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Parte II · Capítulo XI

Trindade: Jesus Cristo, o Jeová do Antigo Testamento

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Ao ler as Escrituras do Antigo Testamento, é impossível não notar com séria atenção as frequentes aparições visíveis de Deus aos patriarcas e profetas e, o que é ainda mais singular, a sua residência visível numa nuvem de glória, tanto entre os judeus no deserto como no seu tabernáculo e templo sagrados.

O fato de tais aparições não pode ser contestado; todos o admitem. E, para mostrar a relação desse fato com o ponto em discussão, a divindade de Cristo, é necessário:

1. Mostrar que a pessoa que fez essas aparições era verdadeiramente uma pessoa divina.

As provas disso são que ele traz os nomes de Jeová, Deus e outras designações divinas, e que habitava entre os israelitas como objeto do seu culto supremo; o culto de um povo cujo primeiro preceito da lei era: “Não tenha outros deuses diante de mim” (Êx 20.3). As provas são abundantes, mas as citações não serão multiplicadas sem necessidade.

Quando o Anjo do Senhor encontrou Agar no deserto, ela “deu ao Senhor (Jeová), que havia falado com ela, o nome de ‘Tu és o Deus que vê'” (Gn 16.13). Jeová apareceu a Abraão nos carvalhais de Manre. Abraão levantou os olhos, e três homens, três pessoas em forma humana, “estavam em pé diante dele”. Um dos três é chamado Jeová. E Jeová disse: “Será que eu devo esconder de Abraão o que estou para fazer?” Dois dos três partem, mas aquele a quem se dá essa alta designação permanece: “mas Abraão ainda permaneceu na presença do Senhor (Jeová)”. Esse Jeová é chamado por Abraão, na conversa que se seguiu, “o Juiz de toda a terra”; e o relato dessa entrevista solene é assim encerrado pelo historiador: “Quando acabou de falar com Abraão, o Senhor (Jeová) se retirou” (Gn 18.1-33). Aparições do mesmo personagem ocorrem a Isaque e a Jacó, sob o nome de “o Deus de Abraão e de Isaque”. Depois de uma dessas manifestações, Jacó diz: “Vi Deus face a face” (Gn 32.30); e, depois de outra: “Na verdade, o Senhor (Jeová) está neste lugar” (Gn 28.16). O mesmo Jeová se fez visível a Moisés e lhe deu a sua comissão, e Deus disse: “Eu Sou o Que Sou. […] Assim você dirá aos filhos de Israel: ‘Eu Sou me enviou a vocês'” (Êx 3.14). O mesmo Jeová ia adiante dos israelitas de dia numa coluna de nuvem e de noite numa coluna de fogo; e por ele foi dada a lei, do monte Sinai, em meio a terríveis demonstrações de poder e majestade: “Eu sou o Senhor (Jeová), seu Deus, que o tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não tenha outros deuses diante de mim” etc. (Êx 20.2-3). “Perguntem se algum povo ouviu a voz de algum deus falando do meio do fogo, como vocês ouviram, e ficaram vivos” (Dt 4.33). Esse mesmo personagem ordenou aos israelitas que lhe construíssem um santuário, para que habitasse entre eles; e, quando foi erguido, tomou posse dele numa forma visível, que se chamava “a glória do Senhor”. Ali a Shekiná, o sinal visível da presença de Jeová, repousava sobre a arca; ali ele era consultado em todas as ocasiões, e ali recebia o culto deles de geração em geração. Ofereciam-se sacrifícios; o pecado era confessado diante dele e perdoado por ele; e o livro dos Salmos é uma coleção dos hinos que se cantavam em sua honra nos serviços do tabernáculo e do templo, onde ele é constantemente celebrado como Jeová, o Deus de Israel; o “Jeová, Deus de seus pais”; e o objeto exclusivo da esperança e da confiança deles. Todas as obras da criação são, nessas composições sublimes, atribuídas a ele; e ele é honrado e adorado como o governador de todas as nações e o único soberano entre os filhos dos homens. Numa palavra, para assinalar a sua divindade da maneira mais forte possível, todas as bênçãos, temporais, espirituais e eternas, “luz e defesa, graça e glória”, são buscadas de suas mãos.

Assim, o mesmo ser glorioso, que traz a designação de Jeová, é visto como objeto do culto e da confiança de séculos, e isso sob uma manifestação visível; exibindo atributos, empenhado em operações e assumindo dignidades e honras que inequivocamente o revestem da majestade da divindade absoluta.

A isso, as objeções que se fizeram admitem uma resposta plenamente satisfatória.

A primeira é que esse personagem também é chamado “o Anjo do Senhor”. Isso é verdade; mas, se esse Anjo do Senhor é a mesma pessoa que aquele que é chamado Jeová, o mesmo que deu a lei em seu próprio nome, então é claro que o termo “Anjo” não indica um ser criado e é designação não de natureza, mas de ofício, o que será explicado logo adiante, e não é de modo algum incompatível com a sua verdadeira e própria divindade.

O cotejo de algumas passagens, ou das diferentes partes das mesmas passagens da Escritura, mostrará que Jeová e “o Anjo do Senhor”, quando usado nesse sentido eminente, são a mesma pessoa. Jacó diz a respeito de Betel, onde havia exclamado: “Na verdade, o Senhor (Jeová) está neste lugar”, que o Anjo de Deus lhe apareceu em sonho, dizendo: Eu sou o Deus de Betel (Gn 31.11-13). Em seu leito de morte, ele dá os nomes de Deus e de Anjo a essa mesma pessoa: “o Deus que tem sido o meu pastor durante a minha vida até este dia, o Anjo que me tem livrado de todo mal, abençoe estes meninos!” (Gn 48.15-16). Assim, em Oseias 12.3-5, se diz: “no vigor da sua idade, lutou com Deus. Lutou com o anjo e venceu”; “Em Betel, encontrou Deus, e ali Deus falou com ele. O Senhor, o Deus dos Exércitos, o Senhor é o seu nome.” [N. do T.: Watson indica Os 12.2,5.] Aqui a mesma pessoa tem os nomes de Deus, Anjo e Senhor Deus dos Exércitos. “Então do céu pela segunda vez o Anjo do Senhor chamou Abraão e disse: Porque você fez isso […], juro por mim mesmo, diz o Senhor (Jeová), que certamente o abençoarei” (Gn 22.15-17). O Anjo do Senhor apareceu a Moisés numa chama de fogo; mas esse mesmo Anjo do Senhor “do meio da sarça, o chamou e disse: […] Eu sou o Deus de seu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó. Moisés escondeu o rosto, porque teve medo de olhar para Deus” (Êx 3.2-6). Para omitir muitas outras passagens, Santo Estêvão, aludindo a essa parte da história de Moisés em seu discurso perante o sinédrio, diz: “apareceu-lhe, no deserto do monte Sinai, um anjo do Senhor, numa chama de fogo” [N. do T.: assim no texto que Watson cita (KJV); a NAA traz apenas “um anjo, por entre as chamas de uma sarça” (At 7.30)], mostrando que essa fraseologia estava em uso entre os judeus em seu tempo e que esse Anjo e Jeová eram considerados o mesmo ser, pois acrescenta: “É este Moisés quem esteve na congregação no deserto, com o anjo que lhe falava no monte Sinai” (At 7.38). Há uma parte da história dos judeus no deserto que mostra tão plenamente que eles distinguiam esse Anjo de Jeová de todos os anjos criados que merece atenção particular. Em Êxodo 23.20, Deus faz esta promessa a Moisés e aos israelitas: “Eis que eu envio um Anjo adiante de vocês, para que os guarde pelo caminho e os leve ao lugar que tenho preparado. Deem atenção a ele e ouçam o que ele diz. Não se rebelem contra ele, porque não perdoará a transgressão de vocês; pois nele está o meu nome.” Observe-se a respeito desse Anjo que ele é aqui apresentado como o guia e protetor dos israelitas; a ele deveriam as suas conquistas e o seu estabelecimento na terra prometida, que em outros lugares são muitas vezes atribuídos à ação imediata de Deus; que eles são advertidos a “dar atenção a ele” [N. do T.: a KJV traz beware of him, “guardai-vos dele”], a reverenciá-lo e temê-lo; que o perdão das transgressões lhe pertence; finalmente, que “nele está o nome” de Deus. Esse nome deve ser entendido como o nome próprio e peculiar de Deus, Jeová, Eu Sou, que ele assumiu como sua designação distintiva ao aparecer pela primeira vez a Moisés; e, como os nomes de Deus são indicativos de sua natureza, aquele que tinha direito de trazer o nome peculiar de Deus deve também ter a sua essência. Essa interpretação fica acima de toda dúvida pelo fato de que Moisés e os judeus assim entenderam a promessa; pois, mais tarde, quando os seus pecados provocaram Deus a ameaçar não subir ele mesmo com eles, mas confiá-los a “um anjo, que expulsaria os cananeus” etc. [N. do T.: Watson segue a KJV, an angel, com artigo indefinido, distinção de que depende o argumento; a NAA traz “Enviarei o Anjo adiante de você e expulsarei os cananeus” (Êx 33.2)], o povo lamentou isso como grande calamidade, e Moisés recorreu a uma intercessão especial e não descansou enquanto não obteve a revogação da ameaça e a renovação da promessa: “A minha presença irá com você, e eu lhe darei descanso” (Êx 33.14). Nada, portanto, pode ser mais claro do que isto: Moisés e os israelitas consideraram a promessa do Anjo, no qual estava “o nome de Deus”, como promessa de que o próprio Deus iria com eles. Com esse Anjo incriado, essa presença do Senhor, eles se davam por satisfeitos, mas não com “um anjo” indefinidamente, com um anjo que não o fosse apenas por ofício, como era o Anjo que aparecia no Antigo Testamento, mas que fosse por natureza daquela ordem de seres que costumamos chamar assim e, portanto, um ser criado. À notícia da determinação de Deus de não subir com eles, Moisés se apressa a ir ao tabernáculo para fazer as suas intercessões e recusa um guia inferior: “Se a tua presença não for comigo, não nos faças sair deste lugar” (Êx 33.15).1

