Assim como acabamos de tratar do culto público ao Deus todo-poderoso, podemos acrescentar convenientemente algumas observações sobre a consagração de um dia em cada sete a esse serviço, para que ele se prolongue mais do que nos dias em que os negócios da vida exigem os nossos esforços, e para que a nossa mente se mantenha livre das distrações desses negócios.
A obrigação de uma instituição sabática para os cristãos, assim como a extensão dessa obrigação, tem sido objeto de muita controvérsia. As próprias igrejas cristãs têm divergido, e também os teólogos de uma mesma igreja. Muito se escreveu sobre o assunto de ambos os lados, e muita pesquisa e erudição foram empregadas, às vezes para obscurecer um assunto muito claro.
A circunstância de que a observância de um sábado não é, em parte alguma, ordenada aos cristãos com todas as letras por nosso Senhor e pelos seus apóstolos tem sido tomada como razão para a grande licença de crítica e argumentação a que muitas vezes se tem recorrido para abalar o rigor da obrigação desse dever. A sua obrigação tem sido apresentada como apoiada apenas em inferência e, portanto, em opinião humana; e assim a opinião contrária às instituições sabáticas tem sido apresentada como tendo o mesmo peso que a opinião favorável a elas; e a liberdade que se tem reivindicado tem sido, com demasiada frequência, apressadamente considerada liberdade cristã. Isso, porém, é ir rápido demais; pois, ainda que a questão fosse tanto uma questão de inferência quanto essas pessoas querem, não se segue que todas as inferências sejam igualmente boas, nem que as inferências opostas tenham igual força de verdade, como tampouco de piedade.
A questão diz respeito à vontade de Deus sobre este ponto particular: se um dia em cada sete deve ser inteiramente dedicado à religião, com exclusão dos negócios e dos prazeres mundanos. Ora, há apenas duas maneiras pelas quais a vontade de Deus pode ser depreendida da sua palavra: ou por alguma ordem explícita a todos, ou por circunstâncias incidentais. Admitamos, então, por um momento, que não temos tal ordem explícita; mas certamente também não temos nenhuma em contrário. Admitamos que temos, para nos guiar na inferência da vontade de Deus neste particular, apenas certas circunstâncias que declaram a sua vontade; ainda assim é inevitável esta importante conclusão: todas essas circunstâncias indicativas são favoráveis a uma instituição sabática, e não há uma só que mostre algo contrário a ela. O sétimo dia foi santificado no fim da criação; a sua santidade foi depois assinalada pela suspensão do maná naquele dia e pela provisão de uma porção dobrada no sexto, e isso antes da entrega da lei no Sinai. Ele foi então incluído naquele grande resumo dos deveres religiosos e morais que Deus escreveu com o próprio dedo em tábuas de pedra; fez parte da lei pública e política do único povo do qual o Deus todo-poderoso se fez cabeça e governante político; a sua observância está ligada, ao longo de toda a época profética, às mais altas promessas, e as suas violações às mais severas maldições; entre os judeus do tempo de nosso Senhor, era um dia de solene reunião religiosa, e assim ele o observou; quando foi mudado para o primeiro dia da semana, era o dia em que os primeiros cristãos se reuniam; foi chamado, por excelência, “o dia do Senhor”; e temos autoridade inspirada para dizer que, tanto sob a dispensação do Antigo Testamento quanto sob a do Novo, ele é usado como tipo expressivo do descanso celestial e eterno. Ora, contra todas essas circunstâncias, que declaram tão fortemente a vontade de Deus quanto à observância de uma instituição sabática, que circunstância ou passagem da Escritura se pode opor que traga em si uma indicação contrária? Na verdade, nem uma só; exceto aquelas passagens de são Paulo em que ele fala dos sábados judaicos, com os seus ritos levíticos, e da distinção de dias, coisas que assinalavam um apego fraco ou culpável à dispensação cerimonial abolida, mas que não tocam o sábado como ramo da lei moral, nem tal como foi mudado, pela autoridade dos apóstolos, para o primeiro dia da semana.
Se, então, tivéssemos de decidir a questão apenas por inferência, quão poderosa é, de um lado, a inferência sobre qual é a vontade de Deus a respeito da guarda do sábado, e quão totalmente sem apoio está, do outro, a inferência oposta!
Pode-se também observar que aqueles que insistem tão vigorosamente na ausência, nos escritos dos evangelistas e dos apóstolos, de um mandamento expresso quanto ao sábado, tão explícito como o do decálogo, supõem que a vontade de Deus só obriga quando manifestada de um único modo, aquele que eles julgam mais adequado. Mas essa é uma hipótese monstruosa; pois, seja qual for o modo pelo qual a vontade de Deus se manifeste, se o faz com tal clareza que exclua toda dúvida razoável, ela obriga tanto quanto quando assume a formalidade de uma promulgação legal. Assim, a Bíblia não está toda na forma de mandamento expresso e autoritativo; ela ensina por exemplos, por provérbios, por cânticos, por alusões e acontecimentos incidentais; e, no entanto, é do começo ao fim uma manifestação da vontade de Deus quanto à moral e à religião nos seus vários ramos, e, se for desprezada, cada homem o fará por sua própria conta e risco.
Mas, por mais firme que seja esse terreno, deixamo-lo por outro ainda mais firme. É inteiramente um engano pensar que o sábado, por não ter sido promulgado de novo com a formalidade do decálogo, não é explicitamente ordenado aos cristãos, e que o testemunho da Escritura a favor de tal ordem não é inequívoco e irrefutável. Provaremos em breve que o sábado foi instituído na criação do mundo e, consequentemente, para todos os homens e, portanto, para os cristãos, visto que nunca houve revogação da instituição original. A isso acrescentamos que, se a lei moral é a lei dos cristãos, então o sábado lhes é ordenado tão explicitamente quanto aos judeus. Ora, que a lei moral é a nossa lei, assim como era a lei dos judeus, todos, exceto os antinomistas, hão de reconhecer; e poucos, supomos, estarão inclinados a enveredar pelos terríveis labirintos desse erro para sustentar noções frouxas quanto à obrigação do sábado; labirintos nos quais, no entanto, terão de mergulhar se negarem que a lei do decálogo nos obriga. Que ela de fato nos obriga, algumas poucas passagens da Escritura o provarão tão bem quanto muitas.
