W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume I · Deus e a criatura

A criação e os sistemas opostos

I, 359DEUS E A CRIATURA.
CRIAÇÃO.
PROVIDÊNCIA.

I, 361DEUS E A CRIATURA.

Deus e a existência criatural. O estudo dos atributos divinos nos preparou para um universo que não é Deus, mas foi trazido à existência pelo seu poder e é objeto da sua conservação, do seu cuidado e do seu governo providenciais. As duas divisões Criação e providência. do nosso assunto presente são, portanto, a criatura e a providência. A primeira abrangerá todas as diversas ordens da natureza criada; a segunda, os princípios gerais que, segundo a revelação, governam o destino delas. Em outras palavras, o quê e o porquê da criação universal de Deus.

A CRIATURA.

A criatura. O universo criatural, que abrange as inteligências imateriais, ou anjos, o mundo dos elementos materiais e o homem, que une em si os dois, deve o seu ser ao ato do Deus triúno, cuja vontade o chamou à existência. As revelações da Escritura sobre este assunto podem ser distribuídas em dois tópicos: o Criador, no que diz respeito ao ato da criação; e as diversas ordens das criaturas, como resultado do seu ato criador.

O CRIADOR.

O Criador. Na Escritura, a criação é atribuída ao único Deus todo-poderoso, na Trindade da sua essência: o Filho e o Espírito Santo têm, na produção de todas as coisas, a mesma relação especial que mais tarde mantêm com a redenção do mundo. O ato criador manifesta a glória dos atributos divinos, mas livremente, como ato da vontade, e tendo a difusão da felicidade como um dos fins alcançados pelos recursos da sabedoria infinita. A criação absoluta é efeito da onipotência; mas a origem da existência criatural é um mistério revelado somente para a adoração, pois não se dá, nem é possível, outra explicação senão a toda-suficiência do Criador. A criação secundária, ou a formação da parte material do universo em ordem, manifesta também a sabedoria e o amor divinos, que preparam o cenário da providência para todas as criaturas vivas, o da provação para todas as inteligências morais e o da redenção para o homem caído.

I, 362A TRINDADE NA CRIAÇÃO.

Deus como Criador. Já se fez alusão à Trindade redentora como a manifestação do Eterno e Triúno na salvação do homem. Entre uma e outra pode-se intercalar uma Trindade econômica, em certo sentido mediadora, mas não redentora: isto é, a revelação de três Pessoas, de um modo e numa ordem especiais, na produção do universo.

A Trindade. 1. Na Escritura, cada Pessoa está claramente ligada ao ato da criação: claramente, isto é, segundo a lei universal do desenvolvimento gradual, tantas vezes mencionada. O Antigo Testamento dá o seu testemunho de modo obscuro, mas não incerto, quando as suas palavras são interpretadas à luz do Novo. Meu Pai trabalha até agora, é o testemunho de nosso Senhor, e eu trabalho também: palavras com que ele não indica tanto etapas sucessivas, mas reivindica para si todos os atos divinos e os faz seus: o Filho nada pode fazer por si mesmo, senão somente aquilo que vê o Pai fazer (Jo 5.17, 19). O Pai, aqui, é o Pai eterno; pois da eterna Segunda Pessoa, tanto como o Verbo quanto como o Filho, se afirma expressamente que é o autor da criação: Todas as coisas foram feitas por ele (Jo 1.3). O testemunho de são João é repetido e confirmado por são Paulo: Tudo foi criado por meio dele; e isso numa passagem que declara que o seu Filho amado era o primogênito de toda a criação (Cl 1.15-16): πρωτότοκος, gerado antes de toda existência criatural. Essas passagens, combinadas, conduzem o nosso pensamento à única outra referência de nosso Senhor à criação: me amaste antes da fundação do mundo (Jo 17.24). Disso dão testemunho todas as Escrituras. Levando agora a prova de volta ao Antigo Testamento, vemos que ele presta ao Espírito o mesmo tributo que o Novo presta ao Filho: Envias o teu Espírito, eles são criados (Sl 104.30); e, antes das palavras Façamos o ser humano, lemos que o Espírito de Deus se movia sobre as águas (Gn 1.26, 2). A doutrina da Trindade essencial dá harmonia e coerência ao conjunto. Sem ela, toda a estrutura da Escritura se torna ininteligível: deixa de ser uma estrutura; ela mesma fica sem forma e vazia, e há trevas sobre toda a sua face.

I, 363Trindade econômica. 2. Mas há aqui, evidentemente, uma Trindade econômica, prefiguração da Trindade redentora. O que a palavra do homem é para o seu ato, isto é, a expressão da sua vontade, isso o Verbo eterno foi na criação: pelo qual também fez o universo (Hb 1.2), onde o Verbo é o Filho, que é o Mediador da criação dos αἰῶνες, ou ordens de mundos, os quais ele sustenta pela palavra, τῷ ῥήματι, do seu poder. A sua onipotência como Deus e a sua mediação como Verbo no universo criado são uma só coisa. O διά [por meio de], geralmente empregado, também o indica. Ele é a Mente, a Vontade e o Ato do seu Pai. Essa relação econômica não se estende tão expressamente ao Espírito Santo; mas vimos que também dele, como do Filho, se pode dizer: sem ele, nada do que foi feito se fez (Jo 1.3). Tudo isso é revelado para suprimir a noção de que a matéria, ou a substância do universo visível, é eterna; ou, supondo-a criada, de que algum demiurgo inferior tenha sido empregado na criação; também para firmar a nossa fé na dignidade de todas as coisas criadas; e, finalmente, para mostrar que o cenário da criação foi preparado de modo a ser, no devido tempo, também o cenário da redenção.

OS ATRIBUTOS DIVINOS NA CRIAÇÃO.

Atributos divinos. Já antecipamos o nosso assunto presente ao considerar os atributos divinos em relação à criatura. Basta dizer aqui que a onipotência de Deus, como manifestação exterior da sua toda-suficiência interior, é suficiente para a produção original da matéria naquilo que se pode chamar criação absoluta; que a sua sabedoria e o seu poder se veem na criação secundária, ou formação da matéria em mundos; e que o fim de tudo é a expressão das perfeições divinas, ou o reflexo delas nas obras das suas mãos.

I, 364A CRIAÇÃO PROPRIAMENTE DITA.

Criação primária. Só na toda-suficiência divina podemos encontrar o fundamento da origem de todas as coisas que existem sem ser o próprio Deus. Nela temos de nos contentar em buscar a possibilidade de todas as formas de ser, espirituais ou materiais, conhecidas ou desconhecidas de nós: o nosso próprio universo, na medida em que podemos chamá-lo nosso, e outros universos que talvez existam por trás dele, com outros que talvez venham depois dele. O máximo a que o pensamento humano pode elevar-se é isto: que para Deus tudo é possível (Mt 19.26); isto é, todas as coisas possíveis podem, pela sua vontade, tornar-se reais. Em certo sentido, não há NIHIL [nada] para recursos infinitos, e a máxima Ex nihilo nihil fit [do nada, nada se faz] deve ou converter-se em In nihilo omnia fiunt [no nada, todas as coisas se fazem], ou limitar-se aos agentes criados, a respeito dos quais é sem dúvida verdadeira. É testemunho uniforme da Escritura, e, na opinião dos panteístas modernos, o seu erro fundamental, que o Ser eterno e único, pela sua vontade e pela sua palavra, trouxe todas as coisas que não são ele mesmo a uma existência que antes elas não tinham em nenhum dos seus elementos últimos. O testemunho dessa verdade suprema é positivo e negativo.

1. Positivamente, o começo da revelação afirma isto: No princípio, Deus criou os céus e a terra (Gn 1.1). Essas palavras sobre a antiga criação se repetem quando se introduz a nova criação: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele (Jo 1.1-3). Naquele princípio, que o pensamento humano não consegue apreender, o Filho já É como Deus, e todas as coisas VÊM A SER, ou são feitas. Por isso, a mesma voz reveladora que declara a divindade do Filho declara, em contraste, a origem de todas as coisas no tempo, ou com o tempo. Podemos deixar de lado as muitas passagens que afirmam a origem divina do cosmos ordenado: poderia supor-se que elas são compatíveis com a existência de uma substância a partir da qual ele teria sido arranjado. Mas o Salvador encarnado ora: glorifica-me contigo mesmo com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo (Jo 17.5); onde παρὰ σοί [junto de ti] corresponde à glória como do unigênito παρὰ Πατρός [do Pai] (Jo 1.14). E, a essa luz, os muitos testemunhos da criação de todas as coisas devem significar que elas foram trazidas à existência propriamente dita: Nele foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele tudo subsiste (Cl 1.16-17). Não se poderia estabelecer com mais clareza o contraste entre o ser essencial do Filho no Pai e a existência criada de todas as outras coisas. Numa passagem muito notável, são Paulo declara que as possibilidades de Deus são τὰ ἀόρατα αὐτοῦ, as suas coisas invisíveis (Rm 1.20) [N. do T.: a NAA traz “os atributos invisíveis de Deus”; Pope segue a KJV, “the invisible things of him”, e lê ali as possibilidades de Deus]. Aquilo que ele, na liberdade da sua onipotência, traz à existência visível proclama o seu eterno poder e a sua divindade: aqui a δύναμις [poder] precede, mede e, por assim dizer, determina a θειότης, ao passo que, por outro lado, a θειότης, ou divindade de Deus, é o substrato daquela δύναμις, cujos recursos são infinitos. O que claramente se reconhece, desde a criação do mundo, não passa da manifestação de uma infinitude invisível de poder que está por trás. Mas há uma aproximação ainda maior da ideia de chamar todas as coisas do nada em outra palavra de são Paulo a respeito de Deus, que vivifica os mortos e chama à existência as coisas que não existem (Rm 4.17): τὰ μὴ ὄντα ὡς ὄντα [as coisas que não são, como se fossem]. Por isso podemos aceitar da Vulgata o nosso próprio termo ex nihilo [do nada]: Peto, nate, ut aspicias ad cœlum, et terram, et ad omnia quæ in eis sunt; et intelligas quia ex nihilo fecit illa Deus, et hominum genus [Peço-te, filho, que olhes para o céu e a terra e para todas as coisas que neles há, e entendas que Deus as fez do nada, e também o gênero humano]. Assim ela traduz uma passagem que o apóstolo talvez tivesse em vista: ἐξ οὐκ ὄντων ἐποίησεν αὐτὰ ὁ Θεός [Deus as fez do que não existia] (2 Macabeus 7.28). Na Epístola aos Hebreus, o primeiro artigo da fé é a criação primitiva, distinta da formação de todas as coisas: Pela fé, entendemos que o universo foi formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não são visíveis (Hb 11.3): εἰς τὸ μὴ ἐκ φαινομένων τὸ βλεπόμενον γεγονέναι [de modo que o que se vê não veio a existir de coisas que aparecem]. A construção e a origem absoluta de todas as coisas visíveis são, de fato, separadas e depois unidas. A palavra criadora de Deus está contraposta a ambas: todas as coisas foram formadas pela palavra divina para que a fé se apoderasse da verdade, que a razão não consegue penetrar, de que o universo criado não brotou, por desenvolvimento, de coisas preexistentes, mas do poder criador invisível daquele que mais adiante é chamado τὸν Ἀόρατον, aquele que é invisível (Hb 11.27). Com isso a revelação da Escritura disse a sua última palavra, depois da qual tem de começar a primeira palavra da ciência.

