Ao extrair do volume sagrado a doutrina de uma trindade de pessoas divinas na unidade da Divindade, apresentando alguns dos seus numerosos e decisivos testemunhos de que é esse o modo pelo qual a natureza divina subsiste, é preciso notar mais uma vez a maneira explícita com que ali se estabelece que há um só Deus.
Esse é o fundamento e a pedra angular de todo o edifício da teologia bíblica; e todo argumento em favor da trindade decorre desse princípio da absoluta unidade de Deus, princípio que as heresias que mencionamos de passagem imaginam ser incompatível com a doutrina ortodoxa.
Não é preciso repetir mais uma vez a maneira solene e inequívoca com que a unidade de Deus é afirmada como doutrina e colocada como fundamento de toda a verdadeira religião, seja devocional, seja prática; basta aqui remeter ao capítulo sobre a unidade de Deus.
Desse Deus único, o nome elevado e peculiar, e, como com razão já se disse, o nome próprio, é Jeová; o qual, como todos os nomes hebraicos de Deus, não é um termo sem significado e casual, mas um nome de revelação, um nome adotado pelo próprio Deus com o propósito de dar a conhecer o mistério da sua natureza. Ao que já se disse sobre esse título, posso acrescentar que os críticos mais eminentes o derivam de הוה, fuit, existit (foi, existiu), que no kal significa ser, e no hifil, fazer ser. Buxtorf, na sua definição, inclui ambas as ideias e o faz significar um ser que existe por si mesmo, de eternidade a eternidade, e que comunica existência a outros; e acrescenta que significa o Ser que é, que era e que há de vir. A sua derivação foi explicada de vários modos pelos críticos, e formaram-se algumas noções fantasiosas sobre o significado de cada uma das suas letras; mas nessa ideia de existência absoluta todos concordam. “Todos reconhecem”, diz o bispo Pearson, “que יהוה vem de הוה ou היה, e a própria interpretação de Deus não prova outra coisa (Êx 3.14). Alguns sustentam que a ideia de futuro é essencial ao nome; todos, porém, concordam em que a raiz nada significa senão essência ou existência, isto é, τὸ εἶναι ou ὑπάρχειν.” (Exposition of the Creed.) Nenhum título do Ser divino poderia, portanto, ser mais distintivo do que aquele que significa ser independente e eterno; e foi provavelmente por essa razão que os judeus, desde uma antiguidade muito remota, tiveram por ele uma reverência singular, levada, é verdade, a um escrúpulo supersticioso, mas que mostrava ser esse o nome que desvendava ao pensamento daqueles a quem foi dado primeiro as glórias tremendas e avassaladoras de um Ser que existe por si mesmo, as próprias profundezas insondáveis da sua eterna Divindade.1
Ao examinarmos o que as Escrituras ensinam sobre esse Ser eterno e que existe por si mesmo, a nossa atenção é primeiro detida pelo fato importante de que esse Jeová único é mencionado com títulos no plural, e isso não uma ou duas vezes, mas num número incontável de casos. De modo que os nomes hebraicos de Deus, que todos reconhecem exprimir e declarar alguma particularidade ou excelência da sua natureza, aparecem em vários casos tanto na forma plural como na singular, e um deles, Aleim, geralmente no plural; e isso embora fosse artigo tão fundamental e distintivo da fé judaica, em oposição ao politeísmo de quase todas as outras nações, que havia um só Deus vivo e verdadeiro. Dou alguns exemplos. Jeová, se não tem forma plural, tem mais de uma aplicação pessoal. “Então o Senhor fez chover enxofre e fogo sobre Sodoma e Gomorra. Isso veio da parte do Senhor, desde os céus” (Gn 19.24). Temos aqui o Jeová visível, que havia falado com Abraão, fazendo chover a tempestade da vingança da parte de outro Jeová, desde os céus, e que, portanto, era invisível. Temos assim dois Jeovás expressamente mencionados, “o Senhor fez chover […] da parte do Senhor”; e, no entanto, temos a afirmação mais solene em Deuteronômio 6.4: “Escute, Israel, o Senhor (Jeová), nosso Deus, é o único Senhor (Jeová)”.
