W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume I · A regra divina da fé

A influência do cristianismo e o testemunho do Espírito

I, 126A INFLUÊNCIA DO CRISTIANISMO.

Efeitos do cristianismo. O cristianismo no mundo é a sua própria apologia permanente. As suas credenciais têm sido apresentadas à humanidade desde o princípio no cumprimento lento, mas seguro, do propósito divino que ele proclama. A isso ele apelou nos dias apostólicos, e a isso apela agora: aquilo que a religião deveria realizar no espírito livre do homem, tanto pessoal ou individual quanto social ou coletivo, a religião cristã realizou e está realizando. Em certo sentido, esta é a mais clara e palpável entre as evidências da Fé; em outro sentido, é uma das mais difíceis, visto que as muitas objeções óbvias e razoáveis que surgem e exigem ser consideradas nem sempre são fáceis de refutar. O melhor método de expor esta linha de argumentação é declarar com clareza quais são, e quais não são, as reivindicações do cristianismo como poder; em seguida, apontar a prova de que ele alcançou e está alcançando os seus fins, a despeito dos fatos que se possam alegar em contrário; e mostrar que todo sistema oposto ou rival ou foi inteiramente impotente, ou está aos poucos confessando a sua derrota.

O PROPÓSITO DECLARADO DO CRISTIANISMO.

Objetivo do cristianismo. A tônica deste método de demonstrar a verdade do cristianismo encontra-se na afirmação de são Paulo de que Cristo, no seu evangelho, é o poder de Deus e a sabedoria de Deus (1Co 1.24). Depois de desafiar o mundo inteiro a contradizer o que ele afirma, e de reduzir a nada o motivo de glória do mundo ao mostrar a impotência da sua sabedoria, o apóstolo conclui: a fim de que ninguém se glorie na presença de Deus. Mas vocês são dele, em Cristo Jesus, o qual se tornou para nós, da parte de Deus, sabedoria, justiça, santificação e redenção, para que, como está escrito, “aquele que se gloria, glorie-se no Senhor” (1Co 1.29-31). O capítulo que assim termina é, na verdade, um capítulo de apologética; e estas palavras que o encerram põem no centro o Redentor, como Autor do cristianismo: de um lado, o mundo no que tem de melhor, reduzido ao silêncio e à desesperança; do outro, os que creem em Jesus, que recuperam o seu motivo de glória naquele a quem o Pai fez o próprio autor da sua nova vida, e a quem apresentou, mais particularmente, como a única fonte de sabedoria para o ensino da humanidade, de salvação do pecado para o homem individual e de redenção para a raça inteira.

I, 127Sabedoria. 1. O evangelho, tornando louca a sabedoria deste mundo, professa comunicar a verdade perfeita. A sabedoria da frase de são Paulo é o que o nosso Salvador quis dizer quando afirmou: Eu sou o caminho, A VERDADE e a vida (Jo 14.6), onde os três testemunhos precisam ser tomados juntos: em Jesus está toda a verdade a respeito do caminho da vida; e não há outra verdade senão a que é a verdade em Jesus (Ef 4.21). Ora, pode-se observar que o evangelho, na realidade, limita a verdade às coisas que dizem respeito à relação do homem com Deus: pode haver muitas verdades em outras matérias, mas só há uma verdade, e esta é o fundamento da religião. Portanto, quando avaliamos a natureza da reivindicação do cristianismo, é preciso lembrar que ela se limita somente à verdade religiosa, e a esta tal como ensinada pelo Espírito Santo. Se os documentos da Fé são contestados em inúmeras outras questões, julgados pela sua relação com todos os ramos do conhecimento humano e postos à prova pela sua conformidade, ou não, com a ciência universal, então o seu Autor diz, pela boca do mesmo apóstolo: Não, porém, a sabedoria deste mundo (1Co 2.6).

Libertação do pecado. 2. Além disso, o sistema do cristianismo proclama que traz à humanidade em geral (o que, evidentemente, neste assunto é também a humanidade tomada individualmente) a libertação do mal espiritual: isto é, das consequências da transgressão, mediante uma provisão de justiça, e das consequências da separação de Deus, mediante uma provisão de santificação para ele e para o seu serviço. Note-se que essas duas coisas estão muito estreitamente unidas, de modo a formar uma só ideia: δικαιοσύνη τε καὶ ἁγιασμός [tanto justiça como santificação] (1Co 1.30). Esta é a maravilhosa reivindicação da religião de Cristo: ela professa remover o pecado por um método que, ao mesmo tempo, põe a consciência em ordem com Deus e com a sua santa lei e livra a percepção íntima do homem do sentimento de impureza e do consequente afastamento de Deus; no desígnio da graça, são removidas tanto a CONSCIÊNCIA como a PERCEPÇÃO do pecado [N. do T.: Pope joga com conscience, a consciência moral que acusa, e consciousness, a percepção íntima que o homem tem do próprio estado]. A provisão para isso é o grande segredo do evangelho e o desígnio do mistério da encarnação. Deus proveu no seu Filho encarnado os meios de remover o mal humano. Jesus Cristo é ao mesmo tempo homem e Deus: a sua mediação em favor da raça humana é a de alguém em quem Deus encontra o homem num terreno novo e numa nova relação. Em Cristo, todo pecado é expiado pelo homem, pois ele é homem em sentido absoluto. Em Cristo, Deus aceita a expiação e une o homem a si, apesar do pecado dele: apresenta-se satisfação à justiça, e garante-se à santidade a satisfação de que o pecado perdoado será também abolido. Mas aqui, de novo, é preciso lembrar que o cristianismo não promete livrar os indivíduos do mal em virtude de um ato externo. Tem de haver uma união pessoal com Jesus pela fé, assim como já existe uma união coletiva de toda a raça sem a fé. O indivíduo só é liberto sob certas condições: pela aceitação penitente da expiação e por um Espírito santificador, provido para todos, mas ministrado somente à alma unida ao Senhor. Se o espírito incrédulo pergunta como o pecado pode reinar a despeito de uma expiação que removeu o pecado, a resposta é dupla: primeiro, o mal não reina de modo absoluto no mundo, como se mostrará mais adiante; e, segundo, a reivindicação do evangelho não é livrar todo homem por uma necessidade física ou por uma aplicação despótica de poder, mas livrar todo aquele que usa as suas provisões como remédio infalível, abundantemente suprido.

I, 128Redenção do mundo. 3. A religião de Jesus professa redimir o mundo dos homens, ou a raça de Adão, de todo o seu mal: ser destinada à cura dos povos (Ap 22.2). Esta é, em toda parte, a sua promessa ilimitada. Não se pode negar que se anuncia uma redenção de toda espécie de calamidade: uma redenção em que não somente o homem se alegra, mas, em certo sentido, toda a criação ao seu redor se alegra com ele. O Antigo Testamento manda a terra e os céus se alegrarem por causa da vinda do Libertador universal (Is 2; Sl 96; Sl 100, passim); e, quando veio aquele que a terra e as nações desejavam, foi declarado a respeito dele, por ele mesmo, nas primeiras palavras que pronunciou sobre a sua missão, quando assumiu o seu ofício em Nazaré: ele me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me [a curar os quebrantados de coração], para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e proclamar o ano aceitável do Senhor (Lc 4.18-19) [N. do T.: as palavras entre colchetes, assim marcadas por Pope, faltam na NAA neste versículo; a redação é a da NAA em Is 61.1]. Mas aqui, de novo, devemos ter o cuidado de notar que o Salvador da nossa raça nunca professa ter vindo com uma libertação absoluta, incondicional e universal de todos os efeitos da transgressão. Como pode ser, e por que razão, que o Redentor do mundo, apesar do seu nome, não ponha fim para sempre ao mal do mundo, é uma pergunta à qual não se pode dar resposta; nenhuma outra resposta, quer dizer, senão a de que a redenção da humanidade é uma redenção em regime de provação e só produz efeito mediante a expansão de um reino espiritual, como um processo que age com uma força moral, lenta e não irresistível em todos os aspectos.

I, 129Resumo da reivindicação. 4. Tais são as reivindicações, e com tais ressalvas, as únicas pelas quais a religião de Jesus responde. Num argumento que invoca os seus efeitos e resultados, somos obrigados a tomar o cristianismo segundo aquilo que ele mesmo professa. Ele não reivindica ser um instrumento na mão de uma onipotência absoluta, que providenciasse um Homem celestial ou uma Divindade no homem que primeiro instruísse a raça no dever; depois descesse ao abismo onde as suas gerações passadas estavam reunidas e as resgatasse; depois enviasse a sua influência para abolir o pecado, seja neste mundo pelo ensino moral, seja no outro por uma disciplina purgatória; e, finalmente, pusesse fim a todo o mal que não pudesse ser removido de outra maneira. Nem é esse o evangelho que Cristo prega, nem poderíamos bem defendê-lo, se o fosse. Seja como for, o cristianismo que nos compete defender, mostrando as suas próprias credenciais, é de caráter muito diferente. Ele professa ser o único instrutor da humanidade, mas somente na verdade religiosa, e somente por meio de uma palavra que um Intérprete divino precisa explicar. Promete salvar os homens dos seus pecados, mas somente por meio de uma provisão expiatória em favor de todos, da qual cada um precisa apropriar-se. Compromete-se a emancipar o nosso mundo de todos os seus males, mas somente na medida em que esse mundo é criado de novo em Cristo e composto de indivíduos que recebem a sua salvação. Se os adversários do cristianismo esquecem a liberdade da vontade do homem e o caráter moral da influência que a religião exerce sobre ela, então combatem uma religião que não temos nenhum empenho em defender.

