W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume I · Deus

Os atributos morais de Deus

I, 325ATRIBUTOS RELATIVOS AO GOVERNO MORAL.

Atributos morais. Há alguns atributos, até aqui não mencionados, que pertencem ao Ser divino enquanto ele é o Governador moral das criaturas inteligentes. Eles se revelam sobretudo em conexão com a economia da redenção, e é principalmente dessa conexão que derivam os seus nomes e as suas características: embora se manifestem nas relações de Deus com todas as suas criaturas em estado de prova, devemos considerá-los especialmente à luz da mediação de Cristo e no aspecto em que se voltam para a humanidade. Pode-se dizer que todas as perfeições de que falamos dependem de duas, a Santidade e o Amor, cujas relações mútuas, cuja harmonia e cuja unidade estão ligadas à clara compreensão do mistério do evangelho. Esses atributos supremos e centrais estão, respectivamente, à frente de muitos outros que deles brotam ou que podem ser considerados como pertencentes à mesma família. Santidade é o nome que define a perfeição essencial de Deus em oposição a tudo o que não está em harmonia com ela, e por isso conota a realidade ou a possibilidade do pecado. O seu primeiro representante no governo moral de Deus é a Justiça, que, como Retidão, entra de modo distintivo na economia redentora desse governo e lhe dá um dos seus nomes [N. do T.: Pope usa aqui justice e righteousness para a mesma perfeição; nas Bíblias em português, as duas são “justiça”, e um dos nomes que ela dá à economia redentora é “a justiça de Deus” (Rm 1.17; 3.21)]. Esta, por sua vez, é representada e sustentada pelos atributos da Verdade e da Fidelidade. O Amor essencial de Deus, em virtude do qual ele se comunica à sua criatura, capaz de bem-aventurança em união com ele, manifesta-se da maneira mais perfeita na revelação de Jesus. É representado pela Graça, como o favor que repousa sobre os que não o merecem; e esta, nas variedades da sua manifestação, dá muitos atributos ao Deus triúno da redenção, como a Compaixão, a Longanimidade e a Misericórdia.

I, 326OS ATRIBUTOS MORAIS DE DEUS.

Agora, pela primeira vez, uma região moral. Nas duas séries anteriores de perfeições, não tivemos motivo para considerar a relação delas com a bondade moral: o que quer que tenha sido apresentado com esse aspecto entrou apenas por antecipação. Mas agora estamos inteiramente numa região moral: todo atributo se refere à afirmação e à manutenção da bondade ética. Vemos que o Supremo assume a glória de toda excelência moral; que ele atribui a si mesmo a perfeição absoluta de toda qualidade que requer de nós. Vemos, além disso, que o Senhor de todos se apresenta a nós na sua palavra tantas vezes nos seus atributos morais quanto nas suas perfeições absolutas, talvez até mais. Devemos considerar tudo isso como irrealidade e supor que o Deus da nossa vida nos dá um retrato imaginário de si mesmo? Sabemos que ele às vezes fala como se tivesse a nossa organização corporal; e às vezes como se fosse sujeito de paixões e afetos de que sabemos que ele é incapaz. Será que toda a apresentação moral da Divindade, do começo ao fim, tem o mesmo caráter antropopático? Será que algum Ser desconhecido educa a humanidade segundo certos princípios que ele tornou obrigatórios e, para levar adiante esse processo, ensina pelo exemplo tanto quanto pelo preceito? Por um exemplo, porém, inteiramente fictício? Esta questão já foi discutida quando tratamos da noção de Deus possível ao homem; mas aqui se podem fazer algumas observações sobre a sua relação com esta classe de atributos.

I, 327O Absoluto e a moralidade. 1. Toda objeção a que se atribua a Deus um caráter moral se apoia naquela ideia falsa e irreal do Absoluto que mina os fundamentos de toda teologia. Levada à sua conclusão legítima, essa ideia despojaria a Divindade de todo atributo e a reduziria, ou a elevaria, ele ou isso, a uma abstração incapaz de definição: o próprio termo definição, isto é, distinguir algo daquilo que ele não é, seria uma traição à majestade da Entidade incondicionada. Mas, por mais inexorável que pareça a lógica que estabelece tal noção do divino, ela se desfaz ao toque do bom senso: em todo caso, diante do bom senso do homem que escuta a consciência dentro do seu coração, tem a Bíblia na mão e crê na encarnação do Filho de Deus. Com ateus, antiteístas e panteístas não temos de tratar aqui: para todos eles, igualmente, os atributos de Deus são algo inexistente. Mas é necessário advertir os que creem na revelação contra o dano de eliminar à força de sutilezas a realidade, no próprio Deus, daquelas qualidades eternas do que é reto, que a sua natureza e a sua vontade se unem para tornar obrigatórias a toda criatura. Se Deus se manifestou na carne, então trouxe consigo aqueles princípios de santidade que são a glória da sua manifestação humana: ele não criou os princípios eternos que estão na base da moralidade, nem aprendeu da sua criatura os primeiros elementos da moral.

Deus não presta contas. 2. Pode-se argumentar que toda moral supõe uma submissão livre a uma autoridade ou lei externa, com a possibilidade de fazer o mal. Isso é perfeitamente verdadeiro quanto às relações éticas das criaturas em estado de prova. Não é verdadeiro em abstrato: não é verdadeiro quanto a Deus. O Governador supremo do universo é um ser moral, mas não presta contas a ninguém que esteja por trás dele. Ele é o fundamento de toda lei, e ele mesmo é a personificação eterna dela. Tampouco se pode provar que a moralidade implica a possibilidade do mal. Estamos acostumados a esse pensamento, sendo nós mesmos o que somos; mas um pouco de reflexão mostrará que a perfeita liberdade e a perfeita necessidade podem ser, e são, uma só coisa no caráter moral de Deus. Necessidade tem dois sentidos: pode ser compulsão vinda de fora; e pode ser compulsão vinda de dentro, que mal se distingue da certeza absoluta de um princípio imutável. Esta é a necessidade mais alta da mais alta liberdade em Deus. Este foi também o caráter do desenvolvimento moral do Filho de Deus encarnado, que desceu à região da nossa moral humana com a obediência espontânea de uma vontade incapaz de pecar: sem pecado, por ter nascido na carne por geração miraculosa; impecável, porque era o Filho de Deus.

I, 328Paixões e emoções em Deus. 3. Mas aqui a dificuldade fundamental, e mais evidente, está em entender como o Deus imutável pode ser capaz de impressões vindas de fora, como exige a ideia de paixões e emoções. Parte dessa dificuldade se resolve quando lembramos que, afinal, boa parte da linguagem bíblica sobre esse assunto é antropopática, uma acomodação à fraqueza humana. Assim, o Deus imutável se representa como quem espera e teme, como quem pronuncia e suspende a sua ira, como quem vacila na incerteza e se arrepende dos seus propósitos. Não é difícil entender tudo isso. Ai de você, Jerusalém! (Jr 13.27) é a expressão de uma ira santa que suspende a sua execução. Você não vai se purificar? é a oferta da misericórdia, coerente com essa ira santa, uma vez pressuposta a intervenção de um Redentor. Quanto tempo isso vai durar? é a linguagem de uma aparente incerteza entre a esperança e o temor. O salmista diz: E quem é rochedo, a não ser o nosso Deus? O caminho de Deus é perfeito (Sl 18.31, 30). Ele é imutável na sua perfeição. Mas também diz: Para com quem é fiel, fiel te mostras; com o íntegro, também íntegro. Com o puro, puro te mostras; com o perverso, inflexível (Sl 18.25-26). Ele se faz, por assim dizer, tudo para com todos; mas não devemos entender mal as palavras te mostras. Quanto ao arrependimento de Deus, de que se fala com tanta frequência, o profeta Samuel nos dá um exemplo característico. Ele também diz: A Força, ou a Rocha, de Israel não mente nem se arrepende, porque não é homem para que se arrependa (1Sm 15.29). Mas depois, usando as mesmas palavras, diz: E o Senhor se arrependeu de ter constituído Saul rei sobre Israel (1Sm 15.35) [N. do T.: Pope segue a versão inglesa, que, como o hebraico, usa o mesmo verbo nos dois versículos; a NAA traz “a Glória de Israel não mente, nem muda de ideia, porque não é homem, para que mude de ideia” e “o Senhor lamentou haver constituído Saul como rei sobre Israel”]. Mas devemos ter cuidado para não levar essa explicação longe demais. Há uma diferença real, e não apenas convencional, entre os atributos da Divindade absoluta e os atributos criados, ou cuja manifestação é criada, pela própria criação e junto com ela. Não podemos entender isso; tampouco podemos entender a encarnação. Não podemos sondar o mistério de que o Deus Eterno, אֵל עוֹלָם (Gn 21.33), habite também no tempo e aguarde o desenrolar dos seus processos como o Deus da paciência (Rm 15.5); tampouco podemos sondar o mistério de que o Deus impassível se entristeça, se alegre e se ire. É um alívio para nós ver que, no seu Filho encarnado, Deus de fato arma a sua tenda entre nós, alegra-se conosco quando nos alegramos e chora conosco quando choramos. O antropopatismo do Antigo Testamento pode ser uma antecipação da realidade do Novo Testamento. Ou então (e talvez seja melhor dizer assim) a exibição, no Novo Testamento, de um Deus revestido de moralidade humana e sujeito, sem pecado, aos mesmos sentimentos que nós pode ser apenas a manifestação, até a perfeição, de um mistério que antes não se manifestara.

I, 329SANTIDADE E AMOR, OS ATRIBUTOS FUNDAMENTAIS.

Santidade e amor. A manifestação de Deus no seu governo moral pôs em destaque, em todas as épocas, duas classes de atributos, que têm como raiz e princípio, respectivamente, a santidade e o amor do Supremo: a sua santidade, que o separa de nós, e o seu amor, que, não obstante, se comunica ao pecador. Esse não obstante aponta aqui para o mistério mais essencial e profundo da expiação.

