W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume II · O pecado
Pecado original. A Escritura descreve o efeito da Queda sobre a posteridade de Adão como a difusão universal da morte, como condenação, e de uma inclinação da natureza humana para o mal. A doutrina bíblica encontra a sua expressão no termo teológico “pecado original”: o pecado hereditário e a pecaminosidade hereditária da humanidade, derivados de Adão, seu cabeça natural e representante, mas derivados dele tal como ele estava, sob uma constituição de graça redentora e ligado ao Segundo Adão, o Cabeça espiritual da humanidade.
Aqui devemos expor primeiro o testemunho da inspiração e, depois, o desenvolvimento histórico do dogma. Pode-se observar, de início, que a doutrina do pecado original é, num aspecto importante, a própria doutrina do pecado; não há aspecto do tema que não esteja, mais ou menos diretamente, ligado à qualidade do mal como pertencente à raça. Por isso, muitas questões que surgem do tema em geral encontrarão aqui o seu lugar; na verdade, foram reservadas de propósito para esta seção.
A Escritura. A relação entre o pecado hereditário universal da humanidade e o pecado original de Adão, a sua relação com a aliança da redenção em Cristo e o seu caráter, como resultado de ambos, são os temas que agora temos diante de nós.
Em relação a Adão. São Paulo ensina que por um só homem entrou o pecado no mundo. Entrou trazendo consigo a condenação da morte universal: a culpa da primeira transgressão é computada, nas suas consequências, a toda a raça representada pelo primeiro transgressor. Mas não à parte do pecado deles próprios: todos não somente são considerados pecadores, como também são feitos pecadores, pela herança de uma natureza que, por si mesma, se inclina somente para o mal. Assim, a transmissão da pena é ao mesmo tempo direta e indireta.
Culpa hereditária. A culpa hereditária não é enunciada expressamente em forma de proposição: a expressão é de origem posterior à Escritura. Mas, onde são Paulo estabelece a ligação entre o pecado e a morte como a sua pena abrangente, ele ensina que a condenação do primeiro pecado reina sobre toda a humanidade, enquanto esta é, em certo sentido, uma só com Adão.
O ensino de são Paulo. 1. Depois de dizer que a morte passou a toda a humanidade, porque (ἐφ’ ᾧ, sob o fundamento ou pressuposto de que) todos têm pecado (ou todos pecaram) (Rm 5.12), afirmando assim que, na imputação divina, todos, em certo sentido, pecaram originalmente em Adão, o apóstolo passa a mostrar que a morte recaiu sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão (Rm 5.14). Ela passou àqueles que não cometeram em Adão a ofensa dele e que, além disso, não ofenderam pessoalmente como ele. Pecaram em Adão, embora não sejam culpados do ato do pecado dele: esta é, pois, a condenação hereditária, que recai sobre os que não eram Morte física. transgressores pessoais, e sobre todos eles. Aqui, é evidente, a pena é considerada primariamente como a morte física. Todo membro da raça está envolvido nessa consequência do pecado original da humanidade.
2. Segue-se então o paralelo com o Segundo, Jesus Cristo, no mesmo sentido (Rm 5.15-19): se, pela ofensa de um só, muitos estão mortos (ou morreram), muito mais a graça de Deus e o dom pela graça Morte espiritual e eterna. de um só homem, Jesus Cristo, [foram] abundantes sobre muitos. O dom, entretanto, não é como no caso em que somente um pecou (os muitos morreram), porque o julgamento derivou de uma só ofensa, para a condenação; mas a graça deriva de muitas ofensas, para a justificação. Nos três versículos seguintes, a mesma verdade profunda é exposta em mais três formas, cada uma aumentando a força da anterior, e todas culminando na doutrina de que, como, pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos (ou constituídos, tanto de fato quanto por imputação) pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos serão feitos justos (Rm 5.19) [N. do T.: a NAA traz “muitos se tornaram pecadores” e “muitos se tornarão justos”; o argumento de Pope no item 4 depende da redação inglesa]. Cinco paráfrases da mesma afirmação declaram que a Queda foi exterior às gerações sucessivas da humanidade, e para a sua condenação, no mesmo sentido, qualquer que seja, em que a Redenção foi um ato exterior à raça e em seu benefício. Aqui é evidente, ou deveria ser evidente, que a condenação e a vida são correlativas: o julgamento é o oposto do reinar em vida como resultado da abundância da graça (Rm 5.17). É isso que são Paulo, o expositor cristão do pecado original, grava com uma série de variações cumulativas que não têm paralelo nos seus escritos.
II, 49Epístola aos Coríntios. 3. Na Epístola aos Coríntios, a ligação entre a sentença de morte e o pecado de Adão é enunciada quase nos mesmos termos; mas a referência parece mais restrita à morte física do que na Epístola aos Romanos. Um exame cuidadoso, porém, mostrará que também ali a morte tem o mesmo sentido profundo e amplo. O texto central é: Porque, assim como, em Adão, todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo (1Co 15.22). Aqui está em curso aquele processo de morte que, em Romanos, saiu como um decreto, de uma vez por todas: é πάντες ἀποθνήσκουσιν [todos morrem], mas, ainda assim, ἐν τῷ Ἀδάμ, em um só Homem histórico, e por meio da ligação deles com ele. A ressurreição do corpo é o argumento do capítulo. O primeiro homem, Adão, se tornou alma vivente; o último Adão, Espírito vivificante (1Co 15.45) [N. do T.: a NAA traz “se tornou um ser vivente” e “é espírito vivificante”]. Do primeiro recebemos um corpo corruptível animado por uma alma vivente, que, pelo pecado, perdeu a provisão para a continuidade da sua imortalidade: não se ensina que Adão recebeu e transmitiu apenas uma existência animal ou natural. Do Último recebemos o novo dom da imortalidade, para a alma e para o corpo, por meio do Espírito de vida que procede dele. Mas o argumento direto limita-se à ressurreição do corpo. Indiretamente, porém, ele afirma o grande contraste entre a sentença de vida eterna e a sentença de morte eterna. O capítulo termina dizendo que o aguilhão da morte é o pecado (1Co 15.56): foi o veneno daquela serpente que trouxe a mortalidade física à raça; mas Cristo morreu pelos nossos pecados (1Co 15.3), e não somente pela nossa ressurreição do sepulcro, entendido como uma das penas da ofensa. A morte só é abolida DEPOIS da ressurreição: E, quando este corpo corruptível se revestir de incorruptibilidade e o que é mortal se revestir de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: “Tragada foi a morte pela vitória” (1Co 15.54). A morte universal, para os santos, perde-se na vitória da vida.
II, 50Imputação. 4. São Paulo, a quem devemos os elementos principais desta doutrina, não distingue cuidadosamente em que diversos sentidos a imputação do pecado pesa sobre a raça como morte. A questão será levantada nas controvérsias históricas sobre o assunto. Enquanto isso, pode-se observar que a palavra forte é ἁμαρτωλοὶ κατεστάθησαν οἱ πολλοί (Rm 5.19), que encerra a sua argumentação depois de a mesma ideia ter ficado várias vezes sem expressão, como mostrarão os itálicos da nossa tradução [N. do T.: Pope se refere à versão inglesa autorizada, que imprime em itálico as palavras acrescentadas pelos tradutores]. Pecadores, todos os homens foram, de uma vez por todas, considerados, ou feitos, ou constituídos: foram colocados na categoria dos transgressores. Às vezes esse verbo tem o sentido de “ser feito” no sentido de ser estabelecido ou designado por autoridade, mas nunca tem o de “ser feito” por meio de um processo de vir a ser. No glorioso paralelo, assim também, por meio da obediência de um só, muitos serão feitos justos (Rm 5.19), o termo não perde, a rigor, esse sentido de estabelecimento por imputação; pois, seja qual for a justiça comunicada aos justificados em Cristo, eles serão, tanto neste mundo quanto no outro, considerados justos por meio daquela única obediência meritória. Mas nem essa palavra forte nem qualquer outra usada na Escritura exclui a ideia de que os que são constituídos pecadores pela sua unidade em Adão fazem do ato dele o seu próprio ato, em outro sentido: todos os indivíduos dos muitos são considerados pecadores porque também eles, como Adão, transgrediram a aliança (Os 6.7). Ainda assim, a raiz da sua ofensa é mais profunda do que a sua vida individual. A morte física precede a culpa pessoal individual. Todos os homens nasceram cheios de pecado (Jo 9.34): nisso os judeus falaram com mais verdade do que pretendiam. O que é nascido da carne é carne (Jo 3.6); e, como tal, não pode ver o Reino de Deus (Jo 3.3), pois os que estão na carne não podem agradar a Deus (Rm 8.8). Mas nascer da carne é agora, falando com reverência, ordenança de Deus. Da pena eterna ainda não falamos: [veio a graça] sobre todos para a justificação que dá vida, a vida eterna (Rm 5.18, 21); mas a justificação pressupõe uma condenação a ser removida. E isso deve ensinar-nos a não atenuar aquela frase fortíssima de são Paulo sobre este assunto: e éramos por natureza filhos da ira, como também os demais (Ef 2.3), τέκνα φύσει ὀργῆς.
