W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume II · O pecado

A origem do pecado

II, 1O PECADO.
ORIGEM DO PECADO.
TEORIAS DO MAL E DO PECADO.
NATUREZA DO PECADO.
PECADO E REDENÇÃO.
PECADO ORIGINAL.

II, 3O PECADO.

Pecado. O estudo da providência mostrou o pecado, cuja destruição era o objetivo do conselho redentor, como algo contemplado desde a eternidade em conexão com a origem, o desenvolvimento e o destino da humanidade. Apresenta-se, portanto, como uma doutrina entrelaçada com todas as etapas posteriores da teologia; na verdade, é um dos centros a partir dos quais se pode contemplar o conjunto. Mas tem o seu próprio leque de temas independentes, que fazem dele um estudo à parte. Subimos primeiro ao mistério da sua origem, no universo e na terra, o que leva necessariamente à consideração da sua natureza em si mesma e das teorias formuladas para explicá-lo. Segue-se a relação entre o pecado e a redenção, ou antes, o efeito atenuante que a redenção vindoura projeta para trás sobre a evolução do mal. Isso introduz, por fim, a sua universalidade na humanidade, ou o pecado original: o pecado que adere à raça como tal e a cada um dos seus membros nascidos no mundo por via natural.

Terminologia. De ἁμαρτία, nome geral que o Novo Testamento dá ao pecado como realidade subjetiva, isto é, na alma, derivou-se o termo HAMARTIOLOGIA, usado às vezes para todo este ramo. Em alguns sistemas, ele aparece como PONEROLOGIA, de πονηρόν ou πονηρία, palavras que indicam antes o caráter objetivo do pecado ou do mal nas suas múltiplas relações e consequências. É útil registrar esses termos, embora não sejam muito usados na teologia inglesa.

II, 4A ORIGEM DO PECADO.

Origem. Por uma necessidade do pensamento, começamos pela origem do pecado. O registro sagrado declara que ele começou no universo com a queda de inteligências livres, que fracassaram na sua provação, e que começou na terra com a desobediência dos nossos primeiros pais, a qual lhes trouxe o conhecimento do mal como culpa e como castigo, unidos na morte. A história da primeira transgressão, seja dos anjos, seja dos homens, é apresentada na Escritura de modo a mostrar que a origem do mal está na própria criatura. Quaisquer que sejam as diferenças entre as duas Quedas, e por maior que seja o mistério que permanece em ambas, elas concordam num ponto: excluem toda teoria que procure o princípio do pecado em qualquer outra fonte que não seja a liberdade do espírito criado à imagem divina.

NO UNIVERSO.

Queda dos anjos. O relato bíblico da origem do pecado no universo exterior é muito breve, mas muito nítido; e o que lhe falta é suprido pela história mais completa da queda da humanidade. Indica-se um único pecador original, que foi para os seus companheiros a causa do pecado e o instrumento da sua introdução neste mundo.

O pecador original. 1. O começo absoluto do mal, e do pecado como causa do mal, remonta diretamente à queda do diabo e daqueles que são chamados seus anjos. Satanás é o representante do mal tal como este teve nele o seu começo. Há passagens da Escritura que, de modo marcante, fazem dele o pai de toda iniquidade. É verdade que muitas delas se referem à sua ligação com o pecado neste mundo: por exemplo, o testemunho de que ele foi assassino desde o princípio (Jo 8.44), que nos remete à história da Queda humana. Ele foi a causa instrumental da morte do primeiro homem; portanto, num sentido, foi o primeiro em transgressão (1Tm 2.14), por trás de Eva, que foi a primeira em outro sentido. Mas há algumas que insinuam, de modo velado, que o primeiro espírito separado de Deus foi o dele. Nosso Senhor, que veio ao mundo como o Antagonista do Maligno, deu aos seus discípulos, numa ocasião memorável, uma única indicação de grande alcance: Eu via Satanás caindo do céu como um relâmpago (Lc 10.18). Devemos entender essas palavras como a condensação, num só relâmpago de revelação, de toda a história do conflito com os poderes das trevas, no que diz respeito a esta terra; mas devemos também considerá-las como testemunho do fato da queda primordial de uma inteligência, tão essencialmente a primeira e a mais proeminente que representa toda a companhia dos que a seguiram. Ele era o cabeça daqueles anjos que não guardaram o seu estado original (Jd 6), daqueles anjos que pecaram (2Pe 2.4). Dele disse nosso Senhor, que conhecia o que havia nos demônios tanto quanto o que há no homem: jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade (Jo 8.44). Essa negação absoluta de qualquer elemento de verdade em Satanás ganha uma forma positiva ainda mais enfática: Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira. A mentira, aqui, é o mal essencial, a negação da verdade da relação da criatura com Deus: ele é o pai da mentira universal, o pai do mal e do pecado. E isso se torna mais provável pelas alusões ao diabo e seus anjos (Mt 25.41) como o conjunto de todos os seres para os quais está à espera o juízo final e irreversível (Jd 6), preparado somente para eles. Sempre se atribui a um único Poder a preeminência sobre uma multidão de outros que lhe deviam o seu pecado: não, porém, pela herança de uma inclinação para o mal transmitida por propagação, mas porque cada um, de modo independente, cedeu à sua tentação ou seguiu o seu exemplo. Sobre esse assunto, pouco podemos dizer; basta saber que o diabo é considerado, direta e indiretamente, o Príncipe ou ἀρχηγός da iniquidade, tanto no universo como neste mundo. O pecado original foi o dele. Foi o mau uso da liberdade; foi o nascimento misterioso, na sua natureza, da ambição de rivalizar com Deus, ou com o Filho de Deus, ambição que foi transferida para este mundo depois que ele foi excluído do céu; foi imitado por muitos outros; foi irreparável, pelo menos não temos notícia de nenhuma redenção ou esperança; e, por último, foi a fonte da tentação para a nossa raça.

II, 5O pecado original. 2. Da relação de Satanás com outros mundos nada sabemos. Mas a introdução do mal no mundo da humanidade, e a sua história através de todas as nossas gerações, estão ligadas de modo especial à sua primeira apostasia, o pecado original. O elo entre o orgulho que causou a ruína dele e a transgressão dos nossos primeiros pais foi este: vocês serão como Deus! (Gn 3.5). O nosso pecado é, por assim dizer, um reflexo ou uma continuação do dele. Por isso ele conserva o seu império e a sua chefia, como senhor e representante do princípio do mal. Estabeleceu um reino do qual ele, e não Adão, é o cabeça. Disso falaremos mais adiante. Por ora, bastará enumerar os nomes do pecador original, cuja relação com a queda da humanidade agrava a sua condenação, mas não serve de desculpa para a depravação humana. (1) Como representante do mal ou do pecado em si mesmo, ele é chamado, em sentido absoluto, o Maligno (1Jo 3.12); e, a respeito da propagação de todas as inumeráveis sementes do pecado, diz-se: o inimigo que as semeou é o diabo (Mt 13.39). (2) Como representante e senhor do império do pecado, ele é o deus deste mundo (2Co 4.4), o príncipe do mundo (Jo 14.30), o príncipe da potestade do ar, o espírito que agora atua nos filhos da desobediência (Ef 2.2) [N. do T.: a NAA traz “do espírito que agora atua”; Pope segue a KJV, que faz de “o espírito” um título do próprio príncipe, e nisso se apoia a antítese com o Espírito Santo]. Essa combinação de títulos o põe em solene antítese com as Pessoas da Santíssima Trindade, respectivamente: o primeiro com o Pai, o segundo com o Filho e o terceiro com o Espírito Santo; sobretudo quando se leva em conta o seu reino (Mt 12.26). (3) Como representante do espírito de inimizade contra o bem, ele é Satanás, ou o Adversário (Jó 1.6, passim), o diabo e o Tentador. (4) O teor do Novo Testamento faz dele, de modo geral, a personificação do pecado: a sua origem, o seu senhor, promotor, testemunha e carrasco. Sempre e em toda parte, ele e os seus anjos são pessoas reais: a personalidade de nenhum outro agente é revelada de modo mais expresso, nem descrita em termos menos sujeitos a mal-entendidos. Mas essa questão só entra aqui de modo indireto.