I, 366Nenhuma outra doutrina é admitida. 2. Negativamente, a Escritura exclui qualquer outra doutrina que não seja a de uma criação absoluta de todas as coisas pelo ato direto da vontade divina. Ela não faz nenhuma alusão a formas preexistentes de matéria, animada ou inanimada, a partir das quais o universo atual se teria desenvolvido ao longo de extensos períodos. A especulação físico-teológica pode intercalar universo após universo, ou melhor, universo antes de universo, para levar a continuidade de causa e efeito mais perto da fonte última; mas por fim tem de chegar ao abismo insondável entre as coisas fenomênicas e a essência eterna. A ontologia platônica pode ir mais longe e contrastar os fenômenos, tal como são levados a aparecer, com as ideias eternas, que aparecem somente ao próprio Deus; mas o κόσμος νοητός [mundo inteligível] na mente divina não é criação, e é da criação que agora falamos. O argumento negativo se encontra em todas aquelas muitas passagens que põem o nome de Jeová em relação com as coisas criadas. Esse é o método da Escritura para proclamar o abismo infinito, e para nós impensável, entre o ser necessário e a existência fenomênica. A Bíblia não diz, em linguagem filosófica, que o Incondicionado continua sendo o Incondicionado enquanto cria o condicionado, ou que o único Ser necessário não pode ter outra existência necessária, coeterna com ele, à qual daria a forma de universo. Mas diz simplesmente, na linguagem de Neemias, que é também a dos salmos e dos profetas: SÓ TU ÉS O SENHOR (JEOVÁ)! Fizeste o céu, o céu dos céus e todo o seu exército, a terra e tudo o que nela há, os mares e tudo o que há neles. Tu conservas a todos com vida (Ne 9.6). A sua doutrina é, em toda parte, que o Eterno pode revestir-se das vestes visíveis que quiser; em linguagem moderna, ela ensina que o ato criador é a expressão finita do Infinito. A criação é apresentada como o seu livre exercício: todas as coisas precisam de Deus como a sua Causa Primeira, mas a Causa Primeira não precisa da criação por nenhuma necessidade da sua natureza. Especulações sobre a conexão necessária entre poder e ato no Ser imutável e, portanto, sobre a necessidade de uma criação eterna são totalmente desconhecidas na Escritura. São especulações que esquecem a diferença entre o Infinito e o finito, diferença que para nós é ao mesmo tempo concebível e inconcebível.

I, 367TEORIAS QUE CONTRADIZEM A DOUTRINA DA CRIAÇÃO.

Erros. É neste ponto que deparamos com as hipóteses que contradizem frontalmente a doutrina assim estabelecida como bíblica e como a única compatível com a verdadeira noção de Deus e do seu universo. Já se aludiu a elas em sua relação com a doutrina do próprio Deus; mas brevemente, visto que o lugar próprio delas é aqui. Pode-se afirmar com ousadia que o panteísmo e o materialismo, com uma terceira classe de teorias intermediárias, compostas de elementos tirados de ambos, devem a sua origem não a um sentimento antiteísta, mas à dificuldade de aceitar Deus como Criador, primária e absolutamente, de qualquer coisa que não seja Deus. O que aqui se disser sobre elas se limitará a uma breve consideração do seu alcance sobre o tema da criação.

PANTEÍSMO.

Panteísmo. Podem-se dar muitas definições desse sistema de pensamento, que exerceu o domínio mais longo, mais variado e mais persistente nos anais do erro humano. Mas nenhuma definição lhe faz justiça se esquecer que ele é uma teoria do universo que faz Deus supremo nele sem ser o seu Criador: identificando, de fato, Deus com o universo, ou o universo com Deus: τὸ πᾶν Θεὸς ἔστι [o todo é Deus]. Mas há duas espécies de panteísmo, que talvez não sejam distinguidas como deveriam nos estudos da sua história. Nem todo panteísmo é o mesmo panteísmo.

Panteísmo hindu. 1. Não se pode dizer das antigas filosofias da Índia que fizessem de Deus e do universo uma só coisa. Aquilo que para o hindu, em todas as épocas (por tanto tempo antes da era cristã quanto depois dela), tem sido o Deus supremo, ou o abstrato Brahm sem predicado, existe sem um sistema criado e finito que lhe seja necessário. Esse Ser eterno, infinito e imutável está sublimemente acima de toda natureza criatural. Quando se rompe o repouso de eras incalculáveis, ele, ou aquilo, vem à existência em relação à criatura, desdobra-se ao pensamento criatural em formas múltiplas durante longas eras e depois recolhe em si todo o panorama do ser fenomênico, para que as suas formas nunca mais sejam lembradas. Ora, nesse admirável sistema de pensamento, a ideia essencial da criação não pode ser ocultada nem suprimida. A própria trindade hindu, Brahma, Vishnu e Siva, não passa de uma personificação representativa do Supremo em atos que não estão muito distantes das ideias bíblicas de criação, preservação e destruição, ao menos no que se refere às duas primeiras. Supõe-se, certamente, que todos os fenômenos do universo, a caminho do nada, são trazidos a uma existência separada para que o Infinito apareça neles antes que partam; e essa existência separada, enquanto separada, eles a perdem quando deixam de ser. É verdade que o sistema inteiro pode ser chamado, em linguagem moderna, panteísta. Mas há uma diferença enorme entre a sua visão da supremacia daquele que é a Origem de todas as coisas, as quais ele torna a retirar do ser, e o panteísmo puro, que identifica Deus e o universo e faz deles um só todo.

I, 368Filosofia grega. 2. Nenhuma forma da antiga filosofia grega foi panteísta no sentido mais pleno e profundo da palavra. De Tales, passando por Platão, até o último dos estoicos, os filósofos se ocuparam da origem das coisas. Alguns negaram a criação, mas negaram também Deus: assim foram os primeiros da escola jônica, que se esforçaram por encontrar a unidade de todos os fenômenos, ora na água, ora no ar, ora no fogo; mas, fosse o que fosse aquilo a que chamavam alma do mundo, que anima e governa o fluxo incessante das coisas, não era o deus do panteísmo. O seu sistema era materialismo disfarçado. Outros, como aqueles cujos nomes são a glória da escola socrática, insistiam demais na supremacia da mente que tudo governa para serem contados entre os panteístas; além disso, sempre os perseguia a noção de uma ὕλη, ou matéria, eterna, como que algo intermediário entre a matéria tal como a conhecemos e o puro ser espiritual. Aquilo que chamavam Alma do Mundo, isto é, o princípio ativo que molda, forma e configura todas as coisas, nunca pôde ser separado da concepção estoica da matéria; e, nessa medida, o seu sistema poderia ser chamado panteísta. Mas a sua Natura naturans [natureza naturante], ou ἡ φύσις τεχνική [a natureza artífice], era, pelo próprio termo, uma mente operante, como diz Cícero: Natura, non artificiosa solum, sed plane ARTIFEX ab eodem Zenone dicitur; consultrix, et provida utilitatum opportunitatumque omnium. Censet enim artis maxime proprium est creare et gignere, quodque in operibus nostrarum artium manus efficiet, id multo artificiosius naturam efficere [O mesmo Zenão diz que a natureza não é só engenhosa, mas verdadeiramente ARTÍFICE, conselheira e provedora de todas as utilidades e conveniências. Pois julga que o mais próprio da arte é criar e gerar, e que aquilo que a mão efetua nas obras das nossas artes a natureza efetua com arte muito maior] (Cícero, Da natureza dos deuses). A Natura naturata [natureza naturada], ou Κόσμος [mundo] vivo, foi de fato identificada com a primeira, e a natureza se tornou deus. Essa teoria do universo recebeu o nome de Hilozoísmo. HILOZOÍSMO e desempenhou papel destacado em todas as épocas. É, na verdade, a teoria daquela classe de materialistas modernos que cedem à evidência de propósito na natureza, embora só como DESÍGNIO IMANENTE, o que é uma contradição no pensamento, ou um refúgio sem sentido contra a concepção de um Autor externo do desígnio. Mas o desígnio, em qualquer forma, é alheio à noção estrita de panteísmo.

I, 369Panteísmo moderno. 3. O panteísmo puro, como explicação da existência do universo, assumiu a sua forma final, e a única coerente, nos tempos cristãos e numa filosofia que esteve em oposição declarada ao cristianismo desde o começo.

