W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume II · O pecado

A natureza do pecado

II, 29A NATUREZA DO PECADO.

Natureza do pecado. Depois de considerado na sua origem, como matéria de revelação e de fé, o pecado pode agora ser examinado na sua natureza e no seu desenvolvimento, como matéria de experiência. Aqui ficamos restritos às definições das Escrituras, que se apresentam numa variedade de nomes com que o pecado é caracterizado. Esses nomes, poucos, mas distintos e claros, descrevem-no de dois modos. Primeiro, com referência a Deus, ele é a separação voluntária da vontade humana em relação à divina, expressa na desobediência à sua lei. Segundo, em relação ao homem, é culpa, como consciência do mal pessoalmente cometido e da sujeição pessoal à pena. Veremos que todas as revelações da Palavra de Deus acerca do pecado como tal, à parte do seu aspecto peculiar como pecado original, ou pecado da raça, podem reduzir-se a esses elementos simples.

O SEPARAR-SE DE DEUS.

Rompimento com Deus. A essência desse mistério do espírito criado a que chamamos pecado é a sua separação voluntária de Deus: essa é, e tem de ser, a raiz e a realidade de todo o mal na criatura.

Terminologia bíblica. 1. Pode-se perguntar se algum termo das Escrituras indica expressamente esse segredo último, que está por trás do ato de desobediência à lei imposta. Contudo, mais de um deles parece apontar nessa direção. Assim, חַטָּאת e עָוֹן, pecado e iniquidade, unidos na expressão a iniquidade do meu pecado (Sl 32.5), significam ambos desvio do verdadeiro alvo: o primeiro denota antes o errar o alvo; o segundo, a perversidade de mirar errado. Do mesmo modo, o principal termo grego, ἁμαρτία, significa também errar o alvo, com a ideia de desvio em relação a ele, como se vê em ἁμαρτεῖν, que, usado intransitivamente, quer dizer separar-se e, assim, não alcançar o seu objetivo. Ainda assim, a qualidade primária e fundamental do pecado, a de ser separação voluntária de Deus, não se acha expressa de modo absoluto; está implícita em toda parte, como a fonte oculta de todos os rios que entristecem a vida do homem.

II, 30Transgressão. 2. Quase toda definição de pecado nas Escrituras o caracteriza como transgressão da lei. Basta citar a primeira epístola de são João, que contém a mais profunda doutrina do pecado e da redenção: ἡ ἁμαρτία ἐστὶν ἡ ἀνομία, o pecado é a iniquidade, ou transgressão da lei (1Jo 3.4). Quão terrível é o pecado, como as trevas que não há em Deus, o apóstolo mostrou logo no início; mas aqui, no fim, temos a sua única definição expressa, e com ela se encerra a Escritura. Grande variedade de termos, tanto hebraicos como gregos, converge nesta ideia central: o pecado é o afastar-se do caminho prescrito do dever, a desobediência a um mandamento expresso; como diz Cícero, Peccare est tanquam lineas transilire [pecar é como saltar por cima das linhas]. A definição de são João é importante por mostrar a diferença entre o ato de transgressão e o estado de transgressão. As palavras significam que o ato é resultado do estado, e que o estado também é resultado do ato. O pecado é apenas o ato de uma vontade primitiva que transgride, mas essa vontade forma o caráter que está por trás da vontade futura e lhe molda os fins. Essa declaração final de são João pode dividir-se nos seus dois ramos, e cada um deles lançará luz sobre a terminologia geral das Escrituras. O pecado é a separação voluntária da alma em relação a Deus: isso implica, ativamente, erigir a lei do eu e, passivamente, entregar-se à confusão interior.

O eu. (1.) Embora a essência do pecado não seja o egoísmo, este é a sua primeira manifestação. O eu é posto no lugar de Deus; é ἀνομία, a iniquidade em princípio, que se livrou do freio divino; παράβασις, a transgressão em ato; ἀδικία, a injustiça; ἁμαρτία, o desvio do caminho ou do fim designado por Deus, considerado tanto como ato quanto como estado; ἀσέβεια, a impiedade. Embora alguns desses termos sejam negativos e exprimam o desvio da vontade em relação à sua harmonia com a do Supremo, em quem natureza e vontade são uma só coisa (sendo uma ou outra, ou ambas, o fundamento da eterna obrigação moral da criatura), eles ainda descrevem o pecado como a condição positiva da alma: não, é claro, como uma entidade real dentro dela, mas como a direção ativa da vontade. No Antigo Testamento, esse elemento positivo é muito proeminente. Em פֶּשַׁע, o pecado é iniquidade ativa ou transgressão deliberada, como nas palavras de Jó: ao seu pecado acrescenta rebelião (Jó 34.37). É revolta contra a autoridade legítima: eles … se rebelaram contra a minha lei (Os 8.1). Em רָעָה ou רַע, um dos termos mais antigos, temos as ideias tanto de perversidade quanto de mal universal: o Senhor viu que a maldade das pessoas havia se multiplicado na terra (Gn 6.5). Há algumas outras palavras que incluem a ideia de uma revolta violenta contra a autoridade divina. Em שָׁגַג, essa revolta se liga ao andar errante longe de Deus; e essa palavra provavelmente aparece num dos relatos mais antigos e mais solenes do efeito do pecado: no seu andar errante, eles são carne (Gn 6.3) [N. do T.: a NAA traz “pois este é carnal”]. Pode-se dizer que a grande massa das definições, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, marca o pecado como o levante ativo da vontade humana contra as ordenanças da lei divina, escrita quer no coração, quer em estatutos positivos.

