W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume I · A regra divina da fé
Inspiração. O termo divina, na proposição geral de que a Bíblia é a regra divina da fé, sugere a inspiração e a autoridade infalível dos registros sagrados. A inspiração, distinta da revelação no sentido em que temos empregado este termo, designa a ação específica do Espírito Santo na criação e na composição da Sagrada Escritura: este é o uso convencional bíblico da palavra, que limita estritamente o seu sentido. O tratamento teológico da doutrina exige que examinemos, primeiro, o testemunho da própria Bíblia sobre a sua inspiração; segundo, a história do dogma na Igreja universal; e, terceiro, os resultados dogmáticos que podem ser considerados expressão plena da verdade sobre este assunto.
Revelação e inspiração. A distinção entre os termos revelação e inspiração depende, em grande parte, do seu significado convencional. Na Bíblia não encontramos a distinção que a teologia dogmática achou necessária e que é discutida tão minuciosamente nos tratados sobre o assunto. Há, porém, indícios que nos autorizam a atribuir a cada palavra o seu domínio particular.
Na Escritura. 1. A Escritura usa os dois termos indistintamente; ou, antes, adota as mesmas formas de expressão para expor os métodos de ambos. Antigamente, Deus falou, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas (Hb 1.1): isso inclui ao mesmo tempo a revelação de toda a verdade à mente dos profetas e a inspiração pela qual eles receberam e ministraram essa verdade. A Voz de Deus permeia o Antigo Testamento; e, no Novo, ela ainda fala pelo Filho (Hb 1.2). As muitas maneiras incluem visões, seja em sonho, seja em êxtase, por meio das quais o Espírito Santo apresentava à mente, com ou sem símbolos, novas formas da verdade, ou aquilo que sempre se chama a Palavra do Senhor; e também comunicações às faculdades despertas, conscientes de todas as suas próprias operações e no controle delas. As muitas vezes dificilmente podem ser bem entendidas, a não ser que as consideremos como incluindo os estágios sucessivos pelos quais ao povo antigo foram confiados os oráculos escritos. Assim, a inspiração e a revelação são uma só coisa. São Paulo as une quando diz: vou falar a respeito das visões e revelações do Senhor (2Co 12.1); frase em que todos os métodos antigos se reduzem a dois, e em que se mostra que estes continuam no Novo Testamento, embora já não sejam tão gerais e característicos como tinham sido antes.
I, 157Distinção convencional. 2. Por outro lado, a Escritura autoriza a fraseologia convencional que distingue entre a revelação da verdade e a inspiração para registrá-la. O Filho, na unidade do Pai e do Espírito Santo, é o Revelador. O Espírito, na unidade do Pai e do Filho, é o Inspirador. O Filho é o Verbo vivo e eterno, no qual as ideias eternas de toda verdade existiam antes de serem dadas a conhecer; mas o sentido dessa verdade era indicado pelo Espírito (1Pe 1.11) aos profetas, que falaram movidos pelo Espírito Santo (2Pe 1.21). A palavra revelação geralmente se usa com referência ao SENHOR (2Co 12.1); o único caso de emprego da palavra inspiração a refere à Escritura como resultado (2Tm 3.16). A manifestação da mente de Deus ao homem é revelação quando considerada em relação à Verdade desvelada, e inspiração quando considerada em relação aos métodos da sua comunicação e da sua transmissão à posteridade. E, assim como a revelação, em seu sentido mais elevado, deve limitar-se ao desdobramento do plano da redenção, assim também a inspiração se limita àquela única espécie de contato ou de comunicação entre o Espírito Santo e o espírito que há no homem, da qual resultou a Palavra escrita para todas as épocas e gerações.
Testemunho da Escritura. A Escritura apresenta as credenciais da sua própria inspiração. Por isso, lembrando que, nas coisas divinas, as credenciais vêm sempre em primeiro lugar e devem, se necessário, ser sustentadas pelas suas próprias evidências, não é raciocinar em círculo receber o testemunho da Bíblia a respeito de si mesma: devemos estudar todo o assunto com o Livro nas mãos. O Antigo Testamento dá o seu testemunho de modo condizente com o seu estágio preliminar de desenvolvimento; mas, embora apenas preliminar, esse testemunho incluirá, como se verá, todos os elementos essenciais da doutrina. Cristo, o Revelador, dá o seu atestado supremo à autoridade das antigas Escrituras: tal atestado, considerando as suas reivindicações, era absolutamente necessário; é dado expressamente e, naturalmente, é suficiente. Ele também declarou de antemão, de modo igualmente expresso, embora de outra maneira, a plena autoridade divina dos escritos do Novo Testamento. Depois de expor as provas disso, desceremos ao testemunho dos apóstolos a respeito da inspiração do Antigo Testamento e da sua própria; e então poderemos estar em condições de resumir o testemunho dos santos oráculos a respeito de si mesmos como um todo unido.
Antigo Testamento. 1. O Antigo Testamento não estabelece a distinção entre revelação e inspiração; mas fornece as provas pelas quais essa distinção pode ser estabelecida. Comunicações da vontade divina foram dadas de várias maneiras a vários homens, dos quais, relativamente, poucos foram preparados e comissionados para escrever os registros permanentes dessa vontade. Os patriarcas receberam revelações e registraram algumas delas; mas os seus registros não foram oficialmente feitos Escritura por eles mesmos. Foi prerrogativa especial de Moisés ser o órgão imediato de Jeová, o Anjo-Logos: Nunca mais se levantou em Israel um profeta como Moisés, com quem o Senhor tratava face a face (Dt 34.10). Dele não se registra que o Espírito o tenha feito instrumento: distinção que mais tarde foi pervertida, como veremos. De todos os agentes inspirados de Jeová que testificaram a respeito de Cristo, Moisés foi o que mais se aproximou da Pessoa que ele predisse, ou, antes, o que foi posto na mais estreita analogia com ela. Depois que o Anjo incriado se retirou como Revelador imediato, introduzem-se expressões que antes não eram conhecidas, mas que agora se usam com grande variedade. Lemos que o Espírito de Deus (Nm 24.2), ou do Senhor (1Sm 10.6), descia sobre os homens (2Cr 15.1); que a mão do Senhor se movia sobre um e outro (Ez 37.1); que a palavra do Senhor vinha a eles.
I, 1592. Mas, perpassando tudo isso, há uma constante comissão para escrever: desde Moisés, passando pelas escolas de profetas de Samuel, até o fim do Antigo Testamento. Então o Senhor disse a Moisés: Escreva isto para memória num livro (Êx 17.14). Nos registros antigos é possível reunir grande número de referências à escrita: aos homens designados para escrever conforme o mandado do Senhor (Nm 33.2); ao próprio Deus como Escritor: Embora eu lhe escreva a minha lei em dez mil preceitos (Os 8.12); à maneira como os registros proféticos, em especial, eram organizados e preservados: e Baruque escreveu no rolo, segundo o que Jeremias ditava (Jr 36.1-4); e à designação geral do conjunto como Escritura: Eu lhe mostrarei o que está registrado na ESCRITURA DA VERDADE (Dn 10.21) [N. do T.: a NAA traz “o que está expresso no Livro da Verdade”; o argumento de Pope se apoia na palavra Scripture, “Escritura”, da KJV]. Pela comparação das multidões de passagens de que estas são amostras, ver-se-á que o Antigo Testamento fornece todos os materiais para a doutrina completa, que é pressuposta, sancionada e desenvolvida no Novo.
Testemunho de Jesus. O testemunho de nosso Senhor sobre a inspiração de ambos os Testamentos é, para os que creem nele, a soma de todo raciocínio. Não que ele torne desnecessário o exame mais cuidadoso dos documentos; mas uma confiança firme na Autoridade suprema deve preceder, acompanhar e seguir toda consideração de provas. Certamente o seu testemunho deveria pesar muito mais do que todas as objeções que tiram a sua força da nossa ignorância. Mas isso não é tudo. As garantias do Salvador não apenas confirmam os resultados da inspiração, mas também lançam clara luz sobre a sua natureza.
Ao Antigo Testamento. I. De muitas maneiras o Redentor dá este testemunho supremo ao cânon antigo como um todo completo.
O seu apelo ao Antigo Testamento. 1. Primeiro, ao atribuir de modo absoluto autoridade divina aos escritos desse cânon. A única coisa comum a ele e aos seus adversários judeus era que as Escrituras, as mesmas para ele e para eles, eram reconhecidas como sendo, em todas as suas partes, a Palavra e os Escritos de Deus. Ele lhes perguntou: Por que também vocês transgridem o mandamento de Deus, por causa da tradição de vocês? (Mt 15.3,6), mas nada disse sobre acrescentar aos livros santos ou deles tirar alguma coisa. Eles criavam tradição, e essa era a sua culpa; mas não são condenados por fazer ou desfazer Escritura. Ao varrer as glosas debilitantes deles e dar a sua própria interpretação espiritual, nosso Senhor declarou expressamente que a menor ordenança e o menor mandamento do Antigo Testamento eram divinos e deviam ter o seu cumprimento. Tal é o sentido de nem um i ou um til (Mt 5.18), em conexão com o que vem a seguir.
I, 160Os termos que usava. 2. Em segundo lugar, ele atestou todo o Antigo Testamento pelos termos que costumava empregar ao falar dos oráculos mais antigos. Ele os cita como ESCRITURA, de modo geral, e como ESCRITURAS individuais. Está escrito (Mt 4.7) foi a sua resposta ao tentador no deserto. Examinem as Escrituras (Jo 5.39) [N. do T.: a NAA traz “Vocês examinam as Escrituras”, no indicativo; Pope cita o imperativo da KJV, Search the scriptures, e o seu parêntese logo adiante alude à leitura no indicativo, que o grego também admite], disse ele aos judeus e a todos os homens: o único caso desse mandamento, tomado (no indicativo); um mandamento com promessa: elas testificam de mim. E ele começou o seu próprio ofício profético na sinagoga proclamando: Hoje se cumpriu a Escritura que vocês acabam de ouvir (Lc 4.21). A antiga coleção de documentos sagrados, ele a distingue, segundo a divisão corrente, como a Lei ou os Profetas (Mt 5.17): mandamento e promessa. A respeito de mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos (Lc 24.44-45). Mas ele os une todos de novo como as Escrituras naquela última exposição que fez aos seus discípulos sobre a antiga aliança, e que não ficou registrada (Lc 24.27). Certa vez chama um antigo oráculo de palavra de Deus e acrescenta: a Escritura não pode falhar (Jo 10.35). É instrutivo ligar a isso o que nosso Senhor disse de si mesmo: as minhas palavras não passarão (Mt 24.35); dito que afirma, no fim do seu ministério, para o seu próprio ensino, a mesma autoridade eterna que, no início, ele havia afirmado para a Lei (Mt 5.19).
Ele mesmo no Antigo Testamento. 3. O Redentor nunca deixa de se referir à antiga Escritura como um único testemunho, dado pela inspiração do Espírito Santo, a respeito de si mesmo. Então, como é que Davi, pelo Espírito, chama o Cristo de Senhor? (Mt 22.43): este é o único caso em que se faz referência direta à inspiração do Espírito; trata-se de uma profecia especial a respeito do Senhor de Davi, proferida pelo próprio Davi como exceção solitária ao seu estilo habitual, e citada excepcionalmente pelo nosso Salvador. Na verdade, pode-se dizer que nela estava representado todo o Antigo Testamento: ele O CHAMA DE SENHOR. Por isso, o testemunho de Jesus é o Espírito da profecia (Ap 19.10): este é um dito que também pode ser invertido: o Espírito, em toda a companhia dos profetas, é o testemunho de Jesus. Pois todos os antigos videntes viram e falaram sob a influência do Espírito de Cristo, que neles estava (1Pe 1.11).