II, 6A QUEDA DA HUMANIDADE.

Queda do homem. O relato mosaico da provação e da Queda do primeiro casal é uma narrativa inspirada da origem do pecado na raça humana. Não é uma coleção de tradições ou mitos primitivos; nem um método alegórico de ensinar a história moral do pecado no homem; nem uma combinação de história, alegoria e lenda; mas uma narrativa histórica de fatos, os quais, no entanto, estão ligados a símbolos que precisam ser interpretados como tais. Nessa interpretação, é necessária a máxima cautela. Mas nenhuma exposição pode pretender resolver toda dificuldade ou afastar toda objeção, porque, no nosso estado de pecado, não temos experiência da condição original dos nossos primeiros pais e, portanto, não possuímos a chave para resolver o mistério da tentação deles e da sua sujeição ao mal. O breve relato registra que o homem foi colocado num estado de prova, com a consciência da possibilidade do pecado, ou da separação entre a sua vontade e a vontade divina; descreve as circunstâncias e a natureza, externa e interna, da tentação vinda de fora; e põe diante de nós os preliminares, o ato e as consequências imediatas da primeira transgressão, ou daquilo que, nos nossos anais humanos, é a Queda do homem.

II, 7A NARRATIVA.

O registro. O registro apresenta como história o seu relato da ruína da humanidade: a história de um começo que flui, sem interrupção, para o curso subsequente da redenção. Como narrativa de simples fatos, raramente é mencionado em qualquer dos dois Testamentos; mas as alusões que encontramos pressupõem a sua realidade histórica. Nosso Senhor dá a sua sanção ao relato da criação, citando as suas próprias palavras e incluindo indiretamente a própria Queda. São Paulo se refere repetidas vezes aos incidentes tais como registrados em Gênesis. Em todos os oráculos sagrados, a história é tacitamente reconhecida como história: primitiva, fragmentária, oriental talvez, e profundamente simbólica, mas divina.

Escritura. I. As poucas referências da Escritura são muito explícitas. Quanto mais atentamente forem observadas no seu contexto, tanto mais evidente ficará que o relato da primeira transgressão deve ser recebido na sua simplicidade, com os seus fatos e símbolos entremeados, por todos os que têm por sagrada a autoridade de nosso Senhor e dos seus apóstolos.

II, 8Antigo Testamento. 1. No Antigo Testamento há poucas alusões inegáveis às circunstâncias da Queda. Lemos em Jó: se, como Adão, encobri as minhas transgressões, ocultando a minha iniquidade em meu íntimo (Jó 31.33). Encobrir a iniquidade é próprio dos homens, mas parece haver aqui uma referência marcante ao diálogo entre Adão e o seu Criador. Uma passagem de Oseias tem sido citada muitas vezes em favor da aliança das obras feita no paraíso: Mas eles transgrediram a aliança, como Adão (Os 6.7). No entanto, isso pode ser traduzido, e de fato o é, como homens [N. do T.: assim traduz a KJV]. Em toda a economia mais antiga, Adão se funde com a sua posteridade; e a queda da humanidade, como o pecado que a causou, é pressuposta em toda parte como um postulado. O Antigo Testamento não está constantemente lançando de novo a base; antes, está sempre deixando os princípios elementares da doutrina de Cristo (Hb 6.1). Por isso, como nas duas passagens citadas acima, o homem é Adão, e Adão é o homem.

Evangelhos. 2. Nos Evangelhos não há, literalmente, uma só alusão expressa à narrativa da primeira catástrofe. Ela não precisava da corroboração de nosso Senhor e, por isso, não a recebeu. Mas, se pesarmos bem as suas palavras sobre a questão do divórcio, teremos de concluir que o registro inteiro tem a sua suprema sanção como história: Vocês não leram que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher e que disse: “Por isso o homem deixará o seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne”? (Mt 19.4-5). Quem lê isso como história lê como história o que vem logo em seguida; e as declarações do Redentor, já citadas, a respeito daquele que foi assassino desde o princípio (Jo 8.44), referem-se evidentemente à própria narrativa de Gênesis.

São Paulo. 3. São Paulo, que herdou a doutrina judaica posterior e deu sanção cristã a boa parte dela, confirma mais de uma vez a textura literal da nossa narrativa. É assim que devemos interpretar as suas palavras: assim como a serpente, com a sua astúcia, enganou Eva (2Co 11.3). Ali ele se refere a Satanás, que então se disfarçou, como ainda hoje se disfarça de anjo de luz (2Co 11.14), em vez de rastejar sobre a terra. Assim também a sua profecia e oração: o Deus da paz esmagará Satanás debaixo dos pés de vocês (Rm 16.20), que é um eco da primeira promessa feita ao homem por meio da condenação do diabo. Aqui se pode observar, de passagem, que o Apóstolo, ao usar o termo disfarça, nos dá a única solução de que precisamos para a dificuldade de uma tentação pela voz de uma serpente. Além disso, como veremos, são Paulo funda o seu argumento do pecado original na narrativa literal da Queda.

II, 9Apocalipse. 4. A relativa reserva do restante da Escritura quanto aos fatos e símbolos da narrativa é rompida no último livro. O Apocalipse volta a Gênesis e cita quase todos os pormenores, de tal maneira que, ao mesmo tempo, sanciona o caráter literal do relato e o alivia de algumas das suas dificuldades. A promessa final à primeira das sete igrejas é: Ao vencedor, darei o direito de se alimentar da árvore da vida, que se encontra no paraíso de Deus (Ap 2.7). Aqui o Éden literal do homem e a árvore literal da qual ele foi excluído reaparecem no seu significado celestial; mas o espiritual, que vem depois, pressupõe a realidade do natural, que veio primeiro. A sentença contra Satanás também tem o seu significado espiritual e eterno: E foi expulso o grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, o sedutor de todo o mundo (Ap 12.9). A sedução que ele exerceu sobre os nossos primeiros pais se funde com a sua tentação universal, da Queda em diante; mas a tremenda realidade do conflito entre ele e o Descendente da mulher, através de todas as eras da redenção, baseia-se no primeiro triunfo literal que Deus lhe permitiu, e dele decorre. A luz da glória apocalíptica brilha através de todas as eras intermediárias até o paraíso escurecido da Queda, não para livrá-lo do seu mistério impenetrável, mas para confirmar a sua verdade literal. Ela nos manda estudar a narrativa num espírito de fé simples, deixando ao próprio Deus a defesa dos seus justos juízos e dos seus caminhos insondáveis, e alegrando-nos apenas porque as folhas da árvore da vida são para a cura dos povos e porque nunca mais haverá qualquer maldição (Ap 22.2-3) para os que entram no paraíso celestial.