Que o Anjo de Jeová é constantemente apresentado como o próprio Jeová e, portanto, como pessoa divina, é tão manifesto que os meios empregados para escapar à força do argumento, que dali brota tão imediatamente, reconhecem o fato. Os que negam a divindade de nosso Senhor, porém, esforçam-se por fugir à consequência segundo os seus respectivos credos. Os arianos, que pensam que o anjo que aparecia era Cristo, mas que, no entanto, negam que ele seja o próprio Jeová, supõem que esse ser glorioso, mas criado, representava o papel da Divindade e, como seu embaixador e representante, falava com a autoridade dela e tomava o seu nome. Assim observa um ariano moderno: “O Anjo toma o nome de Jeová porque é máxima comum que o embaixador fala com as palavras de quem o envia (loquitur legatus sermone mittentis eum), como um embaixador em nome de seu rei, ou o fecial quando declarava guerra em nome do povo romano; e o que é feito pelo Anjo se diz feito por Deus, segundo outra máxima: quem faz por meio de outro faz por si mesmo (qui facit per alium, facit per se)” (Taylor, Ben Mordecai). A resposta a isso é: que, embora os embaixadores falem em nome de seus senhores, não aplicam a si mesmos os nomes e títulos de seus senhores;2 que os anjos indubitavelmente criados, mencionados na Escritura como aparecendo aos homens, declaram que foram enviados por Deus e nunca se fazem passar por ele; que os profetas declaram uniformemente que a sua comissão vem de Deus; que o próprio Deus declara: “Eu sou o Senhor (Jeová): este é o meu nome. Não darei a mais ninguém a minha glória” (Is 42.8); e que, no entanto, o Anjo que aparecia chama a si mesmo, como vimos, por esse nome incomunicável em quase inumeráveis ocasiões; e que, embora o objetivo da dispensação mosaica fosse preservar os homens da idolatria, esse Anjo reclama e recebe o culto exclusivo tanto dos patriarcas a quem aparecia ocasionalmente como dos judeus entre os quais residiu visivelmente durante séculos. É, portanto, proposição monstruosa demais para ser sustentada por um só momento a de que um ser criado de qualquer espécie atraísse assim os homens à idolatria, fazendo o papel da Divindade, assumindo o seu nome e atribuindo a si mesmo as perfeições e a honra peculiares e incomunicáveis de Deus.3 A hipótese ariana sobre este assunto é bem respondida até por um escritor sociniano: “Toda a transação no monte Sinai mostra que Jeová estava presente e agia, e não outro em seu lugar. É o Deus que os havia libertado do Egito, com quem deveriam entrar em aliança como seu Deus, e que então os aceitou como seu povo, quem foi o autor da sua religião e das suas leis, e quem pessoalmente lhes entregou aqueles dez mandamentos, a parte mais sagrada. Nada há que nos leve a imaginar que a pessoa que era o Deus deles não falasse em seu próprio nome; nem a menor indicação de que ali estivesse outro a representá-lo” (Apology, de Lindsey).

O autor do Essay on Spirit tenta enfrentar isso alegando que “os hebreus estavam longe de ser explícitos e exatos em seu estilo, e que era costume os profetas e os anjos falarem no nome e no caráter de Deus”. A réplica do Dr. Randolph é hábil e decisiva e, como este é um ponto de grande importância, a sua inclusão não parecerá desnecessária.

“Alguns, para escapar a essas fortes provas da divindade de nosso Senhor, afirmaram que esse era apenas um anjo criado, que aparecia no nome ou na pessoa do Pai, sendo costume na Escritura que uma pessoa sustente o caráter de outra e aja e fale em nome dela. Mas essas afirmações carecem de prova. Não encontro nenhum exemplo de uma pessoa que aja e fale em nome de outra sem primeiro declarar em nome de quem age e fala. Os exemplos que costumam ser alegados nada têm a ver com o assunto. Se às vezes encontramos no livro do Apocalipse um anjo falando em nome de Deus, será fácil mostrar pelo contexto que esse anjo era o grande Anjo, o Anjo da Aliança. Mas, se houvesse alguns exemplos, nas partes poéticas ou proféticas da Escritura, de uma mudança abrupta de pessoas, em que a pessoa que fala não é particularmente especificada, isso de modo algum se igualaria ao caso que temos diante de nós. Aqui está uma pessoa que sustenta o nome e o caráter do Deus Altíssimo de uma ponta à outra da Bíblia; que traz o seu nome glorioso e temível, o nome incomunicável Jeová, expressivo de sua existência necessária; que se assenta no trono de Deus; que habita e preside em seu templo; que promulga leis em seu nome; que profere oráculos; que ouve orações; que perdoa pecados. E, no entanto, esses escritores querem persuadir-nos de que esse era apenas um anjo tutelar; de que uma criatura era o Deus de Israel e de que a essa criatura se dirigia todo o seu serviço e culto; de que o grande Deus, ‘cujo nome é Zeloso’, se dignou dar a uma criatura a sua glória, o seu culto, o seu trono. Que é isso senão fazer da própria lei de Deus a introdução da mesma idolatria praticada por todas as nações pagãs? Mas dizem-nos que figuras de linguagem ousadas são comuns na língua hebraica, que não deve ser presa, em sua interpretação, às regras mais severas da crítica moderna. Podemos ter certeza de que são indefensáveis as opiniões que não se podem sustentar sem acusar a palavra de Deus de falta de propriedade ou de clareza. Tais alegações poderiam ser toleradas se a questão fosse a respeito de uma ou duas frases nas partes poéticas ou proféticas da Escritura. Mas esta, se é figura, é uma figura que percorre toda a Escritura. E bem ousado deve ser o intérprete que supõe que tais figuras são perpétua e uniformemente empregadas, num ponto de tamanha importância, sem significado algum. Isso é confundir o uso da linguagem, fazer da Sagrada Escritura um livro misterioso e ininteligível, capaz de não provar nada, ou antes de provar qualquer coisa que uma imaginação desenfreada sugira” (Vindication of the Doctrine of the Trinity, de Randolph).

