W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume I · Deus e a criatura
Providência. O Deus triúno da Criação é também o Deus da Providência. Este termo, no seu sentido mais amplo, significa a presença divina no mundo, que sustenta, controla e conduz ao seu destino todas as coisas que foram feitas. A vontade de Deus determina o fim para o qual existem todas as ordens de seres criados. A sua Sabedoria e a sua Bondade designam a infinita variedade de meios pelos quais esse fim único é alcançado: na Conservação da estrutura da natureza, tanto espiritual como material; no Cuidado de todas as criaturas sujeitas à necessidade; no Governo, especialmente, dos seres inteligentes e em estado de prova. E o seu Poder garante a realização de todo desígnio ou fim para o qual elas existem. A doutrina da Providência pode ser estudada, portanto, na sua relação com o Ser divino e com os atributos divinos; depois, em relação aos objetos e às características do seu exercício.
O Deus da Providência. Deus considerado em termos absolutos, e Deus na Trindade das Pessoas, é o Deus da Providência. Embora a sua Sabedoria e o seu Poder se manifestem de modo especial, só ligando a Providência a todos os atributos divinos que, como vimos, se relacionam com a criatura, poderemos formar uma ideia verdadeira do seu alcance.
Deus em geral. A Escritura fornece todos os elementos da doutrina na sua relação com Deus, e esse é o seu único método de ensiná-la. Ao reunir a substância desse ensino, temos necessariamente de repetir muito do que as seções anteriores desenvolveram, e também de omitir muito do que elas anteciparam.
1. O Deus da revelação é apresentado, de modo geral, como ao mesmo tempo Transcendência e imanência. presente EM toda a existência criada, presidindo SOBRE ela e realizando POR MEIO DELA os seus próprios desígnios. A combinação desses três elementos explica a doutrina e também a defende.
I, 438Panteísmo. 2. O panteísmo toma o primeiro como a única verdade: o universo é uma manifestação, sempre variável, de uma única substância, que é Deus. Mas a ideia de Providência exclui essa noção de Deus no mundo. O Criador é um Ser pessoal, que tem um desígnio e o leva adiante através de todos os processos da natureza. Na linguagem filosófica, isso se exprime pelo termo TRANSCENDÊNCIA. A linguagem da Escritura simplesmente atribui ao Supremo um fim que ele mantém sempre em vista na relação de todas as coisas existentes consigo mesmo. Essa é a ideia principal da palavra PROVIDÊNCIA, que, pela sua derivação, conota as seguintes concepções, todas presentes no Novo Testamento. A Deus se atribui a πρόνοια, isto é, aquilo que, falando à maneira humana, é fazer PROVISÃO para a realização de um PROPÓSITO, ou πρόθεσις; e, como propósito e realização são uma só coisa para o conhecimento divino, a sua provisão e o seu plano são um só com a sua πρόγνωσις, ou presciência. O que quer que a palavra inclua além disso, este é o seu primeiro sentido: o sistema das coisas como estando sob a Providência, isto é, sob a supervisão de um Ser que o usa para um fim. Porque dele, e por meio dele, e para ele, εἰς αὐτόν, são todas as coisas (Rm 11.36). Esta é uma verdade para ser adorada, mais do que discutida. Em cada uma das três concepções do Supremo há um mistério insondável. Que ele esteja EM toda a criação, com o seu mal e o seu bem; que possa estar SOBRE ela, como que numa personalidade semelhante à nossa, demarcada em relação àquilo que é o próprio Deus; que o Absoluto possa usar meios: todos esses são pensamentos com os quais os termos bíblicos nos tornam tão familiarizados quanto com o PAI NOSSO. Mas nenhum pensamento nosso é capaz de compreendê-los.
Epicurismo. 3. A antiga noção epicurista, representada inconscientemente por boa parte da especulação teísta moderna, errou na direção oposta. Ela adota o segundo e o terceiro desses princípios, mas à custa do primeiro. Deus está sobre a criatura e age por meio dela, mas não como quem está nela. Essa concepção do Ser divino também é excluída, e na mesma medida, pela nossa doutrina da Providência. Como o Criador faz do universo um instrumento para a realização de um propósito, ele vigia a sua operação e está intimamente presente a todos os seus processos e desenvolvimentos. O universo precisa da onipotência dele para ser conservado no ser; e precisa, não menos, da sua onipotência e da sua sabedoria para ajustar, em toda parte e sempre, as relações das suas leis orgânicas com as leis da vida, e de ambas com as leis da existência espiritual. Essa presença do Eterno na raiz dos elementos da existência criada é chamada, em filosofia, IMANÊNCIA, em oposição à Transcendência ou combinada com ela. A Escritura diz, na linguagem do Criador: Sou eu Deus apenas de perto, diz o Senhor, e não também Deus de longe?… Não encho eu os céus e a terra?, diz o Senhor (Jr 23.23-24); e, na linguagem da sua criatura: nele vivemos, nos movemos e existimos (At 17.28).