Antigo Testamento. 1. Em todo o Antigo Testamento, notamos a ascendência dessas duas perfeições na sua união e na sua harmonia misteriosas, e ainda não plenamente explicadas. O início da revelação mostra a ira justa de Deus contra o pecado e o seu trato bondoso com o pecador; mas foi só quando o Jeová do povo da aliança lançou os fundamentos da teocracia, a preparação formal para a plena economia redentora, que os dois atributos principais foram postos na sua posição correlativa. A primeira referência à santidade divina está ligada à entrega da Lei. Em Gênesis ele nunca é o Santo; mas, logo no começo da sua relação redentora com o povo que servia de tipo, ele é glorificado em santidade (Êx 15.11). Mas a santidade do Deus zeloso, que visita a iniquidade dos pais nos filhos, está entrelaçada com o amor do mesmo Deus, que faz misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos (Êx 20.5-6). Quando Jeová renovou a sua aliança, depois da primeira violação dela, os dois atributos principais voltam a ser destacados na revelação do seu nome e da sua glória. Mas agora o amor vem primeiro. O SENHOR passou diante de Moisés e proclamou: O SENHOR! O SENHOR Deus compassivo e bondoso, tardio em irar-se e grande em misericórdia e fidelidade; que guarda a misericórdia em mil gerações, que perdoa a maldade, a transgressão e o pecado, ainda que não inocente o culpado (Êx 34.6-7). O que isso significava foi então explicado melhor: vocês não devem adorar outro deus; pois o nome do Senhor é ZELOSO; sim, ele é Deus zeloso (Êx 34.14). Em todo o restante da economia do Antigo Testamento, as duas grandes famílias de atributos pertencem, respectivamente, àquele de quem Josué disse: é Deus santo, Deus zeloso (Js 24.19), e ao Senhor Deus compassivo e bondoso (Êx 34.6). Às vezes as famílias de atributos são mantidas separadas; às vezes estão unidas, e a sua união, por meio da propiciação prefigurada no templo, distingue os Salmos e os profetas que antecipam o evangelho. Bendiga, minha alma, o Senhor, e tudo o que há em mim bendiga o seu SANTO NOME (Sl 103.1): é isto que abre o salmo; mas a misericórdia retoma o canto e o leva até o fim. O Senhor é compassivo e bondoso; tardio em irar-se e rico em bondade (Sl 103.8). Isto pode representar os salmistas; que Oseias represente os profetas. Meu coração se comove dentro de mim; toda a minha compaixão se manifesta. Não executarei o furor da minha ira; não voltarei para destruir Efraim. Porque eu sou Deus e não homem; sou o Santo no meio de vocês (Os 11.8-9). Note-se que a santidade e a misericórdia estão de tal modo entrelaçadas nessas passagens, e em outras semelhantes, que poderia parecer que elas cruzam as mãos: é a santidade que perdoa o pecado, e não a misericórdia. Isso tem enganado muitos teólogos, que se esquecem de que a união dos dois atributos, e não a sua confusão, é a glória da redenção. À parte isso, porém, é claro que, em todo o Antigo Testamento, a santidade e a misericórdia de Deus são supremas: destas duas dependem todos os atributos redentores.

I, 331Novo Testamento. 2. Certamente o mesmo se dá no Novo Testamento. Ilustrar isso seria antecipar toda a doutrina da expiação. Basta dizer que o nosso Senhor e os seus apóstolos deram a mesma preeminência aos dois atributos. No Evangelho de são João, o Salvador começa com Deus amou o mundo de tal maneira (Jo 3.16) e termina com Pai santo! (Jo 17.11). São Paulo faz da revelação do justo juízo de Deus (Rm 2.5), o Deus da santidade, e da livre oferta da sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus (Rm 3.24), as notas dominantes de todo o sistema evangélico. São João, na sua Primeira Epístola, que é a última revelação da Atributos na redenção. Bíblia, destaca as duas perfeições divinas, a Santidade e o Amor, para a definição do que se pode chamar a natureza moral de Deus. Estes dois são os únicos termos que unem numa só coisa os atributos e a essência de Deus. A mensagem que dele ouvimos e que anunciamos a vocês é esta: DEUS É LUZ, e não há nele treva nenhuma (1Jo 1.5). A revelação do Verbo encarnado é a suprema Santidade de Deus: ele mesmo é a glória de toda bondade e a negação de tudo o que não é bom. Uma segunda revelação do Verbo é esta: DEUS É AMOR (1Jo 4.8). Nunca antes, em todas as Escrituras, esse atributo tinha sido identificado com o próprio ser de Deus: profetas e apóstolos, e o próprio Filho, tinham se aproximado dessa verdade, mas não a tinham enunciado; são João, porém, dá aqui a interpretação ousada e bendita do que eles queriam dizer. Podemos, então, considerar essas duas perfeições na verdadeira ordem que o apóstolo indica e mostrar a sua harmonia na redenção.

A SANTIDADE DE DEUS.

Santidade. Aquela perfeição absoluta que pertence a Deus na sua essência eterna é, nas suas relações morais com criaturas em quem o pecado é possível ou está presente, e que devem ser guardadas do pecado ou salvas dele, a Santidade: a sua natureza é a soma e o padrão de toda bondade, e está eternamente oposta a tudo o que não é bom na criatura. Assim, o termo une as ideias positiva e negativa, sempre com referência, latente ou declarada, ao que é ou pode ser contrário à vontade divina.

I, 332Separação do mal da criatura. 1. Dizer que Deus é santo expressa a perfeição da excelência moral como existente só nele, recaindo a ênfase sobre o só; daí se segue que toda aproximação dele deve ser marcada por reverência e temor.

(1.) A primeira vez que esse atributo lhe é dado, aparece essa ideia: Ó Senhor, quem é como tu entre os deuses? Quem é como tu, glorificado em santidade, terrível em feitos gloriosos, que operas maravilhas? (Êx 15.11). E também a última vez: Quem não temerá e não glorificará o teu nome, ó Senhor? Pois só tu és santo! (Ap 15.4). Por uma multidão de passagens intermediárias corre o sentido invariável de que Deus, pela sua santidade, é separado de todo ser humano: está só na sua perfeição moral, diante da qual todos os rostos empalidecem e todas as criaturas são convencidas de impureza. Esse sentido da palavra, quando referida a Deus, é esquecido com demasiada frequência: a santidade é tida como sinônimo de perfeição em geral, sem o elemento concomitante da separação do mal; ou então alguns, no interesse de uma teologia particular, fazem-na significar o oposto do que ela realmente significa, isto é, a bondade comunicativa da Divindade.

Fundamento da adoração. (2.) Por isso, o fato de Deus ser קָדוֹשׁ, resplandecente na glória de uma santidade que não partilha com ninguém, e Ἅγιος, terrível na sua santidade, é o fundamento especial da adoração peculiar da criatura, sobretudo da criatura pecadora. Santo e tremendo é o seu nome! (Sl 111.9). O seu nome, no culto do seu povo, é o Santo de Israel (Sl 71.22). É este atributo que envolve de glória terrível a Deus no seu templo, seja o dos céus, seja o templo da terra. A justiça o acompanha no seu tribunal; mas a santidade convém à sua casa, que por isso é o seu santuário, o Lugar Santo, onde ele se resguarda de tudo o que não é santo, ao mesmo tempo que providencia os meios expiatórios em virtude dos quais os que não são santos podem aproximar-se dele. Isso se vê de modo enfático no triságio do templo místico de Isaías, no pavor que se apoderou do coração do adorador e na purificação dos seus lábios, para que ele pudesse unir-se ao culto dos anjos. Isso nos leva a observar que este é o atributo do Deus triúno como objeto de culto: Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória! (Is 6.3), a que responde o eco do Novo Testamento: Santo, santo, santo é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, aquele que era, que é e que há de vir! (Ap 4.8). Daí se vê facilmente quão forte confirmação isso dá à doutrina da Santa Trindade: esta é a única perfeição proclamada três vezes. Nem esta nem nenhuma outra perfeição é negada à segunda e à terceira Pessoas; a santidade, porém, é atribuída a elas em comum num sentido peculiar e preeminente. O Filho se dirige ao Pai santo (Jo 17.11); ele mesmo, como Encarnado, é o santo Servo (At 4.30); e o Espírito de Deus é, por excelência, o Espírito Santo (Jo 14.26).

I, 333Estritamente relacionado com a criatura. 2. Tudo isso implica que esse atributo está sempre, direta ou indiretamente, relacionado com a criatura e, como tal, é o padrão da bondade e a expressão da aversão divina ao mal. Não se pode negar que ele separa Deus da natureza da criatura, mesmo considerada à parte do seu mal. Mas, ainda nesse caso, há uma referência tácita à contaminação do pecado que entrou no universo, da qual todos os adoradores, sejam do céu, sejam da terra, estão conscientes. Na referência direta do atributo à humanidade, porém, não pode haver dúvida de que a santidade de Deus se mostra sempre sobre o fundo escuro do pecado. Ela é a lei e a obrigação de todo bem ético; é a repulsa eterna de todo mal ético.

Padrão de toda santidade. (1.) É a natureza de Deus que declara o que é moralmente bom; essa é a única Natureza das Coisas em que ousamos pensar. Depois de tudo o que se disse sobre o fundamento da bondade e sobre a razão por que o bem é bem, ficamos restritos a uma única posição. Só Deus é santo: não porque se submete a uma lei que obriga a ele e a todos, mas porque a santidade tem nele o seu padrão e a sua sanção eternos. Não tem importância perguntar se é a natureza divina ou a vontade divina o fundamento da obrigação moral. Sejam santos, porque eu sou santo! (1Pe 1.16) é a única resposta. Como todo agente moral inteligente é criado à imagem de Deus, a natureza divina é o único fundamento da sua obrigação de ser santo: ele não conhece nada por trás da natureza do seu Deus. Como ele é súdito do governo moral do Supremo, a vontade divina é o fundamento da sua obrigação de ser santo: ele não conhece nada por trás da vontade do seu Deus. Mas esses dois aspectos são, na realidade, um só.

Condenação de todo pecado. (2.) Por isso, assim como a santidade divina é o padrão da bondade, ela é o oposto eterno e a condenação eterna do pecado. Tu és tão puro de olhos, que não podes suportar o mal nem tolerar a opressão (Hc 1.13). Este atributo não pode ser separado da ideia da sua inviolabilidade e da afirmação dos seus próprios direitos. Quem poderia estar diante do Senhor, este Deus santo? (1Sm 6.20). A consciência, que no culpado é fiel na sua resposta à santidade divina, clama em todo pecador: Ai de mim! Estou perdido! (Is 6.5). Todo o teor da Escritura, não menos o Novo Testamento do que o Antigo, é fiel à concepção deste atributo, que o faz não apenas recuar diante do que não é santo, mas também voltar-se contra isso com um desagrado permanente. Ele não só não admite comunhão alguma com o mal, mas está eternamente repelindo-o, rejeitando-o e condenando-o. O nosso Deus é fogo consumidor (Hb 12.29). Assim como o pensamento do pecado, do qual a santidade está para sempre defendida, está sempre latente quando se atribui santidade a Deus, assim também o está o pensamento da sua ira permanente contra ele.