Se a explicação ariana do Anjo de Jeová é insustentável, a noção sociniana se mostrará igualmente sem apoio e, na verdade, ridícula. O Dr. Priestley adota a maravilhosa doutrina da “personalidade ocasional” e pensa que, “em alguns casos, os anjos não eram mais do que aparições temporárias, e não seres permanentes; meros órgãos da Divindade, assumidos com o propósito de se dar a conhecer”. Fala, por isso, de “um poder emitido ocasionalmente e depois recolhido de volta à sua fonte”, desse poder revestido de uma personalidade temporária, e julga isso possível! Pouco motivo tinham o doutor e os seus adeptos para falar do mistério e do absurdo da doutrina de três pessoas numa só Divindade, eles que conseguem fazer uma pessoa de um poder emitido e depois recolhido de volta à sua fonte; uma pessoa temporária, sem subsistência individual! O desvario dessa ficção é a sua própria refutação; mas que o Anjo de Jeová não era essa pessoa temporária e ocasional, produzida ou “emitida” para a ocasião dessas aparições, fica certo pelo fato de Abraão “andar diante deste Anjo do Senhor”, isto é, ordenar a sua vida e o seu procedimento sob o olhar dele todos os dias de sua vida; pelo fato de Jacó chamá-lo o Anjo do Senhor que “tinha sido o seu pastor durante toda a sua vida”; e também por isto: que a mesma pessoa que era chamada por si mesma e pelos judeus “o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó” era o Deus do povo escolhido em todas as suas gerações. O Sr. Lindsey diz “que o sinal exterior da presença de Deus é o que geralmente se entende pelo Anjo de Deus, quando não especificado e aplicado particularmente de outra forma; aquilo que manifestava a sua aparição, fosse o que fosse”; e essa opinião prevalece comumente entre os socinianos. “O Anjo do Senhor era o símbolo visível da presença divina” (Belsham). Essa noção, porém, envolve toda uma série de absurdos. O termo “Anjo de Jeová” não se explica de modo algum por um símbolo visível de nuvens, luz, fogo etc., a menos que esse símbolo seja considerado distinto de Jeová. Temos, então, o nome Jeová dado a uma nuvem, a uma luz, a um fogo etc.; o fogo é o Anjo do Senhor, e, no entanto, o Anjo do Senhor chama Moisés do meio do fogo. Esse símbolo visível diz a Abraão: “juro por mim mesmo“, pois se diz que essas são palavras do Anjo de Jeová; e esse Anjo, o símbolo visível, falou a Moisés no monte Sinai. Tais são os absurdos que decorrem do erro! Com toda a clareza, portanto, fica determinado, pelo testemunho de várias escrituras e por indução necessária das circunstâncias que acompanham as numerosas aparições do Anjo de Jeová no Antigo Testamento, que a pessoa que assim se manifestava e assim recebia culto supremo não era um anjo criado, como querem os arianos, nem um meteoro, um fenômeno atmosférico, a digna teoria dos socinianos modernos, mas que era uma pessoa divina.

2. Será necessário mostrar que essa pessoa divina não era Deus Pai.

Adotou-se o seguinte argumento para prová-lo: “‘Ninguém jamais viu Deus’ (Jo 1.18). ‘Vocês nunca ouviram a voz dele, nem viram a sua forma’ (Jo 5.37). ‘Não que alguém tenha visto o Pai’ (Jo 6.46). Diz-se, porém, no Antigo Testamento, que Deus apareceu frequentemente sob as dispensações patriarcal e levítica; e, portanto, devemos concluir que o Deus que aparecia era Deus Filho.”

Por mais plausível que seja esse argumento, não se pode confiar nele; pois a ideia de que o Pai nunca se manifestou aos homens como distinto do Filho é contradita por dois testemunhos expressos. Vimos que o Anjo no qual estava o nome de Deus, prometido como guia dos israelitas através do deserto, era uma pessoa divina. Mas aquele que prometeu “enviá-lo” deve ser pessoa diferente do anjo enviado, e essa pessoa não poderia ser outra senão o Pai: “Eis que eu envio um Anjo adiante de vocês” etc. Nessa ocasião, portanto, Moisés ouviu a voz do Pai. Além disso, no batismo de Jesus ouviu-se a voz do Pai, declarando: “Este é o meu Filho amado, em quem me agrado” (Mt 3.17). As passagens acima devem, portanto, ser interpretadas de modo que concordem com esses fatos. Elas exprimem a pura espiritualidade e a invisibilidade de Deus e não podem ser invocadas contra uma manifestação perceptível de Deus por sons audíveis e aparições mais do que a declaração feita a Moisés: “ninguém verá a minha face e viverá” (Êx 33.20). Havia um sentido importante em que Moisés não viu nem podia ver Deus; e, no entanto, é igualmente verdade que ele tanto o viu como o ouviu. Viu as “costas”, mas não a “face” de Deus (Êx 33.23).4

A manifestação do Pai foi, porém, muito rara, como se vê pelo fato de que a maior parte, de longe, dessas aparições divinas é expressamente chamada aparição do Anjo do Senhor. O Jeová que apareceu a Abrão no caso de Sodoma era um anjo. Do Jeová que apareceu a Agar também se diz que era “o Anjo do Senhor”. Foi “o Anjo de Jeová”, desde o céu, quem jurou por si mesmo a Abraão: “certamente o abençoarei”. Jacó chama o “Deus de Betel”, isto é, o Deus que lhe apareceu ali e a quem ele fez os seus votos, “o Anjo de Deus”. Ao abençoar José, chama o Deus “em cuja presença andaram meus pais Abraão e Isaque” o Anjo que o tinha livrado de todo mal. “Eu Sou o Que Sou”, quando falou a Moisés do meio da sarça, é chamado o Anjo de Jeová. O Deus que falou estas palavras e disse: “Não tenha outros deuses diante de mim” é chamado o anjo que falava a Moisés no monte Sinai. O Ser que habitava numa nuvem de fogo, sinal visível da presença de Deus, e fixou a sua residência sobre a arca, no lugar santíssimo, e ali recebia o culto constante dos judeus, é chamado o Anjo do Senhor; e assim em muitos outros casos.

Nem há razão alguma para forçar o ponto a ponto de excluir do Antigo Testamento, em todos os casos, a ação visível ou audível do Pai. Não se ganha com isso a menor vantagem, e isso não se pode sustentar sem sancionar, pelo exemplo, a conduta dos adversários da verdade, que dão interpretações forçadas e antinaturais a várias passagens da Escritura. Isso deve ser evitado, e deve-se manter do começo ao fim a coerência de uma interpretação justa e honesta. Basta amplamente, para o importante argumento de que agora nos ocupamos, provar não que o Pai nunca se manifestou em sua própria pessoa, mas que o Anjo do Senhor, cujas aparições são registradas tantas vezes, não é o Pai. Isso fica claro pela sua designação de anjo, a respeito da qual só pode haver duas interpretações. Ou é um nome descritivo de natureza, ou de ofício. No primeiro sentido, é geralmente empregado nas Sagradas Escrituras para designar alguém de uma ordem de inteligências superiores ao homem, muitas vezes empregadas a serviço do homem como ministros de Deus, mas ainda assim seres finitos e criados. Já provamos, porém, que o Anjo do Senhor não é criatura e, portanto, não é chamado anjo com referência à sua natureza. O termo deve, então, ser considerado termo de ofício. Ele é chamado o Anjo do Senhor porque era o mensageiro do Senhor; porque foi enviado para executar a vontade dele e ser a sua imagem e representante visível. O seu ofício, portanto, sob essa designação, era ministerial; mas a ministração nunca é atribuída ao Pai. Aquele que foi enviado deve ser pessoa distinta daquele por quem foi enviado; o mensageiro, distinto daquele cuja mensagem trazia e cuja vontade cumpria. O Anjo de Jeová é, portanto, pessoa diferente do Jeová de quem era mensageiro, e, no entanto, o próprio Anjo é Jeová e, como provamos, verdadeiramente divino. Assim o Antigo Testamento nos revela com toda a clareza, no caso de Jeová e do Anjo de Jeová, duas pessoas divinas, mantendo ao mesmo tempo o seu grande princípio fundamental de que há um só Deus.

