W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume II · O pecado

O pecado original na história

II, 72HISTÓRICO.

História da doutrina. A doutrina do pecado, especialmente do pecado original, ocupa grande espaço na teologia histórica, visto que toca, em alguns pontos, quase todos os outros ramos do sistema cristão. A rigor, não há desenvolvimento do dogma: há apenas a exibição de uma série sucessiva de choques entre as declarações das Escrituras e as opiniões correntes na Igreja. Alguns pontos podem ser assinalados na sua ordem cronológica.

Pensamento profano. I. Pode-se dizer, de início, que os fundamentos da nossa doutrina foram sustentados com toda a firmeza pela humanidade de modo universal. Este é um ponto de grande importância, que liga a mais profunda revelação da Escritura à teologia da natureza.

Concepções indistintas. 1. A breve referência já feita às Teorias do Mal mostrou que o panteísmo e o dualismo dominaram sucessivamente o pensamento antigo e o moderno sobre o assunto. Mas não pode ter passado despercebido que nenhuma dessas teorias deu conta satisfatória da influência ilimitada do pecado na raça humana. Na verdade, nenhuma delas podia enfrentar a questão, visto que os princípios fundamentais de ambas se opunham a um poder absolutamente universal do princípio mau. Sem tentar definir o pecado, e com uma ideia muito vaga da sua verdadeira natureza, os sistemas da mitologia antiga (egípcio, fenício, védico, helênico) aceitaram todos certa mistura de luz e trevas, de bem e mal, que compunha, na imaginação deles, a soma das coisas na natureza. Forças do mal, tanto quanto forças do bem, eram reconhecidas e adoradas; e os mesmíssimos nomes, como no caso dos DAEVAS, passaram a ser aplicados a umas e a outras [N. do T.: na Índia védica, os devas são deuses; no Irã de Zoroastro, os daevas são demônios].

Preparações. 2. Nesse meio-tempo, não se pode duvidar de que houve na mente humana uma preparação gradual para o ensino final da Palavra de Deus. Enquanto os sistemas de pensamento do Oriente davam forma cada vez mais nítida, na Pérsia, à ideia de uma só Justiça pessoal e, no budismo, ao mal essencial da existência que se separa de Deus, o pensamento helênico, expresso sobretudo no seu drama, desenvolveu a concepção de uma Nêmesis severa e terrível, a Vingadora da ordem moral. Embora fiquem imensamente abaixo da grandeza ética da Bíblia, os trágicos e os filósofos da Grécia, e os historiadores tanto da Grécia como de Roma, estão cheios de pressentimentos da verdade. Quanto à pecaminosidade inerente da raça, em particular, são enérgicas as palavras seguintes. Diz um verso de Sófocles: Ἀνθρώποις γὰρ τοῖς πᾶσι κοινόν ἐστι τοὐξαμαρτάνειν [pois a todos os homens é comum o pecar] (Sófocles, Antígona 1005). Quanto à origem desse pecado universal, Tucídides faz esta observação vigorosa: πεφύκασι ἅπαντες καὶ ἰδίᾳ καὶ δημοσίᾳ, ἁμαρτάνειν [todos, na vida privada e na pública, são por natureza inclinados a pecar] (Tucídides, História da Guerra do Peloponeso III, 45, 3). E uma ainda mais notável se encontra num fragmento de Eurípides: ἔμφυτος πᾶσιν ἀνθρώποις κάκη [a maldade é inata em todos os homens], que Horácio verteu assim: Nam vitiis nemo sine nascitur [pois ninguém nasce sem vícios]. Assim também Tácito: Vitia erunt donec homines [haverá vícios enquanto houver homens] (Tácito, Histórias IV, 74) [N. do T.: o original indica IV, 47]. Mas, embora o senso do pecado se expresse de modo variado e desigual nas diversas nações e nas diversas literaturas, em nenhuma falta o testemunho da sua universalidade. Contudo, embora tantas tradições apontem para uma era passada de retidão e para a decadência do homem, nenhuma contém indícios da grande revelação da Bíblia: a de que toda a raça humana teve a sua provação e a sua queda num só progenitor.

II, 73Igreja judaica. II. A Igreja antiga, tanto sob a direção da inspiração como na era rabínica, sustentou o essencial da doutrina do mal moral em si mesmo e do pecado original em particular.