Teorias. II. As duas teorias de interpretação chamadas mítica e alegórica são, na verdade, uma só; com esta diferença importante, porém: a primeira nega a autoridade divina que a segunda admite ou não exclui.

Mítica. 1. A teoria mítica apela para as tradições universais do paraíso e da Idade de Ouro, para o caráter não histórico da serpente, das árvores, do andar de Deus à tarde e de outros traços dos pormenores, como indícios, todos eles, de uma origem lendária. Diz-se que a narrativa hebraica é apenas uma versão tribal de uma ideia comum entre as nações primitivas. Aceitamos a verdade que está por baixo dessa falsa teoria. As tradições de muitas nações contêm relatos míticos que foram tecidos com os fios de uma tradição primitiva; mas elas revelam à primeira vista o seu caráter lendário. Não há mito na Bíblia, como já se mostrou; e as tradições da história primitiva do mundo registradas em Gênesis não estão de modo algum ligadas a um povo em particular. Elas se apresentam como reveladas ao primeiro escritor dos documentos bíblicos e, como tais, foram incorporadas à Escritura. Pertencem aos arquivos da raça, e não de uma família dentro dela: são a tradição divina, anterior a todas as tradições humanas.

II, 10Alegórica. 2. O método alegórico de explicar este primeiro capítulo da história humana foi adotado pela escola mística, de Fílon, Clemente de Alexandria e Orígenes em diante, passando por Maimônides, até os tempos modernos. Ele admite a origem divina do relato mosaico da introdução do pecado e supõe que toda a cena é figurada: ela representaria, por meio de uma alegoria contínua, os fatos da Queda, mas sem ter com esses fatos mais ligação do que a alegoria da videira trazida do Egito tinha com a redenção de Israel. Ora, é inegável que, por esse princípio, se pode extrair da narrativa inteira o seu significado essencial, como se vê em algumas das melhores exposições da escola alexandrina. Mas esse cânon de interpretação é repudiado, como se verá, pelo testemunho claro e sem sombras da Escritura posterior, bem como pela estrita literalidade do estilo do capítulo inicial de Gênesis em geral. Fato e parábola estão divinamente entrelaçados.

Simbolismo. 3. O caráter puramente histórico da narrativa pode ser mantido em perfeita coerência com o pleno reconhecimento do amplo elemento simbólico que ela contém. É preciso lembrar que a cena do paraíso, embora introduzida na história humana, pertence a uma ordem de acontecimentos muito diferente de tudo o que a experiência humana conhece ou pode avaliar corretamente.

Narrativa escrita em termos sacramentais. (1.) Embora a narrativa seja verdadeira, e real cada circunstância dela, não há um só traço da história paradisíaca do homem que seja puramente natural, no sentido em que hoje entendemos o termo. O processo da provação humana, mais longo ou mais curto, foi conduzido sobrenaturalmente por meio de símbolos, cujo significado profundo hoje conhecemos apenas em parte, embora os nossos primeiros pais talvez os entendessem por ensino expresso. O jardim cercado; a sacramental árvore da vida, alimento de uma imortalidade condicional; a mística árvore do conhecimento, cujo fruto revelaria o profundo segredo da liberdade; o único preceito positivo, que representava a lei inteira; a forma simbólica de serpente assumida pelo Tentador; o caráter das ameaças e o seu cumprimento em todas as partes envolvidas; a exclusão do jardim e as defesas flamejantes do Éden perdido: tudo isso era emblema e também fato, e quase sem exceção reaparece no fim da revelação com o seu novo e mais elevado significado simbólico. Tanto em Gênesis como no Apocalipse, são símbolos ou sinais de profundo significado espiritual. Lembrar isso serve a dois propósitos. Sugere que os nossos primeiros pais estavam ligados ao seu Criador por uma religião que tornava sacramentais todas as coisas ao redor deles, e algumas de modo especial. E protege os simples pormenores do jardim contra o desprezo dos incrédulos, que neles nada veem além do que aparece na superfície da narrativa. A água do batismo e o pão e o vinho da eucaristia são coisas pequenas e comuns em relação às realidades assombrosas que significam. Mas o espírito incrédulo nada encontra nesses símbolos, como tais, a que objetar. Então, por que se haveria de julgar incrível que as duas árvores do paraíso dessem fruto sacramental?

II, 11Em termos da redenção vindoura. (2.) Isso nos leva a considerar que a história da Queda nos é descrita com constante referência à redenção que viria: é o primeiro capítulo da história do homem, mas do homem como redimido. O todo precisa ser lido à luz da grande salvação, que já então estava preparada para ser revelada. A pena de morte não executada de imediato; a expulsão do Éden com uma profecia de libertação futura; as condições providenciais em que os transgressores são enviados ao mundo: tudo isso indica que a narrativa da Queda e do fim da primeira provação é, na verdade, a narrativa do começo do evangelho e da segunda provação da humanidade.

Em termos do conhecimento posterior. (3.) Mais uma vez, este registro descreve a Queda em termos tomados, por assim dizer, da história posterior do homem. Que forma o mandamento assumiria na mente de uma criatura não caída, qual seria a ideia da alternativa entre o bem e o mal, como a tentação se dirigiria a uma vontade que nunca estivera em estado de rebelião ou de vacilação, não podemos compreender, pois essas coisas não foram reveladas. A situação do espírito puro em estado de provação e à beira da queda, mas até então sem consciência do pecado, é um segredo perdido para nós: desde a Queda, nenhum mortal esteve nessa situação, nem jamais estará, já que a tentação não fará parte do nosso céu futuro. A mesma incapacidade de apreender e enunciar a verdade aplica-se à história da cena da tentação do nosso A tentação dos dois Adões. Senhor. No que diz respeito à tentação tanto do primeiro quanto do segundo Adão, o registro adota a linguagem que o homem conhece como pecador. No caso do Redentor sem pecado e impecável, a divindade que nele habitava, ou melhor, a sua divindade essencial, e não apenas uma divindade que nele habitasse, era uma salvaguarda infinita contra a possibilidade de ele passar por aquilo que pertence à essência da tentação própria do estado de prova. Mas a linguagem usada a respeito da sua provação, mais que ardente, adota os termos que o nosso pecado nos tornou familiares. Ele foi provado e declarado Filho de Deus com poder, segundo o Espírito de santidade (Rm 1.4) [N. do T.: a NAA traz “designado”], se assim podemos aplicar as palavras de são Paulo. Ficou manifesto, por essa prova, que ele era sem pecado e incapaz de pecar, assim como ficou provado no Getsêmani que nenhuma pressão sobre o seu espírito podia fazê-lo vacilar na vontade de Deus. A hora da sua honra mais alta, no monte da Transfiguração, foi também a sua tentação, no sentido de prova. Ele foi sondado de ponta a ponta pela glória do Pai e declarado o Filho amado, em quem Deus se agradava, embora naquela noite fosse de novo consagrado à cruz. Mas a tentação do nosso Senhor é sempre descrita nos mesmos termos que se usariam a respeito de um santo entre nós. Se não tivermos presente essa mesma coisa ao ler o relato da primeira prova humana, tudo será extremamente desconcertante. Não havia concupiscência má na natureza do homem; mas a mulher é abordada como se essa concupiscência estivesse latente nela e pudesse ser despertada. O sentido das palavras de Deus na ameaça é discutido pelo Tentador diante de Eva como se ela estivesse acostumada a comparar verdade e falsidade e a tirar as conclusões que a suspeita sugere. O processo de primeiro admitir a possibilidade de que a palavra divina fosse falsa e o seu mandamento não fosse bom, depois consultar o apetite e a decisão dele quanto a ser desejável a árvore e, por fim, tomar efetivamente o fruto, é todo descrito à maneira da tentação humana comum. Assim também o imediato senso de culpa e de vergonha. Assim também a sugestão feita a Adão e o seu ceder à sedução da sua tentadora. Todo o processo não poderia ser descrito tal como de fato ocorreu na mente dos nossos primeiros pais, ainda sem pecado: a fraseologia deriva da nossa experiência culpada posterior. Somos ensinados do único modo pelo qual poderíamos ser levados a entender aquilo que nos importa saber, e temos de nos submeter às limitações das nossas faculdades caídas.

