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Parte II · Capítulo X

Trindade: a preexistência de Cristo

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Ao estabelecer, com base na autoridade da Escritura, a preexistência de nosso Senhor, damos o primeiro passo na demonstração de sua divindade absoluta. É verdade que a sua preexistência, considerada em si mesma, não evidencia a sua Divindade e, portanto, não constitui prova contra a hipótese ariana; mas destrói a noção sociniana de que ele foi apenas homem. Pois, como ninguém defende a preexistência das almas humanas, e, se alguém a defendesse, a doutrina seria refutada pela própria consciência de cada um, é claro que, se Cristo existiu antes de sua encarnação, ele não é mero homem, seja qual for a natureza que outros argumentos possam provar que ele tem.

Sentiu-se que este ponto pesa tanto sobre a doutrina da simples humanidade de Cristo que tanto os socinianos antigos como os modernos lançaram contra ele todos aqueles artifícios de interpretação que, mais do que qualquer outra coisa, mostram ao mesmo tempo a falta de esperança de sua causa e a obstinação com que se apegam a um erro muitas vezes e facilmente refutado. Vou me deter um pouco neste ponto, porque ele trará alguns exemplos que ilustram o caráter peculiar do modo sociniano de perverter as Escrituras.

A existência de nosso Senhor anterior à sua encarnação poderia ser defendida com força a partir das declarações de que ele foi “enviado ao mundo”; de que “veio em carne”; de que “participou” de “carne e sangue”; de que foi “reconhecido em figura humana”; e de outras expressões semelhantes. São modos de falar que não se usam a respeito de nenhuma outra pessoa; que nunca se adotam para exprimir o nascimento natural e o começo da existência dos homens comuns; e que o socinianismo, portanto, deixa sem razão e sem explicação quando usados a respeito de Cristo. Mas os argumentos tirados dessas expressões tornam-se de todo desnecessários diante da frequência de passagens que declaram explicitamente a sua preexistência, e diante das quais o engenho de uma crítica insubmissa sempre foi frustrado. As interpretações oferecidas são forçadas demais e carecem demais de apoio, seja nas regras comuns da crítica, seja nos idiomatismos da língua, para produzir a menor impressão em quem não esteja previamente disposto a torturar a palavra de Deus a fim de pô-la a serviço de um erro.

A primeira dessas provas da preexistência de Cristo é o testemunho do Batista, em João 1.15: “Ele vem depois de mim, mas é mais importante do que eu, pois já existia antes de mim”; ou, como está no versículo 30: “Depois de mim vem um homem que é mais importante do que eu, porque já existia antes de mim”. [N. do T.: onde a NAA diz “é mais importante do que eu”, a KJV, que Watson segue, traz is preferred before me, isto é, “foi preferido” ou “posto adiante de mim”; a discussão a seguir gira em torno dessa expressão.] A exposição sociniana é: “O Cristo, que deve começar o seu ministério depois de mim, foi, por designação divina, posto acima de mim, porque é o meu chefe ou principal”. Assim interpretam a última oração, “pois já existia antes de mim”, no sentido de dignidade e não de tempo, embora são João use a mesma palavra para indicar prioridade de tempo em vários lugares do seu Evangelho: “Se o mundo odeia vocês, saibam que, antes de odiar vocês, odiou a mim” (Jo 15.18); e também em 1.41; 8.7; 20.4-8. Se tomarem a expressão da segunda oração, ἔμπροσθέν μου γέγονεν, no sentido de “foi preferido”, então, pelo seu modo de traduzir a última oração, como observou o bispo Pearson, “uma coisa se torna a razão de si mesma, o que é grande absurdo e vã tautologia”: “Ele foi posto acima de mim, porque é o meu chefe”; ao passo que, tomando πρῶτός μου no sentido de tempo, apresenta-se uma razão para essa preferência. Há, porém, outra tradução da segunda oração que torna a passagem ainda mais inaplicável no sentido dos socinianos. Ἔμπροσθεν nunca é usado na Septuaginta nem no Novo Testamento para dignidade ou posição, mas refere-se ou a lugar ou a tempo; e, se tomado no sentido de tempo, a tradução será: “Aquele que vem depois de mim existia antes de mim”. E, como ὅτι, na oração seguinte, significa “certamente”, “verdadeiramente” (Schleusner, no verbete), a última oração se torna enfática, “certamente, ele existia antes de mim”, e deve ser considerada não como razão para o sentimento da oração anterior, nem como tautologia, mas como explicativa e impressiva. É um modo de falar extremamente natural quando se tinha de declarar uma doutrina tão grande e um mistério tão alto: que aquele que nasceu depois de João era, contudo, quanto à existência, anterior a ele; “certamente, ele existia antes de mim”. Essa tradução da segunda oração é adotada por vários críticos eminentes; mas, quer se prefira esta, quer a versão comum, o verbo da última oração, ele era antes de mim, fixa suficientemente πρῶτος no sentido de prioridade de tempo. Se se referisse à posição e à dignidade de Cristo, não teria sido “ele era“, mas “ele é antes de mim”, ἐστί e não ἦν.

