W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume I · A regra divina da fé

A inspiração como credencial e o caráter de Cristo

I, 92A INSPIRAÇÃO, OU A MÃO DIVINA NA ESCRITURA.

A inspiração como credencial. A doutrina específica da inspiração, como fundamento da autoridade divina das Escrituras, será considerada em seu lugar. Aqui ela pode ser vista, muito brevemente, como uma das credenciais da revelação, no mesmo nível dos milagres e da profecia, completando ou consumando a evidência deles.

Lei da Escritura. 1. A inspiração é um elemento distinto da ordem sobrenatural da verdade revelada: uma de suas leis e de seus atributos característicos. Como tal, significa simplesmente que os documentos sagrados são dignos do Autor divino e que não é indevido descrevê-los como SOPRADOS POR DEUS. A rigor, só os escritores são inspirados; mas a última palavra sobre o assunto no Novo Testamento dá esse epíteto à própria Escritura: πᾶσα γραφὴ θεόπνευστος [toda a Escritura é inspirada por Deus] (2Tm 3.16). O que convencionamos entender por inspiração é, portanto, o fato de que Deus interveio para manter no mundo um registro contínuo e permanente da verdade: esse tem sido, em todas as épocas da história religiosa do mundo, o método divino de comunicar e preservar entre os homens o conhecimento de Deus. O começo dessa intervenção, no que diz respeito aos documentos escritos, perde-se na distância dos séculos; mas não se pode supor que algum dos seus frutos se tenha perdido. Em certo sentido, a inspiração é uma só coisa com a revelação, enquanto significa a concessão divina de um conhecimento que não se poderia adquirir de outro modo. Não coincide, porém, inteiramente com a revelação, pois é menos ou mais do que ela. Menos, porque muito do que foi revelado não foi transmitido; mais, porque muito do que se registrou e transmitiu não foi dado por revelação direta. Mas, sejam quais forem os seus limites, ela indica uma intervenção específica de Deus na literatura humana, por meio da qual sempre esteve em produção, e por fim foi produzida, a revelação permanente e autorizada da mente e da vontade de Deus ao homem. E isso pode, com justiça, ser considerado uma credencial de todo o sistema da verdade revelada. É digno da sabedoria divina, e era o que se poderia esperar, humanamente falando, que aquele cujo poder se fez conhecer no milagre, e cujo conhecimento se fez conhecer na profecia, manifestasse a sua sabedoria e a sua fidelidade ao dar a revelação à humanidade e ao fazer dela uma herança permanente. Ora, a revelação faz disso a sua reivindicação universal e apela para as evidências manifestas da Presença de Deus na Sagrada Escritura, como o seu Autor e o Espírito que nela habita. A demonstração disso é tão esmagadora que todo o peso da causa do cristianismo poderia apoiar-se nela, se fosse corretamente formulada e exposta. Todo o alcance e todo o conteúdo do volume da inspiração justificam a sua pretensão de ter vindo diretamente do céu. Quando tratarmos do caráter de Jesus e dos efeitos morais e espirituais do seu evangelho, teremos de considerar muita coisa que se poderia supor pertencente a esta credencial. Resta, porém, um argumento muito interessante, que se pode tocar brevemente aqui.

I, 93A Escritura, digna da autoria divina. 2. De modo geral, os registros da revelação são dignos da sua autoria divina, ou da autoria divina que reivindicam. Se tomarmos sem paixão a Bíblia inteira, tendo em mente a hipótese de que foi composta por escritores sob um controle especial do Espírito Santo, nada encontraremos, ou muito pouco, que nos faça hesitar em admitir essa reivindicação; ao contrário, encontraremos a demonstração constante de que os diversos autores não podem ter sido deixados entregues a si mesmos. Os filhos desta Sabedoria, no conjunto, a justificam; e, onde parecem fazer o contrário, é apenas porque não conseguimos penetrar o segredo que leva qualquer um deles a dizer, na linguagem de são Paulo: falo como se estivesse fora de mim (2Co 11.23).

I, 94Divino-humano. 3. Pois é preciso lembrar que os registros da revelação exibem uma excelência característica, divino-humana, que corresponde à única teoria sólida da inspiração. São dignos de ser atribuídos à autoria do Espírito que os controla, supondo-se que esse Espírito empregue faculdades humanas e um trabalho editorial humano. Podem não ser, em todos os pontos, em cada linha e em cada registro, o que esperaríamos de um ditado imediato do Espírito Santo ou da escrita do seu Dedo em tábuas entregues ao homem. Mas, se estão abaixo do que se poderia supor que Deus enviaria diretamente do céu, estão certamente de todo além da capacidade do homem sem auxílio; são mais elevados, na verdade, do que qualquer capacidade humana, ainda que auxiliada do alto, poderia ter produzido. Isto é: há revelações em várias partes da Bíblia, e uma em particular por toda parte, que implicam não a elevação da terra ao céu, mas a descida do céu à terra. Basta contemplar a solução tranquila e autorizada que eles dão a questões que nenhum outro livro sequer tentou investigar; a sua familiaridade profunda e natural com Deus e com as coisas de Deus; a simplicidade e o caráter tremendo da sua doutrina do pecado; o interesse moral supremo que reina por toda parte; e o seu apelo universal, que nunca falha, ao que há de bom na natureza humana, como se deles saísse uma Voz divina que fala para sempre a algo no espírito humano que não pode deixar de ouvir. Se Deus registra a sua verdade para o homem, é exatamente isto o que ele escreveria, quer consideremos o que é dado, quer o que é retido. Há uma perfeita dignidade divina e uma perfeita pureza humana: é ao mesmo tempo a Voz de Deus e a voz do homem, combinadas de modo tão maravilhoso que fazem das reivindicações da inspiração, corretamente entendidas, uma credencial impressionantíssima da Fé.

Supremacia. 4. Por isso, o fato simples e inegável da supremacia da Bíblia, como coleção de documentos religiosos, pode ser invocado como um poderoso argumento presuntivo, por si mesmo, da sua própria verdade e da verdade da religião que ela propõe. Nada há de paralelo, nada de semelhante, na literatura humana. Coloque-a ao lado dos livros religiosos mais antigos, os Vedas indianos, os Clássicos chineses ordenados por Confúcio e os demais escritos sagrados do mundo em geral, e a comparação logo terá de abandonar a sua tarefa. Logo terá de abandoná-la, mas não de imediato; pois há, sem dúvida, nos escritos antigos do Oriente certos contornos da verdade primitiva que mostram que também eles foram escritos não sem certo grau de sopro divino. O Espírito Santo sempre foi a Voz do que clama no deserto, dizendo: Preparem o caminho do Senhor. Nos livros que tratam da Ciência da Religião e nos oferecem sistemas de Teologia Comparada, faz-se mais do que justiça a esse elemento comum aos livros sagrados do que chamamos paganismo e às Sagradas Escrituras. Na medida em que se faz apenas justiça, o defensor do cristianismo concorda de coração; mas, quando os outros escritos sagrados são cotejados com os cristãos em todos os pontos, o que se tem é um exagero de justiça que se torna sumamente injusto. A Bíblia se recusa a formar uma das colunas de uma grande Poliglota bíblica. Fora das Escrituras cristãs, não existe entre os homens nenhum documento que realmente declare ter sido escrito sob a inspiração de Deus; e, entre os que parecem fazer tal reivindicação, não há um só que não a refute em metade do seu conteúdo, sendo o bom senso o juiz. Além disso, não existe nenhum documento desse tipo em favor do qual se possa alegar que, embora isolado não tenha divindade alguma, recupera esse caráter quando colocado numa coleção de livros sagrados. Mas não há um só livro das Escrituras judaicas e cristãs que não faça valer em todos os pontos a sua própria dignidade e santidade quando estudado como parte do volume inteiro. Isso, porém, leva a um argumento distinto.

I, 95Unidade. 5. A unidade das Escrituras da revelação é uma credencial muito forte em favor delas, como escritos que afirmam vir de Deus. É uma só grande visão, e uma só a sua interpretação: começa e termina com o mesmo Paraíso, com milhares de anos de história redentora no meio. Foi chamada instintivamente daquilo que ela mesma não se chama: a Bíblia, um só Livro dividido, se é que está dividido, em duas partes. Que o Novo Testamento, como cumprimento, corresponda tão perfeitamente ao Antigo Testamento, como profecia, é em si o fenômeno mais maravilhoso da literatura: é uma evidência, tão próxima de uma demonstração quanto se possa desejar, da intervenção de uma Mão divina. O Redentor manifestado nas Escrituras posteriores corresponde face a face, e traço por traço, à Figura predita nas Escrituras mais antigas. Mas não se trata apenas de que o mesmo Ser seja anunciado de antemão num livro e venha em outro. Ele é o único assunto predominante de muitos livros nas duas partes da Bíblia. Uma só ideia percorre o todo: o reino de Deus estabelecido ou restaurado no seu Filho encarnado. Para essa ideia contribuem autores de várias épocas e de várias raças, numa harmonia que nunca poderia ser resultado do acaso ou de mera coincidência. Só o poder divino poderia ter feito tantos homens, de terras diferentes, combinarem, sem nada combinar entre si, um plano literário como esse. Esses homens não pertenciam a nenhuma escola de escritores sucessivos; no entanto, parecem ter estado, antes que o tempo existisse, no conselho e na sala do conselho de Jeová, e ter saído dali, cada um predestinado a dar a sua própria contribuição. Se não tivessem afirmado que eram inspirados por Deus, essa hipótese teria de ser inventada para explicar os fatos e os fenômenos dos seus escritos. Mas eles a afirmaram: a reivindicação está ligada a cada página da palavra que deixaram.