Nosso Senhor declara que não veio revogar a Lei e os Profetas, mas cumpri-los. Suponhamos que por “a Lei” ele quisesse dizer tanto a moral quanto a cerimonial: a lei cerimonial só podia ser cumprida nele pela realização dos seus tipos; e a lei moral, pela confirmação da sua autoridade. Quanto aos “Profetas”, admitem distinção semelhante: ou ordenam a moralidade, ou proferem profecias a respeito de Cristo; estas últimas foram cumpridas no sentido de realização, e aquelas por serem sancionadas e reforçadas. Que a observância do sábado faz parte da lei moral fica claro por se encontrar no decálogo, cuja doutrina nosso Senhor resume nos deveres morais de amar a Deus e ao próximo; e por essa razão as ordens dos profetas sobre o sábado devem ser consideradas parte do seu ensino moral. (Ver isso exposto mais amplamente na parte III, cap. I.) Alguns teólogos, é verdade, têm chamado a observância do sábado de preceito positivo, e não moral. Se assim fosse, a sua obrigação seria exatamente a mesma em todos os casos em que o próprio Deus não a tenha abrandado; e, se fosse apenas um preceito positivo, certamente lhe foi dada uma eminência especial ao ser colocado na lista dos dez mandamentos e ao ser capaz, juntamente com eles, de um resumo que os reduz ao amor a Deus e ao próximo. (Ver vol. II, p. 5.) A verdade parece ser que se trata de um preceito misto, e não inteiramente positivo, mas intimamente, talvez essencialmente, ligado a vários princípios morais, de reverência a Deus e de misericórdia para com os homens; à obrigação do culto religioso, do culto religioso público e do culto público sem distrações; e isso explica a sua colocação no decálogo ao lado dos mais altos deveres da religião e das principais regras da moralidade pessoal e social.
A passagem do sermão de nosso Senhor no monte, com o seu contexto, é uma imposição suficientemente explícita da lei moral em geral aos seus seguidores; mas, quando ele diz: “O sábado foi estabelecido por causa do homem” (Mc 2.27), refere-se claramente à sua instituição original, como lei universal, e não à sua obrigação apenas para os judeus em consequência das prescrições da lei de Moisés. Ele “foi estabelecido por causa do homem”, não enquanto este é judeu ou cristão, mas enquanto homem, criatura obrigada a amar, adorar e obedecer ao seu Deus e Criador, e em provação para a eternidade.
Outra prova explícita de que a lei dos dez mandamentos e, consequentemente, a lei do sábado obriga os cristãos encontra-se na resposta do apóstolo a uma objeção à doutrina da justificação pela fé: “Anulamos, então, a lei por meio da fé?” (Rm 3.31). Isso equivale a perguntar: o cristianismo ensina que a lei já não obriga os cristãos, porque ensina que nenhum homem pode ser justificado por ela? A isso ele responde na forma de expressão mais solene: “De modo nenhum! Pelo contrário, confirmamos a lei.” Ora, o sentido em que o apóstolo usa o termo “a lei” nesse argumento é indubitavelmente indicado no capítulo 7, versículo 7: “eu não teria conhecido o pecado, a não ser por meio da lei. Porque eu não teria conhecido a cobiça, se a lei não tivesse dito: ‘Não cobice'” (Rm 7.7); o que, sendo referência clara ao décimo mandamento do decálogo, mostra com a mesma clareza que o decálogo é “a lei” de que ele fala. Esta, portanto, é a lei que é “confirmada” pelo evangelho; e isso não pode significar outra coisa senão o estabelecimento e a confirmação da sua autoridade como regra de toda santidade interior e exterior. Quem, portanto, nega a obrigação do sábado para os cristãos nega a obrigação de todo o decálogo; e não há meio-termo real entre o reconhecimento da autoridade divina dessa instituição sagrada, como lei universal, e aquela grosseira corrupção do cristianismo geralmente chamada antinomismo.
Tampouco tem força alguma o dilema em que os antissabatistas querem nos encurralar, quando argumentam que, se é assim, estamos obrigados à mesma exatidão circunstancial de obediência quanto a esse mandamento que quanto aos outros preceitos do decálogo e, portanto, que estamos obrigados a observar como dia de descanso o sétimo dia, contado de modo que caia no sábado da semana. Mas, como o mandamento é em parte positivo e em parte moral, pode ter circunstâncias suscetíveis de ser alteradas em perfeita conformidade com os princípios morais em que se apoia e com os fins morais que propõe. Tais circunstâncias, de fato, não devem ser julgadas por nossa própria autoridade. Precisamos ter, para nos guiar, ou princípios gerais revelados por Deus, que por isso não podem ser postos em dúvida, ou alguma autoridade especial da qual não possa haver apelação justa. Ora, embora não esteja registrada nenhuma ordem divina dada aos apóstolos para mudar o sábado, do dia em que os judeus o guardavam para o primeiro dia da semana, quando vemos que isso foi feito na era apostólica, e que são Paulo fala dos sábados judaicos como não obrigatórios para os cristãos, embora sustente que toda a lei moral os obriga, a inferência justa é que essa mudança do dia foi feita por orientação divina. É no mínimo mais do que inferência que a mudança foi feita com a sanção de homens inspirados, e esses homens eram os governantes designados da igreja de Cristo, cuja função era “pôr em ordem todas as coisas” que diziam respeito ao seu culto e ao seu governo moral. Podemos, portanto, ficar bem satisfeitos com isto: como um sábado nos obriga, agimos sob autoridade apostólica ao observá-lo no primeiro dia da semana, e assim comemoramos ao mesmo tempo a criação e a redenção do mundo.