Hebraísmo. 1. Já se viu que as Escrituras do Antigo Testamento mantêm um ensino coerente e uniforme quanto à natureza do pecado em geral e quanto ao seu poder universal sobre a humanidade. A história do Dilúvio dá o seu testemunho, tanto em declaração clara como em juízo terrível. O rito da circuncisão, sinal da aliança, declarava de modo significativo a pecaminosidade hereditária do homem. Todo o sistema da economia levítica baseava-se nesse pressuposto: enquanto as suas ofertas pela culpa se referiam mais especificamente às ofensas individuais, as suas ofertas pelo pecado se referiam, de modo geral, à raiz mais profunda do pecado universal. Os Salmos e os Profetas abundam em testemunhos no mesmo sentido: não só afirmam a universalidade do pecado passado e presente entre os homens, mas também a afirmam com igual confiança acerca do futuro ilimitado, com a exceção de um só Ser, o Servo Justo de Jeová. De modo geral, pode-se dizer que em nenhum outro assunto o ensino das antigas Escrituras está, ao mesmo tempo, mais elevado acima de todas as ideias extrabíblicas e é mais firme e uniforme em si mesmo do que neste. Ele proclama que o MAL, ou רַע, a consequência permitida do pecado, está sob a disposição divina e não é independente da vontade divina: Eu formo a luz e crio as trevas; promovo a paz e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas (Is 45.7) [N. do T.: a NAA traz “crio os conflitos”; Pope segue a KJV, “create evil”, e o argumento se apoia no sentido “mal” da palavra hebraica רַע]. Mas esse mesmo mal, com respeito ao PECADO que o causa, é sempre atribuído à rebelião deliberada da vontade humana: O Senhor viu que a maldade das pessoas havia se multiplicado na terra e que todo desígnio do coração delas era continuamente mau (רַע) (Gn 6.5). Aqui quase não há o desenvolvimento habitual da revelação bíblica. As dispensações progressivas ampliam a doutrina em abundantes pormenores, para acompanhar o desenvolvimento gradual do método da expiação; mas a ideia fundamental do PECADO é singular, na sua dura simplicidade, em todas as Escrituras.

II, 74Judaísmo rabínico. 2. E é igualmente certo que a doutrina judaica posterior apresentou os contornos da verdade, em alguns aspectos até mais nitidamente marcados do que nas próprias Escrituras antigas. Os autores rabínicos fazem muito uso da relação típica entre Adão e Cristo: Quemadmodum homo primus fuit primus in peccato, sic Messias erit ultimus ad auferendum peccatum penitus [assim como o primeiro homem foi o primeiro no pecado, assim o Messias será o último, para tirar inteiramente o pecado]. E: Adamus postremus est Messias [o último Adão é o Messias]. O livro do Eclesiástico declara que todo homem, desde a mocidade, é dado ao mal (Eclesiástico 17.16); Fílon abunda em relatos místicos da origem e da influência universal do mal; e uma antiga tradição, transmitida desde longa data, é resumida por um dos comentadores rabínicos de Gênesis: O primeiro homem foi a causa da morte de todos os seus descendentes.

Igreja cristã primitiva. III. A Igreja cristã primitiva apresenta a verdade tal como foi deduzida da Escritura, mas com o germe de todos os erros posteriores aparecendo aqui e ali. Antes da heresia pelagiana, os Pais gregos e latinos sustentavam, em geral, o Vitium Originis [vício de origem], como Tertuliano foi o primeiro a chamá-lo, mas davam ênfase à cooperação da vontade humana iluminada pelo ensino e pela graça. Os latinos eram ainda mais decididos quanto a ambos os pontos. Ambrósio, por exemplo, diz: Omnes in primo homine peccavimus [todos pecamos no primeiro homem]; e: Nulla species cujusquam virtutis occurrit, quæ vel sine dono Divinæ gratiæ vel sine consensu nostræ voluntatis habeatur [não se encontra espécie alguma de virtude que se possua sem o dom da graça divina ou sem o consentimento da nossa vontade]. Assim também Lactâncio: Non necessitatis esse peccare, sed propositi ac voluntatis [pecar não é coisa da necessidade, mas do propósito e da vontade]. De comum acordo, sustentavam a doutrina de Tertuliano quanto à imagem de Deus no homem, da qual se diz que non tam extinguitur quam obumbratur [não tanto se extingue quanto se obscurece]. Orígenes lançou a velha ideia de um estado preexistente e de uma queda da alma: ideia que tem sido reavivada repetidas vezes, mas que aumenta a dificuldade que procura remover.