I, 161O testemunho do Senhor. 4. Assim, o testemunho do Salvador ao Antigo Testamento é simplesmente perfeito em todos os elementos que a fé cristã pode exigir. Ele começou e terminou a sua vida terrena declarando a autoridade divina do Antigo Testamento e a necessidade de que se cumprisse até nos mínimos detalhes. Deu o seu testemunho não por acomodação a uma noção corrente da época, mas como o Revelador de toda a verdade. E a força disso é especialmente reforçada pelo fato de que ele sanciona todo o corpo dos escritores sagrados como alguém que está acima de todos eles. O que ele disse do Batista aplicava-se ainda mais a si mesmo: ele é muito mais do que um profeta (Lc 7.26). Contudo, não fala como quem é, ele próprio, inspirado. Embora fosse Profeta e dotado do Espírito do alto, nunca reivindica para si uma inspiração limitada e específica do Espírito Santo: nisso está eternamente separado de todos os agentes do Espírito. Como Filho de Deus encarnado, ele torna a proferir todo o Antigo Testamento como os seus próprios oráculos antigos, tornados novos; eles, por assim dizer, morreram nele para o seu sentido transitório e ressuscitaram com ele para ser o poder de uma vida que não tem fim.
Continuação das Escrituras. II. É da maior importância perguntar em que sentido o Redentor nos assegura uma continuação desses oráculos dotados de autoridade no seu próprio Novo Testamento. Podemos dizer com ousadia que o Grande Cumprimento implicava necessariamente uma continuação da Escritura, tanto como Palavra quanto como Escrito.
Novas palavras. 1. De modo geral, nosso Senhor testificou: as minhas palavras não passarão (Mt 24.35), o que é um eco das mais sublimes afirmações do Antigo Testamento a respeito do oráculo divino. Todos os seus ditos, sobre qualquer assunto, registrados ou não, eram palavras de Deus. A respeito de toda a soma do seu ensino ele podia dar testemunho: Eu lhes tenho dado a tua palavra (Jo 17.14). Sendo assim, podemos supor que tal depósito morreria com aqueles que primeiro o receberam? O Mestre deles providenciou que as suas palavras, na medida em que deviam permanecer, fossem preservadas na memória deles. A promessa, na verdade, é muito abrangente e abarca tudo o que o Senhor havia dito. No monte da Transfiguração, os discípulos receberam a ordem de escutar o que ele diz (Lc 9.35), e isso na presença de Moisés e Elias. Em estrita harmonia com isso está o fato de que, no fim do seu ministério, Jesus, mais expressamente do que nunca, fez dos seus próprios ditos a suma da Escritura. É notável que ele não inculque nos discípulos a solene importância de se lembrarem das Escrituras do Antigo Testamento. Foi a sua própria palavra, todas as coisas que tenho ordenado a vocês (Mt 28.20), que ele deixou como legado. Certamente o que ele disse do cálice sacramental pode ser aplicado de outra maneira: este é o Novo Testamento NAS MINHAS PALAVRAS [N. do T.: Pope adapta as palavras do cálice, que na KJV dizem “this cup is the new testament in my blood” (Lc 22.20), e na NAA “Este cálice é a nova aliança no meu sangue”; o jogo está no duplo sentido de testamento, aliança e livro]. O ensino do Senhor era a nova Bíblia; e sentimos instintivamente quão verdadeira é a frase de são Paulo: Que a palavra de Cristo habite ricamente em vocês (Cl 3.16). A palavra de Cristo não é outra senão a palavra de Deus.
I, 162Novas Escrituras. 2. Ele também nos garantiu, direta e indiretamente, novos escritos bíblicos. Embora o decoro divino o impedisse de deixar qualquer coisa escrita por sua própria mão, ele não revogou a antiga lei segundo a qual a revelação devia desenvolver-se gradualmente no volume de um livro (Êx 17.14). Assim como Moisés recebeu a ordem de escrever o começo desse volume, são João recebeu a ordem de escrever o seu fim, para concluí-lo como havia sido começado (Ap 1.19). Para ser mais preciso: a nova Escritura é preparada e produzida pelo mesmo Espírito de inspiração que deu os registros antigos (Jo 20.31). Exatamente a mesma lei de procedimento que vimos na criação dos documentos mais antigos, vemo-la governar as providências do Salvador para os mais recentes. É tão claro como se ele tivesse dito: Pelo meu Espírito eu lhes dou novas Escrituras. Mas isso ele não declarou: tudo brota das suas palavras sem que ele o diga. Reservando a revelação para si mesmo, atribuiu a inspiração ao Espírito Santo, embora sem lhe dar o nome de Inspirador; e descreveu a influência dele de tal modo que a tornou exatamente igual àquela que repousava sobre os escritores antigos. Antigamente, foi dito a Moisés: Agora vá, e eu serei com a sua boca e lhe ensinarei o que você deve falar (Êx 4.12); e a Jeremias: Eis que ponho as minhas palavras na sua boca (Jr 1.9; Is 59.21) e Não diga: “Não passo de uma criança” (Jr 1.7). Aqui se promete uma inspiração especial para uma necessidade especial, acima e além da inspiração geral para o ofício. Comparem-se as palavras de nosso Senhor aos seus apóstolos, prometendo exatamente a mesma influência especial: o Espírito Santo lhes ensinará, naquela mesma hora, as coisas que vocês devem dizer (Lc 12.12). Não são vocês que estão falando, mas o Espírito Santo (Mc 13.11). Essas são promessas dos Evangelhos sinóticos; são João acrescenta a tríplice garantia final e complementar: o mesmo Espírito fará com que se lembrem de tudo o que eu lhes disse (Jo 14.26); além disso, anunciará a vocês as coisas que estão para acontecer; e, de modo geral, os guiará em toda a verdade (Jo 16.13). Ligando essa garantia especial ao Antigo Testamento, o Senhor disse depois: Eis que envio sobre vocês a promessa de meu Pai (Lc 24.49): como se fosse uma nova função do antigo Inspirador, que ele imprimiria na mente deles. Quando essa promessa se cumpriu, eles, como Jeremias, já não eram crianças, mas homens maduros no entendimento. Ora, quanto aos três ramos da promessa em são João, o cumprimento exigia, e portanto incluía, a escrita. Considere-se isso cuidadosamente com relação a cada um deles. Estes foram registrados para que vocês creiam (Jo 20.31), quanto ao primeiro. Escreva as coisas que você viu (Ap 1.19), quanto ao segundo. E as epístolas apostólicas, que contêm o desenvolvimento da verdade nas suas múltiplas aplicações, são o cumprimento do terceiro.
I, 163Um novo volume. 3. De tudo isso podemos concluir com segurança que o Mediador da nova aliança se propôs acrescentar outro volume às Escrituras da verdade, sem dizê-lo claramente, assim como, em Gênesis, tampouco anunciou de antemão todo o Antigo Testamento. Os fatos o declaram sem nenhuma declaração expressa. O Novo Testamento é construído diante dos nossos olhos exatamente como o foi o Antigo. As mesmas leis e os mesmos métodos que se observavam na antiga economia continuam na nova. Há o mesmo ensino pessoal direto, e os apóstolos veem o Oráculo face a face, como Moisés o viu. Há os mesmos sonhos e êxtases; e há a mesma direção soberana do Espírito Santo na compilação dos documentos. Existe apenas esta grande diferença: a verdade final é comunicada pelo Filho perfeitamente revelado por meio do Espírito perfeitamente revelado; e, por isso, na rápida consumação, longos tempos e épocas são desnecessários. Tudo se realizou numa única época. As Preparações ocuparam muitos séculos; o Cumprimento glorificou um só.
Testemunho apostólico. O testemunho apostólico, tanto do fato quanto da natureza da inspiração, é amplíssimo: o pleno desenvolvimento desta, como de outras doutrinas, foi confiado aos apóstolos.
Ao Antigo Testamento. I. Quanto às Escrituras em geral, ou a Escrituras particulares do Antigo Testamento, o tributo deles é explícito e claro.
São Pedro. 1. São Pedro, como pregador e escritor, é talvez a testemunha mais eminente: em Atos, para os judeus; nas suas epístolas, para a Igreja de judeus e gentios; em ambos, para as gerações futuras. Na véspera do Pentecostes, ele dá o que se pode chamar de texto clássico: ἔδει πληρωθῆναι τὴν γραφὴν ταύτην ἣν προεῖπε τὸ Πνεῦμα τὸ ἅγιον διὰ στόματος Δάβιδ [era necessário que se cumprisse esta Escritura que o Espírito Santo predisse pela boca de Davi] (At 1.16). Este é o testemunho pentecostal de uma vez por todas: numa forma mais completa do que em qualquer outro lugar, como que uma definição geral. O Espírito Santo predisse (At 1.16), usando como instrumento a boca de Davi, e também a de Joel; e o resultado foi a Escritura numa expressão particular dela: seja falada, seja escrita, ela é idêntica. Nem santo Estêvão é menos claro: diz que Moisés recebeu λόγια ζῶντα, oráculos vivos (At 7.38) [N. do T.: a NAA traz “palavras vivas”]; δοῦναι ἡμῖν, para transmiti-los à posteridade; aqui também os oráculos falados e os escritos são idênticos. As epístolas de são Pedro contêm provas importantes. Nenhuma profecia da Escritura provém de interpretação pessoal (ἰδίας ἐπιλύσεως, referindo-se ao próprio conhecimento do profeta), entretanto, homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo (2Pe 1.20-21). Quanto aos escritos bíblicos em particular, há muito peso na sua expressão as demais Escrituras (2Pe 3.16), quando considerada por todos os lados. Uma frase mais curta da primeira epístola acrescenta às palavras e aos escritos dos profetas o elemento da sua autoridade: Se alguém fala, fale de acordo com os oráculos de Deus (1Pe 4.11), que se supõe serem o padrão de toda verdade, na doutrina e na ética.
I, 164Epístola aos Hebreus. 2. A Epístola aos Hebreus fornece a mais ampla série de testemunhos que se encontra no Novo Testamento. A força deles só pode ser sentida mediante o exame da textura de toda a composição, que literalmente considera as antigas Escrituras como oráculos falados pelo Espírito Santo e preservados para a Igreja cristã num livro que deve ser citado como infalível. É notável que a mesma expressão seja usada do começo ao fim para indicar o testemunho do Espírito e o do escritor que ele emprega: o Espírito Santo dá testemunho dos termos da grande aliança em Jeremias (Hb 10.15); e alguém, em certo lugar, deu testemunho (Hb 2.6), referindo-se ao salmista. Enquanto neste documento Deus, em termos absolutos, é o Revelador, e o Filho é o meio supremo da revelação, o Espírito está especialmente ligado à Escritura escrita. Pode-se acrescentar que os princípios elementares dos oráculos (Hb 5.12) são apresentados como os mesmos no Antigo Testamento e no Novo: os rudimentos que esses cristãos precisavam aprender de novo eram os princípios elementares da doutrina de Cristo (Hb 6.1); e, como estes tinham sido ensinados nos escritos cristãos, também esses escritos eram OS ORÁCULOS DIVINOS.