I, 334Santidade comunicativa. 3. Não faríamos justiça a este atributo, porém, se não mostrássemos que ele só é revelado aos homens por meio de uma economia da graça, que torna possível que pecadores, tremendo diante do Deus Santo, venham a ser participantes da sua santidade (Hb 12.10). Por toda a Escritura corre um refrão perpétuo: Sejam santos, porque eu sou santo (1Pe 1.16). O povo antigo o ouviu desta forma: Portanto, santifiquem-se e sejam santos, pois eu sou o Senhor, o Deus de vocês. Guardem os meus estatutos e tratem de cumpri-los. Eu sou o Senhor, que os santifico (Lv 20.7-8). E foi-lhe prometido: vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa (Êx 19.6). A tremenda santidade de Jeová foi revelada e mantida sempre em destaque por todo sinal e todo símbolo; e, no entanto, um povo pecador podia ser santificado, separado do mundo e do pecado, para uma comunhão peculiar com o Santo. O Deus cuja glória enchia o templo, e que só fazia revelar a falta de santidade de todos os que dele se aproximavam, mandava, apesar disso, que os que não eram santos se achegassem para serem santificados. Seria então pelos raios da sua santidade, brilhando sobre eles e ao redor deles? De modo nenhum. O mistério deste paradoxo, de que o atributo que separava Deus dos pecadores é, apesar disso, o vínculo de união entre os pecadores e ele mesmo, só se resolve pelo sistema da expiação sacrificial, figura da grande Expiação, que, por meio de uma satisfação oferecida à justiça divina, abriu a comunhão de amor entre Deus e o homem. Mas isso nos leva ao atributo seguinte, ou a outra manifestação da santidade.

I, 335A JUSTIÇA OU RETIDÃO DE DEUS.

Justiça. A justiça ou retidão de Deus é a santidade divina aplicada ao governo moral e ao domínio da lei. Como atributo de Deus, ela está unida à sua santidade, por ser essencial à sua natureza; é legislativa ou reitoral, visto que ele é o justo Governador de todas as suas criaturas; e é administrativa ou judicial, visto que ele é o justo Dispensador das recompensas e dos castigos. Sob esses três títulos se pode distribuir tudo o que a Escritura nos ensina sobre este assunto importantíssimo.

Justiça essencial. Interna. I. A Justitia Interna, ou justiça essencial do Deus da santidade, não precisa ser tratada com muita extensão.

1. Ela é a santidade de Deus considerada como sujeita a prova; também como exibida no trato dele com o homem; além disso, e por último, é antes a expressão positiva daquilo que, na santidade, é separação negativa do mal. Tudo está dito naquela primeira atribuição de glória a Jeová no Cântico de Moisés: Proclamarei o nome do SENHOR. Louvem a grandeza do nosso Deus. Eis a Rocha! Suas obras são perfeitas, porque todos os seus caminhos são juízo. Deus é fidelidade, e nele não há injustiça; é justo e reto (Dt 32.3-4). As últimas palavras são צַדִּיק וְיָשָׁר הוּא, na Septuaginta δίκαιος καὶ ὅσιος [justo e santo], e na Vulgata justus et rectus. As palavras hebraicas significam quase a mesma coisa: retidão e justeza, quando medidas pelo padrão da perfeição. Com muita frequência o Santo condescende em deixar que os homens apliquem esse padrão, e então o atributo da justiça sai sempre vindicado. Depois de toda prova, mostra-se irrepreensível e muito acima da censura ou da rivalidade humana: A tua justiça é como as grandes montanhas (Sl 36.6), tão acima da justiça do homem quanto o céu está acima da terra.

Comunicada. 2. Mas ela, como a santidade de Deus, há de ser comunicada ao homem. Quando descemos aos salmos e aos profetas, vemos a justiça de Deus quase tomar o lugar da sua santidade, como o atributo por cuja revelação as eras esperam. Quando lemos tantas vezes: Faço chegar a minha justiça (Is 46.13); ou: Perto está a minha justiça (Is 51.5); ou: a minha salvação está prestes a vir, e a minha justiça está prestes a se manifestar (Is 56.1), temos de entender mais do que a simples ideia de que a fidelidade de Deus à sua aliança seria comprovada nos últimos dias. A vinda do Senhor, Justiça Nossa (Jr 23.6), traria a justiça eterna (Dn 9.24) dos seus santos, feitos justos por meio dele na posse da justiça de Deus (Rm 10.3): a imputação e a comunicação de um caráter justo, à maneira do próprio Deus. Por isso, assim como a grande Expiação havia de ser uma gloriosa manifestação da santidade divina na expiação do pecado, assim também havia de ser uma gloriosa manifestação da justiça de Deus, dada em livre misericórdia aos que eram ímpios e geração perversa e deformada (Dt 32.5).

I, 336Justiça reitoral. II. A justiça legislativa ou reitoral de Deus é o atributo que imprime perfeição em todas as leis pelas quais ele conduz o governo do universo, seja em outros mundos, seja neste, e quer as suas leis estejam reveladas na constituição do coração do homem, quer na revelação escrita da sua vontade. Aquilo que o povo antigo se alegrava em lembrar nas suas aflições, o mundo inteiro pode celebrar com alegria: o Senhor é o nosso juiz, o Senhor é o nosso legislador, o Senhor é o nosso Rei; ele nos salvará (Is 33.22). Toda a administração reitoral dos negócios humanos tem sido conduzida com referência à grande salvação gradualmente revelada; e isso deve ser lembrado em toda avaliação da administração moral de Jeová. Exige-se de nós que creiamos que a sua lei é perfeita (Sl 19.7): perfeita como expressão da santidade divina; perfeita, portanto, como padrão do que é reto; perfeita na sua adaptação universal; perfeita nas suas exigências; perfeita nas suas sanções. Tudo isso são Paulo resume numa só frase: a lei é santa e o mandamento é santo, justo e bom (Rm 7.12). Voltando, porém, ao atributo do Legislador, temos o dever de crer que todas as ordenanças são justas: primeiro, com respeito à constituição e à natureza dos seus súditos; e, segundo, por corresponderem estritamente ao seu próprio propósito divino, seja ele compreendido ou não. Crer nessas duas coisas é responder de antemão a toda objeção. A tua justiça é justiça eterna, e a tua lei é a própria verdade (Sl 119.142). Porque ele é justo, a sua lei é verdadeira, tanto em relação a ele mesmo quanto em relação à natureza das suas criaturas.

Justa para com a criatura. 1. É necessário crer que, sob um Legislador justo, nenhuma criatura viva é sobrecarregada de obrigação; em outras palavras, quer o percebamos, quer não, Deus é um Legislador justo em todos os domínios em que revela a sua lei. Em todo espírito racional que cria, ele imprime a lei da obediência e do amor, perfeita e suprema; e essa lei está em estrita harmonia com a natureza da criatura: é direito do Criador e é justa para com a criatura. Mas apraz a ele, como Governador moral do universo, ordenar para cada uma um tempo de provação: na sua justiça, ele faz da dependência do seu Espírito a lei da obediência e da felicidade contínuas; e a pena da separação da sua vontade, ou seja, do pecado, é a separação da sua presença. E, à parte o comentário que a história faz disso, toda criatura tem de dizer amém: Certamente, ó Senhor Deus, Todo-Poderoso, verdadeiros e justos são os teus juízos (Ap 16.7). Nada se impõe ao dever da criatura, nem se exige da vontade da criatura, que esteja além da capacidade e da obrigação da criatura.

I, 337Justa segundo um padrão divino. 2. A justiça das leis divinas implica também que elas estão conformes ao propósito e ao desígnio dele e, nesse sentido, são retas. É bom crer que elas são equitativas e justas na sua relação com a natureza da criatura. Mas isso não é tudo. Elas têm de ser medidas por outro padrão: são retas na sua perfeita adaptação aos planos divinos. Aqui entra a nossa apologia em favor do Legislador divino: a sua própria e suprema teodiceia, ou vindicação de si mesmo. Não nos é dado entender os mistérios da administração reitoral oculta de Deus. Temos de crer agora que ela é justa, assim como certamente um dia saberemos que é. Nuvens e escuridão o rodeiam (Sl 97.2): a incredulidade forma, com essas nuvens, e escreve sobre essa escuridão, inúmeros motivos de questionamento. Mas justiça e juízo são a base do seu trono: por trás das nuvens, tudo é claro, firme e de perfeita retidão. Isso deve pôr fim à contenda humana com o Legislador divino. Isso deve resolver todas as nossas disputas sobre a diferença entre a legislação para os anjos e a legislação para o homem; sobre a lei do paraíso com as suas sanções; sobre a revelação gradual e lenta da vontade divina ao mundo; sobre as determinações eternas do Sinai e a legislação especial e limitada para a teocracia, com os seus ocasionais estatutos que não eram bons (Ez 20.25), não bons, isto é, para aplicação permanente. Dez mil dificuldades são removidas, ou antes, evitadas de antemão, se nos lembrarmos de que a justiça do governo moral de Deus deve ser medida não só pela natureza da criatura (ela sempre suportará ser medida assim), mas pelo desígnio e pelo fim último da economia da sua vontade.

Justiça judicial. III. A administração judicial das suas próprias leis exige este atributo da justiça na concessão equitativa da recompensa e do castigo. Nos negócios humanos, isso se chama justiça distributiva: remuneradora, de um lado, e punitiva, do outro.

I, 338O Juiz. 1. A administração de Deus, o Juiz de todos (Hb 12.23), assume as sanções da sua lei, impostas aos seres morais em provação, e não pode ser separada da sua relação com o pecado. De fato, isso dá ao Supremo o novo ofício de JUIZ, assim como o seu amor lhe dá o novo nome de Salvador. É justiça judicial na medida em que nos assegura a eterna retidão dessa administração: Será que o Juiz de toda a terra não faria justiça? (Gn 18.25). Esse apelo de Abraão, no começo da história, expressa em forma de pergunta a fé de todos os que creem em Deus até o fim dos tempos, e será confirmado para sempre no encerramento da história. A reverência aceita essa verdade necessária e lhe confia, com segurança, os destinos de tudo o que existe. Mas a ideia da justiça judicial de Deus precisa ser analisada em algumas das suas aplicações.

