus, sendo destruídas todas as más disposições e propensões pecaminosas, e o seu coração cheio de puro amor tanto a Deus quanto ao próximo.

19. Que, a não ser que o crente viva e ande no espírito de obediência, cairá da graça de Deus e perderá todos os seus privilégios e direitos cristãos; e que pode perseverar nesse estado de desvio e, se o fizer, perecer eternamente.

20. Que todo o período da vida humana é um estado de prova, em qualquer parte do qual o pecador pode se arrepender e voltar para Deus, e em qualquer parte do qual o crente pode ceder ao pecado e cair da graça; e que essa possibilidade de se levantar e essa sujeição a cair são essenciais a um estado de provação ou prova.

21. Que todas as promessas e ameaças da palavra de Deus são condicionais, no que se referem ao ser humano em relação à sua existência aqui e depois; e que só sobre esse fundamento as Sagradas Escrituras podem ser interpretadas ou entendidas de modo coerente.

22. Que o ser humano é agente livre, nunca impelido por qualquer influência que o obrigue a fazer o mal ou o bem, mas tem continuamente em seu poder escolher a vida ou a morte que lhe são propostas (cf. Dt 30.19); e que, sobre esse fundamento, é um ser responsável e tem de responder pelas próprias ações; e é também somente sobre esse fundamento que ele é capaz de ser recompensado ou castigado.

23. Que o seu livre-arbítrio é um elemento necessário da sua alma racional, sem o qual o ser humano seria uma simples máquina, ou joguete do acaso cego ou mero paciente de uma necessidade irresistível; e, consequentemente, não responsável por quaisquer atos a que fosse irresistivelmente impelido.

24. Que todo ser humano tem essa liberdade da vontade, com luz e poder suficientes para dirigir as suas operações; e que essa luz poderosa não é inerente à natureza de ninguém, mas é concedida graciosamente por aquele que é a verdadeira luz, que ilumina todo homem que vem ao mundo (cf. Jo 1.9).

25. Que, uma vez que Cristo, por se ter oferecido uma só vez na cruz, fez um sacrifício, oblação e satisfação suficiente pelos pecados do mundo inteiro; e uma vez que o seu Espírito gracioso luta com todas as pessoas e as ilumina, pondo-as assim num estado em que podem ser salvas; portanto toda alma humana pode ser salva, se não for por culpa própria.

26. Que Jesus Cristo instituiu, e mandou que se perpetuassem na sua igreja, dois sacramentos: o batismo (aspersão, lavagem com água ou imersão nela), em nome da santa e sempre bendita Trindade, como sinal das influências purificadoras e regeneradoras do Espírito Santo, que produzem a morte para o pecado e o novo nascimento para a justiça; e a eucaristia, ou Ceia do Senhor, como comemoração da morte sacrificial de Cristo. Que pelo primeiro, ministrado uma vez, toda pessoa pode ser iniciada na igreja visível; e, pelo segundo, ministrado frequentemente, todos os crentes podem ser lembrados do fundamento sobre o qual se edifica a sua salvação e receber graça que os capacite a manifestar em todas as coisas a beleza da doutrina de Deus, seu Salvador (cf. Tt 2.10).

27. Que a alma é imaterial e imortal, e pode subsistir independentemente do corpo.

28. Que haverá uma ressurreição geral dos mortos, tanto dos justos quanto dos injustos; que as almas de ambos serão reunidas aos seus respectivos corpos; e que ambos serão imortais e viverão eternamente.

29. Que haverá um dia do juízo, depois do qual todos serão castigados ou recompensados segundo o que tiverem feito por meio do corpo (cf. 2Co 5.10); os ímpios serão mandados para o inferno, e os justos levados para o céu.

30. Que esses estados de recompensa e de castigo não terão fim, já que o tempo de prova ou provação terá terminado para sempre, e o estado seguinte tem de ser necessariamente fixo e inalterável.

31. Que a origem da salvação humana se encontra na infinita filantropia de Deus; e que, por esse princípio, a reprovação incondicional de qualquer alma é absolutamente impossível.

32. As Sagradas Escrituras são um sistema de razão pura e sem adulteração, procedente da mente imaculada de Deus; em muitos lugares, é verdade, imensamente elevado acima do que a razão humana poderia ter imaginado ou descoberto, mas em nenhum caso contrário à razão humana. Elas se dirigem não às paixões, mas à razão do ser humano: todo mandamento é acompanhado de razões para obedecer, e toda promessa e toda ameaça se fundam na razão e na adequação mais evidentes. O todo, portanto, deve ser entendido racionalmente e interpretado racionalmente. Quem quisesse dispensar a razão desta que é a sua mais nobre esfera é, no coração, amigo da máxima anticristã: “A ignorância é a mãe da devoção”. A revelação e a razão andam de mãos dadas. A fé é serva da primeira e amiga da segunda; enquanto o Espírito de Deus, que deu a revelação, aperfeiçoa e eleva a razão e dá energia e eficácia à fé.

Notas de Samuel Dunn

1. “Além das muitas outras provas em apoio da grande doutrina da divindade de Cristo que se encontrarão neste volume (ver a página 108 etc.), eu recomendaria aqui à atenção do leitor crítico um admirável ensaio sobre o artigo grego, publicado no fim das notas do Doutor sobre a epístola aos Efésios, por aquele erudito consumado, o sr. H. S. Boyd, autor de Traduções de Crisóstomo etc., que leu os escritores gregos, sagrados e profanos, com atenção particular. Ele o revisou cuidadosamente para a nova edição do Comentário, e o Dr. Clarke o considerava o melhor trabalho jamais escrito sobre o assunto. A inserção que o Doutor fez dele é só um entre muitos exemplos em que mostrou a sua disposição de ‘semear junto a todas as águas’ e de se valer dos talentos dos outros para enriquecer a sua obra e beneficiar o público. S. D.” [N. do T.: a página 108 da edição original é o início do capítulo VI, Cristo. A expressão “semear junto a todas as águas” vem de Is 32.20.] ↩

2. “Nas Atas da Conferência do ano de 1827 (p. 77) estão estas palavras: ‘É direito reconhecido e, nas circunstâncias atuais, dever indispensável de todo presidente de distrito perguntar a todos os candidatos à admissão em experiência entre nós se creem que a doutrina da filiação eterna de nosso Senhor Jesus Cristo, tal como exposta pelo sr. Wesley, especialmente nas suas Notas sobre o primeiro capítulo da sua Epístola aos Hebreus [N. do T.: assim no original impresso; “sua” se refere, ao que parece, ao apóstolo, a quem então se atribuía a epístola], está de acordo com as Sagradas Escrituras; e que é também direito reconhecido e, nas circunstâncias atuais, dever indispensável do presidente da Conferência em exercício examinar particularmente sobre essa doutrina todo pregador proposto para ser admitido na Conexão e exigir dele uma declaração explícita e sem reservas do seu assentimento a ela, como verdade revelada nos Oráculos Inspirados’.” ↩

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Adam Clarke, Christian Theology, selecionada e organizada por Samuel Dunn (Londres, Thomas Tegg and Son, 1835), exemplar digitalizado pelo Google (Universidade de Illinois). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).