W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume I · A regra divina da fé

O sobrenatural, os milagres e a profecia

I, 61A MANIFESTAÇÃO DE DEUS E DOS SEUS ATRIBUTOS NA REVELAÇÃO.

Os atributos divinos na revelação. Outra classe das credenciais da revelação encontra-se na manifestação que ela faz dos atributos divinos, exibidos nas marcas da presença de Deus em geral e, em particular, na ordem sobrenatural que reina em toda parte: a dos milagres, da profecia e da inspiração, entendida esta como abrangendo os dois primeiros. Mais do que notas e qualidades da revelação, essas coisas são a própria trama da revelação; e sempre foram, separadas ou combinadas, o que dá grande força às suas reivindicações de atenção e de aceitação.

REVELAÇÃO SOBRENATURAL.

A ordem sobrenatural. Deus é uma Presença pessoal em toda a economia da verdade revelada. Mas não está presente no mesmo sentido em que é imanente no mundo: a revelação é, sempre foi e sempre há de ser uma ordem sobrenatural, que se mescla com a natural e caminha, em geral, em harmonia com ela, embora apresente diferenças das mais essenciais. Mas aqui é necessário definir os termos, ou melhor, lembrar-nos das relações convencionais entre eles.

I, 62O sobrenatural na natureza. 1. Há um sentido em que a ordem natural das coisas (isto é, a constituição da natureza enquanto governada por certas leis físicas e metafísicas fixas) há de ser sempre tocada, se não permeada, pelo sobrenatural, isto é, por aquilo que não é matéria da nossa experiência constante. O mundo invisível e todas as intervenções vindas do mundo espiritual são sobrenaturais. Daí se segue que a introdução do homem neste sistema de coisas foi uma intervenção sobrenatural; que todas as revelações do invisível na constituição da sua natureza são sobrenaturais; e que todas as evidências da presença e da glória de Deus no universo, tais como o homem as vê, são sobrenaturais.

Milagre, profecia, inspiração. 2. Concedido isso, há também um sentido em que a grande economia de que a Bíblia dá testemunho é sobrenatural num sentido preeminente. Do começo ao fim (isto é, desde o primeiro anúncio de um Redentor que viria até a sua manifestação final, com a verdade final e eterna nos lábios), tudo esteve além e acima da natureza da experiência comum do homem. Tudo foi uma só demonstração, imensa e incessante, de Deus movendo-se entre os homens e operando sobrenaturalmente nos negócios humanos. As suas obras maravilhosas permeiam o todo, embora só em certas ocasiões irrompam naquilo que chamamos Milagre. Elas mostraram a sua presença nos seus próprios atos imediatos, ou em atos acima da natureza realizados por meio das suas criaturas. Mostraram o seu desígnio único, na Profecia, ao comunicar aos seus ministros o conhecimento a respeito dele. Mostraram a sua sabedoria na preservação, por meio de homens suscitados para serem objeto da Inspiração, do registro contínuo da sua economia revelada de salvação. Assim, as leis da operação sobrenatural têm sido tríplices. O MILAGRE é a intervenção do Poder supremo no curso estabelecido da natureza. O Criador pôs todas as coisas sob o controle da lei geral, mas certamente fica excluído aquele que tudo lhe sujeitou (1Co 15.27). A sua autoridade pessoal não é uma violação da lei, nem uma suspensão dela, mas a introdução de uma causa nova e suficiente para qualquer efeito que ele queira produzir. A PROFECIA é a intervenção do conhecimento supremo, comunicado ao homem independentemente das leis ordinárias do conhecer: seja para anunciar verdade nova, seja para predizer aquilo que, para todos menos para Deus, é contingente no futuro. A INSPIRAÇÃO é aquela intervenção sobrenatural da sabedoria divina pela qual o milagre da profecia se torna permanente na unidade orgânica da Escritura. Ora, todas essas coisas pertencem à essência da revelação: combinam-se em cada uma das suas partes. As Escrituras, ou a Revelação, ou a fé cristã (estas três são uma só) apresentaram um único milagre, vasto e permanente, uma única grande profecia sempre em curso de cumprimento e um único grande resultado da inspiração.

I, 63Um só milagre tríplice. 3. Essas três coisas podem ser consideradas um só grande Milagre contínuo e um só grande corpo de credenciais que nos recomendam as Escrituras da revelação. Mas essas credenciais para a fé precisam ter as suas próprias evidências para a razão. Como pertencem à ordem sobrenatural, têm de ser recebidas pela fé. Elas implicam, ou melhor, afirmam a existência de Deus e a sua intervenção com fins, e de um modo, diante dos quais a razão sucumbe confundida. Mas, como fatos registrados e atestados por homens, têm de ser recebidas com base em evidência fidedigna e sujeita aos testes de fidedignidade. Essas duas coisas precisam combinar-se, assim como, em tudo o que diz respeito à religião, a fé e a razão precisam unir-se: reconciliadas quando divergem e fundidas na harmonia da certeza. Ao examinar essas diversas evidências de Deus na revelação, é preciso considerar cada uma em separado. Mas, ao considerá-las como credenciais de um grande plano que se declara revelação de um Deus cuja existência é admitida, não temos necessidade de examinar extensamente a questão que diz respeito à sua possibilidade abstrata do ponto de vista filosófico. Nós as consideramos demonstrações internas da Escritura e só temos de perguntar qual é a sua força e o seu significado como credenciais, e provar que não falta nenhuma das condições exigidas de tais credenciais.

A CREDENCIAL DOS MILAGRES.

Milagres. Muitos e distintos são os termos usados na Escritura para designar aquilo que chamamos milagres. De modo geral, são chamados ἔργα, ou OBRAS de Deus; às vezes essas obras são apresentadas como atos do poder divino que as realiza, e então são MILAGRES ou δυναμεῖς; às vezes, a sua designação põe em relevo o propósito para o qual são operadas, e então são SINAIS ou σημεῖα. Um terceiro termo, τέρατα [prodígios], aparece ocasionalmente ligado a esses; mas, como se refere apenas ao efeito imediato produzido na mente dos que os presenciam, não tem importância teológica. Tudo o que é preciso dizer sobre as credenciais do Milagre pode ser referido a essas duas palavras, respectivamente.

I, 64AS MARAVILHOSAS OBRAS DE DEUS.

Obras de Deus. O primeiro desses termos, cuja expressão mais elevada está na palavra de Pentecostes, as maravilhosas obras de Deus (At 2.11) [N. do T.: a NAA traz “as grandezas de Deus”; Pope segue a KJV, the wonderful works of God, e o argumento se apoia na palavra “obras”], permeia toda a Escritura, que distingue com clareza entre as operações ordinárias da Providência e essas marcas extraordinárias da presença divina. Ela faz do milagre a intervenção especial da onipotência: também neste sentido não há poder que não venha de Deus. A revelação nos mostra o Autor das leis do universo (leis que entendemos apenas como a sequência invariável de causa e efeito) introduzindo, quando lhe apraz, uma causa nova: não violando as suas próprias leis, nem as suprimindo ou suspendendo; não usando a operação de leis mais amplas do que as que se sabe existirem, mas simplesmente introduzindo novas causas de novos efeitos quando julga conveniente. A fé reconhece o DEDO DE DEUS (Êx 8.19; Lc 11.20); e a razão, admitindo a existência de uma Causa suprema, assente a isso. A sua definição de Milagre é esta: um ato do poder imediato de Deus que intervém na conexão entre as causas e os efeitos naturais. Ela não discute com os que negam ao Deus da natureza esse poder e a liberdade de usá-lo. A objeção preliminar contra a possibilidade do milagre, e contra o valor de qualquer quantidade de evidência que procure estabelecer a sua credibilidade, nunca pode ser respondida com outro argumento senão este primeiro termo. É bom que o apologista da revelação tome aqui uma posição elevada. Se existe um Deus pessoal, não pode haver nenhuma razão a priori [anterior à experiência] para que ele não interfira nas suas próprias leis. Nenhuma continuidade e nenhuma ordem ininterrupta de sequência entre causa e efeito podem servir de argumento contra a possibilidade de serem perturbadas. A última palavra da filosofia sobre o assunto é que a nossa fé na estabilidade da natureza é uma lei primária do pensamento humano, tão certamente entrelaçada com a nossa constituição mental quanto a consciência da nossa identidade pessoal. Ora, temos uma fé igualmente firme, que opera como lei primária do pensamento, de que um Ser onipotente pode, se quiser, estender o seu Dedo e regular de modo novo leis cuja ordem geral ele não viola. Sobre essa convicção repousa toda a evidência de que os milagres precisam, enquanto manifestações de uma presença divina.

I, 65SINAIS.

Sinais. O segundo termo, σημεῖον, אוֹת, teologicamente e no contexto presente o mais importante, nunca falta na Escritura, embora seja usado com aplicação mais limitada. Indica que Deus se declara presente em certos milagres particulares e chama a atenção para as suas próprias palavras ou para as palavras do seu mensageiro, assim autenticado. Ora, a revelação, nas suas grandes épocas, não ficou sem essa credencial. Enquanto as Maravilhosas Obras literalmente nunca estão ausentes da revelação (sempre em andamento, manifestas ou secretas, conhecidas ou desconhecidas, em milagres da natureza e em milagres da graça, durante as eras em que o Volume foi sendo composto e desde que foi concluído, para todo o sempre, em toda a economia da salvação), os Sinais foram dados ocasionalmente, em certas épocas grandes e importantes, e em confirmação de mensagens do céu, tanto para crentes como para incrédulos. É inútil perguntar se poderia ter sido de outro modo: em sua sabedoria, Deus achou por bem acompanhar todas as comunicações sobrenaturais com sinais e marcas infalíveis. Mas, embora inútil, não deixa de ser proveitoso considerar quão absolutamente necessários esses sinais e marcas devem ser para autenticar notícias tão espantosas como as que a Escritura traz. Aqui algumas distinções podem ser úteis.