O primeiro nome das Escrituras sob o qual o Ser divino nos é apresentado como Criador dos céus e da terra é um nome no plural, אלהים, Aleim; e, para ligar a pluralidade à unidade da mesma maneira singular que no exemplo anterior, ele é sujeito de um verbo no singular: “No princípio, Deuses criou os céus e a terra” (Gn 1.1) [N. do T.: tradução literal de Watson, que mostra o substantivo plural com o verbo no singular; a NAA traz “No princípio, Deus criou os céus e a terra”]. Dessa forma ocorrem inúmeros exemplos no Antigo Testamento. Que a palavra é plural fica certo pelo fato de ser frequentemente unida a adjetivos, pronomes e verbos no plural; e, no entanto, quando não pode significar outra coisa senão o verdadeiro Deus, geralmente se une, na sua forma plural, a verbos no singular. Para tornar isso ainda mais notável, diz-se que os Aleim são Jeová, e Jeová os Aleim; assim no Salmo 100.3: “Saibam que Jeová, ele, os Aleim, foi ele quem nos fez, e não nós a nós mesmos” [N. do T.: a NAA traz “Saibam que o Senhor é Deus; foi ele quem nos fez, e dele somos”]. E na passagem citada antes: “Jeová, nosso Aleim (Deuses), é o único Jeová.” Al, o Poderoso, outro nome de Deus, tem o seu plural אלים, Alim, os Poderosos. O primeiro é traduzido por Trommius como Θεός, o segundo como Θεοί. אביר, Abir, o Potente, tem o plural אבירים, Abirim, os Potentes. Em “o homem comeu o pão dos Abirim” (Sl 78.25), a tradução “pão dos anjos” não transmite ideia nenhuma; o maná era o pão providenciado milagrosamente e, por isso, era chamado alimento dos Poderosos, daqueles que têm poder sobre toda a natureza, o Deus único.
Adonim é a forma plural de אדון, Adon, governante. “Se eu sou Adonim, senhores, onde está o respeito para comigo?” (Ml 1.6) [N. do T.: a NAA traz “se eu sou senhor”]. Muitos outros exemplos poderiam ser dados, como: “Lembre-se dos seus Criadores nos dias da sua mocidade” (Ec 12.1) [N. do T.: a NAA traz “do seu Criador”; Watson segue o plural do hebraico]. “O conhecimento dos Santos é entendimento” (Pv 9.10) [N. do T.: a NAA traz “conhecer o Santo é ter entendimento”]. “Sobre estes há ainda outros mais elevados” (Ec 5.8), no hebraico, “Altos”; e em Daniel, “os vigilantes” e “os santos” (Dn 4.17).