I, 96Unidade no desenvolvimento. 6. Há um aspecto especial deste argumento que será considerado de grande importância por aqueles que o examinarem deste ponto de vista: a unidade de ensino que se mantém ao longo de um curso de desenvolvimento longo e variado. As principais doutrinas que distinguem o cristianismo de todos os outros sistemas de suposta verdade religiosa podem ser seguidas através dos muitos livros da Bíblia, numa linha de expansão cada vez mais ampla e mais profunda. Cada artigo destacado da nossa Fé pode ser rastreado, subindo, até o seu germe nos documentos bíblicos mais antigos, e, descendo de novo, à medida que abre o seu caminho, distinto dos outros, até encontrar a sua plena expressão. E todos, combinados, convergem através das Escrituras mais antigas para uma harmonia consumada no Novo Testamento. Esses dois fatos são indubitáveis; pelo menos não deveriam ser postos em dúvida por quem conhece a história da doutrina na Bíblia. A Santíssima Trindade, com a relação redentora da Segunda Pessoa dessa Trindade com a humanidade e a relação que a Terceira Pessoa mantém com o universo da vida; o estabelecimento no mundo de um reino da graça destinado a triunfar por fim; a aceitação por Deus de todo pecador arrependido com base no que se chama Justiça da Fé; a diferença essencial entre alma e corpo, com a separação transitória causada pela morte física; as consequências eternas da presente vida de provação: todas essas são verdades doutrinárias que percorrem a Bíblia inteira, de modo que os pregadores cristãos podem tirar os seus textos de prova de quase todos os livros; mas percorrem a Bíblia com uma clareza sempre progressiva. O desenvolvimento da doutrina teremos de estudar em outro lugar. Ele é mencionado agora como indicação clara da presença (talvez fosse melhor dizer: da probabilidade muito forte da presença) de uma Mão divina na construção da Bíblia. Seria possível mostrar que a verdade suprema, a da Sagrada Trindade na Divindade, sustenta as colunas deste argumento. Não há no Antigo Testamento uma só referência ao Messias como Pessoa próxima de Jeová, ou como o próprio Jeová, que não seja perfeitamente coerente com o segredo assombroso a respeito do seu ser que o Novo Testamento traz à luz; nem há uma só referência, entre muitíssimas, ao Espírito de Deus que não esteja em perfeita harmonia com o que as Escrituras posteriores declaram quanto à sua relação com o Pai e o Filho. Tal é o efeito que a consideração dessa harmonia maravilhosa produz na mente devota de quem crê no cristianismo, que ele se inclina a colocá-la entre as principais evidências da Fé. Com toda a certeza, é uma das suas credenciais mais enfáticas e persuasivas.

I, 97Força do argumento. 7. É preciso lembrar que o argumento baseado na presença da Mão divina na construção da Bíblia não é apresentado como definitivo e demonstrativo: é, como se acabou de observar, apenas uma credencial difícil de resistir. Aqui se podem fazer mais algumas observações, que sugerirão pistas a ser seguidas pelo próprio estudante até onde ele quiser.

Analógico. (1.) Nisto não há mais demonstração do que a que o argumento analógico em geral apresenta. Em todas as obras de Deus (admitido que a criação é obra de Deus), percebemos o domínio universal de uma lei de evolução, modificada, porém, por uma lei subordinada de intervenções ocasionais que parecem quebrar a primeira. Exatamente o que encontramos na natureza e na providência, encontramos na construção gradual da Escritura. Por que haveria de ser assim, é inútil perguntar. Que isso seja prova absolutamente válida da divindade ou da autoridade suprema da Bíblia, é inútil afirmar. Poderia ter acontecido, pela mais maravilhosa de todas as coincidências, que um Livro assim fosse composto em longos intervalos por autores independentes uns dos outros e conservasse tal caráter de desenvolvimento constante, uniforme e sempre crescente. Mas as probabilidades contra isso teriam sido enormes.

I, 98Ressalva. (2.) Além disso, é preciso ter em mente que não se afirma que a influência e a ação divinas na Escritura sejam absolutas e irrestritas. O que se disse a respeito dos milagres, e se poderia ter dito a respeito da profecia (que, pela própria natureza do caso, era de esperar que restassem dificuldades), pode-se dizer das credenciais da inspiração. Os opositores formulam hipóteses sobre o milagre e a profecia com as quais os fatos não se mostram de acordo, e escandalizam-se. Do mesmo modo, formulam hipóteses sobre a inspiração com as quais os registros da revelação não podem ser harmonizados, e afastam-se com desconfiança. Este assunto será discutido mais a fundo quando chegarmos à doutrina da inspiração. Por ora basta dizer que nada há nos elementos humanos da feitura da Escritura que seja totalmente incompatível com a suposição de uma Mão divina que governa, controla e até dispõe toda a extensão da literatura sagrada.

RESUMO.

Resumo. Estas três credenciais, o milagre, a profecia e a inspiração, devem estar unidas: elas dão e recebem força mutuamente e são mais fortes quando combinadas. O milagre, naturalmente, é mais demonstrativo para a geração presente dos que o veem; a profecia, naturalmente, só é demonstrativa para as gerações que vêm depois. A geração presente, em cujo meio se operam milagres, não pode transmitir-nos em grau pleno a evidência dos seus sentidos; nós, que contemplamos o cumprimento, não podemos enviar de volta aos que ouviram a profecia a nossa visão da predição realizada. A inspiração abrange as duas numa só: registra o fato do milagre e, enquanto inspiração, torna-o presente a todas as épocas; e, enquanto inspiração, o seu registro de uma profecia faz que o cumprimento seja, para quem o ouve, como se já tivesse chegado ou já tivesse passado. Isso pode ficar mais claro se o aplicarmos às narrativas da missão do nosso Senhor. Em todos os santos Evangelhos, Jesus aparece operando milagres e proferindo profecias. Quando as suas obras e as suas palavras se aproximavam igualmente do fim, ele predisse a vinda de um poder miraculoso que providenciaria o registro permanente do todo: prometeu o Espírito da inspiração, que não só haveria de permanecer pessoalmente com os seus discípulos, mas também faria permanecer com a sua Igreja as palavras do Senhor. Certamente o Salvador, ao dar essa garantia, proferiu uma profecia, que se cumpriu do dia de Pentecostes em diante; e a profecia predizia uma efusão miraculosa do Espírito Santo, que seria uma Memória dentro da memória dos discípulos e um expositor especial das palavras do seu Mestre. E o cumprimento da profecia foi o Espírito da inspiração, sob cuja influência e supervisão os quatro Evangelhos foram escritos. Mas essas três estão mais ou menos unidas em toda a história da Bíblia: nunca se separaram desde que começou a construção da Biblioteca bíblica. A rigor, foi a profecia que começou; o milagre seguiu-se em abundância; e, no devido tempo, a inspiração providenciou um registro permanente. As três caminharam lado a lado em todas as épocas da verdade revelada e terminaram juntas, quando a sua obra comum se completou. E, no entanto, não terminaram. Na Bíblia permanecem o milagre, a profecia e a inspiração; mas, em certos aspectos, a maior delas é a inspiração, pois na verdade absorve as outras duas e dá continuidade e permanência ao todo.

I, 99O CARÁTER DE CRISTO, O REVELADOR.

Cristo, o Revelador. A Pessoa de Jesus Cristo, o Autor e Consumador da Fé, é a sua credencial mais elevada e mais sagrada. Isso vale para a manifestação histórica do nosso Senhor em geral; mas, para o nosso propósito presente, bastará considerá-lo como o Fundador da sua própria religião e observar a coerência perfeita com que ele sustenta a sua pretensão de ser o Revelador Encarnado de toda a verdade. Quanto mais de perto examinarmos os quatro Evangelhos, tanto mais claramente perceberemos que ele mesmo, na sua autoconsciência divino-humana, se apoiava nisso para fazer valer as suas reivindicações: não só no caso dos que estavam ao seu redor na carne, mas também em todo o futuro. A força deste argumento, como tal, só se verá aumentada pelas várias explicações inventadas de tempos em tempos para resistir a ele. Não há maneira racional de explicar a Pessoa e a Obra de Cristo senão aquela que aceita a origem divina do cristianismo.

I, 100A SUPREMA REIVINDICAÇÃO.

A reivindicação de Jesus. Aqui temos de considerar com reverência a reivindicação de Jesus, o Supremo Revelador, e a coerência do seu ensino com essa reivindicação, ambos vistos como plenamente expostos na revelação cristã como um todo.

Sem paralelo. 1. O testemunho do Salvador a respeito de si mesmo não deve ser colhido de uma de suas afirmações isoladas, mas do teor inteiro dos Evangelhos, tal como estes são corroborados pela exposição dos seus apóstolos. A soma é esta: ele desceu do céu como o Filho de Deus e apareceu na terra, estando ainda no céu, como o Filho do Homem, para revelar as palavras do seu Pai e cumprir a vontade do seu Pai, para a redenção humana. Nada há de paralelo à pretensão de Jesus; nada semelhante jamais entrou na mente do homem. A expectativa da humanidade nunca se elevara a tal concepção; o próprio Antigo Testamento mal a havia preparado. Jesus é o Filho de Deus encarnado: esse fato, ou essa reivindicação, governa inteiramente a nova dispensação. Pelo cristianismo que não traz essa credencial, não advogamos: tal cristianismo desceu ao nível das outras religiões. Quase se poderia dizer que a própria reivindicação é credencial suficiente. Que um Ser como inegavelmente foi Jesus de Nazaré (tão humilde e puro, tão desprendido de si e reverente, tão poderoso em palavras e obras, com tal poder irresistível sobre todos os que dele se aproximavam) tenha declarado ter descido do céu com os mistérios da eternidade, com a verdade eterna nas suas palavras e o amor eterno no seu coração, é em si algo tão novo e transcendente que quase poderia levar cativa a nossa fé a seu bel-prazer. Esse é o pensamento dos que já são dele. Mas é uma credencial sublime, que provoca a incredulidade da razão não regenerada e precisa defender-se.

I, 101Singularidade da sua Pessoa. 2. Não há característica mais maravilhosa da missão reveladora do nosso Senhor, nem afirmação mais forte da divindade dessa missão, do que a ausência de tudo o que pudesse colocá-lo no mesmo nível dos outros mestres, ou dos homens em geral. Desde a sua primeira palavra à sua mãe, no templo, até a sua oração diante da cruz, não há uma só expressão dita por ele mesmo que, interpretada com justiça, faça dele um membro da comunidade dos mestres humanos da humanidade. Nem há uma só expressão no Novo Testamento que, interpretada com justiça, faça dele um membro comum da raça humana.