Personalidade. 2. Este é o atributo de um Juiz pessoal; e tudo o que a sua personalidade exige deve ser lembrado. Os que negam que o Ser Absoluto possa pensar, sentir, querer e julgar renunciam ao Deus da Bíblia. Ainda que se refugiem na ideia de que ele confiou todo julgamento ao Filho, o próprio ato de confiá-lo ao Filho é um ato pessoal. Ou, se recorrerem à noção de que a justiça no Juiz significa apenas a lei segundo a qual o pecado se torna o seu próprio castigo e a bondade a sua própria recompensa, nada ganham com isso. É um Juiz pessoal quem ordena essa conexão e cuida de que ela não seja interrompida. Há apenas um passo entre essa ideia e aquela que torna Deus e o universo, físico e ético, sujeitos à lei eterna da conveniência das coisas [N. do T.: no inglês, fitness of things, expressão de Samuel Clarke (1675-1729) e dos moralistas ingleses do século XVIII para a adequação necessária entre as coisas e as ações]. Isso reduz o Supremo à posição de administrador de uma lei superior a ele mesmo, à maneira de um juiz humano. Mas a própria expressão “Natureza ou Conveniência das Coisas” denuncia a sua incoerência. Dificuldades reconhecidas se avolumam em absurdos contraditórios e até em blasfêmias, se esquecermos que o Administrador das suas próprias leis é um Juiz. Ele não se limita a observar a corrente que se forma rumo à justiça, para guiá-la, nem a observar a corrente que se forma rumo ao mal, para contê-la. Ele é um Divisor pessoal entre o bem e o mal, na perfeição daquele princípio que a natureza humana reconhece em si mesma e do qual nunca pode ser despojada: que todo bem e todo mal merecem a sua recompensa ou o seu castigo, e que a justiça exige que cada um receba o que é seu.

I, 339Sob uma economia da graça. 3. Deus é o Juiz justo na sua administração constante no mundo presente. Isso nos leva imediatamente à pergunta: como pode um Governante pessoal de estrita justiça administrar as suas santas leis e, ainda assim, permitir que os pecadores vivam? A resposta é dada pela bendita verdade para a qual convergem todos os atributos: a mediação e o sacrifício de Cristo asseguram a sua justiça na administração da misericórdia. Ele é justo no castigo de todo pecado; o seu Filho encarnado foi feito pecado por nós (2Co 5.21); e o valor infinito da obediência sacrificial até a morte de Jesus Cristo, o Justo, é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos próprios, mas também pelos do mundo inteiro (1Jo 2.1-2), até o fim dos tempos. Ele é justo no perdão do pecado, pois a expiação de Cristo pertence a todo aquele que a torna sua pela fé: a fim de que o próprio Deus seja justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus (Rm 3.26); fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça (1Jo 1.9). Além disso, ele é justo, durante a presente dispensação, ao mesclar a punição do pecado com aquele castigo corretivo e disciplinar dos transgressores que ainda trabalha pela sua emenda e, assim, os afasta da ruína. A intercessão do Filho santíssimo de Deus, tão precioso para o seu Pai, tem os seus direitos ilimitados; e a justiça para com esses direitos é o segredo daquela mistura de misericórdia e juízo que constitui o governo divino do mundo presente. Mas a justiça absoluta do Juiz também tem os seus direitos; e os que resistem à expiação e a rejeitam perecem. Mas esses são assuntos que pertencem a uma etapa posterior.

Manifestação final. 4. A justiça judicial de Deus aguarda a sua manifestação final até o grande dia, cuja característica solene será a vindicação da justiça absoluta do Supremo na retribuição da recompensa e do castigo. O assunto do Juízo Futuro fica bem mais adiante. Mas podemos considerar aqui a sua relação com este atributo do Juiz.

Distribuição justa. (1.) De modo geral, a justiça de Deus será então mantida, como tem de ser agora, na sua tremenda coerência consigo mesma. Até aqui sempre a consideramos como quem olha com o mesmo olhar para os bons e para os maus, atribuindo a cada um o que lhe é devido. Assim será no grande dia. As anomalias da presente dispensação serão corrigidas, e se mostrará que não passavam da confusão aparente que preparava a harmonia perfeita. A justiça será clara quando julgar em definitivo; e da sua decisão não haverá apelação. Como atributo de Deus, ela afirmará a sua realidade e a sua integridade. Dois erros se cometem com frequência neste assunto. Um é considerar que a justiça trata apenas do pecado do homem. Ora, é verdade que um ramo de toda a família de termos pertencentes a este atributo foi quase inteiramente reservado ao castigo e à condenação. Mas Deus é o Juiz justo nas suas recompensas tanto quanto no seu desagrado. O outro, ao contrário, é dissolver a justiça na benevolência, como se o justo desagrado de Deus contra o pecado, refreado pela sua misericórdia, se limitasse à emenda do transgressor, à correção paterna da sua falta, à prevenção do pecado nos outros, e assim por diante. Até certo ponto é verdade que a misericórdia e o juízo operam juntos de modo tão unido, tão inseparável (os dois se alegram, embora o atributo mais brando tenha a alegria mais rica), que poderia parecer que Deus se esqueceu de se irar contra o pecado. Até que o golpe caia em definitivo neste mundo, e nem sempre mesmo então, não sabemos se o castigo não foi apenas correção. Mas no grande dia não haverá mais dúvida. Amarrem os pés e as mãos dele e atirem-no para fora, nas trevas; ali haverá choro e ranger de dentes. Porque muitos são chamados, mas poucos são escolhidos (Mt 22.13-14). Esse pecador sem veste não é atirado para fora para se emendar. Evitamos os dois erros quando nos apegamos firmemente à justiça distributiva: Deus não trata as pessoas com parcialidade; ele retribuirá a cada um segundo as suas obras (Rm 2.6, 11).

I, 340Justa retribuição. (2.) Há uma realidade profunda e tremenda na justiça vindicatória e retributiva de Deus. Não temos de tratar agora da natureza específica do castigo final, mas apenas do seu caráter justo. Nesse atributo, alegrem-se todos os que se sentem oprimidos pelo pavor dessa perspectiva; sintam o seu forte alento. Seja a doutrina o que for, e esteja a linguagem em que é anunciada revestida do terror que for, permanece o fato de que todas as multidões de criaturas que Deus julgar cairão em Mãos Justas. Mas a especulação teológica tem dificuldade em descansar nisso. Esforça-se por tirar da noção de justiça o que pertence à sua essência e quer fazer dela apenas bondade temperada pela sabedoria. “In justitia punitiva bonitas cum sapientia administratur; notio justitiæ resolvitur in notionem sapientiæ et bonitatis” [Na justiça punitiva, a bondade é administrada com sabedoria; a noção de justiça se resolve na noção de sabedoria e de bondade]. Essa ideia tem desempenhado um grande papel na teologia moderna, embora a sua primeira expressão clara tenha sido a de Orígenes: “Ex quibus constat, unum eundemque esse justum et bonum legis et evangeliorum Deum, et benefacere cum justitia et cum bonitate punire” [Disso fica claro que o Deus justo e bom da lei e dos evangelhos é um e o mesmo, e que ele faz o bem com justiça e pune com bondade]. Digamos de novo que a prevenção do pecado e a correção ou emenda do pecador não são da essência da justiça: essa ideia é introduzida nela pela definição. Foi preciso o tremendo sacrifício do Filho de Deus para unir a justiça e a misericórdia; mas a expiação não introduz nenhuma definição nova de uma nem de outra. Dentro do alcance da cruz, a definição pode ser aceita em certos termos. Mas a cruz não está para sempre diante dos olhos nem de Deus nem do homem. Os que projetam o seu benefício para o mundo intermediário não têm fundamento bíblico para a sua caridade. Mas todo o teor da Escritura é contrário aos que negam que haja, no sentido mais estrito do termo, uma Justitia Retributiva et Rependens [justiça que retribui e dá a paga] no dia do juízo final e eterno.

I, 341Justiça nas recompensas. (3.) As recompensas de um juízo justo são sempre dispensadas aos que as merecem. Mas é óbvio que aqui pisamos um terreno em que é preciso avançar com cuidado. A justiça do Juiz em reconhecer tudo o que há de bom no homem é afirmada com a mesma abundância que a sua justiça na aplicação dos castigos. Mas tudo o que de louvável se possa encontrar na natureza humana vem de Deus, seja como efeito da sua graça preveniente, seja como fruto do seu Espírito renovador, ao passo que o mal que há no homem é dele mesmo. Não pode haver menção de mérito em caso algum, a não ser no sentido em que a palavra é usada pela condescendência divina. Aquele que, ao glorificar o crente santificado, não faz senão coroar a obra das suas próprias mãos fala, no entanto, das próprias obras de fé desse crente como matéria de recompensa: Deus não é injusto para se esquecer do trabalho que vocês fizeram e do amor que mostraram (Hb 6.10). Esse termo, ἄδικος, é usado mais uma vez a respeito de Deus, o Juiz: Seria Deus injusto por aplicar a sua ira? Falo em termos humanos. É claro que não. Do contrário, como Deus julgará o mundo? (Rm 3.5-6). Nos dois casos, a impossibilidade de qualquer injustiça em Deus, seja como ὁ ἐπιφέρων τὴν ὀργήν [aquele que aplica a ira], seja como capaz de ἐπιλαθέσθαι τοῦ ἔργου ἡμῶν [esquecer-se da nossa obra], fica entregue à inferência natural de toda razão. Ele não pode, pela natureza das coisas, isto é, em harmonia com a sua própria natureza, ser injusto em nenhum desses aspectos. As recompensas da justiça distributiva de Deus são consideradas não como dívida, mas como favor (Rm 4.4); e todo o teor da Escritura proclama que as partilhas do último dia serão medidas segundo a regra mais estrita do direito: ἐκάστῳ κατὰ τὰ ἔργα αὐτοῦ [a cada um segundo as suas obras] (Rm 2.6). São Paulo chama o último dia de revelação do justo juízo de Deus, δικαιοκρισίας τοῦ Θεοῦ (Rm 2.5), o único caso dessa palavra expressiva. Ele ensina aqui, como em outros lugares, que, assim como o castigo dos que praticam o mal será o fruto das suas próprias ações e também a aplicação direta do juízo, assim também a recompensa dos bem-aventurados será a justa sentença do juízo, bem como a colheita da sua própria semeadura.