II, 75Pelagianismo. IV. A CONTROVÉRSIA PELAGIANA do século V girou, na maior parte dos seus aspectos e desdobramentos, em torno da doutrina do pecado original. Pelágio. Pelágio e os seus seguidores, Celéstio e Juliano, ensinavam que a transgressão só pode ser considerada como ato independente do livre-arbítrio do indivíduo; que Adão foi criado mortal, e a sua ofensa prejudicou somente a ele mesmo; que os seus descendentes nascem exatamente na mesma condição moral; que a predominância do pecado nos seus descendentes é resultado de seguirem o exemplo dele: in eo quod omnes peccaverunt exemplo Adami [porquanto todos pecaram a exemplo de Adão]; e que por uma longa consuetudo vitiorum [longo costume dos vícios] acontece que vitia quodammodo vim habere naturæ [os vícios têm, de certo modo, a força da natureza]. Toda a ênfase recaía sobre a livre autodeterminação de cada homem vivo para o bem ou para o mal, sendo a perfeição do bem alcançável por todo indivíduo independente, mediante a graça da sua natureza, a lei e o exemplo de Cristo. Agostinho. Mas Agostinho, no extremo oposto, ensinou que in Adamo omnes peccaverunt, omnes ille unus fuerunt: todos nós fomos aquele Um e PECAMOS NELE (Rm 5.12), por uma tradução errada de ἐφ᾽ ᾧ πάντες ἥμαρτον [porque todos pecaram]. A corrupção da natureza, o peccatum originis [pecado de origem], que começou em Adão, era a concupiscentia, o predomínio da carne sobre o espírito; ela introduziu certa necessidade de pecar, pois a liberdade da vontade não tinha sentido a não ser como oposta à coação externa; e essa corrupção, transmitida aos seus descendentes, torna-os Semipelagianismo. pecadores e culpados em si mesmos, tanto quanto em Adão. O SEMIPELAGIANISMO procurou mediar entre esses dois extremos. Admitia o pecado original no que se refere ao enfraquecimento do poder de querer e de fazer; limitava a morte da Queda à morte física; considerava as energias que restaram ao homem suficientes para pô-lo nos começos da salvação, mas a graça divina como absolutamente necessária para levá-la adiante e aperfeiçoá-la. A doutrina agostiniana alcançou a supremacia e ainda reina em todos os sistemas predestinacionistas. O pelagianismo puro e simples nunca se manteve, pelo menos entre os que têm alguma fé nas Escrituras cristãs. O semipelagianismo, porém, exerceu, de modo geral, a influência mais ampla: reapareceu dogmaticamente no sinergismo luterano e, ao menos no espírito do seu ensino, impregnou todas as comunhões que negaram o dogma da predestinação individual.