II, 31Desordem. (2.) Pode-se duvidar, porém, de que haja, no Antigo ou no Novo Testamento, algum termo para o pecado que exprima a sua atividade como princípio sem uma referência lateral ao seu caráter privativo e à ruína que ele acarreta. Termos como ἐπιθυμία, a cobiça na concupiscência, ἔχθρα εἰς θεόν, a inimizade contra Deus, e τὰ ἑαυτοῦ ζητεῖν, o buscar o que é seu, parecem apenas positivos e ativos; mas consideram o pecado sob aspectos especiais e certamente incluem a sua perversão interior. Embora a sua energia, como raiz do mal humano, seja quase ilimitada, é uma energia no mal que é também o mau uso de faculdades criadas somente para o bem. Por isso, nas Escrituras, o pecado é confusão interior, discórdia, doença, miséria, vaidade: especialmente, como se verá adiante, no uso habitual de σάρξ, ou carne, para exprimir tanto a vaidade quanto a pecaminosidade da natureza humana. O próprio termo πονηρία, mal, dá testemunho do labor, do cansaço e da vaidade do pecado, pois se relaciona com πόνος, labor. No Antigo Testamento, um número considerável de palavras exprime a mesma característica de turbulência consciente, desordem e inquietação. Assim é עָמָל: concebem o MAL (ou a aflição) e dão à luz a iniquidade (Jó 15.35); עָוֶל, o mal ou a depravação, como resultado da má conduta; רָשַׁע, a impiedade, que aponta para a sua atividade inquieta, quer interior, quer voltada para os outros: os ímpios são como o mar agitado, que não se pode aquietar, cujas águas lançam de si lama e lodo. Para os ÍMPIOS, diz o meu Deus, não há paz (Is 57.20-21); אָוֶן, que indica o nada ou a vaidade do pecado: quem semeia a iniquidade colherá VAIDADE (Pv 22.8) [N. do T.: a NAA traz “O que semeia a injustiça colhe a desgraça”]; e os que lavram a iniquidade e semeiam o mal, isso mesmo eles colhem (Jó 4.8). Essas palavras não esgotam o catálogo dos termos que definem a qualidade do pecado como algo que substitui a obediência à lei divina por um estado de anarquia interior, que lança toda a alma na confusão, que cria perturbação ao redor e que termina em vaidade e miséria, tanto física quanto espiritual.

II, 32A CONSCIÊNCIA DE CULPA.

Culpa. Considerado mais particularmente quanto ao seu efeito sobre a relação do homem com a lei de Deus, o pecado é culpa, ou seja, a consciência humana de uma imputação divina: primeiro, a consciência da responsabilidade PESSOAL pelo pecado, como cometido por ele mesmo; e, segundo, a consciência da RESPONSABILIDADE pessoal pelo pecado, como obrigação à pena por causa dele. Esses dois acompanhantes inseparáveis do ato de transgressão são, na realidade, um só; mas convém distingui-los.

Unidade da culpa. I. Quão verdadeiramente a ideia de culpa é distinta e singular pode ver-se na linguagem com que as Escrituras a exprimem: primeiro, com referência à imputação divina do pecado; e, segundo, no eco humano dessa imputação na consciência.