O milagre, substância da revelação. 1. Os milagres mais grandiosos que são credenciais da revelação estão na substância da própria revelação. Muitíssimas das intervenções extraordinárias que ela registra não estão ligadas à natureza e ao propósito da economia da vontade redentora de Deus, mas foram atestações milagrosas de missões individuais. Quando, porém, nos elevamos dos seus apêndices, pormenores e preliminares à própria Grande Redenção, o caso é diferente. Cristo, o Autor do cristianismo, sua Substância e seu Fim, é o Milagre supremo, e tudo o que se liga a ele é milagroso. Assim que entramos na esfera da sua sagrada presença, a definição de milagre se amplia: passa a ser um ato imediato da onipotência divina que tem a sua necessidade, a sua realidade e a sua manifestação na economia redentora. As maravilhas do Antigo Testamento olhavam adiante, para essa reunião central, ou final, de maravilhas nele; e com ela a grande série virtualmente terminou. A vinda de Cristo foi um milagre, do qual toda a história das suas palavras e obras, da sua vida e morte, da sua ressurreição e ascensão, é uma continuação. Daí é evidente que, quanto ao sistema cristão como um todo, o milagre é essencial à sua demonstração. Pois sem milagre não há revelação cristã.

I, 66Necessidade dos milagres. 2. Mas, descendo desse nível elevado, podemos afirmar com confiança que a autenticação dos agentes humanos da vontade divina exigia atestações do céu como as que chamamos milagres. Talvez seja ir longe demais dizer que o instinto comum da humanidade espera que, se Deus envia um mensageiro, ele desperte a atenção por meio de sinais que o precedam e confirme a sua palavra por meio de sinais que se sigam. Nenhum fundador de religião humana jamais deixou de apelar para essa expectativa geral. Às vezes se diz que Confúcio, Buda e Maomé foram exceções; mas foram exceções somente nesta medida: não declararam fazer milagres. Buda foi uma estranha anomalia em todos os aspectos. Apresentou-se apenas como reformador de uma religião antiga e não fundou, ou melhor, não pretendeu fundar, uma religião própria. Em outras palavras, não precisava de credenciais, porque não declarava vir de Deus. Confúcio não trouxe revelação nenhuma: a sua tarefa honesta e o seu trabalho honesto foram reavivar, classificar e aperfeiçoar a literatura religiosa do seu povo. Maomé não pretendeu ter poder de operar milagres, recusando sabiamente entrar em competição com os verdadeiros profetas de Deus, cujas revelações tomou para si e perverteu. Mas trouxe, ou pretendeu trazer, uma nova revelação; e, de acordo com isso, apelou para mensagens e comunicações milagrosas, que ocupavam o lugar dos milagres que ele não podia realizar. Mas, deixando de lado a questão da expectativa universal (que tem alguma importância, embora não seja decisiva), vemos que, do começo ao fim, o Autor da revelação é apresentado como quem leva em conta essa expectativa e sempre reveste os seus embaixadores e arautos com as credenciais do milagre. A importância desses sinais, pelos quais o Ser divino autenticou pelo menos o início de cada nova economia da verdade, às vezes é subestimada. Diz-se que é mais conforme ao decoro celestial comunicar a verdade diretamente à mente humana, e mais coerente com a dignidade da própria verdade que ela dependa da sua adequação e conveniência intrínsecas. Mas os que assim raciocinam são desnecessariamente ciosos da prerrogativa divina e da dignidade humana. Aquele que sabe o que há no homem nunca ofereceu ao gênero humano uma revelação sem os sinais e prodígios suficientes para estabelecê-la no mundo, deixando indesculpáveis os que se recusassem a crer.

I, 67Valor. 3. Isso nos leva à natureza da própria credencial, ou ao valor do milagre enquanto sinal. Em geral, e tomando-se a revelação como um todo, ela apela, como à sua demonstração plena e permanente, para o conjunto de evidências de que Deus interveio nos negócios humanos de um modo extraordinário em sumo grau. Isto é, em poucas palavras, a Fé cristã apoia a sua forte reivindicação, entre outras coisas, no seguinte: há uma série de obras maravilhosas e de atos sobrenaturais atrás dela, ao seu redor e envolvendo-a, a que nenhuma mente sincera e imparcial deveria ser capaz de resistir. Mais particularmente, todo mensageiro que veio com uma revelação declarada do alto, sem excetuar o Mensageiro supremo, foi invariavelmente autenticado por dotes milagrosos que o próprio Deus julgou necessários e suficientes para vindicar a missão dos seus servos. Por último, os milagres que satisfizeram a geração que recebeu essas credenciais foram, como se verá adiante, confiados aos documentos que transmitem as verdades por eles ensinadas; e os milagres e os documentos, juntamente com essas verdades, tornam-se matéria de testemunho histórico.

Para a mesma geração. 4. Finalmente, é evidente que o valor dos milagres como tais, à parte de todas as outras credenciais, se encontra principalmente na autenticação dos mensageiros diante dos seus próprios contemporâneos. O seu efeito imediato sobre os que os presenciam é expresso por Nicodemos: Rabi, sabemos que o senhor é Mestre vindo da parte de Deus, porque ninguém pode fazer estes sinais que o senhor faz, se Deus não estiver com ele (Jo 3.2). Segue-se então uma atenção profunda ao mensageiro e à mensagem. O Sinal precede o ensino. Mas, para as gerações posteriores, há certa mudança. Elas têm a mensagem, e toda a sua força como verdade, antes de considerarem a atestação milagrosa. Nós, em nossos dias, incluímos os milagres originais entre todos os outros ramos de evidência que devem ser recebidos com base num testemunho fidedigno, tal que nenhum decurso de séculos pode invalidar. Mas isso leva a considerar esse mesmo testemunho, ou aquilo que se pode chamar as credenciais desta Credencial.

I, 68EVIDÊNCIAS E TESTES DO MILAGRE.

Testes. Toda a questão da fidedignidade do testemunho dado aos fatos milagrosos da revelação pode resolver-se na exposição dos critérios ou testes a que esses supostos fatos podem ser justamente submetidos.

Fins dignos. 1. Tais intervenções divinas devem autenticar missões dignas de Deus. E não é preciso argumento para provar que os milagres a que a revelação cristã apela têm por trás de si uma causa de valor supremo. Tomados como um todo (desde as propriedades milagrosas das árvores do jardim até a ascensão do Filho de Deus encarnado e a abertura dos céus no Pentecostes), eles sustentam o grandioso edifício da educação divina da humanidade redimida. Aqui precisamos desviar a atenção de muitas obras maravilhosas isoladas e pensar somente na Obra única de Deus sobre a terra. Mas, descendo aos pormenores e lançando um olhar geral para trás, através de todas as economias, vemos que os grandes conjuntos de milagres foram operados em crises carregadas de importância para a Grande Causa no Antigo Testamento. Os milagres anteriores a Moisés foram autenticações não só dos mensageiros de Deus, mas também do seu próprio Nome tremendo e dos seus atributos. Na introdução da instituição mosaica havia razão para as gloriosas manifestações do poder divino, que repreenderam a perversidade do Egito, por tanto tempo tolerada, autenticaram o Legislador tão lentamente aceito pelo seu próprio povo, provaram o caráter divino daquilo que chamamos economia mosaica e confirmaram essa prova por sinais que se seguiram até a entrada milagrosa em Canaã. Enquanto durou a teocracia, toda maravilha registrada atestou, na hora crítica, que Jeová reinava. Os milagres que se agrupam em torno das pessoas de Elias e Eliseu afirmaram a supremacia de Jeová quando a causa de Deus estava em jogo na terra escolhida. E, por fim, depois de uma longa cessação relativa, houve uma grande renovação de milagres, em alguns aspectos sem precedentes, para socorrer a fé desfalecente do povo durante o cativeiro. Mal é preciso mostrar que o Novo Testamento oferece a mesma análise. O prolongado milagre da Pessoa divina, cuja profunda humilhação pela humanidade tornou necessária a vindicação da sua Divindade, destaca-se de todas as maravilhas da Bíblia como um único e contínuo Poder que emanava da sua presença divino-humana. A Ressurreição, com os seus sinais infalíveis, completou a educação da fé dos apóstolos e lançou a pedra angular de todas as evidências para sempre. Os milagres de Atos só aparecem em ocasiões críticas, mas nessas ocasiões aparecem sempre: vejam-se as renovações menores do Pentecostes para a conversão dos gentios, para Samaria e para os remanescentes do ministério do Batista, que vão diminuindo, por assim dizer, através dessas diversas fases, de acordo com a importância da ocasião. Nem sempre, porém, diminuíram. Os milagres de ressurreição realizados por são Pedro e são Paulo seguiram de perto os atos mais elevados do Salvador: para demonstrar, pela mão de duas ou três testemunhas, depois que ele ressuscitou, o fato da vitória sobre a morte, que ele demonstrara do modo mais eficaz pela sua própria ressurreição. A abundância dos dons milagrosos de são Paulo constituía as credenciais de apóstolo (2Co 12.12) que a sua vocação peculiar exigia. E, finalmente, os milagres operados nas primeiras igrejas foram suficientes, e não mais que suficientes, para atestar a realidade do Pentecostes; foram, por assim dizer, confirmações daquele grande dia da mesma espécie que as poucas ressurreições de Atos foram confirmações daquele outro dia, o da Ressurreição propriamente dita. É preciso lembrar, porém, para concluir, que o Supremo não restringiu de modo absoluto as suas obras maravilhosas às grandes eras da revelação: o poder de Deus, como a palavra de Deus, não está algemado. Discernimos certa lei dos milagres que parece limitá-los às grandes épocas; mas nada nela nos obriga a limitar o Santo, ou a considerar impossível que tenham ocorrido intervenções milagrosas depois do pleno estabelecimento da Igreja orgânica no mundo. Além disso, os casos ocasionais em que os prodígios, ou τέρατα, foram operados pela atuação permitida de homens ímpios são mencionados na Escritura de tal modo que reforçam essa credencial da revelação. Assim como Balaão, no Antigo Testamento, e Caifás, no Novo, proferiram predições sublimes, assim também os magos, no Antigo Testamento, operaram prodígios sobrenaturais sob uma restrição divina; e o Anticristo, que há de vir com os seus prodígios da mentira, é predito no Novo. Mas os verdadeiros operadores de milagres na Escritura são os seus homens mais santos; e um dos seus últimos registros é o milagre que, sobre Elimas, vindica a santidade do poder milagroso (At 13.11).