3. O terceiro passo deste argumento é que a pessoa divina tantas vezes chamada o Anjo de Jeová no Antigo Testamento era o Cristo prometido e futuro e, consequentemente, Jesus, o Senhor e Salvador da igreja cristã.

Vimos que foi o Anjo de Jeová quem deu a lei aos israelitas, e isso em seu próprio nome, embora fosse ainda um anjo, um mensageiro naquela transação. Ele era ao mesmo tempo servo e Senhor, anjo e Jeová, circunstâncias que só podem ser explicadas pela hipótese de sua divindade e para as quais nem o arianismo nem o socinianismo conseguem dar solução alguma. Foi ele, portanto, a pessoa que fez com os filhos de Israel a aliança habitualmente chamada mosaica. Ora, o profeta Jeremias diz expressamente que a nova aliança com Israel seria feita pela mesma pessoa que fizera a antiga: “Eis aí vêm dias, diz o Senhor, em que firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá. Não segundo a aliança que fiz com os seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito” (Jr 31.31-32). O Anjo de Jeová, que tirou os israelitas do Egito e lhes deu a lei, é aqui claramente apresentado como o autor da nova aliança. Se, pois, como aprendemos do apóstolo Paulo, essa nova aliança predita por Jeremias é a dispensação cristã, e Cristo é o seu autor, então o Cristo do Novo Testamento e o Anjo de Jeová do Antigo são a mesma pessoa.

Igualmente notável é a célebre predição de Malaquias, o último dos profetas: “Eis que eu envio o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim. De repente, o Senhor, a quem vocês buscam, virá ao seu templo; e o mensageiro da aliança, a quem vocês desejam, eis que ele vem, diz o Senhor dos Exércitos” (Ml 3.1). [N. do T.: onde a NAA diz “e o mensageiro da aliança”, a versão inglesa usada por Watson diz “even the messenger of the covenant” (“isto é, o mensageiro da aliança”), redação que identifica o Senhor com o mensageiro e sobre a qual repousa o argumento que segue.]

Os caracteres sob os quais é descrita a pessoa que é o assunto dessa profecia são estes: ele é o Senhor, um governante soberano,5 o dono do templo e, portanto, um príncipe ou governador divino; ele “virá ao seu templo”. “O templo”, diz o bispo Horsley, “nos escritos de um profeta judeu, não pode ser entendido, segundo o sentido literal, senão como o templo de Jerusalém. Deste templo, portanto, a pessoa que havia de vir é aqui expressamente chamada o Senhor. O senhor de qualquer templo, na linguagem de todos os escritores e no sentido natural da expressão, é a divindade a cujo culto ele está consagrado. O templo de Jerusalém não estava consagrado a nenhuma outra divindade senão ao Deus verdadeiro e eterno, o Senhor Jeová, o Criador do céu e da terra. Aqui temos, então, o testemunho expresso de Malaquias de que o Cristo, o Libertador cuja vinda ele anuncia, não era outro senão o Jeová do Antigo Testamento. Jeová livrara os israelitas da escravidão do Egito; e o mesmo Jeová viria em pessoa ao seu templo para realizar a libertação maior e mais universal, da qual a primeira não passava de um tipo imperfeito.”

Ele traz também o mesmo título, anjo ou mensageiro, daquele cujas aparições no Antigo Testamento foram enumeradas.

“O Mensageiro da Aliança, portanto, é o mensageiro de Jeová; e, se é seu mensageiro, é seu servo, pois uma mensagem é um serviço: ela implica uma pessoa que envia e uma pessoa enviada. Na pessoa que envia tem de haver autoridade para enviar; na pessoa enviada, submissão a essa autoridade. O Mensageiro da Aliança, portanto, é servo do Senhor Jeová. Mas a mesma pessoa que é o Mensageiro é o Senhor, o próprio Jeová; não a mesma pessoa que aquele que envia, mas portadora do mesmo nome, porque unida àquela natureza misteriosa e substância indivisa que o nome significa. A mesma pessoa, portanto, é servo e Senhor; e, ao unir esses caracteres na mesma pessoa, que faz o profeta senão descrever aquele grande mistério do evangelho, a união da natureza que governa com a natureza que serve, a união da natureza divina com a humana na pessoa do Cristo?” (Horsley, Sermons.)

Ora, essa profecia é expressamente aplicada a Cristo por são Marcos: “Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus. Como está escrito: Eis que envio o meu mensageiro adiante de você, o qual preparará o seu caminho” (Mc 1.1-2). Segue-se daí que Jesus é o Senhor, o Senhor do templo, o Mensageiro da Aliança mencionado na profecia. E, trazendo ele exatamente esses caracteres do Anjo Jeová que aparece no Antigo Testamento, o qual era o Rei dos judeus, cujo templo era seu, porque nele residia, e por isso se chamava “a casa do Senhor”, e que era “o Mensageiro” da aliança deles, a identidade das pessoas não pode ser posta em dúvida. Uma coincidência é singularmente notável. Já se provou que o Anjo Jeová tinha sua residência no tabernáculo e no templo judaicos, e que tomou posse de ambos, ou veio de repente a eles, na sua dedicação, e os encheu com a sua glória. Numa ocasião, o próprio Jesus, embora em seu estado de humilhação, vem em procissão pública ao templo de Jerusalém e o chama “seu”, declarando assim, de uma só vez, que era o antigo e legítimo Senhor do templo e apropriando-se dessa eminente profecia. O bispo Horsley apresentou essa circunstância com sua maneira habitual, vigorosa e convincente:

“Uma terceira vez Jesus veio, de modo ainda mais notável, como o Senhor ao seu templo, quando subiu da Galileia para celebrar a última páscoa e fez em Jerusalém aquela entrada pública que todos os evangelistas descrevem. Será necessário alongar-me sobre os pormenores dessa história interessante, pois a correta compreensão da conduta do nosso Salvador nessa ocasião depende tanto de ver certas circunstâncias principais sob a luz apropriada, recordando antigas profecias e atentando para os costumes do povo judeu, que me inclino a suspeitar que poucos hoje em dia discernem nesse acontecimento extraordinário o que nele viram claramente, naquele tempo, os discípulos do nosso Senhor, e o que em certa medida entenderam os seus inimigos. Apresentarei a vocês um relato ordenado da história e comentarei os pormenores à medida que surgirem; e não duvido de que, com o auxílio de Deus, os ensinarei a perceber nessa entrada pública de Jesus de Nazaré (se ainda não a perceberam) uma vinda manifesta do grande Jeová ao seu templo. Jesus, em sua última viagem da Galileia a Jerusalém, para ao pé do monte das Oliveiras e envia dois de seus discípulos a uma aldeia vizinha para arranjar um jumentinho que o leve daquele lugar à cidade, distante não mais que meia milha. O jumentinho é trazido, e Jesus monta nele. Essa primeira circunstância deve ser bem considerada; ela é a chave de todo o mistério da história. Qual podia ser a sua intenção ao escolher essa singular montaria? Não podia ser que a fadiga do curto trajeto que restava fosse demasiada para ele a pé, nem que não se conseguisse animal melhor. Tampouco o jumento era, naqueles dias (embora o tivesse sido em épocas mais antigas um animal muito estimado no Oriente), usado para viagem ou para cerimônia por pessoas da mais alta condição, de modo que essa montaria fosse escolhida pela grandeza ou pelo decoro da aparência. Por estranho que pareça, a vinda a Jerusalém montado num jumentinho era um dos sinais proféticos do Messias; e a grande singularidade dele talvez tenha sido a razão por que esse sinal fora observado mais geralmente do que qualquer outro, de modo que não havia judeu que não soubesse que o Messias havia de vir à cidade santa daquela maneira. ‘Alegre-se muito, ó filha de Sião! Exulte, ó filha de Jerusalém!’, diz Zacarias; ‘Eis que o seu rei vem até você, justo e salvador, humilde, montado em jumento, num jumentinho, cria de jumenta’ (Zc 9.9). E os judeus nunca entenderam essa profecia como referente a outra pessoa senão o Messias. Jesus, portanto, montando no jumentinho para ir a Jerusalém, sem nenhum motivo possível de grandeza ou de conveniência, declarou abertamente ser aquele Rei que havia de vir e em cuja vinda, daquela maneira, Sião havia de se alegrar. E assim os discípulos, se podemos julgar pelo que se seguiu imediatamente, entenderam esse procedimento; pois, mal viram o seu Mestre montado no jumentinho, irromperam em transportes da mais alta alegria, como se naquela grande visão tivessem a plena satisfação de seus maiores desejos, concebendo, ao que parece, a esperança ardente de que o reino seria naquele mesmo instante restaurado a Israel. Juncaram o caminho por onde Jesus havia de passar com os ramos verdes das árvores que cresciam à sua beira, sinal de honra no Oriente que só se prestava aos maiores imperadores nas ocasiões da mais alta pompa. Proclamaram-no o herdeiro havia tanto tempo esperado do trono de Davi, o Bendito que vem em nome do Senhor, isto é, na linguagem de Malaquias, o Mensageiro da Aliança; e rasgaram os céus com a exclamação jubilosa: ‘Hosana nas maiores alturas!’ A caminho de Jerusalém, são recebidos por uma grande multidão vinda da cidade, que, mal a notícia lhe chegou, correu cheia de alegria a juntar-se ao seu triunfo. Quando chegaram a Jerusalém, ‘toda a cidade’, diz o bendito evangelista, ‘se alvoroçou’. Lembrem-se aqui de que era então o tempo da páscoa. A páscoa era a maior festa da nação judaica, o aniversário daquela noite memorável em que Jeová tirou os seus exércitos do Egito com mão forte e braço estendido, ‘a noite do Senhor, que todos os filhos de Israel devem comemorar de geração em geração’ (Êx 12.42); e de fato era muito lembrada. Os judeus piedosos afluíam nessa época a Jerusalém, não só de todos os cantos da Judeia, mas dos países mais remotos para onde Deus os dispersara; e o número de estrangeiros que todos os anos se reuniam em Jerusalém durante essa festa ultrapassa a imaginação. Esses estrangeiros, que, vivendo longe, pouco sabiam do que se passara na Judeia desde a última visita, foram os que se alvoroçaram (e bem podiam) com admiração e assombro quando Jesus, tão humilde em seu aparato, tão honrado pelo numeroso séquito, apareceu dentro das portas da cidade; e cada um pergunta ao vizinho: ‘Quem é este?’ Responderam alguns dos naturais da Judeia (mas, segundo penso, nenhum dos discípulos, pois qualquer deles, naquele momento, teria dado outra resposta), responderam: ‘Este é o nazareno, o grande profeta da Galileia.’ Por entre a multidão desses espectadores atônitos, a procissão passou pelas ruas públicas de Jerusalém até o templo, onde imediatamente os sagrados pórticos ressoam com os hosanas contínuos das multidões. Os principais sacerdotes e os escribas ficam atônitos e alarmados; pedem ao próprio Jesus que faça calar os seus seguidores. Jesus, no início do seu ministério, sempre fora cauteloso quanto a qualquer exibição pública de importância pessoal, para que a malícia de seus inimigos não fosse provocada cedo demais, nem o zelo imprudente de seus amigos levantasse comoções civis. Mas agora que a sua obra na terra estava concluída, salvo a última e dolorosa parte dela; agora que ele havia lançado firmemente os fundamentos do reino de Deus no coração de seus discípulos; agora que os apóstolos estavam preparados e instruídos para o seu ofício; agora que estavam próximos os dias da vingança sobre a nação judaica e pouco importava quão cedo ela incorresse no desagrado dos romanos, seus senhores; Jesus deixa de lado uma reserva que já não podia ser útil e, em vez de conter o zelo de seus seguidores, dá novo alarme aos principais sacerdotes e escribas com uma afirmação direta e firme de seu direito às honras que tão largamente lhe eram prestadas. ‘Se estes’, diz ele, ‘se calassem, as pedras deste edifício seriam dotadas de voz para proclamar os meus títulos’; e então, como numa ocasião anterior, expulsou os comerciantes, mas com um tom mais elevado de autoridade, chamando o templo de sua própria casa e dizendo: ‘A minha casa é casa de oração, mas vocês fizeram dela um covil de salteadores.’ Vocês têm agora a história, em todas as suas circunstâncias, fielmente reunida dos quatro evangelistas; nada exagerado, mas posto em ordem e talvez um tanto esclarecido pela aplicação das antigas profecias e pela lembrança dos costumes judaicos. Julguem vocês mesmos se não foi esta uma vinda do Senhor Jeová tomando posse pessoal do seu templo.” (Horsley.)

Mas não é apenas nessas passagens que o nome Jeová, designação do Anjo que aparece no Antigo Testamento, e outros títulos de divindade são dados ao Messias; e, se Jesus é o Messias, então esses títulos são seus e assinalam com igual verdade a sua divindade.

“Uma voz clama: No deserto preparem o caminho do Senhor (Jeová)! No ermo façam uma estrada reta para o nosso Deus! Todos os vales serão levantados, e todos os montes e colinas serão rebaixados; o que é tortuoso será retificado, e os lugares ásperos serão aplanados. A glória do Senhor (Jeová) se manifestará, e toda a humanidade a verá” (Is 40.3-5). Sendo isso dito daquele de quem João Batista havia de ser o precursor, e tendo a aplicação sido feita depois expressamente pelo Batista ao nosso Senhor, é evidente que ele é a pessoa “a quem o profeta atribui o nome incomunicável de Jeová e chama ‘nosso Deus'” (Wogan).