Outras formas de linguagem no plural ocorrem também quando se fala unicamente do único Deus verdadeiro. “E Deus disse: Façamos o ser humano à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1.26). “Então o Senhor Deus disse: Eis que o homem se tornou como um de nós” (Gn 3.22). “E o Senhor disse: […] Venham, vamos descer” (Gn 11.6-7). “Porque ali Deus havia se revelado a ele” (Gn 35.7); no hebraico, “Deus se revelaram”, estando o verbo no plural. Não é preciso multiplicar esses exemplos: são as formas comuns de linguagem nas Sagradas Escrituras, que nenhuma crítica conseguiu reduzir a meras expressões idiomáticas, e que só a doutrina de uma pluralidade de pessoas na unidade da Divindade pode explicar satisfatoriamente. Se fossem meras expressões idiomáticas, não poderiam ter sido mal entendidas, como se implicassem pluralidade, por aqueles cuja língua materna era o hebraico; mas disso temos prova suficiente, que será apresentada quando tratarmos da fé da igreja judaica. Foi reconhecido que elas constituem uma singularidade notável da língua hebraica, até por aqueles que se opuseram à conclusão que delas se tira; e a questão, portanto, tem sido encontrar uma hipótese que explique uma peculiaridade que não se encontra em nenhuma outra língua com as mesmas circunstâncias.2
Alguns supuseram que, quando ocorrem essas formas plurais, os anjos estão associados a Deus. Para isso não há fundamento nos próprios textos, e é, além disso, um absurdo manifesto. Outros, que se adotou o estilo da realeza, o que é refutado por duas considerações: que o Deus todo-poderoso, em outros casos, fala no singular e não no plural; e que esse não era o estilo dos soberanos da terra quando Moisés ou qualquer outro dos escritores sagrados compuseram os seus escritos, não se encontrando nenhum exemplo dele em nenhum dos livros inspirados. Uma terceira opinião é a de que os hebreus adotaram a forma plural de falar de Deus dos seus antepassados, que eram politeístas, e que o antigo termo teológico foi conservado depois que se reconheceu a unidade de Deus. Isso pressupõe o que não tem prova alguma, que os antepassados dos hebreus fossem politeístas; e, ainda que isso se demonstrasse, faltaria explicar por que outros nomes da Deidade, igualmente antigos, pelo que se pode ver, não são também plurais, e especialmente o elevado nome de Jeová; e por que, mais particularmente, o próprio título em questão, Aleim, tem também uma forma singular na mesma língua. As razões gramaticais que se ofereceram são igualmente insatisfatórias. Se, pois, nenhuma hipótese explica essa peculiaridade senão a que conclui que ela indica aquele modo da existência divina que a teologia posterior exprimiu com a frase “uma trindade de pessoas”, a inferência é forte demais para ser facilmente rejeitada: essas formas plurais devem ser consideradas como destinadas a indicar a pluralidade de pessoas em ligação essencial com uma só Deidade suprema e adorável.
Esse argumento, porém, tomado isoladamente, por mais forte que muitas vezes tenha sido, com justiça, considerado, não contém toda a força da questão. Pois, por natural que seja esperar, supondo-se que esse seja o modo da existência divina, que alguns dos seus nomes, que, de acordo com o caráter expressivo e simples da língua hebraica, são descrições de realidades, e que alguns dos modos de expressão adotados até nas revelações mais antigas trouxessem alguma indicação de um fato que, por estar essencialmente ligado à redenção, a futura revelação completa do plano redentor deveria desdobrar plenamente; ainda assim, se esses títulos plurais e essas formas de construção fossem apagados, a prova de uma pluralidade de pessoas divinas na Divindade continuaria de pé na sua forma mais forte. Pois essa prova não consiste apenas em que Deus se revelou com títulos no plural, nem em que estes se constroem ora com formas de linguagem no singular, ora no plural; mas em que três pessoas, e só três, são mencionadas nas Escrituras com títulos divinos, cada uma tendo atribuídos a si os atributos peculiares da divindade; e em que, no entanto, o primeiro e principal princípio do mesmo livro que assim fala do caráter e das obras dessas pessoas é que há um só Deus. Estabelecido esse ponto, pode-se perguntar qual das hipóteses, a ortodoxa, a ariana ou a sociniana, concorda melhor com essa doutrina clara e explícita da Sagrada Escritura. Clara e explícita, digo, não quanto ao modo da existência divina, nem quanto à sua compreensão, mas quanto a este particular: que a doutrina em si está claramente declarada nas Escrituras.