I, 70Lições dignas. 2. Pode-se exigir que essas maravilhas do Dedo de Deus, além de afirmarem o poder de Deus na ordem sobrenatural do mundo, ensinem em geral lições dignas; em outras palavras, que sejam elementos essenciais da própria revelação, além de serem as suas credenciais. Não devemos, é verdade, ter a presunção de julgar, em cada caso, qual é a dignidade da lição ensinada: alguns milagres podem parecer triviais demais para serem aceitos, como a recuperação do machado (2Rs 6.6), e outros, de grandeza assombrosa demais para isso, como o sol que se deteve (Js 10.13). Com essa ressalva, não se pode negar que as maravilhas da Escritura são, de modo amplamente reconhecido, dignas da causa que sustentam. Em todos os casos, respeitam as próprias leis que parecem suplantar. Elas mesmas ensinam com eficácia as lições da vontade divina e ilustram as perfeições divinas. Não há um só milagre em toda a Bíblia que deixe de demonstrar ou o poder, ou a fidelidade, ou a sabedoria, ou a justiça, ou a misericórdia de Deus. Nunca, ou muito raramente, estão sequer sujeitos a ser tidos por meros portentos. Todos são fiéis ao caráter de Deus tal como revelado por outros meios: mesclam castigo e misericórdia nos dois Testamentos, e no Novo predominam amplamente a benevolência e a misericórdia. Quanto aos milagres de Cristo, as credenciais milagrosas supremas, estão ordenados, do menor ao maior, de modo a ensinar simbolicamente todo o mistério da sua graça e a dar de antemão ilustrações do caráter da sua futura administração por meio do Espírito Santo. Há alguns dos seus milagres que se tem julgado contrariarem a nossa regra e serem meros portentos ou provas de severidade caprichosa: por exemplo, a entrega dos porcos à morte, o secamento da figueira e o veemente ato de zelo no templo. Mas, lidos à luz da providência divina no mundo, esses atos de Jesus se mostrarão não só em harmonia com a zelosa severidade da justiça divina, mas quase necessários para ilustrá-la. Visto que o manso Redentor predisse tantas vezes a desolação que a impenitência traria sobre o antigo povo de Deus, era de esperar que alguns poucos dos seus milagres simbólicos confirmassem as suas profecias. E esses casos aparentemente excepcionais, em que ele fez de criaturas inanimadas e irracionais símbolos vicários do seu desagrado, são exatamente desse caráter. Mas falaremos mais disso quando o caráter do próprio Senhor se tornar a nossa Credencial.

I, 71Critérios. 3. Pode-se esperar, além disso, que os milagres que introduzem a Mão sobrenatural nos negócios humanos permitam, como credenciais, a aplicação de critérios justos no caso dos que os presenciaram, e ainda que sejam apoiados por evidência suficiente para a posteridade.

Para a época de então. (1.) Quanto ao primeiro ponto, a exigência pode ser satisfeita tão plenamente quanto o caso admite. Muitas das maravilhas registradas na Bíblia são simples matéria de registro, e as circunstâncias que as cercaram se perderam para sempre. Mas estas podem reclamar o benefício de estarem mescladas com a massa daquelas que são, por assim dizer, operadas diante dos nossos olhos, no meio de todo o seu contexto. Se a questão fosse a da integridade da Escritura, esses casos excepcionais poderiam ser contestados e teriam de ser defendidos. Mas, para o nosso argumento presente, isso é desnecessário: basta afirmar que as grandes credenciais milagrosas das duas alianças foram operadas abertamente, ao alcance dos sentidos humanos, e em meio a circunstâncias tais que excluem a possibilidade de engano. Os milagres que acompanharam o advento e a legislação de Moisés foram presenciados por grande número de pessoas; e o testemunho dos rivais que usaram os seus encantamentos faz parte da evidência. É claro que temos apenas o registro da própria Escritura para nos guiar; mas, para o nosso argumento presente, isso basta. Temos toda a evidência que o caso admite de que os egípcios, tanto quanto os israelitas, viram coisas que não se passaram em algum lugar escondido, e creram nelas. Não temos documentos contemporâneos para os quais se possa apelar. Mas toda a história que fluiu dessas intervenções milagrosas fala em favor delas. De geração em geração, os anais da nação estão cheios de alusões àquilo que foi crido com firmeza desde o dia em que ocorreu. E toda a economia das revelações hebraicas se fundou nessa fé. Contudo, é evidente que essa questão diz respeito mais particularmente aos milagres do evangelho. Com relação a eles, pode-se pedir evidência ao próprio Salvador. Ele admitiu que publicidade, franqueza e um convite sincero à crítica eram de esperar de qualquer um que alegasse trazer uma mensagem especial do céu. E o que ele disse a respeito das suas palavras valia também para os seus milagres, que eram as suas palavras em ação: Eu tenho falado francamente ao mundo. Sempre ensinei, tanto nas sinagogas como no templo, onde todos os judeus se reúnem, e não disse nada em segredo (Jo 18.20). Mesmo a Ressurreição (o milagre acima de todo milagre) estava sujeita aos mesmos testes que todos os outros, embora, pela natureza do caso, o mistério interior tivesse de permanecer oculto. Foi um acontecimento sobrenatural que os homens podiam investigar e do qual podiam ter certeza; e que, de fato, seria investigado com a máxima diligência. Mas é preciso lembrar aqui que a sabedoria do defensor do cristianismo está na tranquilidade e na confiança, numa posição defensiva ou negativa. Ele não é obrigado a fazer mais do que desafiar o adversário a provar que, em relação a qualquer dos milagres registrados nos Evangelhos ou no Antigo Testamento, há o mais leve vestígio de evidência de que se fez alguma coisa que pudesse dar qualquer fundamento para suspeita. Mas isso nos leva a algo mais positivo.

I, 72Posteridade. (2.) Quanto ao segundo ponto: nós, como posteridade, estamos numa posição diferente, e os milagres são, para nós, matéria de evidência histórica. Não há, na história passada da raça humana, acontecimentos que se tenham tornado matéria de história aceita, dos quais nenhuma pessoa sensata duvida, atestados de modo mais amplo e minucioso do que a vida miraculosa e a ressurreição dentre os mortos de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, isto é, todo o conjunto dos milagres centrais do cristianismo. Eles não foram questionados na época em que teriam ocorrido; pelo menos, a única contestação que sofreram foi de tal natureza que acabou por redundar em seu favor. Espectadores de toda espécie observaram os milagres mais públicos; e o único descrédito registrado foi o daqueles que atribuíam as obras do Senhor a Belzebu, e a sua ausência do sepulcro a um ardil astuto dos seus discípulos. A ressurreição de Jesus foi o milagre crítico ou decisivo, cuja comprovação asseguraria todos os demais. Ora, esse acontecimento foi garantido a muitas centenas de pessoas por muitas provas incontestáveis; foi crido, desde então, por um grande número de testemunhas conscienciosas e dignas de crédito, cujo caráter intelectual e moral resiste a toda prova, e que, além disso, às centenas, selaram a sua convicção com a inteira consagração da vida, e algumas delas com o sacrifício da própria vida. Por fim, os grandes milagres da revelação ligam-se à posteridade pela existência de monumentos públicos que devem a sua existência a uma confiança ampla e profunda na sua autenticidade. Nos tempos antigos, a Páscoa atestava a fé nacional no livramento do Egito, e tem continuado, de geração em geração, a declarar a força da evidência fundada na fé de um povo inteiro. Do mesmo modo, o Dia do Senhor tem declarado, até o tempo presente, a fé de um imenso conjunto de testemunhas de que o Salvador ressuscitou dentre os mortos. E, de fato, a Igreja cristã, como instituição, dá garantia, se não da realidade do milagre da vida, da morte e da ressurreição de Cristo, pelo menos da satisfação com que a evidência dele foi recebida desde as primeiras gerações cristãs. O ceticismo desdenhoso pode afirmar que nenhuma quantidade de evidência jamais bastará para impor à mente a aceitação de fatos contrários às leis eternas da natureza. A única resposta que podemos dar, nesta etapa, é que isso é perfeitamente verdadeiro se não existe Deus; mas que, se se crê num Governante pessoal do universo, tais fatos sobrenaturais não são incríveis; e, por fim, que esses acontecimentos foram presenciados e tidos por certos por um número muito grande de testemunhas fidedignas, que transmitiram à posteridade o seu testemunho assinado e autenticado.