II, 13A PROVAÇÃO ORIGINAL.

A provação original. Nada se diz quanto ao grau de conhecimento comunicado a Adão e Eva sobre a natureza, as condições e os limites do seu estado de provação. O registro é muito simples: contém apenas o esboço despojado que aprouve a Deus comunicar à infância do mundo. Mas o fato da PROVAÇÃO é tão claro quanto as palavras podem torná-lo. Colocado no jardim para o cultivar e o guardar, como centro de um cultivo que poderia estender-se por todo o mundo, Adão, e nele a raça humana, estava em prova. Ele representava a sua posteridade, mas não como mediador entre Deus e ela; por isso, a ordenança da provação não tinha a natureza de uma aliança. A chamada ALIANÇA DAS OBRAS não tem lugar na história do paraíso. Não se pode pensar que criaturas morais trazidas à existência sejam tratadas como partes de uma aliança: a ideia de aliança pertence a outra ordem de coisas e requer um mediador. Os nossos primeiros pais foram simplesmente colocados sob a lei do seu Criador, e a pena da desobediência lhes foi dada a conhecer. A contrapartida disso, o estabelecimento numa vida eterna fixa e consumada, pode ser considerada como reservada no conselho divino.

Lei positiva. As circunstâncias da provação foram um mandamento positivo, com a sua sanção, e a tentação vinda de fora: ambos se dirigiam a uma vontade conscientemente livre, ou sem restrições, e ainda sob a direção de uma razão na qual a lei, ou a obrigação de obediência, estava sobrenaturalmente escrita.

II, 14As árvores. 1. A única lei absoluta tinha uma forma negativa e outra positiva, ligadas às duas árvores simbólicas do jardim: a Árvore da Vida e a Árvore do Conhecimento. Comer de uma era a condição positiva da continuação da vida e de todos os benefícios da criação; abster-se da outra era a condição negativa. Não se deve supor que as árvores tivessem alguma virtude inerente: uma, para sustentar a vida para sempre; a outra, para envenenar e corromper a natureza do homem. O comer solene do fruto da árvore da vida era apenas um sacramento de imortalidade; era, em relação ao comer de toda árvore do jardim (Gn 2.16), o que a Ceia cristã é em relação a todos os outros alimentos. O comer fatal da árvore do conhecimento era apenas o sinal exterior e visível de um pecado que, pela lei divina entretecida na natureza humana, teria sido seguido de vergonha, culpa e medo ainda que tal árvore não existisse. Comendo do seu fruto, o homem chegou ao conhecimento efetivo do bem e do mal, ao conhecimento da sua miséria: um conhecimento que lhe deu a conhecer o seu próprio poder sobre o seu destino (como se ele fosse o seu próprio deus) e, ao mesmo tempo, lhe ensinou que esse poder, independente de Deus, era a sua ruína.

A serpente. 2. A tentação vinda de fora foi mais que simbolizada pelo instrumento (agora caído do seu primeiro estado, como o próprio tentador real) da antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, o sedutor de todo o mundo (Ap 12.9). A clareza deste registro é de grande importância. Ela estabelece uma diferença entre o pecado original da terra e o pecado original do universo. Não precisamos, de fato, supor que os anjos que caíram foram tentados apenas por dentro: há toda razão para pensar que, assim como pela inveja do diabo a morte entrou no mundo (Sabedoria 2.24), assim também, pela mesma inveja, despertada por outro Objeto no céu, a morte entrou entre os anjos. Não é possível que o pecado tenha a sua origem dentro do espírito de uma criatura de Deus independentemente de alguma solicitação vinda de fora. Mas, no caso do homem, a ação de Satanás é posta em destaque do começo ao fim das Escrituras: não como algo que reduza a culpa da primeira transgressão, mas como algo que mitiga o seu castigo e sugere, pelo menos, que se estabeleceu uma diferença entre os anjos pecadores e a raça humana.

II, 15A tentação vinda de fora. 3. Quanto à condução do primeiro ataque, temos um relato muito claro, na medida em que ele foi externo: o elemento interno da tentação não é mencionado, nem o misterioso começo do pecado, o ponto em que a tentação encontra algo em que se agarrar, porque ela mesma o cria. Em outras palavras, a origem do pecado na natureza do homem, ainda incorrupta, assim como a origem do mal no universo, ainda incorrupto, não encontra solução na revelação de Deus. Não nos é dito como o puro desejo de conhecimento se tornou a cobiça de um conhecimento independente e proibido, nem como a sensibilidade natural da alma ao gozo da árvore pôde tornar-se concupiscência má. Ficamos limitados ao fato solene.

A QUEDA.

A Queda. A Queda no pecado foi interna e externa: o pecado, primeiro, do espírito humano e, depois, da carne humana. Por isso, ela pode ainda ser vista como uma degradação voluntária, ou ativa, e passiva, ou judicial, do elevado estado em que o homem foi criado.

Interna e externa. I. O lapso original foi, ao mesmo tempo, interno e externo.

1. A separação da Vontade suprema consumou-se por dentro antes de se manifestar em ato. O princípio mais íntimo do pecado é o rompimento do eu com Deus; por isso, dar acolhida à pergunta É verdade que Deus disse? (Gn 3.1) foi o começo do mal humano. Esse foi o primeiro pecado formal, embora as Escrituras não se refiram a ele como tal. O ato exterior foi o olhar de concupiscência lançado à árvore, que já trazia em si a culpa de comer dela e foi seguido pelo próprio comer. Por isso, em todas as referências do Novo Testamento ao pecado original, o seu princípio de desobediência é posto em destaque. A mulher, sendo enganada, caiu em transgressão (1Tm 2.14): ἐν παραβάσει. E, quando Adão cedeu à sedução de Eva, apenas provou que já havia consentido no ato dela; também ele estava em transgressão. O seu pecado foi desobediência, παράπτωμα e παρακοή (Rm 5.15,19); pois Adão não foi iludido (1Tm 2.14).

Espiritual e sensível. 2. Por isso, a primeira ofensa foi espiritual e sensível: as duas coisas estavam inseparavelmente unidas, mas, segundo o relato das Escrituras, a tentação sensível tomou a dianteira na transgressão, embora a mais espiritual tenha tomado a dianteira na sedução. A sugestão do Tentador apelou ao que havia de mais alto e ao que havia de mais baixo entre os elementos da natureza humana: à sua capacidade ilimitada de conhecimento e à sua sensibilidade aos prazeres dos sentidos. Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto (Gn 3.6). Não se deve, porém, inferir disso que a Queda do homem tenha sido simplesmente um declínio para a escravidão dos sentidos. Não há pecado que não comece no espírito, ainda que possa chegar à sua plenitude na carne. Os primeiros pecadores rejeitaram o freio do Espírito Santo de Deus e se fizeram independentes no pensamento e na vontade antes que o fruto da árvore proibida pudesse tornar-se uma tentação real. Esse mistério oculto da iniquidade, por trás do ato de transgressão, só veio à luz na Queda registrada.