Não é como os outros mestres. (1.) É verdade que, em algumas poucas ocasiões, Jesus falou como homem e pareceu aliar-se aos rabinos que o cercavam. A Nicodemos ele disse: nós falamos do que sabemos e damos testemunho do que vimos, mas vocês não aceitam o nosso testemunho (Jo 3.11). Com isso, contrastava-se com o mestre em Israel (Jo 3.10) como mestre de uma nova doutrina, ao mesmo tempo que, em certo sentido, se identificava com a classe a que Nicodemos pertencia. Mas é preciso lembrar que acrescentou imediatamente: ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que de lá desceu, o Filho do Homem, que está no céu (Jo 3.13) [N. do T.: a NAA termina em “o Filho do Homem”, sem “que está no céu”; o argumento de Pope depende destas palavras]. Assim, a própria frase que parece unir o Redentor aos seus apóstolos, e na qual ele de fato usa quase as mesmas palavras que tanto são Paulo (2Co 4.13) quanto são João (1Jo 1.1) aplicam a si mesmos, é a que contém a afirmação mais elevada da sua autoridade divina como Mestre. É o novo Mestre quem diz ser O FILHO DO HOMEM, QUE ESTÁ NO CÉU.

Diferente dos outros homens. (2.) Além disso, e isto é de grande importância, nosso Senhor nunca se associou à humanidade de nenhum modo que fosse incompatível com a infinita singularidade da sua reivindicação como Representante do seu Pai na raça humana. Quanto mais profundamente se medita neste fato, mais maravilhoso ele parecerá e mais poderoso como credencial da Fé cristã. Embora ele achasse alegria junto aos filhos dos homens (Pv 8.31) e se identificasse de tal modo com a família humana que escolheu para os seus próprios lábios o nome FILHO DO HOMEM, ainda assim, das mais variadas maneiras, ele se distinguiu dos descendentes de Adão. SE VOCÊS, QUE SÃO MAUS (Mt 7.11) é apenas um exemplo entre muitos com os quais os Evangelhos nos familiarizam. Quem estudar a questão em todos os seus aspectos descobrirá que neste fato está uma das mais eficazes evidências internas da verdade da nossa santa religião.

I, 102SUA JUSTIFICAÇÃO.

A reivindicação justificada. A exposição completa do caráter de nosso Senhor em todos os seus ofícios deve ficar reservada para depois. Mas há algumas reflexões que surgem de um exame geral da história da revelação que ele fez de si mesmo e da verdade que nele está, e que colocarão esta credencial sagrada e central em sua devida luz.

Antecipações da raça humana. 1. Embora seja sem dúvida verdade que nada na história humana corre paralelo a esta reivindicação do Redentor, verifica-se que ela está em estrita harmonia com os desejos e os instintos mais profundos da raça humana. Não que a encarnação do Filho de Deus tivesse alguma vez sido antecipada. A mais elevada aspiração do espírito religioso no homem nunca mirara tão alto. A filosofia transcendental, que faz do Infinito e do finito dois polos necessários do pensamento, os quais encontram, por assim dizer, o seu eixo na união do Absoluto e do Condicionado em Cristo, jamais poderia ter existido se o evangelho não lhe tivesse dado a ideia. A diferença entre a filosofia panteísta moderna e a antiga deve ser atribuída a isto: Hegel e os modernos lavraram com a novilha da revelação [N. do T.: alusão a Jz 14.18, onde Sansão diz aos filisteus: “Se vocês não tivessem lavrado com a minha novilha, nunca teriam descoberto o meu enigma.”], isto é, da revelação do Novo Testamento; pois o Antigo Testamento mal chegou a desvendar este segredo mais profundo do conselho de Deus. Quaisquer aproximações da ideia de uma união pessoal entre Deus e o homem, manifestada numa única pessoa histórica, que se encontrem nos sistemas antigos ou modernos de filosofia religiosa carecem, como mostra um exame atento, do elemento essencial da encarnação cristã. Eles nunca conceberam uma união real e permanente do divino e do humano numa só personalidade, nem sequer se aproximaram dessa concepção. Contudo, as próprias distorções da verdade são profundamente sugestivas. São como as imitações dos milagres feitas pelos magos no Egito: demonstrações permitidas do que a fantasia humana faz com a verdade divina quando o mestre é Satanás, e não o Espírito Santo. Mas voltemos ao assunto. A manifestação de nosso Senhor entre os homens, o Filho do Homem e o Filho de Deus em um só, foi a realização pura e perfeita do mais alto anseio inconsciente da natureza humana: o de ver a divindade novamente refletida em si mesma, como num espelho. Também nesse sentido ele foi o Desejado de todas as nações (Ag 2.7) [N. do T.: a NAA traz “as coisas preciosas de todas as nações”; Pope segue a KJV, que lê o versículo como profecia messiânica].

Caráter pessoal. 2. O caráter pessoal de Cristo, se é lícito usar tal linguagem, está em harmonia exata com a pretensão de uma relação tão inaudita. É um caráter do qual se deve dizer que não é inteiramente divino nem inteiramente humano: é divino-humano, com a perfeição de Deus em si, mas manifestada na vida de um homem. A santidade humana tem nele o seu ideal consumado: julgada, é verdade, por um padrão que ele mesmo estabeleceu, mas um padrão que a nossa própria razão aprova. Acompanhando-o ao longo de toda a sua trajetória e esquecendo, tanto quanto possível, a sua divindade, observamos que cada ato e cada palavra, e cremos (somos constrangidos a crer) que também cada pensamento, condizem com a sua afirmação de que Satanás NÃO TINHA PARTE NELE (Jo 14.30). Quando o Salvador foi posto à prova pelo Inimigo no deserto, não afirmou nem negou a sua impecabilidade; mas as respostas que deu foram exatamente as que uma natureza humana perfeita teria dado: Está escrito: “O ser humano não viverá só de pão, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4.4). Quando foi difamado pelos seus inimigos entre os homens, ele simplesmente desafiou todos os acusadores e os afrontou: Quem de vocês me convence de pecado? (Jo 8.46). Ao se aproximar da cruz, onde a sua expiação exigia a sua absoluta impecabilidade, falou da maneira mais explícita: aí vem o príncipe do mundo, e ele NADA TEM EM MIM (Jo 14.30) [N. do T.: a NAA traz “ele não tem poder sobre mim”; Pope segue a KJV, “hath nothing in me”, e é nessa redação que se apoia o argumento]. É claro que é totalmente impossível, pela natureza das coisas, demonstrar a impecabilidade absoluta de Jesus como homem. Só Deus pode pronunciar-se sobre isso. Mas é preciso lembrar que, segundo o pressuposto de todo o Novo Testamento, Jesus era mais que homem. A sua santidade é essencialmente santidade divina. Isto é, trata-se de uma santidade garantida pela divindade do Filho de Deus. A concepção miraculosa assegurou a santidade da natureza humana; e a divindade do Filho assegurou a necessidade permanente dessa impecabilidade. Por isso era santidade divina. Vemos que não é uma santidade reconquistada, que a resistência de nosso Senhor à tentação não é a de alguém que pode cair, que ele não fala da lei e do dever senão como Deus. Em suma, o caráter religioso do Salvador é divino-humano: é o que Deus manifestaria, supondo-se que fosse também homem; e isso é tudo o que o argumento exige.

I, 103Missão encarnada. 3. A missão encarnada de Jesus é conduzida exatamente sob as restrições compatíveis com a dupla natureza da sua única Pessoa; e só isso temos o direito de exigir. Todas as suas obras e todas as suas palavras são divinas. O universo está sob a sua autoridade: há um sentido em que vemos todas as coisas já sujeitas a ele. E nada pode ser mais certo do que isto: nosso Senhor reivindica conhecer tudo o que diz respeito, pelo menos, ao destino humano. Assim como a impressão produzida em nossa mente é a de que o poder supremo está à disposição do Salvador, assim também temos a convicção de que ele possui conhecimento ilimitado. Nele estão ocultos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento (Cl 2.3): ocultos no sentido mais profundo do termo. Nosso Senhor inculca essas duas verdades à sua própria maneira celestial, que os que o ouviam ainda não compreendiam: o Filho nada pode fazer por si mesmo, senão somente aquilo que vê o Pai fazer; porque tudo o que este fizer, o Filho também faz (Jo 5.19). Estas palavras falam do que é uma Visão Eterna e do que é um Poder Eterno. Mas há uma estranha reserva na afirmação que o Redentor faz de ambos; reserva que, no entanto, não é estranha, por mais misteriosa que seja, para aqueles que entendem, ou melhor, que creem nas maravilhosas relações do Senhor com Deus e com o homem. Este poder é, por assim dizer, mantido por ele em depósito, e às vezes contido por alguma restrição transcendente; este conhecimento é um ouvir o Pai, primeiro na eternidade e depois ampliando-se gradualmente em faculdades humanas. Do mistério insondável que aqui existe é desnecessário falar; falamos apenas da sua coerência com a reivindicação, espantosa além de toda concepção humana, do Fundador da nossa fé.

I, 104Estilo do ensino. 4. O estilo do ensino de Cristo manifesta a mesma harmonia. Por um lado, é perfeitamente à maneira dos homens. Ele usa documentos humanos, cita-os de modo humano e adota as mais puras artes da retórica humana. A sua apresentação da verdade como Mestre é simplesmente a mais elevada da literatura humana. Mas é absolutamente divina: aqueles que são atraídos com cordas humanas, por exemplo, no começo do Sermão do Monte hão de ser constrangidos a reconhecer, no final, que ouviram a voz de um Deus, e não de um homem. Sentimos que o seu modo de lidar com a consciência não é o de uma testemunha humana, nem o de um mestre humano santificado, mas o de um Juiz, que não só dá leis e as administra, mas também exige de todos os que o ouvem que prestem contas da sua conduta. Ninguém pode ler com atenção os quatro Evangelhos sem sentir que o Mestre da doutrina e da moral cristãs é mais que homem. Às vezes pode haver dúvida sobre se o Mestre é alguém a quem a autoridade divina foi delegada de modo extraordinário ou se é ele mesmo o divino Filho de Deus. Mas não pode haver dúvida sobre se a Voz de Jesus fala ou não com a confiança de um Revelador final da doutrina e Árbitro do dever. E a própria dúvida a que se fez referência implica o caráter genuinamente humano do seu ministério. Os dois lados do seu caráter de Mestre, um expresso pela pergunta do povo, Como é que ele pode ser letrado, se não chegou a estudar? (Jo 7.15), e o outro pela autorrevelação do próprio Senhor, o Pai me ensinou (Jo 8.28), harmonizam-se na reivindicação do Redentor tal como ele a declarou ao longo de toda a sua história; mas por nenhum outro princípio podem ser conciliados.