Neoplatonismo. (1.) Os seus novos alicerces foram lançados no neoplatonismo, sistema eclético que se esforçou por combinar tudo o que as escolas filosóficas anteriores tinham ensinado sobre a relação entre o ser e os fenômenos. Ele proclamou, com mais ousadia do que jamais se proclamara antes, que existe um único Ser indescritível, que se revela em todas as coisas, na alma do mundo, na razão universal e no espírito do homem: todas as coisas aparentemente independentes não passariam de fenômenos transitórios, e todas as personalidades estariam destinadas a ser reabsorvidas em Deus. Enquanto os Pais da Igreja cristã estabeleciam, contra as primeiras heresias, a doutrina da Trindade (a Segunda Pessoa sendo o Primogênito antes de toda criatura e a Ἀρχή, ou fonte, da criação trazida à existência pela energia da Terceira Pessoa), Plotino, Porfírio e Proclo estabeleciam outra trindade: o Uno absoluto, a sua manifestação no universo e o seu pensar-se a si mesmo na razão universal. As ideias deles encontraram o seu melhor expositor em João Escoto Erígena, o panteísta idealista do século IX. O seu livro De Divisione Naturæ [Da divisão da natureza] foi o primeiro manifesto do sistema moderno. Ele faz de Deus “aquilo que nem cria nem é criado”. “Em Deus, ser, pensar e criar são idênticos.” “Em Deus é uma só e a mesma coisa conhecer o que ele faz antes que seja feito e fazer o que ele conhece. Portanto, conhecer e fazer são nele uma só coisa.” “O homem é certa noção intelectual, eternamente criada na mente divina. Esta é a sua definição mais aprovada e mais verdadeira; e não é assim só com o homem, mas com todas as coisas que foram feitas na sabedoria divina. Toda a criatura, visível e invisível, é uma teofania: pode ser chamada, isto é, uma aparição divina” (Escoto Erígena, Da divisão da natureza). Segundo essa concepção, o pensamento não deve deter-se na existência de coisa alguma à parte de Deus; pois, enquanto pensamos nela, ela já mudou, e em nenhum momento se pode predicar dela a existência. O espírito do homem segue pelo mesmo caminho fenomênico rumo ao seu lar. A tendência desse sistema, como do panteísmo em todas as suas formas, é abolir o pecado e a responsabilidade. Mas essa tendência tomou duas direções. Numa, degenerou no pior antinomismo místico da Idade Média. Na outra, foi contrabalançada por princípios melhores; e, com estranha incoerência, os homens cuja teoria fazia da sua alma apenas uma centelha a caminho de uma extinção necessária em Deus entregavam-se aos esforços mais árduos para, pela perfeita renúncia de si, chegar a uma união beatíssima com o seu Criador. Mas aqui só nos interessam as teorias da criação.

I, 370Espinosa. (2.) Espinosa, no século XVII, levou a dialética vacilante dos seus predecessores à sua conclusão legítima. Tomou como ponto de partida o princípio de Descartes de que a consciência da nossa existência é a primeira e única certeza. Mas, enquanto o fundador do cartesianismo raciocinou até chegar à existência real de um universo e de um Deus, o fundador do panteísmo moderno raciocinou na direção oposta. Recolheu-se à consciência segura de uma única substância, além da qual nada poderia haver. Essa substância pode ter atributos e modos; mas os atributos e modos dessa substância infinita, incluindo todo o universo da mente e da extensão, não são realidade, e sim fenômenos. Desses fenômenos, nós inclusive, podemos predicar atributos; mas não do Todo infinito. Segundo o adágio predileto do sistema, que é uma profunda inverdade, Omnis determinatio est negatio [toda determinação é negação]; e falar do Infinito como sendo isto ou aquilo é fazer dele, ou “disso”, algo menos do que infinito. Afirmar que Deus cria, ou que é Criador, é negar-lhe a divindade, em oposição diametral ao testemunho de são Paulo de que as coisas fenomênicas, desde a criação do mundo, declaram o seu eterno poder e a sua divindade (Rm 1.20). Aquilo que no ensino cristão (e somente no ensino cristão) é criação, no panteísmo é uma evolução eterna e necessária da única Soma das coisas: toda coisa e toda pessoa não passa de um modo da existência do Ser absoluto; toda coisa na sua manifestação, e toda pessoa no seu ato, é determinada pela necessidade da natureza divina, se é que tal termo pode sequer ser usado. “Sem o mundo, nenhum Deus; e nenhum Deus sem o mundo.” O panteísmo de Espinosa, sistematizado à maneira matemática, foi idealizado na filosofia da Alemanha, cuja nota dominante é que o Infinito está sempre chegando à consciência no finito, e o absoluto, que em si mesmo é nada, chegando à verdadeira existência objetiva na criatura, por um movimento eterno que a mente pensante do homem exige para explicar todo o ser, e no qual encontra repouso. Deus não é, ele mesmo, pessoal, mas é a soma de todas as personalidades. Esse sistema se esforça por tornar-se cristão chamando Cristo de mediador ou reconciliador do Infinito e do finito, em quem Deus é o universo e o universo é Deus: a síntese de todos os opostos possíveis.

I, 371Conclusões. (3.) Não nos cabe tratar das intermináveis evoluções do pensamento panteísta moderno. Basta que ele prove com toda a clareza uma coisa: que a doutrina cristã da criação está na base de toda religião. Embora a derivação dessa palavra a partir de religare, ligar a, ou refrear, seja etimologicamente incerta, essa ideia está, ainda assim, enraizada nela; e os termos lex, ou lei, e obrigação não estão longe. Mas o panteísmo não conhece vínculo algum entre Criador e criatura, porque esses termos desapareceram. O pecado já não é pecado; a liberdade desapareceu eternamente de toda a economia das coisas. A imortalidade é a perda daquilo que parecia ser personalidade e a absorção no abismo do ser, sem aquela consciência de absorção e de repouso que foi o sonho bem-aventurado dos melhores místicos, do Oriente ou do Ocidente. O universo não é a esfera em que um Criador se move, mas a forma em que ele, por uma necessidade eterna, desenvolve a si mesmo. O mundo do homem não pode ser o domínio da providência ou da redenção, em que um Deus pessoal mantém comunhão com as suas criaturas. Não há criaturas, nem Deus é “ele”; pois todos os termos da personalidade, se não desaparecem do sistema, deveriam desaparecer. O homem é parte da existência de Deus (se nos é permitido voltar ao nome Deus), mas Deus é igualmente parte da existência do homem. Não há preeminência da parte dele, nem inferioridade na sua criatura, se é que podemos chamar o homem assim. Espinosa diz: “Daí se segue que a mente humana é parte da inteligência infinita de Deus; e, de fato, quando dizemos que a mente do homem percebe isto ou aquilo, não dizemos mais do que isto: que Deus, não enquanto é infinito, mas enquanto se desdobra pela natureza do homem, ou enquanto constitui a essência da mente humana, tem esta ou aquela ideia.” “Por conseguinte, na mente humana não há vontade absoluta ou livre. A mente é um modo certo e determinado de pensar e, portanto, não pode de maneira alguma ser a causa livre das suas próprias ações” (Espinosa, Ética II). O único pecado que o sistema admite é a imperfeição a caminho da perfeição: é a perda daquilo que é o único bem, isto é, do ser. Na evolução de Deus há uma luta e a sobrevivência transitória do mais apto. “Quanto mais alguém consegue preservar a sua parcela de ser, tanto maior é a virtude de que é dotado; inversamente, na medida em que alguém deixa de conservar o seu ser, é impotente” (Espinosa, Ética IV, prop. 20). Espinosa, como muitos outros panteístas devotos, tinha noções elevadas da deificação do homem em Deus, como seu representante transitório no processo da sua eterna encarnação. Mas, no ponto da sua mais alta elevação à união com a Divindade, o homem finito, nesse sistema, perde-se no infinito. Não há a glorificação cristã da criatura em Deus, mas apenas a reabsorção na fonte de onde veio a sua personalidade passageira. Isso é panteísmo puro, sem criação e, portanto, sem Criador. O homem não tem existência distinta para sempre, porque ele e a sua morada, e tudo o que é seu, têm de ser atraídos de volta ao oceano, para que outras ondas semelhantes de existência possam seguir-se. O antigo hinduísmo chegou perto disso; mas pode-se duvidar de que algum dia tenha ido tão longe. “Eu sou Brahm” era a linguagem que nele expressava a mais alta consumação da unidade com o Ser real; mas o eu ainda permanecia. O panteísmo propriamente dito não tem eu, nem para Deus nem para o homem.

I, 372SISTEMAS SUBPANTEÍSTAS.

Sistemas não diretamente panteístas. Não se pode dizer que todos os erros da humanidade quanto ao universo criado, na sua relação com o Criador, possam resumir-se no panteísmo e no materialismo. Esses são os polos extremos, mas entre eles há zonas de grande importância, nas quais encontramos o desenvolvimento mais abundante da especulação e da prática humanas. Aqui só podemos aludir a elas, e isso por duas razões: primeiro, elas não entram na teologia propriamente dita; segundo, não são hoje erros predominantes contra os quais a teologia, como tal, tenha de lutar.

I, 373POLITEÍSMO.

Politeísmo. A Sagrada Escritura, que é a revelação da religião absoluta, não traça a história da descida do homem desde o culto de um só Deus até o culto de muitos deuses; nem lança muita luz sobre as várias formas que a idolatria politeísta foi assumindo gradualmente. Mas nada há na Palavra de Deus que seja incompatível com as duas verdades seguintes: que o politeísmo nasceu de uma perversão panteísta do tatear da humanidade em busca de um só Supremo, presente na natureza e, contudo, acima da natureza; que sempre coexistiu com um senso mais ou menos indefinido de uma só Divindade; e que, nas suas melhores formas, tendeu para a supremacia absoluta do único e verdadeiro Deus.

Origem do politeísmo. I. A moderna ciência da religião procura rastrear, através de todos os registros das raças, o desenvolvimento do instinto ou da faculdade que há no homem para o infinito e o eterno. Parte, em geral, do princípio de que a religião começou revestindo as forças visíveis e invisíveis da natureza de atributos sobrenaturais e depois, à medida que essa religião se tornava mais dialética, foi desembocando gradualmente no monoteísmo ou no panteísmo, derivando em muitos casos, pelo caminho, para o ateísmo. Alguns desses mestres da teologia comparada procedem com base na teoria da evolução. Recebendo o homem das mãos do evolucionista físico, como alguém que foi lentamente desenvolvido até se tornar uma criatura senciente, moral e até religiosa, eles levam então o princípio adiante, a todos os fenômenos daquilo que se pode chamar a história espiritual da humanidade. Outros adotam a teoria sem as suas tremendas pressuposições preliminares.