II, 76Escolástica. V. As controvérsias medievais foram sobretudo de transição. Os escolásticos gastaram toda a sua sutileza com as questões envolvidas; mas apenas forneceram os materiais para as confissões futuras. Entre os novos temas que levantaram estão os seguintes. Alguns supunham que a punição do pecado original fosse a perda negativa da visão de Deus: o ponto extremo a que Agostinho, interpretado com justiça, havia chegado no seu tempo. Mas à pœna damni, ou pena da perda, acrescentou-se a pœna sensus [pena de sentido], até no caso das crianças não batizadas: por sustentar isso com vigor, Gregório de Rimini foi estigmatizado com o nome de Atormentador de Crianças. A lei da propagação do mal também foi muito disputada. Pedro Lombardo defendeu a teoria conhecida como CRIACIONISMO: o espírito imaterial, infundido no organismo gerado da alma e do corpo, contrai contaminação e se torna culpado. Anselmo e Tomás de Aquino afirmaram o TRADUCIANISMO: Persona erat Adam, natura homo; fecit igitur persona peccatricem naturam [a pessoa era Adão, e a natureza, homem; logo, a pessoa tornou pecadora a natureza]. A pessoa de Adão corrompeu a natureza; e, nos seus descendentes, a natureza corrompe a pessoa. A favor desta última teoria estão toda a doutrina do pecado original e, especialmente, a encarnação de Cristo, cuja natureza humana foi criada, e não transmitida a ele. Contra a primeira está o perigo de fazer de Deus o autor do mal humano; embora se possa pensar que a defendem a dignidade da alma racional, o nome PAI DOS ESPÍRITOS dado a Deus (Hb 12.9) [N. do T.: a NAA traz “Pai espiritual”; Pope segue a KJV, “the Father of spirits”, e o argumento depende dessa redação] e a tendência da teoria oposta ao materialismo. A IMACULADA CONCEIÇÃO da Virgem foi cedo introduzida na questão: dividiu os escolásticos, muitos dos melhores dos quais recuavam diante da ideia de que um membro da raça fosse feito santo sem a intervenção da expiação; e foi deixada entre as “opiniões piedosas” da Igreja, até que, em 1854, Roma a tornou artigo de fé. O livre-arbítrio e a sua relação com a graça foram amplamente discutidos. A distinção expressa no termo Meritum condigni et congrui [mérito de condigno e de côngruo] foi inventada para mostrar o valor que Deus atribui aos movimentos da natureza em direção à graça: eles têm um mérito cuja recompensa com novos dons é congruente com a justiça divina, e este é um Meritum de congruo; ao passo que, depois da justificação, as obras do cristão têm um mérito mais elevado, um Meritum de condigno, que ganha a vida eterna. Mas a fonte do bem no homem desde a Queda é o Espírito divino, e todo mérito fica excluído. Um dos autores da distinção, Pedro Lombardo, deixou esta nobre sentença: Libertas a peccato et a miseria per gratiam est; libertas vero a necessitate per naturam. Ipsa gratia voluntatem prævenit præparando ut velit bonum, et præparatam adjuvat ut perficiat [a liberdade em relação ao pecado e à miséria vem pela graça; mas a liberdade em relação à necessidade vem pela natureza. A própria graça antecede a vontade, preparando-a para que queira o bem, e, uma vez preparada, ajuda-a para que o realize].

II, 77Doutrina tridentina. VI. O dogma definido no Concílio de Trento combina a identificação realista agostiniana de Adão com a raça e a ideia negativa semipelagiana do efeito da Queda. Adão, criado à imagem de Deus, dotado de livre-arbítrio e em perfeita harmonia nos elementos puramente naturais, recebeu, como acréscimo, o dom da justiça original; “CONDITUS in puris naturalibus” [criado no estado de natureza pura], foi então “in justitia et sanctitate CONSTITUTUS” [constituído em justiça e santidade]. A justiça original era um dom sobrenatural acrescentado, e a perda dela lançou a raça de volta à condição em que fora criada, de contrariedade entre a carne e o espírito, sem o freio sobreposto. No batismo, a culpa da ofensa original que acarretou essa perda é tirada; e, no entanto, a concupiscência que nasceu da transgressão e leva à transgressão permanece sem ser tirada, embora não tenha em si mesma a qualidade essencial do mal: “esta concupiscência, que o apóstolo às vezes chama de pecado, o santo sínodo declara que a Igreja Católica nunca entendeu que seja chamada pecado por ser real e verdadeiramente pecado nos regenerados, mas porque procede do pecado e inclina ao pecado” (Concílio de Trento, Sessão V). Contra isso protestaram todas as confissões reformadas, afirmando que a concupiscência tem em si a natureza do pecado. Quanto ao mais, a teoria romana admite que a imagem natural foi obscurecida pela Queda: toda a natureza do homem foi ferida e é propagada nesse estado. Esses pontos foram mencionados quando o assunto era o primeiro estado do homem, e teremos de voltar a eles repetidas vezes.

Padrões luteranos. VII. Os padrões luteranos negam a doutrina tridentina. Sob a influência do receio do semipelagianismo, por tender à ideia de mérito no homem, os formulários foram construídos no espírito agostiniano. O pecado original é a falta da justiça original e uma concupiscência depravada das faculdades superiores em direção às coisas carnais. Nos Artigos de Esmalcalde, “a corrupção da natureza é tão profunda e tenebrosa que ultrapassa a compreensão humana, mas tem de ser recebida como matéria de revelação e de fé”. Na Fórmula de Concórdia, duas tendências opostas são enfrentadas e combatidas. De um lado, aos sinergistas, que insistiam em certa medida de cooperação da vontade humana, συνεργεῖν, opôs-se a afirmação de que, embora nas coisas naturais o homem possa fazer o bem, nas coisas espirituais a sua vontade está inteiramente presa; de outro lado, à doutrina de Flácio, de que o pecado original é uma corrupção da substância da natureza, a própria imagem do diabo, opôs-se a afirmação de que o pecado é apenas um acidente da natureza, o ato, e não a essência, da alma.