I, 342A VERDADE OU FIDELIDADE DE DEUS.

Verdade. Esses atributos (que, na realidade, são um só sob dois aspectos) são, por assim dizer, os sustentáculos e as garantias da justiça divina. Pode-se afirmar que nunca são mencionados a não ser em conexão com aquela suprema economia que revela a justiça de Deus em Jesus Cristo.

Nas suas revelações. 1. A verdade, como perfeição divina, representa a correspondência absoluta de todas as suas revelações com a realidade; e pode ser referida às representações que ele faz da sua própria natureza, à sua revelação do grande sistema de graça sob o qual governa o mundo e à sua palavra de revelação em geral, quer no todo, quer em parte.

(1.) Deus é o verdadeiro Deus (1Jo 5.20) e o único Deus verdadeiro (Jo 17.3). Note-se que, nessas duas passagens, que não têm paralelo, a revelação de Deus está ligada ao Filho. Ele é o único Deus autêntico, em oposição a todo ser fictício; e é o Deus da veracidade ao revelar-se assim. Temos aqui uma sublime petitio principii [petição de princípio]: o nosso Deus é o único Deus real, porque aquele que é verdadeiro o declara. Mas aqui o atributo não é objetivo: é antes a veracidade divina subjetiva em todas as revelações que ele faz de si mesmo. Quanto à sua natureza, à sua essência triúna, aos seus atributos, às nossas relações com ele e às dele conosco, e a tudo o que diz respeito ao essencial da nossa teologia, dependemos da verdade do Criador, que nos formou à sua imagem e implantou em nós aqueles instintos e aquela consciência dele que não nos podem enganar. A nossa fé na religião universal está ligada à nossa fé na veracidade de Deus, que nos fala a verdade a respeito de si mesmo e das nossas relações com ele.

I, 343Fidelidade à redenção. (2.) A verdade de Deus está empenhada na estabilidade e na eternidade da economia redentora como um todo. Essa é a sua imutabilidade absoluta, transposta para a esfera das suas revelações salvadoras. Um único grande propósito para o bem da humanidade é anunciado de geração em geração; e a esse propósito o Eterno se declara fiel, apelando de todas as maneiras para a sua própria firmeza, de era em era. Nos primeiros tempos, o propósito universal parecia limitado a um só povo; e a esse povo ele apresenta a sua verdade: Eis a Rocha! Suas obras são perfeitas, porque todos os seus caminhos são juízo. Deus é fidelidade, e nele não há injustiça; é justo e reto (Dt 32.4). À medida que o grande sistema se revela mais nos salmos e nos profetas, a salvação vindoura é garantida com força cada vez maior: o Senhor é bom, a sua misericórdia dura para sempre, e, de geração em geração, a sua fidelidade (Sl 100.5) [N. do T.: nas duas citações, onde a NAA traz “fidelidade”, a KJV seguida por Pope traz truth, “verdade”]. Quando ela se consuma, é por aquele que é A VERDADE (Jo 14.6); e é confirmada pelo juramento de um propósito imutável, no qual é impossível que Deus minta (Hb 6.18). Por isso, pode-se dizer que o atributo da verdade é dado a Deus principalmente como o Deus da única aliança eterna em Cristo.

Na Palavra. (3.) Mas a verdade também se refere às revelações faladas e escritas de Deus em geral, das quais se declara que contêm somente a verdade de Deus. Falando ao seu Pai, aquele que é a Verdade disse: a tua palavra é a verdade (Jo 17.17). Não há dúvida de que o Antigo Testamento, que era então a Bíblia, era considerado por todos os que o liam como contendo os ditos infalíveis do Deus da verdade, que não engana. Agora, porém, não estamos defendendo a verdade da Escritura, mas apenas o atributo do Supremo que assegura a correspondência absoluta de toda palavra dita por ele com a realidade essencial das coisas.

Fidelidade propriamente dita. 2. A fidelidade de Deus tem uma aplicação mais limitada que a sua verdade. É o atributo que garante ao homem, por uma condescendência infinita (pois é o mais antropopático de todos os atributos), o cumprimento de cada promessa específica fundada na economia da sua justiça. Os apelos de Jeová à sua própria fidelidade e as respostas do homem a esse apelo enchem as Escrituras. Basta aqui mencionar três ilustrações muito interessantes dela na economia da graça. Aos pecadores que se arrependem do seu pecado e o confessam, assegura-se que ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados (1Jo 1.9). Aos crentes oprimidos pelo cansaço do caminho e pela sua própria instabilidade, lembra-se que o Senhor é fiel. Ele os fortalecerá e os guardará do Maligno (2Ts 3.3). Aos santos, animados a aspirar à perfeita santidade do corpo, da alma e do espírito, assegura-se que fiel é aquele que os chama, o qual também o fará (1Ts 5.24). Essas passagens levam a fidelidade divina a todo o processo da salvação pessoal, do começo ao fim. É notável que esse atributo nunca seja ligado expressamente ao cumprimento das ameaças divinas, embora se aplique igualmente a elas. Por isso, embora o tenhamos situado na família da justiça, ou retidão, ele faz a transição para a outra família, mais graciosa, a do amor.

I, 344O AMOR DE DEUS.

Amor. Como a sua santidade, o amor de Deus tem a sua relação mais direta e expressa com a criatura, e especialmente com as inteligências que estão sob o governo moral de Deus. Mas nisto o amor tem a preeminência: tem uma sede eterna e essencial na essência triúna.

Na essência divina. 1. Por isso lemos que DEUS É AMOR (1Jo 4.16): no segredo da autossuficiência e da bem-aventurança divinas, já vimos a misteriosa intercomunhão de três Pessoas, cujo amor mútuo dá a Deus um dos seus nomes e define a sua natureza. Se no universo criado o amor procura para sempre comunicar-se a todos os que são capazes de recebê-lo, e se deleita tanto em dar como em receber, é porque, na Trindade eternamente bendita, o amor é, como em todos os que refletem a imagem divina, o vínculo da perfeição (Cl 3.14). Podemos, e devemos, transferir o nosso sentimento finito para o Infinito, e crer, não que o Deus triúno existia, mas que existe numa esfera eterna de amor, em cuja comunhão é recebido o universo finito das criaturas. Porque me amaste antes da fundação do mundo (Jo 17.24): se ligarmos essas palavras às que vêm imediatamente antes, e os amaste, como também amaste a mim (Jo 17.23); e estas, por sua vez, à certeza: Como o Pai me amou, também eu amei vocês (Jo 15.9); e estas, mais uma vez, ao mandamento: que vocês amem uns aos outros, assim como eu os amei (Jo 13.34), ficará claro quão perfeita é a identidade de natureza entre o amor finito e o infinito, entre o reflexo no meio de nós e a realidade na Trindade essencial, e quão profundo é o sentido destas palavras: o amor procede de Deus (1Jo 4.7), ἡ ἀγάπη ἐκ τοῦ Θεοῦ ἐστι, forma de expressão que não se usa para nenhuma outra das graças cristãs. O Filho está sempre (não “estava”: ὁ ὢν) junto do Pai (Jo 1.18); na unidade do Espírito Santo, é um só Espírito com o Pai, assim como aquele que se une ao Senhor é um só Espírito com ele (1Co 6.17) [N. do T.: a NAA traz “espírito”, com minúscula; Pope lê aqui o Espírito Santo]. Assim, podemos repetir com ousadia que se dizem coisas mais gloriosas da perfeição divina do amor do que de qualquer outra. Não se diz que Deus é santidade, pois, na sua eterna essência triúna, não há lugar, não há razão, para o atributo que estabelece o padrão do bem e repele eternamente o mal. Assim que pensamos na santidade, pensamos na criatura a caminho do mal para o bem, ou a caminho da perfeição para uma perfeição ainda mais alta. Mas DEUS É AMOR (1Jo 4.8,16); e esse atributo, que é ao mesmo tempo natureza e atributo, forma o elo entre a Divindade absoluta e as manifestações de Deus às suas criaturas inteligentes. A santidade divina brota, por assim dizer, da sua perfeição para ir ao encontro da criatura; e, num sentido muito importante, é criada com ela. Mas o amor procede de Deus e, na relação divina com o universo, é apenas um mistério oculto que foi revelado.

I, 345Reservado para a redenção. 2. O amor de Deus também repousou sobre o mundo desde a sua fundação: sobre toda criatura inteligente, como o amor que se comunica e se compraz no seu objeto. Mas o livro da revelação, que é o registro do trato divino com uma raça redimida (redimida no próprio ato da sua queda), reserva o atributo para a redenção. Na verdade, não fala dele com familiaridade, e quase nem fala dele, até que esteja pronta a sua expressão final em Cristo: Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho [como] propiciação pelos nossos pecados (1Jo 4.10). Esse sentimento ou afeto em Deus, que origina e dirige a economia da redenção, não foi plenamente revelado até que o próprio Senhor o revelasse. E, uma vez revelado, fica reservado para um só serviço: presidir à cruz e à restauração da humanidade. Nenhum registro ou rol das perfeições divinas relacionadas com o universo criado como tal contém a do amor. A sua bondade e a sua benignidade são muitas vezes mencionadas como o que mais se aproxima do atributo que nunca se volta para outros senão os objetos do amor redentor. Mas, por fim, chegou o tempo determinado para a nova revelação, ou ao menos para a revelação mais plena, do atributo que governa todos os outros: aquele que, para usar a palavra de são Tiago, é o νόμος βασιλικός, a lei régia (Tg 2.8), em Deus como no homem [N. do T.: a NAA traz “a lei do Reino”; Pope segue a KJV, the royal law]. Mas o amor, quando é revelado, assume muitos nomes, ou antes, é a mãe de uma nova e bendita família de atributos.