Doutrina de toda a Escritura. 5. Embora se tenha falado de são Paulo como o mestre da culpa original, não se deve entender que só ele seja responsável por esta doutrina. Ele não introduziu nada que não tivesse recebido; e as palavras do Senhor já citadas sancionam o seu ensino. A doutrina não repousa sobre uma passagem isolada. Ela permeia a Escritura. Interpreta o tom e o espírito de todo o testemunho da Bíblia acerca da família caída do primeiro pai que pecou; e, especialmente, interpreta a relação do Redentor com a humanidade, relação que exige absolutamente, como sua base, a condenação da raça. Mas disso falaremos mais detidamente.
Depravação hereditária. A herança de uma inclinação para o mal é tratada na Escritura de modo muito mais abundante, embora não mais claro. A doutrina de uma depravação ou corrupção moral transmitida permeia todas as dispensações da verdade revelada.
Antigo Testamento. 1. No Antigo Testamento, as provas são amplas e explícitas.
(1.) A sua narrativa histórica dá por certo que a raiz da vida pessoal individual é pecaminosa; abunda em testemunhos tanto da universalidade da mancha do pecado quanto da sua propagação na raça. No começo da história humana, encontramos um livro da genealogia de Adão. Ali se diz que no dia em que Deus criou o ser humano, à semelhança de Deus o fez (Gn 5.1); que os dois primeiros pais da humanidade eram um só Adão, como cabeça da raça: homem e mulher os criou, e os abençoou, e lhes deu o nome de Adão, no dia em que foram criados (Gn 5.2) [N. do T.: a NAA traz “lhes deu o nome de ‘ser humano'”; no hebraico, a mesma palavra significa “ser humano” e é o nome Adão]. A narrativa passa então a dizer que Adão viveu cento e trinta anos, e gerou (um filho) à sua semelhança, conforme a sua imagem (Gn 5.3). Esse tipo de linguagem nunca se repete e, considerado como prefácio da história da corrupção humana que terminou no Dilúvio, pode ser citado como, provavelmente, o texto mais antigo sobre a tendência pecaminosa hereditária da humanidade. Os registros de depravação que se seguem falam sempre do homem como tal, mesmo quando a narrativa excetua os piedosos. O meu Espírito não contenderá para sempre com o ser humano, pois também ele é carne (Gn 6.3): este versículo admite outra tradução, O meu Espírito não governará para sempre no ser humano; no seu andar errante, eles são carne [N. do T.: a NAA traz “O meu Espírito não agirá para sempre no ser humano, pois este é carnal”], o que antes reforça a designação da humanidade como carne, que, como tal, resiste ao Espírito da graça. O Senhor ficou triste por haver feito o ser humano na terra (Gn 6.6), pois todo desígnio do seu coração era continuamente mau (Gn 6.5). No Dilúvio, esse era o caso dos ímpios, e a família de Noé, que foi salva, não era por natureza melhor do que os demais. A história não nos ensina que houvesse duas raças de homens, uma não contaminada pelo pecado e outra corrompida. Os filhos de Deus (Gn 6.2) eram os que começaram a chamar-se pelo nome do Senhor (Gn 4.26) [N. do T.: a NAA traz “se começou a invocar o nome do Senhor”]. O pai deles, enquanto se distinguiam da descendência de Caim, era Sete, a quem Adão gerou à sua semelhança (Gn 5.3). O seu melhor descendente e representante foi Noé, que foi salvo para dar continuidade à raça, não porque fosse sem pecado, mas porque encontrou favor aos olhos do Senhor (Gn 6.8), como Ló, mais tarde, que disse: o teu servo encontrou favor diante dos teus olhos, e engrandeceste a tua misericórdia (Gn 19.19). Noé, o novo cabeça da humanidade, provou que continuava a mancha hereditária. Depois do Dilúvio, foi aceito por meio do sacrifício. E o Senhor disse consigo mesmo: Nunca mais vou amaldiçoar a terra por causa das pessoas, porque é mau o desígnio íntimo do ser humano desde a sua mocidade (Gn 8.21). Aqui, as mesmas palavras que descreveram a profunda corrupção da raça antes de ela ser varrida são usadas para descrever o germe da mesma corrupção, que sobreviveu ao Dilúvio.
II, 52Circuncisão. (2.) Não há dúvida de que o curso do pecado é considerado como algo que corre de geração em geração entre as nações da terra. Que ele continuou a ser a regra entre o povo escolhido, prova-o a instituição da circuncisão, que, fossem quais fossem os outros propósitos a que servisse, era o memorial ordenado do pecado ligado à propagação da raça; e prova-o também a série de purificações cerimoniais que acompanhavam o nascimento de cada criança. Para o mundo inteiro (para antecipar), o batismo tem o mesmo significado.
Testemunhos. (3) Não faltam testemunhos individuais. Jó, o teólogo patriarcal, pergunta: Quem poderá tirar coisa pura daquilo que é impuro? Ninguém! (Jó 14.4). Essa pergunta é respondida em outro lugar por outra: Que é o homem, para que seja puro? E o que nasce de mulher, para ser justo? (Jó 15.14). Em pecado me concebeu a minha mãe (Sl 51.5) é a confissão de um por todos; nela Davi responde a Jó e, quase literalmente, a Bildade: como pode ser puro aquele que nasce de mulher? (Jó 25.4). É desnecessário citar outros textos.
II, 53Novo Testamento. 2. O Novo Testamento confirma essa verdade do começo ao fim.