I, 73Milagres nunca isolados. 4. Mais uma vez, a dignidade da verdade eterna exige que ela não ponha sobre os milagres o peso principal da sua demonstração, e certamente nunca sobre os milagres isolados. Ninguém, em todos os registros da revelação, é apresentado como alguém que tenha feito a validade da sua missão depender das suas obras; embora jamais se tenha visto alguém, assim autenticado, recusar-se a apresentar essa credencial quando desafiado. Não há assunto ligado às evidências da Fé que exija enunciado mais cuidadoso do que este. O exagero, de ambos os lados, é muito frequente. É certo que às vezes poderia parecer que tudo estava apostado na intervenção miraculosa: por exemplo, os desafios de Moisés e de Elias parecem confirmar essa ideia, assim como alguns dos milagres menores de ambos os Testamentos. Mas devemos lembrar que as obras maravilhosas realizadas no Egito não foram apenas as credenciais de Moisés: foram também, e principalmente, sinais do desagrado divino contra os falsos deuses daquela terra e castigos da obstinação dos que se recusavam a obedecer. O mesmo se pode dizer da disputa no monte Carmelo. O povo foi chamado a escolher entre o Deus verdadeiro e os falsos deuses antes que os sinais viessem do céu; e, quando vieram, tomaram a forma de castigo, como no caso do Egito. Nunca se concederam milagres meramente como portentos, para assombrar os espectadores e assim prender a sua atenção. Mas, em todas as grandes crises da revelação, eles foram dados para atrair e predispor os ouvintes por meio de sinais da bondade e do poder divinos. De fato, e de modo geral, visto que os milagres são a Mão de Deus a exigir atenção à sua Voz, a relação entre eles e a doutrina do Mestre que os realiza é sempre enunciada e resguardada da maneira mais simples em toda a Escritura. Os sinais, quando rejeitados, logo são retirados: nenhum sinal será dado a esta geração (Mc 8.12) só foi dito depois que sinal após sinal havia sido rejeitado. Além disso, observa-se que a realização de milagres se torna muito ocasional onde o evangelho já está estabelecido; e que, aos poucos, eles passam a contar entre os carismas transitórios e excepcionais, como sinais do poder divino para os que não creem (1Co 14.22) e instrumentos de utilidade para os que já haviam crido. Quando se diz que Deus confirmou a palavra dos seus servos por meio de sinais, prodígios, vários milagres e a distribuição do Espírito Santo (Hb 2.4), devemos lembrar que a ênfase recai sobre a última expressão. E a predição e a promessa de nosso Senhor, tanto de que os seus apóstolos, além das obras que ele fazia, fariam outras maiores (Jo 14.12), quanto dos sinais miraculosos que os crentes podiam esperar, não tinham o propósito de ser entendidas como uma autenticação permanente do evangelho por meio de sinais miraculosos. Mas isso nos leva de volta à própria Testemunha Suprema, que deixou muitos testemunhos sobre o verdadeiro lugar dos milagres entre as credenciais da sua Fé. Nada é mais certo do que isto: ele apelou para as suas obras como cumprimento da profecia e como provas do seu próprio poder e da sua autoridade divina. Também fez delas o veículo dos seus ensinos mais impressionantes e o meio de encorajar a fé dos seus servos na bondade do seu coração. Nosso Senhor também declarou que os seus milagres tornavam a incredulidade indesculpável: Se eu não tivesse feito entre eles as obras que nenhum outro fez, eles não teriam nenhum pecado (Jo 15.24). Mas as obras incluem, se é que não significam, as palavras: Se eu não tivesse vindo e lhes falado, eles não teriam nenhum pecado (Jo 15.22). E, de acordo com isso, o seu testemunho mais solene quanto à responsabilidade da sua geração foi este: a própria palavra que falei, essa o julgará no último dia (Jo 12.48). Por fim, há outras duas passagens em são João que recompensam um estudo cuidadoso. Ainda que vocês não creiam em mim, creiam pelo menos nas obras (Jo 10.38): isso coloca as obras na sua devida subordinação, ao mesmo tempo que lhes dá o seu valor. Os que deveriam crer por causa das obras deveriam, antes, ter crido por causa da virtude que procedia dele mesmo. As obras que o Pai me confiou PARA QUE EU AS CONCLUÍSSE, essas que eu faço testemunham a meu respeito de que o Pai me enviou (Jo 5.36) [N. do T.: a NAA traz “para que eu as realizasse”; a versão inglesa seguida por Pope diz to finish, “concluir”, e é nessa palavra que o argumento se apoia]: isso dá ao glorioso evangelho, como um todo consumado em Cristo, o seu lugar supremo como a evidência final e completa da verdade da revelação.

I, 75A ordem sobrenatural. 5. Por último, há um critério ou postulado que os que creem na revelação acrescentam aos que já foram considerados. Os milagres da Escritura, na sua ampla variedade e na sua grandeza sem limites, são a economia de uma ORDEM SOBRENATURAL. Como, portanto, eles hão de ser compreendidos, em muitos aspectos, só de modo obscuro pelas faculdades limitadas dos homens, é de esperar que restem dificuldades residuais, que permanecem como prova da fé. Entre essas dificuldades não contamos a suposta evidência da ciência moderna em favor de um reinado fixo e inalterável da lei, no qual qualquer interferência seria, em si mesma, inconcebível. A lei implica um Legislador, e o Autor supremo de todas as leis pode intervir quando e como quiser. Além disso, enquanto o homem tiver a evidência da consciência de que pode controlar, por algum tempo, a ação das leis naturais, sendo o exercício da sua própria vontade independente de qualquer causa anterior meramente natural, será impossível persuadi-lo de que a Vontade Pessoal Infinita não pode intervir em meio às sequências da natureza. Mas há outras dificuldades. Uma delas é a falta ocasional de uma razão aparente para uma intervenção suprema; a esse respeito, porém, basta dizer que não somos juízes competentes nessa questão. Também a ocorrência inegável de prodígios, como a feitiçaria e a necromancia, e a realização de obras maravilhosas por meio da ação de espíritos malignos são às vezes pedra de tropeço para a fé; mas apenas para uma fé que não admite aquilo que as Escrituras testificam em toda parte, a saber, que coisas como essas foram permitidas por Deus por razões em grande parte incompreensíveis para nós. Por fim, a questão da continuidade dos sinais miraculosos desde os dias dos apóstolos constitui um tema difícil. Mas a dificuldade desaparece se se admitir honestamente que não há razão para que o Supremo não continue a manifestar o seu poder, dotando ocasionalmente os seus servos, seja com o dom de profecia, seja com o dom de milagres. Admitido isso, a questão passa a ser simplesmente matéria de evidência. Todos esses e outros problemas aparentemente insolúveis tornam-se, para quem crê nos milagres supremos da encarnação e da ressurreição, nada mais e nada menos do que provas de humildade, de submissão intelectual e de fé.

I, 76PROFECIA.

Profecia. A PROFECIA, como uma das credenciais da revelação, está, assim como o milagre, entrelaçada com a própria estrutura da revelação. É a lei divina do desvendamento gradual daquele sistema de verdade que, em toda a Escritura, se expande sem cessar, de etapa em etapa, até a perfeição. Como tal, o termo tem dois sentidos: um mais amplo, segundo o qual a profecia é a declaração imediata da vontade de Deus por meio dos seus servos, seja quanto ao passado, seja quanto ao presente, seja quanto ao futuro; e outro mais restrito, segundo o qual é a predição de acontecimentos futuros em conexão com a grande economia da verdade revelada.

A PROFECIA EM SENTIDO MAIS GERAL.

Sentido mais geral. 1. A profecia é a expressão da revelação divina; e o profeta é alguém levantado e enviado para comunicar a verdade de Deus. O sentido de נָבִיא é Anunciador; e o de רֹאֶה é Vidente, nome mais antigo do mesmo ofício, ou seja, alguém que recebe em visões aquilo que deve proferir. As visões não eram característica universal do ofício; mas o próprio ofício, e o seu emprego ao longo de toda a economia da revelação, é uma das grandes credenciais da Bíblia, tão presente em toda ela quanto o milagre, ao qual, aliás, está indissoluvelmente ligado, por ser apenas um aspecto de uma intervenção divina contínua nos assuntos humanos. O profeta não era um anunciador comum da vontade do céu, como o sacerdote, que podia ler e expor a lei. Era um instrumento da vontade divina, levantado fora da ordem da natureza para receber comunicações que podem ser chamadas sobrenaturais, por serem transmitidas por uma influência do Espírito Santo, chamada às vezes Visão, às vezes Palavra do Senhor; por exemplo: Naqueles dias, a palavra do Senhor era muito rara; as visões não eram frequentes (1Sm 3.1). Quer mostrando a cena ao olho interior, quer depositando a palavra nos pensamentos, não pode haver dúvida de que o Autor da revelação realizava aquilo que, em outro domínio, teria sido um milagre, todas as vezes que o homem de Deus (Gn 20.7) [N. do T.: em Gn 20.7, primeira ocorrência da palavra “profeta” na Bíblia, Abraão é chamado profeta; a expressão “homem de Deus” aparece, por exemplo, em Dt 33.1] ou o homem de espírito (Os 9.7) era enviado com a sua carga de revelação.