Devem-se considerar em seguida as passagens que exprimem que Cristo desceu do céu. Ele chama a si mesmo “o pão de Deus […] que desce do céu” (Jo 6.33); “o pão vivo que desceu do céu” (Jo 6.51); “Quem vem das alturas certamente está acima de todos; quem vem da terra é terreno e fala da terra. Quem veio do céu está acima de todos” (Jo 3.31); e, em sua conversa com Nicodemos: “Ora, ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que de lá desceu, o Filho do Homem [que está no céu]” (Jo 3.13). [N. do T.: as palavras entre colchetes, presentes no texto que Watson cita (KJV), não constam da NAA.] De que maneira se poderão eludir declarações tão claras e inequívocas, e por que artifícios serão interpretadas até não significarem nada? É o que se vai considerar. Socino e seus primeiros discípulos, para explicar essas expressões, supuseram que Cristo, entre o tempo de seu nascimento e o início de seu ofício, foi trasladado ao céu e ali permaneceu algum tempo, para que pudesse ver e ouvir as coisas que deveria anunciar ao mundo. Essa hipótese, contudo, só prova a dificuldade, ou antes a impossibilidade, de interpretar essas passagens de modo a desviar dos erros humanos o aspecto hostil que elas apresentam. Não tem o apoio de nenhuma passagem da Escritura, de nenhuma tradição, de nenhuma razão tirada da natureza da coisa ou do discurso. Os socinianos modernos, portanto, achando insustentável a posição de seus irmãos mais antigos, reduzem tudo a figura, o método mais cômodo de fugir à dificuldade, e nos dizem que, assim como diríamos naturalmente que uma pessoa que quisesse conhecer os propósitos secretos de Deus teria de subir ao céu para conversar com ele e voltar para dá-los a conhecer, assim também as palavras de nosso Senhor não implicam necessariamente uma subida e uma descida literais, mas apenas isto: “que só ele foi admitido a um conhecimento íntimo da vontade divina e foi comissionado para revelá-la aos homens” (Calm Inquiry, de Belsham).

Nas passagens citadas acima como declarações da preexistência de Cristo, ver-se-á que há duas expressões a explicar: subir ao céu e descer do céu. Da primeira se diz que significa ser admitido a um conhecimento íntimo dos conselhos divinos. Mas, se fosse esse o sentido, não poderia ser verdade que “ninguém” tivesse subido assim, “a não ser […] o Filho do Homem”; pois Moisés e todos os profetas, um após outro, haviam sido admitidos a “um conhecimento íntimo dos conselhos divinos” e haviam sido “comissionados” para revelá-los. De nada adianta dizer que o conhecimento que nosso Senhor tinha dos conselhos divinos era mais profundo e abrangente. O caso não é exposto de modo comparativo, mas exclusivo: “ninguém subiu ao céu, a não ser […] o Filho do Homem”; ninguém, senão ele próprio, tinha estado no céu.1 Admitindo-se, portanto, o princípio da glosa sociniana, ela é totalmente inaplicável ao texto em questão e, de fato, é diretamente refutada por ele.