I, 165São Paulo. 3. Também são Paulo, tanto como pregador quanto como escritor, vive e se move nas antigas Escrituras. Cita-as constantemente, e sempre como textos que contêm a Voz e os Escritos de Deus. O modo como introduz cada texto mostra claramente a importância que dava às próprias palavras usadas pelo Espírito Santo. Por exemplo: Não diz: “e aos descendentes”, como falando de muitos, porém como falando de um só: “e ao seu descendente”, que é Cristo (Gl 3.16). Ele usa grande variedade de epítetos, como Escrituras proféticas (Rm 16.26), Escrituras Sagradas (Rm 1.2), sagradas letras e Escritura inspirada por Deus (2Tm 3.15-16). Os dois últimos contêm o seu testemunho final a Timóteo; e, juntos, declaram que os escritos consagrados ou sagrados, aplicados pela fé em Cristo, comunicam a sabedoria que salva, e que toda a Escritura é inspirada por Deus. O termo θεόπνευστος, como predicado de γραφή, deu à palavra teológica “inspiração” o seu fundamento bíblico, e autoriza também que o termo se estenda aos escritos, e não só às palavras e às pessoas dos homens inspirados. O grande testemunho de são Pedro assinala o impulso do Espírito sobre a mente dos profetas: eles eram φερόμενοι, levados ou conduzidos. São Paulo o completa, pondo ênfase no resultado, isto é, na Palavra escrita em toda a sua extensão, que abrange muito mais do que a palavra profética. O primeiro inclina-se mais para a revelação dos documentos antigos, o segundo para a inspiração deles; mas ambos abrangem os oráculos reunidos e o seu poder salvador para quem os recebe com fé. Juntos, condensam em duas frases curtas toda a doutrina bíblica da inspiração da Escritura: isto é, principalmente, embora não só, da Escritura do Antigo Testamento.
Inspiração dos próprios apóstolos. II. É de suma importância reunir o testemunho dos apóstolos sobre a sua própria inspiração. Mas é preciso lembrar que, embora sempre conscientes da influência especial do Espírito, eles só costumariam referir-se a ela em ocasiões de defesa. De fato, o serviço do evangelho exigia deles, em muitíssimas ocasiões, que se abstivessem de fazer valer a sua mais alta reivindicação.
São João. 1. São João é o apóstolo que dá a expressão mais tênue ao dom específico da inspiração, embora seja talvez o mais enfático na afirmação da autoridade que dele resultava. Ainda assim, no Apocalipse ele diz que, ao receber as suas comunicações proféticas, estava no Espírito (Ap 1.10), o mesmo termo que nosso Senhor aplicou à inspiração de Davi [N. do T.: Pope alude a Mt 22.43, onde a NAA traz “pelo Espírito”; no grego, ἐν πνεύματι, a expressão é a mesma de Ap 1.10]: nenhum profeta foi jamais movido pelo Espírito Santo (2Pe 1.21) de modo mais eficaz do que ele. Chama de fiéis e verdadeiras (Ap 22.6) as palavras que escreveu às igrejas por ordem do Senhor, como se fossem suas; e as palavras terríveis que encerram este livro, se não a Bíblia inteira, declaram a sua inviolável autoridade divina. Na sua Primeira Carta, parece fazer da unção que vem do Santo (1Jo 2.20) um privilégio de todos os cristãos; mas um exame atento dará razões para pensar que ele se referia principalmente ao χρίσμα, ou unção, apostólico, que era também um χάρισμα, ou dom, não restrito a ele mesmo e, por isso, não posto em destaque como seu, mas seu na unidade de todo o apostolado. Supondo, porém, que se fale da unção como pertencente a todos os crentes regenerados, recorremos ao tom de autoridade sobre-humana que está impresso neste documento, como nas duas cartas menores que o acompanham.
I, 166São Pedro. 2. São Pedro fala dos escritos de são Paulo como coordenados, no mesmo nível, com as demais Escrituras (2Pe 3.16): uma leve alusão a um modo de pensar subentendido e corrente tem a força de um argumento poderoso. É preciso lembrar que, pouco antes, ele havia mencionado o motivo de escrever uma segunda carta: para que se lembrem das palavras que, anteriormente, foram ditas pelos santos profetas, e também se lembrem do mandamento do Senhor e Salvador, que os apóstolos de vocês lhes ensinaram (2Pe 3.1-2). Portanto, não pode haver dúvida de que ele colocava o grupo apostólico ao lado do profético, e de que considerava a si mesmo, bem como ao seu amado irmão Paulo, representantes, nos seus escritos e nas suas palavras, da autoridade suprema do Mestre comum. Pois é bem sabido que, na Escritura, Palavras e Escritos são muitas vezes usados indistintamente. No ministério deles, para aplicar a linguagem do próprio Pedro, temos ainda mais segura a palavra profética (2Pe 1.19).
São Paulo. 3. Quanto ao próprio são Paulo, não pode haver dúvida de que reivindica a autoridade da inspiração. Como não se contava entre os que tinham andado com o Senhor e recebido a sua grande promessa na véspera da Paixão, era necessário que ele insistisse mais nas prerrogativas da sua investidura irregular. Fala especialmente por si mesmo, embora como representante de todos, quando reivindica com tanta frequência exercer, tanto pessoalmente como por cartas, a própria autoridade de Cristo. A sua referência a assuntos que não são dados como mandamento (1Co 7.6,12) não deve ser mal compreendida. Ele não quer dizer que escrevia apenas por sua própria autoridade, mas que, nesses casos particulares, não podia apelar, nem apelava, a nenhuma declaração clara e específica de Cristo. Contudo, é digno de nota que ele nunca é mais categórico do que ao dar as decisões que não estão resolvidas pelos precedentes do próprio Mestre supremo. São Paulo não separa a sua vida e o seu caráter pessoais, como homem (Rm 3.5) [N. do T.: a NAA traz “Falo em termos humanos”; Pope segue a KJV, “I speak as a man”], da sua relação oficial com as igrejas; mas distingue entre Cristo revelado NELE (Gl 1.16), a nova Fé revelada A ELE (Ef 3.3) e o evangelho plenamente dado a conhecer POR MEIO DELE (2Tm 4.17), três coisas que preenchem todo o âmbito da sua nova vida. Atribui as suas revelações a Cristo como o Revelador, mas atribui à inspiração as palavras ensinadas pelo Espírito (1Co 2.13). Em suma, se tivesse estado presente no cenáculo pascal, não poderia ter afirmado com mais abundância que possuía os privilégios do grupo apostólico. As suas cartas deviam ser lidas nas igrejas como a própria Palavra do Senhor, e, até para os seus menores conselhos, ele pode dizer: penso que também eu tenho o Espírito de Deus (1Co 7.40). Esse modo de falar às vezes é entendido como se não significasse mais do que o privilégio comum dos cristãos, mas nunca é usado assim no Novo Testamento. O pensamento habitual do apóstolo foi moldado pelo Antigo Testamento, onde essa linguagem é reservada aos órgãos da inspiração; por exemplo, o homem de espírito do profeta (Os 9.7) é, literalmente, o homem do Espírito.
I, 167São Marcos e são Lucas. 4. Os dois evangelistas historiadores e o autor da Carta aos Hebreus, que não participaram diretamente da grande promessa feita aos apóstolos, participaram dela indiretamente. São Marcos e são Lucas tiveram como campo próprio justamente os assuntos a respeito dos quais o Salvador fez a promessa, e escreveram sob a direção de são Pedro e são Paulo. Nenhum escrito traz de modo mais inegável as credenciais de apóstolo (2Co 12.12) do que estes; e os de são Lucas, em especial, são absolutamente essenciais ao organismo vivo do Novo Testamento. Mas o exame das suas contribuições pertence ao estudo do cânon.
Resumo. 5. Para resumir tudo: os escritores do Novo Testamento formam um corpo de homens, unidos no desdobramento da doutrina cristã, que sempre transmitem a sua mensagem como vinda de Deus, seu Salvador, por meio do seu Espírito Santo. Não afirmam com frequência a sua inspiração; mas ela está implícita em toda parte no que eles mesmos dizem, e supõem que os seus ouvintes e leitores a entendem. Nisso ocupam exatamente a mesma posição que os seus predecessores do Antigo Testamento. Como eles, apresentam-se diante do povo de Deus com um ensino infalível, do qual não há apelação; como eles, declaram-se ocasionalmente órgãos do Espírito, quando a sua autoridade é contestada. Numa palavra, simplesmente ocupam, no Novo Templo, o lugar que os profetas ocupavam no Antigo, continuando o ofício e o ministério deles por uma comissão cujas credenciais eram conhecidas e lidas por todos.
Dogmática. A teologia dogmática tem uma explicação clara a dar sobre a inspiração. As Escrituras, comparadas e interpretadas com isenção, declaram que ela é aquela influência especial do Espírito Santo sobre a mente de homens santos, escolhidos para esse fim, que os habilitou a comunicar, de geração em geração, um registro infalível da verdade divina acerca da vontade redentora de Deus. Este é o sentido consagrado pelo uso que se atribui ao termo, tanto nos primeiros tempos cristãos como nos mais recentes. Fora desse sentido, a palavra “inspiração” torna-se relativamente vaga e sem valor. Aqui temos de considerar o Espírito Inspirador; depois, os Órgãos Inspirados; e, por fim, as Escrituras da Inspiração.
O Inspirador. O Espírito Santo, na Trindade mediadora, é, e só ele é, o Autor da inspiração. Esta é a sua honra pessoal, e implica perfeição na sua obra.
A Trindade. Não podemos penetrar no fundamento deste ofício na Trindade absoluta, assim como não podemos penetrar no fundamento da função reveladora do Verbo; basta saber que, assim como o Filho que revela é o Verbo eterno, assim o Espírito que inspira, procedendo eternamente do Pai e do Filho, é o meio supremo e único de comunicação ao espírito do homem. Tudo o que o Filho É para a criatura, o Espírito o COMUNICA. Na Trindade mediadora, o Espírito Santo preside à transmissão da verdade. Isso pode ser ilustrado pela sua relação com a Pessoa do Revelador em geral e, em particular, pelos termos empregados na linguagem da Escritura sobre o assunto.
I, 169O Espírito de Cristo. 1. Em toda a economia da redenção, é verdade que o Espírito revela o Filho, assim como o Filho revela o Pai. As preparações para Cristo nos tempos antigos, tanto na revelação natural como na sobrenatural, estavam sob o controle do Espírito, e especialmente a segunda. O testemunho de Jesus é o Espírito da profecia (Ap 19.10) [N. do T.: a NAA traz “espírito”, com minúscula; Pope lê aqui o Espírito Santo]; e foi o Espírito de Cristo, que neles estava (1Pe 1.11), que indicou por meio dos profetas aquela redenção futura que é a suma da verdade revelada. O Novo Testamento manifesta plenamente tanto o Revelador como o seu Espírito intérprete, um tanto quanto o outro. Assim como toda verdade vem por meio do Filho, que revela o que ouviu de meu Pai (Jo 15.15), assim também a inspiração do Espírito sempre tornou o homem capaz de receber a revelação. O Espírito Santo cumpre a palavra divina de Cristo: Ele não falará por si mesmo (Jo 16.13). E, exatamente como a obra de Cristo foi plenamente dada a conhecer quando ele apareceu entre os homens, assim também o ofício do Espírito como Inspirador dos registros permanentes dessa obra só foi plenamente conhecido depois da sua vinda no Pentecostes.