Assim, mesmo que se concedesse que a mudança do dia foi feita por acordo dos apóstolos, sem orientação expressa de Cristo (o que não é provável), é certo que não foi feita sem autoridade expressa que Cristo lhes confiou; mas nem mesmo dessa mudança se seguiria que eles tenham de fato feito alguma alteração na lei do sábado, quer tal como estava no tempo da sua instituição original no fim da criação, quer no decálogo de Moisés. A mesma porção de tempo que constituía o sétimo dia a partir da criação não poderia ser observada em todas as partes da terra; e, portanto, não é provável que a lei original expresse mais do que isto: que um sétimo dia, ou um dia em cada sete, o sétimo dia depois de seis dias de trabalho, fosse assim reservado, qualquer que fosse o ponto de partida da contagem ou o início do ciclo semanal. Pois, se mais do que isso se tivesse em vista, então teria sido necessário estabelecer uma regra para a própria contagem dos dias, que tem sido diferente em diferentes nações: algumas contando de tarde a tarde, como os judeus fazem ainda hoje; outras, de meia-noite a meia-noite, etc. De modo que aquelas pessoas neste país e na América que guardam o seu dia de descanso no sábado da semana, na ideia de se conformarem exatamente ao Antigo Testamento, e no entanto calculam os dias de meia-noite a meia-noite, não têm segurança nenhuma de que não profanam uma parte do sábado original, que poderia começar, como o sábado judaico hoje, na sexta-feira à tarde; e de que, ao contrário, não santificam uma porção de um dia comum, ao estenderem o sábado para além da tarde de sábado. Mesmo que isso fosse determinado, as diferenças de latitude e longitude lançariam tudo em desordem; e não é provável que uma lei universal tenha sido presa a tal exatidão circunstancial, que tornaria necessários cálculos astronômicos difíceis e às vezes duvidosos para que ela fosse obedecida segundo a intenção do Legislador. Assim, como diz o sr. Holden, verificamos que
“na instituição original se declara em termos gerais que Deus abençoou e santificou o sétimo dia, o que sem dúvida deve implicar a santidade de cada sétimo dia, mas não que ele deva ser contado, daí em diante, a partir do primeiro dia da obra criadora. Se isso estivesse incluído no mandamento do Todo-Poderoso, é provável que se tivesse acrescentado alguma coisa que declarasse essa intenção; ao passo que se empregam as expressões mais indefinidas; nem uma sílaba se diz sobre a ordem e o número dos dias; e não se pode razoavelmente contestar que o mandamento é verdadeiramente obedecido pela separação de cada sétimo dia, dos fins comuns para os fins sagrados, seja qual for o momento em que o ciclo comece. A diferença entre o modo de expressão usado aqui e o que o historiador sagrado usou no primeiro capítulo é muito notável. Na conclusão de cada divisão da obra da criação, ele diz: ‘Houve tarde e manhã, o primeiro dia’ (Gn 1.5), e assim por diante; mas, ao término do todo, chama-o simplesmente o sétimo dia; uma diversidade de expressão que, como seria incompatível com toda ideia de inspiração supô-la não intencional, deve ter tido o propósito de denotar um dia, deixando a cada povo a maneira de contá-lo. O termo evidentemente significa o período da rotação da terra em torno do seu eixo, ao passo que fica indeterminado se deve ser contado da tarde ou da manhã, do meio-dia ou da meia-noite. Os termos da lei são: ‘Lembre-se do dia de sábado, para o santificar. Seis dias você trabalhará e fará toda a sua obra, mas o sétimo dia é o sábado dedicado ao Senhor, seu Deus. Porque em seis dias o Senhor fez os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou’ (Êx 20.8-11). Quanto ao tempo, ele é mencionado aqui da mesma maneira indefinida que na sua instituição primitiva, nada mais se exigindo expressamente do que observar um dia de descanso sagrado após cada seis dias de trabalho. O sétimo dia deve ser santificado; mas não se diz uma palavra sobre a que época se deve referir o início da série; nem poderiam os hebreus ter determinado pelo decálogo que dia da semana deviam guardar como o seu sábado. O preceito não é ‘Lembre-se do sétimo dia da semana, para o santificar’, mas ‘Lembre-se do dia de sábado, para o santificar’; e, na explicação dessas expressões que se segue, não se diz que o sétimo dia da semana é o sábado, mas, sem restrição: ‘o sétimo dia é o sábado dedicado ao Senhor, seu Deus’; não o sétimo segundo algum método particular de calcular o ciclo de sete dias, mas, em referência aos seis antes mencionados, cada sétimo dia em sucessão depois de seis de trabalho.” (Holden, on the Sabbath.)
Assim, aquela parte da lei judaica, o decálogo, que, com base na autoridade do Novo Testamento, mostramos ser obrigatória para os cristãos, deixa indeterminada a contagem do ciclo semanal e, depois de seis dias de trabalho, ordena o sétimo como sábado; e a prática cristã se conforma a isso tão exatamente quanto a judaica. Não fica, contudo, a critério de cada indivíduo determinar qual dia deve ser o seu sábado, ainda que cumprisse a lei a ponto de subtrair ao trabalho a sétima parte do seu tempo. O sábado foi ordenado para o culto, para o culto público; e, portanto, é necessário que seja observado uniformemente por toda uma comunidade ao mesmo tempo. O Legislador divino dos judeus interveio com esse fim, por meio de orientação especial, no que dizia respeito ao seu povo. O primeiro sábado guardado no deserto foi calculado a partir do primeiro dia em que caiu o maná, sem nenhuma referência aparente à criação do mundo. Por autoridade apostólica, está agora fixado que seja guardado no primeiro dia da semana; e assim se assegura um dos grandes fins para os quais foi estabelecido: que fosse um dia de “santa convocação” (Lv 23.3).
As observações acima partem do pressuposto de que o sábado, segundo a interpretação justa das palavras de Moisés, foi instituído na criação do mundo. Mas tivemos teólogos de considerável eminência na Igreja da Inglaterra que tentaram refutar isso. A razão do zelo demonstrado por alguns deles nessa questão pode ser facilmente explicada.