I, 130O CRISTIANISMO CUMPRIU A SUA MISSÃO.

A sua reivindicação confirmada. Pode-se afirmar com confiança que a Fé cristã justificou aquilo de que se gloria, quer olhemos de modo geral para a sua influência no mundo, quer para os seus triunfos específicos nos vários pontos já mencionados como a substância da apologia apostólica.

A SABEDORIA DIVINA NO EVANGELHO.

A doutrina cristã comparada com as outras. Que o cristianismo introduziu no mundo um sistema de doutrina digno de ser chamado divino é a alegação que ele mesmo apresenta, e uma alegação que pode ser sustentada: na verdade, só ele possui um sistema de doutrina. Todos têm de admitir que a sua exposição da verdade é, no mínimo, a mais compacta e perfeita que o mundo já conheceu; isso precisa ser reconhecido até por aqueles que levantam objeções a muitos dos seus dogmas particulares. Lembrando que a religião cristã significa os seus dois Testamentos, o que ela recebeu e o que ela criou, podemos dizer que apresenta um corpo de ensino que se declara dotado de autoridade sobre todos os assuntos de interesse para a humanidade (indo do céu à terra, da terra às coisas debaixo da terra e dali de volta ao céu), em comparação com o qual todo outro ensino que pertence à raça não passa de lenda e fábula. Não é exagero afirmar que quaisquer grandes verdades fundamentais que se encontrem em outros sistemas vêm, em forma mais nobre e em conexão mais coerente, dos lábios de Jesus e dos seus apóstolos. Há sem dúvida muitas grandes ideias espirituais que as religiões orientais, especialmente, têm em comum com o evangelho. Mas no evangelho elas ficam livres daqueles acréscimos que quase as deformam a ponto de não serem reconhecidas; e, o que é mais, são ensinadas como partes de um círculo de verdade vasto e literalmente infinito, cujo centro é Deus. Embora a circunferência mais externa desse círculo não esteja em parte alguma, a sua circunferência interna, que abrange as doutrinas estritamente humanas, é claramente definida e pode ser traçada em toda a volta, sem nenhum arco indistinto. É a compacidade, a completude e a coerência do sistema evangélico da verdade que sustentam a sua reivindicação de ser a sabedoria de Deus. Mas o argumento (na medida em que é argumento) será mais bem exposto se considerarmos o que se pode dizer em oposição.

I, 131Objeção dos mistérios. 1. Dificilmente seria uma objeção justa ao sistema cristão de ensino o fato de que ele, como um todo, está além do alcance da inteligência humana. As faculdades do homem são limitadas e não podem esperar compreender todos os mistérios da religião. Sabemos que estamos cercados de mundos inumeráveis, que não passam de partes do universo; mas, além do nosso próprio planeta, sabemos pouco até da natureza física: como podemos esperar compreender as coisas que dizem respeito ao espírito e ao Deus dos espíritos? Seja a verdade o que for, ela tem de transcender em todos os pontos a nossa capacidade. Mas pode-se alegar que muitas das doutrinas do cristianismo são incompatíveis com a razão, ou opostas às suas leis primárias do pensamento; de fato, isso é imputado até a todas as revelações fundamentais e peculiarmente cristãs da verdade. A Santa Trindade, segundo a qual na necessária unidade, ou unicidade, da essência divina há três Subsistências pessoais; a criação do universo físico e o começo da existência limitada; a provação e a queda de espíritos para sempre não salvos e da humanidade redimida, como algo que implica a dependência de um Ser Infinito em relação a acontecimentos contingentes; a encarnação do eterno Filho de Deus, uma só Pessoa em duas naturezas tão distintas quanto podem ser o Infinito e o finito; e o sacrifício vicário dessa Pessoa divino-humana pela raça humana; o enorme contraste entre este mundo insignificante e o preço da sua redenção; a doutrina do pecado original como algo que infecciona a raça e, no entanto, foi virtualmente coberto pela expiação no princípio, ou antes que ela começasse o seu curso, e efetivamente expiado na cruz depois de muitas eras, e apesar disso eternamente punido em muitos: estes são apenas exemplos de doutrinas absolutamente essenciais ao sistema cristão que, segundo se diz, militam contra os primeiros princípios do pensamento humano. Do mesmo modo, todo o registro do governo providencial do mundo, ao qual essas doutrinas estão ligadas, especialmente alguns dos fatos mais extraordinários da Escritura, como a série de severas intervenções e juízos divinos no mundo antigo e as profecias, no Novo Testamento, de outros ainda mais severos que estão por vir, provoca a rebelião do pensamento humano, que mede o Deus desconhecido por um padrão próprio. Contra essa classe de objeções ao cristianismo não há outro argumento senão aquele que o próprio cristianismo usa nas Escrituras do Novo Testamento. Tanto o Mestre como os seus apóstolos falam com plena consciência de que anunciam coisas totalmente além da compreensão humana e coisas que parecem contradizer a razão. A resposta deles a toda objeção é que todo o sistema da verdade divina está além e acima da mera crítica humana; e que, de fato, exige uma faculdade especial, e que essa faculdade seja especialmente iluminada do alto. Nisso estava a força do apelo de nosso Senhor a Nicodemos, que estava perplexo diante de um dos aparentes paradoxos da nova religião: Se vocês não creem quando falo sobre coisas terrenas, como crerão se eu lhes falar sobre as celestiais? (Jo 3.12). Esta é uma palavra de grande importância: a figura usada por nosso Senhor sugere que ele tinha mistérios a revelar, não tanto ele mesmo quanto por meio dos seus apóstolos, mistérios que estavam tão acima da doutrina comum, até então familiar, quanto o céu está acima da terra. O apóstolo Paulo também fala repetidas vezes da sabedoria de Deus em mistério (1Co 2.7): em mistério insondável. O apologista pode e deve tentar conciliar a razão humana, mostrando que as doutrinas mais difíceis introduzidas pelo cristianismo estão antes acima da capacidade de pensar do homem do que contrárias às leis do pensamento; que alguns tênues prenúncios da mais elevada de todas, a Santa Trindade, encontram-se na natureza e na constituição humana, e alguns tateios em busca dela, na maior parte das tradições das nações. Pode também apontar a perfeita unidade do sistema, que se sustenta ou cai com a sua tremenda doutrina do pecado: uma doutrina confirmada por todos os fatos da experiência humana e pelos instintos da consciência humana. Se tanta ênfase se põe na invasão e na supressão dos nossos princípios instintivos, então é lícito apontar para eles quando são favoráveis à doutrina cristã. Sem dúvida, o teor do ensino acerca do pecado está em harmonia com os pensamentos mais profundos do coração humano. Pode ainda apelar para a esperança instintiva de um porvir que iguale e reconcilie, e para aquela solução futura que está reservada para a vindicação dos caminhos da Providência. Mas, depois de tudo o que se possa dizer, os que defendem a Fé precisam contentar-se em usar um argumento que o homem, em seu orgulho irracional, despreza: o argumento que imita a Bíblia e se recusa a discutir com quem não A cruz doutrinária. aceita mais do que pode compreender. O cristianismo impõe uma cruz doutrinária, tanto quanto uma cruz ética. Em muitos casos, o fardo da Fé é a principal cruz ética: o fardo de que nosso Senhor disse, falando dos mistérios a ele confiados para os pequeninos: Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim! (Mt 11.29). Os seus escolhidos, em todas as épocas, se curvaram; e, embora isso não seja em si mesmo um argumento, é preciso lembrar que muitíssimos dos maiores intelectos entre os homens julgaram sabedoria levar essa cruz e encontraram, ao levá-la, o seu descanso. Esse descanso precisa ser buscado e encontrado.

I, 133Objeção da heresia. 2. A história da heresia na cristandade, as múltiplas perversões da doutrina dentro da Igreja e as intermináveis diversidades de opinião entre os próprios crentes são alegações das quais muito se tem feito uso. Não se pode negar que toda verdade foi pervertida, e que quase toda verdade foi negada, entre as comunidades que professam reter a Cabeça; e, além disso, que os mesmos documentos foram e ainda são tomados como padrão de apelação por defensores de opiniões muito opostas em alguns pontos importantíssimos. Mas esse fato indubitável é, no conjunto, antes a favor do sistema cristão do que em seu prejuízo. A verdade religiosa não é como a verdade matemática. Ela pertence ao regime da provação e não impõe o assentimento. Se fosse de outro modo, poderia ter banido do mundo todo erro no decorrer de uma única época. Mas tem contra si toda a força do pecado e do preconceito pecaminoso; e aqueles cuja vida ela não consegue reformar reformariam de bom grado o seu ensino. A Sabedoria de Deus no evangelho sempre travou, conforme a sua própria predição, um duplo combate: contra os erros do mundo de fora e contra os inimigos da sua própria casa. Para prevenir o argumento que poderia ser encontrado, e seria, na infidelidade dos que professam a sua religião, nosso Senhor deixou registrado o seu próprio testemunho de que muitos falsos profetas se levantarão e enganarão a muitos (Mt 24.11). Assim também são Paulo predisse as apostasias maiores e menores, e que os perversos e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados (2Tm 3.13). E são João resumiu o tema, declarando que a profecia já se tornara fato: também agora muitos anticristos têm surgido (1Jo 2.18-19). Além disso, ele transforma a existência e a multiplicação desses adversários de Cristo e da sua doutrina num argumento em favor da religião da qual eles se afastaram. Enquanto isso, as heresias passam, mas a verdade permanece para sempre (1Pe 1.25).