Linguagem da Escritura. 2. Já se viu que a linguagem da Escritura é fiel a esta verdade. Há um desdobramento gradual dela desde o princípio. No Antigo Testamento, o Espírito é mencionado de modo obscuro, embora cada vez menos obscuro, como o Inspirador; nos cânticos do terreno neutro entre o Antigo e o Novo Testamento, fala-se dele com mais clareza; até que, depois do Pentecostes, ele se torna o representante de todas as revelações da Santa Trindade. Esse princípio deve regular a nossa interpretação de certas passagens que poderiam parecer dizer outra coisa, isto é, referir-se de modo menos distinto ao Espírito Santo como o Inspirador. Diz-se que Deus falou ou fez o que é falado ou feito por cada uma das Pessoas da Trindade: e esta é uma regra de grande importância de modo geral. Foi o Senhor, Deus de Israel, que visitou e redimiu o seu povo (Lc 1.68); mas o Redentor foi o Filho. Deus enviou o seu Filho (1Jo 4.10); mas o testemunho de são João prossegue: o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo (1Jo 4.14). Assim também se diz que Deus falou aos pais, pelos profetas (Hb 1.1); mas homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo (2Pe 1.21). A Escritura é inspirada por Deus, θεόπνευστος (2Tm 3.16), mas só o Espírito é o Deus que inspira.
I, 170A honra do Espírito. 3. Por isso, uma honra especial é devida ao Espírito Santo no seu ofício e no seu campo, e deve ser-lhe prestada: ele é o Deus da Escritura. Neste domínio ele é supremo, segundo a Confissão Nicena, que introduz essa obra divina no mais elevado ato de culto: QUE FALOU PELOS PROFETAS. Não é de estranhar, portanto, nem de condenar, que prestemos também certa homenagem às Escrituras como sua obra acabada. Aquilo que se imputa erradamente a essa submissão como bibliolatria é um sentimento apropriado de reverência pelo Espírito na sua palavra. Também dele se pode dizer: Suas obras são perfeitas (Dt 32.4), apesar de quaisquer supostas aparências em contrário. Assim como a criação, a providência e a redenção estão, cada uma, acabadas e completas, assim também está a organização da Escritura: talvez tanto mais perfeita por causa de algumas coisas que nós, na nossa ignorância, consideramos imperfeição.
Os inspirados. Os homens escolhidos pelo Espírito Santo para ser os órgãos da inspiração foram por ele santificados pela verdade para o seu ofício; as suas faculdades foram preparadas pela influência dele para o campo especial da inspiração confiado a cada um; e ele supervisionou e dirigiu o exercício dessas faculdades para realizar o seu próprio propósito na construção da Escritura.
Homens santos. 1. São Pedro, referindo-se à palavra profética, diz dos profetas: homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo (2Pe 1.21). Pode-se afirmar de todos os instrumentos usados nesta elevada função que estavam sob a inspiração, ou influência, santificadora comum do Espírito. É verdade que foram dadas revelações (isto é, manifestações da verdade e visões do futuro), tanto no Antigo Testamento como no Novo, a homens que foram levantados para esse fim, mas que não eram pessoalmente santificados; Balaão e Caifás, porém, embora tenham recebido uma inspiração passageira, não foram empregados para perpetuar ou transmitir as suas predições. Foram usados para um propósito, e o seu ministério forçado foi assumido, como o de Faraó, no plano divino. Do mesmo modo, certos escritos que não foram escritos por homens inspirados estão incorporados à estrutura da Escritura. Todas essas foram exceções à regra geral de que só os que estão em harmonia com a verdade e sob a sua influência santificadora receberam as suas revelações mais elevadas.
I, 171Instrumentos humanos. 2. Mas o Espírito usou os seus instrumentos como homens: a santidade deles, ou consagração especial à sua tarefa, era a santificação dos seus dotes naturais, das suas aquisições e do seu estudo. Não foram passivos ao escrever a Escritura, nem mesmo no grau em que foram passivos ao receber a revelação. Escreveram, às vezes depois de longo intervalo, o que tinham recebido; e sempre segundo as características do seu gênio individual, do seu modo de pensar e da sua dicção. Mas as suas faculdades foram elevadas, revigoradas e fortalecidas até o seu mais alto grau. Aquilo que se tem chamado de teoria DINÂMICA da inspiração (isto é, a de que a sua influência atuava sobre as faculdades da pessoa inspirada e por meio delas) é comprovado como verdadeiro por todos os fenômenos dos diversos livros. Desde o registro das visões mais transcendentes até a mais simples carta pessoal, o escritor, na Escritura, é fiel a si mesmo. Nenhum autor da literatura clássica da Grécia ou de Roma difere mais de todos os outros do que cada escritor da Escritura difere do seu companheiro: cronista de cronista, profeta de profeta, evangelista de evangelista, apóstolo de apóstolo.
Natureza da influência. 3. A inspiração propriamente dita é, então, a influência específica sobre a mente, uma vez atendidos esses pré-requisitos. E, embora a Escritura não aluda a nenhuma distinção de graus, pode-se encontrar nela a evidência de que um só e o mesmo Espírito, distribuindo a cada um, individualmente, conforme ele quer (1Co 12.11), regulava a sua influência inspiradora segundo a necessidade.
Verbal. (1.) Há algumas partes dos Escritos Sagrados em que a revelação pura e a inspiração coincidem; nelas o Espírito inspirador sugeria a verdade e também as palavras com que revesti-la; de fato, usava os seus instrumentos quase mecanicamente para servir ao seu propósito. Talvez não seja fácil distinguir, em todos os casos, os resultados da inspiração VERBAL; e o fato de os autógrafos da Bíblia terem desaparecido prova que o Espírito Santo não permitiu que nada de vital dependesse de tal distinção. As palavras mais sagradas de nosso Senhor são reproduzidas com pequenas variações por aqueles a cuja memória foram trazidas de volta; mas observamos que a sua promessa dizia: esse ensinará a vocês todas as coisas e fará com que se lembrem de tudo, πὰντα ἅ, o que eu lhes disse (Jo 14.26). A flutuação das expressões usadas pelos diversos relatores não invalida a suposição de que, em boa parte da Escritura, há a inspiração de SUGESTÃO, especialmente das coisas e, às vezes, das próprias palavras.
I, 172Argumentação lógica. (2.) Muitas partes da Bíblia, especialmente do Novo Testamento, são o desenvolvimento lógico e a organização formal da doutrina. São Paulo, nas suas cartas, argumenta a partir do Antigo Testamento para afirmar e defender a verdade do Novo; exatamente como ele e os outros pregadores do evangelho provavam pela Escritura que Jesus era o Cristo. É muito evidente que, na condução do seu argumento, ele usa as suas faculdades segundo a disciplina da sua juventude. Mas ele mesmo nos diz que usava também palavras ensinadas pelo Espírito (1Co 2.13), e que gozava daquela inspiração especial do Espírito prometida por nosso Senhor: ele os guiará em toda a verdade (Jo 16.13), ὁδηγήσει, ele os conduzirá pelo caminho da reflexão, da argumentação e da exposição sólida. Todos os apóstolos receberam, para a Igreja e para o mundo, o que os Dois receberam na manhã da ressurreição, e os Onze depois: Então lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras (Lc 24.45).
Testemunho independente. (3.) Grande parte da Escritura é testemunho de fatos, de vários tipos; e não se pode aceitar nenhuma teoria da inspiração das testemunhas que destrua o seu caráter independente como testemunhas. Elas foram inspiradas, ou movidas, a dar o seu testemunho independente e fiel. Às vezes têm de registrar fatos, ou supostos fatos, que colhem de registros públicos; às vezes, de consignar tradições, lendas, opiniões correntes ou predições não inspiradas transmitidas pela tradição: nesses casos, são apenas testemunhas do que encontraram. Às vezes têm de narrar acontecimentos dos quais tinham participado em maior ou menor medida: nesse caso, são dirigidas a registrar o resultado das suas próprias investigações, cada qual segundo as suas próprias luzes. Ocasionalmente são testemunhas concordantes de acontecimentos que observaram de pontos de vista diferentes: em tais circunstâncias, não há harmonização prévia dos testemunhos, mas cada qual dá o seu próprio testemunho fiel, segundo a sua lembrança assistida por Deus, sem que esse auxílio divino corrija necessariamente o defeito ou a incompletude original da observação. Daí surgem certas diferenças de apresentação que o Espírito livre permitiu: diferenças que bastam apenas para mostrar que as testemunhas são enviadas a dar o seu depoimento como independentes, nunca o bastante para trair a causa suprema da verdade.
I, 173Editorial. (4.) Mais uma vez, grande parte da Escritura é resultado do que, entre os homens, se chamaria organização editorial. Isso se estende por uma porção considerável do Antigo Testamento, e é o que são Lucas, por exemplo, reivindica no Novo como a sua própria função. Ora, a influência do Espírito, que preside e dirige, era tão necessária para isso quanto para qualquer outro setor da economia da revelação; mas a sua inspiração era de caráter diferente. Ele ensinou os seus instrumentos a distinguir, na literatura hebraica, o que era dele e o que não era; supervisionou a organização dos Salmos; ensinou os evangelistas a peneirar as tradições orais, ricas dos depósitos e memoriais da Vida Sagrada; e, de modo geral, velou sobre a construção da Santa Escritura orgânica e a dirigiu como um único grande corpo de literatura, em muitos aspectos humanos semelhante a toda outra literatura, mas divinamente distinto de qualquer outra.
As Escrituras. Pode-se dizer que as próprias Escrituras são inspiradas, porque contêm o pensamento permanente do Espírito e são o órgão da sua influência constante e viva. Por isso, este atributo as distingue, de muitas maneiras, de toda outra literatura, sagrada e profana.
Títulos. Os nomes dados à coleção dos livros confirmam tudo o que se disse deles, quer se encontrem na própria Bíblia, quer sejam invenção reverente de tempos posteriores. Os próprios escritores usam as mais altas denominações; e nunca se referem ao conteúdo do volume como um todo, nem ao menor fragmento dele, sem alguma expressão de profunda reverência. Esse hábito não se limitava aos judeus, antigos ou modernos, cuja conhecida reverência beirava a superstição: era partilhado pelos discípulos, que o seu Senhor proibira de chamar alguém de mestre na terra; ele lhes trouxera uma nova lei e, com toda a certeza, não lhes teria permitido dar tais títulos a nada que não fossem os escritos de Deus. Também nisto tinham o exemplo dele. As Escrituras são as SAGRADAS LETRAS, τὰ ἱερὰ γράμματα (2Tm 3.15). É assim que são Paulo fala do Antigo Testamento, e num contexto que mostra que as coisas que Timóteo recebera pela fé em Cristo Jesus tinham igual autoridade e que, portanto, o Novo devia ser incluído. Chamadas Escritura em toda parte, nesta página final elas são a ESCRITURA SAGRADA: os Escritos por excelência, que se referem não aos fenômenos passageiros do tempo, mas às coisas da eternidade. Este é o único título que recebem como um todo. Na estima dos cristãos, porém, elas são a PALAVRA DE DEUS, por guardarem o registro evangélico da obra de Cristo, a qual vive e é permanente (1Pe 1.23); também por conterem o compêndio de todas as revelações distintas que, individualmente, são chamadas Palavras de Deus; e, por fim, por sugerirem, o que na verdade não expressam, a estreita relação entre a Palavra inspirada e o Verbo encarnado [N. do T.: no inglês, a mesma palavra, Word, designa a Escritura e o Verbo]. Em alguns casos é difícil decidir exegeticamente se o termo Λόγος se refere ao Verbo eterno ou à palavra falada (Hb 4.12-13).