Examine-se, pois, esse ponto, e ver-se-á que até o próprio número três tem esta preeminência: a aplicação desses nomes e poderes se restringe a ele e nunca vai além dele; e que aqueles que confiam no testemunho de Deus, mais do que nas opiniões dos homens, têm razão bíblica suficiente para distinguir a sua fé da incredulidade dos outros declarando-se trinitários.3
A forma solene de bênção com que os sumos sacerdotes judeus receberam a ordem de abençoar os filhos de Israel traz em si essa indicação peculiar e corresponde de modo singular à forma de bênção tão comum no fim das epístolas apostólicas, e que encerra tão apropriadamente os cultos solenes da adoração cristã. Ela se acha em Números 6.24-27.
“O Senhor (Jeová) os abençoe e os guarde;
o Senhor (Jeová) faça resplandecer o seu rosto sobre vocês e tenha misericórdia de vocês;
o Senhor (Jeová) sobre vocês levante o seu rosto e lhes dê a paz.”
Se os três membros dessa forma de bênção forem considerados com atenção, ver-se-á que correspondem respectivamente às três pessoas, tomadas na ordem habitual do Pai, do Filho e do Espírito Santo. O Pai é o autor da bênção e da preservação; a iluminação e a graça vêm do Filho; a iluminação e a paz, do Espírito, o mestre da verdade e o Consolador. (Veja-se Jones, Catholic Doctrine.)
“O primeiro membro da fórmula exprime o ‘amor de Deus’ benevolente, o Pai das misericórdias e fonte de todo bem; o segundo condiz bem com a ‘graça do Senhor Jesus Cristo’, que redime e reconcilia; e o último é apropriado à pureza, à consolação e à alegria que se recebem da ‘comunhão do Espírito Santo’.” (Smith, Person of Christ.)
A ligação de certas bênçãos específicas, nessa forma de bênção, com o Jeová mencionado distintamente três vezes, e daquelas que na forma apostólica são apresentadas como procedentes do Pai, do Filho e do Espírito, seria uma coincidência singular, ainda que estivesse sozinha; mas a luz da mesma verdade eminente, embora ainda não plenamente revelada, irrompe por outras aberturas das nuvens do amanhecer da revelação.
A parte interior do santuário judaico chamava-se o Santo dos Santos, isto é, o lugar santo dos Santos; e o número destes é indicado, e limitado a três, na célebre visão de Isaías, e isso com grande clareza. O cenário dessa visão é o lugar santo do templo e situa-se, portanto, na própria morada e residência dos Santos, aqui celebrados pelos serafins que cobriam o rosto diante deles. E clamavam uns para os outros, dizendo: “Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos” (Is 6.3). Essa passagem, se estivesse sozinha, poderia ser contornada dizendo-se que o ato de adoração divina aqui mencionado é apenas enfático, ou o modo hebraico de exprimir um superlativo; embora isso se pressuponha, e de modo algum se prove. Merece, porém, séria atenção que esse ato distinto e tríplice de adoração, que tantas vezes se supôs assinalar uma pluralidade de pessoas como seus objetos, é respondido por uma voz daquela glória excelsa que dominou a mente do profeta quando foi favorecido com a visão, respondendo na mesma linguagem de pluralidade em que se exprime a doxologia dos serafins: “Depois disto, ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei, e quem há de ir por nós?” (Is 6.8). Mas essa não é a única prova de que, nessa passagem, os Santos, a quem se dirigia cada um pela sua designação própria e igual de santo, eram as três subsistências divinas na Divindade. O ser a quem se dirige é o “Senhor dos Exércitos”. Todos reconhecem que isso inclui o Pai; mas o evangelista João (Jo 12.41), referindo-se manifestamente a esse acontecimento, observa: “Isaías disse isso porque viu a glória dele (de Cristo) e falou a respeito dele.” Nessa visão, portanto, temos também o Filho, cuja glória se diz que o profeta contemplou nessa ocasião. Atos 28.25 determina que havia também a presença do Espírito Santo: “Bem falou o Espírito Santo aos pais de vocês, por meio do profeta Isaías, quando disse: ‘Vá a este povo e diga: Ouvindo, vocês ouvirão e de modo nenhum entenderão; vendo, vocês verão e de modo nenhum perceberão'” etc. (At 28.25-26). Essas palavras, citadas de Isaías, o apóstolo Paulo declara terem sido ditas pelo Espírito Santo, e Isaías declara que foram ditas nessa mesma ocasião pelo “Senhor dos Exércitos”: “Então ele disse: Vá e diga a este povo: ‘Ouçam; ouçam, mas sem entender. Vejam; vejam, mas sem perceber'” etc. (Is 6.9).