II, 78Os reformados. VIII. Calvino e as confissões reformadas não fazem distinção entre a culpa imputada e a depravação inerente do estado decaído do homem. Mas surgiu depois muita controvérsia quanto à natureza e à ordem das duas imputações. A escola reformada de Saumur, representada por Placæus, sustentou que “vitiositas præcedit imputationem” [a corrupção precede a imputação]: há uma imputação MEDIATA, ou consequente, que segue a corrupção individual e dela depende. Mas a outra teoria, a da imputação IMEDIATA, ou antecedente, predominou: ela faz do pecado de Adão, como cabeça federal da raça, o fundamento exclusivo ou anterior da condenação. A teologia FEDERAL, da representação vicária da humanidade por Adão em virtude de uma aliança da natureza ou das obras (fœdus operum, fœdus naturæ), divide-se em duas classes, conforme ponha ou não em relevo a identidade realista da humanidade com Adão: no primeiro caso, há uma imputação moral, além de legal; no segundo, a imputação é inteiramente forense. Mas ambas separam de modo demasiado rígido a suposta aliança das obras da aliança real da graça em Cristo. A imputação mais forense e representativa tomou, em anos mais recentes, a forma de uma perda, por parte de Adão, de PRIVILÉGIOS OUTORGADOS que, por culpa dele, toda a humanidade perdeu, sendo essa perda o pecado original. Mas especulações como essas se sustentam ou caem com o princípio geral de uma aliança específica com Adão como representante da sua posteridade, aliança de que a Escritura não fala. Há uma só Aliança, e dela Cristo é o Mediador.

Os arminianos. IX. A doutrina arminiana, na sua forma mais pura e melhor, evitou o erro das teorias anteriores, conservando a verdade delas. Sustentou a unidade adâmica da raça: “em Adão todos pecaram” e “todos os homens são por natureza filhos da ira”. Mas sustentou também “que o Deus graciosíssimo providenciou para todos, no seu amado Filho Jesus Cristo, como que um novo e outro Adão, um remédio livre e gratuito para aquele mal geral que nos veio de Adão. De modo que se mostra claramente o erro funesto daqueles que costumam fundar sobre esse pecado original o decreto de reprovação absoluta inventado por eles mesmos”. Esse “mal” é “a morte eterna, juntamente com múltiplas misérias” (Apologia da Confissão Remonstrante). “Mas não há fundamento para a afirmação de que o pecado de Adão foi imputado à sua posteridade no sentido de que Deus realmente julgou a posteridade de Adão culpada e responsável (reos) pelo mesmo pecado e crime que Adão havia cometido.” Essas palavras da Apologia da Confissão Remonstrante são confirmadas Armínio. pelas de Armínio: “Não nego que seja pecado, mas não é pecado atual. (…) É preciso distinguir entre o pecado atual e aquilo que é causa de outros pecados e que, por essa mesma razão, pode ser chamado pecado.” Os Cânones do Sínodo de Dort (1618) deram a todas Limborch. essas posições a contradição calvinista mais concentrada. Quanto ao livre-arbítrio e à graça, Limborch diz: “A graça não é a causa única, mas é a causa primária da salvação; pois a cooperação do livre-arbítrio se deve à graça como causa primária; porque, se o livre-arbítrio não tivesse sido despertado pela graça preveniente, não seria capaz de cooperar com a graça.” Assim, ele e os outros líderes do arminianismo afirmaram a difusão universal das influências prevenientes do Espírito; a aceitação, em todas as épocas, dos que se esforçam pela retidão natural, “honestati naturali operam dent”; e, acima de tudo, o Dom Gratuito a toda a raça em Cristo, que é o fundamento de todo o seu sistema.

II, 79Metodista. X. O ensino metodista sobre esse assunto às vezes é apresentado, sem nenhuma ressalva, como arminiano; às vezes é acusado de ser semipelagiano.