I, 439Imanência e transcendência. 4. A apóstrofe divina em Jeremias, na qual o Supremo afirma estar ao mesmo tempo longe de toda criatura e muito perto dela, tem grande importância em qualquer visão filosófica da Providência divina. Ela dá a verdadeira doutrina quanto ao seu alcance sobre as mais amplas relações da criatura com Deus, sugerindo a união das duas ideias de imanência e transcendência. Deus está presente a todas as coisas (a toda força física na sua operação, àquela força superior à física que é a vida, àquela vida que o homem tem mais abundantemente do que os animais, que perecem, a todo movimento da mente livre do homem que origina os seus próprios pensamentos) como a CAUSA PRIMEIRA: não a primeira apenas na ordem da anterioridade, mas primeira também na ordem da eficiência. Essa é a verdadeira Imanência. Mas Deus está presente por meio das CAUSAS SEGUNDAS, a cuja operação, como leis estabelecidas da natureza física, mental e espiritual, ele entregou o universo. Essa é a sua verdadeira Transcendência. A ordem da Providência divina combina com infinita facilidade as duas teorias entre as quais a filosofia humana julga necessário fixar um abismo intransponível. O mistério da relação entre a eficiência todo-poderosa e sempre presente de Deus e as forças comunicadas e quase independentes da natureza e da vontade não pode ser resolvido por nenhuma faculdade humana. Uma multidão de hipóteses foi inventada para lançar uma ponte sobre esse abismo e pôr o infinito em contato com todo o finito. Algumas delas já foram mencionadas sob os nomes pomposos de Harmonia Preestabelecida, Meio Plástico, Emanações e assim por diante. Pouco servem numa investigação que é vedada a toda inteligência criada. Nenhuma pesquisa nos aproximou do segredo da ação da mente sobre o corpo na nossa própria constituição; e este é um exemplo sempre presente da futilidade daquela outra tentativa. Alguma coisa Concursus. se ganha, mas não muito, com a invenção do termo CONCURSUS, para significar o concurso ou a cooperação do Poder divino com todos os poderes subordinados, segundo as leis preestabelecidas da sua operação. É certo que Deus não usa a sua criação simplesmente, somente e absolutamente como mero instrumento da sua própria energia direta. Ele não torna coisa alguma imediatamente dependente de si mesmo: nenhum atributo de Soberania Absoluta preside nem à natureza nem à graça. Quando o Controlador onipresente de todas as coisas dispensa as causas segundas em qualquer desses dois domínios, faz uma COISA NOVA: no primeiro domínio, Milagre. o da natureza, ela se chama MILAGRE; e, supondo que ocorra no segundo, é Milagre, quer se chame assim, quer não. A delegação às causas segundas nunca pode excluir a Primeira. Elas não podem manter-se sem ele, mas ele pode dispensá-las.
A Trindade. A Providência de Deus, em todos os seus atos e ofícios, é atribuída respectivamente às diversas Pessoas da Santíssima Trindade.
O Pai. 1. Meu Pai trabalha até agora (Jo 5.17): estas palavras poderiam ser entendidas como referentes àquela atividade universal de Deus no universo, e especialmente neste mundo, que geralmente se atribui ao Pai, para distingui-la da obra especial do Filho na redenção. O Criador descansou das suas obras, mas continua a sua obra na Providência, isto é, no controle, na direção e na condução incessantes de todas as forças da natureza e das livres volições dos homens. O longo sábado divino foi, ainda é e será até o fim preenchido pela atividade incessante do descanso perfeito, pelo descanso perfeito da atividade incessante: não, é verdade, por meio de uma criação contínua, mas por uma sustentação contínua daquilo que foi criado. Quando nosso Senhor prossegue dizendo: EU TRABALHO, ele nos ensina, em primeiro lugar, que nunca houve Providência alguma do Pai da qual ele tenha sido excluído; em segundo lugar, que havia chegado o tempo de uma delegação especial do governo das coisas ao Filho encarnado; e, em terceiro lugar, que, assim como o Pai, humanamente falando, havia interrompido o descanso do longo sábado com a operação de milagres, assim também o Filho, nesta ocasião, sai do mesmo modo da operação ordinária da natureza. Mas é preciso lembrar que, na linguagem da religião, o termo Providência continua reservado a Deus em geral, isto é, ao Pai. Sem fazer nenhuma distinção formal, entendemos por ele aquela presença e aquele cuidado que estão por baixo de tudo, ou que se estendem por cima de tudo, ou que tudo permeiam, e que dizem respeito ao bem-estar do homem antes como criatura do que como criatura redimida. É nesse sentido que falamos da BOA PROVIDÊNCIA DE DEUS. A Oração do Senhor mantém isso sempre diante da nossa mente. Ela se dirige ao Pai nosso, que estás nos céus (Mt 6.9), e lhe pede o pão de cada dia da nossa vida comum, vida cujas ofensas são perdoadas, e de cujo mal somos livrados, na economia da redenção. É um exemplo, e dos mais notáveis, do uso convencional dos termos na teologia, que a palavra Providência seja empregada para designar a presença de Deus entre as suas criaturas no sentido mais amplo.
I, 4412. Há, porém, uma Providência que é o domínio especial O Filho. do Filho encarnado e está ligada ao ofício régio da sua obra mediadora. Ela foi inaugurada, por assim dizer, pelas estupendas intervenções miraculosas que compõem a manifestação encarnada e a obra expiatória de Cristo, seladas na sua ressurreição e ascensão. Entre a ressurreição e a ascensão, ouvimos a grande palavra que une as duas: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra (Mt 28.18). Essas palavras explicam a declaração anterior de nosso Senhor, Tudo me foi entregue por meu Pai (Mt 11.27), dita não só a respeito dos mistérios do conhecimento que haveriam de ser comunicados, mas também do poder universal que seria dele. Os testemunhos posteriores dos apóstolos são abundantes sobre este assunto. Pode-se citar um, notável por combinar a preservação e o domínio providenciais do Filho pré-temporal com os do Filho encarnado: a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e pelo qual também fez o universo. O Filho, que é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela sua palavra poderosa (Hb 1.2-3). Esse governo do Filho não costuma ser chamado de Providência, nem na Escritura nem na teologia dogmática; mas tudo o que a palavra significa está incluído na autoridade conferida àquele que Deus, para ser o cabeça sobre todas as coisas, deu à igreja (Ef 1.22). De fato, na unidade da Santíssima Trindade, o domínio mediador de Cristo continua sendo a Providência do Pai; e também no céu nosso Senhor pode dizer: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também (Jo 5.17). Aquilo que é especificamente a sua direção econômica do universo será deposto no último dia.