Mas o princípio é falso, e pode-se negar que “subir ao céu” seja uma expressão hebraica para exprimir o conhecimento de coisas altas e misteriosas. Essa alegação falha tão completamente que nenhuma das passagens que eles aduzem como prova pode ser tomada em outro sentido que não o literal; e elas são, portanto, como outras, diretamente contrárias a eles. Aduz-se em primeiro lugar Deuteronômio 30.11: “Quem subirá até o céu por nós, para nos trazer o mandamento […]?” Isso, dizem-nos, devemos tomar em sentido figurado; mas então, infelizmente para eles, acrescenta-se logo em seguida: “Nem está do outro lado do mar, para que tenham de dizer: ‘Quem irá atravessar o mar por nós […]?'” Se a subida ao céu na primeira oração deve ser tomada em sentido figurado, então a travessia do mar não pode ser tomada literalmente, e ainda nos faltará uma interpretação figurada para essa parte da declaração de Moisés a respeito da lei, a qual não será fornecida com tanta facilidade. A mesma observação se aplica a Romanos 10.6, onde há uma adaptação da passagem de Deuteronômio ao evangelho: “Quem subirá ao céu?”, isto é, para trazer Cristo lá do alto etc., palavras que não têm sentido a menos que o lugar seja entendido literalmente, e que mostram que o apóstolo, juiz suficiente dos modos hebraicos de expressão, entendia em seu sentido literal a passagem de Deuteronômio. Uma segunda passagem em que eles confiam é Provérbios 30.4: “Quem subiu ao céu e desceu?”; mas, se se acrescentar o que vem logo depois, “Quem pegou o vento com as suas mãos? Quem amarrou as águas na sua roupa?” etc., ver-se-á que a passagem não tem nenhuma referência à aquisição de conhecimento por um servo de Deus, mas exprime as diversas operações da natureza realizadas pelo próprio Deus. Quem fez isto? “Qual é o seu nome, e qual é o nome de seu filho, se é que você o sabe?”

Em Baruque 3.29, pergunta-se a respeito da sabedoria: “Quem subiu ao céu, e a tomou, e a fez descer das nuvens?”; mas aqui também se acrescenta: “Ou quem atravessou o mar por ela?” A sabedoria, nessa passagem, é claramente personificada; atribui-se a ela um lugar de habitação, que deve ser buscado por aqueles que querem alcançá-la. Esse texto apócrifo, portanto, não dá nenhum apoio à noção mística de subir ao céu apresentada pelos expositores socinianos.

Se eles falham, pois, completamente em estabelecer o seu sentido forçado e antinatural de subir ao céu, examinemos se são mais bem-sucedidos em estabelecer a sua opinião quanto ao significado de “descer do céu”. Isso, dizem eles, significa “ser comissionado para revelar aos homens a vontade de Deus” (Calm Inquiry, de Belsham). Mas, se assim fosse, as expressões “subir ao céu” e “descer de lá”, que são manifestamente opostas uma à outra, perdem toda a sua oposição na interpretação, o que basta para mostrar que ela é, quanto a ambas, inteiramente gratuita, arbitrária e contraditória. Pois, como observou com agudeza o Dr. Magee: “Os editores da Versão Unitarista observam, e o Sr. Belsham e o Dr. Carpenter reforçam com muita ênfase, que ‘subir ao céu’ significa ‘familiarizar-se com as verdades de Deus’, e que, consequentemente, o ‘correlativo’ disso (o oposto, deveriam ter dito), ‘descer do céu’, deve significar ‘trazer e revelar essas verdades ao mundo’ (Imp. Vers., p. 208; Calm Inq., p. 48). Ora, concedendo a esses senhores tudo o que desejam estabelecer quanto à primeira oração, isto é, que subir ao céu significa aprender e familiarizar-se com os conselhos de Deus, o que se seguiria então, se raciocinassem com justeza segundo os seus próprios princípios? Claramente isto: que descer do céu, sendo exatamente o oposto do primeiro, deve significar desaprender, ou perder o conhecimento desses conselhos; de modo que, longe de trazer e revelar esses conselhos à humanidade, nosso Senhor se teria incapacitado de trazer qualquer um deles. Se, de fato, ‘subir ao céu’ significasse ‘levar a verdade (para algum lugar) para longe dos homens’, então ‘descer do céu’ poderia com justiça significar ‘trazê-la de volta aos homens’. Em suma, seja o que for que se suponha que subir signifique em qualquer figura, descer deve significar o oposto, se nos ativermos à figura; e, portanto, se subir é aprender, descer deve ser desaprender” (Discourses on the Atonement).