Nem todas as igrejas da Reforma, de fato, concordavam nos seus pontos de vista sobre o sábado; mas os reformadores da Inglaterra e da Escócia adotaram em geral o ponto de vista estrito e bíblico, e depois deles os puritanos. Os adversários dos puritanos, nas suas controvérsias com eles, e especialmente depois da Restauração, associaram a observância estrita do sábado à hipocrisia e à deslealdade política; e não pouca engenhosidade e erudição foram empregadas para provar que, nos intervalos do culto público, era lícito dedicar-se ao prazer ou aos negócios, e que essa festa cristã se apoia em fundamentos inteiramente diferentes dos do sábado judaico. A instituição de um sábado para o homem, no fim da criação, era desfavorável a essa noção; e, por isso, fez-se um esforço para descartar o testemunho de Moisés no livro de Gênesis, alegando que o sábado é ali mencionado por prolepse, ou antecipação. Dos argumentos dessa classe de teólogos valeu-se Paley na sua Moral Philosophy, e ele se tornou a autoridade mais popular desse lado da questão.
O argumento de Paley está bem resumido, e satisfatoriamente respondido, na competente obra citada acima.
“Entre os que sustentaram que o registro do Pentateuco acima citado é proléptico, e que o sábado deve ser considerado parte das leis peculiares da organização política judaica, ninguém demonstrou mais capacidade que o dr. Paley. Outros do mesmo lado exibiram erudição muito mais extensa e realizaram pesquisa muito mais paciente; mas, em agudeza de intelecto, em serenidade de juízo e em hábito de raciocínio perspicaz, raramente ou nunca foi superado. Os argumentos que ele aprovou devem ser reconhecidos como a principal força da causa; e, como ele é ao mesmo tempo o mais judicioso e o mais popular dos seus defensores, tudo o que apresentou exige exame cuidadoso e imparcial. A doutrina que ele sustenta é que o sábado não foi instituído na criação; que foi destinado somente aos judeus; que a reunião no primeiro dia da semana para o culto público é uma lei do cristianismo, de instituição divina; mas que o descanso nesse dia, por mais tempo do que o necessário para a frequência a essas assembleias, é uma ordenança de instituição humana; obrigatória, não obstante, para a consciência de cada indivíduo de um país em que se tenha estabelecido um sábado semanal, por causa dos fins benéficos que a sua observância pública e regular promove, e recomendada talvez, em algum grau, à aprovação divina pela semelhança que guarda com aquilo que Deus quis fazer parte solene da lei que entregou ao povo de Israel, e por servir a muitos dos mesmos usos. Tal é a doutrina desse escritor tão capaz na sua Moral and Political Philosophy; doutrina que põe o sábado no mesmo pé das leis civis, recomendadas pela sua conveniência, e que, sancionada por autoridade tão elevada, provavelmente deu grande estímulo às noções frouxas sobre o sábado que infelizmente prevalecem.
“O principal argumento do dr. Paley é que a primeira instituição do sábado se deu durante a peregrinação dos judeus no deserto. Diante da queixa do povo pela falta de alimento, Deus quis prover ao seu alívio por meio de um suprimento miraculoso de maná, que se encontrava todas as manhãs sobre o chão ao redor do acampamento: ‘Colhiam-no, pois, manhã após manhã, cada um quanto conseguia comer; porque, vindo o calor do sol, o maná se derretia. No sexto dia, colheram alimento em dobro, quatro litros para cada um. E os principais da congregação vieram e contaram isso a Moisés. Ele respondeu: Isto é o que disse o Senhor: “Amanhã é repouso, o santo sábado dedicado ao Senhor. O que vocês quiserem assar no forno, assem, e o que quiserem cozinhar em água, cozinhem; e tudo o que sobrar separem, guardando para a manhã seguinte.” E guardaram-no até a manhã seguinte, como Moisés havia ordenado; e não cheirou mal (como antes acontecera, quando alguns o deixaram até a manhã), nem deu bichos. Então Moisés disse: Comam isto hoje, pois hoje é o sábado dedicado ao Senhor; hoje vocês não encontrarão nada no campo. Seis dias vocês o recolherão, mas o sétimo dia é o sábado; nele, não haverá nada a recolher. No sétimo dia algumas pessoas saíram para o recolher, porém não o acharam. Então o Senhor disse a Moisés: Até quando vocês se recusarão a guardar os meus mandamentos e as minhas leis? Vejam! O Senhor deu a vocês o sábado; por isso, ele, no sexto dia, lhes dá alimento para dois dias; cada um fique onde está, ninguém saia do seu lugar no sétimo dia. Assim, o povo descansou no sétimo dia’ (Êx 16.21-30).
“Dessa passagem o dr. Paley infere que o sábado foi instituído pela primeira vez no deserto; mas, para excluir a possibilidade de deturpar o seu argumento, citarei as suas próprias palavras: ‘Ora, na minha opinião, o acontecimento no deserto acima narrado foi a primeira instituição efetiva do sábado. Pois, se o sábado tivesse sido instituído no tempo da criação, como as palavras de Gênesis podem à primeira vista parecer indicar, e se tivesse sido observado continuamente desde aquele tempo até a saída dos judeus do Egito, um período de cerca de dois mil e quinhentos anos, parece inexplicável que nenhuma menção dele, nenhuma ocasião sequer da mais obscura alusão a ele, ocorra, seja na história geral do mundo antes do chamado de Abraão, que contém, admitimos, apenas algumas poucas memórias das suas primeiras eras, e estas extremamente abreviadas; seja, o que é mais de admirar, na história da vida dos três primeiros patriarcas judeus, que, em muitas partes do relato, é suficientemente minuciosa e doméstica. Tampouco há, na passagem acima citada do capítulo dezesseis de Êxodo, qualquer indicação de que o sábado, quando se ordenou a sua observância, fosse apenas o restabelecimento de uma instituição antiga, que tivesse sido negligenciada, esquecida ou suspensa; nem se imputa tal negligência aos habitantes do mundo antigo, nem a qualquer parte da família de Noé; nem, por fim, se registra qualquer permissão para dispensar a instituição durante o cativeiro dos judeus no Egito, ou em qualquer outra emergência pública.’