Na Igreja. 1. A sua inspiração plena faz da Sagrada Escritura a autoridade absoluta e final, inteiramente suficiente como supremo Padrão de Fé, Diretório de Moral e Carta de Privilégios da Igreja de Deus. É claro que o Livro das revelações divinas não pode conter nada que não seja verdadeiro; mas a sua infalibilidade, por si mesma, está ligada especialmente à verdade religiosa. A Escritura constitui, como se verá adiante, o Cânon absoluto, ou Livro da Fé. Guarda relativo silêncio quanto à ciência humana; tem as suas próprias leis de gramática e de retórica; cita tradições e admite registros como testemunho, sem se comprometer com a exatidão deles. Não pretende ser divina em nenhum sentido que a retire da literatura humana: uma Bíblia desse tipo seria algo muito diferente da que temos. Afinal, é uma coleção divino-humana de documentos: a relação exata entre o humano e o divino é um problema que tem atraído muita atenção e que ainda não foi resolvido de modo adequado, embora ainda possa vir a sê-lo. Mas, no domínio da verdade religiosa e do reino de Deus entre os homens, a sua reivindicação de autoridade e de suficiência é absoluta.
I, 175Credenciais. 2. A evidência da inspiração das Escrituras pertence, antes, ao exame histórico que virá a seguir. Basta dizer aqui que ela se encontra no próprio testemunho delas, confirmado pelos seus efeitos. Aqui, mais uma vez, temos de argumentar no que parece ser um círculo. Na verdade, não há evidências a trazer de fora para a questão: só credenciais de dentro. Pode-se dizer que o Livro é inspirado. São Paulo usa essa expressão não a respeito dos escritores, mas do que eles escrevem; e, como prova, aponta para os seus usos proveitosos. As palavras dele, já citadas, podem ser citadas outra vez como a última afirmação autorizada sobre o assunto que as próprias Escrituras contêm: Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça (2Tm 3.16). Esse foi o testemunho final de são Paulo, uma das suas Palavras Fiéis, proferida quando todos os seus próprios escritos já estavam no mundo; e a respeito desses escritos são Pedro usou o mesmo termo, Γραφάς, classificando-os com as demais Escrituras (2Pe 3.16). Quando assim falou a Timóteo, o próprio Paulo lhe estava dando uma instrução que as Escrituras mais antigas não podiam dar: por isso o Novo Testamento está incluído com o Antigo na declaração geral. O poder dos santos oráculos na alma de todos os que os estudam tem sido reconhecido, na maioria das vezes, como a sua credencial suprema. O Espírito Santo vive na Palavra; e o testemunho dele a essa Palavra, como órgão da sua graça, é irresistível para o crente. Ao incrédulo, como tal, a inspiração da Bíblia não pode ser provada.
Histórica O tema da inspiração ocupa um grande lugar na história do pensamento religioso e da polêmica eclesiástica, o que não é de admirar, considerando-se as imensas questões que estão em jogo. Da questão de saber se Deus deu ao seu povo uma revelação autorizada da sua vontade depende todo interesse da verdade, da certeza e da segurança da fé. Se a Bíblia é o que a nossa doutrina da inspiração afirma que ela é, muitas grandes questões de controvérsia entre as igrejas estão, ou deveriam estar, resolvidas de imediato por ela. Isso traz harmonia onde tudo o mais é confusão. Mas a doutrina foi e é impugnada; e precisamos considerar bem os ataques feitos a uma posição tão vital. Por isso, uma visão geral do seu desenvolvimento é muito importante para o estabelecimento da doutrina. Para que o levantamento seja completo, convém considerar a tradição universal da humanidade, o juízo da Igreja judaica, os dogmas eclesiásticos na cristandade e o estado atual da opinião e da controvérsia quanto à natureza e ao efeito da inspiração.
Pagã. Como toda doutrina da Fé, esta teve a sua sombra distorcida no mundo pagão; mas não se deve esperar aqui a distinção que estabelecemos entre Revelação e Inspiração. De modo geral, uma frase de Cícero pode falar por todos: Vetus opinio est, jam usque ab heroicis ducta temporibus, eaque et populi Romani et OMNIUM GENTIUM firmata consensu, versari quandam inter homines divinationem [É antiga a opinião, trazida já desde os tempos heroicos e confirmada pelo consenso tanto do povo romano como de TODAS AS NAÇÕES, de que existe entre os homens certa adivinhação] (Cícero, Da adivinhação I, 1). Mais particularmente, os μάντεις, ou profetas, que anunciavam os seus oráculos frenéticos; os poetas, que fingiam, ou não fingiam, uma influência especial sobre a sua mente; e os legisladores, dos quais Numa é apenas um representante, correspondem, em certo sentido, à Profecia, aos Hagiógrafos, ou Salmos, e à Lei da doutrina judaica da inspiração. Apenas em certo sentido, porém: pois o paganismo nada sabia, nem pretendia saber, de um grande sistema de verdade sobrenatural revelado à mente dos homens.
Judaica. A IGREJA JUDAICA, antes que se fechasse o cânon do Antigo Testamento, tinha fé absoluta na inspiração de Moisés e dos Profetas e dos autores dos outros Escritos Sagrados. Os judeus herdaram uma vasta literatura de toda espécie, mas distinguiam com cuidado, e tinham por sagrada, a parte que lhes fora dada diretamente do alto; e essa distinção orientou, como se verá adiante, a fixação do cânon. O judaísmo do intervalo entre os dois Testamentos manteve a mesma fé, com uma diminuição de intensidade quase imperceptível. Os autores apócrifos afirmam a diferença essencial entre os escritos humanos e os divinos. No livro que Baruque escreveu na Babilônia, apela-se a Deus nestes termos: como falaste por meio do teu servo Moisés, no dia em que lhe ordenaste escrever a tua lei (Baruque 2.28). Tobit também instrui o filho a partir de Nínive, porque as coisas que o profeta Jonas falou certamente hão de acontecer (Tobias 14.8). No Eclesiástico lemos sobre muitos profetas, citados pelo nome, e sobre Isaías, que viu, por um Espírito excelente, o que havia de acontecer no fim, e consolou os que choravam em Sião (Eclesiástico 48.24). Jônatas, ao buscar a amizade dos lacedemônios, declara, no entanto, que não precisa dela, visto que temos nas mãos, para nos consolar, os livros santos das Escrituras (1 Macabeus 12.9). O livro do Eclesiástico, no seu tom profético por vezes elevado, parece reivindicar inspiração; mas essa reivindicação nunca foi admitida; e, de fato, ele ora pela restauração da profecia perdida, a partir de cuja cessação se datavam os acontecimentos: suscita os profetas que houve em teu nome (Eclesiástico 36.15); como lemos também em Macabeus: Houve, assim, grande aflição em Israel, tal como não houvera desde o tempo em que não se viu mais profeta entre eles (1 Macabeus 9.27). Fílon, judeu alexandrino, deixa transparecer a influência do pensamento grego; mas tem uma teoria elevada da inspiração e declara que os profetas são intérpretes divinos, dos quais Deus se serve como órgãos para manifestar a sua vontade, sugerindo-lhes o que devem dizer. Josefo representa a crença palestina mais pura: “Está implantado em todo judeu, desde a hora do seu nascimento, estimar estes escritos como ordenanças de Deus e permanecer fiel a eles; e, em defesa deles, se for preciso, morrer de bom grado” (Josefo, Contra Apião I, 6-8). Ele, como Fílon, inclui os livros históricos entre os registros da inspiração e atribui igual valor a todas as declarações inspiradas. Com o judaísmo posterior não precisamos nos ocupar muito. Ele perdeu a sua autoridade como testemunha, em consequência da sua oposição à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, a quem o cristianismo honrou como o Inspirador. Moisés Maimônides, no século XII, foi o primeiro a conceber três estágios de inspiração: o MOSAICO, sem sonho, sem temor, face a face, constante, no qual ninguém partilhou a prerrogativa de Moisés; o PROFÉTICO, no qual a verdade pura era simplesmente desvelada; e o dos KETHUBIM, ou Hagiógrafos, dado pelo Espírito Santo, que revelava parte da verdade em sonhos ou de outro modo. Maimônides é o gênio-mestre do judaísmo ortodoxo moderno: “A Mose ad Mosem non surrexit sicut Moses” [De Moisés a Moisés não se levantou ninguém como Moisés] [N. do T.: isto é, de Moisés, o legislador, a Moisés Maimônides] é um dito que exprime o método desse judaísmo para rejeitar o Profeta maior que Moisés. Mas, à parte essas noções filosóficas do judaísmo moderno, a Igreja judaica remanescente e obsoleta (se assim se pode chamá-la) sempre foi fiel à sua doutrina original e elevada da inspiração.
Cristã. Na Igreja cristã, o dogma passou por um importante processo de desenvolvimento, ou antes de variações na opinião teológica.
Patrística. 1. A era patrística não fornece nenhuma definição da inspiração, mas sustentou uma doutrina muito elevada. Os Pais apostólicos citam o Antigo Testamento exatamente como os apóstolos o fazem: com a mesma confiança reverente e também com a mesma liberdade. Clemente Romano, o primeiro escritor cristão não inspirado, atribui às Escrituras de ambos os Testamentos a mais plena inspiração; elas são “os verdadeiros dizeres do Espírito Santo”. Policarpo cita as palavras dos apóstolos como palavras da Escritura; e de são Paulo, em particular, mais de um diz que escreve πνευματικῶς [pelo Espírito], ou divinitus inspiratus [divinamente inspirado]. De modo geral, essas autoridades mais antigas fazem dos dois Testamentos uma só Escritura. Os apologistas unanimemente ensinam, ou antes exibem, uma ideia quase mecânica da inspiração; alguns deles, porém, limitam o seu alcance à verdade religiosa. Adotam a figura da lira, na qual o Espírito Santo tocava. Justino Mártir usou essa figura no que se pode considerar a primeira definição teológica: Οὔτε φύσει οὔτε ἀνθρωπίνῃ ἐννοίᾳ [nem por natureza, nem por pensamento humano] podiam os homens conhecer coisas tão grandes e celestiais, mas por um dom, δωρεᾷ, que descia sobre eles… πλῆκτρον, ὥσπερ ὀργάνῳ κιθάρας τινὸς ἢ λύρας χρῶμενον [o plectro, servindo-se deles como do instrumento de uma cítara ou de uma lira] (Justino Mártir, Exortação aos gregos, cap. 8). Tertuliano, que inventou muitos termos teológicos, foi o primeiro a usar o de INSPIRATIO. Os primeiros Pais, de modo geral e em conjunto, sustentaram a mesma visão elevada: Orígenes, que errou em muitos outros pontos, sustentou neste a teoria mais elevada. Crisóstomo e Agostinho fazem dos profetas a boca e a mão de Deus; o segundo fala do venerabilem stylum Sanctæ Scripturæ [a venerável pena da Sagrada Escritura]. O CREDO NICENO inclui os apóstolos quando confessa o Espírito Santo, QUE FALOU PELOS PROFETAS; esse foi o testemunho da Igreja primitiva e indivisa em favor da inspiração do Antigo Testamento pela ação do Espírito pessoal, τὸ λαλῆσον διὰ τῶν προφητῶν. Em harmonia com isso, o Espírito Santo era chamado o ESPÍRITO PROFÉTICO: Πνεῦμά τε τὸ προφητικὸν σεβόμεθα καὶ προσκυνοῦμεν [e veneramos e adoramos o Espírito profético] (Justino Mártir, Apologia I). No conjunto, a Igreja patrística foi fiel à doutrina que o último dos primeiros Pais, Gregório Magno, representou ao dizer: “É desnecessário perguntar que escritor escreveu, pois o Espírito Santo foi o único autor: é supérfluo indagar com que pena um autor escreve.” Um apelo às palavras do Antigo ou do Novo Testamento, de um ou de ambos, punha fim a toda controvérsia naqueles dias, como põe nos nossos.