I, 442O Espírito. 3. O Espírito Santo também é o Deus da Providência, e em dois sentidos. Na unidade do Pai e do Filho, ele (para falar à maneira humana) cooperou desde o princípio em todos os atos da administração providencial. Não é mera linguagem metafórica a que diz: Envias o teu Espírito, eles são criados, e assim renovas a face da terra (Sl 104.30). O começo e a continuidade de todas as coisas são atribuídos à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, e podemos com segurança considerá-lo o Senhor e Doador da vida em todo o universo: o Agente eficiente direto, que liga o invisível ao visível em toda a economia das coisas. Mas o Espírito Santo é especialmente o Deus da Providência cristã, como aquele que é enviado para cumprir a vontade de Deus e do seu Cristo no domínio supremo da Providência: a administração da redenção, seja nas suas etapas preparatórias, seja no seu pleno cumprimento. No que diz respeito tanto à Igreja quanto ao crente individual, o Espírito de Cristo é a própria Mão da Providência, desde o dia de Pentecostes e o etíope em Gaza, e daí em diante, através de todas as experiências da história cristã. Em todos os processos da salvação, os que precedem, os que acompanham e os que seguem a conversão, ele é a Providência do cristão. Mas, assim como o governo do Filho não costuma receber esse nome, também não o recebe a administração do Espírito. A palavra, como vimos, é reservada por convenção a Deus, ou ao Pai.
Um só Deus. 4. Embora a precisão da teologia exija essas distinções econômicas na Santíssima Trindade da Providência, é preciso lembrar sempre que DEUS É UM SÓ. O que se diz a respeito dos dons especiais do ministério cristão pode ser aplicado a todo o assunto que estamos considerando aqui: Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo. E também há diversidade nos serviços, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos (1Co 12.4-6). A diversidade nas realizações é real e permeia a economia mediadora, como se verá mais plenamente adiante. Mas há um só Deus triúno da Providência; e o fim que se aproxima, quando Deus for tudo em todos (1Co 15.28), será apenas a grande e final demonstração de uma verdade que já está assegurada à fé cristã.
Atributos divinos. A doutrina teológica da Providência faz entrar em consideração os atributos de Deus, em geral e em particular.
Relativos à criatura. I. No seu sentido mais restrito (aquele em que a doutrina específica da Providência toca a criação e a redenção, mas é independente de ambas e não inclui nenhuma delas), a Providência é a esfera daqueles atributos que se relacionam com a criatura como tal, e dos quais podemos dizer com reverência que devem à criatura a sua existência no nosso pensamento. E a correta compreensão da doutrina (para não falar da solução dos seus mistérios) depende da união e da harmonia desses atributos em qualquer modo de considerá-la. Às vezes, por exemplo, a Onisciência e a Onipotência do Criador são colocadas sob um suposto atributo de Soberania Absoluta; e então a Providência não passa de Fatalismo cristianizado. O Conhecimento que prevê, a Vontade que determina e o Poder que executa não são distinguidos; e não sobra espaço para a manifestação ilimitada daquilo que o Supremo se compraz em chamar a sua Sabedoria. De nada adianta dizer que, para a Mente divina, todo o espaço é AQUI e todo o tempo é AGORA, já que todas as coisas são vistas como projetadas e realizadas de uma só vez. Isso não se pode negar, pois Deus é o Absoluto e habita a eternidade. Mas, na sua eternidade, ele dá origem ao tempo e a toda a sua sucessão e contingência. Não podemos alcançar esse mistério; devemos nos curvar diante dele. Deve bastar-nos que a mesma Palavra da qual dependemos para todo o nosso conhecimento nos diga que o Infinito desce à sucessão finita no processo das suas obras e faz do espaço uma realidade na qual realizá-las: ele vê o fim desde o princípio. Se a Providência for tomada no seu sentido mais amplo, como incluindo todos os caminhos de Deus para com o homem, então somos obrigados a considerá-la a esfera em que se manifestam aqueles outros atributos que, em linguagem humana, e também com sentido humano, se chamam Amor, Justiça e Fidelidade. Se rendermos a mesma homenagem a todas as perfeições divinas reveladas, a Providência não é outra coisa senão o propósito do Amor infinito, que usa com Poder onipotente os meios que a Sabedoria infalível ordena. Se essa definição for rejeitada pela filosofia teológica transcendental, apelamos para aquele de cujas palavras a derivamos.
I, 444Providência geral e especial. II. Esse tributo prestado igualmente aos atributos divinos assegurará, a um só tempo, a unidade e a distinção entre a Providência GERAL e a Providência ESPECIAL de Deus.
1. Como ele está presente em toda parte no seu poder infinito, toda relação providencial Geral. há de ser minuciosa e especial: pensar de outro modo sobre o controle divino das leis da natureza e das ações dos homens é incompatível com os primeiros princípios da doutrina. Esta é a glória do ensino das Escrituras: nada conhece de um cuidado geral de Deus que não desça aos mais ínfimos pormenores. Toda Providência geral tem de ser também especial. Os antigos epicureus pensavam que os deuses ou eram indiferentes aos assuntos humanos, ou limitavam o seu cuidado aos interesses mais importantes das suas criaturas: “Magna dii curant, parva negligunt” [Os deuses cuidam das coisas grandes e descuidam das pequenas]. Do começo ao fim das Escrituras, a presença e a influência de Deus são postas na relação mais imediata com todas as coisas e com todos os acontecimentos. Não se vendem dois pardais por uma moedinha? Entretanto, nenhum deles cairá no chão sem o consentimento do Pai de vocês. E, quanto a vocês, até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados. Portanto, não temam! Vocês valem bem mais do que muitos pardais (Mt 10.29-31).