I, 134O PODER RELIGIOSO DO CRISTIANISMO PESSOAL.

Poder religioso pessoal. Os efeitos do cristianismo sobre o caráter de quem o abraça de coração e se submete à sua disciplina pessoal confirmam com toda a abundância a sua reivindicação de ser uma religião provida por Deus para o homem. Ele oferece, mediante a mediação expiatória de Cristo aceita pela fé, uma perfeita libertação do sentimento de culpa e um sistema perfeito de educação para a santidade. Esses são os elementos de uma salvação de que toda a humanidade necessita, e necessita igualmente: sabe-se que os anseios universais da raça os buscam desde que se conhece a história do homem. Destas duas grandes necessidades dependem todas as obrigações da religião. Ela tem de atendê-las, ou é inútil; e, se verdadeiramente as atende, nada deixa faltar. Ora, o cristianismo, em todo o seu ensino doutrinário e ético, mantém em vista essas duas exigências supremas. Torna tudo, por assim dizer, subordinado a elas. Professa mostrar a todo homem vivo o Caminho da Paz e o Caminho da Santidade: o método pelo qual ele pode obter o conhecimento da remissão dos seus pecados e a plena libertação da pecaminosidade da sua natureza. Promete a todo crente uma união consciente com o seu Deus: o poder de uma vida divina interior, que o torna feliz e santo e apto para a comunhão com a companhia do céu. Os testemunhos da Escritura sobre esses assuntos são confirmados por uma nuvem de inumeráveis testemunhas na história da humanidade, a começar pelos registros bíblicos e continuando até hoje. Contra esta evidência da verdade do cristianismo, como contra todas as outras, muitas coisas podem ser alegadas.

Objeções. 1. Pode-se dizer que esse tipo de argumento é inteiramente subjetivo e incorre em petição de princípio. Que a religião cristã faz tal reivindicação é evidente, e também que muitos supuseram ser testemunhas vivas da sua verdade; mas, diz-se, toda essa suposta experiência é, ou pode ser, resultado de ilusão, ou de imaginação, ou de uma fé forte numa ideia, fé que contribui muito para realizar aquilo mesmo que deseja. Ora, os efeitos produzidos pelo evangelho naqueles que se entregaram inteiramente ao seu domínio têm sido tais que nenhuma imaginação poderia produzir. Multidões sentiram alívio do fardo de uma consciência culpada, concedido gradual ou subitamente, e isso foi para elas como se, na linguagem de Jesus, tivessem passado da morte para a vida (1Jo 3.14) [N. do T.: a margem indica 1Jo 3.14; nos lábios de Jesus, a mesma expressão está em Jo 5.24]; e conheceram de modo consciente, como lhes ensinou são Paulo, o poder de Deus para a salvação (Rm 1.16). Foram persuadidas (pelo Espírito Santo, como pensam) de que os seus pecados foram apagados; e sentiram uma força sobrenatural para fazer o bem, suportar a aflição, vencer o próprio eu e sofrer por Deus, força cuja fonte atribuíram com confiança ao mesmo Espírito. Mas esse tipo de evidência o próprio Novo Testamento não se empenha em impor ao incrédulo. Ela está reservada para o encorajamento seguro dos que a recebem.

I, 135O fracasso do cristianismo. 2. Pode-se dizer ainda que a vida comum dos que professam a Fé, desde o princípio, não tem sustentado esse argumento: que o evangelho fracassou quando foi enviado pela primeira vez, acompanhado de auxílios miraculosos; que naquela época elevou somente um número muito seleto; e que as suas transformações e triunfos espirituais foram comparativamente poucos desde o princípio, tão poucos que com propriedade são chamados os eleitos. Aqui, de novo, o apologista tem pouco a dizer. Precisa admitir que a nossa religião travou guerra contra um poder forte na natureza humana, e que essa guerra muitas vezes foi vacilante ou malograda, mesmo entre os seus melhores adeptos. Mas, se concedemos que a influência do cristianismo é somente moral, e não física, não há no seu relativo fracasso nenhum argumento contra a sua própria divindade. As primeiras profecias do Novo Testamento predisseram exatamente o que tem acontecido; e, ao mesmo tempo, nos asseguram que o triunfo do evangelho se mostrará, no futuro, ter sido grandíssimo: muito maior, na verdade, em cada época, do que o olho humano poderia discernir.

Comparação com outros sistemas. 3. Mas a alegação mais insistentemente apresentada contra este argumento é a de que os melhores efeitos do cristianismo foram produzidos por outros sistemas, independentes dele ou contrários a ele. Quase todas as chamadas religiões naturais dos tempos antigos ou mais recentes têm nomes a apresentar que, segundo se pensa, não perdem na comparação com os santos da cristandade. As crenças orientais têm um catálogo admirável de devotos, tanto ascetas como místicos; e as filosofias grega e romana, que se gloriaram de homens como Sócrates, Sêneca e Marco Antonino, não ficam atrás delas. Esta é uma alegação que não é difícil pôr de lado, embora o método de fazê-lo possa parecer um tanto intolerante. Em primeiro lugar, nenhum verdadeiro defensor da nossa Fé nega que a piedade tenha existido fora da revelação direta. Os primeiros apologistas da Fé costumavam O Logos Spermaticus. deter-se muito naquilo que chamavam LOGOS SPERMATICUS, ou seja, o Filho de Deus pré-encarnado na raiz da natureza humana, ou como uma inspiração seminal da verdade entre os pagãos, ou a influência da luz do VERBO difundida por toda parte entre os homens, como declara o Novo Testamento (Jo 1.9). O esforço para encontrar aquele que os gentios buscavam às apalpadelas produziu alguns dos frutos mais nobres da árvore da moralidade humana. Ainda tenho outras ovelhas, não deste aprisco (Jo 10.16), disse o próprio nosso Senhor; e podemos supor que ele se admirou da fé de muitos, antes da siro-fenícia e do centurião e além deles, que envergonharam os filhos da revelação. Mas essa alegação às vezes é levada longe demais. Pode-se negar que, à parte do cristianismo, algum mortal já se tenha alegrado no perdão e na vitória perfeita sobre o pecado. Pelo contrário, a mais alta ética ensinada e exemplificada no paganismo careceu justamente das qualidades e prerrogativas às quais o ensino cristão dá a máxima ênfase. Não somente lhe faltaram essas qualidades, como também desesperou da possibilidade de alcançá-las. As expiações pagãs nunca foram consideradas, por aqueles que as ofereciam, como garantia de perdão da parte do céu; e a filosofia pagã nunca pretendeu levar a mais do que poucos, e a estes somente em grau limitado, a purificação completa da natureza.

I, 136Petição de princípio. 4. Por fim, diz-se, como já foi insinuado, que este é um argumento circular. Supomos que o cristianismo é verdadeiro porque produz certos efeitos que só ele mesmo declara serem divinos. E não podemos negar isso de todo. As evidências da Fé estão, por necessidade, profundamente contaminadas pela petitio principii [petição de princípio]. Do começo ao fim, o Novo Testamento apresenta os efeitos da sua própria proclamação do evangelho como obra de Deus. Ele acostuma o crente individual (e é ao indivíduo que agora nos referimos) a buscar o testemunho do Espírito divino e a contentar-se com ele; e, a respeito desse Espírito e da sua influência, afirma: Aquele que crê no Filho de Deus tem, nele, esse testemunho (1Jo 5.10). Se alguém perguntar como ele há de saber que essa influência secreta é o Espírito Santo, a resposta é que o Espírito Santo também diz: SOU EU! (Mt 14.27). E, afinal de contas, o refúgio final do cristão humilde há de estar na autenticação divina da Fé dentro de si mesmo.

I, 137O CRISTIANISMO RENOVANDO O MUNDO.