I, 179Germes de frouxidão. 2. Ainda assim, havia, como era de esperar, os germes da liberdade posterior e, na verdade, da frouxidão. A heresia montanista, que supunha uma série de Pentecostes e de administrações do Espírito inspirador, foi inteiramente rejeitada; mas tem tido os seus representantes modernos. Os doutores alexandrinos, em geral sãos, aludem aqui e ali a uma inspiração comum às profecias do paganismo e às profecias das Escrituras. Tertuliano falou às vezes, como outros falaram depois dele, de uma inspiração de todos os livros edificantes. Orígenes e Agostinho parecem ter admitido que algumas porções da Bíblia foram dadas sem inspiração, ou por uma inspiração de grau limitado. Alguns autores, ainda mais do que eles, deram ênfase ao elemento subjetivo, ou humano. E isso foi levado a um extremo na escola antioquena, representada por Teodoro de Mopsuéstia: os escritores eram espelhos que refletiam conforme o seu polimento. Teodoro foi condenado pelo Quinto Concílio Ecumênico por abrir mão de certos livros do Antigo Testamento e do Novo. Mas, como Lutero, que nisso o seguiu, sustentava uma doutrina elevada quanto à inspiração do que aceitava; embora, como Lutero, aplicasse um cânon subjetivo próprio para determinar o que deveria ser Escritura e o que deveria ser excluído.
Medieval. Na Igreja medieval, a doutrina da inspiração foi obscurecida pela gradual elevação da Tradição a uma posição coordenada: na verdade, estabeleceu-se aos poucos a noção de duas inspirações, a do Espírito na Bíblia e a do Espírito na Igreja. Mas a teoria não sofreu de outro modo: as palavras da Escritura continuavam a ser consideradas dotadas de uma autoridade normativa própria. Fredegiso de Tours (804) chegou a formular uma declaração mecânica rigorosíssima sobre o assunto. Mas a ele se opuseram teorias mais livres, que, no tratamento racionalista de Abelardo e nas sutis disquisições de Tomás de Aquino, anteciparam distinções posteriores da influência inspiradora do Espírito. Os místicos, que nessa época tinham em geral tendências panteístas, abandonaram qualquer doutrina definida da inspiração, tornando-a comum a todos os santos na sua intuição das coisas divinas; e assim provocaram em alguns dos precursores da Reforma um recuo para as opiniões mais rígidas possíveis. Enquanto isso, a coordenação da tradição oral avançou firmemente, até ser formulada no Concílio de Trento nestes termos: Sanctus Synodus, hoc sibi perpetuo ante oculos proponens, ut sublatis erroribus puritas ipsa evangelii in ecclesia conservetur, perspiciensque hanc veritatem et disciplinam contineri in libris scriptis et sine scripto traditionibus, quæ ex ipsius Christi ore ab Apostolis acceptæ, aut ab ipsis Apostolis S. S. dictante, quasi per manus traditæ ad nos usque pervenerunt, orthodoxorum patrum exempla secuta omnes libros tam V. quam N. T., cum utriusque unus Deus sit auctor, necnon traditiones ipsas, tum ad fidem quum ad mores pertinentes, tanquam vel ore tenus a Christo vel a S. S. dictatas et continua successione in Ecclesia Catholica conservatas, PARI PIETATIS AFFECTU AC REVERENTIA suscipit et veneratur. Si quis autem traditiones prædictas sciens et prudens contemserit, anathema sit [O santo Sínodo, propondo-se sempre diante dos olhos que, removidos os erros, se conserve na Igreja a própria pureza do evangelho, e percebendo que esta verdade e disciplina estão contidas nos livros escritos e nas tradições não escritas que, recebidas pelos apóstolos da boca do próprio Cristo, ou transmitidas como que de mão em mão pelos próprios apóstolos, por ditado do Espírito Santo, chegaram até nós, seguindo o exemplo dos Pais ortodoxos, recebe e venera com IGUAL SENTIMENTO DE PIEDADE E REVERÊNCIA todos os livros tanto do Antigo como do Novo Testamento, visto que um só Deus é autor de ambos, e também as próprias tradições, pertencentes tanto à fé como aos costumes, como ditadas, ou oralmente por Cristo, ou pelo Espírito Santo, e conservadas na Igreja Católica por sucessão contínua. Se alguém, porém, consciente e deliberadamente, desprezar as referidas tradições, seja anátema] (Sessão IV, Decreto sobre as Escrituras canônicas).
A Reforma. A Reforma iniciou para valer a discussão do dogma, por estar ele ligado ao seu princípio cardeal, a suficiência da Escritura para todas as coisas pertinentes à salvação humana.
I, 181Os líderes e as confissões. 1. Os seus líderes foram frouxos nas suas primeiras decisões. Lutero insistia numa inspiração material, quanto à doutrina, e numa inspiração formal, quanto ao modo, sendo esta de menor importância: submeteu os livros do Novo Testamento ao critério do seu próprio juízo quanto ao caráter evangélico deles e rejeitou, por exemplo, a Epístola de são Tiago. Calvino também foi muito longe na admissão das peculiaridades humanas. Por isso, os seus adversários romanistas encontraram nessa frouxidão um forte argumento em favor da Tradição. Os formulários dos dois ramos da Reforma variaram. A Confissão de Augsburgo contenta-se com a autoridade reguladora absoluta da Escritura: “Regulam autem habemus, ut verbum Dei condat articulos fidei” [Temos, porém, esta regra: que a Palavra de Deus estabeleça os artigos de fé] [N. do T.: a frase não é da Confissão de Augsburgo, mas dos Artigos de Esmalcalde, de Lutero (parte II, art. 2, § 15)]. As confissões reformadas foram mais fortes: a “Formula Consensus Helvetici” [Fórmula de Consenso Helvético] diz: “Hebraicus codex V. T., tum quoad consonas, tum quoad vocalia, sive puncta ipsa sive punctorum saltem potestatem, et tum quoad res tum quoad verba, θεόπνευστος” [O códice hebraico do Antigo Testamento, tanto quanto às consoantes como quanto às vogais, sejam os próprios pontos, seja ao menos o valor dos pontos, e tanto quanto às coisas como quanto às palavras, é inspirado por Deus]. Isso era dirigido contra Lutero, que afirmava que poderia haver madeira, feno e palha nos profetas, embora ali estivesse a substância que não podia ser queimada. Os Artigos anglicanos, como os luteranos, são mais negativos; a Confissão de Westminster, mais rígida. Mas os teólogos dogmáticos das novas igrejas tenderam gradualmente ao mais alto rigor, tal como expresso no Formulário Helvético: assim, Buxtorf sustentou, irracionalmente, que os próprios pontos vocálicos do hebraico eram inspirados. Em harmonia com isso, afirmavam que o TESTIMONIUM SPIRITUS SANCTI [testemunho do Espírito Santo] era o único fundamento da certeza quanto à autoridade divina da Escritura, enquanto as Affectiones Scripturæ [propriedades da Escritura] a justificavam perante a fé humana e a recomendavam à aceitação humana: duas verdades incontestáveis, que, no entanto, não precisavam da doutrina mecânica, ou rabínica.
Teorias mais livres. 2. O recuo diante desse extremo era de esperar. A Arminianos. reação começou com os primeiros teólogos ARMINIANOS, que reservaram a ação direta do Espírito para as matérias de fé, deixando à pesquisa histórica e à memória a parte que lhes cabia. Assim, Grócio diz: A Spiritu Sancto dictari historias non opus fuit; satis fuit scriptorem memoria valere, aut diligentia in describendis veterum commentariis [Não era necessário que as histórias fossem ditadas pelo Espírito Santo; bastava que o escritor fosse dotado de boa memória, ou de diligência para transcrever os registros dos antigos]. Os luteranos posteriores introduziram graus de inspiração: Calixto, os de Revelação e Assistência; Pfaff, os de Revelação, Direção quanto ao dogma e Permissão quanto a todo o resto. Witsius, porém, na Holanda, reavivou e sustentou a visão mais rígida. Os jesuítas, no século XVI, introduziram uma conveniente teoria da POSTSPIRATIO [inspiração posterior], que elevaria retrospectivamente à condição de Escritura livros como os de Macabeus. Contra isso protestou a Universidade de Lovaina (1588), e Sisto V deixou a questão sem decisão. A Igreja romanista nunca foi além de Perrone, um dos seus representantes vivos: “Diximus saltem QUOAD RES ET SENTENTIAS, quia cum noluerit Ecclesia definire, seu dirimere quæstionem inter scholasticos agitatam, utrum preterea Deus verba ipsa dictaverit, nexumque verborum et periodorum, ideo ne controversiam domesticam cum ecclesiæ doctrina temere permisceremus, coarctavimus propositionis sensum ad rei substantiam, sine qua vera Inspiratio Divina neque est neque intelligi quidem potest” [Dissemos “ao menos QUANTO ÀS COISAS E AOS PENSAMENTOS“, porque, como a Igreja não quis definir, ou dirimir, a questão debatida entre os escolásticos, se Deus ditou além disso as próprias palavras e a conexão das palavras e dos períodos, por isso, para não misturarmos temerariamente uma controvérsia doméstica com a doutrina da Igreja, restringimos o sentido da proposição à substância da coisa, sem a qual a verdadeira inspiração divina nem existe nem sequer pode ser entendida] (Perrone, Prælectiones theologicæ II, 2). Enquanto isso, o misticismo moderno tornou a Luz Interior coordenada com a inspiração, assim como o romanismo fez com a Tradição. Os mais elevados místicos, de todas as comunhões, elevaram-se sublimemente acima da Palavra escrita. Os pietistas, porém, como Arndt, Spener e a escola de Bengel, prestaram plena honra à Escritura escrita, sustentando, contudo, a supremacia do Espírito vivo. Os quacres, nos seus formulários (pois eles os têm), fazem declarações ambíguas: Barclay supõe que a Escritura apenas orienta o padrão interior do cristão. Os primeiros socinianos criam na inspiração, não com um Inspirador pessoal específico, mas ainda assim como uma influência específica. O Catecismo Racoviano indica vestígios da verdade da qual o unitarismo moderno decaiu, assim como se afastou de muitas das outras doutrinas mais elevadas do socinianismo.
Teorias modernas. 1. A maioria das igrejas ortodoxas tem procurado, mais recentemente, sustentar uma doutrina de inspiração plena em harmonia com a noção de diferentes GRAUS. Rejeitando os termos MECÂNICA e VERBAL, por serem ambos incompatíveis com o elemento humano, têm usado às vezes DINÂMICA, para indicar que a influência inspiradora não se exerceu tanto SOBRE os escritores quanto NELES e POR MEIO DELES; o resultado, porém, é a infalível Regra de Fé, entregue pela instrumentalidade de homens sobre os quais se agiu de acordo com as leis da sua própria natureza. Isso exigiu a distinção entre SUGESTÃO, a revelação direta de coisas de outro modo desconhecidas; ELEVAÇÃO, que provê a devida preparação dos instrumentos; e SUPERINTENDÊNCIA, que guarda os processos da intrusão do erro. A segunda delas é considerada supérflua por muitos, o que é bem natural. A inspiração é PLENA, por tornar o Espírito Santo responsável pela verdade de toda a matéria; mas não VERBAL, como se ele ditasse as próprias palavras, que em alguns casos se perderam com os autógrafos da Escritura. Os que rejeitam todas essas teorias de distinção costumam atribuí-las à influência de Maimônides; mas injustamente, pois são sustentadas por alguns dos mais eminentes e ortodoxos escritores sobre o assunto, em todas as igrejas; e, de alguma forma, têm de ser aceitas por todo estudioso imparcial como em parte alguma contraditas pela Escritura.
I, 183Inspiração dinâmica. 2. Essa visão da coordenação entre o divino e o humano está, sem dúvida, no fundamento da verdadeira doutrina; mas a sua definição dogmática é difícil, e tão perigosa quanto difícil.