“Quanto à primeira parte desse raciocínio, ainda que se concedesse que na história das eras patriarcais não se faz nenhuma menção do sábado, nem sequer a mais obscura alusão a ele, seria injusto concluir que ele não foi instituído antes da saída dos filhos de Israel do Egito. Se instituído na criação, a sua memória poderia ter sido esquecida com o passar do tempo e a crescente corrupção do mundo; ou, o que é mais provável, poderia ter sido observado pelos patriarcas, embora não se faça menção dele na narrativa da sua vida, que, por mais minuciosa que seja em alguns pormenores, é, no conjunto, muito breve e resumida. Há omissões muito mais extraordinárias na história sagrada. Excetuando a súplica de Jacó em Betel, mal se encontra uma única alusão à oração em todo o Pentateuco; e, no entanto, considerando a eminente piedade dos varões ilustres ali registrados, não podemos duvidar da frequência dos seus exercícios devocionais. A circuncisão, sendo o sinal da aliança de Deus com Abraão, era sem dúvida pontualmente observada pelos israelitas; e, no entanto, desde o seu estabelecimento em Canaã, não se registra nenhum caso particular dela até a circuncisão de Cristo, abrangendo um período de cerca de mil e quinhentos anos. Não ocorre nenhuma menção expressa do sábado nos livros de Josué, Juízes, Rute, primeiro e segundo de Samuel, nem no primeiro dos Reis, embora ele sem dúvida tenha sido regularmente observado durante todo o tempo abrangido por essas histórias. No segundo livro dos Reis e no primeiro e segundo das Crônicas, é mencionado apenas doze vezes, e algumas delas são meras repetições do mesmo caso. Se o sábado é mencionado tão raramente nessa longa série histórica, não pode ser de admirar que não seja mencionado no relato sumário das eras patriarcais.
“Mas, embora o sábado não seja mencionado expressamente na história das eras antediluviana e patriarcal, a sua observância parece estar insinuada pela divisão do tempo em semanas. Ao relatar a catástrofe do dilúvio, o historiador nos informa que Noé, ao fim de quarenta dias, abriu a janela da arca; e ‘Noé esperou mais sete dias e de novo soltou a pomba fora da arca. À tarde, ela voltou a ele, trazendo no bico uma folha nova de oliveira. Assim Noé entendeu que as águas tinham baixado sobre a terra. Esperou mais sete dias e de novo soltou a pomba; ela, porém, já não voltou mais para ele’ (Gn 8.10-12). O termo ‘semana’ é usado por Labão em referência às núpcias de Lia, quando diz: ‘Complete a semana de festa de casamento da primogênita. Depois, daremos a você também a outra, pelo trabalho de mais sete anos que você ainda me servirá’ (Gn 29.27). Aqui se indica claramente uma semana de dias, a mesma porção de tempo que, em épocas posteriores, era reservada para as festividades nupciais, como se vê pelo livro de Ester, onde o banquete de casamento de Vasti durou sete dias, e mais particularmente pelo relato do banquete de casamento de Sansão. José e os seus irmãos prantearam o seu pai Jacó durante sete dias.
“Que a contagem do tempo por semanas vigorava desde a mais remota antiguidade se vê pelos registros tradicionais e escritos de todas as nações, cujos numerosos e inegáveis testemunhos já foram tantas vezes reunidos e expostos que seria pior do que inútil repeti-los.
“Combinando todos esses testemunhos, eles estabelecem plenamente o costume primitivo de medir o tempo pela divisão em semanas; e, como esse costume prevalecia entre nações separadas pela distância, sem nenhum intercâmbio mútuo e inteiramente distintas nos costumes, deve ter-se originado de uma fonte comum, que não se pode razoavelmente supor ser outra senão a memória da criação preservada na família de Noé e transmitida aos seus descendentes. A contagem por dias, meses e anos surge de causas óbvias: a revolução da lua e as revoluções anual e diária do sol; mas a divisão do tempo em períodos de sete dias não tem fundamento em nenhuma mudança natural ou visível de sete em sete; deve, portanto, ter-se originado de alguma determinação positiva, ou de alguma tradição anterior à dispersão da humanidade, que dificilmente pode ser outra coisa senão a memória da criação e da bênção primitiva do sétimo dia.
“O argumento seguinte do dr. Paley é que ‘não há no capítulo dezesseis de Êxodo nenhuma indicação de que o sábado, quando se ordenou a sua observância, fosse apenas o restabelecimento de uma instituição antiga que tivesse sido negligenciada, esquecida ou suspensa’. O contrário, porém, parece a inferência mais natural da narrativa. Ele é mencionado exatamente da maneira como o faria um historiador que tivesse ocasião de falar de uma instituição bem conhecida. Por exemplo, quando o povo se espantou com a porção dobrada de maná no sexto dia, Moisés observa: ‘Isto é o que disse o Senhor: “Amanhã é repouso, o santo sábado dedicado ao Senhor”‘ (Êx 16.23); o que, pelo que sabemos, nunca fora dito antes desse acontecimento, a não ser no fim da criação. Esta, sem dúvida, é a linguagem de um homem que se refere a um assunto que o povo já conhecia, e que o traz de novo à sua lembrança. No quinto versículo, Deus promete para o sexto dia o dobro do que recolhiam diariamente. Para isso não se dá nenhuma razão, o que parece implicar que ela já era conhecida dos filhos de Israel. Tal promessa, sem que se indicasse alguma causa para circunstância tão extraordinária, teria sido de fato estranha; e, se a razão fosse que o sétimo dia ia agora, pela primeira vez, ser designado como festa em que nenhum trabalho se devia fazer, não teria o autor declarado essa circunstância? Também se diz: ‘Seis dias vocês o recolherão, mas o sétimo dia é o sábado; nele, não haverá nada a recolher’ (Êx 16.26); e: ‘O Senhor deu a vocês o sábado; por isso, ele, no sexto dia, lhes dá alimento para dois dias’ (Êx 16.29). Aqui se fala do sábado como de uma ordenança com a qual o povo estava familiarizado. Deu-se uma quantidade dobrada de maná no sexto dia porque o dia seguinte, como eles bem sabiam, era o sábado em que Deus descansara da sua obra, e que devia ser guardado como dia de descanso e santo ao Senhor. Ele também é mencionado, por assim dizer, incidentalmente, no relato do suprimento miraculoso de maná, sem nenhuma observação de que estivesse sendo ordenado naquela ocasião pela primeira vez; o que seria uma circunstância muito surpreendente, se aquele fosse o estabelecimento original do sábado. Em suma, toda a fraseologia do relato desse notável acontecimento concorda com a suposição, e somente com ela, de que o sábado já estava estabelecido havia muito tempo e era bem conhecido dos israelitas.