Especial. 2. VALEM BEM MAIS. Nem sempre é a mesma relação, nem toda Providência é a mesma Providência. Há, como se verá, gradações de cuidado entre os objetos da benignidade universal de Deus. Mas, quando incluímos alguns outros atributos, o amor divino em Cristo Jesus e a fidelidade às suas promessas, logo começa a surgir a doutrina de uma Providência especial. O coração do ser humano traça o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos (Pv 16.9): esta é uma declaração ilimitada de um controle universal. Mas, quando se diz que o Senhor firma os passos do homem BOM e se agrada do seu caminho (Sl 37.23), está implícita aquela supervisão especialíssima e minuciosa da vida do justo que acrescenta mais um aos benditos mistérios da Providência do céu. O Novo Testamento nos ensina em toda parte que uma supervisão especial está ligada às respostas à oração e, de modo geral, que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus (Rm 8.28): a provisão da sua Providência executa o propósito da sua graça. Não é, porém, uma doutrina apenas do Novo Testamento: é o ensino gracioso da Bíblia inteira, exibido em todas as suas narrativas e histórias e confirmado por mil promessas.
I, 445Objeções. 3. Por fim, o único método pelo qual podemos tratar as OBJEÇÕES à doutrina da Providência é ligar essa doutrina a todos os atributos de Deus, em conjunto e com imparcialidade. Essas objeções têm sido as mesmas em todas as épocas: o refúgio daqueles cujo desejo secreto é livrar a consciência do seu terror, os argumentos sinceros, embora infrutíferos, da filosofia, as pedras de tropeço da incredulidade e a provação da fé e da paciência dos santos. Nós nos refugiamos na única revelação do caráter divino e indicação dos seus propósitos que ele nos deu na sua Palavra, lembrando sempre que vemos apenas partes dos seus caminhos, mas lembrando também que devemos interpretar o que vemos por todos os seus atributos. Ali encontramos essas dificuldades propostas em todas as formas possíveis: não há apelo do espírito questionador do homem que não encontre expressão naquele Livro, que não é menos uma revelação do coração do homem do que do conselho de Deus. Mas a resposta é dada sempre de um só modo: pela exigência de submissão à sabedoria infalível e ao amor indefectível daquela Providência que reserva para outro estado a solução dos seus mistérios. O último livro do Antigo Testamento contém um registro notável das lutas humanas com as dificuldades deste assunto: aquele colóquio entre o homem e o seu Criador resume, do lado humano, tudo o que se pode dizer e resume igualmente a resposta eterna de Deus: Então vocês verão mais uma vez a diferença entre o justo e o ímpio (Ml 3.14-18). Não há exposição mais completa da luta entre a mente humana e os mistérios insondáveis da Providência do que a da profecia que encerra o Antigo Testamento e antecipa o Novo. Do mesmo modo, no profeta Ezequiel, o desafio da incredulidade recebe a sua resposta: No entanto, vocês dizem: “O caminho do Senhor não é reto.” Então escute, ó casa de Israel: Será que é o meu caminho que não é reto? Não seriam muito mais os caminhos de vocês que são tortuosos? (Ez 18.25) [N. do T.: Pope segue a versão inglesa, que diz equal e unequal (“equitativo” e “desigual”), onde a NAA traz “reto” e “tortuosos”; o comentário seguinte joga com essas palavras]. Os caminhos divinos são equitativos quando medidos por todos os seus atributos, e desiguais quando medidos só por uma parte deles. As palavras de nosso Senhor a Simão Pedro podem receber a mais ampla aplicação: O que eu faço você não compreende agora, mas vai entender depois (Jo 13.7). Voltando ao Antigo Testamento, Jó apresenta a conclusão prática de tudo: Se me adianto, Deus não está ali; se volto para trás, não o percebo. Se ele age à minha esquerda, não o vejo; se ele se esconde à minha direita, não o enxergo. Mas ele sabe o meu caminho (Jó 23.8-10). Depois de tudo o que se disse e se escreveu sobre a TEODICEIA (a vindicação da Providência divina), ela continua sendo um ramo da teologia que Deus reserva para si mesmo e para a revelação do grande Dia.
Objetos. Outro aspecto da doutrina apresenta ao nosso estudo o âmbito sobre o qual a Providência se estende; e considerá-lo confirmará, completará e ilustrará o que já foi dito. Primeiro, o universo como tal é o objeto daquilo que se pode chamar conservação. Segundo, a parte dele que está sujeita às necessidades próprias das criaturas é o objeto de um incessante cuidado providencial. Terceiro, a porção mais seleta e mais elevada, formada por seres em estado de prova, é o objeto do governo providencial.
Escala tríplice. Temos aqui a Providência divina no centro de três círculos que se alargam; ou, dito de outra forma, há na esfera dos seus objetos uma escala descendente e outra ascendente. O universo, como o todo universal reunido em um, inclui na sua vasta extensão o conjunto das criaturas que, pela sua própria natureza, são carentes e dependentes; e, dentro dessa esfera, há um âmbito muito mais restrito de seres em estado de prova: é a passagem do mais amplo para o mais restrito. Mas subimos do conjunto das coisas como tal para as criaturas vivas em geral e, ainda mais acima, para as inteligências para as quais existem todas as outras coisas: é a passagem do menor para o maior. A preservação abrange tudo; a benignidade de Deus está sobre o círculo interior das criaturas que precisam buscar os seus meios de vida; o governo de Deus está sobre a inteligência livre.
Conservação. A Providência sobre o universo é a CONSERVAÇÃO de todas as coisas tendo em vista o fim para o qual foram chamadas à existência.
I, 447Criação contínua. 1. Por isso, ela não é uma CRIAÇÃO CONTÍNUA, segundo uma hipótese favorecida por muitos pensadores. Essa noção parece envolver a negação da continuidade da existência das criaturas; e, se aplicada ao universo material, tem de ser aplicada também ao espírito do homem. Assim aplicada, envolve ainda o fiat [faça-se] perpétuo que traz à existência tanto o mal quanto o bem; é, portanto, o panteísmo sob outra forma, ou melhor, a ideia de criação tornando-se panteísta. Se, na referência à conservação providencial de todas as coisas pelo Filho, a expressão pela sua palavra poderosa pudesse servir para justificar um fiat criador perpétuo, as palavras sustentando todas as coisas (Hb 1.3) voltam a negá-lo; e o sustentar tem a prioridade na frase. Nada se ganha de fato apagando a distinção entre o ato criador e o poder conservador. Mas muito se perde com isso.