A Escritura. 1. O testemunho da Escritura é explícito nesse ponto. Poderíamos inferir dos seus primeiros registros que os sucessivos chefes da humanidade e fundadores das nações levaram consigo, por toda parte, o conhecimento ou a tradição de um só Criador; e a tendência de todo o registro apoia essa inferência. Mas o Novo Testamento, que na plenitude do tempo esclarece os mistérios da revelação anterior, dá-nos um relato claro da origem do politeísmo e da idolatria. São Paulo, tratando diretamente desse assunto, fala dos pagãos como de seres humanos que, por meio da sua injustiça, suprimem a verdade (Rm 1.18). Diz expressamente que o universo criado levava consigo à mente do homem uma revelação do seu único Criador; que o coração deles se obscureceu e eles se tornaram tolos, e que a sua tolice foi a idolatria: trocaram a glória do Deus incorruptível por imagens semelhantes ao ser humano corruptível, às aves, aos quadrúpedes e aos répteis (Rm 1.23). Temos aqui uma espécie de programa resumido de todos os sistemas politeístas da Antiguidade. Voltando da corrupção moral dos gentios à sua idolatria, o apóstolo diz que trocaram a verdade de Deus pela mentira, adorando e servindo a criatura mais do que o Criador, o qual é bendito para sempre. Amém! (Rm 1.25) [N. do T.: a NAA traz “em lugar do Criador”; Pope cita “rather than” e discute a seguir o alcance da preposição grega]. Cada palavra aqui é significativa. Trocaram (pois esse foi um ato deles mesmos e dos seus pais) a verdade de Deus, a realidade do Deus único, ou a verdadeira revelação que ele dera de si mesmo, pela Mentira, a única mentira do politeísmo; e adoraram nos seus sentimentos pervertidos, e serviram na sua idolatria exterior, a criatura ao lado do Criador, ou acima dele, ou em lugar dele: παρὰ τὸν Κτίσαντα. Pode-se insistir em que esse παρά, interpretado pelo contexto, exclui inteiramente o serviço do Criador; mas o escritor sagrado teria encontrado uma forma mais enérgica de afirmar isso. A essência da idolatria, em toda a Escritura, não é a exclusão absoluta do pensamento de um só Supremo, mas o ato de dar a representantes imaginários dele a glória devida ao seu único nome. Essa foi a idolatria de que foi acusado o próprio povo da aliança; e essa, ao menos em princípio, é a idolatria de que a cristandade supersticiosa se acha culpada. É essa identificação do Criador com a criatura que constitui a alma do panteísmo. O Deus santo não considera pecaminoso em si mesmo o universo que criou; mas, na sua santidade, está eternamente separado da criatura e quer ser honrado como tal. Por isso a Escritura justifica que introduzamos este assunto nas relações entre Deus e a criatura.

I, 374História do politeísmo. 2. A história do politeísmo confirma tudo isso. Os homens cedo perderam a supremacia da fé e foram entregues aos sentidos. Mas a fé apenas perdeu a sua supremacia, e os sentidos não eram inteiramente sentidos. Diga a filosofia moderna o que quiser, eles nunca perderam aquilo que, dentro deles, atestava três coisas: a realidade da sua própria existência dependente; a realidade de um universo exterior que não eram eles mesmos; e a realidade de um Algo infinito, Ser ou Pessoa, para além disso. Mas a distinção entre essas coisas se perdeu. A sua confusão completa foi o panteísmo puro, que, no entanto, foi produto de épocas posteriores. A princípio, o eu era distinto; mas Deus e a criatura se fundiam. O Ser único era sentido e visto em toda parte, mas não como um só ser: as suas energias foram distribuídas, e o resultado foi o naturismo, ou culto da natureza (e o termo culto é aqui empregado por convenção). Os dois extremos estão diante de nós Fetichismo. na história da humanidade. Há o fetichismo, termo inventado no século passado para descrever a superstição abjeta que atribui a uma variedade infinita de objetos uma conexão misteriosa com poderes sobrenaturais, fazendo deles símbolos de influências espirituais que assombram toda a natureza. Ele assume a sua forma mais grotesca na África Ocidental, mas permeou todas as épocas e raças, desde os terafins da Mesopotâmia até o xamanismo da Tartária. No polo oposto está a temível magnificência das mitologias oriental, grega e escandinava, em que o fetichismo se expande, se eteriza e se desenvolve até as suas proporções mais grandiosas. Mas em toda parte, e em todas as suas formas, é a idolatria da criatura que perde o Criador: na multiplicidade, esquece a unidade, embora a unidade nunca estivesse longe. Dela a humanidade se afastara, e a ela, depois de longos extravios, terá de voltar.

I, 375Tendência a um só Deus. II. A história das crenças religiosas da humanidade dá testemunho de que nunca houve um politeísmo nacional ou tribal que não desse, mais ou menos conscientemente, a supremacia a um ser, e somente a um.

Os árias. 1. O sistema de mitologia mais maravilhoso, e certamente o mais antigo (se é que tal nome pode ser admitido), é o dos árias primitivos, cujo forte sentimento religioso deificou todas as forças da natureza. Todo objeto em que sentiam a presença do invisível e do infinito era elevado a algo sobrenatural: a um Deva, ser luminoso; a um Asura, ser vivente; e a um Amartya, imortal. Pouco a pouco, a multidão de deuses foi-se aproximando de uma deificação da natureza universal; mas, pouco a pouco também, a forte tendência da religião indiana foi buscar refúgio numa espécie de ateísmo que era, na verdade, um protesto em favor de um só Deus, ou em aspirações por um só Deus designado pelo nome.

I, 376A busca ária da unidade. (1.) Como a teologia ária é a mais grandiosa fora da Bíblia (e veremos quão inteiramente fora dela), podem-se tirar dela algumas ilustrações do princípio que estamos considerando: o de que o único Criador sempre foi buscado às apalpadelas, inconscientemente, em todo sistema. Na religião indiana podemos ver em resumo, ainda que num vasto resumo, toda a evolução; e tão absolutamente toda a evolução que ela pode ser escolhida para representar o conjunto. Não podemos determinar que pensamento acerca do Supremo havia por trás do mais antigo culto védico; pode ser que os antigos hinos a Aditi, o ilimitado ou o Infinito, fossem lembranças de uma religião monoteísta primitiva. Mas certamente, no decorrer das eras, toda a maré do pensamento e do sentimento hindu correu na direção de um só Deus Altíssimo, na forma monárquica de politeísmo mais nobre, se não a mais bela. A soberania suprema do Deus Desconhecido, porém, de nada valia enquanto ele tinha multidões de representantes mais próximos do que ele. Veio o tempo da reforma; mas ela levou a um ateísmo filosófico, ou ao budismo e ao panteísmo. A única religião que a Índia nunca conheceu, até que o cristianismo a trouxesse para perto, é o monoteísmo. Para ele, contudo, sempre houve uma tendência constante. Mas nem na Índia, nem em parte alguma do mundo, o politeísmo dará lugar ao culto de um só Deus enquanto esse Deus não for aceito na Santa Trindade.

(2.) O professor Max Müller inventou uma palavra nova para expressar certa peculiaridade, como ele a considera, da evolução do pensamento indiano acerca de Deus. Daremos a sua própria descrição, sobretudo porque ela é quase aplicável a todas as nações mais esclarecidas do paganismo. “Se precisamos de um nome geral para a forma mais antiga de religião entre os indianos védicos, ele não pode ser nem monoteísmo nem politeísmo, mas somente henoteísmo, isto é, a crença em objetos isolados, e o culto a eles, sejam semitangíveis ou intangíveis, nos quais o homem primeiro suspeitou a presença do invisível e do infinito, e cada um dos quais, como vimos, foi elevado a algo mais do que finito, mais do que natural, mais do que concebível” (Max Müller, Hibbert Lectures, p. 260). … “Esse é o caráter peculiar da antiga religião védica, que procurei caracterizar como Henoteísmo. HENOTEÍSMO ou CATENOTEÍSMO, uma crença sucessiva em deuses supremos isolados, a fim de mantê-la distinta daquela fase do pensamento religioso que comumente chamamos politeísmo, na qual os muitos deuses já estão subordinados a um Deus supremo, e pela qual, portanto, o anseio pelo uno sem segundo foi mais plenamente satisfeito. No Veda, um deus após outro é invocado. Durante aquele momento, tudo o que se pode dizer de um ser divino é atribuído a ele. O poeta, enquanto se dirige a ele, parece mal saber da existência de outros deuses. Mas, na mesma coleção de hinos, às vezes até no mesmo hino, outros deuses são mencionados, e também eles são verdadeiramente divinos, verdadeiramente independentes ou, talvez, supremos… Mas o que nos interessa no momento é como aquela intenção se realizou: por quantos passos, por quantos nomes o infinito foi apreendido, o desconhecido foi nomeado e, por fim, o Divino foi alcançado. Os seres que no Veda se chamam DEVAS ainda não são, em muitos lugares, sequer o mesmo que os θεοί [deuses] gregos; pois os gregos, já no tempo de Homero, tinham começado a suspeitar que, quaisquer que fossem o número e a natureza dos chamados deuses, devia haver algo supremo, fosse um deus ou um destino; devia haver pelo menos UM Pai dos deuses e dos homens. Também em algumas partes do Veda a mesma ideia irrompe, e imaginamos que, como na Grécia, na Itália, na Alemanha e em outros lugares, também na Índia o anseio religioso pelo uno teria sido satisfeito por um politeísmo monárquico. Mas a mente indiana logo foi, e veremos como no fim foi impelida, a negar todos os devas ou deuses e a buscar algo mais alto do que todos os devas, sem excluir o próprio Dyaus, nem Varuna, nem Indra, nem Pragâpati… O processo que estivemos observando no caso do sol podemos observá-lo, repetidas vezes, com relação à maioria das divindades védicas. Não, porém, com relação a todas. As chamadas semidivindades, os rios, as montanhas, as nuvens, o mar, e também outras, como a aurora, a noite, o vento ou a tempestade, nunca sobem à categoria de divindade suprema; mas de Agni, o fogo, de Varuna, o céu que tudo cobre, de Indra, Vishnu, Rudra, Soma, Parganya e outros, usam-se epítetos e fazem-se descrições inteiras que, a nosso ver, só seriam apropriados a uma Divindade suprema.”

I, 377Divindades duais. (3.) Houve outra etapa de desenvolvimento. “Antes de tudo, verificamos que várias dessas divindades isoladas, tendo brotado de uma só e mesma fonte, têm a tendência, depois de uma carreira própria muito breve, de se fundir umas com as outras. Dyaus era o céu como luz sempre presente. Varuna era o céu como aquele que tudo abarca. Mitra era o céu iluminado pelo sol da manhã. Sûrya era o sol brilhando no céu. Savitri era o sol trazendo luz e vida. Vishnu era o sol atravessando o céu em três passos; Indra aparecia no céu como o doador da chuva; Rudra e os Maruts passavam pelo céu nas tempestades; Vâta e Vâyu eram os ventos do ar; Agni era fogo e luz, onde quer que pudesse ser percebido, quer se erguendo das trevas pela manhã, quer mergulhando nas trevas ao entardecer. O mesmo se aplica a várias das divindades menores. Daí acontecer constantemente que o que se contava de uma divindade podia contar-se igualmente de outra; os mesmos epítetos são partilhados por muitos, as mesmas histórias são contadas de deuses diferentes.” “Outro expediente adotado pelos antigos poetas, e que parece inteiramente peculiar ao Veda, é a formação de divindades duais.” “Um terceiro expediente foi abranger todos os deuses sob um nome comum, chamá-los VISVE Devas, os todos-deuses, e dirigir-lhes orações e sacrifícios na sua condição coletiva.”