Reúnam-se agora todas essas circunstâncias: o lugar, o lugar santo dos Santos; a repetição da homenagem três vezes, santo, santo, santo; o Jeová dos Exércitos único, a quem ela era dirigida; o pronome plural usado por esse Jeová único, nós; a declaração de um evangelista de que nessa ocasião Isaías viu a glória de Cristo; a declaração de são Paulo de que o Senhor dos Exércitos que falou nessa ocasião era o Espírito Santo; e a conclusão não parecerá destituída da mais poderosa autoridade, tanto circunstancial como declaratória, de que a adoração “santo, santo, santo” se referia aos três divinos, na essência única do Senhor dos Exércitos. Assim, no livro do Apocalipse, onde “o Cordeiro” é tão constantemente apresentado assentado no trono divino, e onde ele é nominalmente associado ao Pai como objeto da mesma homenagem e louvor de santos e anjos, essa cena de Isaías é transferida para o quarto capítulo, e os “seres viventes”, os serafins do profeta, são ouvidos no mesmo tom e com a mesma repetição tríplice, dizendo: “Santo, santo, santo é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, aquele que era, que é e que há de vir” (Ap 4.8). Isaías 48.16 também faz essa distinção e limitação tríplice: “E agora o Senhor Deus e o seu Espírito me enviaram” [N. do T.: a NAA traz “Agora, o Senhor Deus enviou a mim e o seu Espírito”, que é a outra leitura mencionada a seguir]. As palavras são manifestamente ditas pelo Messias, que declara ter sido enviado pelo Senhor Deus e pelo seu Espírito. Alguns traduzem “enviou a mim e o seu Espírito”, ficando este último termo também no acusativo. Isso reforça a aplicação, aproximando a frase daquela que nosso Senhor usou tantas vezes nos seus discursos, ao falar de si mesmo e do Espírito como enviados pelo Pai: “o Pai, que me enviou” (Jo 8.16); “o Consolador, que eu enviarei a vocês da parte do Pai, […] que dele procede” (Jo 15.26). Isaías 34.16: “Procurem no livro do Senhor e leiam […] porque a minha boca o ordenou, e o seu Espírito as ajuntou” [N. do T.: a NAA traz “a boca do Senhor o ordenou, e o seu Espírito mesmo as ajuntará”]. “Aqui uma pessoa fala do Espírito, que é outra pessoa.” (Jones, On the Trinity.) Ageu 2.5,7: “Eu estou com vocês, diz o Senhor dos Exércitos. Segundo a aliança que fiz com vocês, quando saíram do Egito, o meu Espírito habita no meio de vocês. Não tenham medo. Pois assim diz o Senhor dos Exércitos: […] Farei tremer todas as nações, e o Desejado de todas as nações virá” [N. do T.: no fim, a NAA traz “serão trazidas as coisas preciosas de todas as nações”; o argumento de Watson segue a redação da KJV, the Desire of all nations]. Aqui também temos três pessoas mencionadas distintamente: o Senhor dos Exércitos, o seu Espírito e o Desejado de todas as nações.
Muitas outras passagens poderiam ser dadas nas quais há essa mudança de pessoas, enumerando às vezes duas, às vezes três, mas nunca mais de três, revestidas desses títulos eminentes e divinos. As passagens do Novo Testamento são familiares a todos: “batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28.19); “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo” (2Co 13.13); e outras em que os três sagrados, e só os três, são assim colocados juntos como objetos de igual confiança e honra, e igualmente como fonte e origem da graça e da bênção.