I, 105Consumação da sua vida. 5. O fim e a consumação de toda a obra do Salvador revelam esta credencial em sua infinita clareza e força. O próprio Fundador do cristianismo põe a ênfase principal do seu apelo à humanidade na sua missão redentora e na sua morte expiatória. É de esperar, portanto, que na crise e no ponto culminante da história encarnada, isto é, nos acontecimentos ligados à morte de cruz, o profundo segredo da natureza divino-humana de nosso Senhor se manifestasse da maneira mais impressionante. De fato, observamos que em quase todos os pormenores do sofrimento e da morte de nosso Senhor há evidência de que a Vítima da violência humana manifesta e da justiça divina oculta é ao mesmo tempo humana e divina. Ele se aproxima da sua paixão como homem: o homem de dores e que sabe o que é padecer (Is 53.3) é apenas um homem de dor mais funda e que sabe o que é padecer mais profundamente do que os outros homens. Olhando-o da nossa posição humana, vemos que ele avança para o fim como qualquer outro mártir: teve o seu pavor ainda distante, o antegosto do Getsêmani e, por fim, a própria amargura da morte. Aqueles que o olhavam apenas com olhos humanos o consideravam, naturalmente, o primeiro de todos os confessores: perfeito na mansidão para com os inimigos, perfeito na humildade de coração diante de Deus e perfeito no sacrifício de si mesmo, ao dar à sua missão o testemunho do sangue. Mas, para aqueles que o contemplavam do céu, pois ele foi visto pelos anjos (1Tm 3.16), aquilo era tido por uma paixão mais que mortal. O Pai eterno havia declarado repetidas vezes que o Sofredor era o seu Filho eterno: como quando o fez descer do monte da transfiguração e quando o reconheceu diante da multidão admirada no templo. Assim também o centurião junto à cruz e os discípulos que o observavam de longe deram o seu testemunho. Esses testemunhos, porém, podem não ser aceitos por todos como credenciais de Cristo: o seu valor só é sentido por aqueles que aceitam a origem celestial dos Evangelhos e já creem na Pessoa divino-humana do Filho. Mas a força nua do argumento é sentida por aqueles que observam o grande Sofredor do cristianismo e notam com muito cuidado a união da divindade e da humanidade nos próprios sentimentos, na conduta e nas palavras do Salvador. Segundo a sua própria oração sacrificial, a sua morte foi uma santificação voluntária de si mesmo: para ser uma oferta cuja virtude expiaria o pecado do mundo, para revelar a glória divina na redenção da humanidade e, por meio dessa revelação, assegurar o seu próprio retorno à glória de Deus. Nenhum testemunho que nosso Senhor deu de si mesmo é mais claro do que aquele que declara que ele não morreu como morrem os homens, mas sofreu como o Filho de Deus, designado no conselho divino para salvar a raça humana morrendo por ela. Toda a economia do cristianismo se baseia nisto. Ela se sustenta ou cai conforme a firmeza deste fundamento. A Pessoa que reivindica a confiança dos homens e exige que eles lhe confiem o seu destino eterno pede a submissão absoluta deles somente como o seu Redentor divino-humano. As suas credenciais não estão completas enquanto não são entregues do alto da cruz. E os seus apologistas, que defendem a sua causa, afirmam que cada incidente e cada palavra da história da paixão, assim como a própria grande paixão, condizem com a reivindicação do Salvador. Há em toda a experiência e em todo o testemunho humanos um sereno tom subjacente de divindade. O Senhor anunciou de antemão as circunstâncias da sua morte e, a partir de certo período, familiarizou os seus discípulos com aquela cruz cuja visão depois tanto os aterrou. Falou dos seus inimigos como não tendo, por si mesmos, nenhum poder contra ele; das hostes de anjos como prontas a defendê-lo, se ele apenas as chamasse em seu auxílio; e de toda a paixão, de modo geral, como um acontecimento preordenado que nada poderia afastar dele, embora ele o aceitasse com perfeita espontaneidade. É profundamente verdadeiro que as credenciais do cristianismo vêm, com toda a sua força, da semana da paixão e da véspera da cruz. Humanamente falando, e supondo que o Sofredor fosse apenas um homem perfeito, podemos reivindicar para a morte de Jesus uma dignidade e uma pungência de que há poucos exemplos na história, e nenhum rival. Ele manifestou a firme resolução de ir para Jerusalém, sabendo o que ali o aguardava; e, embora pudesse ter escapado (pois os líderes do povo evidentemente queriam dar-lhe a oportunidade), dispôs deliberadamente tudo, até o mais ínfimo pormenor, para o seu próprio fim. A segurança dos seus discípulos estava nos seus pensamentos, e também o cuidado com a sua mãe e com as filhas de Jerusalém, só menos queridas para ele do que ela, no exato momento em que meditava na salvação do mundo. Na mesma hora em que derramava a sua oração triunfante na expectativa da sua glória, como se o sofrimento da morte já tivesse passado, ele estava na angústia mais profunda do Getsêmani, segurando na mão o cálice que bebeu com um temor aparentemente maior do que o que Sócrates sentiu quando tinha na mão o seu cálice. Mas uma diferença infinita se manifesta entre os dois cálices. Havia na agonia do Redentor uma amargura que nenhum homem sentiu nem poderia sentir. Era o suportar daquela maldição sobre o pecado humano que a economia cristã atribui a Cristo, e cuja ausência torna ininteligível a história do fim de Jesus. Tomamos os três Evangelhos e sentimos continuamente que há algo mais que mortal nos seus sofrimentos. Acrescentamos a eles o quarto e percebemos o segredo do mistério. Inventar tal combinação do Messias sofredor e triunfante estava totalmente além do alcance de homens como os evangelistas. Durante séculos, o trabalho dos rabinos judeus havia sido separar os dois: só a interpretação de homens inspirados poderia uni-los desse modo. O Espírito de Cristo nos Profetas só podia indicar a paixão e a glória que viria depois. Mas o Espírito de Cristo nos evangelistas os ensina a ver o sofrimento e a glória fundidos numa só hora, a hora e o poder da redenção. Que dois aspectos como esses da sua morte se encontrem nos mesmos Evangelhos é coisa que requer, para ser explicada, a ação do Espírito; e a explicação que ele dá é que o Salvador, de um lado, foi entregue pelo conselho perverso dos homens às mãos perversas dos homens e, de outro, morreu conforme o plano determinado e a presciência de Deus. Enquanto isso, ele, sendo ao mesmo tempo Deus e homem, entregou-se tanto à vontade dos homens como à vontade de Deus, seu Pai. Aqui tudo é coerência evidente, embora incompreensível, com aquela reivindicação suprema sobre a qual recai toda a ênfase; e os que são da verdade hão de sentir a força desta, a mais triste e a mais gloriosa de todas as suas credenciais.

I, 108Predição acerca do seu reino. 6. Mais uma vez, todo observador atento de Jesus e ouvinte das suas palavras há de notar que o caráter peculiar das suas predições acerca do futuro da sua causa na terra está em estrita harmonia com as suas reivindicações divino-humanas. Quase desde o início da sua manifestação é evidente que o Mestre de Nazaré fala desse futuro com duas vozes que na realidade são uma só: isto é, em muitas ocasiões poderia parecer que ele fora enviado para fazer uma grande experiência, cujo resultado dependeria da fidelidade dos seus servos; ao passo que, em muitas outras ocasiões, falava com plena consciência do cumprimento de um propósito divino cujo fim lhe era conhecido tão claramente quanto o princípio. Não pode haver dúvida de que esses dois aspectos da previsão de nosso Senhor se manifestam por toda parte. Quando o Filho do Homem vier, será que ainda encontrará fé sobre a terra? (Lc 18.8) foi a sua pergunta aos discípulos acerca de um tipo especial de fé que ele inculcava constantemente; uma fé, porém, que ele manda os seus discípulos considerarem rara em todas as épocas e, provavelmente (para eles, mas não para ele mesmo), rara no fim. Esta é apenas uma amostra das muitas passagens em que o Salvador parece contemplar uma vasta contingência. A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Por isso, peçam ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara (Mt 9.37-38). Aqui temos outra. Mas há um número muito maior de ditos seus em que não há nenhuma contingência expressa nem implícita. Tais são todos os discursos puramente escatológicos, em que o programa do reino futuro é esboçado em suas grandes linhas com mão firme. Não há na Bíblia história mais clara e definida do que o futuro do último dia, evidentemente tão presente ao divino Mestre, nos Evangelhos, quanto o dia em que ele fala: o que quer que se pense da autoridade dos escritores do Novo Testamento, é certo que, sem uma única exceção, eles nos apresentam um Salvador que contempla de uma só vez a soma das coisas, anunciando desde o princípio o que há de acontecer (Is 46.10), e que tem diante dos olhos todo o panorama da história humana. Certamente não era da sua vontade revelar tudo, porque, no insondável mistério da vida, o que está presente ao Supremo é, para a criatura, um futuro ainda não formado, que depende dela mesma. Por isso as predições do Salvador sobre os acontecimentos do longo intervalo, os tempos e as épocas, são dadas em termos gerais. Que haveria um longo intervalo, ele sempre deu a entender, especialmente nas parábolas do reino. Que seria um intervalo variado, de luta, ele também mostrou: Eu vim para lançar fogo sobre a terra; e que quero eu, se já está aceso? (Lc 12.49) [N. do T.: a NAA traz “e bem que eu gostaria que já estivesse aceso”; Pope segue a KJV, e a frase seguinte supõe o fogo já aceso]. A fornalha disciplinar já estava aquecida; antes que o seu processo ardente começasse entre os homens, tinha de começar pela casa de Deus, e até pelo Filho na casa: Mas existe um batismo pelo qual tenho de passar, e como me angustio até que o mesmo se cumpra! (Lc 12.50). Os seus discípulos podiam esperar que fosse de outro modo: Vocês pensam que vim para dar paz à terra? Eu afirmo a vocês que não; pelo contrário, vim para trazer divisão. Porque, daqui em diante, expressão que sempre se estendia do presente até o último futuro, estarão cinco divididos numa casa: três contra dois e dois contra três (Lc 12.51-52). Os dois aspectos do futuro, aquele em que ele é um desfecho fixo e aquele em que é uma contingência variada, combinam-se de modo notável na referência do Senhor ao que ele chamou o dia da sua manifestação. Embora em geral a expressão se refira à vinda final, é certo que o próprio Senhor compreendia nela todo o espaço do intervalo: os diversos acontecimentos decisivos, como a visitação de Pentecostes e a destruição de Jerusalém, e as muitas crises indefinidas indicadas no Apocalipse, eram o dia ou a vinda de Cristo. Isto deve ser estudado mais a fundo no lugar próprio. Enquanto isso, basta mostrar de que modo maravilhoso as predições do Salvador sobre o futuro da sua causa e do seu reino confirmam a sua reivindicação de ser o Revelador encarnado, mas divino, da vontade do Pai e o Autor da Fé cristã.