I, 77Evidente por si mesma. 2. A essência desta credencial da revelação divina está nisto: ela apresenta toda comunicação de Deus como diretamente transmitida por um sopro divino, cuja influência o profeta não podia confundir e cuja realidade o povo podia pôr à prova. Esse contato direto do Espírito de Deus com o espírito do homem é a lei que permeia a revelação divina, e a glória que a permeia, de Moisés em diante. Não há nada semelhante na história das religiões pervertidas. Na medida em que os oráculos, os agoureiros e os adivinhos do paganismo oferecem alguma analogia, ela serve apenas de contraste que realça a grandeza desta credencial. É assim que dela fala a voz do próprio Jeová. Quando Miriã e Arão murmuraram contra a dignidade superior de Moisés como profeta dos hebreus, disseram: Será que o Senhor falou somente por meio de Moisés? Será que não falou também por meio de nós? E está registrado que o Senhor desceu na coluna de nuvem e se pôs à porta da tenda; … Então o Senhor disse: Ouçam, agora, as minhas palavras: se entre vocês há um profeta, eu, o Senhor, em visão me faço conhecer a ele ou falo com ele em sonhos. Não é assim com o meu servo Moisés, que é fiel em toda a minha casa. Falo com ele face a face, claramente e não por enigmas; pois ele vê a forma do Senhor. Como, pois, vocês não tiveram medo de falar contra o meu servo, contra Moisés? (Nm 12.2-8). Temos aqui, por assim dizer, em resumo, todo o mistério do dom e da função proféticos, e de modo a mostrar da forma mais impressionante a força desta credencial. É a Voz de Jeová, zeloso da sua própria honra e da honra dos seus servos, ao mesmo tempo descrevendo e defendendo a lei profética da revelação. Notamos que haveria uma ordem permanente desses agentes, sempre prontos (seja como escola de profetas, seja permanecendo ainda em suas ocupações) para o alto serviço do Reino. A um deles Jeová se revelaria, de maneira mais extraordinária ou de outro modo, mas sempre de tal forma que quem recebesse a visão não tivesse dúvida: eu, o Senhor, ME faço conhecer a ele (Nm 12.6). Contudo, o Supremo não estava limitado a nenhuma ordem de homens nem a nenhum método especial. Por isso vemos que, enquanto os Setenta Anciãos receberam o Espírito e profetizaram e não cessaram (ou mas isto nunca mais se repetiu) [N. do T.: a primeira leitura é a da versão inglesa seguida por Pope; a NAA traz a segunda], o mesmo Espírito repousou também sobre Eldade e Medade, e profetizavam no arraial (Nm 11.25-26). Acima de todos os ministérios menores ergue-se Moisés, supremo: com ele Jeová falava face a face. Contudo, ele não era supremo em sentido estrito, pois era apenas o tipo e o precursor daquele Profeta, semelhante a ele e, no entanto, maior do que ele, com quem o Pai fala face a face na eternidade: o FILHO, sobre a sua própria casa (Hb 3.6) [N. do T.: a NAA traz “Cristo, porém, como Filho, é fiel em sua casa”; Pope segue a versão inglesa, “over his own house”, que põe o Filho acima da casa em que Moisés serviu]. Quando esse Filho veio, a antiga ordem dos profetas cessou; pois o Revelador Supremo fez cada um dos seus apóstolos semelhante a Moisés e lhes falou face a face. Moisés nunca pôde comunicar o Espírito que recebera; pois o ouvimos dizer: Eu gostaria que todo o povo do Senhor fosse profeta, que o Senhor lhes desse o seu Espírito! (Nm 11.29). Mas nosso Senhor mesmo soprou sobre os seus apóstolos o seu próprio Espírito. E assim toda a soma da revelação está sob a lei sublime de uma manifestação direta de Deus ao seu povo por meio dos seus servos. Esta é a grande e gloriosa reivindicação da revelação do princípio ao fim, de Moisés até aquele que é maior do que Moisés.

I, 78Comprovação. 3. Em toda parte, porém, encontramos a mais cuidadosa provisão para a comprovação desta credencial. A consciência interior do profeta era, para ele mesmo, a garantia de que o Senhor estava com ele; isso, porém, não podia ser transferido a outros e não é argumento para os incrédulos, que consideram todo o mistério da função profética uma ilusão. Mas Jeová deu ao seu povo provas pelas quais o povo podia verificar as pretensões desses profetas. Os que Deus enviava podiam apelar para o fato de que a honra de Jeová era o seu fim supremo. O que nosso Salvador disse a respeito de si mesmo era verdadeiro a respeito de todos os que tinham vindo antes dele e de todos os que viriam depois dele: O meu ensino não é meu, mas daquele que me enviou. Se alguém quiser fazer a vontade de Deus, conhecerá a respeito da doutrina, se ela é de Deus ou se eu falo por mim mesmo. Quem fala por si mesmo está buscando a sua própria glória (Jo 7.16-18). Essa prova pode ser aplicada ao grupo dos profetas e, se aplicada com imparcialidade, levará à convicção de que tal grupo de homens jamais poderia ter imposto uma série de ilusões ao seu próprio povo e ao mundo inteiro. Mas isso não é tudo. Esses homens eram fortalecidos por outras duas qualificações. Às vezes estavam munidos do poder de operar milagres, como no caso de Moisés e de Elias. Às vezes, também, a sua credencial era o anúncio de uma predição: quando um profeta falar em nome do Senhor, e a palavra dele não se cumprir, nem acontecer o que ele profetizou, esta é uma palavra que o Senhor não falou (Dt 18.22). Isso, porém, leva àquele segundo sentido da palavra, mais limitado, que quase deslocou o primeiro.

I, 79A PREDIÇÃO PROFÉTICA.

Predição. A profecia é, assim, mais especificamente, a comunicação ao homem de um conhecimento divino do futuro, isto é, ela abrange a predição de acontecimentos futuros. Toda revelação, desde o princípio, tem sido predição que se desdobra em predição. Esta, como vimos, é a sua lei; e a respeito dela nada mais se pode dizer senão que o Deus da revelação assim o quis. Podemos imaginar que fosse de outro modo: cada geração poderia ter recebido a sua lição com base no passado, mas sem incluir o futuro. Mas somos obrigados a partir do pressuposto de que a revelação é o desvendamento progressivo de um grande acontecimento, para o qual deviam voltar-se os olhos de todas as gerações, tanto das anteriores como das posteriores a ele. Além disso, segundo o testemunho da própria Escritura, a predição de acontecimentos futuros, seguida do cumprimento dessas predições, sempre foi um dos métodos divinos de autenticar a revelação. Temos aqui, pois, as leis gerais da profecia propriamente dita e o seu critério como credencial.

AS LEIS GERAIS DA PREDIÇÃO PROFÉTICA.

Leis da profecia. Há alguns princípios gerais cujo estudo é de grande importância para uma avaliação correta da predição bíblica como credencial específica da revelação e presente em toda ela.

I, 80Cristo, o seu objeto. 1. O primeiro é que CRISTO É O SEU ASSUNTO SUPREMO: o Objeto de quem todos os profetas dão testemunho (At 10.43), direta ou indiretamente, de geração em geração, até que ele veio; e por cuja volta, agora que ele partiu, esperam todas as predições da Escritura. O próprio Redentor declarou que as Escrituras deviam ser examinadas porque testificam de mim (Jo 5.39) [N. do T.: Pope segue a versão inglesa, que lê o verbo no imperativo, “Examinai as Escrituras”; a NAA traz “Vocês examinam as Escrituras”], como se, o que quer que nelas se pudesse encontrar, este fosse o seu assunto supremo. O testemunho de Jesus é o espírito da profecia (Ap 19.10). A sua pessoa, a sua vinda e o seu reino dão unidade a todas as profecias da Escritura. As grandes predições universais, que tudo abrangem e que atravessam a revelação a respeito da redenção consumada da humanidade, desde o Protoevangelho, ou primeira predição com promessa, em diante, encontram-se em toda parte; cada novo ciclo da inspiração profética paga o seu tributo ao grande propósito do Libertador que havia de vir. Embora nunca se ouça um profeta anunciar de antemão o seu sucessor, todos concorrem para anunciar de antemão o Cristo. Nem sempre conseguimos ver a conexão entre as predições menores e aquele vasto cumprimento; mas vemos que a inscrição que encabeça, de ponta a ponta, a revelação profética é o reino final do Redentor. Todos os tipos, que são profecias em ato, e todas as predições, que são profecias em palavra, têm uma referência mais ou menos evidente ao evangelho. Para descobri-la, muitas vezes temos de aplicar o que se Sentido duplo. chama Cânon do Sentido Duplo, isto é, um primeiro cumprimento mais próximo, que por si mesmo sugere um segundo, ulterior, que satisfaz todas as exigências: uma combinação digna dos atributos divinos e semelhante, no livre domínio da história, ao uso dos símbolos na natureza, sendo os próprios acontecimentos a que as predições se referem em primeiro lugar proféticos de Cristo. No devido tempo, teremos de examinar mais em detalhe as predições do Antigo Testamento. Por ora, tudo o que é necessário aqui é insistir nesta lei como aquela que imprime à profecia o seu caráter de credencial. Há, de fato, predições no Antigo Testamento, como as que descrevem minuciosamente a destruição de algumas das cidades antigas do mundo, cujo cumprimento é conhecido e lido por todos os que estudam a história. Elas não devem ser esquecidas. Mas quem examinar com cuidado o Novo Testamento verá que todo o teor das alusões ao Grande Cumprimento da plenitude do tempo aponta para a vinda e o reino de Jesus como o único cumprimento que garante todos os demais. Não há nada mais certo nos anais da humanidade do que isto: percorre a antiga literatura dos judeus uma série de predições que teve o cumprimento mais exato na vinda e na obra de Jesus. Esta é a credencial suprema da profecia na revelação.