Sobre a célebre passagem de 1João 5.7, “Três são os que testificam no céu” [N. do T.: essas palavras não constam da NAA, que traz apenas “Pois há três que dão testemunho”], nada digo, porque há autoridades contra a sua autenticidade nas fileiras dos ortodoxos e entre os que não levantam objeções por espírito de cavilação; e porque dificilmente seria justo apresentá-la como prova sem expor os argumentos de cada lado, o que levaria a discussões alheias ao propósito desta obra e que têm o seu lugar mais próprio em tratados separados e distintos. A recente retomada da investigação sobre a autenticidade desse texto mostra, porém, que a questão está longe de estar resolvida criticamente contra a passagem como parte verdadeira da Sagrada Escritura; e o argumento tirado do contexto é inteiramente favorável aos que a defendem, pois a lacuna no sentido nunca foi preenchida de modo satisfatório pelos que a rejeitam. Isso tem mais peso em argumentos dessa espécie do que muitas vezes se admite. Quanto à doutrina do texto, ela tem abundantes provas em outros lugares.
Mostrou-se agora que, embora a unidade de Deus deva ser considerada doutrina fundamental das Escrituras, estabelecida com a máxima solenidade e guardada com o máximo cuidado por preceitos, ameaças, promessas e castigos tremendos do politeísmo e da idolatria entre os judeus, os próprios nomes de Deus, tais como dados na revelação que ele fez de si mesmo, têm formas plurais e estão ligados a modos de falar no plural; que outras indicações de pluralidade são dadas em várias partes da Sagrada Escritura; e que essa pluralidade se restringe a três. Contudo, a prova não repousa inteira nem principalmente nos textos que nos seus termos denotam uma pluralidade e uma trindade; eles foram apresentados apenas como introdução a casos numerosos demais para serem todos examinados, nos quais se fala de duas pessoas distintas, às vezes juntas e às vezes separadamente, como associadas a Deus nas suas perfeições e glórias incomunicáveis, e como realizando obras de inequívoca majestade divina e poder infinito, manifestando assim, juntamente, aquela triunidade da Divindade que a verdadeira igreja tem adorado e engrandecido em todas as épocas. Essa é a grande prova sobre a qual a doutrina repousa. A primeira dessas duas pessoas é o Filho; a segunda, o Espírito. Quanto ao primeiro, observar-se-á: que os títulos de Jeová, Senhor, Deus, Rei, Rei de Israel, Redentor, Salvador e outros nomes de Deus lhe são atribuídos; que ele é revestido dos atributos de eternidade, onipotência, ubiquidade, sabedoria infinita, santidade, bondade etc.; que ele foi o Guia, o Rei visível e o objeto do culto dos judeus; que ele constitui o grande assunto da profecia, e é mencionado nas predições dos profetas numa linguagem que, se aplicada a homens ou a anjos, teria sido considerada pelos judeus não sagrada, mas idólatra, e que, portanto, se não concordasse com a sua antiga fé, teria destruído totalmente o crédito desses escritos; que ele é conhecido eminentemente, tanto no Antigo Testamento como no Novo, como o Filho de Deus, título que, como suficientemente se prova, era considerado uma pretensão à divindade, pela circunstância de nosso Senhor ter sido condenado à morte como blasfemo pelo sinédrio judaico por afirmá-lo; que ele se encarnou na nossa natureza; que operou milagres pelo seu próprio poder originário, e não, como os seus servos, em nome de outro; que perdoou pecados com autoridade; que, por causa do seu sacrifício, e só por causa dele, o pecado é perdoado até o fim do mundo; que ressuscitou dos mortos para selar todas essas reivindicações de divindade; que está assentado no trono do universo, tendo-lhe sido dada toda a autoridade no céu e na terra; que os seus apóstolos inspirados o apresentam como o Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, como o verdadeiro Deus e a vida eterna, como o Rei eterno, imortal, invisível, o único Deus sábio e nosso Salvador; que lhe oferecem o culto mais elevado; que confiam nele e ordenam a todos os outros que confiem nele para a vida eterna; que ele é o cabeça sobre todas as coisas; que os anjos o adoram e lhe prestam serviço; que ele ressuscitará os mortos no último dia, julgará os segredos dos corações humanos e determinará por fim o estado eterno dos justos e dos ímpios.