O cristianismo traz a redenção universal. O mundo está passando por um processo manifesto de libertação de todos os males que pesam sobre ele como fruto do pecado. A promessa que nosso Senhor fez naquele primeiro sermão em Nazaré (Lc 4.21-27) já se cumpriu a tal ponto que podemos predizer com confiança que se cumprirá por inteiro. Nenhum poder minimamente comparável ao cristianismo jamais atuou no mundo; na verdade, pode-se dizer que nenhum poder, a não ser o evangelho, jamais atuou de fato no mundo da humanidade como um todo. O judaísmo era o cristianismo dentro de uma esfera limitada, e apenas com a esperança do Cristo que veio. Mas, desde o dia de Pentecostes, a Fé de Jesus vem levedando toda a raça humana. Negativamente, ela tem elevado sem cessar o nível da moralidade universal e abolido os piores males da sociedade humana: mesmo além dos limites da sua própria comunhão, tem sido uma influência para o bem onde quer que se tenha feito presente. Tem travado uma guerra de extermínio contra todo vício já condenado pelo instinto ou pelas leis do homem, atenuando pelo caminho os males que está decidida a destruir, embora não possa destruí-los de imediato. Pode-se afirmar com ousadia que, onde quer que o cristianismo genuíno tenha sido acolhido, ele desaprovou, enfraqueceu e, no devido tempo, aboliu toda prática que corrompe a comunhão da humanidade como tal. Positivamente, introduziu a beneficência sob mil formas desconhecidas da Antiguidade, e obras de caridade até então sem nome; elevou e dignificou todas as nações que o receberam; e pode, com justiça, reivindicar como sua a civilização do mundo moderno. Também aqui as objeções surgem com demasiada facilidade: objeções, é preciso reconhecer, difíceis de tratar.

Objeção: as suas próprias corrupções. 1. É, infelizmente, uma alegação óbvia demais a de que a própria organização do cristianismo tem sido, em grande medida, flagrantemente corrupta. Muito cedo (para expor a alegação contrária no seu aspecto mais grave), a religião de Cristo, ou antes a sua forma exterior no mundo, caiu em tentação. Infiltraram-se erros tanto mais perigosos, e tanto mais humilhantes, porque nasceram da corrupção dos mais nobres princípios da fé. Não é necessário enumerar o que é impossível negar: que a Igreja, que deveria reformar o mundo, pareceu incapaz de manter-se pura. Não se pode responder a essa alegação sem humilhação por ser assim, e sem gratidão pela confiança que temos de que o firme fundamento de Deus permanece (2Tm 2.19). Quanto à resposta em si, ela é bastante simples. Assim como não é argumento válido contra a religião individual o fato de os piedosos poderem cair, também não é descrédito para o cristianismo como sistema o fato de estar sujeito à perversão. As causas dessa perversão são muito evidentes; o corpo coletivo não foi protegido contra elas por nenhuma defesa que interferisse nas leis do desenvolvimento histórico; e tanto nosso Senhor como os seus apóstolos predisseram as mesmas apostasias e decadências que de fato ocorreram. Além disso, os males e as corrupções que estorvaram a causa de Cristo nunca suprimiram de todo a sua influência salvadora no mundo. E, por fim, há muito tempo vem ocorrendo dentro da Igreja uma reforma constante, que resultará, segundo a profecia, em fazer dela um poder ainda mais eficaz para a conversão das nações.

I, 138Desenvolvimento lento. 2. Mas aqui surge uma dificuldade ainda mais séria. Alega-se, e tem-se alegado em todas as épocas, que a suposta economia reparadora do evangelho ou está, de um lado, arbitrariamente sob o controle soberano e eletivo de Deus, ou, de outro, depende da livre ação do homem; e que, em qualquer dos casos, é lenta e parcial demais para ser um alívio real e eficaz das misérias da humanidade como tal. Talvez nenhuma objeção ao plano cristão tenha pesado mais em mentes reflexivas do que esta. Parece duro que um plano divino para o resgate de um mundo sofra, em qualquer sentido, uma derrota, ou seja lento nos seus processos e parcial na sua operação. Isso seria de esperar de sistemas meramente humanos; mas certamente não do sistema que, segundo se diz, manifesta tanto a sabedoria como o poder de Deus. Os próprios fatos, mesmo à consideração mais superficial, são muito embaraçosos. As incontáveis multidões dos descendentes de Adão só foram levemente tocadas pelo evangelho: comparativamente poucos chegaram sequer a ver a árvore cujas folhas são para a cura dos povos, e menos ainda estenderam a mão para ela. Que se pode dizer diante dessas coisas? Quase nada além do que a própria Escritura diz sobre esse mesmo assunto. A demora do cristianismo em cumprir a sua missão, enquanto as gerações dos homens morrem à sua espera, é de fato um mistério insondável; mas não é argumento contra a Fé cristã para os que se lembram de que ela é um ramo de um plano infinito, cujas áreas, todas elas, são oprimidas ou glorificadas pelo mesmo mistério. E os que creem que o Criador opera por uma lei de evolução, que exigiu eras sem conta para a preparação da terra e uma longa série de desenvolvimentos antes de se chegar ao homem, não deveriam rebelar-se contra o processo lento da redenção do homem. Não há outra resposta senão o apelo ao mistério insondável que envolve o nosso ser, qualquer que seja a hipótese concebível. Não são sábios os que rejeitam o cristianismo porque ele não sonda até o fundo nem explica o enigma da vida: ele, pelo menos, vai incomparavelmente mais longe do que qualquer outra filosofia. Não podemos, com as nossas faculdades atuais, ou em todo caso com as nossas faculdades no seu presente estágio de disciplina, conciliar o conselho inescrutável de Deus, de um lado, e, de outro, o abismo profundo do domínio humano sobre o destino humano. Enquanto isso, a economia cristã está, com toda a certeza, realizando a redenção da família humana; não há no mundo nenhuma outra força que sequer tenha isso por alvo. Podemos predizer que ela dará fim aos pecados e trará a justiça eterna para a raça como tal. Podemos ter certeza de que virá o tempo em que todas as misérias e todos os males que a graça pode vencer serão vencidos e esquecidos; e de que a sabedoria de Deus prestará contas, no futuro, de tudo o que parece pôr em causa a sua bondade. Quanto às multidões de indivíduos que o evangelho parece esquecer, ou deixar de salvar pelo caminho, eles devem ser deixados com Deus e com o seu Cristo. Será que o Juiz de toda a terra não faria justiça? (Gn 18.25). Mas esse eterno Juiz de toda a terra, no conselho da redenção, confiou todo julgamento ao Filho (Jo 5.22); e lhe deu autoridade para julgar, porque é o Filho do Homem (Jo 5.27).

I, 139A PERSISTÊNCIA E A PERMANÊNCIA DO CRISTIANISMO.

Persistência do cristianismo. O cristianismo sustentou as suas outras credenciais, e acrescentou-lhes uma nova, com o fato da sua expansão inicial, da sua vida duradoura e da sua sobrevivência a toda forma de oposição. O seu triunfo sobre todos os assaltos dos seus inimigos, bem como sobre todas as contingências do tempo, foi predito por nosso Senhor para o encorajamento dos seus discípulos, quando anunciou pela primeira vez a fundação e o destino da sua Igreja. O primeiro uso do termo é muito sugestivo sob essa luz: sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela (Mt 16.18). É, ao mesmo tempo, o seu desafio e a sua profecia.

I, 140A EXPANSÃO INICIAL DA FÉ.

Expansão inicial do cristianismo. A história das primeiras vitórias do cristianismo reforça poderosamente as suas reivindicações. Como religião, ele tinha tudo contra si, e tão decisivamente contra si que, na suposição de que fosse apenas mais um culto novo introduzido por um inovador humano, ou, como diz são Paulo, uma aliança meramente humana (Gl 3.15), todo método de explicar a sua rápida difusão e o seu domínio fica frustrado. Nada na sua relação com o judaísmo lhe era favorável: o novo evangelho foi uma decepção miserável para o povo judeu; a sua proclamação de um Messias crucificado era escândalo para os judeus (1Co 1.23). Tinha poucos elementos de afinidade com os sistemas filosóficos da humanidade e não fazia nenhum apelo ao orgulho do intelecto humano: pregava uma doutrina fundamental que era loucura para os gentios, e até essa doutrina pregava loucamente. Na verdade, não veio com nenhuma doutrina formal; simplesmente reforçou, a princípio, as velhas verdades da religião natural, ensinadas por um novo Mestre, que precisava ser aceito antes que os seus mistérios fossem desvendados. É verdade que a Pessoa apresentada era suprema em excelência; mas os debatedores gentios não sabiam disso a princípio, e tudo o que sabiam era que ele sofrera uma morte infame. Se fosse aceito, haveria de ser como alguém que, desafiando toda lei da natureza, deixara o seu túmulo, mas não voltara, como seria de esperar, para viver entre os homens. Além disso, os homens que proclamavam o evangelho não podiam ser aceitáveis aos judeus, pois não eram rabinos; nem aos gregos, pois não eram filósofos; nem ao povo comum em geral, pois não traziam uma doutrina popular. O seu evangelho inculcava uma ética do mais grandioso caráter; mas virtudes como a mentalidade espiritual, o perdão ilimitado, a mansidão, o sacrifício de si mesmo, o desprezo por este mundo e a renúncia a todo bem no homem dificilmente atrairiam a atenção. Introduzia os seus adeptos numa sociedade que não tinha outro atrativo senão a sua simplicidade, nem outras recompensas senão a perseguição nesta vida. E, no entanto, em poucas décadas abalou o mundo e, em poucos séculos, subjugou-o.