“Que não se imputa nenhuma negligência do sábado ‘aos habitantes do mundo antigo, nem a qualquer membro da família de Noé’ é muito verdadeiro; mas, longe de haver qualquer prova de tal negligência, há, ao contrário, como vimos, muita razão para crer que ele era devidamente observado pelos piedosos setitas do mundo antigo e, depois do dilúvio, pela linhagem virtuosa de Sem. Também é verdade que não se registra ‘qualquer permissão para dispensar a instituição durante o cativeiro dos judeus no Egito, ou em qualquer outra emergência pública’. Mas onde está a prova de que tal permissão seria compatível com a sabedoria divina? E, se não o fosse, nenhuma tal permissão seria dada nem registrada. De qualquer modo, é difícil ver como o silêncio da Escritura a respeito de tal circunstância pode fornecer um argumento em defesa da opinião de que o sábado foi instituído pela primeira vez no deserto. Alegá-lo com esse propósito é tão inconclusivo quanto seria argumentar que o sábado foi instituído depois da volta dos judeus da Babilônia, porque nem a sua observância, nem qualquer permissão para dispensá-lo durante o cativeiro, estão registradas na Escritura.
“A passagem do capítulo dois de Gênesis é a seguir aduzida pelo dr. Paley, e ele a declara não incompatível com a sua opinião; ‘pois, como o sétimo dia foi erigido em sábado por causa do descanso de Deus naquele dia da obra da criação, era bastante natural que o historiador, depois de relatar a história da criação e da cessação de Deus no sétimo dia, acrescentasse: “E Deus abençoou o sétimo dia e o santificou; porque nele descansou de toda a obra que, como Criador, tinha feito” (Gn 2.3); embora a bênção e a santificação, isto é, a distinção e a reserva religiosa daquele dia, só tenham sido de fato feitas muitas eras depois. As palavras não afirmam que Deus naquele momento “abençoou” e “santificou” o sétimo dia, mas que o abençoou e santificou por aquela razão; e, se alguém perguntar por que o sábado, ou a santificação do sétimo dia, foi mencionado naquele momento, se não foi então instituído, a resposta está à mão: a ordem da conexão, e não a do tempo, introduziu a menção do sábado na história do assunto que ele foi ordenado para comemorar’.
“Que o historiador hebreu, na passagem aqui referida, usa uma prolepse ou antecipação e alude à instituição mosaica do sábado é sustentado por alguns dos antigos Pais da Igreja, por Waehner, Heidegger, Beausobre, por Le Clerc, Rosenmüller, Geddes, Dawson e outros comentaristas, e pela corrente geral dos escritores que consideram o sábado peculiar aos judeus. No entanto, essa opinião se constrói sobre o pressuposto de que o livro de Gênesis só foi escrito depois da entrega da lei, o que pode ser fato, mas do qual, sem a menor dúvida, não há prova. Mas, deixando de lado essa consideração, mal se pode conceber violência maior ao texto sagrado do que a que lhe faz essa interpretação. Ela atribui ao autor inspirado a afirmação absurda de que Deus descansou no sétimo dia de todas as obras que tinha feito e, portanto, cerca de dois mil e quinhentos anos depois, Deus abençoou e santificou o sétimo dia. Seria tão razoável imaginar que Deus terminou a sua obra no sétimo dia, mas descansou em algum outro sétimo dia, quanto que descansou no dia seguinte à obra da criação e depois abençoou e santificou outro. Não aparece a mínima prova para crer que Moisés seguiu ‘a ordem da conexão, e não a do tempo’, pois não se pode apontar nenhum motivo razoável para introduzir então a menção do sábado, se ele não foi então instituído. O propósito do historiador sagrado é claramente dar um relato fiel da origem do mundo; e o descanso no sétimo dia e a bênção desse dia têm conexão íntima demais para serem separados: se um ocorreu imediatamente depois de concluída a obra da criação, o mesmo se deu com o outro. Ao relato da produção do universo se limita toda a narrativa; não há indicação de acontecimentos posteriores, nem a mais remota alusão a cerimônias judaicas; e seria espantosíssimo que o escritor abandonasse o seu grande objetivo para mencionar uma das ordenanças hebraicas que só foi instituída eras depois.
“Mas, segundo o dr. Geddes, a opinião de uma prolepse recebe alguma confirmação do original hebraico, que ele traduz assim: ‘No sexto dia Deus completou toda a obra que tinha para fazer; e no sétimo dia cessou de fazer qualquer das suas obras. Deus, portanto, abençoou o sétimo dia e o fez santo, porque nele cessou de todas as suas obras que ordenara fazer.’ Essa versão, diz ele, está feita ‘na suposição de que o escritor se refere ao sábado judaico’; naturalmente, foi adaptada de propósito a uma hipótese; mas, não obstante essa circunstância suspeita, não é fácil determinar em que difere em sentido da tradução aceita, pois deixa inteiramente indecisa a questão de quando se deram essa bênção e essa santificação. A versão proposta, porém, é contrariada pelas da Poliglota e pela generalidade dos tradutores, que vertem a partícula vau no início do terceiro versículo como copulativa, e não como ilativa; e é surpreendente que um bom hebraísta possa traduzi-la de outro modo. Em suma, nada pode ser mais violento e antinatural do que a interpretação proléptica; e, se acrescentarmos que ela repousa no pressuposto não provado de que o registro em questão foi escrito depois da entrega da lei, ela deve parecer tão desprovida de apoio crítico que não exige um momento de hesitação para rejeitá-la.” (Holden, on the Sabbath.)