Também é fatal a essa opinião o fato de que, “se vir do céu, descer do céu” etc. significam receber uma comissão divina para ensinar, ou, mais simplesmente, comunicar a verdade depois de aprendida, essas expressões nunca são usadas com referência a Moisés, nem a nenhum dos profetas, nem aos instrumentos divinamente designados que, de tempos em tempos, foram levantados entre os judeus. Podemos, portanto, concluir que o significado atribuído a essas expressões pelos escritores socinianos de hoje, que neste ponto, como em muitos outros, ousaram ir além de seus predecessores, os quais nunca negaram a acepção literal delas, era desconhecido entre os judeus e é mero subterfúgio para escapar do testemunho claro da Sagrada Escritura num ponto tão fatal ao seu sistema.

A passagem seguinte que se pode citar como expressão inequívoca da preexistência de Cristo encontra-se em João 6.62 e está, se possível, ainda mais fora do alcance da espécie de crítica que acabamos de expor. Também a ocasião fixa o sentido acima de toda perversão. Nosso Senhor dissera aos judeus que ele era o pão da vida, que desceu do céu. Isso os judeus entenderam literalmente e, por isso, perguntaram: “Este não é Jesus, o filho de José? Por acaso não conhecemos o pai e a mãe dele? Como é que ele agora diz: ‘Desci do céu’?” Também os seus discípulos entenderam assim as suas palavras, pois eles também “murmuravam”. Mas nosso Senhor, longe de remover essa impressão, longe de lhes dar a mais remota sugestão de um modo de enfrentar a dificuldade semelhante ao que adotam os escritores socinianos, reforça a afirmação e torna a sua declaração uma pedra de tropeço ainda mais temível: “Isto escandaliza vocês?”, referindo-se ao que acabara de dizer, que havia descido do céu; “Que acontecerá, então, se virem o Filho do Homem subir para o lugar onde primeiro estava?” A linguagem não pode ser mais explícita; embora o Sr. Belsham tenha ousado dizer-nos que isso significa: “E se eu me for para mais longe do alcance de vocês e me tornar mais desconcertante e misterioso?” E, de fato, bastante desconcertantes e misteriosas seriam as palavras tanto de Cristo como de seus apóstolos, se exigissem tais críticas para o seu esclarecimento.

A expressão ser “enviado por Deus” eles julgam afastá-la suficientemente alegando que se diz do Batista: “Houve um homem enviado por Deus, e o nome dele era João” (Jo 1.6). Isso, alegam, mostra claramente “que vir de Deus é ser comissionado por ele. Se Jesus foi enviado por Deus, também o foi João Batista; se o primeiro desceu do céu, também o segundo”. Deve-se admitir que esse raciocínio é falacioso, se se puder mostrar que ele contradiz outras escrituras. Ora, nosso Senhor diz, em João 6.46: “Não que alguém tenha visto o Pai, a não ser aquele que vem de Deus; este [οὗτος] já viu o Pai”; isto é, esta única pessoa, pois a palavra está no singular, e ninguém mais viu o Pai. Portanto, se Cristo era essa pessoa, o que não será contestado, João não poderia ser “enviado por Deus” da mesma maneira que Cristo o foi. Que diz o Batista de si mesmo? Confirma ele a glosa sociniana? Falando de Cristo e de si mesmo, ele diz: “Quem vem das alturas certamente está acima de todos; quem vem da terra é terreno […]. Quem veio do céu está acima de todos” (Jo 3.31). Aqui João contrasta a sua origem terrena com a origem celestial de Cristo. Cristo vem “das alturas”; João, “da terra”, ἐκ τῆς γῆς. Cristo “está acima de todos”, o que não poderia ser, se todos os outros profetas tivessem vindo do mesmo modo do céu e das alturas; e, portanto, se João foi “enviado por Deus”, não pode ter sido no mesmo sentido em que Cristo foi enviado por ele, o que basta para silenciar a objeção (Scripture Testimonies, de Holden). Assim, diz o Dr. Nares: “Nada temos senão as contradições categóricas do partido unitarista para nos provar que Cristo não veio do céu, embora ele diga de si mesmo que veio do céu; que, embora declare que viu o Pai, não viu o Pai; que, embora nos assegure que, de maneira muito peculiar e singular, saiu de Deus (ἐκ τοῦ Θεοῦ ἐξῆλθον, expressão forte e singular), não veio dele de outro modo senão como os profetas antigos e o seu próprio precursor imediato” (Remarks on the Imp. Version).