I, 81Progressão. 2. Outra evidência infalível da presença divina na Escritura profética é a lei peculiar de PROGRESSÃO que se verifica em toda ela: uma lei que determina o desenvolvimento constante da grande doutrina da revelação segundo certos princípios fixos. Cada época está sob o domínio de alguma profecia governante, cujo cumprimento introduz o governo de uma nova ordem de expectativa profética. O cumprimento de uma predição torna-se o ponto de partida de outra, com desdobramentos mais amplos e um número maior de afluentes subordinados.

O único evangelho. (1.) Pode-se dizer que uma única profecia transcendente abre a Escritura, domina toda a revelação e une num só o tempo e a eternidade: o primeiro evangelho de um Redentor que havia de vir. Mas mesmo ela ilustra, como todas as outras, aquela aplicação mais ampla do princípio, que divide toda a série em predições do Antigo Testamento e predições do Novo. Todos os profetas antigos falaram daquilo que Isaías, em nome deles, chama os últimos dias, ou o grande DEPOIS, aquele período indefinido da profecia de Jacó, בַּאַחֲרִית הַיָּמִים (Gn 49.1), que começou a tornar-se mais definido na visão inicial do Profeta evangélico: Nos últimos dias (Is 2.2). A chegada daquela gloriosa Era Posterior, ou dos fins dos tempos, ou do mundo vindouro, o Cumprimento, é, de modo geral, a plenitude do tempo (Gl 4.4). Em particular, no Novo Testamento ela é marcada com o selo da perfeição por três sinais: é o tempo dos últimos dias em que Deus falou a sua revelação perfeita pelo Filho (Hb 1.2), e os oráculos imperfeitos foram consumados por uma Voz final; em segundo lugar, é o tempo em que aquele que foi conhecido antes da fundação do mundo, e predito, foi manifestado nestes últimos tempos (1Pe 1.11,20) como o Cordeiro imaculado da Expiação Consumada; e, por fim, é o período dos últimos dias em que se cumpriu a profecia: derramarei o meu Espírito sobre toda a humanidade (At 2.17). Esses três acontecimentos completam a perfeição do Segundo Período da redenção: a Voz do Filho, o Sangue expiatório, a Efusão do Espírito. E com Cristo, o Cumprimento supremo, começam uma nova ordem e um novo alcance da profecia. O que a eternidade é para o tempo, isso é a sua vinda, na nova economia, em relação à expectativa dele na antiga. De fato, essa mesma linguagem foi adotada pelos antigos rabinos para distinguir as duas coisas: o tempo do Messias era o MUNDO VINDOURO, עולם הבא.

I, 82Ciclos subordinados. (2.) O mesmo princípio pode ser rastreado nos ciclos subordinados ao longo de toda a Escritura. As predições patriarcais, sempre fiéis à primeira lei e mantendo em vista a era messiânica, terminaram em Canaã, para recomeçar com uma ordem de profecias inteiramente nova. As predições dos profetas judeus, na medida em que se referiam ao cativeiro, tiveram o seu cumprimento nesse acontecimento, a primeira meta do maior de todos os conjuntos de anúncios antecipados; mas, com esse cumprimento, outra série passou ao primeiro plano. Do mesmo modo, há no Novo Testamento ciclos subordinados de predições, de cujo cumprimento surgem outras predições. Sobre a encarnação houve uma grande série de cânticos proféticos, que apontavam para a vinda de Cristo, mas incluíam também os seus resultados ulteriores. As predições do próprio Senhor referiam-se à sua morte, ressurreição e ascensão; ao derramamento do seu Espírito, ao estabelecimento do seu reino, à destruição de Jerusalém, à ressurreição final e ao fim do mundo: a maior e mais abrangente série de predições proferida por uma única Voz desde que a profecia começou. A mesma lei está latente no Apocalipse, o último livro de profecia; mas aqui os nossos olhos estão como que impedidos, e não é dado aos que agora leem traçar a sua operação senão em linhas gerais. Quanto mais se estudar este princípio geral, na sua aplicação a toda a massa das predições da Escritura, tanto mais gloriosa parecerá, a todos os estudiosos imparciais, a economia da profecia que a Mente onisciente ordenou. O que quer que ela seja para os que estão decididos a resistir a todas as evidências que recomendam a Palavra de Deus, para os que são DA VERDADE esta lei do anúncio antecipado será, por si mesma, uma forte credencial da revelação.

Reserva. 3. Mais uma vez, e levando o mesmo assunto um pouco adiante, toda profecia está sob a lei da RESERVA, uma lei misteriosa, estabelecida no conselho divino, que literalmente nunca foi alterada. Na sua supremacia absoluta, ela governa o desenvolvimento da revelação; e esta é a diferença entre o tempo e a eternidade: só na eternidade toda restrição será abolida. Nem o quê nem que espécie de tempo (1Pe 1.11) jamais ficaram plenamente claros até que o dia os declarasse [N. do T.: Pope segue a KJV, “what, or what manner of time”; a NAA traz “qual a ocasião ou quais as circunstâncias oportunas”]. É evidente que poderia ter sido de outro modo. O mesmo Espírito que anunciou de antemão a vinda do Cristo poderia ter descrito a sua Pessoa, desdobrado a sua obra e definido o período do seu advento de tal maneira que não restasse nenhum vestígio de incerteza. Mas não foi essa a sua vontade. Ele ordenou cada predição, e cada ciclo de predições, de tal modo que, embora se declarasse o bastante para animar a esperança e despertar o desejo, se encobrisse o bastante para encerrar na fé os herdeiros da profecia. Olhando para trás, para a longa série irradiada pela luz do Pentecostes, vemos que cada predição, geral ou mais particular, tinha a sua referência determinada ao Grande Cumprimento; mas vemos também que nenhuma delas era clara o suficiente para impedir a incredulidade daqueles que estavam dispostos a murmurar contra a Providência divina. Cada geração podia alegrar-se com o cumprimento das profecias feitas antes a seu respeito; mas, quanto ao seu próprio futuro, estava sob o domínio de uma esperança indefinida. Não há exceção a essa lei em toda a economia da profecia. Quando esta se aproximava do seu encerramento no Antigo Testamento, poderia parecer que a lei se tinha afrouxado um pouco, pois as predições de Daniel são extremamente minuciosas, e as suas especificações das Setenta Semanas, e da peculiaridade da última semana das setenta, vão além da indeterminação geral do discurso profético; mas as suas profecias não são uma exceção real, porque, até que viesse o Messias, foram quase tão indeterminadas quanto a data do Milênio. O Novo Testamento introduz a mesma lei e é fiel a ela em toda parte. A reserva recomeça, e reina sobre as expectativas da igreja cristã na hora presente. Os anúncios antecipados que nosso Senhor fez da sua paixão estavam velados por certa obscuridade; e só depois da sua ressurreição se entendeu até mesmo o TERCEIRO DIA. Mesmo quando se aproximava a sétima das semanas que antecederam o Pentecostes, ao dar aos discípulos o último encorajamento, o Salvador diz apenas dentro de poucos dias (At 1.5), embora pudéssemos supor que o décimo dia seria certo para todos. Assim que o Espírito Santo começa um novo ciclo de predições acerca da volta de Jesus, com todos os cumprimentos subordinados da profecia ligados a esse acontecimento, observamos que estamos sob as mesmas restrições a que estavam sujeitos os pais. Temos a vantagem incomensurável de ver realizadas, no Primeiro Advento, as maiores profecias a respeito dele; mas os tempos e as épocas do Retorno ainda estão debaixo de um véu. Como os antigos, temos de investigar diligentemente o quê, ou que espécie de tempo, o Espírito de Cristo indicava (1Pe 1.11). E não temos o direito de esperar, até que o Senhor venha, uma revelação dos acontecimentos do Milênio mais clara e mais plena do que a que os pais tiveram do advento do Redentor. Ora, essa lei de reserva estrita é ela mesma um testemunho glorioso da sabedoria e da bondade do Deus da revelação, especialmente quando ligada às leis a que já nos referimos. Pois, em resumo, toda profecia aponta para uma única Pessoa Suprema, como a agulha da bússola para o polo, e apenas com a mesma variação trêmula; toda ela avança na marcha majestosa de um conselho determinado, mas em ciclos espirais; e sobre tudo, inclusive sobre o ciclo em que vivemos, está o mesmo véu de mistério celestial. Como toda geração passada, também nós estamos na hora de uma grande Expectativa: uma hora, ou um dia, rica com a herança de um vasto cumprimento, mas mais rica ainda, se possível, na esperança de uma herança ainda mais abundante no futuro, quando tiver chegado plenamente o tempo da sua perfeita revelação e do seu perfeito gozo.