(1.) Do coração, declara o Redentor, procedem maus pensamentos (Mt 15.19), seguidos do catálogo dos pecados da vida. O coração é o centro Nosso Senhor. da personalidade, do qual o Mestre infalível diz: Ora, se vocês, QUE SÃO MAUS (Mt 7.11), e isso em ligação com o bem que ainda permanece na natureza humana pelo segredo da graça. Por que o homem é assim fundamentalmente mau, nosso Senhor nos diz num texto enfático, que é a chave do antigo testemunho do Gênesis e de muitos outros, especialmente em são Paulo: o que é nascido da carne é carne (Jo 3.6). Essa palavra imprimiu a sua marca na linguagem cristã: toma o emblema da ruína física, a carne, ou natureza mortal do homem, para significar também a sua mortalidade espiritual; a carne é a natureza enquanto tende não somente para a morte, mas também para o pecado. O que é a dissolução da alma e do corpo, isso é a dissolução da harmonia entre a carne e o espírito. Mas o texto mais do que insinua a derivação da mancha pela descendência natural (Gn 5.3): o que é nascido. Assim também trouxemos a imagem do homem terreno (1Co 15.49), e não somente no nosso corpo corruptível. Esse testemunho de Jesus, que sabia o que era a natureza humana (Jo 2.25), palavra profundíssima, é a demonstração suprema. O texto declara enfaticamente, o que em nenhum outro lugar se afirma com tanta clareza, que os homens são maus porque nascem maus e seguem o seu caminho de vida de acordo com esse mau começo. O próprio Mestre assumiu a responsabilidade dessa declaração profunda, à qual, depois que ele a pronunciou, responde a natureza culpada e pecaminosa do homem: a declaração revela os pensamentos de muitos corações. Nem é preciso dizer que está excetuado aquele mesmo que declara esse fato da geração humana. Quando ele testemunhou: Vocês são daqui de baixo, eu sou lá de cima (Jo 8.23), pode-se pensar que estava contrastando o seu espírito com o dos seus inimigos; mas, quando acrescentou: Vocês são deste mundo, eu deste mundo não sou, proclamou a diferença universal entre ele mesmo e os filhos dos homens. O apelo negativo, ou apologético, que vem a seguir, Quem de vocês me convence de pecado? (Jo 8.46), é para os seus inimigos; os que creem nele sabem que foi pronunciado a partir da consciência do Santo de Deus, a única Pessoa na história humana de quem se poderia dizer: NELE NÃO EXISTE PECADO (1Jo 3.5). E, para eles, a mais alta confirmação da doutrina da depravação humana hereditária é a concepção sem pecado do Redentor, que se manifestou para tirar os pecados.
II, 54Os apóstolos. (2.) São Paulo, embora não tenha ouvido as palavras do Senhor, extrai fielmente o sentido delas neste assunto. Ele usa a expressão “carne”, nessa conexão, mais do que qualquer outro escritor, e de tal modo que estabelece a propagação de uma natureza corrompida. Para que isso não seja mal-entendido, são Paulo diz que essa carne é a mente carnal (Rm 8.7) [N. do T.: a NAA traz “a inclinação da carne”], aquilo que em são Tiago não é o φρόνημα, ou pensamento, mas, numa expressão menos nobre, a ἐπιθυμία, a concupiscência ou cobiça da carne (Tg 1.14). Ele a chama de uma lei nos meus membros (Rm 7.23) e de a lei do pecado e da morte (Rm 8.2); e de o pecado que habita em mim (Rm 7.17), no Eu da carne. Todas essas palavras, por seguirem as do Senhor, mostram que a inclinação para o mal é congênita. É no coração, como representante do ser do homem em geral, e na sua carne, como representante do seu estado caído, que o pecado habita; não, certamente, como uma revolução nos elementos da natureza humana, mas como uma depravação da sua tendência. O apóstolo deu à nossa teologia o seu termo: “pecado que habita”. O pecado que reina na raça humana, transmitido de pai para filho, habita em cada indivíduo. É um inquilino na alma, e apenas um inquilino: em mim, isto é, na minha carne (Rm 7.18), em mim como sob um domínio estranho, em mim, que posso ser inteiramente libertado dele. Mas pertence a todo homem que vem ao mundo como descendente de Adão, e está ligado à sua natureza até que se realize a plena libertação: podemos, portanto, com o pleno consentimento do apóstolo, inverter as palavras dele e escrevê-las assim: na minha carne, isto é, em mim. A exposição que são Paulo faz da depravação original, ilustrada pelo seu próprio exemplo, está intimamente ligada às suas lutas como pecador convencido do seu pecado para encontrar o caminho até o Redentor. Se queremos a força nua da sua doutrina, encontramo-la em outras palavras suas: a mente carnal é inimizade contra Deus (Rm 8.7), τὸ φρόνημα τῆς σαρκὸς ἔχθρα εἰς Θεόν, cuja força concisa e epigramática se iguala à do que vem antes, τό γὰρ φρόνημα τής σαρκὸς θάνατος, pois essa mente carnal é morte (Rm 8.6).
Culpa e inclinação unidas. 3. Deve-se observar que a Escritura nunca separa a condenação da depravação: uma está sempre implícita na outra, ao passo que ambas estão, em geral, ligadas à grande salvação. É impossível conceber as duas primeiras separadas uma da outra; embora a precisão da linguagem bíblica sugira antes isto: que os que nascem com uma inclinação pecaminosa são, por isso, condenados; e não tanto que, sendo condenados, sejam necessariamente depravados. Há uma passagem que ilustra isso de modo notável. O apóstolo fala dos convertidos de Éfeso como tendo estado sob o domínio da carne, no sentido pleno exposto acima, e mostrando assim que eram por natureza filhos da ira (Ef 2.3). A depravação e a condenação do estado natural são aqui, uma única vez, reunidas: é o único caso em que se diz que a natureza do homem está sob a ira; mas a ira recai sobre os que viveram segundo essa natureza, mais do que sobre a própria natureza; e ambas são postas em estreita ligação com Cristo, cuja redenção vindoura já faz brilhar a sua luz, embora as trevas ainda não tenham passado de todo.
Em relação ao Segundo Adão. São Paulo resume e confirma o ensino da Escritura posterior, no sentido de que Jesus Cristo, o Segundo Adão, foi dado à raça humana como a Fonte de uma justiça original que tem poder para apagar, e mais do que apagar, os efeitos do pecado original no caso de todos os que viessem a ser a sua descendência espiritual. Por isso, esse Dom primitivo foi uma provisão objetiva para todos os descendentes do primeiro pecador, e os benefícios dessa provisão haveriam de ser aplicados àqueles cuja fé abraçasse o Salvador. Mas é importante lembrar que esse Dom tomou a forma de um Dom Gratuito original para toda a raça, antes que a transgressão começasse, e que afetou, em muitos aspectos, o caráter do pecado original, suspendendo a força plena da sua condenação e contrabalançando, em certo grau, a sua depravação.
Os dois Adões. I. Quando são Paulo diz que Adão prefigurava aquele que havia de vir, τύπος τοῦ μέλλοντος (Rm 5.14), a palavra tem todo o seu significado. O tipo precisa preceder o antítipo no fato histórico, mas o antítipo precisa preceder o tipo no propósito divino; por isso, o segundo Adão poderia ser chamado de primeiro, e o pecado de Adão não pode ser separado da obediência justa do Libertador. A virtude da expiação começou quando começou o mal do pecado. O evangelho foi pregado pela primeira vez quando o pecado foi condenado pela primeira vez: pregado aos primeiros transgressores por meio da sentença pronunciada contra Satanás, a causa instrumental do pecado humano, indo assim ao encontro do pecado na sua própria origem. Embora o ligue a Eva, a sua segunda origem, o apóstolo omite a serpente, omite a própria Eva e faz de Adão a fonte do pecado para a humanidade, a fim de traçar o paralelo entre o primeiro e o segundo cabeça da raça humana. Ele mostra que, em todos os pontos e em todos os aspectos, a graça de Deus e o dom pela graça de um só homem, Jesus Cristo (Rm 5.15), a χάρις e a δωρεά, são mais abundantes do que os efeitos da Queda. A provisão de redenção da desobediência vai ao encontro dela como pecado e, na sua consequência, como morte. Toda a vida e todo o destino humanos estão ligados às relações entre estes dois: o primeiro e o último Adão.