II, 16Efeitos. 3. As consequências imediatas da queda no pecado são claramente reveladas, embora ainda num estilo em parte simbólico e figurado. O primeiro efeito é descrito numa linguagem que a experiência mais íntima dos homens lhes torna familiar. Foi o conhecimento imediato do bem e do mal (Gn 3.5): o nascimento da má consciência, a consciência moral perturbada por um senso de culpa; o começo da vergonha, ou seja, do senso de degradação e de vileza. Essa dupla consciência foi, por assim dizer, um novo nascimento para a injustiça: a primeira realização, na experiência, da distinção entre o bem e o mal, distinção que, no entanto, já fora dada a conhecer teoricamente, por revelação, aos nossos primeiros pais quando ainda não haviam transgredido. Assim vemos retratadas ao mesmo tempo as relações externas e as internas: culpa diante do seu Juiz e impureza aos olhos dele. Essas coisas afastaram os transgressores da presença do seu Criador, o que era o inverso do sentimento de um dos seus descendentes: Senhor, afaste-se de mim, porque sou pecador (Lc 5.8). Fugiram de Deus porque Deus se havia afastado deles. Esconderam-se da presença do Senhor Deus (Gn 3.8): não como se tivessem descido tão baixo a ponto de julgar possível que as árvores os escondessem, mas por um sentimento de temor espiritual. Sentiram de imediato que, a não ser que o próprio Criador interviesse, estavam separados dele para sempre. Por isso, temos no simples registro dos efeitos da primeira transgressão todos os elementos da doutrina do pecado. Foi o desvio interno da vontade em relação à vontade do Supremo; foi culpa objetiva, a vindicação divina da lei eterna na consciência; foi culpa em sentido subjetivo, como consciência de falta pessoal e de obrigação à pena; e foi a expressão de um senso de separação da presença de Deus (por ora, de uma separação sem esperança): a pena suprema do pecado.

II, 17A Queda ativa e passiva. II. O termo QUEDA deriva provavelmente da sublime descrição da Sabedoria e das suas obras num livro apócrifo que contém algumas outras referências ao começo do pecado, o que mostra quanto a teologia judaica posterior se ocupava do assunto. Ela preservou o pai do mundo, formado primeiro, que fora criado sozinho, e o tirou da sua Queda (Sabedoria 10.1). Aqui, de fato, a queda é a do primeiro pai como indivíduo; mas o verdadeiro instinto de interpretação sempre fez de Adão e da humanidade uma só coisa e, por isso, adotou a expressão QUEDA DO HOMEM. Foi a descida voluntária da vontade humana, que deixou a sua unidade com a vontade de Deus; foi a consequente degradação da humanidade, decaída das altas prerrogativas próprias da imagem divina em que o homem foi criado. Tanto o sentido ativo quanto o passivo da palavra, tal como foi introduzida na linguagem teológica, devem ser mantidos.

A Queda ativa. 1. Quanto ao primeiro sentido, um olhar superficial para a cena que abre a história humana no jardim levou muitos à conclusão de que os nossos primeiros pais foram vítimas das circunstâncias; de que foram enganados e tropeçaram sem perceber; de que uma tentação poderosa, vinda de fora, cooperou com a simplicidade da sua consciência, ainda não formada nem disciplinada, para arruiná-los sem que se dessem conta. Mas é preciso lembrar que os seres cuja personalidade livre o Deus justo pôs à prova foram criados retos. A sua liberdade era perfeita, isto é: não só possuíam a faculdade de querer ou escolher de modo indeterminado, como seres não constrangidos por uma lei necessária vinda de fora, mas também a sua vontade formal estava preenchida pelo seu objeto real, fixada no próprio Deus. A própria natureza e os termos da prova mostram que eles entendiam a alternativa entre o bem e o mal: foram ensinados que o bem era a perfeita obediência à vontade divina e que o mal (que conheciam e, ao mesmo tempo, não conheciam) era a desobediência a essa vontade. Embora tenha sido o Inimigo quem disse: como Deus, vocês serão conhecedores do bem e do mal (Gn 3.5), não foi ele quem primeiro apresentou à mente humana a mais tremenda de todas as alternativas. Pois a advertência de Deus foi: no dia em que dela comer, você certamente morrerá (Gn 2.17). Que outro ensino receberam, não somos informados; mas certamente podemos concluir que não foram deixados na ignorância da relação entre o único preceito positivo e a lei mais geral, não expressa, do seu dever como criaturas de Deus. Também não sabemos que educação haviam recebido, nem por quanto tempo a receberam, na comunhão com o seu Criador e no ensino do Espírito Santo. Sabemos apenas que, tanto da parte de Eva quanto da parte de Adão, houve uma revolta deliberada contra o Todo-Poderoso; que o ato da sua vontade não foi simplesmente o abuso da liberdade de indiferença (que, no caso deles, não podia existir), mas o efetivo arrancar dessa vontade do seu Objeto determinado e legítimo; que nunca a vontade humana foi mais absoluta na sua ação que a deles; que foi, por assim dizer, a vontade concentrada da humanidade desviada do bem para o mal.

II, 18A Queda passiva. 2. A Queda passiva foi proporcional a tão grande mal. Considerada à parte do Reerguimento em Cristo (Lc 2.34) [N. do T.: Pope segue a versão inglesa, em que o menino é “posto para a queda e o reerguimento de muitos”; a NAA traz “destinado tanto para ruína como para elevação de muitos em Israel”], foi uma descida total da humanidade, decaída da sua alta destinação; envolveu nas suas consequências a própria terra e agravou a condenação do principal agente da tentação, sem omitir a degradação do agente subordinado de que ele se servira. O homem já não era a imagem e glória de Deus (1Co 11.7); pois, embora conservasse inviolada a sua natureza humana, criada à imagem divina, a glória dessa imagem estava perdida. A sua natureza (tomando esse termo no sentido secundário, como a qualidade moral da sua disposição, que aparece invariavelmente em cada reprodução do tipo original) tornou-se inteiramente pervertida. Nem a mulher era mais a glória do homem (1Co 11.7), no melhor sentido dessa palavra: a relação da mulher com o homem ficou, dali em diante, privada da sua mais alta perfeição. O homem caiu da sua destinação: a de um progresso eterno de glória em glória, em comunhão sem pecado com o seu Criador. Desceu a uma esfera inferior: saiu da comunhão com o céu para uma vida de discórdia exterior e de miséria interior. Perdeu a sua visão intuitiva de Deus, já não conversava com o seu Criador por meio dos símbolos da natureza e teve de começar, ele e todos os que haveriam de ser seus, pelos primeiríssimos princípios de um mundo espiritual. Mas não sabemos quão grande foi a Queda: depois das primeiras palavras do desagrado divino, não se faz nenhum outro comentário sobre o assunto. A sua influência posterior sobre a raça e a sua mitigação pela expiação universal estão diante de nós, mas não de imediato. Se aquela Queda não foi total, foi porque a Mão invisível do Redentor a deteve. O Menino Jesus, já então o novo Pai e Cabeça da humanidade, estava desde aquele momento posto para a Queda e o REERGUIMENTO da raça humana (Lc 2.34). Mais sobre esse aspecto mais luminoso do assunto, porém, deve ficar reservado para a doutrina do pecado original.