Concursus. 2. A hipótese do CONCURSUS, na medida em que se presta a uma definição, tende ao mesmo resultado: é apenas a sombra da anterior, e disfarça sob o termo concursus a ideia de uma cooperação tal entre a Causa Primeira e as causas segundas que torna a ação resultante igualmente de Deus e do agente imediato. Fora da esfera da ação moral, podemos sustentar o que o luterano Quenstedt assim formula: Non est reipsa alia actio influxus Dei, alia operatio creaturæ, sed una et indivisibilis actio. Quemadmodum eadem numero scriptio pendet a manu et calamo, nec pars una a manu et alia a calamo, sed tota a manu et tota a calamo: ita concursus Dei non est prior actione creaturæ propria prioritate causalitatis, cum in re sit omnino eadem actio [Na realidade, a ação do influxo de Deus não é uma e a operação da criatura outra, mas há uma só ação, indivisível. Assim como uma mesma escrita, numericamente una, depende da mão e da pena, e não uma parte da mão e outra da pena, mas toda da mão e toda da pena, assim também o concurso de Deus não é anterior à ação da criatura por uma prioridade propriamente causal, visto que, na realidade, é inteiramente a mesma ação]. Mas, por mais verdadeiro e fácil de entender que isso seja quanto a todas as funções da criatura racional que estão fora da esfera dos outros, é difícil entendê-lo ou aplicá-lo quando entra a distinção entre virtude e vício.
Dependência absoluta. 3. Há apenas um passo entre essa doutrina e a que afirma a DEPENDÊNCIA ABSOLUTA de todas as coisas em relação à energia imediata da Causa Primeira, negando assim por completo as causas segundas. Esse é o segredo do panteísmo na filosofia moderna, como foi o do fatalismo nos antigos sistemas pagãos e, pode-se acrescentar, o do rígido predestinacionismo na teologia moderna. A Escritura que afirma que nele vivemos, nos movemos e existimos (At 17.28) não inverte a proposição para dizer que Deus vive, se move e existe em nós. A própria passagem que parece declarar a dependência incondicional do universo inanimado em relação a Deus, como a sua alma, e de cada sopro de tudo o que vive em relação a Deus, como a sua vida, apresenta o Supremo fazendo-se, em certo sentido, dependente do curso de ação adotado pelas suas criaturas livres e inteligentes. O termo dependência absoluta, portanto, aplicado à criatura, assim como o de soberania absoluta aplicado ao Criador, é o exagero de uma verdade última e inegável: a de que, sem a vontade de Deus, nada há no universo.
I, 448A concorrência divina. 4. A única salvaguarda contra essas hipóteses incompreensíveis é a firme certeza de que o divino Autor de todas as coisas nos permite considerá-lo como quem coopera com as forças a que deu uma existência real, embora não independente. Apraz-lhe acomodar a sua presença e a sua operação infinitas às leis que estabeleceu, concorrendo com elas segundo a natureza de cada uma: com os agentes livres, sendo ele próprio livre; e com os que atuam por necessidade, guiando a sua ação necessária. Mas é só com os movimentos da inteligência livre que se diz que ele coopera: a palavra συνεργεῖν se restringe estritamente a isso e sugere uma distinção importantíssima. Nenhum esforço da mente humana pode ir além deste reconhecimento de um mistério que não se pode resolver.
O fim último. 5. Mas é preciso ter sempre em vista o propósito dessa cooperação. Não se trata apenas de sustentar a natureza criada: o fim para o qual todas as coisas são o que são está inseparavelmente ligado ao termo Providência, e só ele justifica a aplicação desse termo à supervisão e ao controle divinos do universo. Pode-se dizer de todas as coisas criadas que elas TÊM UM FIM: não um fim do ser, mas um fim de desenvolvimento, tendo até o menor átomo o seu lugar predeterminado em cada molécula, e cada movimento produzido por cada força a sua relação com o movimento do todo. A Providência de Deus, como preservação e cooperação, é exercida sobre o vasto sistema das coisas como uma unidade orgânica imensa, mas não ilimitada. Essa unidade abrange a soma de tudo o que existe pela vontade do Criador: o cosmos é um complexo de variedades infindas de movimento, todas em mútua interação e todas tendendo para um único desfecho previsto e predeterminado. A vida em movimento da matéria, que é a sua força, a vida animada do mundo vegetal inconsciente, a vida sensitiva das criaturas animais ou impessoais, a vida superior e espiritual dos anjos e dos homens, tudo forma uma só grande economia, cujos processos necessários e livres são todos igualmente controlados e dirigidos para o único desfecho proposto na Mente suprema e eterna. E, sendo a Providência um termo da teologia enquanto diz respeito ao homem, esse propósito supremo está, na presente discussão, ligado aos desfechos finais da redenção. O apóstolo reúne num todo único o âmbito inteiro das coisas quando diz: Tudo foi criado por meio dele e para ele; para aquele que é a cabeça do corpo, que é a igreja (Cl 1.16-18). É o seu nome que, para o homem, faz desse conjunto o universo.
Cuidado. O CUIDADO providencial é exercido sobre as criaturas que dependem, para o sustento da vida sensitiva, do suprimento de outras formas de matéria. Aqui devemos distinguir duas ordens desses dependentes (as criaturas vivas impessoais e as inteligências pessoais), mas sem incluir ainda as relações espirituais destas últimas.