I, 141Objeção: outros sistemas também triunfaram. 1. Contra isso alega-se que o poder de uma grande ideia, devidamente representada, tem dominado poderosamente, em todas as épocas, a mente dos homens, e que o cristianismo foi apenas mais um exemplo disso, e não realmente mais influente do que alguns outros. Algo no estado do mundo predispunha-o para a ideia peculiar de redenção introduzida por Jesus e pelos seus apóstolos; e não é necessário (assim corre o argumento) que conheçamos esse segredo peculiar. Mas pode-se negar absolutamente que algum sistema de pensamento religioso tenha jamais conquistado toda espécie de pessoas e despertado uma devoção tão perfeita. O bramanismo, o budismo e as outras religiões orientais nunca sequer pretenderam ser forças para o mundo; e, embora existam há muito tempo, tendem à extinção, e o nirvana de uma delas está escrito sobre todas. O maometismo viveu da verdade que tomou emprestada da Bíblia, e só se espalhou pela força secular: governou, de fato, uma grande porção do globo; mas há muito perdeu o seu caráter missionário. O cristianismo, em todos os aspectos, não tem igual. Naturalmente, não há força demonstrativa no mero argumento do êxito; nem haveria, se o êxito tivesse sido muito maior. Mas pelo menos se pode dizer que, junto com outras razões, este tem grande força: à parte de um poder divino, não há na religião do Cristo mistério maior do que os seus primeiros triunfos.

A sua vantagem interna. 2. Mas, embora houvesse muita força externa a se opor à expansão do cristianismo, tem-se argumentado que havia nele muita coisa que favorecia naturalmente a sua difusão. Construiu-se uma tese sutil a partir da concorrência de circunstâncias felizes (Gibbon, cap. XV): por exemplo, o zelo puro e veemente dos cristãos, a sua nova doutrina de uma vida futura, os poderes miraculosos que lhes eram atribuídos, a sua moral austera, a união, a disciplina e o vigor da sua comunidade. Mas é evidente que esse estilo de argumento presta, na realidade, um alto tributo à nova Fé, ao passo que tem pouca força como explicação humana dos seus triunfos. O raciocínio aponta, sem o perceber, para aquele mesmo Dedo de Deus que pretende retirar dos negócios humanos, se não abolir de todo.

I, 142O CONFLITO COM O JUDAÍSMO.

Judaísmo. Peculiaridade da oposição judaica. 1. O judaísmo foi o primeiro inimigo que o cristianismo encontrou e tem sido, em todas as épocas, o mais virulento, se não o mais temível. A sua oposição teve esta peculiaridade: manifestou-se contra o Fundador da Fé; de fato, foi o único adversário humano e visível que ele enfrentou na terra. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam (Jo 1.11). Durante todo o curso do seu ministério, mas especialmente perto do fim, quando se tornou conhecida a sua reivindicação de ser o Messias, ele foi perseguido pelos representantes do judaísmo. Isso deu uma ênfase peculiar ao seu dito: os inimigos de uma pessoa serão os da sua própria casa (Mt 10.36). Jesus surgiu no meio da nossa raça como membro da casa judaica, para aperfeiçoar e glorificar a antiga religião. Os seus irmãos segundo a carne, pela sua malícia e cegueira, provocaram, de um modo que jamais imaginaram, a consumação e o fim da sua própria religião e lei nacionais. E o resultado da inimizade deles, na morte do Messias, foi um cumprimento extraordinário da profecia e uma prova da verdade das reivindicações dele. Quando entramos em Atos, vemos que a primeira disputa do evangelho foi, em toda parte, com os judeus; e que, na maioria dos lugares, embora não em todos, a causa de Jesus triunfou. Não foi só em Jerusalém que um grande grupo de sacerdotes obedecia à fé (At 6.7). Mas nem nos Evangelhos nem em Atos o triunfo do cristianismo sobre o judaísmo é descrito de modo a fazer dele um argumento da divindade da religião cristã. Antes, poderia parecer que o argumento é a própria inimizade persistente dos judeus, por ser tão diretamente o cumprimento de uma predição: Bem falou o Espírito Santo aos pais de vocês, por meio do profeta Isaías, quando disse: Vá a este povo e diga: Ouvindo, vocês ouvirão e de modo nenhum entenderão; vendo, vocês verão e de modo nenhum perceberão (At 28.25-28).

A conciliação inicial. 2. Durante os primeiros séculos, manteve-se uma polêmica feroz entre os cristãos e os judeus. A princípio, pareceu que se chegaria a uma conciliação. Um grupo considerável de convertidos judeus recebeu Jesus como o Messias, mas apenas como o maior dos profetas e como suscitado para o povo antigo; os demais só seriam admitidos a esses privilégios se se submetessem ao rito de iniciação deles e se comprometessem a guardar a lei. Mas, quando esse expediente falhou, e o cristianismo que encontrou a sua expressão final nos escritos de são Paulo ganhou a ascendência, ele sofreu a oposição amarga do povo antigo, e tanto mais amarga porque atribuíam a Jesus e à sua religião a ruína Crescimento e diminuição. da sua comunidade política. Mas o judaísmo, a mãe, declinou, e o cristianismo, a filha, triunfou. De geração em geração, tem havido uma inimizade incessante entre o Israel segundo a carne e o verdadeiro Israel cristão segundo o Espírito; mas, qualquer que seja o critério adequado que se aplique, temos de nos convencer de que o Messias cristão alcançou para si a vitória. O judaísmo dele, renovado, ampliado, batizado e aperfeiçoado, vive na terra; o judaísmo que ainda se apega à lei e ainda espera por Outro vive, de fato, mas, mesmo vivo, está morto. Ele teve as suas escolas de erudição e nomes de alta excelência. Também manifestou uma virtude admirável nas suas obras de caridade, na sua indestrutível firmeza da esperança (embora uma esperança que há de decepcionar) e na sua mansa resignação diante de injustiças sem paralelo, muitas vezes vindas de mãos cristãs. Mas, como sistema, está morto, duplamente morto; e jamais poderá ser revivido. Além disso, é notável que os maiores intelectos produzidos pelo judaísmo moderno (Maimônides e Espinosa, este último especialmente) tenham feito muito para abalar as ideias religiosas da humanidade.

I, 143O argumento. 3. Mas o conflito comovente e antinatural entre o cristianismo e o judaísmo é, em si mesmo, e independentemente de qualquer grande êxito, um forte argumento em favor da causa cristã. Ambos os sistemas têm extensão mundial; ambos permeiam, ou prometem permear, a terra inteira; mas quão inteiramente diferentes são os resultados do avanço de cada um! Um avança numa carreira de beneficência, no curso da qual varre todos os sistemas de idolatria, crueldade e injustiça. O outro simplesmente se espalha pela terra sem nenhuma missão nem pretensão de missão: em obediência, por assim dizer, a algum destino ou compulsão absoluta. Por que os judeus estão dispersos entre as nações, mais ou menos desonrados por todos, e, apesar das ideias esclarecidas do nosso tempo, nunca capazes de se livrar da proscrição universal que pesa sobre eles, é um mistério que só pode ser resolvido pelas suas próprias Escrituras, que agora já não são deles, mas nossas. Nelas, tal como interpretadas pelo Novo Testamento, a razão é dada com tanta clareza que pode ser lida até por quem passa correndo. Ela remonta à própria origem deles: O Senhor os espalhará entre os povos (Dt 4.27). E tem uma segunda data, que é o ponto de virada da história da humanidade: Que o sangue dele caia sobre nós e sobre os nossos filhos! (Mt 27.25). Moisés predisse que, se praticassem o que é mau aos olhos do Senhor (Dt 4.25), deixariam de desfrutar a sua herança: vocês serão imediatamente eliminados da terra da qual, passando o Jordão, vocês tomarão posse. Vocês não prolongarão os seus dias nela; pelo contrário, serão totalmente destruídos (Dt 4.26). A destruição total, nas ameaças divinas, nunca é aniquilação. O antigo povo de Deus saiu da sua presença, como Caim; e foi posto sobre ele um sinal, para que não fosse exterminado, mas permanecesse como demonstração duradoura da verdade do Messias que rejeitou, cuja eliminação, MAS NÃO POR SI MESMO (Dn 9.26), foi o que ele praticou de mais MAU AOS OLHOS DO SENHOR [N. do T.: Pope segue a KJV, “o Messias será eliminado, mas não por si mesmo”; a NAA traz “o Ungido será morto e não terá nada”].

I, 144O CONFLITO COM O PAGANISMO.