I, 346Comum a Deus e ao homem. 3. Mas, sejam quais forem as outras manifestações que o amor assuma, ou qualquer outro nome que leve, ele é o atributo moral de Deus que constitui o seu dom mais bendito à alma individual: na administração do Espírito Santo, é o vínculo entre Deus e os redimidos, como que o princípio ético comum a ambos. Diz-se que nos tornamos coparticipantes da natureza divina (2Pe 1.4) de modo geral, e com referência especial aos dois grandes atributos morais, a santidade e o amor. Somos participantes da sua santidade (Hb 12.10), por sermos purificados do pecado e santificados para o seu serviço. Mas usa-se uma palavra mais forte a respeito da nossa participação no seu amor. São João dirige o nosso pensamento para a essência invisível de Deus, Nunca ninguém viu Deus, mas só para nos dizer em que sentido nos tornamos um com o Invisível: Se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor é, em nós, aperfeiçoado (1Jo 4.12). Pouco depois, profere a palavra mais profunda que a Bíblia contém quanto às relações e ao privilégio dos santos: Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele (1Jo 4.16). Pode-se acrescentar aqui, para concluir, que a habitação do Espírito Santo é o verdadeiro vínculo de comunhão entre Deus e o crente: aquele que se une ao Senhor é um só Espírito (1Co 6.17). A nossa participação na santidade divina é a santificação do Espírito (1Pe 1.2); e a nossa participação no amor divino se explica pelo fato de nos ter dado do seu Espírito (1Jo 4.13).

A GRAÇA E OS ATRIBUTOS LIGADOS A ELA.

Graça. O que a justiça é para a santidade de Deus, a sua graça é para o seu amor: o primogênito da sua força e o seu ministro nas coisas que dizem respeito à salvação. O amor conserva a distinção de definir tanto a natureza como o atributo. O princípio ou sentimento supremo que governa o trato divino com os pecadores é, na dispensação cristã, a graça.

Nascida do evangelho. 1. Essa palavra é, em alguns aspectos, uma criação do evangelho. No Antigo Testamento, Deus era Deus compassivo e bondoso, tardio em irar-se e grande em misericórdia e fidelidade (Sl 86.15) [N. do T.: onde a NAA traz “bondoso”, a KJV seguida por Pope traz gracious, da mesma família de grace, “graça”]; mas há algo no termo evangélico que supera tudo isso. No Novo Testamento, esse agente incansável do amor aparece como a graça do Senhor Jesus Cristo, que é apenas outra forma do amor de Deus, e este, por sua vez, apenas outra forma da comunhão do Espírito Santo (2Co 13.13). O amor do Deus triúno é comunicado pelo Espírito por meio da graça redentora de Cristo. Assim como a santidade entra em cena na administração expiatória sob o aspecto da justiça, o amor entra sob o aspecto da graça, que é o amor divino com ênfase no demérito e na total impotência dos que o recebem. Não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou (1Jo 4.10): esse é o melhor intérprete da graça que representa, na obra ativa da redenção, o amor de Deus que providenciou a própria redenção. Pode-se acrescentar, para concluir, que, como atributo de Deus, ela é partilhada por cada Pessoa da santa Trindade. Lemos sobre a graça do nosso Deus E do Senhor Jesus Cristo (2Ts 1.12), e sobre o Espírito da graça (Hb 10.29).

I, 347Outros nomes. 2. É desnecessário enumerar os outros atributos, ou modificações da graça, de que Deus, em Cristo reconciliando consigo o mundo (2Co 5.19), se reveste em toda a Escritura, e especialmente no evangelho. São tantos quantos os aspectos do pecado e as necessidades dos pecadores. Aqui a teologia prática pode multiplicar os seus epítetos, colhendo-os da abundância da Bíblia ou formando-os de novo segundo a analogia ou o precedente bíblico. A graça que busca o bem-estar de toda a raça é a filantropia divina, ou a bondade para com o gênero humano (Tt 3.4). A que olha para o homem no seu pecado e na sua miséria, e espera para lhe conceder graça, é a Compaixão e a Piedade. A graça que espera a volta e a submissão do pecador, contendo o juízo merecido sobre o mal, é a Tolerância, ou Longanimidade. A que o perdoa quando ele vem é a Misericórdia. Bem se vê que, na suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus (Ef 2.7), Deus se reveste de todo atributo consagrado ao serviço da benignidade em geral, e que não há muita distinção exata no uso deles. Por fim, a graça que se alegra com deleite e complacência pelo espírito recuperado e renovado não tem nome, mas volta de novo à fonte de todas essas perfeições, o amor divino e original do nosso Pai que está nos céus.

I, 348SANTIDADE E AMOR COMBINADOS NA REDENÇÃO.

Harmonia. Esses dois atributos presidem à economia redentora; a sua harmonia na expiação, quer no decreto do céu, quer no ministério de Cristo na terra, aparecerá mais adiante. Enquanto isso, algumas observações antecipadas se fazem necessárias aqui a respeito dessa harmonia, que é o assunto de maior importância. A palavra deve ser tomada no seu sentido mais estrito, e sem medo de quaisquer consequências: esta é uma questão sobre a qual a luz da Escritura é tão clara que não devemos falar com timidez.

No próprio Deus. 1. Esses atributos precisam necessariamente, ou precisaram necessariamente, daquilo que, na nossa linguagem humana, chamamos de reconciliação no próprio Deus. Mas devemos ter cuidado com o modo como entendemos e usamos o termo. É necessário, aqui, elevar os nossos pensamentos até a natureza do Deus triúno, que, em relação ao mundo como pecador, preordenou a encarnação como a provisão ou o expediente tanto da santa justiça como do amor misericordioso. Diz-se que a redenção foi o eterno propósito que ele estabeleceu em Cristo Jesus e, portanto, uma redenção eterna: antes dos séculos, na sua realização virtual, e depois dos séculos, nos seus resultados. O Cordeiro foi morto desde a fundação do mundo (Ap 13.8) [N. do T.: Pope segue a KJV, “the Lamb slain from the foundation of the world”; na NAA, “desde a fundação do mundo” se liga aos nomes não escritos no Livro da Vida, e não à morte do Cordeiro]; mais do que isso, antes da fundação do mundo (1Pe 1.20). Portanto, toda manifestação de ira contra o pecado e de amor ao pecador que agora lemos na cruz deve ser apenas a expressão da mesma ira e do mesmo amor na mente da santa Trindade antes que o mundo existisse. Nada lhe foi acrescentado, nada lhe foi tirado desde então. Toda a matéria, ou a palavra, da redenção foi firmada no céu (Sl 119.89). A realidade efetiva do pecado não agravou nem intensificou a santidade que arde para sempre contra o mal; nem a realidade efetiva da miséria humana aprofundou, em sentido algum, a ternura da benevolência divina. Se houve uma reconciliação ou harmonização da ira e da misericórdia na cruz, houve exatamente a mesma no coração do Deus que haveria de criar o homem. Tudo o que a expiação significa foi realizado no seio da Divindade antes que o mundo existisse. Já então era uma realidade. Não ousamos pensar de outro modo, por mais difícil que seja até mesmo parecer perturbar o repouso eterno da natureza divina. Muitas mentes correm grande perigo de ser tentadas a atenuar isso, ou seja, a atribuir ao céu todo o amor da expiação e a fazer da ira filha da terra; a considerar o amor como o único atributo na eternidade, e a justiça como uma invenção ou acomodação do tempo.

I, 349Revelada no tempo. 2. Mas o fato de a expiação ter sido firmada no céu (o modelo, mostrado no monte, de tudo o que se realizou aqui embaixo) nos ensina o que se entende por harmonia: não se trata da reconciliação depois de uma disputa, nem do acordo depois de uma negociação, nem da concordância sob certas condições, mas da concorrência perfeita de dois princípios eternos da perfeição divina (que, em relação a um universo de criaturas, se chamam ira e amor) na missão do Filho encarnado e na sua união com o mundo culpado. O propósito da expiação foi um só propósito, que não exigiu, como diríamos, dois pensamentos: sucessivos, reconciliados e, por fim, um só. Por isso, ao falar da santidade e do amor, devemos ter cuidado para não atribuir prioridade ou preeminência a nenhum dos dois. Se Deus é amor, Deus também é luz, como já se viu, e essa luz é até fogo consumidor (Hb 12.29). Se foi o amor de Deus que enviou o Filho unigênito, foi a sua santidade que exigiu o sacrifício. Daí a coordenação dos dois atributos nas palavras de são João: Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados (1Jo 4.10): o amor o enviou já como a expiação exigida pela santidade. Daí também o fato de que a justiça (Rm 3.21) e a graça, as duas formas que a santidade e o amor assumem na redenção, dão cada uma o seu nome à obra expiatória de Cristo: é a graça de Deus que traz salvação a todos (Tt 2.11), e é também a justiça de Deus, que se revela de fé em fé (Rm 1.17).

Distinção real. 3. Mas aqui surge, mais uma vez, a necessidade de outra ressalva. Por mais perfeitamente unidos que estejam na sua harmonia, esses atributos, ou princípios de ação na natureza divina, devem ser mantidos separados no nosso pensamento. Há uma distinção real entre os dois. Eles não são simplesmente, como muitos tentaram provar, apresentações diversas do mesmo atributo. É muito comum dizer que a santidade é o amor que guarda a majestade da natureza divina, e o amor é a mesma santidade que se comunica, ao passo que a justiça, ou retidão, é uma combinação dos dois; assim como, para citar uma ilustração, o apóstolo, seguindo a Septuaginta, transforma as fiéis misericórdias prometidas a Davi (Is 55.3) nas santas promessas, τὰ ὅσια, feitas a Davi (At 13.34). Alguns, que veem nisso algo de irreal, dão ao amor a preeminência, como expressão da natureza de Deus, e consideram a santidade o seu polo oposto: a ira é o amor da santa Divindade por tudo o que é bom, na energia com que se opõe a tudo o que é mau. Há um sentido em que isso é perfeitamente verdadeiro; mas é uma verdade muito sujeita a ser pervertida. Convém lembrar que cada uma dessas perfeições é mantida distinta na linguagem da Escritura sobre a redenção, e que não encontramos ali justificação alguma para esse hábito de pensar e de falar. A ira de Deus se revela do céu (Rm 1.18): não o amor de Deus manifestando a sua ira. Nós éramos por natureza filhos da ira, como também os demais. MAS Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou (Ef 2.3-4). O argumento mais forte, porém, contra essa unificação absoluta dos dois atributos é o fato de que, em toda a Escritura, a expiação não é atribuída a nenhum dos dois isoladamente. Onde está um, o outro não está longe, como sua contrapartida ou qualificação necessária, por assim dizer. Certamente seria errado dizer que essa verdade é alguma vez objeto de argumentação no Novo Testamento. Não chega a tanto. Mas, ainda assim, fica abundantemente demonstrado que nenhum desses atributos, sozinho, teria assegurado a salvação da humanidade. Certamente não a santidade em si mesma, que é fogo consumidor; nem como justiça, que não seria justa se deixasse passar a transgressão; nem como fidelidade, que tem de cumprir a sua ameaça; nem em qualquer forma que algum dos atributos da sua família pudesse assumir. E o amor teria sido igualmente impotente, pois é tão veemente quanto a própria santidade em castigar o seu objeto para o bem dele, e nenhuma correção disciplinar poderia ter resolvido o caso do pecado contra Deus. Por isso, sempre que, na revelação, encontramos um desses atributos supremos ligado à expiação, o outro com certeza está por perto. Não há exceção a isso; nenhuma exceção, quero dizer, onde se menciona a obra expiatória de Cristo. Tome-se a passagem que, mais do que qualquer outra, poderia parecer dar ao amor a honra exclusiva: Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós quando ainda éramos pecadores (Rm 5.8). Logo em seguida vem: Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira (Rm 5.9). Uma passagem anterior poderia parecer dar a preeminência à justiça que exigiu a propiciação: a quem Deus apresentou como propiciação, no seu sangue, mediante a fé. Deus fez isso para manifestar a sua justiça (Rm 3.25). Essa passagem, porém, é precedida por sendo justificados gratuitamente, por sua graça (Rm 3.24). Algumas das palavras anteriores de nosso Senhor poderiam parecer fazer do amor do Pai a única fonte de misericórdia na sua própria missão. Mas devemos lembrar que, ao aproximar-se da cruz, ele prestou o tributo mais solene à vontade do justo juízo que repousava sobre ele em lugar do homem pecador. O último atributo que ele deu ao seu Pai foi JUSTO (Jo 17.25).