II, 56O dom gratuito. II. Mas o dom da justiça concedido à raça antes que começasse a sucessão da sua história tinha a natureza de uma provisão destinada a contrabalançar os efeitos do pecado quando o pecado original viesse a tornar-se atual. Ele não aboliu de imediato os efeitos da Queda no primeiro casal, cujo pecado original foi também, no caso deles, transgressão atual; não os colocou numa nova provação, nem excluiu a possibilidade de uma futura raça de pecadores. A grande expiação tornara-se agora necessária: tão necessária para esses pais da raça quanto o foi depois que eles se espalharam em multidões incontáveis. O Redentor já era o Dom de Deus ao homem; mas ainda era ὁ Μέλλων, aquele que havia de vir (Rm 5.14), como são Paulo o chama uma única vez, em relação a esse mesmo fato, fazendo do primeiro pecador o primeiro tipo do Salvador do pecado. A expiação não aniquila o pecado (Hb 9.26) pela soberania de uma graça arbitrária, mas como virtude da graça que perdoa e cura todos os que creem. A expiação começou imediatamente a edificar a casa de uma nova humanidade, uma descendência espiritual do segundo Adão, sendo o próprio primeiro Adão a primeira pedra viva do novo templo. E, com referência à vida concedida a essa nova raça, são Paulo força a linguagem para mostrar quanto ela superabunda, quanto ela excede o efeito da Queda. O objetor poderia ter replicado que a virtude do dom ficou aquém da imposição da primeira sentença, visto que o pecado lançou a morte sobre todos com efeito absoluto e incondicional, ao passo que a graça só reina naqueles que a buscam e a encontram. Mas são Paulo, sempre pronto a captar o tom de uma objeção, seja a do tolo (Tg 2.20), seja outra qualquer, não julga oportuno dar atenção a isso. Na plenitude da sua teologia, ele vê apenas o fato de uma nova e graciosa provação, na qual se provê vida superabundante para a raça, e fala exatamente como se o benefício tivesse sido aceito por todos os que dele precisavam. Não que ele se esqueça da distinção entre a provisão e a sua aplicação. O uso preciso que faz dos termos εἰς πάντας [sobre todos] e οἱ πολλοί [os muitos] mostra que ele a tinha em vista. Ao dizer que muitos se tornaram pecadores (Rm 5.19), referindo-se a todos os homens, ele muda o tempo verbal quando acrescenta que muitos se tornarão justos, sem se referir a todos. Mas no versículo anterior não existe essa diferença: assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os seres humanos para condenação; e assim também, por um só ato de justiça, [veio a graça] sobre todos para a justificação que dá vida (Rm 5.18). É verdade que aqui a nossa tradução reveste os ossos do original nu; mas o original nu marca a antítese com força ainda maior: assim como por uma só ofensa, para todos os homens, para condenação; assim também por uma só justiça, para todos os homens, para justificação de vida.
II, 57O Espírito restituído. III. Daí se segue necessariamente que o benefício da expiação, providenciado antes da fundação do mundo (1Pe 1.20), foi um dom gratuito à raça humana que havia de vir. Esse dom foi a restituição do Espírito Santo: não, é certo, como o Espírito da regeneração que habita no íntimo, mas como o Espírito de iluminação, de contenda e de convicção. O homem não partiu para o seu caminho de dor sem esse Consolador preparatório. Esse foi, por assim dizer, o χάρισμα πνευματικόν, o dom espiritual, concedido gratuitamente à humanidade antes que o pecado, a rigor, começasse a sua história, antes que o pecado original de Adão se tornasse pecado original na sua posteridade; e que, por isso, tem controlado e aliviado a maldição sobre o pecado através de todas as eras e gerações sucessivas. Aquela bênção de Abraão (Gl 3.14), concedida aos gentios pela fé, era também a bênção de Adão, concedida ainda sem fé. E, como o Espírito tem sido desde o princípio o Espírito de Cristo (1Pe 1.11), ele é a verdadeira luz, que ilumina todo homem que vem ao mundo (Jo 1.9) [N. do T.: a NAA traz “a verdadeira luz, que, vinda ao mundo, ilumina toda a humanidade”; Pope segue a KJV, em que quem vem ao mundo é cada homem, e não a luz]. Quando foi predito que Cristo seria a salvação até os confins da terra (Is 49.6), a predição, como muitas outras, foi um passo na revelação do mistério guardado em silêncio desde os tempos eternos (Rm 16.25). A glória do seu povo, a raça nova e santificada, é e sempre foi luz para revelação aos gentios (Lc 2.32). Foi dado ao mundo um penhor, ou garantia, do Espírito que havia de vir, tão certamente quanto foi dado um penhor do Filho encarnado. Mas o que nos interessa especificamente é o efeito desse dom sobre o mal inato da nossa raça. Assim como no fim ele superabundará para os salvos, abolindo o princípio do pecado e também todas as inumeráveis transgressões, assim também desde o princípio ele restringiu, controlou e mitigou esse mal, seja na mente de Deus, seja no coração do homem, seja no curso da história. Sem isso não há exposição coerente do pecado original.
II, 58Modificações. IV. À luz da redenção, a doutrina recebe certas modificações importantes. A melhor maneira de mostrá-lo é apontar algumas contradições aparentes que ela reconcilia e explica: A raça redimida. elas se referem aos dois títulos da condenação e da depravação e à relação geral da natureza humana com a pena de mal que recai sobre ela.
1. A natureza está condenada e, contudo, é universalmente redimida.
O dom gratuito na natureza humana. (1.) Por difícil que seja, temos de aceitar o fato de uma natureza humana, abstraída das pessoas que a herdam, perdida ou desfigurada em Adão e achada ou recuperada em Cristo. Diz-se de nosso Senhor que ele veio não apenas semelhante aos seres humanos (Fp 2.7), mas também em semelhança de carne pecaminosa (Rm 8.3). Isso liga de modo impressionante o Encarnado à nossa humanidade caída, não como quem participa do seu pecado, pois ele era Deus manifestado na carne (1Tm 3.16) [N. do T.: a NAA traz “Aquele que foi manifestado na carne”, seguindo outra leitura do grego; Pope segue a KJV, “God was manifest in the flesh”, e o argumento se apoia na palavra “Deus”], mas como quem assume a nossa natureza, sem o seu pecado e com a sua fraqueza. Ora, esse fato nos assegura de que os efeitos da Queda foram detidos. Para que ele pudesse assumir a nossa natureza e se tornar semelhante aos irmãos (Hb 2.17), a natureza comum a ele e a nós tinha de ser salva de uma subversão completa. Pode-se dizer, portanto, que o primeiro efeito da intervenção redentora foi preservar a natureza do homem de afundar abaixo da possibilidade de redenção; ou melhor, essa intervenção foi ela mesma a sua preservação. Por isso, não somente foi conservada a imagem natural de Deus: não se permitiu que se apagasse o senso eterno do certo e do errado, do bem e do mal, e assim também os elementos da imagem moral foram protegidos de uma violação absoluta. É impossível definir qual foi a diferença entre a ruína das inteligências angélicas e a queda da natureza humana; basta saber que essa diferença é, para nós, infinita: nela está a nossa vida. A Queda não arruinou completamente nada na nossa humanidade; foi apenas a depravação de todas as faculdades. A mente humana conserva os princípios da verdade; o coração, a capacidade de afeições santas; a vontade, a sua liberdade, que ainda não é a liberdade do mal necessário. Tudo isso devemos ao segundo Adão. Diz-se, é verdade, que ele veio apenas à semelhança dos homens; mas não poderia ter vindo nem mesmo à semelhança deles se os homens tivessem perdido todo vestígio do bem. Nem sequer poderia ter armado a sua tenda na nossa natureza, se ela estivesse corrompida no pior sentido possível e condenada à destruição.
II, 59Condenação. (2.) A condenação que pesa sobre a raça como tal é removida pela virtude da única oblação, que começou com o próprio começo do pecado. A natureza do homem recebeu a reconciliação (Rm 5.11) uma vez por todas; Deus, em Cristo, está reconciliado com a raça de Adão; e nenhum filho da humanidade é condenado eternamente pela ofensa original, isto é, pelo fato de ter nascido numa linhagem condenada. Dessa imunidade, o batismo, conferido a todos os que entram na raça, é o sinal e o selo. A personalidade, virtual em todos os que nascem, não começa de fato enquanto a vontade não assume conscientemente a sua responsabilidade. E, para a culpa pessoal de cada indivíduo, providenciou-se o perdão, que ratifica a remissão da única transgressão original e superabunda para as muitas ofensas (Rm 5.19). Por isso, embora não suponhamos uma segunda queda pessoal no caso de cada indivíduo que chega à crise da responsabilidade, temos de crer que o pecado original, como condenação no sentido mais pleno e como sentença absoluta, nunca passou além de Adão e da natureza não individualizada do homem. Em Cristo, ele foi detido no que diz respeito a cada indivíduo e transformado numa sentença condicional. Na medida em que é a pena da morte física, ele é, num sentido, sem atenuação: em Adão, todos morrem (1Co 15.22). Mas, em outro sentido, a pena é aliviada, suavizada e abolida, pois todos serão vivificados em Cristo.