Paganismo. A luta inicial. 1. Quando o cristianismo apareceu, as religiões gentias estavam, ao mesmo tempo, no seu melhor e no seu pior: tinham alcançado o mais alto resultado da sua sabedoria e da sua arte, mas tinham também descido ao ponto mais baixo da sua impotência moral. O mundo nunca foi tão culto, nem tão vil eticamente. Mas tanto a força como a fraqueza do paganismo se armaram contra a nova fé, que foi o alvo dos ataques convergentes de todas as forças do mundo gentio. O cristianismo, durante os três primeiros séculos, foi naturalmente agressivo, além de perseguido. As dez perseguições imperiais foram apenas uma reação do paganismo contra uma perseguição espiritual que ele próprio tinha de suportar de uma religião que não poupava nenhuma das suas fraquezas e cobria de desprezo todos os seus erros. Essa religião prosperou apesar de todo ataque; e expulsou para as aldeias a mais poderosa mitologia que o mundo conhecera, e daí esta tirou o nome de PAGANISMO [N. do T.: do latim pagus, aldeia; daí paganus, aldeão]. Aquilo que fora estigmatizado como Exitiabilis Superstitio [superstição funesta] [N. do T.: expressão de Tácito, Anais XV, 44] obrigou, antes do século IV, todas as nações civilizadas do império a prestar-lhe homenagem. Tentou-se reviver o paganismo sob Juliano, o Apóstata; mas a tentativa fracassou de modo notório. As grandes apologias do século II nunca foram respondidas. E quando, um pouco mais tarde, os defensores das religiões antigas e esgotadas lançaram sobre o cristianismo a culpa da decadência e da ruína do império, o tratado de Agostinho De Civitate [A Cidade de Deus] e outros escritos semelhantes silenciaram para sempre o argumento do paganismo. Embora muitas causas externas tenham concorrido para ajudar a religião cristã a ganhar ascendência, o veredicto imparcial da história tem de ser que foi o seu próprio poder interior que lhe deu a vitória. E esse poder foi o Espírito Santo, que, em Cristo, a conduzia em triunfo (2Co 2.14).

I, 145Vitória sobre o paganismo que corrompeu o cristianismo. 2. Esse triunfo do cristianismo é tanto mais notável porque, ao conquistar, ele próprio foi contaminado por muitos dos erros que desalojou. Quase nenhuma forma de superstição foi vencida sem contribuir com a sua parcela de corrupção para a fé de Jesus. As heresias, antigas e posteriores, foram em grande parte resultado da infusão do velho fermento dos modos de pensar orientais e clássicos. A filosofia gentia foi vencida; mas as suas flechas partas deixaram o seu veneno [N. do T.: alusão aos partos, que disparavam flechas enquanto batiam em retirada]; e a superioridade final do cristianismo ortodoxo sobre os erros sutis do gnosticismo, do maniqueísmo e do misticismo panteísta, bem como sobre as superstições do sacramentalismo materialista em tempos posteriores, manifestou o seu poder eterno não menos do que a sua supressão original do erro pagão. Se tomarmos uma visão ampla e universal da história cristã no seu desenvolvimento doutrinário, veremos que tem havido uma vitória constante e contínua da verdade sobre todas as formas da mentira gentia, quer fora, quer dentro da Igreja. Nenhuma arma forjada contra ela, por mais vezes que reapareça, acabou prosperando.

Sobre todo o paganismo. 3. Nenhuma espécie de paganismo jamais resistiu eficazmente ao poder da religião cristã. Nem sempre o seu modo de ataque esteve em harmonia com os seus próprios preceitos. Com demasiada frequência, a sua guerra contra as velhas idolatrias e superstições esteve em harmonia com aquele espírito que o Senhor condenou (Lc 9.55) nos seus filhos do trovão (Mc 3.17). Algumas vezes imitou os métodos violentos do maometismo ou empregou as astutas ciladas do grande enganador. Mas nunca faltou uma propagação honesta e verdadeira. E o resultado sempre correspondeu ao alto alvo e à alta pretensão do evangelho. Ele suplantou um sistema após outro no Sul, no Oeste e no Norte. Só as superstições orientais pareceram desafiar o seu poder. Mas estas vão cedendo, lenta e seguramente. São as forças mais antigas do paganismo e, numa tranquilidade aparentemente inabalável, sobreviveram à queda de uma multidão de outros sistemas; mas estão seguramente sucumbindo à verdade, que existia antes delas, e cumprindo as predições que tornam certa a expansão universal do evangelho. Nelas a palavra terá a sua dupla verdade: muitos primeiros serão últimos em ceder; e os últimos serão primeiros na demonstração da glória do nosso Senhor (Mt 19.30).

I, 146A sua supremacia final. 4. Em suma, um exame sereno do estado do mundo sob a influência da religião cristã levará todo estudioso filosófico da história à conclusão de que o Cabeça da Igreja certamente se tornará o Senhor de toda a terra. A profecia humana, guiada pelas luzes do passado e pela analogia do presente, há de concordar com a profecia divina ao predizer isso. Na luta pela existência, se condescendermos em usar a fraseologia corrente, a sobrevivência estará do lado do cristianismo. Dê-se a ele tempo suficiente, e ele suplantará todos os outros sistemas, mesmo sem intervenções supremas do Espírito. Aniquilou muitos; transformou alguns; tocou a todos com o penhor de uma mudança fundamental. O mistério do seu lento desenvolvimento é, em alguns aspectos, insondável. Mas a sua supremacia final é, para o cálculo humano, a mais alta probabilidade possível; para a fé na palavra da revelação, é tão certa quanto a existência de Deus. E o seu triunfo passado, presente e futuro é a sua credencial irresistível.

O CONFLITO COM AS RELIGIÕES NATURAIS.

Religião natural. Não no princípio. 1. Já vimos que o ensino de Cristo é tanto uma republicação dos princípios originais da religião natural quanto uma ampliação da religião do judaísmo. Ele repousa sobre essas duas como suas colunas, na medida em que é uma religião, isto é, um sistema de observâncias, de moral e de culto, que é tudo o que significa religião ou θρησκεία. O cristianismo, porém, é uma grande revelação, um desvelamento, do mundo sobrenatural, ou da ordem sobrenatural das coisas; e contra tudo o que ele traz além e acima do ensino da natureza tem havido, desde o princípio, um protesto. De fato, as primeiras apologias estão repletas de argumentos que defendem a religião de Jesus contra os que afirmavam a suficiência da luz da natureza. Mas a vitória sobre os adversários dessa classe era fácil então, pois o mundo estava havia muito acostumado à ideia de intervenções celestes. A Antiguidade, que na realidade nada tinha senão as tradições de uma revelação perdida, ou o que se chama religião natural, nunca deixou de ter a forte convicção de que possuía, ao mesmo tempo, algo muito melhor. Dificilmente teria compreendido a força de qualquer argumento contra uma revelação enquanto tal.

I, 147Deísmo. 2. Talvez o primeiro, e certamente o mais influente, desenvolvimento da oposição ao cristianismo nessa linha de pensamento foi o DEÍSMO, a forma assumida pela incredulidade inglesa nos séculos XVII e XVIII. Nesse ataque contínuo à Fé combinaram-se muitos elementos. Foi uma aplicação à teologia da nova filosofia da indução e da experiência, coisa que Bacon nunca pretendeu, e também uma aplicação da filosofia sensualista, coisa que Locke nunca pretendeu; mas foi principalmente uma tentativa de mostrar que os princípios da religião natural tornam supérflua uma revelação sobrenatural, que os documentos e as evidências da suposta revelação sobrenatural contradizem a luz da natureza, e também que esses documentos, em si mesmos, não merecem confiança. Quanto a este último ponto, em que os deístas ingleses foram seguidos pelos críticos destrutivos da França e da Alemanha, será preciso dizer mais quando os documentos estiverem em consideração. Também o racionalismo que está por baixo de todo esse sistema de ataque deve ser examinado em outro lugar. Por enquanto, basta dizer que a revelação cristã não apenas sobreviveu à incredulidade, ou deísmo: venceu-a. A força desse sistema, a sua crença teísta em Deus e a sua adesão aos princípios da teologia natural, provou ser a sua fraqueza. O argumento da Analogia [N. do T.: alusão a A analogia da religião (1736), de Joseph Butler] foi aplicado triunfalmente para mostrar que quem crê num Deus que governa o curso e a constituição da natureza não deve rejeitar a revelação da Bíblia, que apenas introduz uma extensão mais ampla, ou uma visão maior, do mesmo plano do mesmo Deus. Isso silenciou toda oposição racional à Fé cristã; e, neste caso, silenciar a oposição é vencer. Como disse o nosso Salvador: vocês creem em Deus, creiam também em mim (Jo 14.1).

O CONFLITO COM O PENSAMENTO CIENTÍFICO.

O cristianismo e a verdadeira ciência. 1. De modo geral, nunca houve oposição entre o cristianismo e a verdadeira ciência. Pois o cristianismo professa ser, e é, uma apresentação científica da filosofia mais ampla e abrangente jamais exposta à humanidade. Daí são Paulo falar de contradições da ciência falsamente assim chamada (1Tm 6.20) [N. do T.: a NAA traz “contradições daquilo que falsamente chamam de ‘conhecimento'”; Pope segue a KJV, que diz science, “ciência”, e é nessa palavra que o argumento se apoia]. A verdadeira ciência, ou o conhecimento disciplinado e formulado, não pode deixar de respeitar o sistema de pensamento que conquistou a homenagem de uma parcela tão influente da humanidade. Não é exagero dizer que nenhum princípio de pensamento merece ser chamado de filosofia, e que nenhum resultado do pensamento merece ser chamado de ciência, se puder desprezar a Fé cristã. Sobre este assunto, porém, o suficiente se encontrará em outro lugar. Por enquanto, é uma das evidências da verdade da nossa religião o fato de ela ter sobrevivido ao ataque de muitos sistemas de falsa ciência. Em todas as épocas passadas, ela recebeu a homenagem dos melhores intelectos e dos mais sérios cultivadores da verdade, tanto física quanto metafísica. Isso vale também para a época presente. E pode-se dizer com segurança que o verdadeiro cristianismo é aceito por um número muito maior de pensadores rigorosos e sólidos do que o que se encontra a serviço de qualquer ramo particular da oposição científica, ou talvez de todos os ramos da oposição científica somados.