I, 84Um sinal para cada geração. 4. Por fim, uma lei importante de todos os anúncios proféticos é que o Espírito Santo os constituiu como sinal para cada geração sucessiva; em outras palavras, como o milagre propriamente dito, e tanto quanto o milagre, eles têm sido uma credencial divina da revelação. Na sabedoria ilimitada do Supremo, o ofício profético foi ordenado para servir a muitos propósitos. Era o meio pelo qual as comunicações supremas eram feitas, de tempos em tempos, ao povo escolhido, para o encorajar ou advertir, e para desafiar e ameaçar os seus inimigos. Por isso, durante uma longa série de eras, foi o veículo de toda a economia da instrução divina: continha as doutrinas e a ética da religião comum a todas as dispensações, com um glorioso anúncio prospectivo da verdade cristã que seria revelada depois. Por isso os livros proféticos, e os elementos proféticos de todos os outros livros, são para nós uma fonte inesgotável de instrução, independentemente das suas predições de acontecimentos futuros. Mas, sendo tudo isso verdade, é igualmente claro que todo o sistema de anúncios antecipados se destinava a ser, de geração em geração, uma credencial constante e permanente. Há provas abundantes disso em todas as partes do Antigo Testamento. Se vocês pensarem: “Como conheceremos a palavra que o Senhor não falou?”, saibam que, quando esse profeta falar em nome do Senhor, e a palavra dele não se cumprir, nem acontecer o que ele profetizou, esta é uma palavra que o Senhor não falou (Dt 18.21-22). Muito tempo depois, lemos: Lembrem-se das coisas passadas, das coisas da antiguidade: que eu sou Deus, e não há outro; eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim. Desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade revelo as coisas que ainda não sucederam (Is 46.9-10). A isso nosso Senhor dá a sua própria sanção para o Novo Testamento: Isso eu falei agora, antes que aconteça, para que, quando acontecer, vocês creiam (Jo 14.29).

I, 85AS PROVAS DA CREDENCIAL PROFÉTICA.

Provas da profecia. AS PROVAS da profecia são muito simples. A rigor, não são o caráter moral do profeta, nem a dignidade do assunto, nem a preservação do registro, nem a conexão evidente com o plano divino: todas essas são características implícitas, sobre as quais já nos detivemos em outro contexto. Mas as profecias que são as credenciais de uma revelação devem ser tais que convençam quem as estuda de que só podem ser explicadas pela Onisciência; devem estar acima da suspeita de um cumprimento meramente humano; e, naturalmente, para serem profecias, têm de preceder o seu cumprimento.

Possível só à Onisciência. 1. É inegável que a predição de acontecimentos futuros é prerrogativa exclusiva da Onisciência; e também que, nas Escrituras, Deus é apresentado como tendo feito do claro estabelecimento dessa reivindicação um grande propósito da comissão que deu aos profetas. Podemos supor, portanto, que as predições das Escrituras terão em geral, se não em todos os casos individuais e isolados, um caráter que as ponha além do alcance do cálculo humano. Pode-se admitir com segurança que, em alguns casos, é impossível provar que o acontecimento anunciado de antemão estava além do alcance de uma previsão hábil. Mas é preciso lembrar que o peso do argumento da profecia não se apoia em exemplos isolados: depende de certas predições grandes, proeminentes e vastas, como só a Mente Suprema poderia ter dado aos homens, e cujo cumprimento está diante dos nossos olhos. Começando por elas, e fortalecidos pela sua força inegável, só temos depois de ficar na defensiva quanto às demais: nada é necessário além de estabelecer que a conclusão contrária não pode ser provada. Primeiro, então, apliquemos essa prova àquele único Grande Objeto da profecia, a quem todos os profetas deram testemunho. Ao longo de mil anos, por meio de mais de cem predições distintas, vai sendo desenhado gradualmente um retrato perfeito de uma Pessoa, e dela como única na história da humanidade; e esse retrato distinto é o preenchimento de um esboço que fora traçado milhares de anos antes, na verdade desde o próprio princípio do mundo. Poderia o Libertador da humanidade ter sido previsto pelo entusiasmo de um anseio nacional, em todos os traços maravilhosos do seu caráter e em todas as circunstâncias minuciosas do seu aparecimento, da sua história, vida, morte, ressurreição e reinado? Poderia a previsão convergente de uma série de profetas ter desenhado esse Retrato tão elaborado e tão sagrado? O mesmo se pode dizer das predições firmes sobre o destino de algumas das principais nações do mundo. Depois da Pessoa do Messias, o Israel segundo a carne, que o rejeitou, ocupa o lugar seguinte na perspectiva histórica da profecia. Há uma unanimidade igualmente admirável nas predições de toda a sua história, quer como hebreus na origem, quer depois como israelitas, quer, em tempos mais modernos, como judeus. O seu destino, tal como é descrito na Bíblia, isto é, nos dois Testamentos, põe a profecia e o cumprimento numa harmonia tão clara e inegável que não deveria restar lugar para a incredulidade. Este é um tema que se deve acompanhar através de toda a Bíblia, a qual mostra que a rejeição e a dispersão do povo foram preditas quando ele estava mais próspero, e a sua elevação e dignidade, quando estava mais abatido. Moisés, o fundador da grandeza hebraica, predisse a dispersão de Israel como consequência da sua desobediência e, ao mesmo tempo, a sua preservação através de todas as eras, distinto e sem se confundir entre as nações. Quase não há um dos profetas posteriores que não tenha repetido essa profecia maravilhosa, que não se aplica a nenhuma outra raça. As nações entre as quais eles foram espalhados desapareceram ou estão em vias de desaparecer; as dez tribos ainda andam errantes pela face da terra. Sobreviveram às maiores revoluções da história, prova permanente de que o Olho do Supremo previu o que a sua Mão onipotente realizou. Destruirei completamente todas as nações por onde o espalhei. A você eu não destruirei completamente (Jr 30.11). E, quanto às próprias outras nações, as Escrituras proféticas estão repletas de predições, mais ou menos minuciosas, cujo cumprimento provou que foi a voz de Deus que as pronunciou. Foi predito repetidas vezes que o povo da aliança iria para o cativeiro; que os cativos seriam novamente libertados, e que os que os despojaram seriam por sua vez assolados. Um estudo minucioso dessas profecias mostrará, e quanto mais minucioso o estudo, mais eficazmente o mostrará, que a Onisciência estava nessas predições. Oseias, Amós e Isaías predisseram que o reino de Israel, e também Jerusalém, seriam açoitados pela Assíria; e assim foi. O cumprimento foi exato quanto à devastação de Samaria e quanto à mão refreadora que salvou Jerusalém da destruição. No ano 712 a.C., Naum pronunciou a ruína do opressor assírio e de Nínive; no ano 612 a.C., depois de um século que não dera nenhum sinal disso, deu-se a destruição de Nínive. Também a respeito da Babilônia, sucessora da Assíria, houve palavras de profecia igualmente seguras. Nenhum fato dos anais humanos é mais certo do que este: Isaías predisse o cativeiro babilônico, e também a libertação do povo; e nenhum é mais certo do que este outro: Miqueias, duzentos anos antes do seu cumprimento, predisse os mesmos acontecimentos. A sentença contra Tiro, em Isaías, descreveu a sua ruína pelos caldeus de modo tão claro e explícito, e tão plenamente confirmado pela história, que fez dela um dos triunfos da evidência profética. Mas, para confirmar a evidência, é preciso estudar com cuidado as próprias profecias. Este ramo da apologética da revelação é apenas tocado de passagem neste resumo geral; ele recompensará amplamente o exame mais exaustivo.