Tão satisfatoriamente se mostra que a instituição do sábado é narrada historicamente em Gênesis; e daí se segue que a lei do sábado é universal, e não peculiar aos judeus. Deus o abençoou e santificou, certamente não para si mesmo, mas para as suas criaturas, a fim de que fosse para elas um dia de bênção especial e fosse separado não apenas dos atos ímpios, pois estes são proibidos em todos os dias, mas também dos usos comuns. Assim ele foi marcado, desde o início, com um caráter santificado, e por isso deve ser empregado em obras de caráter santificado.
Estabelecida assim a obrigação de uma observância sabática para os cristãos, a pergunta que naturalmente se segue é esta: de que maneira se deve celebrar essa grande festa, ao mesmo tempo tão antiga e tão venerável, e destinada a comemorar acontecimentos tão ilustres e tão importantes para a humanidade? Muitos têm falado da dificuldade de fixar regras desse tipo; mas ela ordinariamente desaparecerá se consentirmos em ser guiados plenamente pelos princípios da Escritura.
Admitimos que é preciso discernimento, prudência e caridade e, acima de tudo, uma mente bem disposta para a ocupação espiritual do sábado, para fazer uma aplicação correta da lei. Mas o mesmo acontece com outros preceitos também, como, por exemplo, o de amar o próximo como a nós mesmos, a respeito do qual raramente ouvimos alguma queixa de dificuldade na aplicação. Mas, ainda que se sinta alguma falta de orientação especial, isso só pode afetar pormenores menores; e provavelmente o Legislador deixou a questão assim para nos “pôr à prova” e “saber o que estava no coração” (cf. Dt 8.2). Algo pode ter sido reservado, neste caso, para o exercício da obediência espontânea; para aquela interpretação generosa do preceito que a devoção e a gratidão ditarão; e para a atuação de um sentimento de indignada vergonha diante do fato de que o único dia que Deus reservou para si lhe seja regateado e invadido por qualquer mesquinha desculpa de conveniência, interesse ou preguiça, e reduzido e negociado no espírito de quem procura levar vantagem sobre o outro. Disto podemos estar certos: quem mais se empenha em encontrar exceções à regra geral será, na maioria dos casos, inadimplente até mesmo segundo a sua própria avaliação do dever geral.
As únicas dificuldades reais em que os homens se têm enredado surgiram da falta de pontos de vista claros e definidos sobre a lei do sábado enquanto matéria de revelação expressa. Há dois extremos, e qualquer deles há de ser fértil em perplexidades. O primeiro é considerar o sábado como instituição de prudência, adotada pela igreja primitiva e apoiada na autoridade civil e eclesiástica, noção que foi refutada acima. Pois, se essa teoria for adotada, é impossível encontrar, quer no Antigo, quer no Novo Testamento, regras satisfatórias aplicáveis ao assunto; e podemos, portanto, deixar de admirar-nos da variedade de opiniões e das vacilações entre o dever e a licença que se têm encontrado em diferentes igrejas e entre os seus escritores teológicos. A dificuldade de estabelecer qualquer regra a que a consciência esteja estritamente sujeita fica então evidente, e de fato inteiramente insuperável; e os homens em vão tentam fazer um sábado parcial por sua própria autoridade quando rejeitam “o dia que o Senhor fez” (Sl 118.24). Se, por outro lado, não se mantiver uma distinção adequada entre a lei moral dos judeus, que promulga de novo a instituição ainda mais antiga do sábado (lei que vimos ser obrigatória para todos os cristãos até o fim dos tempos), e a lei política e cerimonial daquele povo, que contém regras particulares quanto à observância do sábado, fixando tanto o dia em que devia ser guardado, isto é, o sétimo da semana, como impondo certas proibições não aplicáveis a todos os povos (ramo da lei mosaica a que Cristo pôs fim), surgirão dificuldades desse lado. Uma dificuldade dirá respeito ao dia; outra, à hora do ciclo diário em que o sábado deve começar. Outras dificuldades surgirão da inconveniência ou impossibilidade de adaptar os preceitos judaicos a países e costumes totalmente diferentes; e outras, do grau de culpa civil e de punição com que as violações do sábado devem ser assinaladas num Estado cristão. Acender fogo nas suas casas, por exemplo, era proibido aos judeus; mas não há autoridade para estender isso a climas mais rigorosos. Essa regra faria do sábado um dia de sofrimento físico e, em alguns casos, de perigo para a saúde, o que é incompatível com o caráter misericordioso e festivo que o sábado foi destinado a ter em toda parte. A mesma observação pode aplicar-se ao preparo dos alimentos, que também era proibido aos judeus por ordem expressa. Ao ato de apanhar lenha no sábado foi imposta, numa ocasião, a pena de morte, por razões provavelmente decorrentes do governo teocrático dos judeus; mas certamente isso não é precedente para fazer da violação do sábado um crime capital no código de um país cristão.