Várias outras passagens igualmente impressionantes poderiam reclamar a nossa atenção; mas bastará, para o argumento, encerrá-lo com duas.

“Antes que Abraão existisse, Eu Sou” (Jo 8.58). Se o verbo εἰμί, “Eu Sou”, pode ser entendido como equivalente ao nome incomunicável Jeová, será considerado em outro lugar. O sentido óbvio da passagem, pelo menos, é: “Antes que Abraão existisse, ou nascesse, eu existia”. Abraão, o patriarca, era a pessoa de quem se falava; pois, tendo os judeus dito: “Você não tem nem cinquenta anos e viu Abraão?”, nosso Senhor declara, com o seu modo peculiarmente solene de introdução: “Em verdade, em verdade lhes digo que, antes que Abraão existisse, Eu Sou”. Eu tinha prioridade de existência, “junto com a continuação dela até o tempo presente” (Pearson, On the Creed). Nem os judeus se enganaram quanto ao seu sentido, mas, cheios de indignação diante de tão manifesta reivindicação de divindade, “pegaram pedras para atirar nele”.

Como, então, os socinianos se desfazem desta passagem? As duas hipóteses em que se apoiaram (pois uma só não bastaria) são: primeira, “que Cristo existia antes que o patriarca Abraão se tornasse, conforme o significado de seu nome, pai de muitas nações, isto é, antes que os gentios fossem chamados”; o que era tão verdadeiro a respeito dos judeus que conversavam com ele quanto a respeito dele mesmo. A segunda é: “antes que Abraão nascesse, eu sou ele, isto é, o Cristo, na destinação e designação de Deus”; o que também nada dizia de peculiar a respeito de Cristo, visto que a existência de cada um de seus ouvintes, e o papel que cada um deveria desempenhar, estavam tanto na destinação e designação de Deus quanto os dele. Ambos esses absurdos são bem expostos pelo bispo Pearson:

“A primeira interpretação faz o nosso Salvador falar assim: Vocês se admiram tanto de como eu poderia ter visto Abraão, eu que ainda não tenho cinquenta anos? Imaginam nisso uma contradição tão grande? Eu lhes digo, e tenham toda a certeza de que o que lhes falo neste momento é certíssima e infalivelmente verdadeiro, e muito digno da atenção de vocês, o que me leva a não dizê-lo sem esta asseveração solene (Em verdade, em verdade lhes digo): antes que Abraão se torne perfeitamente aquilo que era significado em seu nome, pai de muitas nações, antes que os gentios entrem, eu sou. E não se perturbem com esta resposta, nem pensem que nisso eu me engrandeço; pois o que digo é tão verdadeiro a respeito de vocês mesmos quanto a meu respeito: antes que Abrão seja assim feito Abraão, vocês são. Não duvidem, pois, como duvidaram, nem façam jamais de novo a pergunta se eu vi Abraão.”

“A segunda explicação produz um sentido de outra natureza, mas com a mesma impertinência: Vocês continuam ainda a questionar e, com tanto espanto, olham para a minha idade e perguntam: Viste Abraão? Confesso que há mais de mil e oitocentos anos que aquele patriarca morreu, e menos de quarenta que eu nasci em Belém; mas não olhem para esse cálculo, pois antes que Abraão nascesse eu era. Mas não me entendam mal: quero dizer que eu existia na presciência e no decreto de Deus. E não me engrandeço nisso, pois vocês também existiam assim. Como qualquer dessas respostas poderia dar alguma satisfação razoável à pergunta, ou a menor ocasião para a exasperação dos judeus, não se pode entender. E que o nosso Salvador falasse quaisquer impertinências como as que essas interpretações produzem, não é coisa que um cristão possa conceber. Portanto, visto que o sentido simples e mais óbvio é resposta própria e completa à pergunta, e o mais apto a exasperar os judeus incrédulos; visto que essas explicações forçadas tornam as palavras de Cristo não só impertinentes à ocasião, mas vãs e inúteis para os seus ouvintes; visto que o nosso Salvador deu essa resposta em palavras de outra língua, muito provavelmente incapazes de quaisquer interpretações desse tipo, devemos ater-nos ao sentido literal já exposto, pelo qual se mostra que Cristo teve um ser, assim como antes de João, também antes de Abraão, e, consequentemente, que existia dois mil anos antes de nascer ou de ser concebido pela virgem” (Exposition of the Creed).