Todas as criaturas. 1. Pode-se dizer que o cuidado do Criador sobre as ordens inferiores, ou a sua Providência, se estende muito além do mundo animal e ultrapassa aquela misteriosa linha de fronteira, se é que existe tal linha, onde a vida animal desce à vegetal, ou onde deixa de existir a distinção entre elas. Assim que a célula viva rompe a monotonia morta da criação, faz-se necessário o cuidado do Supremo para prover à sua expansão nas formas que lhe foram predestinadas. Em toda parte reina a lei da seleção, não natural, mas sobrenatural. Aquele que dispõe todas as coisas determina os dez mil artifícios pelos quais as plantas encontram o solo apropriado e até atraem e devoram as suas presas, sejam insetos, sejam animais. Neste domínio, assim como no dos animais que perecem e no do homem que não perece, vale a palavra: ele fixou os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habitação (At 17.26). Quando, porém, subimos às criaturas que não só partilham a vida animal do homem, mas também refletem muitas das suas paixões e fraquezas, a revelação de Deus se torna explícita ao máximo quanto à minúcia do seu cuidado vigilante. Vêm à mente algumas das palavras mais comoventes, tanto da poesia quanto da prosa do Antigo Testamento, conhecidas demais para que seja preciso citá-las. Mas, para que não se pense ser possível que a sua suprema demonstração de amor ao homem no seu Filho nos faça esquecer o seu cuidado com as criaturas que não precisam de misericórdia, esse Filho superou todas as outras testemunhas ao declarar a benignidade do seu Pai para com tudo o que respira. Vocês valem bem mais do que muitos pardais é precedido de nenhum deles cairá no chão sem o consentimento do Pai de vocês (Mt 10.29-31). Nesse contexto, a esse Pai se dá até o seu nome mais elevado: o Pai de vocês, que está no céu, as sustenta (Mt 6.26); e a isso podemos juntar o mais antigo de todos os testemunhos: Na sua mão está a vida de todos os seres vivos (Jó 12.10). Isso significa o seu cuidado, visto que a benignidade universal do Criador permeia todas as suas obras (Sl 145.9); mas é Providência, visto que essa benignidade é exercida segundo leis secundárias estabelecidas e para um fim que inclui os fins subordinados que ordenam o destino conturbado da criação que geme. Os leõezinhos… buscam de Deus o sustento (Sl 104.21) e o encontram pelo seu cuidado; mas é especialmente à sua Providência que se deve o fato de que eles, como nos diz o mesmo versículo comovente, rugem pela presa. Essa palavra é necessária para conciliar o cuidado com o devorador e a benignidade para com a vítima. Ambos pertencem a um plano profundamente traçado: profundo como a eternidade. Há um mistério profundo na relação do Criador com a criatura irracional e indefesa que saiu das suas mãos. Temos de nos contentar em fundi-lo no mistério ainda mais profundo do reaparecimento da devastação e da morte no mundo reorganizado como resultado do pecado humano, lembrando sempre que há uma teodiceia universal no futuro. Será que o Juiz de toda a terra (de toda a terra, com todas as suas miríades de habitantes injustiçados) não faria justiça? (Gn 18.25).
I, 450O homem. 2. Como a criatura para a qual a terra foi formada, o homem é, de modo especial, o objeto do cuidado de que falamos. Isto é, a raça humana, a respeito da qual são Paulo afirma que Deus fixou os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habitação (At 17.26). Essa palavra deve ter toda a sua força, pois revela a grande verdade de que a expansão histórica das raças humanas não só é supervisionada e vigiada pelo Olho Eterno, mas foi predeterminada na previsão de toda a vida nacional. A história humana, assim como a salvação humana, está sob o domínio de uma preordenação que se acha intimamente ligada ao livre desenvolvimento de todos os princípios que moldam o curso dos acontecimentos nesta terra. Os homens em geral, bons e maus, são igualmente objeto desse cuidado: ele faz o seu sol nascer sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos (Mt 5.45). O livro apócrifo da Sabedoria diz: Ele fez o pequeno e o grande, e cuida, προνοεῖ, de todos igualmente (Sabedoria 6.7); sentimento que a Escritura, porém, não afirma de modo tão amplo, mas modifica o ὁμοίως: não literalmente DE TODOS IGUALMENTE. A Providência reina sobretudo sobre a vida humana individual, sobre a entrada nela, a permanência nela e a saída dela: Tu me deste vida e bondade, e o teu cuidado guardou o meu espírito (Jó 10.12). Os dias do ser humano estão contados, o número dos seus meses está nas tuas mãos; traçaste limites além dos quais não passará (Jó 14.5). Ela se estende a todas as variações, acasos e vicissitudes da carreira do homem em provação: O coração do ser humano traça o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos (Pv 16.9). Nas tuas mãos estão os meus dias (Sl 31.15). Assim também desce a todas as necessidades comuns da vida, que unem todas as criaturas. O nosso Salvador diz: Observem as aves do céu, que não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros. No entanto, o Pai de vocês, que está no céu, as sustenta. Será que vocês não valem muito mais do que as aves? (Mt 6.26). Essas palavras da mais alta autoridade contêm todos os elementos da doutrina da Providência. Há um cuidado especial sobre todas as criaturas e, sobretudo, sobre o homem, a mais alta criatura da terra. A nossa própria provisão para as nossas próprias necessidades de nada vale sem aquela previdência celestial a nosso favor, reconhecida ou não. O cuidado providencial é exercido sobre todos os homens, bons e maus igualmente, em virtude do laço de dependência que os liga às ordens inferiores. Mas, como os homens, especialmente os cristãos, valem muito mais do que as aves (Mt 6.26), há para eles um lugar mais alto nessa escala graduada da consideração divina. Contudo, é uma Providência que provê em harmonia com as causas secundárias e com a previdência humana: o ajuntar em celeiros. Por fim, o nosso Senhor acrescentou, em outro lugar, que nas distribuições específicas das condições de vida dos homens há um mistério que ele mesmo não só não resolve, mas também nos proíbe de esquadrinhar: Nem ele pecou, nem os pais dele; mas isso aconteceu para que nele se manifestem as obras de Deus (Jo 9.3). Pode-se dizer que essa é uma das últimas palavras do nosso Senhor sobre o assunto.