I, 109Provisão para o futuro. 7. Isso, porém, nos conduz a outro ponto de vista. A provisão que o Fundador do cristianismo fez para a continuidade da sua causa ou do seu reino na terra apresenta os mesmos sinais de coerência com o seu caráter divino-humano. As provisões humanas são, em tudo, perfeitas na sua previsão calma e deliberada. Os Setenta e os Doze foram escolhidos com cuidado: os primeiros, para preparar o caminho do próprio Senhor de modo transitório, e por isso com regras de orientação que não eram próprias para durar; os últimos, para abrir caminho ao seu evangelho entre todas as nações depois da sua partida, e por isso com uma disciplina longa e contínua, cuja perfeição transparece em todos os Evangelhos. Vemos também que, enquanto o Senhor fala de um reino sobre os homens, está ao mesmo tempo preparando uma Igreja reunida dentre os homens: o seu fundamento é lançado, e os dois sacramentos (os recursos mais admiráveis de toda legislação) são instituídos para a iniciação e como prova permanente de quem é membro digno. Além desses dois fundamentos da ordem eclesiástica, muitas outras normas foram estabelecidas. Na verdade, nada ficou sem provisão: toda indicação e todo germe se desenvolvem depois em significado profundo, ajustados a um sistema perfeito. Mas a provisão é divina em todos os pontos; e, na verdade, a sua adequação dependia de o próprio Senhor sobreviver, vencer a morte como Deus e continuar vivo. Além disso, tudo foi posto sobre a base de um Substituto celestial da sua presença visível, cuja gloriosa descida do céu, como Mensageiro enviado por ele mesmo, está tão claramente diante da mente do Redentor quanto a sua própria descida, pela morte, ao mundo dos espíritos. Esse argumento (pois é, de fato, um argumento) precisa ser estudado com cuidado, sobretudo à luz dos discursos finais registrados por são João. Pode-se conceber algo mais grandioso ou sublime do que a tranquilidade com que o Salvador confia os interesses do seu reino a Outra Pessoa divina, para cuja vinda havia feito todos os preparativos necessários? A ideia de uma função dividida (a dele no céu e a do Espírito na terra) nos é tão familiar que corremos o risco de perder a noção da sua perfeita singularidade. Se ela não veio do alto, não poderia ter vindo de baixo. Se a sua origem foi a terra, então nunca antes a terra havia produzido um pensamento tão estranho. Em outras palavras, o grande futuro é provido humanamente, mas sob condições divinas, por um só e mesmo Cabeça encarnado da nossa religião.

I, 110Contrastes em Jesus. 8. Poderíamos seguir ainda mais longe essa maravilhosa cadeia de coerência, cujos elos são as credenciais da missão do nosso Senhor. Mas a melhor apologia da religião cristã mantém sempre em vista a Pessoa do seu Fundador e considera a combinação, nele, de dignidade divina e humildade humana. As reivindicações de Jesus à homenagem e à devoção dos homens são, em todos os pontos, exatamente o que se poderia esperar da Divindade encarnada, mas não se explicam por nenhuma outra suposição. Sem esse grande pressuposto, tudo é obscuro e incompreensível; admitido ele, tudo é harmonioso e digno de aceitação. No caráter do nosso Salvador como Cabeça de uma religião, os dois lados aparecem com nítida distinção. Há uma série de registros que o apresentam como um de nós, e até reivindicando ser o Refúgio dos cansados porque podia dizer: sou manso e humilde de coração (Mt 11.29); e a história respira até o fim uma atmosfera humana assim, tão terna. Mas esse mesmo Jesus reivindica em toda parte, tanto dos inimigos como dos amigos, tudo o que Deus poderia exigir: aos primeiros ameaça com o seu próprio desagrado, como se não pudesse haver temor além desse; dos últimos, porém, exige amor perfeito e a consagração própria da criatura. Não há nada semelhante na história da humanidade. Essa dupla relação de Um com os outros (de um Cabeça humano com os membros da sua comunidade) é absolutamente única nos assuntos humanos. O mais puro, o mais brando e o mais desprendido dos homens, cuja profunda devoção ao céu e cuja espiritualidade sem egoísmo não podem ser postas em dúvida nem por um instante, dirige-se, no entanto, aos que parecem ser seus semelhantes como o Deus e o Juiz deles. Por um lado, ele toma o lugar de Moisés, que era o homem mais manso da terra (Nm 12.3), e se torna ele mesmo o modelo da humildade. Por outro lado, a sua santa ira ultrapassa a cólera zelosa de Moisés, que repreendeu o povo e morreu por causa da sua impaciência (Nm 20.10). Os Ais de Jesus são tão históricos quanto as suas Bem-aventuranças (Mt 5; 21) [N. do T.: assim no original; os “ais” de Jesus estão em Mt 23, e Mt 21 narra a purificação do templo, exemplo da sua santa ira]. Mas, afinal, o argumento mais nobre em favor da coerência e da verdade das reivindicações do Salvador é a calma com que ele pede a homenagem indivisa de todo coração. Ele mesmo faz do amor perfeito a Deus a suma da religião; e depois reivindica amor perfeito para si mesmo: aqui na terra, como lá no céu, vale a palavra EU E O PAI SOMOS UM (Jo 10.30).

I, 111A influência de Jesus. 9. Completamos a cadeia, assim debilmente segurada e traçada, quando apontamos para a influência indizível do caráter do Salvador, tanto enquanto esteve na terra como depois que subiu ao céu. Se ele desceu a este mundo, o Filho eterno na carne, apresentou essas credenciais de poder e de bondade e morreu por nós como o Amante encarnado das nossas almas, poderíamos esperar que o seu ascendente divino-humano sobre os homens fosse supremo e permanente. Ninguém pode ler os quatro Evangelhos sem sentir que o domínio de Jesus de Nazaré sobre os que entravam na esfera da sua influência correspondia rigorosamente à nossa hipótese. Para ninguém ele foi objeto de indiferença; ninguém jamais cruzou o seu caminho ou trocou palavras com ele sem se tornar, daí em diante, outro homem. É impossível explicar a sua supremacia sobre todos por qualquer princípio humano. As narrativas que a registram são simples e despretensiosas demais para que se suspeite que retratem um mero herói humano: não têm ar de embelezamento e antes atenuam do que exageram. Não há nelas uma única frase que chame a atenção para o caráter ou as obras de Jesus como seu tema. Elas simplesmente registram fatos e deixam que esses fatos produzam a sua própria impressão. Seguimos os passos do Redentor e notamos que a sua influência sobre todos os homens é exatamente o que seria a influência de Deus encarnado. Se os que registraram a sua vida se tivessem proposto descrever um Ser assim, supondo que fossem capazes de formar essa concepção e de executá-la, não poderiam ter cumprido melhor a sua tarefa. A cena com os doutores e com os seus pais no templo, a conclusão do sermão do monte, o testemunho dos que foram enviados para enredá-lo, os vários relatos das suas conversas com os discípulos, o contato ocasional com estranhos, um a um, e as controvérsias com os judeus malignos, junto com o solene e comovente temor que ele infundia em cada pessoa que teve parte na sua morte, tudo concorre para provar que o Jesus dos Evangelhos é sempre coerente com a sua reivindicação de ser o Filho encarnado de Deus. Jamais alguém falou como este homem (Jo 7.46)! Jamais alguém foi amado, reverenciado e adorado como este homem! Os sentimentos inspirados por esse Filho do Bendito são, para os que o amam, testemunho da divindade das suas reivindicações. E isso tem sido permanente. Não há nada possível ao Supremo que o nome de Jesus não tenha realizado ao longo das eras cristãs. O seu nome, pela fé no seu nome, despertou um entusiasmo mais forte e mais puro do que qualquer outro; e é o único que o despertou igualmente entre todas as raças. Onde quer que o evangelho seja pregado e recebido, Jesus é aceito como o Filho do Homem que é o Filho de Deus: aceito com um fervor e uma confiança que nenhuma qualidade humana poderia explicar. Nenhum simples homem jamais foi ou poderia ser recebido com uma devoção assim igual em toda parte, com aquele tipo de reconhecimento universal que não o considera judeu nem oriental, mas o Homem que pertence a todos os homens. Mas a imensa maioria dos que o receberam o recebeu como seu Deus: as exceções sempre foram poucas. Ele recebeu do seu próprio povo, através de todas as gerações, uma devoção divina; e foi odiado como só a excelência divina pode ser odiada. Ele ainda é Deus manifestado na carne (1Tm 3.16): de longe o poder mais influente que já se conheceu nos assuntos da humanidade.

I, 113HIPÓTESES PARA EXPLICAR A MANIFESTAÇÃO DE CRISTO.

Objeções. Muitas têm sido as tentativas de dar à razão humana uma explicação do fenômeno mais maravilhoso de toda a história humana, isto é, de aparar a força deste argumento, o mais precioso e o mais eficaz de todos os que o cristianismo tem a apresentar. Amigos e inimigos igualmente perceberam que esta é a fortaleza mais interior; e, por isso, foi aqui que se travaram tanto os assaltos mais obstinados como a defesa mais resoluta. Podem-se fazer algumas observações sobre os métodos adotados pela incredulidade: o estudante perceberá que o exame desses métodos só tenderá a fortalecer a nossa posição.