II, 19A redenção vindoura. 3. Nesse fato (a redenção vindoura, ou melhor, a redenção que foi revelada antes que o paraíso se fechasse para os nossos primeiros pais) temos a única resposta que se pode dar aos protestos levantados, com honestidade ou sem ela, contra a narrativa da Queda. Não nos faltam, de fato, meios para vindicar a justiça do Deus santo no seu profundo desagrado com a primeira ofensa. Mas não lidamos com a santidade de Deus separada do seu amor. Desde o princípio, a misericórdia triunfa sobre o juízo (Tg 2.13). O Mediador já está entre o Juiz e o pecador. E, se a justiça de Deus fez os primeiros transgressores voltarem à destruição quando lançou fora o homem (Gn 3.24) do paraíso da sua presença, perdido pelo pecado dele, a sua misericórdia ainda se faz ouvir, seguindo de perto a sua ira: Voltem, filhos dos homens (Sl 90.3) [N. do T.: Pope segue a versão inglesa, “Tu fazes o homem voltar à destruição e dizes: Voltem, filhos dos homens”; a NAA traz “Tu reduzes o ser humano ao pó e dizes: ‘Voltem ao pó, filhos dos homens'”].

II, 20TEORIAS SOBRE A ORIGEM DO PECADO.

Teorias do pecado. A especulação filosófica propõe várias teorias para explicar a derivação do pecado, que, sendo um dos fatos mais universais da experiência, deve ter alguma causa comum. Essas teorias reúnem numa só coisa a sua origem e a sua natureza, pois é impossível separar perfeitamente as duas ideias. O mais desesperado de todos os expedientes supõe ousadamente um princípio eterno do mal, que, na sua atuação no âmbito das criaturas, se torna pecado. A solução mais especiosa faz do que parece ser o mal apenas a limitação própria da criatura a caminho da perfeição. Entre essas duas, e combinando-as, está a teoria menos filosófica que faz do pecado o efeito da residência do espírito na carne da concupiscência. O exame dessas hipóteses levará à verdadeira causa do pecado, tal como as Escrituras a apresentam e o senso comum do homem a confirma: o abuso do dom da liberdade.

PRINCÍPIO ETERNO DO MAL.

Princípio original do mal. As primeiras e mais antigas especulações explicavam a existência do pecado supondo no universo um PRINCÍPIO DO MAL necessário.

Parsismo. 1. Herdada do remoto Oriente, essa noção foi sustentada nas seitas gnósticas do cristianismo primitivo, no maniqueísmo e em certos sistemas que surgiram na Igreja ocidental medieval. Zoroastro (Zaratustra), fundador real ou imaginário da religião do parsismo, por volta do tempo dos últimos profetas judeus, apresentava Ormuzd (Ahura-Mazda) como o autor de todo o bem e Ahriman (Anra-Mainyus) como o autor de todo o mal na natureza das coisas. Eram espíritos pessoais independentes, cada um governando de modo absoluto no seu próprio domínio; não, porém, de modo tão absoluto que não tivessem relação um com o outro, pois estavam em perpétuo conflito, e todos os seres criados são chamados a escolher entre eles. Essa antiga especulação lançou raízes profundas no pensamento humano e reapareceu nos sistemas gnósticos dos primeiros tempos cristãos. Mas nestes ela sofreu modificações. O princípio mau tornou-se o agente ativo na criação do universo material; era o Demiurgo de uma matéria que existia eternamente como ὕλη, Hyle, a substância de todo o mal; o homem era produto dos dois reinos, o da luz e o das trevas, tendo afinidade com o primeiro no seu espírito e com o segundo na sua alma e no seu corpo. O pecado humano era a contaminação necessária que o espírito contraía da sua aliança com a matéria; e a redenção era a libertação dessa servidão. No século III, Manes reavivou esse dogma do gnosticismo, e dele veio o nome de maniqueísmo; ele insistia, porém, em que não se tratava de dois deuses eternos, mas de dois princípios eternos. No século XII, apareceu na heresia pauliciana; e em todas as épocas teve os seus defensores entre os que rejeitaram o panteísmo e, ainda assim, se recusaram a aceitar o Deus pessoal das Escrituras.

II, 21Tributo à verdade. 2. Seja qual for a forma que essa velha teoria tenha assumido, ela prestou o seu tributo inconsciente à verdade. Se esse princípio do mal é uma Pessoa, como no dualismo persa, não pode haver um Deus infinito e eterno. Se é a Hyle, ou Matéria, então a sua eternidade como material do mal implica a negação de todo atributo divino. A mente humana jamais encontrou repouso nessa concepção. O próprio parsismo revelou a tendência de esforçar-se para subir até a ideia de uma essência eterna, além e acima de Ormuzd e Ahriman, na qual eles tinham a sua unidade e na qual, no decorrer das eras, encontrariam a sua reconciliação. Também não faltam vestígios do ensino de que Ahriman caiu, como Satanás, por um ato da vontade. Embora esses protestos latentes não afetassem o dualismo essencial do sistema como um todo, eram expressões silenciosas da profunda convicção da razão de que há, e tem de haver, um único Ser absoluto, e de que o mal, seja qual for a sua fonte, é essencialmente errado e está em conflito com aquilo que o homem sabe com segurança ser o certo; ou, em outras palavras, de que o pecado é o pior eternamente oposto ao melhor. Por isso, finalmente, pode-se dizer que havia certa nobreza nesse antigo erro, que se compara favoravelmente com aquele a que nos voltaremos a seguir. Ele admitia que há no pecado uma realidade terrível; representava o homem como passando por uma tremenda provação; tinha um pressentimento obscuro e vago da culpa, dando assim um grande passo em direção à doutrina perfeita das Escrituras; e aspirava à ideia ainda mais grandiosa de uma redenção plena e eterna.

II, 22LIMITAÇÃO DA NATUREZA FINITA.

Limitação finita. A necessária LIMITAÇÃO DA NATUREZA FINITA é um expediente filosófico muito difundido para a solução do mistério. Seja qual for o modo como se enuncie e sejam quais forem as restrições que se lhe imponham, essa teoria tem forçosamente de fazer do Autor da natureza finita o autor do pecado: ou de modo absoluto, ou como o processo necessário do desenvolvimento da criatura rumo ao bem supremo que está nele mesmo.

O pecado abolido. 1. Tal como sustentada pelas diversas modificações do panteísmo, essa especulação abole inteiramente o pecado e o dissolve na noção geral do desenvolvimento necessário da natureza das coisas. Mas a natureza das coisas é o próprio Deus, que é ao mesmo tempo a única substância eterna e um desenvolvimento eterno em dois modos, pensamento e matéria. Não há criatura, pois todas as coisas são a evolução de um só Ser substancial. Por isso, o que parece ser o finito é apenas o infinito que se exibe como fenômeno. Durante a sua aparição transitória, está sujeito ao mal metafísico da limitação: quanto mais ser há na coisa que passa pelo desenvolvimento, tanto mais perto ela está da perfeição; quanto menos ser ela tem, tanto mais está infectada pelo mal, ou por aquilo que os homens chamam de pecado. Mas todas as coisas são apenas manifestações do Uno; e o que nos parece contrário à vontade de Deus é apenas o processo pelo qual se alcança o fim, que é o retorno à essência infinita. O panteísmo não conhece pecado nem obrigação moral; reconhece apenas uma necessidade eterna de cumprir, através de fases de mal metafísico, o destino transitório daquilo que o homem chama de criatura.