Governo. O GOVERNO providencial limita-se às criaturas inteligentes ou em provação. É um uso vago do termo governo aplicá-lo ao controle de todas as coisas: não há domínio digno de ser associado ao nome do Supremo, a não ser sobre seres livres, conscientes da sua liberdade e da sua responsabilidade. Do mesmo modo, a palavra pertence estritamente ao controle de Deus sobre criaturas em provação, isto é, sobre seres que passam por uma prova temporária com vistas a um desfecho eterno. Desses dois princípios decorrem certas aplicações muito importantes da doutrina que agora estudamos.
Sobre as inteligências livres. 1. O governo moral de Deus é, pelos próprios termos, exercido sobre seres livres e conscientemente responsáveis pelo uso da sua liberdade. Basta apelar para a consciência do espírito que há no homem, o qual afirma ser ele mesmo a origem dos movimentos da vontade, isto é, dos seus próprios atos, e, na forma da consciência, ou consciência moral, proclama universalmente o seu senso de obrigação e de responsabilidade diante de um Governador moral supremo. Sob qualquer outra teoria, a palavra Providência perde a melhor parte do seu sentido. Parte dele, na verdade, ela pode conservar, na forma da predestinação, o governo inflexível de uma alma que tem de cumprir o seu destino; mas lhe é tirado tudo o que pertence à administração da lei como meio de disciplina e de educação para o espírito humano a caminho da mais alta perfeição, que é a obediência necessária em perfeita liberdade.
Sobre os seres em provação. 2. Dizer que a Providência de governo é exercida somente sobre seres em estado de provação é apenas outro modo de apresentar a mesma verdade. Sobre os que estão fixados no seu estado eterno pode haver um domínio divino, num sentido limitado, mas não há Providência no sentido estrito da palavra. Eles são instrumentos dessa Providência e estão, eles mesmos, ligados a um plano que os inclui, juntamente com todas as ordens da criação, nos seus desígnios finais; mas não são objetos daquele ajuste sapientíssimo dos meios aos fins, nem daquela supervisão reitoral das volições e dos atos livres, que o termo conota. Por isso, a visão mais impressionante que se pode ter desta doutrina considera-a como a condução lenta, mas segura, de todas as criaturas cujo estado ainda não está eternamente fixado, rumo à consumação do seu destino, tal como Deus o designou de antemão.
I, 453Na redenção. 3. Segue-se que a teologia não tem doutrina sobre este assunto que não o ligue ao pecado e à redenção: não a um sem a outra, mas a ambos. A rigor, toda a revelação é a história do trato de Deus com pecadores redimidos; não podemos, portanto, dissociar o termo Providência, que é um nome para essa história, da ideia de uma provisão para enfrentar um mal previsto, permitido, contido, condenado e vencido, embora não eternamente abolido.
Providência e pecado. (1.) O pecado, ou a separação entre a vontade criada e a vontade de Deus, foi previsto pelo Criador. Essa primeira grande e tremenda verdade, envolvida na palavra Providência tal como foi definida, está no limiar de toda a teologia como fato inquestionável e insondável. Mas isso equivale a dizer que o pecado foi permitido; em outras palavras, que nenhuma restrição divina foi imposta à liberdade da criatura naquela possibilidade da sua orientação que apontava para o afastamento de Deus. “Deus quidem permittit, sed non vult τὸ permissum” [Deus de fato permite, mas não quer o que é permitido]. Não há vontade decretiva (μὴ γένοιτο [de modo nenhum]) na Providência que prevê, humanamente falando, toda a história do pecado. A dificuldade de conciliar essa permissão com a santidade, a bondade e todas as perfeições do Supremo precisa ser deixada, afinal (digam a especulação e a controvérsia o máximo que puderem), à TEODICEIA divina, ou à vindicação que Deus faz de si mesmo. Assim como toda boca se cala na confissão silenciosa da culpa universal do pecado, assim também toda boca deve calar-se, em silencioso temor, diante do mistério do fato do pecado. Basta isto: O PECADO EXISTE, e já teve, pela medida humana, uma longa carreira.
Redenção. (2.) A Providência é a história do trato divino com os homens enquanto caídos e restaurados. A relação da ideia de πρόνοια com o combate ao mal precisa apenas ser indicada: as doutrinas específicas do pecado e da redenção exigirão um tratamento mais completo do que aqui apenas se sugere. O governo do mundo, desde o princípio, tem sido conduzido com base num plano divino, cujo desdobramento se entrelaçou de tal modo com o desenvolvimento da raça pecadora que fez da história da humanidade uma grande demonstração da sabedoria e da previdência daquilo que chamamos Providência: a designação prévia, ou πρόθεσις, presidindo ao início de todas as coisas; a presciência presidindo ao fim; e a Providência, entre ambas, como a sua união. Isso nos é apresentado de modo impressionante sob dois aspectos: com referência à vinda de Cristo e à preparação do mundo para a sua vinda, e com referência à tolerância provisória da justiça divina na perspectiva do sacrifício expiatório. Quanto ao primeiro, que estas sentenças da Escritura substituam qualquer desenvolvimento adicional. E Abraão deu àquele lugar o nome de “O Senhor Proverá”. Daí dizer-se até o dia de hoje: “No monte do Senhor se proverá” (Gn 22.14) [N. do T.: a versão inglesa seguida por Pope conserva o nome hebraico, Jehovah-Jireh (Jeová-Jiré), e termina com “isso será visto”; o verbo hebraico significa “ver”, daí a leitura “verá e proverá”]. Esse nome do Eterno exprime tudo o que se entende pela sua Providência: O Senhor verá e proverá. JEOVÁ–JIRÉ é a palavra de ordem da doutrina na sua relação com o Único grande objeto da provisão divina para o homem; para aquele monte futuro convergiam todos os tratos providenciais do Governador da humanidade. O nosso Senhor disse: Abraão, o pai de vocês, alegrou-se por ver o meu dia; e ele viu esse dia e ficou alegre (Jo 8.56). Nós, os gentios, podemos lembrar que Abraão também era nosso pai, e que também nós agora vemos e nos alegramos com ele. Até que viesse aquele que o seu Pai proveu para a necessidade infinita, a lei do governo do mundo, tanto do judeu como do gentio, tinha em vista a preparação da sua vinda: da sua vinda na plenitude do tempo (Gl 4.4). Aquele que havia de ser provido era o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (Jo 1.29); e a plenitude do tempo foi o tempo da sua encarnação e da sua morte redentora. Na previsão dessa provisão, os povos foram governados com tolerância durante os longos séculos das suas trevas e dos seus erros. De um lado, a maldade da humanidade foi observada, controlada e punida com severas visitações; de outro, manifestou-se uma tolerância divina a respeito da qual são Paulo diz que Deus não levou em conta os tempos da ignorância (At 17.30). Essas palavras devem ser interpretadas, se é que se devem interpretar, como ensinando que o paganismo das nações errantes nunca esteve, como nunca estará, fora do alcance dos recursos infinitos da Providência. Mas a relação do Deus da redenção com a parte da humanidade não visitada pela luz do evangelho é um dos mistérios inesgotáveis daquela Providência diante da qual o seu maior expositor recuou, na humildade adoradora da sua razão; e nós devemos unir-nos a ele: Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão inexplicáveis são os seus juízos, e quão insondáveis são os seus caminhos! (Rm 11.33).