I, 351O amor preeminente. 4. Mas, afinal, há um sentido muito bendito em que o amor deve ter a preeminência. Já se viu que, nos registros daquela redenção consumada, há sem dúvida uma ascendência concedida ao amor de Deus que nenhum interesse teológico digno precisa negar. Em certo sentido, a origem da nossa restauração é atribuída à caridade divina: Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito (Jo 3.16). É verdade que Deus odiou o pecado de tal maneira que enviou o seu Filho, a Propiciação; isso, porém, nunca é dito, por mais profundamente verdadeiro que seja. Vivam em amor, diz são Paulo, como também Cristo nos amou e se entregou por nós, como oferta e sacrifício (Ef 5.2); em parte alguma ele nos diz, a não ser indiretamente, que Cristo odiou o pecado de tal maneira que se entregou. Também esta é a verdade: ele deu a si mesmo por nós, a fim de nos remir de toda iniquidade (Tt 2.14); e ainda: Amaste a justiça e odiaste a iniquidade; por isso, Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo de alegria como a nenhum dos teus companheiros (Hb 1.9). Mas, em todo o Novo Testamento, o que se invoca e se engrandece é antes o seu amor pelos pecadores do que o seu amor pela justiça. DEUS É AMOR; e, na nossa homenagem a essa perfeição, devemos pensar com reverência que não foi a santidade que perguntou, no conselho eterno, o que o amor poderia fazer, mas foi o amor que ofereceu o dom indescritível: Χάρις τῷ Θεῷ ἐπὶ τῇ ἀνεκδιηγήτῳ αὐτοῦ δωρεᾷ [Graças a Deus pelo seu dom indescritível] (2Co 9.15). E, assim como na origem da economia redentora, também no seu desenrolar e nos seus resultados finais o amor tem a preeminência. Em toda parte ele é engrandecido por Deus Pai e pelo seu Filho encarnado; e nós devemos engrandecê-lo. A misericórdia e o juízo estão um de cada lado da cruz; cooperam em toda a administração do evangelho; e presidirão o último dia. Mas o juízo sempre executa a vontade da misericórdia, ou do amor, a lei do Reino (Tg 2.8), mesmo quando pode parecer que a justiça se serve do ministério do amor. A nossa teologia, como Davi, deve cantar a misericórdia e o juízo (Sl 101.1) [N. do T.: a NAA traz “Cantarei a respeito da bondade e da justiça”]. Contudo, a misericórdia se regozija contra o juízo (Tg 2.13): exulta ou triunfa, não SOBRE ele, é verdade, mas, ainda assim, CONTRA ele [N. do T.: a NAA traz “A misericórdia triunfa sobre o juízo”; Pope segue a KJV, “rejoiceth against”, e distingue as duas preposições]. O mesmo moralista dentre os apóstolos, que fez do amor a lei, diz: κατακαυχᾶται ἔλεος κρίσεως.

I, 352SANTIDADE, JUSTIÇA E AMOR.

Resumo. Harmonia na administração. Por fim, podemos considerar a união desses atributos na expiação, tal como é administrada no evangelho. Essa administração é mediadora: embora os atributos sejam as perfeições de cada Pessoa da Divindade, em geral são considerados como manifestados pelo Pai, por meio da intercessão do Filho, pelo ministério do Espírito Santo. E manifestam-se em três esferas da economia da graça. O Juiz Supremo preside no tribunal mediador, onde reina a justiça; como Pai, dispensa a graça na casa e família dos seus filhos adotados e regenerados; e, como Deus no seu templo, santifica para si os seus adoradores: tudo por meio da mediação do Filho encarnado e das influências do Espírito Santo. À primeira esfera corresponde a graça do Senhor Jesus Cristo; à segunda, o amor de Deus; e à terceira, a comunhão do Espírito Santo (2Co 13.13).

No tribunal. 1. No que chamamos tribunal mediador, as relações de Deus com o homem, ou melhor, as relações do homem com Deus, são inteiramente relações de lei. Deus é o Juiz; ali reina a sua justiça; a expiação é uma satisfação à justiça; Jesus Cristo, o Justo, é o Advogado; o pecado é transgressão; o arrependimento é convicção; a aceitação diante de Deus é a justiça da fé, imputada e comunicada; e todo o sistema cristão é a nova lei da fé. Ora, nesse tribunal evangélico, todas as perfeições morais divinas que se agrupam em torno da sua justiça, ou que dela procedem, têm a sua manifestação e são glorificadas.

No templo. 2. No templo do cristianismo, o atributo que preside é a santidade. Ali o Deus santo reina sobre o propiciatório, aspergido com o sangue da expiação. Ali o Redentor é o Sumo Sacerdote da nossa confissão. Pecadores contaminados aproximam-se do altar e são santificados, purificados e consagrados para serem possessão de Deus, para a comunhão com ele e para o seu serviço. O sistema cristão é a consagração de uma vida santa, e os cristãos participam da santidade divina. Sobre uma grande variedade de termos que descrevem o privilégio evangélico preside esse atributo sumamente tremendo, que une Deus e os seus santos numa só comunhão santíssima.

Na casa. 3. A meio caminho entre esses dois, e ao mesmo tempo como coroa e consumação de ambos, está a casa e família de Deus, onde ele habita como Pai no meio dos seus filhos adotados e regenerados, unidos a ele no seu Filho, o primogênito entre muitos irmãos (Rm 8.29). Ali o seu amor reina supremo. Reina, é verdade, no tribunal e no templo; mas aqui reina supremo, glorificado na face do Encarnado e, a partir dela, resplandecendo sobre todos os seus filhos. O sistema cristão torna-se agora uma disciplina de família: os filhos de Deus são imitadores de Cristo e guardam os mandamentos como filhos que obedecem, em amor, à voz de seu Pai. Aqui, podemos dizer com reverência, está a perfeição da economia cristã como manifestação das perfeições de Deus em Cristo. A expiação (no templo, um sacrifício expiatório; no tribunal, uma satisfação) é a reconciliação: a reconciliação do Pai com os seus filhos pródigos no Filho encarnado. Por meio dessa reconciliação e da habitação do Espírito do Filho, os crentes são restaurados à imagem daquele que é a Imagem do Pai: transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, que é o Espírito (2Co 3.18); e assim alcançam o alvo do seu destino, eles, a quem Deus predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho (Rm 8.29).

I, 353Unidade. 4. Mas, embora assim decomponhamos e distribuamos os atributos divinos na redenção, eles se combinam numa só glória harmoniosa da graça. Os três são um; e o vínculo da sua perfeição é o amor. Voltaremos a este assunto no devido tempo, quando tratarmos da administração da redenção.

RESUMO.

Resumo. Algumas observações finais, tanto dogmáticas quanto práticas, podem ser feitas sobre este assunto inesgotável.

Fundamento da teologia. 1. A meditação e o estudo dos atributos divinos estão na base da teologia, que é, pelo próprio termo, a doutrina de Deus contemplado em si mesmo e nas suas relações universais, ou na relação universal de todas as coisas com ele. Todo o edifício desta ciência santa poderia ser erguido sobre os diversos nomes e perfeições do Altíssimo; e, quer a nossa teologia vise formalmente a isso, quer não, ela só é sã na medida em que isso é lembrado. Não há uma única verdade da nossa dogmática ou da nossa ética que não pudesse ser designada, por assim dizer, ao seu lugar natural sob os diversos títulos da divisão precedente. Mas a tentativa de fazê-lo, assim como excederia em muitos aspectos a nossa capacidade, assim também não seria, no conjunto, proveitosa para nós como estudantes de teologia sistemática. Por isso, devemos contentar-nos em fazer da natureza e das perfeições divinas apenas uma parte, e não o todo. Mas, por essa mesma razão, um tratamento dos diversos atributos mais elaborado e abrangente do que o que aqui se tentou é desnecessário no início: assim como os seus raios se difundem e se mesclam por toda a Escritura, assim também eles, como se verá, estão mais ou menos entretecidos com todos os temas que discutiremos daqui em diante.