Processo necessário. 2. Mas algo semelhante a essa teoria tem sido sustentado por pensadores profundos que não são panteístas. Estes se dividem em duas classes: os que fazem do mal um acidente necessário da criatura enquanto limitada, conservando-lhe o caráter de pecado; e os que fazem dele um acidente necessário, mas ao mesmo tempo o processo divinamente determinado pelo qual, mediante o antagonismo, o bem se desenvolve.

Limitação do ser. (1.) O princípio radical da primeira classe é que o pecado é meramente uma negação do ser, um menos quantitativo na força da existência. A criatura não pode ser perfeita: o seu conhecimento está sujeito ao erro, a sua vontade está sujeita ao desvio. E essa própria sujeição é mal metafísico: não se pode conceber a criatura protegida da possibilidade do pecado, e a possibilidade, na lógica severa dos fatos, é o próprio pecado. Mas esse pecado é apenas algo negativo; não tem existência positiva e não precisa de causa EFICIENTE para se originar. Se for necessária alguma causa, pode-se inventar para esse fim uma causa DEFICIENTE. Esse expediente filosófico, pode-se observar, foi aceito em certo sentido por Agostinho e por outros dos primeiros Pais da Igreja; é a força da Teodiceia de Leibniz; e, tanto nos tempos antigos quanto nos modernos, tem-se recorrido a ele para vindicar o caráter divino na permissão do mal.

II, 23Antagonismo. (2.) Muitos escritores modernos se detiveram longamente numa teoria que explica o pecado pelo princípio de um antagonismo necessário, ou pela operação de uma lei universal de ação e reação. Assim como a vida e a morte, a luz e as trevas, a atração e a repulsão, as energias centrípeta e centrífuga do universo são opostos que, na sua interação, produzem a perfeição das coisas, assim também a virtude e o vício, o mal e a bondade são opostos que não se podem separar na nossa avaliação da provação. O Eterno quis que houvesse um conhecimento do bem e do mal: do bem como aquilo que sobrevive na luta contra o mal. Não há virtude senão como vitória sobre o vício; nem bondade senão como vitória sobre o mal. O peregrino que se dirige a essa Jerusalém tem de passar pela Samaria: é ordem da Providência que todas as criaturas encontrem assim o caminho até ele mesmo. Essa é uma teoria que simplesmente adota no domínio moral o princípio físico da evolução. É uma teoria que exerce grande fascínio sobre especuladores superficiais, que não examinam os princípios eternos da religião na sua própria natureza e que se contentam em renunciar ao ensino claro da Palavra de Deus. A noção sentimental de que o desenvolvimento humano não se pode conceber senão como um processo que passa pelo mal até chegar à perfeição é refutada, fora da nossa raça, pelos anjos que não caíram e, dentro dela, pelo Redentor sem pecado da humanidade.

Dilema. (3.) Seja qual for a forma que esses esquemas assumam, ou abolem inteiramente o pecado como tal, ou fazem de Deus o seu Autor. Desse dilema não conseguem escapar. É verdade que muitos dos que sustentaram essas opiniões encontraram nelas um refúgio para mentes cansadas da luta desesperada com a anomalia do mal no universo de um Criador santo e todo-poderoso. Mas apenas deram uma prova a mais de que tal luta não foi designada para as faculdades finitas do homem. Deus não sanciona nem abençoa a tentativa de devassar esse mistério. É verdade também que essas teorias, à parte a sua pretensão de resolver o mistério do mal, contêm muitos elementos de verdade. A possibilidade do pecado e do erro é, com toda a certeza, um atributo da criatura como tal, e a liberdade humana é o segredo do erro humano; mas a imperfeição metafísica não é necessariamente mal moral, e o mal negativo de ser imperfeito não é o germe do pecado. Sem dúvida, depois da Queda, e pressupondo que o antagonismo do bem e do mal produz, mediante a disciplina da graça, a mais alta perfeição da criatura, pode ser que o conflito com o pecado resulte num tipo de santidade e de conhecimento de Deus desconhecido dos que não caíram. Mas o pensador cristão jamais pode supor que o Pai dos espíritos tenha criado seres inteligentes sob a lei de uma imperfeição necessária, na qual o mal está implicado.

II, 24NATUREZA SENSÍVEL.

Natureza sensível. Outra teoria combina as duas anteriores, ao menos em alguns dos seus elementos: deriva o mal humano da NATUREZA SENSÍVEL do homem e faz dele o antagonismo entre a carne e o espírito, sendo o predomínio da primeira sobre o segundo o que explica tanto a origem quanto a natureza de todo pecado.

Especulação cristã. 1. Essa hipótese assumiu muitas formas e reinou com grande amplitude na especulação cristã. Sugere uma origem gnóstica, na medida em que parece considerar a matéria como a sede e a fonte do pecado; mas difere do gnosticismo ao fazer do predomínio da carne uma questão de escolha pessoal e livre. Entra em todos os sistemas que consideram o mal uma etapa necessária do desenvolvimento de uma inteligência livre; mas difere dos que já mencionamos nisto: faz da carne apenas o instrumento acidental pelo qual se mostra a fraqueza inerente das faculdades superiores. Na doutrina medieval, que tomou a sua forma final nos dogmas tridentinos, considerava-se que a natureza inferior era contida pelo dom sobrenatural da justiça, cuja retirada soltou e pôs em ação a concupiscência da carne. A exposição mais elaborada dessa teoria é a de Schleiermacher, que contrapõe, no homem, a consciência de Deus à consciência de si enquanto relacionada com o mundo. No propósito divino, a carne, ou a consciência de si no mundo, devia, pelo desenvolvimento, ser levada à perfeita submissão à consciência de Deus. Esse desenvolvimento foi impedido pela Queda; e o conhecimento do fracasso nele é o sentimento de culpa ou de pecado. Em Cristo, o Homem ideal, que apresenta a realidade daquilo que a natureza humana jamais alcançou fora dele, a consciência de Deus predomina perfeitamente; e passa a predominar em nós pela comunhão com ele. É evidente que nesse sistema nebuloso podemos discernir, sob uma nuvem de palavras, os elementos de todos os erros já mencionados. A teoria geral assume uma forma mais racional naqueles escritores que falam do pecado como simplesmente o resultado de uma rendição da vontade, já no primeiro despertar da responsabilidade consciente, ao domínio dos objetos dos sentidos, que a solicitam no próprio limiar da vida e assim têm a vantagem do primeiro apelo. Todas essas modificações, porém, concordam no princípio fundamental de que, de um modo ou de outro, a natureza sensível ou carnal do homem é a fonte e a ocasião do mal.

II, 25O sentido de “carne”. 2. A refutação dessa solução superficial envolve a doutrina do pecado original. Adiando, portanto, um exame mais completo dela (que, na verdade, essa doutrina tornará desnecessário), podemos fazer algumas observações, especialmente sobre o seu apelo à sanção das Escrituras. Um exame das várias formas que o contraste entre carne e espírito assume mostrará que em parte alguma o pecado é atribuído, nem mesmo implicitamente, à carne como a sua sede, muito menos como o segredo da sua origem.