“Ora, tudo isto aconteceu para se cumprir o que foi dito pelo Senhor por meio do profeta: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado pelo nome de Emanuel. (Emanuel significa: Deus conosco.)” (Mt 1.22-23). Aqui outra predição de Isaías é expressamente aplicada a Jesus. “Você […] dará à luz um filho, a quem chamará pelo nome de Jesus. Este será grande […]. Deus, o Senhor, lhe dará o trono de Davi, seu pai. Ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim” (Lc 1.31-33). Essas são as palavras do anjo a Maria, e evidentemente aplicam ao nosso Senhor as palavras de Isaías: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu. O governo está sobre os seus ombros, e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz. Ele estenderá o seu governo, e haverá paz sem fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reino, para o estabelecer e para o firmar […] desde agora e para sempre” (Is 9.6-7). Não é necessário, por ora, citar mais daquelas numerosas passagens que falam do futuro Messias sob títulos divinos e que são aplicadas a Jesus como esse Messias de fato manifestado. Elas não ligam, com tantas palavras, o Anjo de Jeová a Jesus como a mesma pessoa; mas, tomadas em conjunto com as passagens acima aduzidas, apresentam uma prova de peso muito grande em favor dessa tese. As Escrituras judaicas mencionam uma pluralidade de pessoas na única Divindade; essa pluralidade se restringe a três; uma delas aparece como o “Deus atuante” da era patriarcal e mosaica; os profetas falam de uma pessoa divina que há de vir como o Messias, trazendo exatamente os mesmos títulos; ninguém supõe que essa pessoa seja o Espírito Santo; não pode ser o Pai, visto que o Messias é servo de Deus e mensageiro de Deus. A única conclusão, então, é que o Messias predito é aquele que é conhecido no Antigo Testamento pelos títulos de Anjo, Filho de Deus, Palavra de Deus; e, se Jesus é esse Messias, ele é esse Filho, essa Palavra, esse Servo, esse Mensageiro; e, trazendo os mesmos caracteres divinos que o Anjo de Jeová, é esse próprio Anjo e tem direito, na igreja cristã, a toda a homenagem e adoração que lhe eram prestadas na igreja judaica.

Há, contudo, algumas passagens que, de maneira ainda mais distinta do que qualquer das já apresentadas (exceto a da profecia de Jeremias), identificam Jesus Cristo com o Anjo de Jeová nas dispensações patriarcal e levítica; e uma breve consideração delas deixará esse ponto importante completamente estabelecido.

Lembremo-nos, pois, de que aquele que habitava no tabernáculo judaico, entre os querubins, era o Anjo Jeová. No salmo 68, escrito por ocasião da transferência da arca para o monte Sião, ele é expressamente invocado: “o monte que Deus escolheu para sua habitação” (Sl 68.16); e ainda: “Viu-se, ó Deus, o teu cortejo, o cortejo do meu Deus, do meu Rei, no santuário” (Sl 68.24). Mas o apóstolo Paulo, em Efésios 4.8, aplica esse salmo a Cristo e considera essa mesma subida do Anjo Jeová ao monte Sião como tipo profético da subida de Jesus à Sião celestial: “Por isso diz: Quando ele subiu às alturas, levou cativo o cativeiro” (Ef 4.8), etc. A conclusão, portanto, é que o Anjo Jeová a quem o salmo se dirige e Cristo são a mesma pessoa. Isso se assinala com igual força no versículo 29. Note-se que o salmo é declarado, por autoridade apostólica, uma profecia de Cristo, como de fato os seus termos indicam; e, referindo-se às futuras conquistas do Messias, o profeta exclama: “[…] do teu templo em Jerusalém. Os reis te oferecerão presentes” (Sl 68.29). O Cristo futuro é mencionado como alguém que já tinha então um templo em Jerusalém.

Foi a glória do Anjo Jeová, o Deus residente no templo, que Isaías viu na visão registrada no sexto capítulo de sua profecia, já aduzida; mas o evangelista João declara expressamente que naquela ocasião o profeta viu a glória de Cristo e falou a respeito dele (Jo 12.41). Cristo, portanto, era o Senhor dos Exércitos cuja glória enchia o templo.

São Pedro chama o Espírito de Jeová, pelo qual os profetas “profetizaram a respeito da graça”, de “Espírito de Cristo, que neles estava” (1Pe 1.10-11). Ele também nos informa que Cristo foi “morto, sim, na carne, mas vivificado pelo Espírito, no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão, os quais, noutro tempo, foram desobedientes, quando Deus aguardava com paciência nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca” (1Pe 3.18-20). [N. do T.: a NAA traz “vivificado no espírito”, com minúscula; aqui se segue a leitura de Watson, que entende o Espírito de Cristo.] Ora, seja qual for o pleno sentido dessa passagem difícil, Cristo é claramente representado como pregando por seu Espírito nos dias de Noé, isto é, inspirando Noé a pregar. Compare-se isso com a declaração de Jeová antes do dilúvio: “O meu Espírito não agirá para sempre no ser humano, pois este é carnal; e os seus dias serão cento e vinte anos” (Gn 6.3). Durante esse período de espera e longanimidade, Noé foi feito pregador da justiça por aquele de quem unicamente pode vir a inspiração; e é claro que são Pedro supõe que Cristo e o Jeová que aparecia no mundo antediluviano eram a mesma pessoa. No capítulo 11 de Hebreus, diz-se que Moisés considerou o opróbrio de Cristo riqueza maior do que os tesouros do Egito (Hb 11.26), passagem de fácil interpretação quando se admite que o Jeová dos israelitas, cujo nome e culto Moisés professava, e Cristo eram a mesma pessoa. Por esse culto ele era vituperado pelos egípcios, que preferiam a sua própria idolatria e tratavam com desprezo, como fazem todos os apóstatas, a verdadeira religião, o culto puro das eras anteriores do qual se haviam afastado. Ser vituperado por causa de Jeová e ser vituperado por causa de Cristo eram, para o apóstolo, expressões equivalentes, porque ele considerava Jeová e Cristo a mesma pessoa.

“Na Primeira Epístola de são Paulo aos Coríntios, lemos: ‘Nem tentemos a Cristo, como alguns deles (isto é, os judeus no deserto) também tentaram, e foram destruídos pelas serpentes’ (1Co 10.9). O pronome o, auton, deve ser subentendido depois de ‘tentaram’, e encontra-se em alguns manuscritos, embora não em número suficiente para justificar sua inserção no texto. Está, porém, necessariamente implícito e se refere a Cristo, que acaba de ser mencionado. Diz-se aqui que os judeus no deserto tentaram alguma pessoa; e entender por essa pessoa qualquer outra que não Cristo, que acaba de ser nomeado, é contra toda a gramática, a qual nunca permite, sem absoluta necessidade, que se subentenda com o verbo outro acusativo senão o de alguma pessoa ou coisa já mencionada na mesma frase. A conjunção kai, ‘também’, estabelece essa interpretação acima de qualquer dúvida: ‘Nem tentemos a Cristo, como alguns deles também tentaram’; tentaram a quem? A resposta é claramente: como eles também tentaram a Cristo. Se, pois, Cristo foi a pessoa a quem os israelitas tentaram no deserto, ele se torna inevitavelmente o Jeová do Antigo Testamento.”6 [N. do T.: a NAA traz “Não ponhamos Cristo à prova, como alguns deles fizeram e foram mortos pelas serpentes”; o argumento se apoia na redação inglesa, que traduz o kai (“também”) do grego.]

Isso se torna ainda mais notável quando se dá por extenso a passagem a que o apóstolo se refere: “Não ponham à prova o Senhor, seu Deus, como o fizeram em Massá” (Dt 6.16). Ora, o que poderia levar o apóstolo a pôr Cristo no lugar de “o Senhor, seu Deus”? “Nem tentemos a Cristo, como alguns deles também tentaram” a Cristo, pois esse é o acusativo que se deve suprir. Nada, certamente, senão o fato de lhe ser familiar a ideia de que Cristo e o Anjo Jeová, que conduziu e governou os israelitas, eram a mesma pessoa.

Hebreus 12.25-26: “Tenham cuidado e não se recusem a ouvir aquele que fala. Pois, se os que se recusaram a ouvir quem divinamente os advertia na terra não escaparam, muito menos escaparemos nós, se nos desviarmos daquele que dos céus nos adverte. Naquele tempo, a voz dele abalou a terra, mas agora ele promete” etc.