O dom gratuito e a depravação. 2. E, tão certamente quanto o dom gratuito tempera a condenação do pecado original, tão certamente ele mitiga a depravação herdada pelo homem. Admite-se universalmente que essa depravação é dupla: a ausência da justiça original e a inclinação para todo o mal. Mas as duas são uma só na retirada do Espírito Santo, o vínculo original da união da alma com Deus. Ora, o Espírito foi devolvido à raça tão certamente quanto a expiação lhe foi dada: dado, isto é, assim como a expiação, como disciplina provisória de preparação para a graça mais plena da redenção.
II, 60Aquele que traz à lembrança. (1.) A influência universal do Espírito tempera o pecado original na medida em que, em toda alma responsável, ele é aquele que traz à lembrança um estado perdido, aquele que estimula a buscar a Deus tateando e a reaver aquela comunhão que, como toda a história prova, é um anseio inextinguível da humanidade. Ele não permite que o espírito do homem se esqueça da sua grande perda. É por meio dessa influência universal preliminar que a culpa, no homem, naturalmente se envergonha da sua deformidade. Se os descendentes de Adão e Eva herdam a natureza deles despojada da justiça, herdam também o sentimento pelo qual perceberam que estavam nus (Gn 3.7); embora essa parte da herança venha da graça original, que os primeiros transgressores não podiam transmitir. A vergonha e o senso de despojamento e de perda unem-se ao medo nos sagrados fenômenos da consciência, os quais têm de estar essencialmente ligados à doutrina do pecado original.
Aquele que estimula. (2.) Mas a consciência sugere, ao menos no homem, a ideia de recuperação; e o mesmo Espírito que, na consciência, move para Deus por meio do medo e da esperança toca universalmente as molas secretas da vontade. O pecado original é completa impotência para o bem: é, em si mesmo, um cativeiro duro e absoluto. Mas ele não é deixado entregue a si mesmo. Quando o apóstolo diz que os gentios têm a lei gravada no seu coração e, na consciência, medem a sua conduta por esse padrão, e podem fazer por natureza o que a lei ordena (Rm 2.14-15), ele nos ensina claramente que nos recessos mais íntimos da natureza está o mistério secreto da graça, que, se não for resistido e apagado, estimula a alma a buscar a Deus tateando e lhe dá aqueles inícios secretos e inexplicáveis do movimento em direção ao bem, dos quais a graça mais plena se apodera. De fato, a própria capacidade de salvação prova que a pecaminosidade inata do homem foi em algum grau refreada; que a sua tendência ao mal absoluto foi contida; e que a capacidade natural e a capacidade moral, para usar a linguagem da controvérsia, são uma só coisa pela misteriosa operação de uma graça que está por trás de todo o mal humano.
O pecado original e a aliança da graça. 3. Por isso, em conclusão, as grandes antíteses desta doutrina se reconciliam na afirmação, cuidadosamente resguardada, de que o pecado original é o pecado dos descendentes de Adão enquanto estão sob uma aliança de graça. O que ele teria sido de outro modo, jamais poderemos saber: nesse caso não teria existido nenhuma união federal da humanidade. As almas de Adão e Eva apenas teriam acrescentado mais duas aos espíritos do mal. Tal como conhecemos a doutrina e o fato, ele é a harmonia de verdades do nosso ser que, de outro modo, seriam irreconciliáveis. A natureza humana está perdida, e contudo ainda somos geração de Deus (At 17.29). A imagem natural e moral, essencialmente una na criação, desapareceu quanto à sua glória, e contudo é reconhecida como ainda existente em algum sentido. Todo homem nasce condenado, e contudo lhe é ordenado que não rejeite a vida. Por natureza, ele não é capaz de pensar, nem de sentir, nem de agir retamente; contudo, em toda a Escritura, apela-se a ele como se o seu dever fosse simplesmente questão da sua vontade. Em suma, o pecado original e a graça original encontraram-se no mistério da misericórdia, à própria porta do Paraíso.
Relações teológicas. Estabelecidos esses pontos, podemos considerar a doutrina que resulta da sua combinação: no seu aspecto em relação ao governo moral de Deus e à vindicação dos seus atributos; como explicação do governo providencial da raça humana; na sua relação com as diversas doutrinas da Fé cristã; no que diz respeito aos elementos constituintes da natureza humana; e, por fim, no seu efeito sobre a doutrina do pecado em geral e em suas manifestações particulares, como sujeito à disciplina do evangelho.
Teodiceia. I. A Sagrada Escritura só de maneira indireta se refere às objeções que podem ser levantadas contra a justiça do procedimento divino com relação aos princípios fundamentais envolvidos na doutrina do pecado original.
São Paulo. 1. Os pensamentos de são Paulo, antes e depois do tratamento expresso do assunto, parecem pairar sobre essa terrível questão da vindicação de Deus. Mas, sob a direção da inspiração, ele a deixa onde nós temos de deixá-la: entre os mistérios insolúveis da vontade eterna. Ninguém, porém, pode deixar de ver que, na estreita conexão da doutrina do pecado universal com a da graça universal, ele encontra descanso para a sua própria alma e nos ensina a encontrá-lo também. Toda descrição expressa do mal universal da humanidade está, sem exceção, ligada à redenção. Essa é a única vindicação do Deus justo contra a tremenda acusação que os juízos dos homens levantam contra ele. A teodiceia do próprio Deus, ou a vindicação que ele faz de si mesmo, se mostra no dom gratuito do segundo Adão. O pecado original brotou da constituição federal da raça: uma só na unidade dos muitos sem limite. Mas os muitos são um só, tanto na recuperação quanto no pecado. Tão certamente como o pecado e a morte passaram a toda a raça, tão certamente a graça passou, a partir de Cristo.
II, 62As três imputações. 2. Outros expedientes para conciliar a economia divina com os juízos humanos são adotados até mesmo por aqueles que aceitam alguma doutrina do pecado original; podemos dizer: outros métodos de expor a vindicação de são Paulo. Há os que sustentam as TRÊS IMPUTAÇÕES que estão na base da história humana (a imputação do pecado de Adão a todo o mundo, a imputação do pecado do homem ao santo Representante da humanidade e a imputação ao homem do benefício da sua redenção) e que, no entanto, as sustentam de tal modo que aumentam a grande dificuldade em vez de diminuí-la. Fazem essas diversas imputações decorrerem de uma soberania absoluta em Deus, que não presta contas dos seus atos. Embora a palavra tenha um som judicial, ela envolve uma ideia arbitrária, e uma ideia que acrescenta à nossa doutrina uma dureza supérflua. As imputações não são iguais nem uniformes: enquanto o pecado do primeiro Adão é imputado a toda a sua posteridade, a justiça do segundo Adão é imputada somente a uma fração predeterminada da humanidade. Se se disser que somente os pecados dos que recebem o benefício foram imputados a Cristo, isso não torna o assunto menos sombrio. A falta de correspondência entre a imputação no pecado original e a imputação na justiça cristã impõe um fardo tremendo à doutrina comum a ambas. Não são iguais os meus caminhos? (Ez 18.29). Essa é a vindicação que o Senhor faz de si mesmo; e, quanto à teologia que obscurece a sua justiça, ele lhe diz: Não são desiguais os caminhos de vocês? [N. do T.: a NAA traz “Será que são os meus caminhos que não são retos, ó casa de Israel?” e “Não seriam muito mais os caminhos de vocês que são tortuosos?”; Pope segue a KJV, “equal” e “unequal”, e o argumento se apoia nessas palavras, que retomam a frase “As imputações não são iguais”]
As duas alianças. 3. Pode-se replicar que o próprio são Paulo adota exatamente o método que denunciamos, ao fazer da aliança federal com o homem em Cristo o correlativo da aliança federal com o homem em Adão. Mas ele afirma invariavelmente a universalidade do benefício da graça, no que diz respeito à intenção de Deus. Quanto ao porquê dessa constituição federal, e ao porquê do mal em geral nesse fundo escuro, nenhuma solução é dada ao homem, porque ela não é possível à criatura. Esse mistério, como a própria redenção, ficará em certo sentido para sempre oculto na natureza divina. É, porém, um mistério que não se torna menos obscuro quando se rejeita a doutrina do pecado original.