A culpa nas Escrituras. 1. O testemunho universal da Bíblia, desde a primeira revelação do pecado até a última revelação da redenção dele, declara que o santo Legislador imputa ao homem o mal do homem, como seu autor, e lhe levará em conta a violação da lei e a desonra feita à majestade da sua própria santidade. O mal que está no mundo natural, isto é, o mal que a Queda nele introduziu, ele o atribui apenas indiretamente ao transgressor humano; mas lhe atribui diretamente o pecado que é dele. Não há VOCÊ mais direto do que aquele que a culpa ouve e que imprime o sentimento de culpa: Adão, onde você está? (Gn 3.9). Por causa do que VOCÊ fez, você é maldita! (Gn 3.14). Por causa do que você fez: eis a culpa no sentido de CULPA, ou falta. Você é maldita: eis a culpa no sentido de REATUS, ou pena. Que o pecado é culpa nesses dois sentidos, e que a culpa nesses dois sentidos é pecado, o Antigo Testamento ensina em toda a sua doutrina da expiação. A ofensa contra Deus não passa com o ato; continua apegada ao transgressor e jamais pode ser afastada dele, a não ser que ele preste satisfação. Essa satisfação ele só pode prestar suportando a pena, ou em sua própria pessoa, ou pela intermediação de outra satisfação contada como sua. Ele tem de carregar consigo o fardo do seu pecado, ou levar a sua iniquidade (Lv 5.1). Há uma palavra, אָשָׁם, que, ligada a חַטָּאת, exprime constantemente a ideia da culpa que se prende a todo pecado. Embora em muitas passagens tenha sentido restrito, designando a oferta pela transgressão prescrita para as ofensas cometidas por erro, negligência ou ignorância, essa mesma restrição serve para gravar de modo ainda mais significativo o sentido profundo da culpa como tal. A oferta pela transgressão, ou, como se deveria traduzir, a oferta pela culpa, era ela mesma culpa, como representante da culpa: era ASHAM; e assim, na Oferta suprema, nosso Senhor foi feito pecado por nós (2Co 5.21). Basta citar um texto, que pode representar muitos outros: Se alguma pessoa pecar e fizer contra algum dos mandamentos do Senhor aquilo que não se deve fazer, ainda que não tenha se dado conta disso, será CULPADA (PECCATI REUS) mesmo assim e levará a sua iniquidade. E do rebanho trará ao sacerdote um carneiro sem defeito, conforme avaliação feita, para oferta pela culpa, e o sacerdote, por essa pessoa, fará expiação no que se refere ao erro que, de forma involuntária, cometeu, e lhe será perdoado. É oferta pela culpa, pois certamente se tornou culpada diante do Senhor (Lv 5.17-19). Aqui discernimos uma distinção na culpa (como traduz a Vulgata, juxta mensuram œstimationemque peccati [segundo a medida e a avaliação do pecado]) em relação às leis teocráticas da antiga aliança. Mas a transgressão subjacente, o coração e a raiz de todas as ofensas, é a mesma. Por isso, quando passamos ao Novo Testamento, que, à luz da expiação consumada, faz o pecado mostrar toda a sua força de pecado (Rm 7.13), a distinção desaparece. A oferta pelo pecado e a oferta pela culpa unem-se no único sacrifício pelos pecados (Hb 10.12). A concepção mais alta da culpa está no ὑπόδικον γενέσθαι τῷ Θεῷ que se diz do homem: para que … todo o mundo seja culpável diante de Deus (Rm 3.19). Embora haja um sentido em que o evangelho ainda assinala o pecado daquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz (Tg 4.17) e faz diferença entre aquele servo que conheceu a vontade de seu senhor e aquele que não soube (Lc 12.47-48), entre o devedor que devia quinhentos denários e o que devia cinquenta (Lc 7.41), todo pecado é dívida, pela qual se deve prestar satisfação. A nova aliança introduziu esse termo novo e ensina a cobrança até o último centavo (Mt 5.26), e o ensina com rigor ainda maior porque está próximo o segredo de uma satisfação plena e de um perdão gratuito. A ira de Deus se revela do céu (Rm 1.18); e os culpados são filhos da ira (Ef 2.3). A lei acompanha o evangelho e faz que quem tropeça em um só ponto se torne culpado de todos, πάντων ἔνοχος (Tg 2.10), ou, na linguagem de nosso Senhor, réu (ou passível) de pecado eterno (Mc 3.29). Por isso, essa expressão, que exprime com a maior ênfase a ideia de culpa do Novo Testamento, inclui os dois sentidos dos quais partimos: a culpa pessoal, como quebra da lei, e a obrigação pessoal de suportar a sua pena: πάντων ἔνοχος e ἔνοχος θανάτου. Estas últimas palavras sugerem a ilustração mais comovente da distinção. Nós somos culpados nos dois sentidos; o nosso santo Salvador foi apenas réu de morte (Mt 26.66). E tudo isso se exprime na palavra inglesa SIN [pecado], segundo a sua derivação mais provável do latim SONS, nocens [culpado, nocivo]: aquilo que é a causa culpada da morte da alma.

II, 34Consciência. 2. A consciência, no homem, dá o seu próprio testemunho claro. Essa faculdade da nossa natureza, ou representante do Juiz na nossa personalidade, é, em relação ao pecado, simplesmente o escrivão da sua culpa. É a consciência moral, que procede mais do instinto do que da reflexão, embora também de ambos, e que assume fielmente a responsabilidade pessoal pelo pecado e antecipa as suas consequências. Esse é o sentido bíblico da palavra. Não é o padrão do certo e do errado estabelecido na natureza moral. São Paulo fala desse padrão como escrito no coração da humanidade inteira: os gentios mostram a obra da lei gravada no seu coração (Rm 2.15). Em seguida, fala do testemunho confirmado pela consciência deles, que às vezes os acusa e às vezes os defende, sem dúvida olhando para cima, para um Juiz, e para a frente, para um juízo. O que são Paulo chama de συνείδησις [consciência], são João chama de καρδία [coração], querendo dizer, porém, não o coração, no qual são Paulo assenta a lei, mas a consciência do homem interior. A consciência é o eu da personalidade; na humanidade universal, nunca defende, mas sempre acusa, e é a consciência de pecados (Hb 10.2). Mas disso não precisamos falar mais agora. Basta estabelecer a distinção entre o padrão do certo e do errado, que pode ser defeituoso e não é propriamente a consciência, e aquela consciência moral que, infalivelmente, une a falta e as suas consequências na consciência do pecador.

II, 35A CULPA COMO FALTA E COMO PENA.

Culpa dupla. Podemos agora examinar mais particularmente a ideia de culpa nos seus dois aspectos, observando antes, porém, que o que aqui se diz se refere apenas ao pecado em geral, sem incluir as modificações dos seus fenômenos e os graus da sua culpabilidade, que dizem respeito antes à doutrina do pecado original.

A FALTA PESSOAL.

Culpa. A culpa é a consciência pessoal de ser responsável pelo mal: o transgressor, ao violar os mandamentos da lei, reconhece a lei e os direitos dela contra si mesmo.