I, 354Importância da sua harmonia. 2. Assim como a exposição coerente e universal das perfeições divinas na sua harmonia é a glória da nossa ciência, assim também toda a sua confusão, obscuridade e inquietação se devem aos erros da concepção que os homens fazem delas: a história das heresias, maiores e menores, do dogma cristão é pouco mais do que a história da sistematização de tais apreensões indignas dessas perfeições. Por isso, a igual honra e a perfeita harmonia delas devem ser o padrão da nossa aspiração em cada passo que dermos: abstendo-nos de inventar atributos que Deus nunca atribuiu a si mesmo, devemos buscar sempre fazer plena justiça a todos e a cada um dos que ele revelou. A salvaguarda da verdade está nessa harmonia. É um padrão ao qual, com a ajuda da Escritura, que em nenhum outro assunto é mais rica do que neste, podemos levar constantemente e com segurança as nossas concepções das coisas divinas. Por exemplo, às vezes se atribui ao Ser divino um atributo de soberania, ou de soberania absoluta, num sentido peculiar para o qual as Escrituras não dão respaldo algum. Com toda a certeza, o Supremo, pela evidência desse mesmo nome, está muito acima de toda restrição, e dispõe de todos os acontecimentos sem que nada o controle. Ele é o único Potentado (1Tm 6.15) [N. do T.: a NAA traz “único Soberano”; Pope segue a KJV, “Only Potentate”, e logo adiante nega que a Escritura mencione um atributo chamado soberania]. Há, naturalmente, um sentido em que todas as coisas que hão de acontecer podem ser atribuídas à vontade divina, que podemos, com reverência, chamar de absoluta, se quisermos. Além disso, com referência a alguns acontecimentos e a algumas disposições providenciais, a Palavra de Deus às vezes o representa apontando para o seu soberano beneplácito, do qual não há apelação e em cujas razões nenhum mortal deve procurar penetrar. Mas pode-se negar que algum atributo como o de soberania se encontre mencionado na Escritura; e com certeza se pode negar que ele esteja colocado, onde muita teologia humana o coloca, à frente de todos os atributos, governando sozinho e com severidade toda a economia da revelação. Seja como for, Deus se agrada de dispor a sua sabedoria e o seu amor, e a sua graça, que é a expressão de ambos, numa justaposição muito comovente com a sua vontade, livre de todo controle e incontrolável: aquele que é o único Potentado (1Tm 6.15) é também o único Deus sábio (Jd 25) [N. do T.: a NAA traz “o único Deus, nosso Salvador”, sem “sábio”, palavra que está na KJV seguida por Pope], e Deus é amor (1Jo 4.16). Por outro lado, a esse último atributo, o amor, às vezes se atribui uma soberania absoluta própria, que dissipa a escuridão do outro sistema com uma luz que não vem do céu. Isso já vimos suficientemente. E basta repetir, de modo geral, o que nunca se ponderará com profundidade suficiente: que o Espírito Santo expôs a economia das perfeições divinas de tal modo que proíbe todo exagero de qualquer uma delas e nos encoraja a harmonizar o conjunto.

I, 355Estudo prático. 3. Mais uma vez, o estudo das perfeições divinas deve ser feito habitualmente, com reverência e com a máxima devoção, tendo em vista a nossa própria edificação. O proveito disso é literalmente incalculável e inesgotável, se as contemplarmos com uma referência constante ao bem da nossa alma: seja esforçando-nos por subir até elas, seja trazendo-as até nós. Na verdade, não podemos alcançá-las; elas são altas e são profundas. Mas a própria contemplação de perfeições que oprimem a mente fortalece a mente que ela oprime. Ser assombrado, confundido e desconcertado pelos nossos pensamentos sobre Deus é a mais nobre disciplina do espírito humano regenerado. Mas, embora não possamos chegar até elas, podemos (no sentido correto da expressão, bem entendido) trazê-las até nós. O que isso significa é mais bem ensinado por exemplos da Escritura. Que dois valham por uma série sem fim. Observe a luta e a submissão de Jó diante da onisciência divina. O seu consolo é que, embora Deus seja insondável para a sua criatura, a sua criatura é perfeitamente conhecida por ele: Se me adianto, Deus não está ali; se volto para trás, não o percebo. Se ele age à minha esquerda, não o vejo; se ele se esconde à minha direita, não o enxergo. Mas ele sabe o meu caminho; se ele me provasse, eu sairia como o ouro (Jó 23.8-10). E observe como Davi, de modo mais tranquilo e igualmente sublime, traz para si mesmo a onipresença divina. Meditando sobre a presença de Deus que enche o universo, da qual nada está nem pode estar escondido, ele exclama: Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim: é tão elevado, que não o posso atingir (Sl 139.6). Ele perde a esperança de seguir por esse caminho; e todos nós a perdemos com ele. Mas a sua meditação considera Deus como quem pensa nele, no seu pobre destino e nos seus interesses: Que preciosos para mim, ó Deus, são os teus pensamentos! E como é grande a soma deles! Se os contasse, seriam mais do que os grãos de areia; quando acordo, ainda estou contigo (Sl 139.17-18). E então ele coloca os segredos do seu próprio espírito à luz dessa onisciência. Aplica a si mesmo esse atributo tremendo. Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno (Sl 139.23-24).

I, 356Em Jesus Cristo. 4. Mas o caminho eterno sugere uma verdade que todo teólogo cristão deve lembrar: que as perfeições divinas devem ser contempladas tal como se manifestam e se encarnam em nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Ele é a soma dos atributos divinos na natureza humana. Nele, o infinito e o finito são eternamente um. A encarnação é um fato eterno: em propósito, antes que o tempo existisse; em realidade, agora e para sempre. Não somos chamados a estudar as perfeições absolutas e imanentes em si mesmas, nem, em si mesmo, o Ser que está revestido delas. Como homens, não temos nenhum Deus que não esteja revelado em Jesus; nem precisamos jamais contemplá-lo à parte da nossa própria natureza em Cristo. Nunca veremos nem conheceremos a Deus, a não ser como ele se revela na face do seu Filho encarnado. Nele vemos, sob um aspecto muito bendito e peculiar, esses atributos que ligam o Supremo à criatura; especialmente os de onipresença, onisciência e onipotência: os atributos “oni”. Nele, refletida da sua face e refletida através da sua obra, vemos a glória das perfeições que põem o divino em relação com a redenção humana do pecado. E todos nós, com o rosto descoberto, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, que é o Espírito (2Co 3.18) [N. do T.: a NAA traz apenas “contemplando a glória do Senhor”; Pope segue a KJV, “beholding as in a glass” (contemplando como num espelho), de onde vem a ideia de reflexo que ele desenvolve a seguir]. Pode-se supor que o que aqui se quer dizer, em primeiro lugar, é o reflexo que todos nós damos da imagem moral de Deus exibida na virtude humana da santidade do Filho. Mas não temos o direito de limitar rigidamente a nossa visão a isso. Sendo um com o Filho, pois aquele que se une ao Senhor é um só espírito com ele (1Co 6.17), somos, em certo sentido, nele um com a Santíssima Trindade, e feitos coparticipantes da natureza divina (2Pe 1.4). Fomos originalmente formados à semelhança do Deus triúno. O pó mais fino do universo material forneceu o corpo que nos liga às outras ordens da criação; mas foi o Espírito de Deus que nos deu a essência superior em que foi estampada a imagem divina. Na nossa perfeição em Cristo, seremos restaurados ao reflexo mais consumado de cada atributo do Criador que seja possível à criatura. Quanto aos atributos absolutos e ao nosso reflexo deles, há um mistério, por ora, insondável. Mas os atributos que dependem da santidade e do amor da natureza divina, devemos estudá-los não só no livro que revela o Supremo, mas também na Pessoa e na obra do Filho. Na sua obra, eles têm o seu aspecto expiatório; e ali os estudamos como fundamento da nossa redenção e da nossa esperança. Na sua Pessoa, eles têm a sua exibição passiva e ativa, como o exemplo perfeito da santidade humana. Contemplando e refletindo a glória do caráter divino-humano de Cristo, estudamos os atributos de Deus onde somente podemos estudá-los até a perfeição. Nenhuma parte da teologia da Escritura, como tal, é tão abundante quanto aquela que exercita a nossa mente para contemplar as perfeições do Supremo e para meditar nas obras e nos caminhos de Deus como manifestações do seu caráter, ou da sua glória. Os diversos atributos são constantemente postos diante de nós, uns para a nossa admiração adoradora, outros para a nossa imitação; e se fundem na unidade que é a glória daquela natureza divina da qual podemos ser coparticipantes.

I, 357Harmonia das representações de Deus na Escritura. 5. Por fim, embora o Filho encarnado tenha revelado plenamente o Pai como tal, e o segredo triúno da essência divina, ele não introduziu nenhuma mudança na exposição dos atributos divinos em geral. Não há nada mais notável na Bíblia, tomada como um todo, do que a unidade e a identidade substanciais do Ser que ela descreve numa série de revelações que se estende por milhares de anos. A coerência das Sagradas Escrituras nesse aspecto é uma das suas características mais gloriosas e uma das suas credenciais mais fortes. Não há nada em toda a literatura religiosa da humanidade (e essa literatura é muito vasta) que se possa sequer pôr em comparação com elas, muito menos em competição. Isso é verdade quanto aos nomes da Divindade na Escritura; mas é ainda mais verdade quanto às perfeições em que esses nomes estão encerrados. As mais nobres concepções da Divindade que se encontram fora da Bíblia aparecem ligadas às mais degradantes; nem há um só hino, ou uma só meditação, em toda a teologia dos gentios, que apresente o caráter divino de modo perfeitamente digno do próprio Deus ou perfeitamente satisfatório para a alma do homem. Mas, do princípio ao fim da revelação que aceitamos como divina, não há uma só nota dissonante; o Ser que ela apresenta pode não ser, em todos os pontos, aquilo que o temor ou a esperança humana poderiam desejar nos seus diversos estados de ânimo; mas ele é sempre o Mesmo, um Ser em cuja presença a falta de santidade é repreendida, e toda bondade, ou inclinação para a bondade, é encorajada e despertada para a vida. Desde aquele que é quase o primeiro anúncio feito a um adorador individual, Eu sou o Deus Todo-Poderoso; ande na minha presença e seja perfeito (Gn 17.1), e ao longo de todos os anais da Escritura, há o mesmo Deus, cujo caráter é o padrão da perfeição, cuja onipotência, ou toda-suficiência, é a fonte de força, e cuja Presença manifesta é a luz e a alegria da vida. Em toda parte encontramos o grande grupo de quatro nomes que reúnem a sua essência e os seus atributos. Deus é JEOVÁ, o Ser absoluto (Êx 6.3); é ESPÍRITO, o objeto pessoal de adoração (Jo 4.24); é LUZ, que repele toda impureza (1Jo 1.5); é AMOR, que difunde a sua bondade como graça para sempre (1Jo 4.8).

Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. I, pp. 325-360, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.