II, 63Governo das nações. II. Assim se explica a economia do governo providencial de Deus sobre as nações. Se a exposição do pecado original for separada do dom universal, não se poderá dar nenhuma explicação inteligível dos tempos da ignorância que Deus não levou em conta (At 17.30). Todo o paganismo, passado e presente, é inexplicável nessa teoria. O mundo sempre andou tateando em busca de Deus: a pecaminosidade universal tem de ser conciliada com esse fato. A regra não tem sido o ateísmo puro e simples, mas o excesso de superstição: uma superstição politeísta à qual as nações foram entregues porque resistiram à luz interior de Deus. Degradação indizível e a passagem quase ilimitada de desonra em desonra marcaram a história do mundo pagão, mas somente como resultado da rejeição de influências que contenderam com os homens. E viu-se a luz nascer nas trevas mais profundas. Nem o trato do Salvador com os gentios, nem o dos apóstolos, permite supor uma corrupção, ruína e abandono da natureza humana tão totais e sem alívio como os que alguns dogmas do pecado original e a “massa perditionis” [massa da perdição] pressupõem. A “anima naturaliter Christiana” [alma naturalmente cristã] de Tertuliano pode ser contraposta a isso como o exagero oposto, estando a verdade no meio. A corrupção absoluta das raízes da nossa natureza é um erro maniqueu, revivido no flacianismo [N. do T.: doutrina de Flácio, teólogo luterano para quem o pecado original é uma corrupção da substância da natureza, como Pope expõe adiante, em “Padrões luteranos”], mas contradito por toda a doutrina do pecado original tal como ensinada nas Escrituras. Fora de Cristo, e em pura teoria, a ruína do homem é completa. Mas o homem nunca esteve numa terra tão distante que não pudesse ouvir o apelo do Pai: a terra distante (Lc 15.13) ainda é a terra de Emanuel.
Relação com a doutrina cristã. III. A conexão entre o pecado original e o sistema cristão é fundamental e universal. Sobre ela se baseiam a necessidade, a possibilidade e a universalidade da expiação, pela obediência do último Adão, que levou na sua própria Pessoa as consequências do pecado de que nunca participou. Do pecado original ele estava livre, pois, embora a sua natureza humana fosse nascida de mulher, nascida sob a lei (Gl 4.4), como quem carrega as consequências da transgressão humana, ela não foi gerada por homem, mas pelo Espírito Santo. Por isso, a mesma necessidade divina que o isentou do pecado da nossa natureza exige que nenhum outro seja isento, nem mesmo a sua mãe segundo a carne. A ausência de pecado em Jesus é assegurada pela concepção miraculosa, e a sua impecabilidade, pela união hipostática; por isso, a sua justiça ativa e a sua justiça passiva estão unidas numa só, a primeira tornando a segunda possível e suficiente. A regeneração também deriva o seu duplo caráter da doutrina do pecado original: é a nova criação da vida na alma, ao mesmo tempo que é a renovação da imagem original de Deus; é regeneração como começo divino de uma nova vida, e renovação como o processo que daí resulta. Mas, antes disso, à parte disso, e contudo concomitantemente com isso, a justificação vai ao encontro do pecado original como a revogação da sua condenação, com a culpa de tudo o que dele decorre, perante o tribunal de Deus. E a santificação ética, no seu começo, no seu processo e nos seus resultados finais, é a plena erradicação do próprio pecado, que, reinando nos não regenerados e coexistindo com a nova vida nos regenerados, é abolido nos inteiramente santificados.
II, 64Natureza humana. IV. Convém, neste ponto, lançar um breve olhar sobre a constituição da natureza do homem tal como ela agora se encontra, isto é, daquela natureza que é a única que conhecemos como humana. Alguns termos principais nos dão o caráter geral da humanidade que o pecado transmitiu intacta enquanto natureza humana, mas inteiramente corrompida no seu desenvolvimento sem auxílio, enquanto natureza decaída e pecaminosa.
Dois sentidos. 1. A expressão “natureza humana” não é usada na Escritura com esse sentido. Somente são Tiago fala de ἡ φύσις ἡ ἀνθρωπίνη [a natureza humana], traduzida por gênero humano (Tg 3.7). A palavra natureza significa a condição ou lei de um desenvolvimento previamente determinado e, daí, o caráter e a constituição essenciais com que toda coisa criada vem à existência. Por isso pode ser aplicada ao homem em dois sentidos, ambos fiéis ao significado original da palavra: ou aos elementos constitutivos do seu ser, enquanto o distinguem de todos os outros, ou ao desenvolvimento moral desse ser, como crescimento a partir de dentro e à parte de influência externa. Quanto a este último, todo indivíduo da humanidade nasce com uma natureza que, sem influência externa sobre ela, é moralmente degradada e corrompida. A inclinação para o mal, isto é, para esquecer Deus, servir à criatura e viver para si mesmo, é inata e congênita; e isso faz dela a natureza do homem, por ser inerente e não acidental. Mas, no primeiro sentido do termo, o pecado é um acidente da humanidade: veio de fora; não é “das Gewordene” [o que veio a ser], mas “das Gemachte” [o que foi feito]. Não está em harmonia com a constituição original do homem: dão testemunho disso a consciência e a lei escrita no coração, ou razão, que é a norma da consciência. A Escritura sempre tem presente essa distinção.
II, 65Escravidão. 2. A perturbação na própria essência da natureza humana pode ser considerada como algo que afeta toda a personalidade do homem enquanto espírito que age num corpo. Ele nasce com uma natureza que, à parte tanto do Maligno, que age de fora, quanto do poder renovador da nova criação, que também vem de fora, está sob a escravidão do pecado. Essa escravidão pode ser considerada com referência à natureza inferior, que escraviza a superior, e à natureza superior, que é escravizada.
Da carne. (1.) A natureza humana decaída é carne, ou σάρξ: o ser inteiro do homem, corpo e alma, alma e espírito, separado de Deus e sujeito à criatura. O Eu, o αὐτὸς ἐγώ [eu mesmo], está sem Deus (Ef 2.12), mas apenas no sentido de estar sem ele como o seu Deus; e está no mundo, como a sua falsa esfera de vida e de prazer. Essa é a escravidão do pecado em que o homem nasce por natureza e à qual está, por natureza, predeterminado. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum (Rm 7.18): isso encerra a verdade sobre o nosso estado decaído, expressa por são Paulo como seu representante. É escravidão, ou um jugo imposto: sou carnal, vendido à escravidão do pecado (Rm 7.14); e esse eu é a mesma pessoa que pode dizer: eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus (Rm 7.25), e faço o que detesto (Rm 7.15). Contudo, é uma escravidão inata, ou congênita, ou predeterminada: o apóstolo chama a si mesmo de σάρκινος, carnal, ou da carne, ou de carne (Rm 7.14), palavra forte, que exclui a ideia de que ele se refira à escravidão do hábito. Se ele escreveu σαρκικός [carnal], esse termo, como antítese de πνευματικός [espiritual], que denota uma característica inerente da lei, também apontaria para uma qualidade inerente da natureza decaída. Além disso, ele se refere ao pecado que habita em mim (Rm 7.17), e não meramente ao pecado que conquistou ascendência a partir de fora. E tudo isso é confirmado pelas palavras fortes: Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus. Mas vejo nos meus membros outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros (Rm 7.22-23). Esse é o significado de carne como designação da humanidade depravada, escravizada aos sentidos. Outro uso do termo, que significa a natureza humana enquanto mortal e frágil, está na base do primeiro; mas esse uso não está diretamente ligado ao pecado. Nesse último sentido, Jesus Cristo veio em carne (1Jo 4.2-3); quanto ao primeiro, ele foi enviado apenas em semelhança de carne pecaminosa (Rm 8.3).