Também essa passagem é decisiva como prova de que o Anjo de Jeová e o nosso Senhor são a mesma pessoa. “Aquele que dos céus nos adverte”, o contexto determina que é Cristo; “quem os advertia na terra” é provavelmente Moisés. A “voz” que “naquele tempo abalou a terra” era a voz daquele que deu a lei, a cujo som o monte tremeu e se abalou. Aquele que deu a lei, já provamos pela autoridade da Escritura, foi o Anjo de Jeová; e o apóstolo declara que a mesma pessoa nos fala agora “dos céus”, no evangelho, e é, portanto, o Senhor Cristo. O dr. MacKnight diz que não foi a voz do Filho que abalou a terra, porque não foi o Filho quem deu a lei. Nisso ele é claramente contradito por santo Estêvão e por toda a história judaica. O protomártir, em sua defesa, diz expressamente que foi “o anjo” quem falou com Moisés no monte (At 7.38); e aqui o apóstolo Paulo declara que foi a voz de Cristo que então abalou a terra. Nada pode provar com mais certeza do que esse cotejo das Escrituras que o Filho deu a lei e que “o anjo” que falou a Moisés e Cristo são a mesma pessoa.

A passagem acima, em sua construção gramatical necessária, aponta com tanta certeza para Cristo como a pessoa cuja voz abalou a terra na promulgação da lei, que os socinianos, em sua New Version do Novo Testamento, preferiram livrar-se de um testemunho que nenhuma crítica conseguia contornar, corrompendo ousada e deliberadamente o próprio texto. Sem autoridade alguma, em vez de “não se recusem a ouvir aquele que fala”, leem “não se recusem a ouvir Deus, que fala”, introduzindo assim um novo antecedente. Esse caso de perversão deliberada do próprio texto da palavra de Deus recebeu a merecida reprovação daqueles críticos eminentes que expuseram as desonestidades, a ignorância e as críticas licenciosas do que se chama uma Improved Version do Novo Testamento.

Essas conclusões são confirmadas pelos testemunhos dos primeiros Pais da Igreja, aos quais as opiniões dos apóstolos sobre esse assunto (que não era de modo algum afetado pelas controvérsias da época) naturalmente haveriam de descer. As opiniões dos antigos judeus, que também são decididamente confirmatórias, serão apresentadas no lugar apropriado.

Justino Mártir expôs com muita liberdade o seu pensamento sobre as aparições divinas. “O nosso Cristo”, diz ele, “conversou com Moisés de dentro da sarça, na aparência de fogo. E Moisés recebeu grande força de Cristo, que lhe falou na aparência de fogo.” E ainda: “Os judeus são justamente repreendidos por imaginarem que o Pai de todas as coisas falou a Moisés, quando na verdade foi o Filho de Deus, que é chamado o Anjo e o Mensageiro do Pai. Ele apareceu outrora em forma de fogo, e sem figura humana, a Moisés e aos outros profetas; mas agora, feito homem da virgem”, etc.

Ireneu diz: “A Escritura está cheia das aparições do Filho de Deus: ora para conversar e comer com Abraão, outras vezes para instruir Noé sobre as medidas da arca; outra vez para procurar Adão; outra ainda para fazer descer o juízo sobre Sodoma; depois, para guiar Jacó no caminho; e ainda para conversar com Moisés de dentro da sarça.”

Tertuliano diz: “Foi o Filho quem julgou os homens desde o princípio, destruindo aquela torre altiva e confundindo as suas línguas, punindo o mundo inteiro com um dilúvio de águas e fazendo chover fogo e enxofre sobre Sodoma e Gomorra, o Senhor derramando-o da parte do Senhor;

pois ele sempre desceu para conversar com os homens, desde Adão até os patriarcas e profetas, em visões, em sonhos, em espelhos, em enigmas, preparando sempre o seu caminho desde o princípio; nem era possível que o Deus que conversava com os homens sobre a terra fosse outro senão aquele Verbo que havia de se fazer carne.”

Clemente de Alexandria diz: “O Pedagogo apareceu a Abraão, a Jacó, lutou com ele e, por fim, manifestou-se a Moisés.” E ainda: “Cristo deu ao mundo a lei da natureza e a lei escrita de Moisés. Por isso o Senhor, tirando de uma só fonte tanto os primeiros como os segundos preceitos que deu, nem desprezou os que viveram antes da lei, a ponto de deixá-los sem lei, nem permitiu que os que não se importavam com a filosofia dos bárbaros fizessem o que bem quisessem.

A uns deu preceitos, a outros a filosofia, e a todos encerrou na incredulidade até a sua vinda, quando todo aquele que não crê fica sem desculpa.”

Orígenes diz: “O meu Senhor Jesus Cristo desceu à terra mais de uma vez. Desceu a Isaías, a Moisés e a cada um dos profetas.” E ainda: “Que o nosso bendito Salvador às vezes se fez como um anjo, podemos ser levados a crer se considerarmos as aparições e as falas dos anjos, que em alguns textos disseram: ‘Eu sou o Deus de Abraão e o Deus de Isaque'”, etc.

Teófilo de Antioquia também declara “que foi o Filho de Deus quem apareceu a Adão logo depois da queda, o qual, assumindo a pessoa do Pai e Senhor de todos, veio ao paraíso na figura de Deus e conversou com Adão”.

O sínodo de Antioquia: “O Filho”, dizem os seus membros, “é chamado às vezes Anjo, às vezes Senhor, às vezes Deus. Pois é ímpio imaginar que o Deus do universo seja chamado anjo em algum lugar. Mas o Mensageiro do Pai é o Filho, que é ele mesmo Senhor e Deus; pois está escrito: o Anjo do grande conselho.”

Cipriano observa que “o Anjo que apareceu ao patriarca é Cristo e Deus”. E confirma isso apresentando várias daquelas passagens do Antigo Testamento em que se diz que um Anjo do Senhor apareceu e falou em nome de Deus.

Hilário fala no mesmo sentido: “Aquele que é chamado o Anjo de Deus, esse mesmo é Senhor e Deus. Pois o Filho de Deus, segundo o profeta, é o Anjo do grande conselho. Para que a distinção das pessoas fosse completa, ele é chamado o Anjo de Deus; pois aquele que é Deus de Deus é também o Anjo (ou Mensageiro) de Deus; e, ao mesmo tempo, para que se lhe prestasse a devida honra, é também chamado Senhor e Deus.”

São Basílio diz: “Quem é, então, aquele que é chamado ao mesmo tempo anjo e Deus? Não é aquele cujo nome, segundo nos é dito, se chama o Anjo da grande Aliança? Pois, embora tenha sido em tempos posteriores que ele se tornou o Anjo da grande Aliança, mesmo antes disso não desdenhou o título de Anjo, ou Mensageiro.” E ainda: “É manifesto a todos que, onde a mesma pessoa é chamada ao mesmo tempo Anjo e Deus, há de se entender o Unigênito, que se manifesta à humanidade em diferentes gerações e declara a vontade do Pai aos seus santos. Por isso, aquele que, ao aparecer a Moisés, chamou a si mesmo EU SOU não pode ser concebido como outra pessoa senão Deus, o Verbo que estava no princípio com Deus.”

Outras autoridades podem ser vistas na Defence of Queries de Waterland, que refuta decisivamente o dr. Samuel Clarke, o qual alega, para encobrir o seu arianismo, que os Pais da Igreja representam o anjo como falando na pessoa do Pai.