I, 148A ciência e o falso cristianismo. 2. Sendo isso verdade, pode-se admitir que só é verdade quanto ao cristianismo genuíno. Em todas as épocas cristãs houve um desenvolvimento malsão de certas doutrinas, contra o qual a ciência sã protestou com êxito. A Fé cristã não deve ser responsabilizada pelos acréscimos dos homens; e não pode haver dúvida de que aprouve a Deus repreender, por meio do ministério da erudição humana, muitos erros que obscureceram ou perverteram a Fé. Durante a Idade Média, a autoridade da Igreja armou-se em favor de falsas interpretações da Escritura, e a ciência veio em socorro da simplicidade da verdade. A cristandade teve muito que desaprender e muito que aprender no seu contato com a crítica e a pesquisa científicas. Talvez ainda tenha algo a desaprender e a aprender: muitos auxílios importantíssimos para a solução de dificuldades, a remoção de obstáculos e a conciliação de contradições aparentes na exegese da Escritura podem ser oferecidos, e certamente serão, pelas investigações de eruditos e de estudiosos das ciências naturais. A ciência forneceu a chave para abrir algumas das câmaras escuras da cosmogonia. E, assim como a origem das coisas é mais bem compreendida desde o surgimento da geologia moderna, assim também a origem do homem é e será mais bem compreendida quando o caos da antropologia moderna ganhar forma. Se em algum caso parecer que um resultado claro da ciência indutiva se choca com a Escritura ou com a religião cristã, ficará claro, como ficou em tempos passados, que a contradição não é real: ou a Escritura e a verdade particular em questão foram mal compreendidas, ou a própria indução científica talvez precise ser corrigida, ou é preciso esperar algum fato mediador ainda desconhecido. Há muito terreno comum à ciência e à Fé na arqueologia, na cronologia, na antropologia e na história da Escritura, ainda não plenamente explorado. Enquanto isso, a ciência, nesta relação, é comparativamente jovem, e o cristianismo é absolutamente antigo. O fundamento das verdades eternas que compõem as relações entre Deus e o homem nunca foi abalado pela sólida erudição e pesquisa humanas. Em muitos pontos contestados há, sem dúvida, muita controvérsia. Mas a religião nada tem a temer; e é um consolo, embora secundário, que esta seja a firme convicção de muitos que são, ao mesmo tempo, os mais profundos estudiosos da ciência moderna e os mais humildes discípulos da Sagrada Escritura.

I, 149A falsa ciência. 3. Há, porém, uma falsa ciência, uma ψευδώνυμος γνώσις (1Tm 6.20), que resistiu absolutamente ao cristianismo desde o princípio e que hoje se opõe a ele com uma agudeza crítica peculiar. Também a esta o cristianismo venceu no passado; e, embora a questão ainda esteja pendente, sairá vitorioso agora. Essa ciência é uma só, com muitas formas; e pode ser chamada de falsa, porque os seus princípios fundamentais não são científicos, já que destroem os alicerces de todo conhecimento humano. Se é ciência, é a ciência da nesciência: uma contradição de termos. O ceticismo, ou a suspensão do juízo em muitos pontos, pode ser tolerado; embora o ceticismo universal seja inteiramente alheio ao espírito da Bíblia, que apela ao senso comum da humanidade contra o caos tanto do ceticismo universal quanto da nesciência universal. O mesmo se pode dizer da ciência panteísta: embora fundada num princípio que conquistou a homenagem de muito pensamento humano em todas as épocas, ela não é científica, pois aniquila a distinção, ou pelo menos a distinção permanente, do sujeito pensante, cujos fenômenos passageiros não podem constituir conhecimento. O cristianismo venceu o panteísmo, pelo próprio fato de que os mais nobres panteístas, os filósofos místicos medievais e os transcendentais alemães, procuraram cristianizar o seu sistema e, de fato, o sustentaram como cristãos. Onde o panteísmo não se apoiou na doutrina cristã da Trindade, não teve aparência alguma de precisão científica: o sistema matemático de Espinosa morreu com ele. O positivismo é a suprema ilusão do século XIX: professando ser ciência segura e absoluta em todos os domínios, deixa de fora os fenômenos inumeráveis que a revelação, com o consentimento geral de toda a verdadeira ciência, ensinou o mundo a chamar de espirituais. O materialismo é a forma moderna do ateísmo que parece ameaçar o domínio da religião sobre a mente dos homens. É o último e o mais intransigente dos seus inimigos: nunca, nas épocas anteriores, se levantou com algo parecido com força, e agora parece encorajado a atacar a Fé com o auxílio da ciência física. Mas a ciência sólida terá, mais cedo ou mais tarde, de repudiar inteiramente um sistema que abole as noções de causa e efeito, de todas as causas finais e de todos os fins, e que afirma, diante da evidência mais absoluta, a origem espontânea da vida. A maior parte dessas formas da ciência falsamente assim chamada será considerada no lugar apropriado. Aqui basta dizer que elas se opuseram ao cristianismo em vão. A religião de Cristo, com os seus documentos mais antigos e mais recentes, dá uma explicação grandiosa e coerente de todas as coisas, embora em alguns pontos misteriosíssima e insondável. Pode-se dizer que ela já venceu todos os sistemas e hipóteses que são apenas destrutivos e não têm princípios positivos nem explicações próprias para pôr no lugar do que retiram.

I, 150O ESPÍRITO SANTO, A ÚLTIMA CREDENCIAL.

Demonstração do Espírito Santo. Nenhuma visão das credenciais da revelação divina está completa se omitir uma referência explícita ao Espírito Santo, cuja influência especial acompanha a Verdade como o seu selo, a sua demonstração e a sua certeza. Já foi necessário referir-se a isso, e no devido tempo isso será exposto mais plenamente, sob outros aspectos e relações. Aqui basta estabelecer este princípio como a soma e a conclusão de toda a questão: só o Espírito de Deus e de Cristo dá a todas as evidências a sua força e concede aos que as consideram com sinceridade tanto a fé que crê quanto a confirmação dessa fé. Além disso, embora possa parecer uma palavra dura, o segredo da rejeição incrédula da revelação cristã deve ser atribuído a uma resistência, implícita ou explícita, ao seu testemunho indefectível e imparcial. A presença do Espírito Santo, prometida, garantida e concedida, é a última e suprema credencial da Fé.

I, 151ESTA CREDENCIAL NO NOVO TESTAMENTO.

O apelo a ela no Novo Testamento. Bastará indicar a força dos testemunhos da Escritura sobre este assunto: testemunhos que formam uma série ininterrupta, cujo curso pode ser facilmente acompanhado pelos seguintes exemplos principais do seu uso e da sua aplicação.

O testemunho de Jesus. 1. O nosso Senhor, ao lançar o fundamento da Fé, declara que o Espírito da verdade convenceria a incredulidade do mundo: do pecado, porque eles não creem em mim (Jo 16.8-9,13). Além disso, prometeu esse mesmo Espírito como poder, ao descer sobre vocês o Espírito Santo (At 1.8), poder pelo qual os seus apóstolos seriam testemunhas competentes dele mesmo. É evidentíssimo que o Cabeça da Fé atribui ao Espírito a função de fazer valer as credenciais dela. O Senhor não poderia ter dito de modo mais expresso que a causa do cristianismo seria defendida para sempre por este Advogado, ou Paráclito. Assim, os primeiros pregadores do evangelho apelaram para esta credencial, ou confiaram neste Advogado. São Pedro diz dos fatos: todos nós somos testemunhas (At 2.32); mas em seguida aponta para o testemunho do Espírito Santo: derramou isto que vocês estão vendo e ouvindo (At 2.33). E, mais tarde, de modo mais expresso: nós somos testemunhas destes fatos, nós e o Espírito Santo, que Deus deu aos que lhe obedecem (At 5.32). Os apóstolos falam com a consciência de uma Testemunha mais alta por trás do testemunho deles, de cuja energia eficaz esperam a demonstração das suas palavras. Todo o ministério apostólico ilustra a mesma verdade. As testemunhas humanas fazem o melhor que podem, expondo, como diz são João, acontecimentos inegáveis: o que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos próprios olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam, a respeito do Verbo da vida (1Jo 1.1). Mas nunca se apoiam somente nisso. Há uma evidência concomitante: o testemunho de Deus é maior (1Jo 5.9), declara o mesmo apóstolo; e, em clara alusão às palavras do Mestre, acrescenta: E o Espírito é o que dá testemunho, porque o Espírito é a verdade (1Jo 5.6): καὶ τὸ Πνεῦμά ἐστι τὸ μαρτυροῦν, ὅτι τὸ Πνεῦμά ἐστιν ἡ ἀλήθεια, como se o próprio Espírito fosse a testemunha de que ele mesmo é a verdade; ou, como traz a Vulgata, quoniam Christus est Veritas [porque Cristo é a Verdade]. Assim, o Novo Testamento se encerra, na epístola de são João, com a grande verdade de que o Espírito Santo, dado pelo Pai, é a prova permanente e, por assim dizer, oficial, no mundo, de que Deus deu o seu Filho. Aquele que crê no Filho de Deus tem em si mesmo a Testemunha (1Jo 5.10) [N. do T.: a NAA traz “tem, nele, esse testemunho”; Pope segue a KJV, “hath the witness in himself”, e escreve Witness com maiúscula, entendendo ao mesmo tempo o testemunho e o Espírito que o dá]. Fora dele mesmo, e objetivamente, está o Salvador que veio por meio de água e sangue (1Jo 5.6): o crente recebe as evidências externas da missão de Jesus, tanto no seu início, pelo batismo, quanto na sua consumação, na cruz. Mas o Espírito é a Testemunha suprema dentro do testemunho.