Esse é o esboço do testemunho da Escritura quanto ao Filho. Quanto ao caráter divino do Espírito, ele é igualmente explícito. Também ele é chamado Jeová, Jeová dos Exércitos, Deus. Eternidade, onipotência, ubiquidade, sabedoria infinita e outros atributos da Deidade lhe são atribuídos. Ele é apresentado como agente na obra da criação, e a ele se atribui a conservação de todos os seres vivos. Ele é a fonte da inspiração de profetas e apóstolos; o objeto de culto; o agente eficiente que ilumina, consola e santifica as almas dos homens. Ele intercede pelos santos, vivifica os mortos e, por fim, está associado ao Pai e ao Filho na forma do batismo no nome único de Deus e na forma apostólica de bênção, como, igualmente com eles, fonte e manancial da graça e da bem-aventurança. Passarei a estabelecer esses pontos decisivos pelas declarações expressas de várias passagens, tanto do Antigo como do Novo Testamento. Feito isso, o argumento será então o seguinte: visto que, de um lado, a doutrina da Escritura é que há um só Deus, e, de outro, que em ambos os Testamentos três pessoas são declaradas divinas, em linguagem inequívoca e por circunstâncias inequívocas, a única conclusão que pode harmonizar essas proposições e declarações, de outro modo opostas, contraditórias e extremamente enganosas, é que as três pessoas são um só Deus.
Na fé predominante da igreja cristã, nenhuma dessas perspectivas é perdida de vista por um só momento. Assim, ela harmoniza-se exatamente com as Escrituras, e não pode ser acusada de mistério maior do que o que se pode atribuir a elas. Afirma-se a trindade, mas a unidade não é obscurecida; confessa-se a unidade, mas sem negar a trindade. Não se recorre a figuras de linguagem nem a modos forçados de interpretação para conciliar essas verdades com as concepções humanas, que elas hão de transcender infinitamente. Esse é o caráter das heresias que surgiram sobre esse assunto. Todas nascem da tentativa de tornar esse mistério de Deus concebível pela mente humana e menos pedra de tropeço para o orgulho da razão. Ao contrário, “a fé que é dos eleitos de Deus” (Tt 1.1), tal como está consubstanciada nos credos e confissões de todas as igrejas verdadeiramente evangélicas, segue o exemplo das Escrituras, desconsiderando inteiramente essas considerações rasteiras e “declarando a coisa como ela é”, com todo o seu mistério e incompreensibilidade, escândalo para os judeus e loucura para os gregos. Ela declara “que adoramos um só Deus em trindade, e a trindade em unidade, sem confundir as pessoas nem dividir a substância; pois uma é a pessoa do Pai, outra a do Filho e outra a do Espírito Santo; mas a Divindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo é toda uma só, igual a glória, coeterna a majestade. Assim, o Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito Santo é Deus; e, contudo, não são três deuses, mas um só Deus.” (Credo de Atanásio.) Ou, como bem o exprimiu um eminente autor moderno, tão grande mestre da razão e da ciência quanto o foi da teologia: “Há uma só natureza ou essência divina, comum a três pessoas, incompreensivelmente unidas e inefavelmente distintas; unidas nos atributos essenciais, distintas por propriedades e relações peculiares; todas igualmente infinitas em toda perfeição divina, cada uma diferente da outra na ordem e no modo de subsistência; há uma existência mútua de uma em todas e de todas em uma; uma comunicação sem nenhuma privação ou diminuição naquele que comunica; uma geração eterna e uma processão eterna, sem precedência nem sucessão, sem causalidade propriamente dita nem dependência; um Pai que comunica a sua própria vida, e um Filho que recebe a vida do seu Pai, e um Espírito que procede de ambos, sem nenhuma divisão ou multiplicação da essência. Essas são noções que bem podem embaraçar a nossa razão quando tenta conceber como concordam; mas não devem abalar a nossa fé em afirmar que são verdadeiras. Pois, se a Sagrada Escritura nos ensina claramente, e com frequência nos inculca, que há um só Deus verdadeiro; se com a mesma evidência atribui às três pessoas da bendita trindade os mesmos nomes augustos, os mesmos títulos peculiares, os mesmos atributos divinos, as mesmas operações superlativamente admiráveis da criação e da providência; se também prescreve que se prestem a todas elas as mesmas honras supremas, os mesmos serviços, louvores e reconhecimentos, isso pode ser mais que suficiente para satisfazer a nossa mente, fechar a nossa boca e sufocar toda dúvida e disputa sobre esse elevado e santo mistério.” (Dr. Barrow, Defence of the Trinity.)