Diferença. 1. Ele difere da doutrina remonstrante naquilo em que essa doutrina, no seu protesto contra as decisões do Sínodo de Dort, se afastou do ensino anterior de Armínio. Os remonstrantes posteriores deram grande ênfase à impureza física da nossa natureza, negaram que essa corrupção da natureza tenha em si as verdadeiras características do pecado e atribuíram demais à “liberdade inata da vontade humana”, considerando-a capaz de cooperar por si mesma com a lei divina. O metodismo aceita o Artigo da Igreja da Inglaterra: “O pecado original não consiste na imitação de Adão (como falam em vão os pelagianos), mas é o vício e a corrupção da natureza de todo homem que é naturalmente gerado da descendência de Adão, pelos quais o homem está muitíssimo afastado da justiça original [quam longissimè distet] e é, por sua própria natureza, inclinado ao mal, de modo que a carne sempre luta contra o Espírito; e por isso, em toda pessoa nascida neste mundo, merece a ira e a condenação de Deus. E essa infecção da natureza permanece, sim, até nos que são regenerados, e por ela a cobiça da carne, chamada em grego Φρόνημα σαρκός, que alguns interpretam como a sabedoria, outros como a sensualidade, outros como a afeição, outros como o desejo da carne, não está sujeita à lei de Deus. E, embora não haja condenação para os que creem e são batizados, o apóstolo confessa que a concupiscência e a cobiça têm em si mesmas a natureza de pecado.” Por isso, o metodismo sustenta que todo poder que houver na vontade humana, tanto na sua capacidade quanto na sua escolha, vem da redenção de Cristo.

II, 80Concordância. 2. Ele sustenta, com o arminianismo mais puro, anterior ou posterior, que não resta no homem nenhuma capacidade de voltar para Deus; e essa declaração admite e defende o cerne do pecado original como realidade interior. O homem natural, quer a sua condição natural seja descrita pelo pecado da sua carne (carnal, enquanto ele é σαρκικός), quer pelo pecado da sua alma (sensual, enquanto ele é ψυχικός), não tem poder sequer para cooperar com a influência divina. A cooperação com a graça procede da graça. Assim, o ensino metodista se mantém para sempre a salvo do pelagianismo e do semipelagianismo.

Peculiaridade. 3. Ele, porém, ligou a universalidade da graça à universalidade da redenção de modo mais completo e coerente do que o sistema remonstrante, e nada sabe da GRAÇA COMUM agostiniana. Alguns trechos deixarão isso claro.

O Pecado Original de Wesley. (1.) O sr. Wesley, cujo tratado sobre o pecado original é um dos reflexos mais fiéis e severos da doutrina bíblica que a língua inglesa possui, insiste nesse dom universal em muitíssimas passagens dos seus escritos. Por exemplo, no seu sermão O caminho bíblico da salvação: “De modo que a salvação de que aqui se fala poderia designar toda a obra de Deus, desde o primeiro alvorecer da graça na alma até a sua consumação na glória. Se a tomarmos em toda a sua extensão, ela incluirá tudo o que é operado na alma por aquilo que frequentemente se chama consciência natural, mas que, com mais propriedade, se chama graça preveniente; todas as atrações do Pai; os anseios por Deus, que, se nos rendermos a eles, aumentam cada vez mais; toda aquela luz com que o Filho de Deus ‘ilumina toda a humanidade’, mostrando a cada pessoa que ‘pratique a justiça, ame a misericórdia e ande humildemente com o seu Deus’; todas as convicções que o seu Espírito opera, de tempos em tempos, em todo filho do homem; embora, é verdade, a maioria dos homens as sufoque o mais depressa possível e, depois de algum tempo, esqueça, ou pelo menos negue, que algum dia as teve.” Em outra passagem, no sermão Sobre desenvolver a nossa própria salvação: “Pois, admitindo que todas as almas dos homens estejam mortas no pecado por natureza, isso não desculpa ninguém, visto que não há homem algum que esteja num estado de mera natureza; não há homem algum, a não ser que tenha apagado o Espírito, que esteja inteiramente destituído da graça de Deus. Nenhum homem vivo está completamente desprovido daquilo que vulgarmente se chama consciência natural. Mas ela não é natural: com mais propriedade se chama graça preveniente. Todo homem tem dela uma medida maior ou menor, e ela não espera o chamado do homem.” “Que por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os seres humanos (todos os que nascem no mundo) para condenação é verdade indubitável, e atinge toda criança, assim como toda pessoa adulta. Mas é igualmente verdade que por um só ato de justiça veio a graça sobre todos (todos os que nascem no mundo, crianças e adultos) para a justificação.” Por fim: “Afirmo que há uma medida de livre-arbítrio restaurada sobrenaturalmente a todo homem, Sr. Fletcher. juntamente com aquela luz sobrenatural.” Assim também o sr. Fletcher: “Assim como Adão trouxe sobre todas as crianças uma condenação geral e uma semente universal de morte, Cristo traz sobre elas uma justificação geral e uma semente universal de vida.” O sr. Watson, nas suas Institutas, trata amplamente desse assunto. Seguem algumas frases do final da sua exposição.