I, 455Princípios de teodiceia. (3.) Há certos princípios gerais que servem para nos proteger do erro, embora ainda deixem as nuvens e a escuridão ao redor do trono do Governante divino. De todos os lados se dão provas abundantes de que o pecado se opõe à vontade do Supremo Controlador dos acontecimentos. Não só há na consciência um lembrete permanente disso; também o confirma o juízo da humanidade ao interpretar a história. O pecado está para sempre ligado ao mal; e, sejam quais forem os triunfos permitidos à causa da iniquidade (a ponto de os homens chegarem temerariamente a chamar ao mal bem e ao bem mal), nenhuma mente sensata jamais duvidou de que o curso das coisas é inteiramente contrário a toda espécie de injustiça e firmemente favorável à justiça. Até o maniqueísmo, pelo menos nas suas formas mais antigas, tendia a admitir um triunfo final do bem: nunca considerou o mal como eternamente enraizado na natureza e triunfante sobre o seu oposto. Além disso, não se deve duvidar de que a Providência divina usa o mal para a realização dos seus propósitos. Supor que ele permitiria que o pecado coexistisse com o bem e se espalhasse por toda parte, ao redor do seu reino e dentro dele, sem servir aos seus desígnios, é rebaixar a sua dignidade. Até a ira humana há de louvar-te (Sl 76.10) é a expressão marcante de uma verdade eterna; como também aquela outra: o restante da ira tu o conterás! [N. do T.: a NAA traz “e da ira restante te cingirás”.] Mesmo quando for eternamente lançado fora da sua presença e condenado, o pecado renderá o seu tributo de glória aos atributos de Deus. Mas isso se vê muito mais no mundo dos tratos providenciais mistos. De muitos modos, o bem é extraído do mal. Os registros da Bíblia mostram constantemente, com tal coerência que dispensa citações, como os maus, assim como os bons, e às vezes de modo ainda mais marcante, ajudaram a causa de Deus e da verdade. A experiência prova que boa parte da disciplina, da educação e do progresso espirituais do povo de Deus resulta do seu conflito com o pecado. O felix culpa! [Ó culpa feliz!] não é algo que se deva rejeitar de modo absoluto; há um sentido em que é verdadeiro para sempre. Por fim, está em curso um juízo, ou discernimento, que nunca falha e é o precursor do juízo final. Muitas das recompensas da virtude e muitos dos castigos do vício são distribuídos já neste mundo; o bastante, pelo menos, para mostrar que de fato há um Deus que julga na terra (Sl 58.11), e para profetizar: Será que o Juiz de toda a terra não faria justiça? (Gn 18.25).
Resumo. Ainda são necessárias algumas observações gerais para completar esta exposição da Providência. É evidentemente o termo mais abrangente da linguagem da teologia: o pano de fundo, misterioso no seu brilho ou na sua escuridão, de todas as diversas divisões da verdade religiosa. Melhor dizendo, ela penetra e preenche toda a extensão das relações do homem com o seu Criador. Liga o Deus invisível à criação visível, e a criação visível à obra da redenção, e a redenção à salvação pessoal, e a salvação pessoal ao fim de todas as coisas. Não há tema já discutido, nem tema que aguarde discussão, que não pague o seu tributo à doutrina da Providência, que tudo abrange e tudo envolve. A própria palavra (convém insistir nisso mais uma vez), num dos seus aspectos, eleva o nosso pensamento até aquele Propósito supremo que estava no princípio com Deus e, no outro, o faz descer até o Fim previsto, ou consumação de todas as coisas, ao passo que inclui, entre esses dois, toda a infinita variedade do trato de Deus com o homem. Por isso, acompanha silenciosamente a teologia em todas as regiões do seu estudo e da sua meditação; toca-a literalmente em todos os pontos e derrama a sua glória, opressiva para a razão, mas revigorante para a fé, sobre todos os ramos da sua investigação. Ela deveria ser a grande Reconciliadora dos partidários em luta da predestinação e da eleição condicional. Os primeiros reivindicam, e devem ter, todos os direitos legítimos da πρόθεσις; os segundos não devem ser privados dos direitos da πρόγνωσις; e ambos devem alegrar-se na πρόνοια que se situa entre as duas. Todas as verdades teológicas são envolvidas por essa palavra insondável. Mas, justamente porque ela é, na sua extensão mais ampla, tão literalmente ilimitada e universal, julgamos necessário dar-lhe apenas um tratamento escasso como divisão distinta.
Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. I, pp. 437-455, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.