Reatus culpæ. 1. Esse é o sentido do termo forense αἰτία: o pecador é, e sabe que é, o agente e a causa do seu próprio pecado. Por isso, a culpa é definida como reatus culpæ, ou culpa quanto à falta. Nunca é demais meditar a fundo na aliança eterna entre pecado e culpa na consciência humana. Essa consciência refuta todas aquelas teorias da origem do pecado a que já se fez referência: exonera Deus; honra a lei; e, embora não desculpe o Tentador, não lança sobre ele, como instrumento, a culpa cuja responsabilidade ela mesma assume. Nessa consciência do pecado os demônios tremem. Esse é o segredo mais profundo no coração de todo transgressor humano: a boca pode negá-lo, sem saber o que diz; mas o homem interior é fiel ao seu instinto moral. A primeira evasão da culpa foi apenas uma evasão; e foi a culpa de Adão que disse: A mulher que me deste para estar comigo, ela me deu da árvore, e eu comi (Gn 3.12). Esse era o conhecimento do mal que tinha sido objeto da ameaça, e a própria tentativa de transferir a culpa do eu para agentes secundários era prova de que o mal era conhecido. Jó representa todos os homens quando fala do autoengano de cobrir o pecado com uma cobertura que não é a do santuário: se, como Adão, encobri as minhas transgressões, ocultando a minha iniquidade em meu íntimo (Jó 31.33). Quando Eva disse: A serpente me enganou, e eu comi (Gn 3.13), foi a sua culpa que falou. O termo inglês guilt [culpa] tem afinidade com o termo beguiled [enganou], mas com um sentido muito mais profundo.

II, 36Consciência do pecado passado. 2. Essa consciência segura e infalível do mal fala na consciência moral; mas a consciência pode ser abafada, pode falar de modo inarticulado ou pode ser pervertida nas suas decisões. Toda a economia da lei se destina a reavivá-la, a devolvê-la à sobriedade e a constrangê-la a dar o seu claro testemunho contra o eu. O pecador dá o primeiro passo para voltar a Deus quando reconhece estar inseparavelmente identificado com a sua transgressão passada e admite que ele e o seu pecado são um só. As palavras de são Paulo, que faz da sua própria experiência um exemplo, são muito claras: Houve um tempo em que, sem a lei, eu vivia. Mas, quando veio o mandamento, o pecado reviveu, e eu morri (Rm 7.9): EU MORRI. Quando, mais adiante, ele poderia parecer encobrir o seu pecado como Adão, ao dizer: Neste caso, quem faz isso já não sou eu, mas o pecado que habita em mim (Rm 7.17), não imputa ao pecado, como a outro agente, a culpa que cabe a ele mesmo. Fala apenas como alguém que já não estava sob a escravidão absoluta do pecado, que já não era insensível à sua enormidade, mas lutava para se libertar. Já não sou eu significa apenas que o seu eu melhor, ainda culpado, Miserável homem que sou! (Rm 7.24), se esforçava, embora ainda em vão, por ser livre: o mal que não quero, ESSE FAÇO (Rm 7.19). Mas, por ora, consideramos apenas a consciência do pecado despertada pela convicção do Espírito; os resultados desse despertar ficam para o futuro.

A PENA.

A culpa como pena. A culpa tem outro sentido. É a obrigação certa à pena, ou aquilo que às vezes se chama reatus pœnæ. Devemos lembrar que aqui ela é considerada de modo absoluto, sem referência a nenhuma provisão expiatória; que é a pena de uma alma vivente, e não a aniquilação; e que é a pena do espírito humano que dá forma a Morte. um corpo humano. A alma que peca é RÉ DE MORTE, isto é, de ser separada do Espírito Santo da vida: a morte do espírito separado de Deus, que envolve a separação entre alma e corpo e que, no seu desfecho, é eterna. Essa é uma palavra dura, tomada isoladamente; mas o seu abrandamento virá a seu tempo.

II, 37Espiritual. I. A MORTE ESPIRITUAL é a partida do Espírito Santo como vínculo de união entre Deus e toda alma vivente. Pela sua retirada, os espíritos, sejam de anjos, sejam de homens, ficam separados da comunhão com Deus, conservando os elementos naturais da sua imagem, mas já não refletindo a sua santidade. Consideramos agora essa pena em abstrato, sem referência ao seu caráter tal como é afetado pela redenção. Basta dizer que, em si mesma, ela é a partida da vida da alma, tal como a alma foi criada para existir em Deus. Ela não é apenas a pena do pecado; também lhe dá uma natureza específica e conduz àquelas manifestações dele que são as melhores e as únicas definições da morte espiritual. Assim como pela lei vem o pleno conhecimento do pecado (Rm 3.20) de modo positivo, também a ausência do Espírito Santo, de modo negativo, dá a conhecer o seu mal em todas as suas formas e características.

O eu. 1. Em lugar do Espírito divino, o EU se torna o princípio predominante e regente da vida: o mistério do pecado na sua origem foi o rompimento do espírito livre com Deus e a aspiração de tornar-se o seu próprio deus. Agora o mistério se revela: o espírito do homem, sem o Espírito de Deus, fica entregue ao eu. A vida e a atividade do eu, ou o egoísmo em todas as suas formas, é, seja entre os anjos, seja entre os homens, a morte da alma. Por isso, como se verá adiante, o processo de recuperação dessa morte é o retorno do Espírito da vida em Cristo Jesus, quando o eu já não vive. Se alguém quer vir após mim, negue a si mesmo (Mt 16.24). Quem ama a sua vida perde-a; mas aquele que odeia a sua vida neste mundo irá preservá-la para a vida eterna (Jo 12.25). Ditos como esses apontam para o princípio de que a morte verdadeira e essencial é viver para si mesmo.

Carne. 2. Segundo a constituição original do homem, a carne, na sua aliança inocente com as coisas dos sentidos, estava sujeita ao espírito dele, governado pelo Espírito divino: a pena do pecado é a perda desse domínio, tanto sobre o mundo exterior em geral quanto sobre a sua própria natureza física. Por isso, a CARNE dá ao pecado, tal como se manifesta no homem e neste mundo, uma das suas denominações predominantes. A restauração do Espírito Santo à natureza humana a restitui de novo à espiritualidade: a inclinação da carne é morte, mas a do Espírito é vida (Rm 8.6).