II, 66Do espírito. (2.) Essa escravidão, porém, tem o seu aspecto mais espiritual. Partindo da mesma ideia da personalidade única no homem, podemos considerar o efeito do pecado original sobre o αὐτὸς ἐγώ no seu princípio superior, distinto da carne, embora não separado dela. O agente espiritual único no homem, que opera por meio dos três elementos da sua natureza, corpo, alma e espírito, e das três funções da sua alma racional, a mente, as afeições e a vontade, está acorrentado e impotente para o bem. Por isso a sua dignidade decaída solta sem cessar o clamor ταλαίπωρος ἐγὼ ἄνθρωπος: Miserável homem que sou! (Rm 7.24). O eu desse homem miserável é o representante pessoal da humanidade, em quem o pecado original, o pecado que habita em mim (Rm 7.17), foi trazido, pela aplicação da lei, de um estado latente para a atividade. Em mim recebe duas qualificações: isto é, na minha carne (Rm 7.18), e eu, de mim mesmo, com a mente (Rm 7.25). Portanto, a personalidade única tem um caráter duplo: o homem interior da mente, em que está o querer o bem; e a carne, ou o corpo do pecado, em que não está o realizá-lo (Rm 7.22, 25, 18). Mas a pessoa única, a quem pertencem esses elementos opostos (um homem interior, uma razão, uma vontade para o bem; uma inclinação carnal, um homem exterior, uma escravidão ao mal), está por trás de tudo isso, por trás até do homem interior. E nela, no segredo mais íntimo da sua natureza, está o vício original que gera essas contradições. O apóstolo acrescenta três visões do seu próprio estado em relação a esse pecado inerente; ou, em outras palavras, três visões desse pecado em relação a ele. Primeiro, sem a lei, ele vivia, e o pecado estava morto (Rm 7.8-9): seja qual for a dificuldade de explicar isso a respeito de são Paulo, descreve com precisão o pecado que jaz virtualmente latente em todo espírito humano, ainda que este abunde em obras mortas (Hb 6.1), até que o senso da pecaminosidade seja despertado pela pressão da lei divina sobre a consciência. Segundo, o pecado latente reviveu, isto é, ganhou vida, e ele morreu, tanto sob a depravação do pecado quanto sob a sua condenação: o pecado despertou em mim todo tipo de cobiça (Rm 7.8); o mal original que havia nele manifestou todas as suas variedades de forma e o esmagou com as provas do seu despotismo. O pecado que nele habitava, revelado pela lei, reduziu-o a uma impotência tal que só podia ser definida como morte: a escravidão do homem natural não poderia ser exibida de modo mais impressionante. Terceiro, há o estado de libertação da lei do pecado e da morte (Rm 8.2) na regeneração. Um fato importante percorre toda a descrição: a escravidão absoluta da faculdade mais nobre, aqui chamada mente, à carne, o que torna a vontade impotente para realizar o seu desejo ineficaz.
II, 67Escravidão da vontade. (3.) Nesse retrato da corrupção original da natureza humana há alguns traços que devem ser observados com atenção; agora serão apenas mencionados de passagem, pois o seu exame mais completo pertence à economia da graça e ao plano da salvação. Esse retrato ensina com toda a clareza a liberdade da vontade e, ao mesmo tempo, a incapacidade do homem de fazer o que é bom. A harmonia desses aparentes opostos é evidentíssima: a faculdade de querer permanece intacta em todo caso, e a influência da consciência a impele a querer o que é reto; mas isso está ligado a uma miserável impotência para o bem e resulta numa incapacidade, ao mesmo tempo natural e moral, de fazer o que a lei de Deus exige. Mostra de modo muito impressionante que o homem, no seu estado natural, ou na carne, tem de estar sob o desagrado divino como agente voluntário do pecado, que, no entanto, parece ser uma lei apenas nos membros. Há aqui um paradoxo nas palavras do apóstolo: Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim (Rm 7.20). Esse é o clamor e o protesto da alma contra a sua escravidão; mas continua sendo escravidão, que faz o EU prisioneiro da lei do pecado e o leva a um cativeiro ao mal, ao qual se liga inseparavelmente um senso de culpa. Mostra que a corrupção da natureza é compatível com a presença de um senso do que é reto, não extinto, e até de um desejo dele, que o bom Espírito desperta por meio da lei. Pode-se dizer que são Paulo está descrevendo não um estado de natureza, mas um estado de convicção produzido pelo Espírito Santo. Isso certamente é verdade, embora o apóstolo não faça a distinção. Mas é preciso lembrar que o homem interior e a lei da minha mente (Rm 7.22-23) são expressões que não significam nada que a influência divina, por meio da lei, tenha criado no interior do homem. O Espírito Santo fala a um homem morto ou adormecido dentro do pecador e reaviva uma lei que talvez tenha estado por muito tempo silenciosa, obsoleta e, nesse sentido, morta.
Objeções. 3. Contra essa interpretação mais branda levantam-se duas classes de opositores. Primeiro, há os que fazem do pecado original a destruição absoluta da imagem de Deus e da capacidade para o bem no homem: deles já se falou bastante, e mais adiante se mostrará, quando chegarmos ao evangelho da graça, quão incompatível é essa opinião com o benefício universal da redenção. Segundo, há os que interpretam a Queda primitiva como a perda do Espírito enquanto elemento essencial da natureza humana, devolvido sacramentalmente pela aplicação da encarnação de Cristo: também a estes teremos de nos referir mais adiante. Por fim, em defesa da nossa posição de modo geral, pode-se dizer que a miséria do miserável homem, preso ao corpo da morte, só é agravada pelo fato de haver uma natureza melhor sob a pior. Isso não atenua o pecado original como miséria, impotência e fonte de condenação; mas torna a sua exposição compatível com a universalidade da graça redentora.
II, 68Desenvolvimento do pecado. V. Resta agora traçar a ligação dessa doutrina com a história e o desenvolvimento do pecado em geral. O pecado original não pode ser distinguido da sua manifestação pessoal e atual. Ele é a fonte de todas as variedades de pecado conhecidas na experiência e descritas na Escritura: aquela outra fonte, aberta originalmente para o pecado e a impureza, cujas correntes, na vida humana, são infinitamente diversificadas [N. do T.: Pope contrapõe o pecado original à fonte de Zc 13.1, aberta “para remover o pecado e a impureza”].
Habitual e atual. 1. O pecado da nossa natureza, que habita na alma, é o estado HABITUAL dela, em oposição às transgressões ATUAIS. O primeiro é pecaminosidade; as segundas são, mais propriamente, pecado. Por isso há uma secreta impureza, tanto da carne como do espírito (2Co 7.1), distinta das obras da carne, que são conhecidas (Gl 5.19). O princípio habitual ou original do mal pode permanecer depois que as suas obras cessaram, à espera do ato da graça que o extinguirá inteiramente.