I, 87O cumprimento exigia a Onipotência. 2. Assim como a primeira prova presta tributo à Onisciência do Deus da revelação, a segunda presta tributo à sua Onipotência. Só aquele que deu as predições das Escrituras poderia cumpri-las. Mas os adversários da Fé têm alegado que muitos desses chamados vaticínios, que inegavelmente se encontram nas rapsódias dos profetas, se cumpriram de fato, mas se cumpriram pela determinação daqueles que, interessados no seu cumprimento, quiseram que eles se cumprissem. Argumenta-se com grande sutileza que entusiastas patrióticos, dotados de aguda previsão, deram indícios do que viam no germe da probabilidade, e que esses indícios se cumpriram por si mesmos. Não é tarefa sem esperança, nem sequer difícil, defender dessa acusação todo o conjunto dos anúncios antecipados do Antigo Testamento. Mas o que mais nos importa é examiná-la na sua referência ao Novo Testamento, onde é aplicada, com alguma aparência de plausibilidade, mas sem nenhuma força real, ao Cumprimento Supremo de toda profecia. O espírito de incredulidade não recua diante da ideia de fazer da carreira de Cristo uma adaptação estudada, à pessoa dele, dos indícios proféticos dispersos nos registros antigos. Agarra-se à expressão bíblica para se cumprir (Mt 1.22) e supõe ousadamente que toda a história de nosso Senhor e do seu reino no Novo Testamento foi uma fábula engenhosamente inventada (2Pe 1.16), tecida segundo o modelo dado no Antigo Testamento. Quase não é preciso dizer que aqui está o peso de todo o argumento contra a revelação cristã enquanto apoiada no cumprimento da profecia. Podemos ficar para sempre em dúvida quanto à relação exata entre algumas das predições mais obscuras dos profetas e o seu cumprimento: a dúvida é simplesmente resultado da nossa ignorância de muitos dos elementos necessários para resolvê-la. Mas é questão de importância vital (a própria vida do cristianismo está nela) que a manifestação de nosso Senhor na terra seja o cumprimento do que foi providenciado e predito conforme o plano determinado e a presciência de Deus, e não a adoção estudada de um caráter e de um destino esboçados no entusiasmo da esperança nacional. Aqui temos necessariamente de argumentar em círculo: a primeira necessidade, como se verá adiante, é que, assim como cremos em Deus, creiamos também no seu Filho. E ele faz depender todo o desfecho da sua missão, com todos os seus interesses ilimitados para a humanidade, do cumprimento de toda a palavra profética em si mesmo. Ele se apropriou, para a sua própria Pessoa, de todos os principais anúncios antecipados do Messias. Mas, na aplicação que ele mesmo faz, e na que faz o seu Espírito nos apóstolos, há uma distinção a observar. Enquanto todas as profecias maiores são apresentadas como absolutamente cumpridas na sua missão (começando pela sua encarnação e terminando com a sua volta final), diz-se que muitas das profecias menores se cumpriram num sentido acomodado. A fórmula para se cumprir (Mt 1.22) aplica-se a alguns acontecimentos que realizam tipos proféticos, como Do Egito chamei o meu filho (Os 11.1) e Então se cumpriu o que foi dito por meio do profeta Jeremias: Ouviu-se um clamor em Ramá (Mt 2.17-18). O mesmo princípio pode ser aplicado a muitas citações dos antigos profetas: em Cristo e no seu reino, todos os tipos e predições encontraram, por assim dizer, o seu lugar natural e legítimo de repouso. Mas é preciso lembrar que, se o Cumprimento Supremo está em Cristo, a sua autoridade há de proteger todos os profetas que escreveram sobre ele: protegê-los não só na sua autenticidade geral, mas também no pormenor dessas predições mais obscuras. Os dois profetas contra cuja missão e cujas profecias específicas a incredulidade levantou as objeções mais veementes são Isaías e Daniel; e são precisamente esses os profetas que Jesus e os seus apóstolos citam com mais ênfase. Por isso, na nossa avaliação, eles estão seguros por amor do Mestre. Mas, falando de modo geral, estão seguros na sua própria integridade. Os seus principais anúncios antecipados eram tais que nunca poderiam ter-se cumprido por si mesmos, nem ter sido cumpridos por aqueles que astutamente se aproveitam desses indícios. Será que as nações e os impérios cuja queda foi predita e se consumou cumpriram as predições pela sua própria astúcia? Estão os judeus executando contra si mesmos a sentença escrita? Eles são os mais decididos inimigos do Cumprimento cristão; mas não negam que a mão de Deus está contra eles há muito tempo. Ele os feriu, pensam eles, em vista do castigo que traz a paz ao mundo, e os traspassou por causa das transgressões da humanidade [N. do T.: alusão a Is 53.5]; mas certamente eles não se feriram nem se traspassaram a si mesmos para cumprir predições ligadas à sua própria desgraça.

I, 89Post eventum. 3. A prova da profecia assume ainda outra forma. Afirma-se com muita segurança que algumas das predições declaradas das Escrituras foram escritas POST EVENTUM: depois do suposto cumprimento. Prová-lo no caso de qualquer uma das menores dessas predições é tarefa que não teve êxito; no caso das maiores, isto é, daquelas sobre as quais recai o peso da credencial, foi um fracasso irremediável. Mas o espírito de incredulidade é muito ousado: tão atrevido nos seus ataques profanos quanto o espírito de fé é atrevido na aceitação dos mistérios. Desde o primeiro assalto à profecia até os tempos modernos, toda a força do seu ataque tomou essa direção. Desintegrando as Escrituras como um todo, renunciando inteiramente às tradições de séculos e não dando nenhum peso ao testemunho de Cristo e dos seus apóstolos, nem ao das igrejas judaica e cristã desde o princípio, ele não hesita em fazer do Pentateuco um mosaico de documentos ao qual Moisés apenas deu o nome, e que pertenceria, na verdade, a um período posterior ao Cativeiro [N. do T.: Pope joga com o duplo sentido de Mosaic, “de Moisés” e “em mosaico”; o português “mosaico” tem os mesmos dois sentidos]; e as vozes dos salmistas e dos profetas, de Samuel e Davi até Joel e Zacarias, são tidas como cantos que transformam a história, passada e presente, em poesia de forma profética. Declara-se que o livro de Daniel foi escrito depois dos principais acontecimentos que registra, e estes seriam sobretudo predições acerca de Antíoco Epifânio; ao passo que os seus notáveis milagres provariam o seu caráter inautêntico, bem como a sua origem tardia. Já vimos que o Senhor lançou o seu escudo em volta desse profeta: menciona-o pelo nome; recebe dele a sua designação messiânica, Filho do Homem, e a do seu reino, o reino dos céus; e, de modo geral, protege-o antecipadamente contra todos os ataques. A apologia do próprio Senhor é confirmada pelas melhores pesquisas modernas; e, depois do mais rigoroso crivo crítico, os mais veementes adversários do livro não têm outro argumento a alegar senão a extrema minúcia das suas profecias e a mão sobrenatural nos seus acontecimentos. Os santos Evangelhos contêm predições do Profeta Supremo; e por isso também eles são atribuídos, apesar das mais fortes provas da sua antiguidade, a um período posterior à destruição de Jerusalém. Também neste caso a nossa lealdade ao Senhor quase nos proíbe argumentar. Se Cristo Jesus é digno de alguma confiança, as principais predições do Antigo e do Novo Testamento devem ter sido pronunciadas antes do seu cumprimento. Quanto a uma multidão de profecias menores, a respeito das quais pode haver contenda, a aplicação da nossa prova, e a consequente defesa dos profetas em pormenor, exigirão o estudo atento das Escrituras proféticas como ramo distinto da teologia. Mas essa investigação minuciosa não é necessária para mostrar, nas suas linhas gerais, o triunfo desta credencial particular da revelação enquanto tal. Sem dúvida o Novo Testamento veio depois do Antigo, e o Antigo não foi escrito depois do acontecimento. A dispersão dos judeus, a difusão do cristianismo, a ruína dos grandes impérios cujas sentenças pesam sobre os profetas, os sinais do Anticristo, a incredulidade dos últimos dias: tudo isso é cumprimento de profecia distinta, que certamente foi escrita antes da sua realização.

I, 91PROFECIA E MILAGRE.

Natureza da credencial. A evidência da profecia como credencial da revelação é da mais alta ordem, quer tomada em si mesma, quer em conexão com o milagre em geral.

A presença de Deus. 1. Em comum com o milagre propriamente dito, ela é um sinal permanente e perpétuo da presença divina em toda a esfera da revelação. O próprio Deus apela a ambos como sua alta prerrogativa em muitas das passagens mais sublimes dos profetas. Desde a antiguidade anunciei as primeiras coisas; a minha boca as pronunciou, e eu as fiz ouvir; de repente agi, e elas se cumpriram (Is 48.3). Foi a Voz Sobrenatural, acima dos métodos comuns de guiar as investigações do homem, que anunciou desde o princípio todos os acontecimentos vindouros: nada que mereça o nome de história aconteceu sem anúncio antecipado. E foi a Mão Sobrenatural, acima da operação comum e silenciosa da Providência na natureza, que DE REPENTE os fez acontecer. A variedade ilimitada e a unidade firme dessas predições lhes dão uma grandeza indizível; e os acontecimentos maravilhosos da história humana que são cumprimento direto da profecia superam todos os outros em grandeza, em todos os elementos do sublime. De fato, se todos os acontecimentos que foram matéria de cumprimento e de profecia forem eliminados da corrente da história humana, não restará muita coisa. As principais ocorrências de cada época estiveram sob uma profecia dominante; e também nós, nos nossos dias, esperamos para ver o fim das coisas que nos dizem respeito.

Cumulativa. 2. Consideradas à parte, em si mesmas, essas profecias são peculiarmente cumulativas na sua força demonstrativa. Diferentemente dos milagres, as predições cumpridas ampliam constantemente os materiais da sua evidência. Há, na verdade, um sentido em que essa observação, feita com frequência, não é verdadeira. Pensa-se que os milagres registrados nas Escrituras se recomendam cada vez mais debilmente à aceitação de cada geração sucessiva, como se o testemunho em que se apoiam se enfraquecesse à medida que se afasta do presente. Mas isso não é filosoficamente verdadeiro. Além disso, os milagres mais evidentes e mais nobres (se é que se pode fazer tal distinção) continuam a ser realizados constantemente; e o Dedo e a Mão de Deus estão sempre em ação no coração dos homens e no coração da sociedade. Ainda assim, a força cumulativa da credencial profética é mais evidente do que a do milagre. Vivemos sob uma soma de cumprimentos maior do que a de qualquer época anterior; e quem tomar as profecias históricas do Antigo Testamento e seguir o seu cumprimento no curso da história oriental terá à sua disposição uma demonstração irresistível do cristianismo.

I, 92Cheia de instrução. 3. Por fim, como os milagres, as profecias estão entrelaçadas com o ensino da Bíblia; e, independentemente da sua força como evidência, oferecem um tesouro ilimitado de instrução sobre os caminhos de Deus, a obra de Cristo e o destino do homem. Nem o milagre nem a profecia podem ser facilmente superestimados como veículo do ensino divino; nem um nem outro pode ser esgotado enquanto durar o tempo.

Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. I, pp. 62-92, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.