As observações de Whitaker sobre esta passagem decisiva vêm no seu habitual estilo enérgico:

“‘Abraão, o pai de vocês’, diz o nosso Salvador aos judeus, ‘alegrou-se por ver o meu dia; e ele viu esse dia e ficou alegre.’ O nosso Salvador assim se apresenta aos seus compatriotas como o Messias deles, aquele grande objeto de esperança e desejo para os seus pais, e particularmente para Abraão, esse primeiro pai dos fiéis. Mas os seus compatriotas, não reconhecendo a sua pretensão ao caráter de Messias e, portanto, não admitindo a sua prioridade sobrenatural de existência em relação a Abraão, preferiram considerar as suas palavras num sentido meramente humano. ‘Então os judeus lhe perguntaram: Você não tem nem cinquenta anos e viu Abraão?’ Mas o que responde o nosso Salvador a esse comentário baixo e grosseiro sobre o que ele havia insinuado? Retrata-se, torcendo a sua linguagem para se acomodar à pobre perversidade deles, e renunciando assim às suas pretensões à dignidade que assumira? Não! Agir assim teria sido depreciativo para a sua dignidade e prejudicial aos interesses deles. Ele, de fato, repete a sua reivindicação ao caráter de Messias. De fato, reforça as suas pretensões a uma prioridade sobrenatural de existência. Chega a elevar ambas. Sobe muito além de Abraão. Ascende acima de todas as ordens da criação. E coloca-se com Deus à frente do universo. Assim, arroga a si mesmo todo aquele alto grau de dignidade que os judeus esperavam que o seu Messias assumisse. E o faz da maneira mais enérgica que a sua simplicidade de linguagem, tão natural à grandeza inerente, poderia admitir. Também introduz o que diz com muita solenidade na forma, e com mais ainda na repetição. ‘Em verdade, em verdade lhes digo’, exclama ele, ‘antes que Abraão existisse, Eu Sou.’ Ele não diz de si mesmo, como diz de Abraão: ‘Antes que ele existisse, eu existia.’ Isso, de fato, teria bastado para afirmar a sua existência anterior a Abraão. Mas não teria bastado para declarar o que ele agora pretendia afirmar, a sua plena reivindicação da majestade do Messias. Ele, portanto, deixa de lado todas as formas de linguagem que poderiam ser acomodadas às meras criaturas de Deus. Apodera-se de uma que era própria da própria Divindade. ‘Antes que Abraão existisse’, ou, ainda mais propriamente, ‘Antes que Abraão fosse feito‘, diz ele, ‘Eu Sou.’ Assim ele se dá a marca da existência incriada e contínua, em oposição direta à existência contingente e criada. Ele diz de si mesmo

que um eterno agora para sempre dura com ele. Atribui a si mesmo aquele mesmo selo de eternidade que Deus reserva para a sua Divindade no Antigo Testamento, e a partir do qual um apóstolo depois descreve expressamente ‘Jesus Cristo’ como ‘o mesmo ontem, hoje e para sempre’. Nem os judeus fingiram não o entender agora. Não podiam. Ouviram-no reivindicar direta e decisivamente para si mesmo os mais nobres direitos do seu Messias e as mais altas honras do seu Deus. Consideravam-no mero pretendente aos primeiros. Por isso, olharam para ele como usurpador blasfemo das segundas. ‘Então pegaram pedras para atirar nele’, como blasfemo; como de fato ele o seria em suas pretensões de ser Deus, se não fosse na realidade o Messias e o Deus deles numa só pessoa. Mas ele imediatamente provou aos próprios sentidos deles que era ambas as coisas, exercendo sobre eles os poderes enérgicos da sua Divindade. Pois ele ‘se ocultou e saiu do templo, passando pelo meio deles; e assim se retirou’.” [N. do T.: as palavras finais, “passando pelo meio deles; e assim se retirou”, vêm do texto seguido pela KJV e não constam da NAA (Jo 8.59).]