Mais uma observação, antes de passarmos às provas bíblicas das posições acima estabelecidas, encerrará este capítulo. A prova da doutrina da trindade, como eu disse, assenta-se no firme fundamento da unidade divina e com ela se conclui; e isso pode tranquilizar o verdadeiro crente quando é atacado pelos inimigos sofistas da sua fé com a acusação de dividir a sua consideração ao dirigir as suas orações a uma ou outra das três pessoas da Divindade. Diz-se que, ao menos naquele momento, ele honra uma com exclusão das outras. A verdadeira doutrina bíblica da unidade de Deus removerá essa objeção. Ela não é a noção sociniana de unidade. A deles é a unidade de um; a nossa, a unidade de três. Não pensamos, porém, como eles parecem supor, que a essência divina seja divisível, participada e repartida entre três pessoas; mas que é possuída e desfrutada por inteiro e sem divisão. Quer, pois, dirijamos as nossas orações e adorações ao Pai, ao Filho ou ao Espírito Santo, dirigimo-nos ao mesmo Ser adorável, o único Deus vivo e verdadeiro. “Jeová, nosso Aleim, é o único Jeová” (Dt 6.4). Quanto às relações que cada pessoa mantém conosco na economia da redenção, as nossas aproximações ao Pai devem fazer-se pela mediação do Filho e pelo auxílio do Espírito Santo, ou em dependência dele. Contudo, como mostra a autoridade do Novo Testamento, isso não exclui a oração direta a Cristo e ao Espírito Santo, nem que se atribuam diretamente glória e honra a cada um. Em tudo isso glorificamos o único Deus que é “sobre todos, Deus bendito para sempre” (Rm 9.5).
1. Maimônides nos diz que não era lícito pronunciar esse nome senão no santuário e pelos sacerdotes: “O nome que, como sabes, não é lícito pronunciar senão no santuário, e pelos santos sacerdotes de Deus, somente na bênção sacerdotal, e também pelo sumo sacerdote no dia do jejum.” ↩
2. O argumento em favor da trindade tirado dos títulos plurais dados a Deus nas Escrituras hebraicas foi combatido por Buxtorf, o jovem; o qual, no entanto, admite que esse argumento não deve ser inteiramente rejeitado entre os cristãos, “pois, pelo mesmo princípio pelo qual não poucos judeus referem essa aplicação enfática do número plural a uma pluralidade de poderes, ou de influências, ou de operações, isto é, ad extra (para fora), por que não podemos referi-la, ad intra (para dentro), a uma pluralidade de pessoas e a obras pessoais? Sim, quem sabe com certeza o que os antigos judeus entendiam por essa pluralidade de poderes e faculdades?” ↩
3. A palavra trinitas entrou em uso no século II. ↩