Um só, com muitas variedades. 1. É notável que os Evangelhos, que contêm predições de todo o futuro do reino do Redentor, predizem com muita exatidão, tanto por palavras como por atos, o tipo de assalto que seria dirigido contra o nome de Jesus. Durante a permanência do nosso Senhor na terra, os representantes de toda especulação posterior gastaram com ele as suas conjecturas e indagações, e os representantes de todo ataque posterior aparecem diante dele, confrontando-o. O diálogo entre o Mestre e os discípulos em Cesareia de Filipe lança muita luz sobre as opiniões divididas daquela geração. Quem os outros dizem que é o Filho do Homem? (Mt 16.13) foi uma pergunta feita uma vez e que continua a ser feita de época em época. Ela ensina de modo significativo que a oposição despertada entre os seus contemporâneos tomou a forma de hipóteses a respeito da sua Pessoa. Os seus inimigos ponderavam mais quem ele era do que o que ele era. Embora às vezes procurassem atacar o seu caráter moral, como de alguém que violava o sábado, ou que agitava o povo, ou que tinha intimidade demais com os pecadores, em geral miravam o mistério da sua relação com o Pai: ou apontando abertamente para a sua conhecida família de Nazaré, ou insinuando de modo obscuro um suposto pacto com Satanás. Quem reunisse e estudasse as opiniões dos seus contemporâneos a respeito dele encontraria ali os germes de todas as opiniões e de todo o tratamento posteriores. Desde aquele dia, Jesus prendeu sobre si os olhares de todo o mundo civilizado. E pode-se afirmar com segurança que toda especulação sobre o Fundador do cristianismo teve relação, expressa ou não, com o mistério da sua Pessoa encarnada. Esse fenômeno estranhíssimo (a Figura que tanto se parece com o Filho de Deus) tem de ser explicado de alguma forma pelos que rejeitam o cristianismo. Eles precisam encarar e saudar essa Figura: talvez com medo, com desprezo ou com dúvida racional, mas nunca com indiferença.

I, 114Métodos da incredulidade. 2. Os métodos de resistência incrédula às reivindicações de Cristo têm sido muito variados; mas, em geral, oscilaram entre os dois lados de uma alternativa. Embora todos aceitem a realidade e, em certo sentido, a verdade do Registro, alguns se esforçaram por achar falhas nessa Imagem de santidade, ou, quando não depreciaram o caráter do Senhor, procuraram provar que ele nada exibe além do que o ser humano pode alcançar; ao passo que outros, perdendo a esperança de fazê-lo e deixando intacto o seu caráter, fizeram dele um quadro pintado pelo entusiasmo dos seus discípulos, que rivalizavam entre si em dar ao Quadro pinceladas de perfeição. O que ainda se tem de dizer de modo definido sobre esses pontos será indicado apenas brevemente: a reverência impõe uma restrição quanto à primeira classe; e a discussão futura da Pessoa de Cristo trará muito do que de outro modo se poderia dizer sobre a segunda.

O CARÁTER PESSOAL DE JESUS.

O caráter de Jesus. O caráter pessoal do nosso Senhor, seja em si mesmo, seja em relação à sua missão, tem sido objeto de controvérsia desde o princípio; mas com objetivos secundários muito diferentes e com base em princípios muito diferentes. Em geral, o assalto tem sido negativo ou positivo: ou se negou a absoluta ausência de pecado em Jesus, ou se ousou alguma acusação moral positiva.

A ausência de pecado posta em dúvida. 1. Negativamente, tem-se afirmado que a ausência de pecado que o cristianismo atribui ao seu Fundador é pura e absolutamente uma impossibilidade. Sobre essa afirmação basta dizer que ela presta, sem o saber, um tributo de grande importância ao fato de o nosso Salvador reivindicar ser, em virtude da sua personalidade divina, eterna e essencialmente aquilo que o seu servo diz que ele é: separado dos pecadores (Hb 7.26). A maioria dos opositores sinceros da revelação cristã sente que Jesus nos é apresentado pelos seus evangelistas, e por ele mesmo por meio do registro deles, como Alguém em quem não há nem poderia haver mancha alguma. São João reúne todos os testemunhos num único presente indefinido: nele não existe pecado (1Jo 3.5). Há alguns que não admitem que tal reivindicação seja feita: muitos cristãos sinceros, por exemplo, julgam necessário à perfeição da natureza humana do nosso Senhor que lhe tenha sido possível, sob a pressão da tentação, cair; e muitos incrédulos supõem que Jesus não foi além de desafiar os seus inimigos a provarem contra ele algum mal moral. Em ambos os casos, dão por certo que ele partilhou a fraqueza comum da humanidade e fazem os seus comentários de acordo com isso. Alguns, à frente dos quais estão os enciclopedistas franceses e o autor alemão dos “Fragmentos de Wolfenbüttel” [N. do T.: Hermann Samuel Reimarus, cujos escritos Lessing publicou sem o nome do autor entre 1774 e 1778], consideram-no um impostor que fez da piedade uma máscara: não tendo conseguido assegurar para si o domínio do judaísmo, mudou de tom e disse que o seu reino não era deste mundo. Outros supõem que ele foi apenas o primeiro e o maior dos entusiastas cristãos que confundiram o zelo ardente e a devoção elevada com a ausência de pecado. A incredulidade mais recente tem sido mais respeitosa que a anterior e tem se contentado em alegar que a isenção de pecado em Cristo é fatal às pretensões do cristianismo, visto que ele foi verdadeiramente homem, e todos os homens são pecadores. A teologia cristã que responde a esse argumento dizendo que Cristo poderia ter pecado, mas não pecou, faz o jogo dos inimigos. A melhor resposta, e na verdade a única, é que o Cabeça da Fé cristã foi tentado pelo mal na sua natureza humana, que foi concebida e nasceu sem pecado; e que ele era incapaz de cair porque a sua natureza humana não tinha personalidade independente da sua natureza divina, o que tornava o pecado impossível.

I, 115Defeitos apontados nele. 2. Positivamente, os elementos do caráter do nosso Senhor foram analisados e julgados carentes de alguns atributos essenciais à perfeição. Este é um capítulo da nossa apologética de que o cristão se entristece em se aproximar e que gostaria de tornar muito breve. Ele não consegue ver mancha alguma no Cordeiro de Deus; e, quanto mais estuda o caráter do seu Mestre, mais plenamente se convence de que ele encerra toda a perfeição. Mas muitos que se dizem críticos desapaixonados chegam a uma conclusão diferente. A aspereza do Salvador contra os seus inimigos; a sua declarada indiferença às práticas ascéticas e o seu desrespeito à moral convencional, que afastaria um rabino das reuniões festivas e o impediria de contar mulheres entre os seus discípulos; o seu recuo diante dos sofrimentos e da morte; a sua hesitação durante os últimos dias da sua vida; a amargura dos Ais finais pronunciados antes de deixar o seu povo: estes são traços nos quais (por obra da incredulidade inglesa recente, para vergonha dela) ele foi tido por menor do que alguns dos seus próprios discípulos. Mas não há dificuldade em responder a essas objeções. Quanto à indiferença do Senhor à ética convencional da época, basta adotarmos a sua própria defesa. Como Senhor do sábado, ele afrouxou as observâncias prescritas que se tinham acumulado em torno daquele dia; como Senhor do templo, agiu ali como os homens em geral não agiam; e como Senhor de todas as regras de decoro, fez-se Amigo de publicanos e pecadores. Além disso, como era bem sabido que a sua moral era estrita em princípio, até as raias do rigor, foi do seu agrado mostrar na prática que a sabedoria lá do alto é justificada por todos os seus filhos: que a severidade dela não é ascetismo, e o seu desprendimento das coisas criadas não é indiferença ao bem-estar da humanidade. O Salvador de fato se curvou sob o peso das suas insondáveis dores messiânicas, e a sua parte humana recuou diante da amargura daquela morte que lhe estava preparada. Mas recuar diante da morte não é necessariamente temê-la: o Redentor apenas prestou um tributo de saudação ao inimigo que veio destruir. Além disso, é preciso ter os olhos de fato impedidos para não perceber que no Getsêmani, à diferença do Calvário, estava em questão algo infinitamente maior do que a morte. Na cruz, na presença de multidões de testemunhas, nenhuma fraqueza se trai por um momento sequer; no jardim, antes da cruz, há uma luta misteriosíssima e incompreensível do Redentor encarnado, que aponta para o sofrimento sacrificial da visitação da justiça divina pelos pecados do mundo. Não era o medo pecaminoso de morrer: prova disso são as palavras A minha alma está profundamente triste até a morte (Mt 26.38)! ATÉ A MORTE! Aqui havia apenas três testemunhas humanas (se é que eram testemunhas em todos os sentidos), e o registro do clamor amarguíssimo do Getsêmani poderia ter sido omitido, se os evangelistas tivessem escrito com o medo dos inimigos diante dos olhos. Quanto à última acusação, o nosso Senhor é o perfeito Correspondente e Representante do Jeová do Antigo Testamento. Assim como ele disse: vocês creem em Deus, creiam também em mim (Jo 14.1), assim podemos dizer: os que deixam de crer em Jesus por causa da sua severidade e da sua ira contra os hipócritas e os pecadores réprobos têm de deixar de crer no Deus das antigas Escrituras. Nos Evangelhos vemos, ouvimos e sentimos o próprio Jeová da revelação mais antiga, tal como é descrito desde o Paraíso até a Volta do Cativeiro.

I, 117HIPÓTESES SOBRE JESUS E O CRISTIANISMO.

Quanto ao Cristo. No que diz respeito à aparição pública e à obra do Fundador do cristianismo, o argumento é voltado contra a nossa Fé de muitas maneiras. Convém lançar um olhar rápido sobre as etapas por que o assalto geralmente passa, ou melhor, sobre os vários pontos de parada onde o espírito de incredulidade se detém.