I, 152A razão da incredulidade. 2. A esse respeito, é muito importante lembrar que são Paulo atribui, clara e inequivocamente, a presença efetiva da incredulidade quanto à revelação cristã à rejeição do Espírito. Ele diz aos coríntios, depois de lhes lembrar que, quando eram gentios, se deixavam conduzir aos ídolos mudos, conforme vocês eram guiados, que ninguém pode dizer: “Senhor Jesus!”, senão pelo Espírito Santo, palavras que vêm depois da sua contrapartida: ninguém que fala pelo Espírito de Deus afirma: “Anátema, Jesus!” (1Co 12.2-3). Mais acima, ele já dissera que a fé se apoia no poder de Deus, isto é, em demonstração do Espírito e de poder (1Co 2.4-5). Essas passagens confirmam o princípio estabelecido de modo geral no Novo Testamento: há um sentido em que a fé na revelação cristã é dom de Deus; um dom, isto é, concedido em conexão com o uso prudente e orante das nossas próprias faculdades. Daí são João ratificar o todo, no fim da Escritura, dizendo que todo cristão verdadeiro que crê no Filho de Deus tem em si mesmo a Testemunha (1Jo 5.10): tem, isto é, tanto o testemunho quanto aquele que o dá, dentro da sua própria alma, como fonte permanente de certeza. O Espírito é o que dá testemunho (1Jo 5.6), não apenas da aceitação pessoal subjetiva, mas também da grande verdade objetiva que é o fundamento dessa aceitação, a saber, que Jesus é o Filho de Deus (1Jo 5.5). Assim como a unção do Espírito Santo foi o selo do Pai sobre a missão do seu Filho, porque Deus, o Pai, o confirmou com o seu selo (Jo 6.27), assim A MESMA UNÇÃO, descendo dele até a orla das suas vestes (Sl 133.2) [N. do T.: a NAA traz “desce para a gola de suas vestes”; Pope segue a KJV, “to the skirts of his garments”, a orla mais baixa do manto, e é nessa imagem que ele se apoia], é o selo que nos assegura a verdade da sua missão e a realidade da nossa parte nele. Por isso são João diz com confiança: vocês têm a unção que vem do Santo e sabem todas as coisas (1Jo 2.20,27): todas as coisas, isto é, a respeito da diferença eterna entre Cristo e o Anticristo [N. do T.: a NAA traz “e todos têm conhecimento”, seguindo outra leitura do grego; Pope segue a KJV, “ye know all things”, e o comentário dele se apoia nessas “todas as coisas”]. Essa unção do Santo, o Revelador, pode não instruir em todos os mistérios, seja da natureza, seja da graça; mas, se recebida com fé humilde, serve a dois propósitos: torna o crente confiante naquele em quem confia como Salvador; e o capacita a discernir o mentiroso, aquele que nega que Jesus é o Cristo (1Jo 2.22).

I, 153O SEU VALOR PRÁTICO.

O valor desta evidência. Este é o simples esboço de uma doutrina sobre o testemunho objetivo e subjetivo do Espírito divino, que o Novo Testamento inteiro preenche. Uma consideração cuidadosa da corrente do seu ensino sobre este assunto convencerá a todos, sejam estudantes, pregadores ou defensores do cristianismo, de que o apelo à demonstração do Espírito Santo, que nunca está ausente, é a sua âncora de salvação, para si mesmos, e o seu último apelo, diante dos outros.

Os limites da obrigação. 1. Como apologistas da religião em que cremos, devemos lembrar, para nosso encorajamento, os limites da nossa própria obrigação. São Pedro ensina aos primeiros cristãos, que, como nós, seus descendentes, tinham de defender o seu credo, que era dever deles estar sempre preparados para responder a todo aquele que pedir razão da esperança que vocês têm, com mansidão e temor (1Pe 3.15-16). Temos a obrigação de fornecer, em favor da Grande Esperança, os melhores argumentos que a nossa erudição e a nossa diligência possam oferecer. Isso, sem dúvida, nos é exigido; mas nada além disso. Afinal, a Fé não está sob a nossa guarda, mas sob a do Espírito Santo. Se felizmente conseguirmos desarmar a oposição, ou obter atenção, ou despertar os começos da confiança, a glória é de Deus: “Não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito”, diz o Senhor dos Exércitos (Zc 4.6). Se falharmos e os nossos adversários endurecerem o coração, não devemos ceder a um desânimo como o de Jonas, nem cair na armadilha do nosso próprio insucesso: devemos lembrar que o nosso Mestre cuidará disso e mostrará, no tempo dele, qual foi a palavra que se cumpriu, a minha ou a deles (Jr 44.28).

I, 154A pregação. 2. Também como pregadores, na tranquilidade e na confiança reside a força de vocês (Is 30.15). Devemos cultivar uma confiança absoluta num certo testemunho divino secreto, que é infalivelmente dado a toda verdade que anunciamos, por mais fracamente que a proclamemos, contanto que a proclamemos com fidelidade. Aqui temos o exemplo dos apóstolos, que argumentam e persuadem com grande fervor, mas, com a máxima calma, deixam o resultado com Deus: mas, como vocês a rejeitam e se julgam indignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os gentios (At 13.46). Temos, porém, um exemplo mais alto que o dos apóstolos. O nosso Senhor, ele mesmo o Apologista Supremo da sua própria religião, entregou ao seu Pai a sua causa, quando ela fracassava. Ele disse: O meu ensino não é meu, mas daquele que me enviou (Jo 7.16); e, quando murmuraram contra ele e contra as suas palavras, respondeu às murmurações deles e disse: Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. Está escrito nos Profetas: “E todos serão ensinados por Deus.” Portanto, todo aquele que ouviu e aprendeu do Pai, esse vem a mim (Jo 6.44-45). Isso parece uma serena remissão da disputa ao arbitramento do céu, deixando os seus adversários entregues à própria responsabilidade. Podemos, humildemente, copiar o seu exemplo. O nosso ensino não é nosso, mas daquele que nos enviou; devemos deixar ao seu Espírito a responsabilidade e a justificação dos tremendos mistérios que fomos comissionados a desvendar.

A certeza pessoal. 3. Como cristãos, temos de cuidar de encontrar a nossa própria plena certeza de fé na influência consciente do Espírito de Cristo. Nenhum teólogo, nestes dias de dúvida e de desesperança quanto à verdade, pode manter a alma em paz se não viver de tal modo que a sua mente seja o templo do Espírito Santo, que lhe dá a plena convicção do entendimento, para conhecimento do mistério de Deus, o qual se resume numa só palavra: Cristo (Cl 2.2). Uma fé anuviada pode ser atribuída a muitas causas; mas há um só segredo de proteção ou de cura: Quem me segue não andará nas trevas (Jo 8.12).

RESUMO.

Resumo. Até aqui apenas esboçamos o caminho que a apologética pode seguir ao apresentar as credenciais da revelação cristã em geral e enquanto tal, distintas das evidências necessárias para estabelecer doutrinas particulares e documentos particulares. Quando tivermos de discutir o cânon e prosseguir com os tópicos distintos da teologia, veremos que somos sempre obrigados a manter uma posição defensiva. A disputa está preparada em todos os pontos. O sistema cristão é militante em toda parte; e algumas das melhores evidências da Fé são as que surgem sob os diversos tópicos dos seus dogmas individuais, cada um dos quais tem a sua própria causa a defender. Enquanto isso, as credenciais gerais do cristianismo preparam o caminho para essas evidências mais detalhadas e dão força, por antecipação, aos argumentos apresentados para sustentar tanto os livros quanto as doutrinas. Quando a gloriosa revelação é aceita como um todo, essa aceitação torna a mente mais acessível à persuasão nos pontos subordinados e desarma a crítica capciosa dos documentos e as dificuldades menores de todo tipo. Quando a Fé cristã objetiva é recebida subjetivamente pela fé do homem que aceita as suas credenciais (credenciais adequadas ao nosso estado de prova e amplamente suficientes, por serem seladas pelo Espírito Santo), torna-se comparativamente fácil passar aos métodos específicos pelos quais essa Fé foi comunicada. A consideração desses métodos liga este tópico ao que agora se segue, no qual descemos da revelação como objetiva, universal e una à forma que ela assume nos livros sagrados.

Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. I, pp. 126-155, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.