Carne e espírito. (1.) A carne se opõe ao espírito no homem (a σάρξ ao πνεῦμα), assim como distinguimos o corpo, órgão da alma ligado ao mundo exterior, e o espírito, que mantém comunhão com as realidades invisíveis. No nosso estado presente, o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca (Mt 26.41); mas tanto a fraqueza da carne quanto a incapacidade do espírito de vencer essa fraqueza são igualmente resultado do pecado. São Paulo fala desse mesmo espírito fraco como, ele próprio, prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros (Rm 7.23). É verdade que ele dá ênfase ao pecado que habita em mim, isto é, na minha carne (Rm 7.17-18); mas o mal que habita não pode ser o mesmo que o tabernáculo em que habita. Assim, o CORPO do pecado é o corpo do PECADO (Rm 6.6): não que o corpo de carne seja o pecado; é apenas o seu instrumento. Não há apoio, nessa classe de passagens, para a noção de que a carne é apenas a prisão de um espírito, santo em si mesmo, embora acorrentado a um corpo de pecado e de morte.

II, 26A carne e o Espírito. (2.) Mas a carne e o Espírito também são contrastados; e, nesse caso, a carne significa a natureza do homem, a sua natureza inteira, enquanto caída de Deus. Embora sejam os pecados da parte inferior da sua constituição que lhe dão o nome, os pecados espirituais estão incluídos: as obras da carne (Gl 5.19) incluem vícios que são inteiramente independentes do corpo e que associam o transgressor humano aos espíritos imundos, os quais não podem ter paixões carnais. Portanto, quando são Paulo distingue entre o homem carnal, σαρκικός, e o homem espiritual, πνευματικός (1Co 3.1), refere-se, respectivamente, àquele cuja natureza inteira está sob o domínio do pecado e àquele cuja natureza inteira está sob o domínio do Espírito Santo. O Espírito divino possui o homem inteiro, mas habita especialmente o seu espírito; e, por meio da sua graça santificadora, o espírito, a alma e o corpo do crente, por inteiro, são feitos isentos de pecado e conservados irrepreensíveis (1Ts 5.23). A visão superficial do pecado, portanto, que faz dele o triunfo da parte inferior do homem sobre a superior, dos sentidos sobre a razão, não tem apoio nessas passagens. É diretamente desaprovada e condenada por elas.

Vaidade. (3.) Por fim, a carne é a designação da humanidade enquanto sujeita à vaidade, à fraqueza, à decadência e à morte. Também ele é carne (Gn 6.3) [N. do T.: a NAA traz “este é carnal”] é o primeiro testemunho disso, e em todas as Escrituras a fraqueza de toda a condição do homem é assim assinalada: toda carne é como a erva do campo (1Pe 1.24) [N. do T.: a NAA traz “toda a humanidade é como a erva do campo”]. Mas isso é o efeito, e não a causa, do pecado humano. O Senhor, que recebeu autoridade sobre toda carne (Jo 17.2) [N. do T.: a NAA traz “autoridade sobre toda a humanidade”], primeiro se fez carne ele mesmo (Jo 1.14). E esse mesmo fato refuta para sempre a noção de que na carne está a sede e a fonte necessárias do pecado. Jesus Cristo veio em carne (1Jo 4.2) foi o testemunho de são João contra o gnosticismo em todas as suas formas; e nele não existe pecado (1Jo 3.5). Depois disso, não precisamos de outras testemunhas. Pode-se dizer, é verdade, que a carne, tal como assumida por nosso Senhor, foi preservada do levante do seu mal pela divindade que nela habitava, dando-se ênfase ao fato de ele ter vindo apenas em semelhança de carne pecaminosa (Rm 8.3). Mas devemos lembrar que ele condenou o pecado na carne (Rm 8.3) e a restituiu à sua isenção original do mal, tal como o nosso primeiro pai a possuía. Ele se manifestou na carne para tirar os pecados (1Jo 3.5); e para vindicar, para si e para nós, a santidade da carne, tal como ela foi feita tabernáculo do espírito humano.

II, 27ABUSO DA LIBERDADE.

Abuso da liberdade. A única teoria que resta (se é que se pode chamá-la de teoria) é a que busca a causa do mal no abuso da liberdade da vontade. De todo fenômeno perguntamos a causa; e é impossível deixar de perguntar a causa deste, o pior de todos os fenômenos. Mas as causas se definem de vários modos: originante, eficiente, formal, instrumental e final. Do mal, não ousamos perguntar a causa originante, a não ser na medida em que ela passa à eficiente; e esta é a vontade do espírito criado. A causa formal, aquela que faz o mal ser mal, é o abuso da liberdade dessa vontade, que se separa de Deus. Causa instrumental não poderia haver, no caso do pecado original do universo. Quanto à causa final, não devemos falar, a não ser para citar com temor as palavras do nosso Salvador, ditas na única ocasião em que a permissão do mal lhe foi proposta como problema: para que se manifestem as obras de Deus (Jo 9.3).

Origem do mal. 1. A ORIGEM DO MAL na sua causa última e final (o seu começo absoluto e o fim a que se destina) jamais pode ser matéria de teoria, nem mesmo de conjectura. É um segredo que não está revelado e que provavelmente jamais será revelado. De época em época, excitou a especulação humana apenas para frustrá-la. A gênese, ou nascimento, do mal, quer físico, quer moral, é um MISTÉRIO DA INIQUIDADE: disso não pode haver dúvida para nenhuma mente sã. Mas como surgiu no universo santo a primeira pequena nuvem que cobriu os céus e se espalhou sobre a terra, e por que se permitiu ao mal entrar e dali jamais sair, podemos perguntar, mas não há quem responda. É a dignidade da nossa natureza criada que possamos lutar com o problema; é igualmente a limitação necessária da nossa natureza criada que sejamos vencidos por ele.

Causas do pecado. 2. Mas, quando estudamos o pecado em nós mesmos, como sujeitos dele, podemos ao menos ordenar os elementos da nossa ignorância e analisar o mistério que não podemos resolver. Na nossa participação humana na grande calamidade, temos uma causa instrumental: a tentação introduzida de fora. Mas essa tentação não encontrou na natureza humana nenhum elemento de pecado, embora tenha encontrado a sua possibilidade. Satanás veio e ainda nada tinha de seu no homem. O mistério insolúvel permanece entre as coisas encobertas do conselho divino; como o próprio fato geral da provação, é um mistério que está na base de todos os demais. A origem de todo pecado e, portanto, de todo mal, que num sentido inclui o pecado e Liberdade. em outro brota dele, deve ser buscada na LIBERDADE da vontade criada. A liberdade consciente na originação da ação e na escolha do fim da ação, seja último, seja subordinado, pertence à PERSONALIDADE do nosso espírito, marcado com a imagem de Deus. A lei divina na criação de seres morais inteligentes parece ser esta: que eles devem tornar voluntariamente seu o fim supremo da vida, por uma livre autodeterminação; que, depois de uma prova mais longa ou mais curta, essa liberdade se torne uma necessidade da natureza; e que a perfeição seja encontrada (quer pela operação interior de alguma lei espiritual, quer pela visão exterior de Deus) na relativa servidão ao bem, que é a perfeita liberdade: a mais alta ideia que podemos formar da semelhança com o nosso Criador. Assim, aquela semelhança com Deus, que é a marca da nossa mais alta dignidade, envolvia a possibilidade da nossa mais profunda degradação. Mas, quando formos finalmente criados de novo à imagem do Filho, à qual fomos predestinados a ser conformes, a provação terá cessado, e a nossa liberdade será a necessidade da bondade, como a do próprio Deus.

Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. II, pp. 1-28, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.