Primus inter pares. 1. A primeira hipótese reduz Jesus ao nível dos outros grandes reformadores da humanidade, atribuindo-lhe talvez o primeiro lugar: PRIMUS INTER PARES [o primeiro entre iguais], assim como diziam dele na Galileia que era um dos profetas (Mt 16.14). No momento certo, ele surgiu e fascinou o mundo por uma influência misteriosa a que este não pôde resistir, e dominou de tal forma a mente dos seus seguidores que se tornou, por séculos, o Senhor do pensamento e do destino humanos. Todo grande poder nos assuntos humanos teve o seu segredo. Todo homem que moveu a sua própria nação no seu próprio tempo, e muitas nações depois, teve algum elemento peculiar de sucesso: uma grande doutrina, ou a oferta de algo desejado por todos os homens, ou a força irresistível das armas. Assim se diz que Jesus teve o seu segredo, embora ninguém se aventure a dizer qual era. Basta dizer que ele levou cativo o mundo inteiro à sua vontade; e, por alguma razão não explicada, teve mais sucesso do que qualquer outro antes dele jamais tivera. A peculiaridade dessa hipótese é que ela trata o Fundador do cristianismo com grande respeito e, de fato, tem sido aceita por muitos que aceitam a revelação cristã como vinda de Deus: uma economia divina, mas sem um Cabeça divino. Mas ela é de todo incapaz de explicar o próprio testemunho do Salvador sobre a natureza da sua missão; e por isso é, quando muito, uma grande irrealidade. Ele mesmo a repudiou totalmente. Do começo ao fim do seu ensino público, ele se separou dos outros mestres humanos de modo tão categórico quanto se separou dos outros filhos de Adão. Embora as palavras todos os que vieram antes de mim são ladrões e salteadores (Jo 10.8) tivessem outro sentido quando ditas aos judeus, tinham também a intenção de significar que nenhum Messias que professasse ter vindo com uma revelação para a raça humana poderia comprovar as suas pretensões. Aquele que falava era, ele mesmo, do princípio ao fim do mundo, o único Revelador. Nem Cristo nem os seus apóstolos fazem repousar o peso da religião cristã sobre a excelência humana do seu Fundador em comparação com outros profetas da humanidade.

I, 118Fanatismo. 2. Uma segunda hipótese faz de Jesus um fanático judeu que, inspirado por um estudo intenso dos antigos documentos e lendas do judaísmo, formou durante a sua juventude silenciosa o espantoso plano de que brotou o cristianismo, acendeu o seu próprio entusiasmo no coração de alguns outros, cuja natureza sabia ler como leu a de Simão, chegou a crer em si mesmo, criação do seu próprio entusiasmo, arriscou tudo num grande experimento e por fim pagou o preço da sua ousadia. Mas basta um único olhar para a solene tranquilidade e a sensatez do caráter do Senhor, e essa ilusão se desfaz de imediato. Entusiasta ele foi, mais do que qualquer outro que já viveu: era o segundo Adão, com fome e sede do que o primeiro Adão havia perdido; tanto a sua ira e a sua tristeza diante dos efeitos do pecado quanto o seu ardor em redimir o mundo brotavam do seu supremo amor. Todos os gloriosos empreendimentos do amor cristão pelas almas não passaram de regatos saídos do oceano que há nele. Mas fanático ele não foi, nem há um só traço de fanatismo em todas as narrativas a seu respeito. Quem lê os Evangelhos à luz do Antigo Testamento, e com suficiente conhecimento dos costumes hebraicos, não verá nos atos de Jesus nenhum vestígio de frenesi religioso. Não passou de justo tributo à sua própria honra, e à honra do seu próprio Pai, o fato de ele ter Fanático no fanum. purificado o templo [N. do T.: na margem, Pope joga com o latim fanum, “templo”, de onde vem fanaticus, “fanático”.], isto é, o átrio exterior e os seus acessos, único lugar onde se fazia o comércio culpado e onde um ato de zelo veemente como o dele só precisaria de autoridade que o sancionasse: Com que autoridade você faz estas coisas? E quem lhe deu esta autoridade? (Mt 21.23). Quando transformou água em vinho, fez exatamente o contrário do que um fanático teria tentado fazer. Quando pareceu renegar a sua mãe e os seus irmãos, foi só para ensinar que não pertencia a raça ou linhagem alguma, mas era o Filho do Homem; ensinada essa lição, nunca tratou a mãe ou os parentes senão com amor. Quanto aos que professam crer que ele foi um impostor consciente, embora o ouçam perguntar: Como pode Satanás expulsar Satanás? (Mc 3.23), é supérfluo dizer uma palavra. Que um impostor passasse a vida desmascarando a hipocrisia e sacrificando-se pelo bem dos outros, como Jesus reconhecidamente fez, com o testemunho dos seus inimigos de todas as épocas, é coisa que nenhum argumentador sensato jamais alegou. A incredulidade moderna já deixou para trás essa acusação e tem, ou deveria ter, vergonha de tê-la feito.

I, 119Os documentos atacados. 3. Até aqui consideramos os argumentos que se podem levantar contra a origem divina do cristianismo tal como representado por seu Cabeça. Mas esses argumentos tiveram pouco êxito. Por isso, o ataque se voltou de modo mais geral contra os documentos da Fé, e engendraram-se teorias elaboradas para explicar o Autor do cristianismo sem nenhuma referência especial a ele mesmo ou ao seu próprio caráter. Às vezes essas teorias são honradas com nomes pomposos, e receberam muito mais atenção do que mereciam. Seja qual for o nome com que são conhecidas, não passam de variações sobre o tema central de que a religião cristã é o notável desenvolvimento, em circunstâncias favoráveis, de um germe afortunado. Esse germe, porém, não poderia ter se desenvolvido sem a ajuda dos primeiros seguidores de Jesus, que, em todas as formas da hipótese, teriam erguido a superestrutura (pois agora é preciso mudar de figura) do sistema cristão sobre o alicerce do nome de Jesus. Esse nome teria sido, segundo alguns, apenas o centro de acréscimos lendários; segundo outros, o símbolo ou a expressão de um mito messiânico nacional; e, segundo outros ainda, a palavra de ordem de partidos opostos na igreja primitiva, em cujo interesse os Evangelhos teriam sido inventados. Assim se teria criado uma cristandade que esqueceu o verdadeiro significado do nome de Jesus, por ser apenas a expressão de teorias ou tendências.

Origem lendária. (1.) Em primeiro lugar vem o que se pode chamar de hipótese lendária do cristianismo. Ela simplesmente lhe atribui uma origem que não exige mais do que um pequeno núcleo de realidade na pessoa de Jesus e na influência pessoal da sua palavra e da sua obra; o entusiasmo diligente dos seus seguidores inventou todo o resto. Esse modo de explicar a economia cristã é aplicado a ela juntamente com todo o plano da revelação e com todos os acontecimentos sobrenaturais e histórias maravilhosas da Bíblia. Na verdade, é o argumento normal e necessário da incredulidade quanto à condução divina do universo em geral e dos assuntos humanos em particular. Baseia-se numa filosofia, falsamente assim chamada, que faz do sentimento religioso mero acidente da natureza humana, seu ornamento ou sua doença, conforme o caso. Supõe que os instintos universais, as tradições e os registros religiosos da humanidade são mero produto da imaginação sob uma influência especial, da qual não se pode dar explicação. Em particular, pressupõe que toda a trama da Bíblia é um tecido de lendas nacionais de um povo tomado, mais do que quase todos os outros, pela fantasia religiosa. Não nos ocupamos agora da aplicação da ideia de lenda e invenção à Bíblia em geral, a não ser na medida em que a sua completa inutilidade no caso dos Evangelhos desacredita o seu valor em relação a toda a revelação. Quanto à história de Jesus, é difícil, indizivelmente difícil, crer que uma narrativa tão coesa, tão comovente e tão celestial pudesse ter sido composta com as tradições dispersas da Galileia e da Judeia. Basta apontar o indizível ar de realidade que se espalha sobre os relatos; a sua simplicidade pura, como de criança; o esquecimento de si dos escritores; a imparcialidade com que registram tanto o que mostrava a fraqueza quanto o que mostrava a força do grande Herói da sua narrativa; o Retrato transcendente, traçado de modo tão absolutamente acima de qualquer invenção; e o fluir natural da narrativa para a corrente da história posterior, que não se pode atribuir à lenda.

I, 120Hipótese mítica. (2.) A hipótese mítica é apenas uma modificação da anterior: aparentemente mais digna, mas não mais racional. O mito pode ser definido como a veste com que as grandes ideias nacionais se revestiram, de geração em geração, por certa necessidade do desenvolvimento humano e sem o concurso de nenhuma invenção lendária consciente. Sem dúvida, o mito, μῦθος, significa produto da fantasia, mas não produto da falsidade. Cada raça teve a sua grande ilusão. A esperança de um libertador vindouro brilhou na expectativa de todos os povos, sobretudo dos povos cuja história foi, como a dos judeus, calamitosa. O Messias fora predito e esperado entre eles durante séculos, especialmente desde o cativeiro. A ideia messiânica era o grande mito que de tempos em tempos se realizava. Quando a opressão romana chegou ao auge, a ideia tomou forma em muitas pessoas; mas a de Jesus foi a mais bela. Ele foi apenas a resultante de muitas forças nascidas da expectativa comum. Os seus discípulos fizeram dele o centro das suas criações inconscientes, mas necessárias, e com isso apenas deram corpo à suprema ficção judaica. Essa hipótese mal merece refutação. É de todo incompatível com os fatos. O Jesus do cristianismo e o cristianismo de Jesus não nasceram de uma poesia com que uma nação exprimisse as suas esperanças: a nação, como tal, repudiou tudo isso. Foi inegavelmente um grupo muito pequeno o responsável pela forma da nova revelação. A hipótese tem de ser aplicada ao círculo simples, franco e sério dos apóstolos. Por um lado, de certo modo ela os rebaixa ao nível de sonhadores pueris; por outro, atribui demais à sua faculdade mitológica e criadora, que, nesse caso, teria inventado um dos sistemas de crença mais elaborados que a humanidade conhece. Os quatro Evangelhos, os Atos e as Epístolas não são feitos da matéria de que se fazem os mitos. São, ou declaram ser, história clara, e doutrina fundada na história, com um raciocínio do tipo mais rigoroso unindo o todo. Lendas e mitos são, afinal, coisas impalpáveis; Cristo e o cristianismo são realidades sólidas.