II, 38Idolatria. 3. A ausência do Espírito, fazendo do coração do homem um templo interior e de toda a natureza um templo exterior, entrega o homem à IDOLATRIA. Ele é um ser formado para a adoração; e o seu instinto, mesmo na sua perversão, é o de uma criatura que se curva diante de algo acima de si. Mal podemos imaginar os espíritos perdidos sem isso: pode haver algo que corresponda à idolatria humana entre as inteligências caídas que seguiram a revolta do arcanjo. Mas, quanto ao homem, enquanto o eu se torna o seu deus interior, o mundo exterior se torna um vasto Panteão. Por isso, essa idolatria positiva é também IMPIEDADE, cujo sentido, como a própria palavra indica, é estar sem o culto a Deus e, portanto, alheio à sua santa natureza.

Princípio que se desenvolve. 4. O pecado torna-se também um PRINCÍPIO dominante, capaz de desenvolvimento sem fim. Isso decorre do grande fato de que os elementos da natureza humana foram constituídos para um progresso ilimitado: se não de glória em glória, então de vergonha em vergonha. Há no mal um terrível poder de gerar a si mesmo, que avança cada vez mais na impiedade (2Tm 2.16). Talvez não seja lícito dizer que o pecado é punido pelo pecado; mas, com toda a certeza, a morte espiritual para o bem traz em si toda a plenitude da vida espiritual para o mal. Isso explica as variedades infinitas da transgressão, desde a falta secreta, conhecida só de Deus, até o pecado contra o Espírito Santo.

Apenas um acidente. 5. Por último, é preciso lembrar que o pecado, seja o que for, é o acidente de uma natureza que em si mesma não é alterada. É apenas a separação de Deus; mas a alma que sai da presença dele continua a levar, nas suas andanças, a imagem dele, cujas características naturais não são desfiguradas pela introdução de nenhuma faculdade nova, criada só para o mal. Nada de novo é introduzido nas fibras do nosso ser enquanto humano. Em outras palavras, o pecado tem de ficar inteiramente restrito à região da tendência e da inclinação da VONTADE, tal como ela é formada pelo caráter e, por sua vez, o forma.

Física. II. A MORTE FÍSICA é a pena do pecado humano; não, porém, em si mesma, mas enquanto ligada à morte espiritual: ligada a ela, em certo sentido, por resultar da mesma privação do Espírito Santo, cujo habitar no homem regenerado (Rm 8.11) é o penhor da ressurreição física, assim como é o princípio da ressurreição do espírito para a vida. Mas ela é declarada expressamente a pena do pecado no homem, o qual, por causa dele, foi sujeitado à vaidade que era a sorte das criaturas inferiores, teve negado o acesso à Árvore da Vida e foi entregue à dissolução que já era o término natural da existência das ordens inferiores dos habitantes da terra. Desde o momento em que o pecado entrou, a morte reinou no próprio Adão, assim como depois reinou nos seus descendentes; pois morte significa mortalidade e inclui todos os inumeráveis males que a introduzem. É preciso lembrar que não conhecemos por experiência essa condenação em estado absolutamente privado do alívio do evangelho; mas aqui temos de tratar apenas do castigo em si. Assim como a pena da morte espiritual dá novas características ao pecado, também a pena da morte física o faz. Ela imprime nele os atributos da impotência e da miséria, especialmente, como vimos, nas definições do Antigo Testamento. A isso teremos de voltar. Por enquanto, basta dizer que, fosse o que fosse que os nossos primeiros pais tenham entendido, a sentença pronunciada contra o seu pecado não podia ter sido, nem mesmo em primeiro lugar, e com certeza não unicamente, a separação entre alma e corpo. Além disso, em todas as Escrituras não há uma única alusão à morte física no sentido da aniquilação de toda a natureza física do homem, enquanto ele é alma e espírito. Na Bíblia, morrer nunca significa extinção.

II, 39Eterna. III. A MORTE, como sentença do pecado, é por si mesma necessariamente ETERNA.

Morte eterna. 1. Essa pena é considerada agora em abstrato, pronunciada contra o pecado como tal. É a separação entre a alma e Deus, vista à parte da redenção e, portanto, uma sentença que em si mesma não tem alívio nem ressalva. Essa terrível verdade pode ser considerada de modo negativo e de modo positivo. A retirada do Espírito Santo é uma pena que deixa o pecador sem possibilidade de restaurar a si mesmo; e nisso está a morte eterna. Mas é também o decreto positivo do Justo Juiz, que separa de si o mal para sempre. Em harmonia com essa distinção estão certas definições bem marcadas do pecado no Novo Testamento. Ele é inimizade contra Deus (Rm 8.7), e isso implica em si mesmo uma separação eterna, como no caso dos espíritos não redimidos. É SERVIDÃO ao mal: isto é, o espírito livre, sem jamais perder o seu poder de autodeterminação, é determinado pela presença do princípio pecaminoso a não ser outra coisa senão continuamente mau (Gn 6.5). E, mais uma vez, na combinação dessas duas coisas está o elemento da morte eterna. Assim como o favor de Deus é vida, a morte é o seu desagrado; o senso de culpa, que une a responsabilidade pessoal e o temor do castigo, é capaz de continuar sem limite. E, quando se diz que a ira de Deus permanece sobre o incrédulo (Jo 3.36), não precisamos de nenhuma outra explicação da pena da morte eterna.