I, 378Um só Deus supremo. (4.) “Por fim, havia aquele outro expediente, que a nós parece o mais natural de todos, para pôr o anseio por um só deus em harmonia com a existência de muitos deuses, a saber, o expediente, adotado pelos gregos e pelos romanos, de fazer um dos deuses supremo acima de todos os demais: satisfazendo assim o desejo de um poder supremo, o εἷς κοίρανος ἔστω [haja um só senhor], sem romper inteiramente com as tradições do passado e com o culto prestado às manifestações individuais do divino na natureza, como eram Apolo e Atena, ou Posêidon e Hades, ao lado de Zeus.” … Temos aqui um fenômeno quase universal, e que presta profunda homenagem à verdade das Escrituras e à revelação do único Criador: a peculiaridade dessa homenagem está em que toda homenagem inconsciente desse tipo ao Supremo único era prestada a ele como o Originador de todas as coisas. Havia entre os árias védicos a mesma tendência a estabelecer uma supremacia entre os deuses, um único Deus criador, que encontramos nas mitologias não só da Grécia e de Roma, mas também da Germânia e da Escandinávia. “Há alguns hinos dirigidos a Visvakarman, o criador, e a Pragâpati, o senhor, nos quais restam apenas pequenos vestígios do germe solar de onde brotaram. Alguns deles nos lembram a linguagem dos Salmos; e é de imaginar que uma divindade como Pragâpati ou Visvakarman teria de fato satisfeito os anseios monoteístas e constituído a meta última no crescimento do sentimento religioso dos antigos árias da Índia [N. do T.: o original imprime “Indra”, aqui e mais adiante, por “India”]. Mas isso, como veremos, não haveria de acontecer.” Não haveria de acontecer, porque os homens, tendo perdido a fé no único Criador supremo, não podiam voltar a ele enquanto não fossem ensinados a abandonar os seus falsos deuses, a deixar o seu panteão e a devolver ao Deus verdadeiro a glória devida ao seu nome. Enquanto isso, como prova de que o politeísmo sempre se esforçou inconscientemente na direção da verdade, podemos citar o hino védico mencionado: “Ele, o Deus único, cujos olhos estão em toda parte, cuja boca, cujos braços, cujos pés estão em toda parte; ele, ao produzir o céu e a terra, forja-os juntos com os seus braços e com as asas.” “Além do céu, além da terra, além dos devas e dos asuras, qual foi o primeiro germe que as águas trouxeram, no qual todos os deuses foram vistos?” “Vocês jamais conhecerão aquele que criou estas coisas; algo mais se interpõe entre vocês e ele. Envoltos em névoa e com voz vacilante, os poetas seguem caminhando, regozijando-se na vida.” Há alguns desses tributos ao criador espalhados pelo Rig-Veda, os quais, embora dirigidos a seres diferentes, são provas de que o Deus verdadeiro nunca deixou de dar testemunho de si mesmo. Para citar Max Müller mais uma vez: “Com ideias como estas brotando na mente dos poetas védicos, teríamos pensado que o desenvolvimento natural da sua antiga religião seria na direção do monoteísmo, do culto a um só Deus pessoal, e que assim também na Índia se teria alcançado a forma mais elevada que o homem se sente inclinado a dar ao Infinito, depois que todas as outras formas e nomes falharam.”

I, 379Religião comparada. 2. Estes excertos foram apresentados como ilustração do fenômeno mais interessante e mais comovente da história do gênero humano: os seus esforços para voltar a Deus dos seus descaminhos. Em escala menor, a mesma evolução vem ocorrendo, e, infelizmente, ainda ocorre, por toda a terra. E a ciência que faz desta história a base de algumas grandes generalizações chama-se Ciência da Religião ou Teologia Comparada. O estudo é de grande importância e traz grande vantagem à causa cristã, embora em geral seja conduzido num espírito de oposição às pretensões exclusivas do cristianismo.

I, 380Testemunho do senso universal de Deus no homem. (1.) Esse estudo traz provas sem conta, de todos os cantos da terra e de todas as tribos da humanidade, de que é da própria natureza do homem indagar acerca do Criador do mundo em que vive. Toda a esfera dos objetos sensíveis ao seu redor, e das forças perceptíveis acima dele, foi deificada apenas a serviço de um desejo mais alto e mais nobre de penetrar através de tudo isso até o Único que está além: apelando a ele sempre como Criador, ou ao menos pensando nele e dirigindo-se a ele como o Autor e Ordenador de todas as coisas. Assim como os antigos poetas védicos proferiam constantemente os seus protestos contra a idolatria dos devas, assim também todos os bardos e profetas de todas as religiões mostraram o seu senso de algo que está por trás da esfera apinhada das suas divindades inferiores. Seja como o Grande Espírito do extremo Ocidente, seja como a Aditi, o Infinito, do extremo Oriente, seja como a Moira, o Destino, dos gregos, seja como o Jupiter Optimus Maximus [Júpiter Ótimo Máximo] dos romanos, há em toda religião ou mitologia algum nome que se ergue como símbolo do Único Supremo ainda desconhecido. Pensa-se que haja algumas exceções: na religião primitiva dos chineses e dos germanos pode ser difícil rastrear essas tendências ao monoteísmo. Mas isso se deve sobretudo à falta de arquivos que completem a prova. E é certo que o curso do tempo e da reforma trouxe à luz a tendência latente. Este último ponto é importante: quase toda forma antiga de religião teve as suas épocas de reforma; e a maioria dessas reformas foi monoteísta a longo prazo, se não de imediato. A China pareceria negar isso; nas eras mais remotas foi mais panteísta do que qualquer outra nação e, depois de receber a reforma de Confúcio, caiu sob a influência do budismo. Mas por toda a filosofia chinesa corre a ideia da Força primitiva, Yang, e da matéria primitiva, Ju. Ischuhi, no devido tempo, elevou-se acima desse dualismo e considerou essas duas coisas como as duas faces de um único ser primitivo, Tai-Ky. Isso parece puro panteísmo; mas o panteísmo, no Oriente ou no Ocidente, tem sido o refúgio em que a mente dos homens escapa dos muitos deuses para um único Eu eterno do universo, a sua única Causa, se não o seu Criador.

Superioridade do sistema cristão. (2.) O estudo contribui grandemente para a causa da religião cristã, ao mostrar a incomparável superioridade dos registros da revelação. A Bíblia é, entre os chamados livros sagrados do mundo, o único que contém um relato, e um só, e um relato coerente, da origem de todas as coisas. A diferença entre esse relato e qualquer outro existente na literatura não é simplesmente de grau: o grau não se pode calcular. Em todos os outros documentos, sem excetuar sequer os fragmentos mais nobres do Veda, as alusões são obscuras e incoerentes, os tributos são prestados a seres diferentes, ou ao mesmo ser sob nomes diferentes, e às vezes se introduzem as associações mais incongruentes. Mas nas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento há um único hino, sumamente celestial, ao Criador, que não tem uma só nota dissonante, desde o primeiro versículo de Gênesis, No princípio, Deus criou os céus e a terra (Gn 1.1), até o último hino da revelação: Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder, porque criaste todas as coisas e por tua vontade elas vieram a existir e foram criadas (Ap 4.11).

I, 381DUALISMO.

Dualismo. Esta palavra genérica abrange todos aqueles sistemas da Antiguidade que se esforçaram por explicar as contradições manifestas no universo remontando todas as coisas a dois princípios irreconciliáveis. Quanto à criação, o dualismo atribuía à matéria, sob alguma forma, uma existência eterna e independente, ou, se não uma existência independente, ao menos uma existência tão necessária ao pensamento humano quanto a da Energia eterna que a molda. Este é o seu elemento diferencial em relação ao panteísmo. Um diz que Deus É em todas as coisas, ou que todas as coisas são Deus; o outro diz que Deus SE MOVE em todas as coisas, seja como a alma delas na sua harmonia, seja como o seu controlador nas suas discórdias. Daí ser acertada a distinção que chamou o panteísmo de MONISMO e o sistema que agora consideramos de DUALISMO. Mas temos muitas subdivisões do dualismo.

Universal em certo sentido. 1. Há um sentido em que a noção de um conflito perpétuo permeava todas as ideias religiosas da Antiguidade. Como a soberania de um só Deus não era firmemente sustentada, não havia teoria assentada nem quanto à criação nem quanto à supremacia de um só Ser em meio às desarmonias dela. Mesmo nas melhores filosofias, o mundo era o palco de uma luta misteriosa entre a luz e as trevas, o bem e o mal, e daí era fácil o passo para uma disputa entre poderes acima da natureza visível e o mal que se manifestava na própria natureza. Atravessando todas as espécies do panteísmo e do politeísmo antigos, há uma corrente de dualismo que não se pode esconder. Dificilmente há uma forma de mitologia antiga que não tenha, de modo mais ou menos claro, contraposto duas forças opostas e distribuído de acordo com elas os seus poderes superiores; embora às vezes introduzisse, por um profundo instinto da verdade, uma misteriosa síntese das duas. Podemos ir além e dizer que essa ideia desempenha inconscientemente o seu papel em quase todo sistema de pensamento, panteísta ou politeísta, nos tempos antigos e nos modernos.

I, 382Dualismo persa. 2. A expressão mais notável do princípio, em si mesma a mais elaborada e nas suas influências a mais duradoura, foi a de Zoroastro, o reformador do dualismo persa. Antes do seu tempo, a religião iraniana era politeísta, com a tendência a dividir todos os poderes espirituais em duas ordens em conflito, a do bem e a do mal; a sua reforma, por volta de mil e duzentos anos antes de Cristo, procurou restaurar uma visão mais monoteísta, fazendo tanto Ormuzd quanto Ahriman brotarem de uma existência superior, Zeruane Akerene, a existência infinita e sem tempo, e ensinando a futura aniquilação do mal. Mas, qualquer que fosse a filosofia secreta dessa religião persa, o seu ensino público e os seus desdobramentos práticos eram dualistas. Até que ponto os seus princípios tocavam a questão da eternidade da matéria é algo muito discutido: provavelmente essa parte do sistema derivou antes da especulação budista e grega.