Divino e humano. (1.) O menor erro aqui leva à anulação da distinção essencial entre a ação do Espírito de Deus sobre apóstolos e profetas e a sua influência geral na purificação das faculdades regeneradas para a apreensão da verdade. A noção de uma analogia entre essa unidade do divino e do humano e a natureza divina e humana em Cristo está sujeita aos mesmos erros que têm assediado a doutrina da própria pessoa de nosso Senhor. O elemento divino tem sido, e ainda é, por muitos, levado a um extremo na visão da inspiração que torna as faculdades humanas absolutamente passivas: a perversão eutiquiana, por assim dizer, segundo a qual não resta humanidade nem agência humana. Isso já foi suficientemente mencionado e, na verdade, condena-se a si mesmo. Mas a reação é mais importante nas suas consequências: a perversão nestoriana, do outro lado, que atribui ao elemento humano uma distinção e uma ascendência tais que não deixam lugar para uma influência inspiradora distinta do Espírito Santo.
Escola de Schleiermacher. (2.) Schleiermacher deu o tom a boa parte do pensamento inglês moderno sobre este e outros assuntos. Coleridge, Morell, Maurice e outros consideram a energia inspiradora apenas como a comunicação de intuições claras da verdade espiritual por meios extraordinários, a saber, a elevação das faculdades da mente a uma potência mais alta daquilo que todos os homens bons possuem. A noção deles faz da inspiração simplesmente uma simpatia com a mente reveladora de Cristo, que os apóstolos teriam tido apenas em grau mais alto que nós. A apóstrofe de Moisés, Você está com ciúmes por mim? Eu gostaria que todo o povo do Senhor fosse profeta, que o Senhor lhes desse o seu Espírito! (Nm 11.29), perde o seu sentido. Nessa suposição, não há nenhuma prerrogativa especial da inspiração: todos os crentes são inspirados segundo a medida da sua união com o Senhor. Se a teoria mecânica tragava os homens no Inspirador, esta perde o Inspirador nos homens: ambos os erros devem ser igualmente evitados.
I, 184A verdade no conjunto. (3.) Além disso, grande número de teólogos ortodoxos segue Rothe, Martensen e outros ao considerar que cada escritor contribui com a sua porção independente daquilo que só é verdade perfeita quando se recebe o conjunto. Por mais que se condene esse princípio na forma que ele comumente assume, há nele muita verdade. A Bíblia é um só todo orgânico. A verdade está em cada parte; a verdade inteira, porém, só está na Bíblia completa. Os escritores do Antigo Testamento foram inspirados em antecipação do Novo; e os escritores do Novo Testamento foram inspirados para completar o Antigo. Os evangelistas sinóticos não dão o pensamento pleno do Espírito quanto à Pessoa de Cristo; mas a apresentação que são João faz dela exige a deles como pano de fundo. Assim, descendo aos pormenores, cada escritor do Novo Testamento acrescenta algum fruto da inspiração que não se encontra em nenhum outro. Quase não há acontecimento registrado da vida do Senhor que não tenha sido transmitido pelo Espírito Santo com diversas nuances de diferença nos vários evangelistas, e que só se compreenda plenamente quando se reúnem os diferentes narradores. Mas é evidente que tudo isso diz respeito aos resultados da inspiração, e não à inspiração em si.
Fraquezas humanas. (4.) Há uma forte tendência a unir duas coisas incompatíveis: a crença num Espírito inspirador responsável por toda a verdade espiritual e a hipótese de que o elemento humano está sujeito a todas as fraquezas comuns da composição humana. Quando se põe a analogia da Pessoa única de nosso Senhor em duas naturezas a serviço dessa teoria, não se deve esquecer que a natureza humana de nosso Senhor era sem pecado e incapaz de pecar. Se os defensores dessa teoria admitirem que o elemento humano na Bíblia não é suscetível de erro real, por mais que seja afetado pela fraqueza, a sua doutrina pode tornar-se segura; e, sendo segura, é profundamente interessante e instrutiva. Mas não é essa, em geral, a opinião daqueles a quem nos referimos. Eles de fato limitariam a possível incorreção da forma em que hoje temos a Escritura a coisas inteiramente desligadas da fé, e a explicariam de várias maneiras. Alguns desses métodos são compatíveis com a dignidade da Palavra de Deus: são os que já foram insinuados. Outros são expedientes vãos e desnecessários, e entregam o princípio da inspiração à imprecisão e à incerteza.
Ataques e evidências. Os ataques modernos à inspiração da Escritura são de dois tipos: ou negam a sua possibilidade por razões abstratas, assim como negam a possibilidade da revelação em geral, ou procuram resistir às evidências da sua inspiração como livro concreto.
Filosofia. 1. Espinosa, no século XVII, uniu os dois métodos de ataque. Rejeitou, com base em princípios panteístas, a ideia de qualquer ação independente de Deus, e foi o primeiro, nos tempos modernos, a acumular objeções contra o dogma tiradas do próprio texto. Não foram muitos os que o seguiram no seu panteísmo extremo; mas o deísmo na Inglaterra, e o racionalismo ou iluminismo na Alemanha e na França, juntaram-se à filosofia panteísta para recusar qualquer inspiração divina que viesse completar a religião da natureza, fundada na consciência intuitiva da mente humana e na sua percepção inerente da verdade. Mas a defesa da revelação em geral é a defesa do método de comunicá-la. A possibilidade da inspiração, que o panteísmo nega com coerência, o deísmo nega sem coerência; pois, uma vez admitido um Deus pessoal que não é transcendente, mas se revela, todos os argumentos deles caem. Pondo de lado, porém, essas negações da revelação em geral, esta doutrina específica sofre a oposição filosófica de muitos por razões psicológicas. As ideias de Schleiermacher, e de muitos que lhe fazem eco, já foram mencionadas como introdutoras de uma noção falsa da doutrina. Na verdade, elas levam realmente à sua negação completa. Pensa-se que o conhecimento religioso, como todo conhecimento, não passa da consciência intuitiva contemplando realidades; e que, portanto, não é filosófico distinguir entre a inspiração dos escritores da Escritura e a consciência cristã em geral. Mas essa noção mina os fundamentos de uma manifestação sobrenatural do pensamento de Deus ao homem. Alguns procuram um meio-termo. Pensam, com Coleridge, que antigamente Deus de fato comunicou sobrenaturalmente conhecimento aos homens pela Lei e pelos Profetas; mas que, nestes últimos dias, mais livres, ele torna comuns as suas revelações por meio da graça da iluminação dada a todos. Daí que, no que diz respeito à revelação cristã, não há autoridade infalível além dos testemunhos de uma consciência falível. Quanto mais a fundo se consideram as objeções a uma influência específica exercida de fora sobre a mente, mais infundadas elas parecerão. Um espírito humano pode influenciar e, por assim dizer, inspirar outro. Mas aqui temos de tratar com o Criador do espírito humano, que pode não só mover-se sobre ele, mas também depositar nele a sua verdade. Não há literalmente nenhum argumento filosófico de algum valor contra a doutrina cristã de uma influência inspiradora especial do Espírito Santo.
Discrepâncias. Desde tempos muito antigos, a diligência do ceticismo tem-se ocupado das incoerências internas da Escritura, das quais se compôs uma lista bastante temível. Os incrédulos cedo aprenderam a usar essa arma: não lhes escapou que a biblioteca bíblica abunda, literalmente abunda, em materiais para a sua tarefa; julgaram encontrar os inimigos da Bíblia entre os da própria casa dela. Mas o estudioso que concede aos registros da revelação a vantagem de serem tidos por coerentes, a menos que se encontre prova positiva de incoerência, verá que só há na Escritura as dificuldades que se poderiam esperar de um livro assim, escrito como foi escrito e com o propósito disciplinar e educativo que tem em vista. Muito se faz, na resposta às objeções assim levantadas, simplesmente analisando-as. Tal análise, porém, para ter algum valor, precisa ser completa; e o exame que ela requer pertence aos campos da introdução bíblica e da hermenêutica. Tudo o que é possível no nosso sistema dogmático é indicar alguns princípios gerais que se devem ter em mente ao conduzir esse exame e mostrar o alcance da questão para a doutrina de que agora tratamos.
I, 187Autógrafos não preservados. 1. Muitas discrepâncias são, ou pelo menos podem ser, resultado da cópia e da tradução. Não temos os originais; não existe um único autógrafo de profeta ou apóstolo; e muitos erros de transcrição podem ser admitidos, e de fato precisam ser admitidos, por todo estudioso imparcial do texto: o Espírito inspirador velou sobre as vicissitudes próprias da transmissão da literatura humana, sem as suprimir. O exame desta questão, porém, pertence à crítica bíblica. Basta dizer aqui que há poucas porções da Sagrada Escritura das quais possamos ter certeza de que se acham diante de nós exatamente como saíram da mão dos primeiros escritores. O Erros de transcrição. processo de copiar o hebraico do Antigo Testamento estava particularmente sujeito a riscos: pela semelhança das letras, em geral, e, em particular, pelo antigo costume de representar os números por letras do alfabeto, sendo a diferença entre unidades, centenas e milhares marcada pelo acréscimo de pontos às unidades. Esse é um fato geralmente aceito. O dr. Kennicott diz: “Que os copistas judeus frequentemente expressavam os números da Bíblia, no original, por letras isoladas, é bem sabido dos eruditos.” E Winer: “Para expressar os números, os judeus, no período posterior ao Cativeiro, empregavam as letras do alfabeto, como se evidencia pelas inscrições das chamadas moedas samaritanas; e não é improvável que os antigos hebreus fizessem o mesmo, assim como os gregos, que receberam dos fenícios o seu alfabeto, expressavam desde as eras mais remotas os seus números por letras. Pela confusão de letras de forma semelhante, quando usadas como numerais, e pela posterior transcrição delas por extenso, podem-se explicar satisfatoriamente, em parte, as somas enormes dos livros do Antigo Testamento e as contradições nos números que eles apresentam; mas aqui é necessária cautela.” Um número muito grande das afirmações históricas contraditórias que se detectam ao comparar os livros de Crônicas com os de Reis, Esdras com Neemias e as tabelas genealógicas umas com as outras pode ser razoavelmente explicado assim. Nem se deve dar peso algum a elas, ainda que se contem às centenas: cada uma deve ser examinada com cuidado, e o resultado será, em geral, satisfatório. Quando não for, somos obrigados a crer que se infiltraram erros pela ação de causas que agora não podemos rastrear. Por exemplo, lemos num relato que o mar de fundição continha dois mil batos (1Rs 7.26); em outro, e recebia e comportava três mil batos (2Cr 4.5) [N. do T.: a NAA converte as duas medidas em litros, “cerca de quarenta mil litros” e “cerca de sessenta mil litros”, e não traz as palavras “recebia e comportava”; Pope segue a KJV, e o argumento depende dessa redação]. Ora, aqui temos um caso que pode valer por muitos. Ou ב̈, 2000, foi confundido com ג̈, 3000 (a solução mais provável), ou as palavras recebia e comportava sugerem que ele tinha capacidade para conter o número maior. Este é o primeiro exemplo que ocorre: só a falta de espaço impede que nos refiramos a muitos outros. Neste caso, não precisamos recorrer necessariamente a uma corrupção do texto; mas há outros em que não resta outra hipótese. Quando lemos setecentos cavaleiros num relato (2Sm 8.4) [N. do T.: a NAA traz “mil e setecentos cavaleiros”; Pope segue a KJV, “seven hundred horsemen”], e sete mil cavaleiros em outro (1Cr 18.4), temos de supor que ז foi escrito por engano em lugar de ז̈, um erro fácil. Em inúmeros textos temos de aceitar erros desse tipo, crendo firmemente, porém, que é assim que se explicam. E isso porque somos igualmente obrigados a crer que as Escrituras do Antigo Testamento, que são Paulo chama os oráculos de Deus (Rm 3.2), foram originalmente escritas sob a inspiração do Espírito Santo. O Novo Testamento não foi protegido dos erros de transcrição: enganos que às vezes nasceram do descuido, às vezes de intenção deliberada, mas que em nenhum dos casos foram evitados por algum milagre contínuo. No Novo Testamento temos alguns manuscritos antigos que fornecem um padrão de julgamento; mas não se pode afirmar de modo absoluto que não haja erros que hoje aparecem até mesmo em todos eles; e uma ou duas aparentes inexatidões em alusões históricas podem estar entre esses erros. Aqui, a única questão que nos interessa não é como conciliar a inspiração com erro na Bíblia, mas a inspiração com uma Bíblia sujeita a corrupção no texto. Essa é uma questão de solução nada difícil. Basta ao crente aceitar o fato e admitir todas as suas consequências na sua teoria da inspiração. Os santos homens que escreveram estes livros foram inspirados; mas a sua inspiração não deixou nenhuma virtude protetora nos próprios documentos. Tudo o que podemos dizer é que não aprouve a Deus ligar a sua verdade eterna, de modo absoluto e inseparável, para o bem e para o mal, a documentos que perecem com o uso. A verdade da Bíblia não depende da verdade de cada frase que se possa encontrar nas nossas cópias dela. Por outro lado, pode-se afirmar que, no que diz respeito àquela palavra de Deus, a qual vive e é permanente (1Pe 1.23), nenhuma corrupção do texto escrito teve permissão de interferir na sua apresentação perfeita. Nenhuma de toda a multidão de variantes textuais nas margens de ambos os Testamentos afeta no menor grau o fundamento da doutrina da qual depende a salvação do homem.