II, 40Mais resultado do que sanção. 2. Como sentença pronunciada contra o pecado, a morte não foi declarada eterna no princípio, nem jamais anunciada como tal até que o Redentor trouxesse à luz a vida e a imortalidade (2Tm 1.10). Era um decreto suspenso, como, aliás, todas as partes da sentença foram suspensas. A morte física entrou em vigor imediatamente, mas apenas nos seus preliminares: o enganador disse meia verdade quando afirmou que, no dia em que os Protoplastos comessem do fruto, era certo que não morreriam (Gn 3.4). A morte espiritual entrou em vigor de imediato, mas também ela, como veremos, não sem alívio. Que a separação entre a alma e Deus haveria de durar para sempre não foi pronunciado, porque as providências da misericórdia poderiam revogar essa parte do decreto. Mas dessas providências da misericórdia ainda não temos de tratar. Contudo, quando a graça de Deus, que traz salvação ao homem, foi plenamente revelada, ela supriu da maneira mais solene o que faltara no primeiro anúncio da pena e desdobrou o seu sentido profundo e oculto. É característico da Escritura, quanto a essa segunda morte (Ap 2.11), que ela nunca seja anunciada de antemão como sanção em forma de ameaça, mas sempre predita como consequência do pecado impenitente: é declarada não tanto como pena da culpa, mas como pena da redenção rejeitada. O evangelho é, para os que estão se perdendo, cheiro de morte para morte (2Co 2.15-16): da morte espiritual que se aprofunda em morte eterna.

A morte, o oposto pleno da vida. 3. Mas, embora a sentença da morte eterna esteja ligada ao plano de restauração, como sanção de um evangelho rejeitado, é preciso lembrar que ela é declarada em toda parte como o desfecho necessário do pecado, enquanto oposto de tudo o que se chama vida. Em nenhum lugar da Palavra de Deus a vida é equiparada à continuação no ser: se o fosse, a morte eterna seria aniquilação eterna. A vida é comunhão com Deus, e a sua consumação é eterna; a morte é o desfecho da injustiça, e a sua consumação é eterna. Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm 6.23). Sem dúvida, há grande variedade na aplicação do termo morte, como há também na do termo vida; mas as aplicações dos dois termos correm paralelas. As palavras do nosso Senhor são enfáticas: Em verdade, em verdade lhes digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo (Jo 5.24). Aqui se mostra o contraste entre a vida eterna e a morte eterna. Em verdade, em verdade lhes digo que vem a hora, e já chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que a ouvirem viverão (Jo 5.25). Aqui é o contraste entre a vida e a morte espirituais. Não fiquem maravilhados com isso, porque vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a voz dele e sairão: os que tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida; e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juízo (Jo 5.28-29). Aqui a vida física se torna eterna, e a espiritual fica entre as duas. É à luz dessas palavras soberanas que se deve ler a passagem controvertida de são Paulo: assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado veio a morte (Rm 5.12). Aqui a morte física é a pena do pecado; mas a morte espiritual e a eterna não podem ser excluídas, como fica evidente pelo contexto que cerca esse texto no grande capítulo do apóstolo sobre o pecado. O capítulo termina com a frase: a fim de que, como o pecado reinou pela morte, assim também a graça reinasse pela justiça que conduz à vida eterna, por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor (Rm 5.21). Na primeira parte do capítulo, que trata do pecado em geral, antes de chegar ao pecado original, temos quatro termos que exprimem toda a sua natureza, tanto em si mesmo quanto naquela pena de morte, no seu sentido espiritual e eterno, da qual a expiação nos resgata. Referindo-se expressamente ao estado em que a redenção nos encontrou, são Paulo chama os homens em geral de ἁμαρτωλοί, transgressores da lei na sua própria natureza; ἀσεβεῖς, ímpios e separados do favor, da presença e do serviço de Deus; ἀσθενεῖς, sem força, essencialmente impotentes; e, por fim, ἐχθροί, inimigos, objetos de um desagrado positivo, ou ira, do Supremo, a qual, à parte da mediação de Cristo, durará para sempre. Esse conjunto de quatro termos deve ser levado para a segunda parte do capítulo, onde se mostra como a primeira transgressão lhes preparou o caminho. À luz deles, uma exposição sadia não pode limitar à morte do corpo a morte como pena do pecado.

II, 41Pecado e expiação unidos. 4. Mas isso nos leva de imediato à relação entre o mal moral e a redenção, cujo exame abrirá caminho para a doutrina do pecado original. Ao intercalar a seção seguinte, seguimos a orientação do próprio são Paulo, que, ao passar da sua descrição mais completa do pecado em geral para a sua exposição mais completa da relação do pecado com a nossa raça, atravessa esta ponte sagrada: também nos gloriamos em Deus por meio do nosso Senhor Jesus Cristo, mediante o qual recebemos, agora, a expiação (Rm 5.11) [N. do T.: a NAA traz “a reconciliação”; Pope segue a KJV, “the atonement”.]. Não só ele, mas todo escritor da Escritura, tanto no Novo Testamento quanto no Antigo, liga constantemente o mal ao sistema da libertação dele. O pecado é sempre discutido, definido e considerado detidamente em todo o seu desenvolvimento e em todas as suas consequências ao pé do altar, na antiga economia, e ao pé da cruz, na nova. É um fato, já mencionado e que voltará a aparecer, que muitos dos termos hebraicos e gregos para o próprio pecado são usados também para exprimir a expiação do pecado, ao passo que em algumas expressões o levar a iniquidade e o seu perdão são, de fato, uma só coisa. Basta citar um exemplo. Em Levítico se diz: Quem amaldiçoar o seu Deus levará sobre si o seu pecado (Lv 24.15), נָשָׂא חֶטְאוֹ [levará o seu pecado]. Do Servo de Deus lemos: levou sobre si o pecado de muitos (Is 53.12), וְהוּא חֵטְא־רַבִּים נָשָׂא [e ele levou o pecado de muitos]; isso, comparado com as palavras sobre o bode emissário, levará sobre si todas as iniquidades deles para terra solitária (Lv 16.22), mostra que levar o pecado era também levá-lo embora pela expiação. Depois ouvimos o penitente perdoado clamar: tu perdoaste a iniquidade do meu pecado (Sl 32.5), נָשָׂאתָ עֲוֹן חַטָּאתִי [literalmente, levaste a iniquidade do meu pecado]. Assim, a culpa do pecado extremo, a propiciação perfeita providenciada para ele e o senso seguro do perdão são todos significados pela mesma locução profunda. Deixando isso de lado, porém, devemos gravar na mente a bendita verdade de que nós, pelo menos, como pecadores da humanidade, nunca precisamos estudar o pecado senão à luz direta da redenção.