Gnosticismo. 3. Certamente o dualismo que encontramos nas heresias gnósticas dos primeiros séculos cristãos não tinha parentesco mais próximo com o zoroastrismo do que com as especulações posteriores da filosofia grega. Do primeiro derivou a ideia de uma oposição eterna entre a luz e as trevas; e a da operação divina concebida como a emanação de raios ou éons de existência, de intensidade decrescente, até alcançarem as trevas da matéria, onde está todo o mal. Das segundas derivou a sua ideia filosófica da matéria, como um princípio indeterminado e indefinível, existente e, contudo, não existindo, que tem em si a possibilidade de todas as coisas, impessoal, sem inteligência, e o material de que se tecem os fenômenos. A criação, nos sistemas gnósticos, não era obra do Deus eterno. Nem era eterna em sentido algum, a não ser na medida em que existências espirituais fluem eternamente da fonte da luz. Como matéria, ela já era eterna, na forma do κένωμα, ou vácuo vazio, fora do πλήρωμα, que constitui a revelação perfeita do Deus da verdadeira existência. A ponte entre o Abismo, ou βύθος, do ser substancial e o mundo material visível era a queda da última das emanações na matéria, produzindo o Demiurgo (ou Formador da terra), ou alma do mundo. As infinitas variedades dos sistemas gnósticos eram esforços para explicar o contato entre o Espírito eterno e a matéria, a sede [N. do T.: o original imprime seal, “selo”, provável erro por seat, “sede”] de todas as trevas e a fonte de todo o mal. O resultado foi um Criador que, concebido a princípio como executor inconsciente dos propósitos divinos, acaba feito o oposto diametral de Deus. A história do gnosticismo, em que a ideia dualista procurou cristianizar-se, mas em vão, e que a Igreja cristã expulsou, etapa após etapa, até a sua derrota final como maniqueísmo, é digna de estudo profundo. Mas aqui bastam algumas observações relativas ao nosso assunto atual.

I, 383Seu propósito de ligar o Infinito e o Finito. (1.) Todo o sistema foi uma tentativa vasta e desnorteante de lançar uma ponte sobre o abismo intransponível entre o Infinito e o finito. Foi uma contribuição para resolver um problema que tem posto à prova a mente humana e a tem frustrado desde o princípio. Partindo de um princípio cuja origem ninguém conhece, o de que a matéria é inerentemente má, a questão era explicar a sua existência sem rebaixar o Supremo. Supunha-se que o Ser eterno permitira a um éon procedente de si mesmo transgredir o ὅρος, ou limite da sua própria essência, e produzir da matéria toda a existência criada, seja criando a matéria, como diziam alguns, seja vivificando-a, como diziam outros. Nas almas humanas misturavam-se elementos bons e maus; e desfazer a obra do Demiurgo, ou criador dessa confusão, era a obra da redenção. A tarefa do Cristo, um novo éon enviado para assumir a aparência docética da matéria, era trazer de volta as emanações extraviadas que tinham ficado aprisionadas no mundo, libertar, portanto, o homem do corpo, visto que a sua ressurreição “já aconteceu”, e ou aniquilar a matéria de modo absoluto ou deixá-la entregue ao seu caos vazio. A extravagância desses sistemas só era igualada pela sua incoerência. Deixaram o ὅρος intransponível onde o encontraram. Procuravam rastrear o que, nos tempos modernos, se chamaria lei de continuidade, da criação para cima até a Divindade, ou do Criador para baixo até a criação. E julgaram encontrá-la na atenuação gradual das emanações de luz, até que estas ultrapassassem o limite e se misturassem com as trevas da matéria do outro lado. Mas eram perpetuamente atormentados por duas grandes anomalias. Primeiro, supunha-se que o Pleroma divino emitia éons movidos por amor e desejo, o que degradava a essência eterna ao ponto de cobiçar o vazio material. E, em segundo lugar, ou consideravam esse vazio material como eternamente existente, ou supunham que o Supremo permitira ao Demiurgo criá-lo como o elemento de todo o mal futuro.

I, 384A concepção cristã. (2.) A sublime doutrina da relação do Filho eterno com a criatura é o único segredo da continuidade que se ensina, a única ponte entre o Criador e a criatura. Ele é o Mediador (se for permitido tal uso do termo) entre o Infinito e o finito, entre Deus e a criatura. Com os olhos no gnosticismo nascente que haveria de perturbar a Igreja, são Paulo e são João usam com frequência expressões que dificilmente se podem entender senão como afirmação da verdade acerca do Filho como o Ἀρχηγὸς τῆς ζωῆς [o Autor da vida] (At 3.15) e a Ἀρχὴ τῆς κτίσεως [o princípio da criação], que os hereges dualistas perverteram. São João ensinou que Deus é luz, e não há nele treva nenhuma (1Jo 1.5); mas também ensinou que Jesus era a verdadeira luz, que, vinda ao mundo, ilumina toda a humanidade (Jo 1.9), não, porém, como um éon ou emanação; porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade (Cl 2.9). Cada palavra desta última frase de são Paulo contradiz as especulações gnósticas acerca do Demiurgo: todo o πλήρωμα da Divindade, e não uma emanação, habitou nele, e não desceu sobre ele; corporalmente, e não em aparência. E aquele que era o Primogênito antes de toda criatura (Cl 1.15) [N. do T.: a NAA traz “o primogênito de toda a criação”; o argumento de Pope a seguir depende do “antes” da sua redação] o era como a Ἀρχή, ou Princípio, em quem e por meio de quem a criação teve início. Nele foram criadas todas as coisas (Cl 1.16): como se nele o Deus absoluto, ou o Pai, desse origem à existência criada, e a sustentasse e administrasse; por uma encarnação antes da Encarnação. Não podemos conceber como o universo criado teria essa relação específica com o Filho, e como nele o Infinito se tornou finito, antes que Deus se fizesse carne; mas devemos receber o mistério e adorá-lo. Nosso Senhor foi o Primogênito da nova criação quando começou em si mesmo a vida dela; e ele é o Primogênito, ou o Princípio da criação de Deus, que teve nele a sua origem.

I, 385ATEÍSMO MATERIALISTA.

Materialismo. No polo oposto ao panteísmo está o materialismo, como antagonista filosófico ou científico da doutrina bíblica do Criador e da criação: polos opostos, porém, de uma única e mesma esfera de pensamento. O panteísmo dá a preeminência à noção de Deus, sendo todas as coisas fenomênicas a sua veste eterna, mas sempre mutável; o materialismo dá a preeminência à matéria, como a única substância que existe, e considera aquilo que os homens chamam Deus como a lei desconhecida pela qual essa substância é governada em todas as suas evoluções. A rigor, o materialismo propriamente dito não tem lugar aqui. É simplesmente uma questão de ciência e de especulação científica; sendo, no que toca ao universo criado, uma pura negação, que não pode provar a si mesma nem refutar nenhuma outra coisa.

PRINCÍPIOS COMUNS.

Princípios. Certos princípios fundamentais são comuns ao materialismo de todas as épocas. Negando a distinção entre matéria e espírito, ele nega inteiramente a existência do espírito; e a alma, ou espírito, sendo apenas uma forma particular da existência ou da função da matéria, é imortal somente no sentido de que a matéria é indestrutível e, de uma forma ou de outra, continuará para sempre produzindo os mesmos fenômenos. A religião não tem lugar nesse sistema. Ele faz dela aquela estranha fantasia que o cérebro do homem, por um hábito inexplicável, gera de modo quase universal: todas as suas esperanças, temores e aspirações perecem com o organismo que lhes deu origem. Descartando a religião, o materialismo sempre se orgulhou, ainda assim, de ser uma filosofia. Como tal, tem necessariamente de investigar a origem das coisas. Uma das excentricidades daquilo que chamamos pensamento é que a matéria tenha de procurar conhecer o seu próprio começo e a razão da sua existência. As suas especulações fúteis perecem, como a sua religião, com o cérebro de cada pensador individual; contudo, como a sua religião, são transmitidas de época em época. Mas as suas perguntas nunca são respondidas. A matéria pensante só pode dizer de si mesma que deve ter existido sempre, já que agora existe; que nada sabe acerca de qualquer poder que pudesse tê-la trazido à existência; que não tem explicação alguma para a diferença entre si mesma como inanimada e si mesma como dotada de vida; e, em suma, que só pode dizer, fazendo eco inconsciente à verdade eterna que não quer receber: “Eu Sou o Que Sou.” Se não é o seu próprio criador, ao menos não quer saber de nenhum outro. Mas a própria palavra criação é abominável a esse sistema, do princípio ao fim.

I, 386HISTÓRIA DO MATERIALISMO.

História. Esses princípios fundamentais, porém, foram moldados de diversas maneiras, de geração em geração. Há uma história do materialismo, assim como há uma história do panteísmo e do dualismo. Com ela a teologia nada tem a ver diretamente, mas pode ser de proveito indireto indicar as linhas de desenvolvimento, conforme foram dirigidas, consciente ou inconscientemente, pela oposição à verdade revelada. Todos os princípios do materialismo foram estabelecidos pelo paganismo antigo; foram afirmados em oposição direta ao cristianismo como revelação de Deus; e, por fim, procura-se agora estabelecê-los no interesse da ciência pura, que responde a toda sugestão cristã ou com perfeita indiferença ou com um apelo à nesciência universal. Algumas palavras sobre cada um desses pontos, pela ordem.

ANTIGUIDADE.