I, 189Inspiração verbal. 2. Muitos dos argumentos levantados contra a inspiração da Escritura dirigem-se, na realidade, contra uma noção falsa ou exagerada do seu caráter verbal e, por conseguinte, caem diante de uma teoria mais livre. Que muitas palavras e frases foram dadas ou sugeridas aos escritores não pode ser posto em dúvida por quem considere a importância solene de alguns dos termos principais da Escritura. Mas afirmar que cada palavra foi posta na mente de cada escritor sobre cada assunto é impor à nossa doutrina um fardo pesado demais para ser carregado. É difícil supor que, nesse caso, as próprias palavras não teriam sido protegidas para sempre. E tal inspiração teria sido mecânica demais para se harmonizar com o espaço óbvio e inegável concedido às faculdades humanas. Mas o ponto principal é que essa noção fornece um motivo de oposição ao qual é difícil resistir. Ocorrem nos Evangelhos muitíssimos casos de variação nos relatos das palavras de nosso Senhor, nas ocasiões mais solenes, que em caso algum afetam o seu espírito sagrado e o seu sentido eterno, mas são absolutamente incompatíveis com a inspiração verbal. Nosso Senhor não poderia ter pronunciado todas as diferentes palavras exatas que lhe são postas nos lábios: o que elas, cada uma, significam, isso ele de fato disse. Para tomar apenas um exemplo, e esse da mais alta solenidade possível, lemos os seguintes relatos. Bebam todos dele; porque isto é o meu sangue, o sangue da aliança, derramado em favor de (περί) muitos, para remissão de pecados (Mt 26.27-28). Ainda: Isto é o meu sangue, o sangue da aliança, derramado em favor de (ὑπέρ) muitos (Mc 14.24). Ainda: Este cálice é a nova aliança no meu sangue derramado por (ὑπέρ) vocês (Lc 22.20) [N. do T.: o original indica Lc 22.21]. Mais uma vez: Este cálice é a nova aliança no meu sangue; façam isto, todas as vezes que o beberem, em memória de mim (1Co 11.25). Sem falar das variações no cenário histórico da primeira instituição da Ceia do Senhor, transposições, deslocamentos e omissões, há aqui evidência de que muito é deixado ao instrumento humano e de que só a coisa significada é suprema. Mas não há evidência nisso, nem na multidão de casos dos quais este é um exemplo, contra o fato da inspiração plenária e da autoridade absoluta dos registros. Os três narradores e são Paulo (que aqui completa os evangelistas, assim como completou o grupo apostólico) emitiram os seus relatos autorizados a partir do mesmo e único Espírito, que distribuía a cada um, individualmente, conforme queria.
I, 190Ciência e ética. 3. As objeções levantadas contra a inspiração da Escritura com base na sua ciência, na sua doutrina religiosa, no seu elemento miraculoso, na sua ética e, em geral, na sua incoerência consigo mesma ou com as noções preconcebidas dos homens, são, no conjunto, facilmente respondidas. O Espírito Santo nunca entrega ao homem como ciência aquilo que a ciência contradiz: à ciência humana como tal a Bíblia não pretende contribuir com nada. Firmes na convicção de que este livro, ou biblioteca de livros, é o registro daquele governo providencial por causa do qual o mundo existe, podemos ter certeza de que ele não será contradito em pontos fundamentais por nada que os registros da natureza ou os anais autênticos da história venham a revelar. Há mistérios insondáveis no campo da ciência, assim como os há no campo da revelação: a nossa sabedoria está em submeter-nos a eles em ambos, aguardando a reconciliação final. Mas sobre este assunto já se disse o bastante em outro lugar. Quanto à longa série de objeções doutrinárias, elas literalmente não merecem ser ouvidas como argumento contra a inspiração. O ensino da Bíblia, como um todo, é absolutamente coerente consigo mesmo, desde que se introduza a ideia de desenvolvimento: admitida essa ideia, a evolução gradual da verdade acerca de Deus, acerca do homem e acerca da encarnação que une Deus e o homem é exatamente, em todos os pontos, digna do Espírito que a governava, e tal como só o Espírito que a governava poderia ter conduzido. Os casos particulares de discordância, como, por exemplo, entre são Paulo e são Tiago, são, em cada caso sem exceção, do tipo que um olhar superficial descobre e uma meditação mais profunda explica. Há muito mais força na alegação de que os princípios éticos da Escritura não são constantes e uniformes. Mas também aqui só uma investigação serena fará justiça a todos os elementos da questão. Em toda parte, na composição da Bíblia, o elemento humano permanece em larga medida. Assim como os homens são usados como testemunhas que dão o seu testemunho segundo a melhor luz que têm (verdadeiro como testemunho, mas declarando o que o Espírito pode usar outras testemunhas para completar), assim também as paixões humanas entram sem receber a aprovação divina. Os documentos humanos e as composições humanas são às vezes citados sem expressa aprovação divina do seu espírito nem confirmação das suas afirmações. Há muitas anomalias e dificuldades que talvez nunca venham a ser esclarecidas, porque perdemos a chave da sua solução: o certo é que muitas das pedras de tropeço da crítica moderna não causavam dificuldade alguma à Igreja primitiva, mais bem informada do que nós. É igualmente certo que muitas supostas falhas da Bíblia, tidas como negação da sua inspiração plenária, desaparecem diante de uma investigação profunda; e que muitas delas só são falhas quando vistas à luz de uma teoria falsa da doutrina. Os homens de Deus de ambas as economias têm todas as suas faltas descritas; e às vezes essas faltas são assumidas na ordem da Providência; mas em nenhum caso isolado há qualquer dúvida quanto ao fato de que o Deus santo ama a justiça. Todos admitem que as Escrituras, como um todo, têm um só fim, o estabelecimento da santidade no homem: então essa admissão deveria excluir a possibilidade de interpretar mal passagens que pareçam apontar na direção contrária. Que há pequenos choques na ética é certo; mas devemos lembrar que, em cada um desses casos, há uma razão dada. A acusação mais pesada, porém, deixa para trás todas as outras e ataca a conduta do próprio Deus no seu trato com os homens pecadores. Ora, essa é uma questão de teodiceia, e não de inspiração. A Bíblia de fato revela uma ira de Deus manifestada de maneiras muito misteriosas no mundo presente, e prediz a sua manifestação no mundo vindouro. Vemos ao nosso redor o bastante para nos fazer hesitar em recusar aceitação aos estranhos acontecimentos registrados na Escritura, onde o milagre é um dos poderes presentes do mundo. Mas, em todo caso, eles não constituem argumento contra a inspiração da Sagrada Escritura: a força que têm está do lado do ateísmo.
I, 191Caráter de provação. 4. É preciso lembrar sempre que a Bíblia é um livro adaptado ao estado de provação do homem. A nossa provação se dá num mundo de cujos mistérios pouco sabemos. O mundo da revelação também tem os seus segredos não resolvidos. Sabemos, é verdade, muito acerca da estrutura da Escritura; mas muito nos está oculto. O Espírito Santo nunca define a inspiração tal como se aplica a todo o corpo da Escritura. Temos de construir a nossa teoria a partir dos fatos; e a nossa teoria deve tomar esses fatos indiscutíveis tais como os encontra. Como um todo, a Bíblia brilha sobre o espírito do homem como o sol no firmamento: não menos clara, não menos evidente por si mesma. As dificuldades existem para a prova da nossa fé, da nossa diligência, da nossa humildade, e para o exercício das nossas almas na dependência, não da letra, mas do espírito. Como diz o bispo Butler: “Ignoramos totalmente que grau de novo conhecimento seria de esperar que Deus desse à humanidade por meio de revelação, supondo-se que ele concedesse alguma; ou até que ponto, ou de que maneira, ele interviria milagrosamente para habilitar aqueles a quem originalmente fizesse a revelação a comunicar o conhecimento por ela dado, e para assegurar que fosse transmitido à posteridade” (Butler, A analogia da religião II, 3).
I, 192Autoridade de Cristo. 5. Por fim, há uma posição elevada a ser tomada por quem crê na revelação cristã, isto é, por quem confia em Jesus; e, uma vez tomada, ela não deve ser abandonada nem por um momento. A ela nos referimos repetidas vezes: é a conclusão de tudo. Ele saiu do Antigo Testamento com o Antigo Testamento na mão, e fez das vozes de Moisés e dos antigos profetas a sua própria voz. Muito depois de os representantes da antiga economia terem desaparecido no monte, deixando-o sozinho, aquele a quem todos devem ouvir, ele resumiu expressamente o testemunho deles como dado a respeito dele mesmo, do princípio ao fim: começando por Moisés e todos os Profetas, explicou-lhes o que constava a respeito dele em todas as Escrituras (Lc 24.27). Não fez nenhuma exceção nem ressalva. A moldura do nosso Salvador vivo é a Bíblia Sagrada: ele está engastado nela. O crente em Cristo, o eterno Oráculo de Deus, recebe as Escrituras das mãos dele como revestidas de autoridade divina; se assim não fosse, se a unção divina deixasse de descer sobre qualquer parte delas, o próprio Cristo nos teria dito. O crente não tem dúvida, não deve ter dúvida, de que o Espírito inspirador depositou na Igreja um testemunho verdadeiro da história da redenção. Enquanto o ataque e a defesa prosseguem, a sua sabedoria está em esperar com tranquila confiança. Não deve alarmar-se e capitular. Não deve abandonar as fortificações exteriores, nem entrincheirar-se na suposta Bíblia dentro da Bíblia, no suposto Espírito dentro da letra. Não deve fazer isso, porque a revelação cristã está ligada aos seus dois Testamentos; e ele pode ter certeza de que o Espírito Santo o sustentará e o honrará na sua fidelidade aos registros da sua Fé.
Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. I, pp. 156-192, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.