I, 121Teoria das tendências de Tübingen. (3.) A teoria mais popular entre os adversários filosóficos do cristianismo faz dele, em sua forma acabada, o resultado do conflito entre vários partidos na Igreja cristã. Os que a defendem podem aceitar ou não a ideia de uma missão confiada pela Providência a Cristo; podem crer ou não em Deus. Em geral, deixam essa questão em aberto. Mas há dois partidos, em dois extremos opostos, que têm as suas noções próprias sobre a pessoa de Jesus. Um deles o considera a expressão temporária da encarnação eterna pela qual o Deus panteísta perpetuamente se desenvolve em consciência; o outro o considera a simples expressão de um ideal humano. Mas todos concordam em que o sistema contido no Novo Testamento brotou da união de muitas tendências opostas, ou de duas tendências principais; daí ser às vezes chamada de hipótese da tendência. Mal seria necessário examiná-la, não fosse ter sido, de longe, a teoria mais influente na tentativa de harmonizar os vários livros do Novo Testamento. Ela admite que Jesus viveu, ensinou e morreu, mas que ninguém pensou em registrar a sua história até bem adiantado o segundo século. Surgiram então evangelhos ou memórias com muitos objetivos ou propósitos. Os que apenas satisfaziam uma curiosidade não santificada não alcançaram crédito duradouro e hoje se conservam só como relíquias. Alguns, porém, foram escritos no interesse de um evangelho judaico, e entre eles são Mateus ocupa o primeiro lugar: algumas frases conservadas por ele, e só por ele, poderiam dar a impressão de que Jesus não passava de um zeloso defensor da perpetuidade do judaísmo. Outros foram escritos no interesse de um evangelho para o mundo inteiro, e entre eles são Lucas ocupa o primeiro lugar: algumas das partes mais comoventes da sua obra apresentam os pagãos recebendo as boas-novas. Enquanto isso, a mão do partidário aparece aqui, ali e em toda parte, interpolando astutamente o seu próprio ponto de vista e fazendo o autor que ele transcreve, e cujo texto corrompe, falar uma linguagem incompatível com as ideias do próprio autor. Por isso, os críticos dessa escola têm uma razão a dar para cada variante do texto, e o único texto perfeito, para eles, é aquele em que todos os escritores concordam absolutamente. Mas há outra aplicação da hipótese, mais interessante, que com mais propriedade se poderia chamar Paulo, fundador do cristianismo. PAULINA, pois faz realmente de Paulo o fundador do sistema cristão. Escolas diferentes disputaram tanto o corpo quanto o espírito de Jesus: a sua ressurreição dentre os mortos na carne e a ressurreição, nele, do espírito do judaísmo. Havia uma ampla distinção entre o cristianismo judaico e o gentílico, o escravo e o livre, o petrino e o paulino. Os escritos do Novo Testamento foram compostos, ou pelo menos concluídos, uns com uma tendência, outros com a outra; mas as duas foram primorosamente combinadas nos Atos, que Pedro e Paulo dividem entre si com proeminência mais ou menos igual. Paulo, porém, acabou triunfando: o seu Jesus estragou o melhor dos rabinos ou profetas, impediu que o judaísmo se revestisse da sua perfeição no ensino do Mestre no monte e deu ao caráter de Cristo um colorido próprio de Paulo, que esse caráter conservou para sempre. O estudo cuidadoso dos escritos do Novo Testamento refuta essa hipótese tão elaborada, que nasceu de um estudo superficial deles. Quem coteja os quatro Evangelhos verá que concordam entre si, e com as Epístolas posteriores, em apresentar Cristo como aquele que ab-rogou a Lei como instituição de um só povo e cumpriu o seu significado em todos os sentidos. Não há uma página do Novo Testamento em que não se encontre, na letra ou no espírito, a evangelização do mundo. A simplicidade da história, tanto da coincidência quanto da divergência entre o cristianismo e o judaísmo, impede que se aceite essa noção de que a ideia de Jesus foi pervertida por Paulo. O Cristo paulino não difere do petrino nem do joanino. É são Paulo quem o chama ministro da circuncisão (Rm 15.8); é são Pedro quem diz que os cristãos são edificados casa espiritual (1Pe 2.5); e é são João quem, em nome de todos os apóstolos, anuncia: O que era desde o princípio … anunciamos também a vocês (1Jo 1.1,3). Todas as tendências correm numa só direção, e essa direção é Cristo: um Cristo que não está dividido, mas é um só. É verdade que a Figura do Bendito não surge de uma vez, em plena perfeição, nos registros do Novo Testamento: ela é desenvolvida, como se costuma dizer, ou seja, gradualmente moldada até atingir a sua plenitude e inteireza. Mas os diversos escritores concorrem para isso; e, depois de tudo o que fizeram, é Cristo quem permanece, e não eles. Já não sou eu, diz cada um, mas Cristo vive em mim. São Paulo, em especial, condena de antemão essa teoria no começo da Epístola aos Coríntios. E, enquanto observamos as intermináveis fases por que ela passa nessa prolífica escola de críticos destrutivos, ouvimos sempre uma voz: Será que Paulo foi crucificado por vocês ou será que vocês foram batizados em nome de Paulo? (1Co 1.13).

I, 123RESUMO.

Resumo. 1. Ao entregar a Fé ao seu povo, nosso Senhor a entrega, por assim dizer, com a sua própria mão, e a sua própria Pessoa é a sua credencial mais alta. Ele é o Autor e Consumador da Fé (Hb 12.2). Os profetas antes dele e os apóstolos depois dele olham, e nos mandam olhar, somente para ele; ou, como diz o autor que fortalece a fé dos hebreus vacilantes: considerem atentamente o Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa confissão (Hb 3.1). Ninguém vacila por muito tempo se tem os olhos fixos, única e supremamente, em Cristo Jesus. A revelação reflete a glória da sua Pessoa, isto é, a sua perfeição divino-humana. É difícil demonstrar a verdade da nossa religião partindo do pressuposto de que Cristo foi como os outros homens. O cristianismo desse postulado não é cristianismo, e o caráter de Cristo é o maior embaraço possível para os princípios desse cristianismo: a conclusão é vasta demais para as suas premissas. Ninguém jamais prestou à pessoa e às palavras de Jesus o tributo de uma atenção sincera, sem preconceito e refletida, sem sentir a força irresistível desse argumento. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz (Jo 18.37): essas palavras são uma explicação sublime do espírito mais íntimo da incredulidade e uma repreensão a ele. Depois de tudo o que havia dito e feito, ele não quis, no fim, dar nenhum outro sinal: Por que o senhor está perguntando para mim? Pergunte aos que ouviram o que lhes falei. Eles sabem muito bem o que eu disse (Jo 18.21). Ele ainda faz o mesmo apelo, sereno e inflexível: temos Moisés e os profetas, temos Cristo e os apóstolos; mas em todos eles fala aquele de quem o Pai disse: Escutem o que ele diz! (Mt 17.5). Aí está a força imortal das credenciais ou evidências do cristianismo. Se cremos em Jesus, toda outra apologética é comparativamente desnecessária; se duvidamos dele ou o rejeitamos, toda outra evidência será comparativamente supérflua. É impossível ler os Evangelhos com profundidade sem perceber que o Salvador sempre apela para algo que está por trás, por baixo e além de todas as outras evidências. Presente na carne ou ausente no céu, ele espera a fé em si mesmo como um princípio, um sentimento ou uma energia que deveria ser despertada por sua própria manifestação e por sua palavra. Se essa fé não se encontra, resiste-se a uma revelação do céu: Vocês não querem vir a mim para ter vida (Jo 5.40). Onde quer que Jesus fale, e a quem quer que fale, há uma influência que acompanha as suas palavras e que necessariamente leva à fé, a não ser que obstáculos morais se interponham. Naquele dia em que nosso Senhor revelou pela primeira vez aos discípulos o segredo da sua messianidade, e Simão Pedro fez a grande confissão, ele declarou bem-aventurado o confessor porque fora ensinado por Deus; e, no entanto, é evidentíssimo que Simão apenas exprimiu o sentimento que o apelo do seu Mestre naturalmente despertava. Bem-aventurado é você, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que revelaram isso a você, mas meu Pai, que está nos céus (Mt 16.17). Notamos que nosso Senhor às vezes aponta para os seus milagres, às vezes para o cumprimento da profecia em si mesmo; mas às vezes parece depreciar uma coisa e outra. A evidência que irradiava da sua própria Pessoa, o poder que dele emanava para vencer a incredulidade, isso ele nunca depreciou. Jesus é o seu próprio Intérprete e o seu próprio Apologista: o Sol do firmamento moral, que não precisa de outra prova senão a de que é agradável ver a luz. Esse grande argumento deve ser o capacete e a couraça do cristão, especialmente do ministro cristão. Dá imensa confirmação a todas as outras defesas, enfraquece todas as formas de oposição e consuma e coroa todo o sistema da apologia cristã. Outras séries de evidências podem convencer o juízo, mas esta, a central, dá alívio ao coração. Venham a mim todos vocês que estão cansados e sobrecarregados, e eu os aliviarei (Mt 11.28-30): tal foi a linguagem de nosso Senhor no momento em que lamentava a incredulidade dos sábios e instruídos, de quem a sua verdade estava escondida, e dava graças por terem sido reveladas aos pequeninos todas as coisas que lhe foram entregues pelo Pai.

I, 125O cuidado do Senhor com os que duvidam. 2. Sem dúvida, esse apelo (que, tomado como um todo, é único nos Evangelhos) não se limitava àqueles cuja mente estava perturbada por perplexidades quanto à verdade. Mas certamente eles estavam incluídos. Vemos o Salvador referir-se muitas vezes aos embaraços da época em que os pensamentos dos homens se voltavam para a grande expectativa messiânica e eles refletiam em seu íntimo. Sendo ele mesmo o Cristo, e conhecendo muito bem os pensamentos de todos os corações, sentia a mais profunda compaixão pelas lutas daqueles que vinham a ele em busca da solução para as suas dúvidas. Podemos ter certeza de que a sua promessa de alívio foi feita a homens como esses, que tateavam o caminho até ele através de uma multidão de preconceitos e dificuldades que nos é difícil avaliar. Tendemos a esquecer que ele não foi apenas o Amigo de publicanos e pecadores, mas também o Amigo dos que duvidam. Quanto mais cuidadosamente examinamos os relatos do seu convívio com os homens, tanto mais certamente descobrimos que as dificuldades que se punham no caminho da fé deles estavam sempre presentes ao pensamento dele. Vemos e ouvimos claramente quanto ele se empenhava em vencer a incredulidade e ganhar o coração de todos. Mas essa grande apóstrofe às mentes inquietas, e a grande promessa de alívio, nos ensinam que ele mesmo não tem argumento mais poderoso e mais eficaz do que o estudo e a imitação do seu próprio caráter: sou manso e humilde de coração (Mt 11.29).

Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. I, pp. 92-126, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.