Materialismo antigo. O materialismo dos tempos antigos era ateu; e, como tal, estava em antagonismo declarado com as escolas de pensamento predominantes, orientais e ocidentais. Epicuro, filósofo ateniense do século IV antes de Cristo, é às vezes considerado o seu fundador. Epicuro. Pelos restos que nos foram transmitidos, depreendemos que o seu sistema continha a maior parte das ideias que dominam o pensamento moderno nessa questão. Ele partia do princípio que Lucrécio, seu discípulo, formulou assim: Ex nihilo nihil, in nihiium nil posse reverti [nada vem do nada, e nada pode voltar ao nada] [N. do T.: assim no original, por nihilum]. O universo, ele o considerava infinito: infinito no número dos corpos, infinito no espaço que os contém. Os elementos de que todos os corpos são constituídos são indivisíveis, ἄτομα, e imutáveis, ἀμετάβλητα. Esses átomos, dotados desde a eternidade de um movimento que os faz encontrar-se, combinam-se em agregados, sejam menores, sejam maiores, como nos espaços celestes. Quanto a este mundo, τὸ πᾶν ἐστὶ σῶμα [o todo é corpo]. O que conhecemos, conhecemos por meio dos sentidos; e, quando os órgãos perecem, as funções perecem. Epicuro rejeitou inteiramente a ideia de Providência. Se admitia a existência de deuses, era apenas no interesse da prudência, o único critério da sua moral. “Tudo o que comumente se diz acerca dos deuses é falso: não há verdade nos castigos que se supõe que eles infligem aos homens, nem nas recompensas que atribuem aos bons.” “Há deuses, e o conhecimento que temos deles é certo; mas eles não são o que o vulgo supõe. Ímpio não é aquele que se recusa a crer nos deuses do povo comum, mas aquele que os aceita como o povo os aceita.” O dele era um ateísmo disfarçado, como diz Cícero: “Video nonnullis videri Epicurum, ne in offensionem Atheniensium caderet, verbis reliquisse deos, re sustulisse” [Vejo que a alguns parece que Epicuro, para não incorrer no desagrado dos atenienses, conservou os deuses nas palavras e os suprimiu de fato]. Assim, Epicuro reuniu os fragmentos de Leucipo e Demócrito e deu-lhes, por meio de Lucrécio, uma forma pronta para a ciência futura. E, assim como o seu sistema físico antecipou muito do que os tempos modernos formularam de modo mais completo, assim também o seu sistema moral foi um esboço favorável da mais elevada ética do materialismo. Para ele, a virtude é apenas o meio, o meio prudencial, para o fim da paz e da tranquilidade. Enquanto Platão buscava o sumo bem na semelhança com Deus, e Zenão na conformidade com a lei universal, Epicuro não foi além de alcançar a maior aproximação possível do repouso tranquilo da natureza e o máximo gozo da vida. Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos (1Co 15.32) é a descrição que são Paulo faz da ética a que esse sistema certamente desce, ou para a qual gravita, pela sua própria tendência inerente.

I, 387ATEÍSMO OU ANTITEÍSMO.

Ateísmo. Quando falamos do ateísmo propriamente dito, falamos de uma fase da controvérsia acerca de uma grande Causa Primeira da criação, fase que, por razões que serão dadas adiante, quase desapareceu. A palavra não goza de prestígio; é renegada até por aqueles cujos raciocínios naturalmente conduzem a ela. Usem-se outros termos, e eles não têm objeção a um deus disfarçado, seja sem nome, seja com o nome que preferirem; mas rejeitam o ateísmo como pouco filosófico. Antes, porém, de chegar a essa fase mais moderna, a da sua forma materialista e científica, precisamos fazer algumas observações sobre o ateísmo propriamente dito, que tem procurado livrar a criação de um Criador e de um Deus.

I, 388O ateísmo é possível? 1. Pode-se fazer, com justiça, a pergunta: o ateísmo ou antiteísmo absoluto é possível à mente humana? E a resposta definitiva tem de ser que não é. Pode-se apelar à Escritura, apelo que deve ser admitido, ponha ou não fim a toda contenda, pois é inegável que a Bíblia contém a maior e mais nobre coleção dos pensamentos religiosos do mundo. Em todo este livro, que dá testemunho de toda a variedade do erro humano, não há uma única alusão a homens de cuja mente se tenha apagado o pensamento de Deus. O livro demonstra tudo acerca da Divindade, menos a sua existência: nunca desce a argumentar com um ateu, pois nunca supõe que fala a um homem assim. Além dos ímpios que dizem a Deus: Deixa-nos em paz. Não queremos conhecer os teus caminhos (Jó 21.14), ele destaca o insensato que diz no seu coração: “Não há Deus” (Sl 53.1); mas estes são evidentemente, como o contexto prova, as mesmas pessoas. O ateu teórico não está na Bíblia. Tampouco quem crê na revelação admitirá que ele exista no mundo em geral. Aonde quer que a palavra da revelação seja enviada, a sua missão é proclamar, não a existência de Deus, mas o pecado do homem, a necessidade de um Libertador e o Libertador providenciado. Supõe-se que todas as nações precisem apenas de que lhes seja anunciado o Deus Desconhecido, que elas adoram sem conhecer (At 17.23). E em todas as partes do mundo se tem encontrado aquela faculdade de receber o sobrenatural que, se não é a crença em Deus, é pelo menos a negação do ateísmo. O apelo tem de ser feito ao fato e ao testemunho da história, passada e presente: “Que povo existe”, disse Cícero, “ou que raça de homens, que não tenha, sem ensino transmitido, algum pressentimento da existência dos deuses?” (Da natureza dos deuses I, 16). Pode-se admitir que se tenham encontrado no passado nações, e hoje tribos de selvagens, sem nenhuma noção clara de um Ser Supremo único e sem culto de espécie alguma. Mas até os mais desvalidos e desgarrados da humanidade sempre manifestaram a existência daquele mistério oculto da sua origem que reconhece afinidade com o sobrenatural. E isso é tudo o que o nosso argumento presente requer.

I, 389Razões do ateísmo. 2. O ateísmo propriamente dito, distinto de outras formas do erro que se extravia de Deus, brotou na maior parte das vezes de causas morais e designa, por isso, um sistema de pensamento que o instinto mais sadio da humanidade sempre abominou. A história primitiva da nossa raça testemunha que o ateu era tido por indigno de qualquer respeito. A negação da existência dos deuses era proscrita e punida. Até os sistemas de pensamento que tendiam a remover a fé tinham o cuidado de disfarçar o seu ataque aos deuses. Epicuro reconhecia, em palavras, a possível existência deles. Depois do aparecimento de nosso Senhor, o ateísmo declarado foi muito raro, até a corrupção geral da sociedade no século passado. E, de fato, o termo, em teologia, fica reservado a um estado de ânimo produzido por muitas e diversas causas morais, que culminaram nos excessos da Revolução Francesa.

Agnosticismo. 3. Desde então o ateísmo tem sido científico, filosófico e, em geral, disfarçado sob o nome de AGNOSTICISMO: sem dúvida a mais refinada de todas as suas formas, e a que mais diretamente escarnece e insulta a dignidade da natureza humana. Recua diante do ateísmo declarado e não ousa dizer que não há Deus. Recua diante do materialismo e não ousa dizer que as forças da matéria explicam todos os fenômenos. Declara simplesmente a impossibilidade de saber o que é a tremenda FORÇA que controla todas as coisas. Não há forma mais mortífera do grande erro da humanidade do que esta, que mina todos os fundamentos.

Antiteísmo. 4. Pode-se dizer que existe um ANTITEÍSMO moderno, que não se contenta em sacudir os grilhões de uma divindade, mas faz questão de argumentar contra a possibilidade da existência de um Deus como o que as Escrituras apresentam. O ateísmo se contenta com o alfa privativo; o antiteísmo é ativo e agressivo. Há, contudo, um freio na mente dos homens, e um decoro na sociedade, que impedem a explosão desse tipo de sentimento. Quando ele aparece, não passa, na melhor ou na pior das hipóteses, de um maniqueísmo ou dualismo moderno. A existência de Deus não é negada de modo absoluto; mas o mal que existe é transformado em argumento de que, se há um Deus, ele tem de ser limitado em muitos aspectos, e de modo algum o Ser que reverenciamos e adoramos. Há muito maniqueísmo latente na sociedade e na literatura; muitos recorrem a duas divindades quase sem ter consciência disso. No entanto, o Deus que as Escrituras revelam tem de ser aceito como ele é, ainda que diga: Eu formo a luz e crio as trevas (Is 45.6-7).

I, 390MATERIALISMO CIENTÍFICO.

Materialismo científico. Se o que foi dito é verdade, então o materialismo faz da matéria o seu deus. É preciso haver uma existência absoluta: a matéria é eterna, autossuficiente, infinita, necessária e o único ser. O materialismo científico propriamente dito apoia-se em dois princípios que ora postula, embora sem razão, ora procura provar, mas sem êxito. Um deles é negativo: nada existe senão a matéria; o outro é positivo: a matéria, nas suas combinações e modos de existência, é causa adequada de todos os fenômenos. Pode-se objetar que isso inverte a ordem do argumento materialista, que primeiro prova que nada além das leis da matéria é necessário para dar razão de tudo o que existe e depois, pelo princípio da “razão suficiente”, renuncia a toda outra existência. Cedendo a essa objeção, embora negando a sua verdade, lancemos um olhar aos princípios do argumento positivo e depois à conclusão negativa, abstendo-nos, porém, da controvérsia científica, que em geral foge ao nosso âmbito.

Correlação das forças físicas e espirituais. 1. Basta-nos mencionar duas demonstrações necessárias a que o materialismo visa e nas quais, no entanto, fracassa de modo notável: a correlação das forças físicas e vitais, e a correlação destas com as forças mentais e com as que chamamos espirituais. Aqui estão as pedras de tropeço do materialismo, nas quais ele tem caído até hoje e há de cair para sempre. Enquanto essas correlações não forem estabelecidas, esse sistema não tem direito algum de ser considerado fundado na ciência indutiva. Para simplificar, podemos deixar de lado o último elo, o das forças mentais; e então a questão passa a ser esta: será a vida um modo do movimento daquela força que se supõe una, persistente e indestrutível no universo dos átomos materiais? O materialismo científico chegou afinal, ainda que não sem acanhamento e muitas hesitações, à conclusão de que sim. Tomando por seu deus o sol material (pois toda teoria, como todo homem, precisa ter um deus), encontra nele a força original, potencial em toda parte e cinética em toda parte, de todo movimento na soma das coisas humanas. Do poder que está além e fez do sol o que ele é, o deus por trás do deus, nada tem a dizer. Ora, enquanto essa lei se limita às mudanças físicas, pode ser aceita: ela que trave a sua própria batalha. Mas quando leva a lei para a esfera da vida, não só nega a verdade da Escritura, como deixa de ter até aquela medida de probabilidade que tem a teoria da permutabilidade das forças físicas. Durante um tempo considerável, confiou-se no argumento da analogia. Achava-se pouco filosófico parar no meio do caminho depois de descoberto o segredo único até os limites da força vital; de qualquer modo, era muito forte a tentação de incluir as forças da vida e do pensamento sob a lei única. Mas os fenômenos se rebelaram. Verificou-se ser de todo impossível levar a lei para essa outra região. A vida e o pensamento nunca se submeteram à medição e à quantificação. A matéria morta nunca foi transformada em matéria viva. É inútil falar da correlação entre a força física e a força vital ou mental enquanto esta não puder ser medida pelo mesmo padrão que aquela. A entrada da vida na esfera da matéria é a aniquilação do materialismo. Ele não consegue explicar aquele segredo pelo qual algo no indivíduo se apropria da matéria morta adequada ao seu próprio tipo de existência. Os próprios materialistas reconhecem que esse segredo lhes está oculto e disfarçam em vão a sua impotência adotando termos como “ação diretiva”, “princípio arquitetônico” ou “impulso formativo”. De onde vem esse princípio de diferença eterna entre a matéria morta e a viva? Embora o negue em palavras, o materialismo toca, na realidade, a interação de outro conjunto de forças além das que reinam na física. Será por fim obrigado a reconhecê-lo. Os materialistas prestaram um serviço ao fixar a atenção na verdade profunda de que há uma correlação entre essas forças: uma interação sumamente misteriosa e maravilhosa entre os fenômenos da vida física e os da vida espiritual. Bom seria para eles se aprendessem, por seu lado, a distinguir as coisas que diferem.