II, 43PECADO E REDENÇÃO.

Pecado e redenção. Seja qual for o aspecto sob o qual se considere o pecado (quanto ao Ser ofendido ou quanto ao pecador que ofende), não há no pecado em si nenhum princípio nem nenhuma esperança de redenção. Mas, por outro lado, há muita coisa, tanto na natureza quanto no desenvolvimento do mal humano, que sugere a possibilidade, a probabilidade e a certeza de uma redenção vinda de fora. E o fato dessa redenção confere um caráter especial à doutrina geral do pecado em todos os seus ramos.

I. O pecado não tem em si nenhum elemento de redenção, quer pensemos no caráter divino, que faz do pecado o que ele é, quer no espírito humano, em que reside o princípio do mal.

Na natureza divina. 1. A natureza divina, enquanto santa, tem de abominar eternamente o pecado e jamais pode reconciliar-se com ele. Deus é tão puro de olhos, que não pode suportar o mal (Hc 1.13), a não ser para condená-lo e afastá-lo da sua presença. A própria natureza decaída do homem dá testemunho disso: o seu verdadeiro instinto é Afaste-se de mim, porque sou pecador! (Lc 5.8). O Deus de amor é fogo consumidor (Hb 12.29) para tudo o que é contrário à sua pureza; e, se esse fogo consumidor se torna uma destruição salvadora do mal, isso pertence ao mistério da graça, que ainda não está em questão. Mas o Ser santo é também um Legislador justo; a sua natureza e a sua vontade estão na revelação do justo juízo de Deus (Rm 2.5), não só contra a própria coisa abominável, mas contra a alma que faz o mal (Rm 2.9). Ó ímpio, você certamente morrerá! (Ez 33.8) é uma palavra do Antigo Testamento que encontra a sua confirmação no Novo: Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da Lei, para praticá-las (Gl 3.10). E aqui, mais uma vez, a consciência universal do homem descobre que esse Livro da Lei é o seu próprio coração, onde está escrita, ou gravada, a sentença que, até onde ela sabe, é irrevogável. Deus de maneira nenhuma pode negar a si mesmo (2Tm 2.13); e o espírito humano também não lhe nega a sua eterna oposição ao pecado. A própria justiça de Deus não guarda a sua lei com mais fidelidade do que a guarda a consciência do homem. Tampouco a consciência pode negar a si mesma.

No próprio homem. 2. Nem o pecador tem em si mesmo nenhum poder de redenção. É verdade que, em todas as épocas, ele lutou contra o pecado que pesa sobre ele, mas em vão: lutou contra ele sabendo que é errado e sob a influência inconsciente de uma graça cujo segredo, por natureza, não conhece. Esforçou-se por expiar a sua culpa com uma variedade infinita de sacrifícios, que nunca foram capazes de tirar a consciência do pecado: nunca se deu por satisfeito com a propiciação, nem das suas ofertas substitutivas, nem dos seus próprios sofrimentos pessoais. A sua experiência sempre negou que o pecado pudesse, pelos seus atos, sacrifícios ou sofrimentos, remover a sua culpa. Esforçou-se também por redimir a si mesmo pela disciplina da filosofia e do arrependimento. Mas igualmente em vão: nunca sequer pretendeu ter encontrado santidade na filosofia, nem ser capaz de um verdadeiro arrependimento. O fato de ele sempre ter combinado essas duas coisas (as ofertas de expiação e a tentativa de corrigir a própria natureza) atestou a consciência universal da nossa raça decaída de que ambas são necessárias; o fato do fracasso universal provou que em si mesmo o pecador não tem socorro. Os altares de expiação nos templos de um Deus desconhecido e as escolas de filosofia ali ao lado eram antecipações pagãs do evangelho, que une expiação e renovação e que, por uma única providência, atende tanto à culpa quanto à contaminação da transgressão. Como tais, eram extremamente impressionantes e comoventes; mas, em si mesmos, e como provas da desesperança inerente ao pecado, eram advertências da mais alta gravidade.