Duas objeções a essa doutrina, tiradas das Escrituras, são respondidas sem dificuldade. “Antigamente, Deus falou, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, mas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho” (Hb 1.1-2). Só para os que negam a manifestação e a ação do Pai em todos os casos do Antigo Testamento essa passagem apresenta dificuldade. O apóstolo certamente se refere a Deus Pai, e diz-se que ele falou pelos profetas. Mas isso não é dificuldade para os que, embora sustentem que as aparições habituais da Divindade eram as do Filho, admitem a manifestação ocasional do Pai. Ele é a fonte da inspiração. O Filho é enviado pelo Pai, mas o Espírito é enviado pelo Pai e pelo Filho. Essa é a ordem no Novo Testamento e também, como mostram muitas passagens, no Antigo. O Espírito, enviado pelo Pai, habilitou os profetas a falar “aos pais”. O apóstolo, contudo, não diz mais do que isto: que houve uma ação do Pai no envio dos profetas, a qual não exclui também a do Filho. Pois a oposição está nos meios exteriores, visíveis e permanentes de transmitir aos homens o conhecimento da vontade de Deus, o que, sob a lei, se fazia por meros homens, embora profetas, e, sob o evangelho, pelo Filho encarnado. A comunicação por profetas sob a lei não excluía outras comunicações pelo Filho em seu caráter divino; e a comunicação pelo Filho sob o evangelho não exclui outras comunicações por apóstolos, evangelistas e profetas cristãos. O texto, portanto, não é uma proposição exclusiva em nenhum dos dois sentidos. Na verdade, nem é claro que o texto pretenda qualquer oposição direta, mas apenas uma simples declaração da igual autoridade de ambas as dispensações e da glória peculiar da segunda, cujo ministro e revelador humano foi o Filho de Deus em nossa natureza.

A segunda objeção se apoia numa passagem da mesma epístola: “Porque, se a palavra falada por meio de anjos se tornou firme, e toda transgressão ou desobediência recebeu justo castigo, como escaparemos nós, se não levarmos a sério tão grande salvação? Esta, tendo sido anunciada inicialmente pelo Senhor” (Hb 2.2-3). Para entender essa passagem, deve-se notar que o apóstolo se refere à lei judicial de Moisés, que tinha a sua pena prescrita para toda “transgressão ou desobediência”. Ora, essa lei não foi, como o decálogo, falada pelo próprio Deus, mas por anjos. Pois, depois que a voz de Deus pronunciou os dez mandamentos, o povo suplicou que Deus não lhe falasse mais. Assim diz Moisés em Deuteronômio 5.22: “São estas as palavras” (o decálogo) “que o Senhor falou a toda a congregação de vocês, junto ao monte. Ele falou do meio do fogo […] com voz forte, e nada acrescentou. Ele escreveu essas palavras em duas tábuas de pedra, e as deu para mim”. O restante, “tanto a lei judicial como a cerimonial, foi entregue, e a aliança foi feita, pela mediação de Moisés; e por isso diz o apóstolo, em Gálatas 3.19, que a lei ‘foi promulgada por meio de anjos, pela mão de um mediador’; daí ser chamada a lei de Moisés. E o caráter que lhe é atribuído no Pentateuco é este: ‘São estes os estatutos, juízos e leis que o Senhor estabeleceu entre si e os filhos de Israel, por meio de Moisés, no monte Sinai’ (Lv 26.46).” (Randolph, Praelectiones Theologicae.)

Tampouco o argumento do apóstolo diz respeito ao autor da lei, pois ninguém pode supor que os anjos tenham sido os seus autores, nem ao legislador, pois os anjos não têm tal autoridade, mas ao meio pelo qual ela foi comunicada, ou “falada”. No caso do decálogo, esse meio foi o Senhor, o próprio Anjo Jeová em majestade; mas no corpo das leis judiciais e cerimoniais, ao qual o apóstolo claramente se refere, foram os anjos e Moisés. O meio visível pelo qual o evangelho foi comunicado foi o Filho de Deus feito carne. Essa palavra foi “anunciada pelo Senhor”, não só em seu caráter pessoal, mas em seu caráter mediador; e, por essa admirável condescendência, a sua importância e o perigo de negligenciá-la foram assinalados da maneira mais eminente e impressionante.

Fica, pois, estabelecido que o Anjo Jeová e Jesus Cristo, nosso Senhor, são a mesma pessoa; e esse é o primeiro grande argumento pelo qual se estabelece a sua divindade. Ele não só existia antes da sua encarnação, mas é visto à frente das instituições religiosas de sua própria igreja, desde as eras mais antigas. Acompanhamos as manifestações da mesma pessoa de Adão a Abraão; de Abraão a Moisés; de Moisés aos profetas; dos profetas a Jesus. Em todas as manifestações ele apareceu na forma de Deus, sem jamais julgar usurpação ser igual a Deus. “Vestido com as vestes próprias da majestade de Deus, usando a coroa de Deus e empunhando o cetro de Deus”, ele sempre recebeu homenagem e honra divinas. Nenhum nome é dado ao Anjo Jeová que não seja dado a Jeová Jesus; nenhum atributo é atribuído a um que não seja atribuído ao outro; o culto que foi prestado a um por patriarcas e profetas foi prestado ao outro por evangelistas e apóstolos; e as Escrituras declaram que são a mesma augusta pessoa: a imagem do Invisível, a quem ninguém pode ver e continuar vivo; o Anjo Redentor, o Parente Redentor e o Deus Redentor.

Que os títulos de que o nosso Senhor está revestido são declarações inequívocas de divindade absoluta será o assunto do próximo capítulo.

Notas de Richard Watson

1. Por essa passagem notável parece-me muito claro que o Mensageiro, ou Anjo de Deus, que ele aqui promete como guia de seu povo, não é uma criatura, muito menos Moisés ou Josué, mas um Anjo incriado. Pois: (1) a cláusula “não perdoará a transgressão de vocês” não é aplicável a nenhum ser criado, seja anjo, seja homem; (2) as palavras seguintes, “nele está o meu nome”, não podem ser explicadas como significando “ele agirá em meu nome”, isto é, sob o meu comando ou por autoridade recebida de mim, pois nesse caso se teria acrescentado outra palavra, “ele agirá” ou “ele falará”, ou coisa semelhante; (3) a mesma conclusão se estabelece pela comparação desta passagem com o capítulo 32.34 (e 33.2), onde Deus expressa a sua indignação contra os israelitas pela idolatria deles, declarando que não ele mesmo, mas um anjo, seria dali em diante o seu guia. Mas isso o povo e Moisés deprecam com o maior empenho [como uma calamidade e um juízo, ao passo que o caso presente é uma promessa de favor e misericórdia, e assim é reconhecido em Isaías 63.9]. [N. do T.: Watson indica Êx 32.2 e Is 62.8.] “Aquele anjo, portanto, é perfeitamente diferente daquele de quem se fala nesta passagem diante de nós, o qual é o mesmo que apareceu a Moisés no capítulo 3.2 e ali, igualmente, fala e age como o próprio Deus.” (Dathe, Pentateuchus.) ↩

2. “Um embaixador terreno de fato representa a pessoa do seu príncipe, supõe-se revestido da sua autoridade e fala e age em seu nome. Mas quem jamais ouviu falar de um embaixador que assumisse o próprio nome do seu soberano ou fosse por outros honrado com ele? Seria permitido a alguém nessa condição dizer: Eu, Jorge; Eu, Luís; Eu, Frederico? Assim como a ideia é ridícula, a ação seria com justiça considerada alta traição.” (Jamieson, Vindication.) ↩

3. Ter desempenhado um papel de ator, no qual assume o nome de Deus e atribui a si mesmo tudo o que é de Deus. (Bispo Bull.) ↩

4. A essência e a majestade inescrutáveis de Deus. (Vatablus.) ↩

5. A mesma palavra é muitas vezes aplicada a magistrados e até a pais; mas J. H. Michaelis diz que, quando ocorre como neste lugar, com o prefixo, é reservada exclusivamente a Deus. ↩

6. Holden, Testimonies. Veja-se esse texto, tão fatal ao sistema sociniano, triunfantemente estabelecido contra a liberdade das críticas deles, no Postscript to Appendix do dr. Magee, p. 211 e seguintes. ↩

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Richard Watson, Theological Institutes; or, A View of the Evidences, Doctrines, Morals, and Institutions of Christianity (Londres, 1823-1829), conferido com a edição de Nova York (Lane & Scott, 1850-1851). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).