Entre o decálogo e as leis políticas e cerimoniais que se seguiram há uma distinção marcada. Foram dados em dois momentos diferentes e de maneira diferente; e, acima de tudo, o primeiro é referido no Novo Testamento como de obrigação perpétua, e as outras como peculiares e abolidas por Cristo. Daí não se segue, porém, que os preceitos do código levítico que se referem ao sábado não tenham utilidade para nós. Eles nos mostram como a lei geral foi levada aos pormenores da sua aplicação pelo grande Legislador, que se dignou ser ao mesmo tempo Governante civil e eclesiástico de um povo escolhido; e, embora não nos obriguem em todos os aspectos na sua forma plena, todos encerram interpretações gerais do quarto mandamento do decálogo, às quais, na medida em que se aplicam a um povo em outras circunstâncias, se deve ter respeito reverente e devoto. A proibição de comprar e vender no sábado aplica-se a nós tanto quanto aos judeus; assim também a de viajar no sábado, exceto para fins religiosos, o que também a eles era permitido. Se podemos licitamente acender fogo nas nossas casas, podemos, no entanto, aprender da lei peculiar aos judeus a manter sob restrição os serviços domésticos; se podemos preparar alimentos por necessidade e conforto, devemos abster-nos de banquetes; se as violações do sábado não devem ser transformadas em crimes capitais pelos governantes cristãos, a imposição de uma observância exterior decente do descanso do sábado é um uso lícito do poder e parte do dever de um magistrado cristão.
Mas as regras pelas quais a observância do sábado é claramente explicada encontram-se com abundante riqueza e clareza no mandamento original; no decálogo; em passagens incidentais da Escritura que se referem não tanto à lei política dos judeus quanto ao código moral universal; e nos discursos e atos de Cristo e dos seus apóstolos; de modo que, independentemente do código levítico, temos orientação abundante. É um dia de descanso das ocupações mundanas; um dia santificado, isto é, separado para usos santos, que são as ocupações próprias e as únicas lícitas desse dia; é um dia de culto público, ou, como se expressa na lei mosaica, de “santa convocação” (Lv 23.3), ou assembleia; um dia para o exercício da misericórdia para com o homem e o animal; um dia para a comemoração devota, por meio de atos e meditações religiosas, da criação e da redenção do mundo; e, consequentemente, para o cultivo do espírito apropriado a tais exercícios, deixando de lado todos os cuidados e prazeres mundanos. A esses exercícios santos deve-se destinar plenamente a sétima parte do nosso tempo, excluídos apenas o sono necessário e os compromissos de real necessidade, como os explicou o nosso Salvador.
As obras de caridade e de misericórdia não eram excluídas pelo rigor da lei mosaica, e muito menos o são pela dispensação cristã. A regra de fazer o bem no dia de sábado, porém, tem sido às vezes interpretada com frouxidão excessiva, sem se considerar que tais atos não fazem parte da razão pela qual aquele dia foi santificado e que, portanto, devem fundamentar-se na necessidade de ação imediata. A atividade secular ligada a certas instituições públicas de caridade tem sido muitas vezes levada além dessa regra de necessidade, e como tal tornou-se ilícita.
A razão geralmente dada para isso é que não se encontram homens dispostos a dar tempo, nos dias úteis, à administração dessas instituições de caridade; e nunca serão encontrados enquanto a regra for rebaixada à conveniência. Os princípios dos homens é que devem ser elevados, e não o mandamento rebaixado. E, quando os ministros cumprem perseverantemente o seu dever, ainda que apenas umas poucas pessoas conscienciosas os apoiem, tudo se mostrará praticável e fácil. As obras de caridade apelam ou aos nossos sentimentos, ou aos nossos interesses, e às vezes a ambos; e, quando se tornam realmente urgentes, encontrar-se-á tempo para a sua administração sem “roubar a Deus” (Ml 3.8) e sem estabelecer o mais aviltante de todos os princípios, o de que os nossos sacrifícios não nos devem custar nada. O ensino da escrita nas escolas dominicais tem sido defendido com base no mesmo suposto fundamento de necessidade; mas, em todas as instituições desse tipo bem e religiosamente dirigidas, verificou-se ser perfeitamente praticável alcançar o objetivo de maneira lícita; e, ainda que não o fosse, não havia nenhuma obrigação de manter essa prática que se igualasse à que nos obriga a obedecer à lei de Deus. Trata-se de uma obra que não se enquadra em nenhuma das exceções feitas por nosso Senhor: pode ser uma coisa benevolente, mas não tem em si nenhum caráter de misericórdia, nem para com o corpo, nem para com a alma dos homens.
Quanto aos divertimentos e recreações que, quando “inocentes”, isto é, supomos, não “imorais”, às vezes são defendidos por pessoas que advogam a observância séria do dia do Senhor, bastam poucas palavras. Se ao culto público devemos acrescentar uma atenção mais que ordinária aos deveres da família e da oração em secreto, o que todas essas pessoas admitem, então resta pouco tempo para recreação e divertimento; e, ainda que restasse, o coração que está verdadeiramente impressionado com deveres tão sagrados, e que entrou no seu espírito, não pode ter gosto por eles. Contra toda tentação desse tipo, as palavras do piedoso arcebispo Dawes podem servir de advertência salutar.
“Exiges de mim, ó Senhor, apenas um dia em cada sete para o teu serviço mais especial, quando todos os meus tempos, todos os meus dias, são tributo que te é devido; e hei de regatear-te esse único dia? Tenho apenas um dia na semana, época peculiar para nutrir e educar a minha alma para a felicidade celestial, e hei de achar demais esse dia inteiro, e julgar terminados os meus deveres quando apenas terminaram os ofícios públicos da igreja? Ah! onde estão, em tal caso, o meu zelo, a minha sinceridade, a minha constância e a minha perseverança na santa obediência? Onde o meu amor, o meu deleite e o meu gosto pelos exercícios piedosos? Os que são assim apenas meio cristãos ficariam contentes de ser apenas meio salvos? Os que assim não estão longe do reino dos céus estariam dispostos a ser totalmente excluídos dele por não chegarem mais perto de uma devida observância do dia do Senhor? Tenho tanto medo de guardar o sábado como os judeus que, por descuido, deixo de guardar o dia como bom cristão? Que mal pode haver em exceder-me no culto a Deus, supondo que eu pudesse exceder-me? Mas, se o meu Salvador me disse que, depois de ter feito tudo, ainda sou servo inútil, onde está o risco, onde a possibilidade de fazer demais? Ao passo que, fazendo de menos, deixando de prestar a devida obediência no sábado, posso também ficar aquém da vida eterna.”