II, 44Arrependimento. 3. Teorias mais modernas, tomando emprestada a luz da expiação que rejeitam, têm argumentado que o arrependimento é ao mesmo tempo expiação e restauração; apelaram não só a um instinto humano que aceita a penitência de quem ofendeu, mas também à linguagem da própria Escritura, que descreve Deus como aquele que sempre aceita o penitente. Assim, contradizem as duas proposições que vínhamos estabelecendo: nem a natureza de Deus seria eternamente oposta ao pecado, nem a natureza do homem seria incapaz de removê-lo. Quanto ao primeiro argumento, o da analogia com a ternura humana diante do arrependimento, ele deixa de considerar a diferença, não só de grau, mas de espécie, entre as nossas ofensas uns contra os outros e o nosso pecado contra Deus; esquece que não há relação de pecado em sentido estrito senão entre o Deus Supremo e a sua criatura; aqui nenhuma analogia humana basta. Quanto ao segundo argumento, o de que a Escritura representa o nosso Pai celestial como sempre pronto a ir ao encontro do seu filho pródigo que volta, deixa de observar que, onde quer que se fale assim do arrependimento, está sempre implícita uma expiação, típica ou real. A parábola que leva o Pai dos espíritos e o filho que volta a um lugar de reconciliação a meio caminho foi contada por aquele cujo nome é Mediador; a cruz dele está estampada nela, embora ainda não seja vista; e ela está registrada no mesmo Evangelho em que o Redentor diz: Este cálice é a nova aliança no meu sangue derramado por vocês (Lc 22.20). Se, no Evangelho de são Lucas, o evangelho da graça gratuita, o penitente desceu justificado para a sua casa depois de ter apenas clamado: Ó Deus, tem pena de mim, que sou pecador! (Lc 18.13-14), devemos lembrar que a sua própria palavra, ἱλάσθητί μοι [sê propício a mim], tem o sabor do sacrifício propiciatório; que ele exprimiu a sua contrição na presença do altar da expiação; e que é justificado segundo a graciosa não imputação do pecado, a qual se apoiava numa satisfação pela culpa humana ainda não revelada. Os dois argumentos se esquecem de que o homem não tem poder para se arrepender na plenitude do sentido da palavra, e de que o arrependimento é dom de Deus, obtido pela própria expiação que se pretende que ele substitua: a expiação daquele que foi exaltado a fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão de pecados (At 5.31).

II, 45O pecado ligado à redenção. II. Sendo tudo isso verdade, é evidente também que o pecado e a redenção estiveram intimamente ligados na história do homem. O pecado existe em outras partes do universo de Deus; mas, tal como o encontramos seguindo o seu curso na terra, ele dá sinais de um plano de libertação possível, provável e certo.

Εἰ δυνατόν ἐστι. 1. Isto, na verdade, pode-se dizer de todo mal: se for possível encontrar um método de aboli-lo que seja compatível com as perfeições divinas, prestando à justiça de Deus uma expiação objetiva e permitindo que o seu amor destrua subjetivamente o pecado, esse método será encontrado pela sabedoria divina. O mesmo instinto da nossa natureza que nos assegura de que o pecado é eternamente odioso a Deus nos ensina que, SE É POSSÍVEL (Mt 26.39), ele será removido. Pode-se dizer que estamos aqui raciocinando em círculo: que estamos supondo a própria redenção que presumimos ser contemplada a priori [anterior à experiência] como possível. A objeção deve ser aceita; mas ela reforça a nossa posição, a saber, que existe, entranhada de um modo ou de outro na mente humana, uma confiança ousada de que, ao menos para o homem, há em Deus algum recurso infinito disponível. Todo o sistema da revelação A Trindade. nos diz que esse método foi encontrado no mistério interior da Trindade. E aqui está o valor inexprimível da doutrina da Essência triúna. É difícil evitar antecipações neste ponto. A glória da cruz futura já resplandece sobre o caos da desordem moral. Cristo Jesus, o Representante do homem no conselho eterno, se não na sua natureza eterna, pela oblação de si mesmo, oferecida uma única vez, absorveu o castigo do pecado e tornou certa a destruição completa do pecado em todos os que, pela fé, fazem sua a expiação dele.

II, 46Os espíritos perdidos. 2. Não precisamos complicar a questão com o fato de que os espíritos perdidos não são redimidos: eles nos tentaram ao pecado, mas não devem tentar a nossa fé a duvidar da nossa restauração. Certamente não há nada na condição da natureza humana que exclua a possibilidade da redenção. A sua depravação, tomada no que tem de pior, não é a extinção total de todo elemento a que a graça possa se agarrar. De fato, o desenvolvimento do mal moral no mundo tem um caráter tal que sugere que a natureza do homem não foi achada irredimível, que já foi uma vez objeto de uma intervenção misteriosa e que está sempre passando pela disciplina de um processo de restauração. O sentimento universal entre os homens de que Deus pode ser propiciado, e em certo sentido o é; a recusa da culpa humana em dar a sua causa por perdida; a quase impossibilidade de persuadir os homens em geral de que o seu pecado é imperdoável; a voz da consciência falando em todas as línguas debaixo do céu, com acentos tanto de medo quanto de esperança; os anseios irreprimíveis por algum grande Libertador e alguma grande Libertação: tudo isso proclama que pode haver redenção para o homem e confirma o testemunho da Bíblia de que, para a raça dos transgressores humanos, Deus achou um resgate (Jó 33.24).

Novo aspecto do pecado. III. Ora, toda a doutrina do pecado assume um novo aspecto a partir dessa intervenção graciosa, desse mistério de amor expiatório. De quantas maneiras ela afeta essa doutrina, tal como exposta no plano do evangelho, veremos adiante. Por enquanto, ela tem este efeito preliminar: mostra-nos o mal moral como pena e contágio de uma raça, mal que continua de geração em geração e que, como tal, é contrabalançado e vencido. Mas isso nos conduz diretamente à doutrina do pecado original, que assinala a peculiaridade especial do mal na família humana: ao mesmo tempo a sua universalidade, pois certamente se propaga, e o alívio gracioso que recebe.

Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. II, pp. 29-46, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.