Atual. 2. As transgressões atuais podem ser resumidas de várias maneiras. (1.) Interior e exterior. Podem ser ofensas do desejo e da imaginação do coração, das palavras e dos atos; ou, como as palavras são ao mesmo tempo expressão do pensamento e atos em si mesmas, podemos dizer pecados de pensamento e de obra. (2.) Podem ser consideradas em relação à lei divina e divididas em ofensas contra Deus, contra o próximo e contra nós mesmos. As três são, na realidade, uma só, pois não há pecado que não seja contra Deus; mas o Decálogo e o teor geral da Escritura sugerem a distinção. (3.) Avaliando-as pela tentação que leva ao ato, temos a divisão em egoísmo, carnalidade e mundanismo; o primeiro, porém, segundo são Tiago, é a raiz de todos: cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai (Tg 1.14). Todo ato de pecado é a expressão do consentimento do coração a alguma solicitação; mas a solicitação pode apelar diretamente à afeição interior, ou vir por meio do olho, que deseja possuir, ou tentar o espírito alienado de Deus e absorvido no seu próprio orgulho. Daí a definição de são João: os desejos da carne, os desejos dos olhos e a soberba da vida (1Jo 2.16). É impossível distinguir com certeza entre as transgressões a que Satanás tenta diretamente e aquelas a que só o pecado inato incita. Contudo, grande perícia espiritual pode ser alcançada nisso pelos que, de um lado, estudando o Tentador no espírito das palavras de são Paulo, não ignoram quais são as intenções dele (2Co 2.11) e, de outro, se lembram da exortação do apóstolo: provem a si mesmos (2Co 13.5).
II, 69Graus. 3. Quanto à medida da culpa, há duas perspectivas que as Escrituras harmonizam. Quem transgride qualquer mandamento se torna culpado de todos (Tg 2.10); e a distinção entre MORTAL e VENIAL é essencialmente infundada. Contudo, assinalam-se diferenças, conforme a vontade, princípio último de toda transgressão, entra no ato da alma. (1.) Não só há pecados de OMISSÃO e de COMISSÃO, mas também pecados VOLUNTÁRIOS, ou deliberados, e pecados INVOLUNTÁRIOS, resultado da ignorância e da fraqueza (Sl 19.12-13). O Juiz supremo se revela como quem leva em conta essas diferenças. Por isso há uma doutrina evangélica da ofensa mortal e venial. Todo pecado é mortal, visto que o salário do pecado é a morte; todos os pecados são veniais, visto que Cristo morreu para a expiação de todos. (2.) Pecado imperdoável. Mas três vezes a Escritura declara que existe, neste mundo, a possibilidade de um pecado mortífero e imperdoável. Nosso Senhor fala de tal pecado CONTRA O ESPÍRITO SANTO, e isso em três evangelistas (Mt 12.31; Lc 12.10; Mc 3.29); a Epístola aos Hebreus acrescenta outro, e são João dá o seu testemunho final na sua Primeira Epístola. Nos Evangelhos, é o estado do coração endurecido contra a graça divina, a blasfêmia contra o Espírito Santo, e por isso necessariamente sem esperança: neste mundo recusa o perdão, e no porvir segue-se a sua condenação eterna. Na Epístola aos Hebreus, é o pecado contra a expiação, cuja rejeição absoluta, por igual necessidade, exclui toda esperança, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus (Hb 6.6). Nas palavras de são João, esse último pecado é simplesmente contra Deus, que providenciou a expiação rejeitada e enviou o Espírito desprezado; é um pecado pelo qual a intercessão pode ser vã: por esse não digo que se deva pedir (1Jo 5.16). (3.) Podem-se assinalar com proveito os estágios pelos quais a transgressão atual e deliberada chega a essa altura imperdoável. Há uma condição em que a alma frustra a influência da graça divina, descrita em toda a Escritura como oposição constante ao Espírito: vocês sempre resistem ao Espírito Santo (At 7.51). Essa é talvez a característica mais universal do pecado ativo, já que as admoestações do supremo Convencedor estão ligadas a todas as atividades da consciência e da Palavra de Deus. A oposição bem-sucedida à sua influência produz dois efeitos opostos, que, no entanto, concorrem para um só resultado. A sensibilidade da alma declina, e segue-se aquele estado que a Escritura descreve como o sono da indiferença ou da segurança carnal: tendo a consciência cauterizada (1Tm 4.2), enredados nos laços do diabo, que os prendeu para fazerem o que ele quer (2Tm 2.26), e dispostos e capazes de se recusar a dar ouvidos à verdade (2Tm 4.4). São Paulo mostra que essa condição é compatível com uma pretensão de religiosidade: pela hipocrisia dos que falam mentiras (1Tm 4.2). As denúncias do Salvador contra os hipócritas, aos quais estavam reservados os seus ais mais severos, ensinam-nos que terrível ligação pode haver entre a total insensibilidade à graça divina e a devoção à aparência de piedade. Mas o reverso desse amortecimento diante da influência do Espírito, gerado pela própria alma, é o endurecimento direto da alma pela retirada judicial dessa influência. A isso segue-se o segredo do antagonismo total à verdade: aquela reprovação decisiva que alcança os que, num sentido especial, se desviaram, seguindo Satanás (1Tm 5.15), e aprenderam, como ele, a chamar bem ao mal. Mas ninguém que tenha graça suficiente para temer cometê-lo, ou que tenha o mais leve desejo verdadeiro de voltar, pode ter cometido esse pecado específico contra o Espírito.
II, 70Nos regenerados. 4. Por último, o mal moral na alma renovada tem um caráter distinto. Aqui temos de novo uma conciliação de opostos. Por um lado, não há pecado no espírito regenerado: todo aquele que é nascido de Deus não peca (1Jo 5.18; 3.9) [N. do T.: a NAA traz “não vive em pecado”; Pope segue a KJV, “sinneth not”, “não peca”]. O mal da sua natureza, que ainda permanece, não lhe é levado em conta, e ele guarda a si mesmo da transgressão atual: o Maligno não pode tocar nele. Por outro lado, a nova vida espiritual só torna mais intolerável a corrupção que nele habita. A mente santificada conhece a iniquidade, pela revelação da lei da graça, como a não santificada não pode conhecê-la. Assim, o pecado original, na realidade, só é percebido em toda a sua vileza por aqueles que não são condenados por ele e que, de todo o coração, buscam a sua destruição. Aqui entra a distinção entre os defeitos de fraqueza, ou faltas ocultas, que não excluem da graça, por não terem em si a verdadeira natureza do pecado, e as ofensas que, cometidas apesar das advertências do Espírito Santo, o entristecem e, se nelas se persiste, fazem que ele, ainda que lentamente, se retire. É característica segura da regeneração não suportar a impureza que habita no íntimo. Aquele que se une ao Senhor é um só espírito com ele (1Co 6.17): o seu desejo profundo, o sentimento mais forte da sua nova natureza, é ser liberto daquilo que não pode ser comum a ele e ao seu Senhor. O penitente que busca o seu primeiro perdão põe a sua esperança no Cordeiro de Deus, que carrega o pecado do mundo (Jo 1.29) [N. do T.: a NAA traz “que tira o pecado do mundo”; Pope usa “beareth” (carrega), e o contraste que faz a seguir com o “tirar os pecados” de 1Jo 3.5 depende dessa redação]. Mas o crente renovado e perdoado mantém os olhos fixos na perfeita santidade do seu Salvador. Os filhos de Deus sabem que ele se manifestou para tirar os pecados (1Jo 3.5), e não apenas para carregar a nossa culpa. Leem as palavras seguintes como contendo o estímulo divino à ambição da fé: NELE NÃO EXISTE PECADO. Só ele foi e é isento da ofensa original; e pela sua graça podemos chegar à elevada experiência de que assim como ele é, também nós somos neste mundo (1Jo 4.17). É desse novo mandamento que o apóstolo do amor aperfeiçoado diz, ou se pode entender que diz: ὅ ἐστιν ἀληθὲς ἐν Αὐτῷ καὶ ἐν ὑμῖν [aquilo que é verdadeiro nele e em vocês] (1Jo 2.8).
Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. II, pp. 47-71, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.