I, 391Tendência ateísta. 2. Enquanto isso, o sistema é culpado da maior afronta possível às convicções racionais da humanidade. É essencialmente ateísta na sua tendência, ainda que nem todos os que esposam esses princípios sejam ateus. Há um grande número dos que ligam à matéria e à ação molecular todo tipo de vida e de pensamento, embora admitam a possibilidade de uma força inescrutável por trás ou acima de tudo isso; mas eles ou negam a possibilidade de saber qualquer coisa acerca desse poder desconhecido, ou o limitam de modo absoluto a uma força que não opera senão por meio da matéria. Pode-se afirmar com segurança que os que adotam os princípios capitais do materialismo ou são ateus ou logo se tornam ateus. E, renunciando-se a Deus, vai-se tudo o que confere dignidade ao homem ou valor à vida. O sistema nega a existência de qualquer coisa além da matéria: tira ao homem o seu espírito, a sua imortalidade, o seu tudo. Deveria negar-lhe a consciência da identidade pessoal, e os seus princípios levam nessa direção; pois, se o homem é apenas material, e as partículas do seu eu físico mudam a todo momento e passam por uma mudança total no curso de poucos anos, qual pode ser o substrato da sua identidade? Isso ele não ousa tirar; mas tira tudo o que a torna importante. O materialismo é o erro mais irracional que já desencaminhou a mente humana; e a quem o professa, se a alguém, se aplica a apóstrofe do apóstolo: ἄφρον! [Insensato!] (1Co 15.36). Contudo, temos agora de vê-lo transformado em filosofia.

I, 392POSITIVISMO.

Positivismo. O positivismo foi honrado com o nome de filosofia. O seu fundador, Auguste Comte, foi um legado do século XVIII ao século XIX, e do enciclopedismo francês e do saint-simonismo à ciência moderna. O resultado dos seus trabalhos é uma filosofia das ciências físicas quase inteiramente limitada à indução. Ela renuncia a todo pensamento sobre as causas das coisas, segue simplesmente as sequências da natureza e assim averigua as suas leis, rejeitando declaradamente tudo o que é meramente especulativo ou provável e limitando com rigor o conhecimento ao que pode ser demonstrado sem margem de dúvida e é, por isso, Positivo. Para construir tal filosofia, adotaram-se certos princípios fundamentais que, no entanto, estão longe de ser positivamente determinados: por exemplo, que nada existe de que os nossos sentidos não nos deem certeza; que não existe nada senão a matéria; que todos os fenômenos estão sujeitos a leis invariáveis, que cabe à ciência registrar, e apenas registrar; que essas leis são simplesmente relações de sucessão e de semelhança; que, nos fenômenos cerebrais da mente, elas são tão absolutamente físicas na sua sequência necessária quanto em quaisquer outros fenômenos observados, com a única diferença de exigirem maior cuidado na observação; e que o objetivo mais alto da ciência deveria ser antever, pela previsão científica, o futuro certo das ações humanas, assim como se podem predizer os cursos dos planetas. Daí que a Filosofia Positiva, interpretando o futuro possível pelo passado e pelas leis necessárias da ação humana que descobriu, exulte na ambição de reduzir as complicações infinitas do livre-arbítrio humano e da ação coletiva à exatidão de uma ciência física. “Ousarei dizer que a ciência sociológica, embora apenas fundada por este livro, já rivaliza com a própria ciência matemática, não em precisão e fecundidade, mas em positividade e racionalidade.” Essa afirmação de Comte não era declamação vazia. Tanto ele como os seus seguidores percorreram a história do mundo com base nesse princípio e estão cheios de confiança de que, dominando as leis da ação humana, fornecerão os governantes designados da estrutura social do mundo. Mas a sociologia nunca está longe da religião; e a Filosofia Positiva não é exceção à regra universal de que todo sistema de pensamento que atrai a atenção humana precisa merecê-la, pelo menos tentando explicar os princípios que os homens chamam de sua fé. Qual é, então, a relação dessa filosofia com a religião?

I, 393A explicação positivista da religião. 1. Primeiro, o positivismo tem o seu método de explicar as religiões que agora existem, antes de pôr a sua própria no lugar delas. Parte da ampla generalização de que a raça humana passa por três estados de evolução intelectual. Primeiro vem aquele em que o sobrenatural assombra o pensamento, que busca as causas das coisas e inventa uma divindade com toda a sua corte para explicá-las: esse estado teológico vai subindo lentamente desde a superstição abjeta, Os três estados. como o fetichismo, passando pelos sistemas politeístas e panteístas, até o cristianismo. Em segundo lugar vem o estado metafísico, que é apenas uma modificação do primeiro: aquele em que as ideias de forças abstratas, ou de poderes ocultos, são introduzidas para explicar os fenômenos do universo por aqueles que rejeitaram a ideia de um Criador. Em terceiro e último lugar vem o estado positivo, em que a mente, envergonhada das suas superstições e cansada das suas pesquisas ontológicas, limita-se a ordenar os fenômenos. Examinada, essa generalização desmorona de imediato. Não é verdadeira historicamente, nem tem direito algum de governar uma filosofia da história. É sem dúvida correta como explicação da história de muitas mentes individuais, que passaram pelas fases da fé simples em Deus e das sutilezas metafísicas, panteístas ou dualistas que a substituíram, terminando numa sombria decisão de aceitar apenas o que é e deixar o resto à nesciência. Os célebres “três estados” não têm o menor valor, a não ser como registro do percurso da fé, através do ceticismo, até a incredulidade.

I, 394A religião positiva. 2. A Filosofia Positiva tem a sua religião. Pois, na sua fidelidade à observação e ao registro dos fatos positivos, não encontra nada mais positivo do que a aspiração universal da humanidade ao invisível e a prática quase universal de algum tipo de culto. Ora, esses fatos não podem ser explicados teológica nem metafisicamente: quer dizer, não pode haver Deus; nem se pode pôr no lugar dele força alguma, tenda ela para o que tender. É um fato positivo, que tem de ser tratado filosófica e socialmente. Mas, vista sob qualquer dessas duas luzes, a maneira positivista de tratar a religião do homem é uma incoerência gigantesca.

Infiel à indução. (1.) Este último desenvolvimento do espírito científico recusa-se a levar o princípio indutivo à região dos fenômenos mentais, emocionais e ativos da humanidade. Observa e anota essas coisas, mas com a conclusão já tomada de antemão de que elas são o resultado de certa combinação de átomos materiais e de um desenvolvimento dessas forças ainda não perfeitamente explicado. Forçado pela sua hipótese a excluir, de um lado, todas as causas metafísicas ou ocultas, e dominado, de outro, pelo despotismo do desejo de encontrar a unidade de todas as coisas, anota e registra todos os fenômenos mentais e espirituais da humanidade (os pensamentos que penetram as mais baixas profundezas e as aspirações que não recuam diante das mais altas alturas) como outros tantos fatos novos a respeito da matéria. Ora, aqui está a profunda incoerência de todo o sistema. Os inumeráveis fenômenos do pensamento, do sentimento e da vontade são fatos tanto quanto a gravitação, a coesão e o movimento molecular. A mesma consciência garante uns e outros: aqueles como pertencentes ao eu, estes como pertencentes ao não eu. O testemunho da consciência afirma que a continuidade entre eles se rompe; que andam juntos até certo ponto e então se separam, não, porém, tomando dois caminhos, pois entre eles há um abismo sem limites. O mundo dos conceitos, das imaginações, dos sentimentos e das emoções, sem nenhum parentesco com a matéria, é um mundo real e deve ser tratado como tal. O positivismo fecha os olhos ao fato positivo de que esse mundo ideal governa o outro, o mundo material, e não é governado por ele.

I, 395Culto da humanidade. (2.) Socialmente, o positivismo usa, ou quer usar, os instintos religiosos da humanidade, seja qual for o nome por que sejam conhecidos, para o bem do corpo social. Precisa ter o seu credo objetivo; e a única coisa positiva em que crer, que venerar e que adorar é a Humanidade: “A Grande Vida Coletiva da qual os seres humanos são os indivíduos. Deve ser concebida como tendo uma existência à parte dos seres humanos, assim como concebemos que cada ser humano tem uma existência à parte das células individuais de que o seu organismo se compõe, embora dependente delas. Essa Vida Coletiva é, no sistema de Comte, o Etre Suprême [Ser Supremo]; o único que podemos conhecer e, portanto, o único que podemos adorar” (Lewes, Princ. of Pos. Phil.). Sendo este o primeiro artigo do Novo Credo, o último, como substituto da ressurreição e da imortalidade, é “Viver na lembrança” dos sobreviventes. Aqui, como não pode deixar de impressionar a todos, está mais uma prova de um fato que se nos impôs em toda parte: nenhum sistema existe sem o seu deus; a mente humana não pode pensar sem essa condição, assim como não pode pensar sem as condições do tempo e do espaço. O positivismo precisa ter o seu algo além, e acima, e que sobreviva à sua natureza material. Que é a sua humanidade abstrata senão a criatura adorada παρὰ τὸν Κτίσαντα, em lugar do Criador (Rm 1.25)?

Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. I, pp. 361-395, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.