A última passagem que citarei pode, com propriedade, tanto pela sua dignidade como pela sua clareza, encerrar o conjunto. João 17.5: “E agora, ó Pai, glorifica-me contigo mesmo com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo.” Seja qual for essa glória, ela era possuída por Cristo antes que houvesse mundo; ou, como ele exprime depois, “antes da fundação do mundo” (Jo 17.24). Essa questão, portanto, não deve ser confundida com o ponto principal que determina a preexistência de nosso Senhor; pois, se ele estava com o Pai e tinha uma glória junto dele antes que houvesse mundo, glória da qual “ele se esvaziou” quando se fez homem, então tinha existência não só antes de sua encarnação, mas antes da própria “fundação do mundo”. A glosa sociniana é: “a glória que eu tive junto de ti, no teu decreto imutável, antes que houvesse mundo; ou que tu decretaste, antes que houvesse mundo, dar-me”. Mas ἣ εἶχον παρὰ σοί, “que eu tive junto de ti”, não pode admitir tal sentido. A ocasião era peculiar demais para admitir modos de falar místicos, forçados ou parabólicos. Foi ao alcance dos ouvidos de seus discípulos, pouco antes de sair para o jardim, que essas palavras foram ditas; e, como bem se observou, é notável que ele introduza a menção dessa glória quando ela não era necessária para completar o sentido de nenhuma proposição. E, contudo, como se de propósito para impedir que os apóstolos, que ouviam a sua oração, supusessem que ele pedia aquilo que não havia possuído em nenhum período anterior, ele acrescenta: “com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo”. Esta passagem é tão decisiva que, como diz o Dr. Harwood: “Se não houvesse em todo o Novo Testamento nenhuma indicação da preexistência de Cristo, esta única passagem a demonstraria e estabeleceria irrefutavelmente. O nosso Salvador, aqui, num ato solene de devoção, declara ao Todo-Poderoso que tinha glória junto dele antes que houvesse mundo, e suplica fervorosamente que ele se digne graciosamente reintegrá-lo em sua felicidade anterior. A linguagem é simples e clara. Cada palavra tem grande peso e ênfase: ‘Glorifica-me com aquela glória de que eu desfrutava em tua presença, antes que houvesse mundo.’ Sobre este único texto ponho o meu dedo. Aqui assento o meu sistema. E, se palavras claras são empregadas de propósito para transmitir algum sentido determinado, se os modos da fala humana têm alguma precisão, estou convencido de que esta declaração clara de nosso Senhor, num ato de devoção, exibe uma verdade grande e importante, que jamais poderá ser subvertida ou invalidada por nenhuma crítica exata e satisfatória” (Socinian Scheme).

Seja qual for, portanto, a verdadeira natureza de nosso Senhor Jesus Cristo, descobrimos pelo menos, pelos testemunhos mais claros possíveis, testemunhos que nenhuma crítica e nenhum comentário licencioso e parafrástico conseguiram abalar ou obscurecer, que ele tinha existência anterior à sua encarnação e anterior à própria “fundação do mundo”. Se, então, verificarmos que os mesmos títulos e obras que lhe são atribuídos no Novo Testamento são atribuídos no Antigo a uma pessoa divina, que é, contudo, apresentada como distinta de Deus Pai, e especialmente a alguém que haveria de vir ao mundo para cumprir os mesmos ofícios que nosso Senhor de fato cumpriu, teremos dado mais um passo nesta investigação e teremos apresentado uma prova elevada não só da preexistência de Cristo, mas também de sua divindade. Esse será o assunto do próximo capítulo.

Notas de Richard Watson

1. “Ninguém, exceto eu mesmo, jamais esteve no céu” (Pearce). ↩

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Richard Watson, Theological Institutes; or, A View of the Evidences, Doctrines, Morals, and Institutions of Christianity (Londres, 1823-1829), conferido com a edição de Nova York (Lane & Scott, 1850-1851). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).