II, 81Richard Watson. (2.) “Mas virtudes fundadas em princípio, ainda que imperfeito, e, portanto, nem negativas nem simuladas, também podem ser encontradas entre os não regenerados, e sem dúvida existiram em todas as épocas. Estas, porém, não vêm dos homens, mas de Deus, cujo Espírito Santo foi concedido ao mundo por meio da expiação. Essa grande verdade muitas vezes foi perdida de vista na controvérsia. Alguns calvinistas parecem reconhecê-la em substância, sob o nome de ‘graça comum’; outros preferem atribuir à natureza todas as aparências de virtude e, assim, ao tentar evitar a doutrina do dom do Espírito a toda a humanidade, atribuem à natureza o que é incompatível com a opinião que eles mesmos têm da completa corrupção dela. Mas, sem dúvida, às vezes se encontra, em homens ainda não regenerados no sentido bíblico, em homens que nem sequer se decidiram na sua escolha, algo de excelência moral que não pode ser atribuído a nenhuma das causas acima apresentadas e que é de caráter muito mais elevado do que se pode atribuir a uma natureza que, entregue a si mesma, é totalmente destituída de vida espiritual. Compunção pelo pecado, fortes desejos de ser libertos da sua tirania, um temor de Deus que os preserva de muitos males, caridade, bondade, boa vizinhança, respeito geral pela bondade e pelos homens bons, um elevado senso de honra e de justiça e, de fato (como dá a entender a própria ordem que lhes é dada, ‘arrependam-se e creiam no evangelho’, para que sejam salvos), uma capacidade de reflexão, de oração e de voltar-se para Deus, de modo a iniciar aquele caminho que, se nele perseverassem, os levaria ao perdão e à regeneração. Dizer que ‘tudo isso deve ser atribuído à mera natureza’ é entregar o argumento ao semipelagiano, que sustenta que essas coisas provam que o homem não é inteiramente degenerado. … A prova bíblica de que o Espírito é dado ‘ao mundo’ é óbvia e decisiva. Vimos que a maldição da lei implicava a privação do Espírito; a remoção dessa maldição implica, portanto, o dom do Espírito, e o benefício deve ser tão amplo e extenso quanto a expiação.” (Watson, Obras X, 490)

II, 82Coerência desta doutrina. 4. No conjunto, pode-se dizer que a doutrina, assim exposta, é a única que está em harmonia com todos os fatos do caso: nada omite, nada atenua, nada contorna. Essa posição pode ser ainda mais fortalecida por uma comparação com alguns outros sistemas principais a que já se fez referência.

Comparada com a doutrina tridentina. (1.) Com as decisões tridentinas ela tem muitos pontos de concordância, porém mais ainda de diferença. O ensino de Roma não é coerente consigo mesmo na sua visão do estado real do homem afetado pela Queda. Sustenta o pecado original, a corrupção da natureza humana e a imputação da ofensa de Adão como condenação da raça. O Catecismo Romano afirma que somos oprimidos pelo vício do nosso nascimento, naturæ vitio premimur, e que o veneno do pecado penetra no que há de mais forte na nossa alma, rationem et voluntatem, quæ maxime solidæ sunt animæ partes [a razão e a vontade, que são as partes mais sólidas da alma]. Contudo, ele faz mais do que insinuar que a perda da justiça original simplesmente lançou o homem de volta à posição em que foi criado, como se um antagonismo natural entre a carne e o espírito fosse o estado normal da humanidade no propósito do Criador. A perda negativa e a força positiva do mal não são harmonizadas. Além disso, sustentando com razão que a condenação da ofensa original é removida pelo batismo (isto é, mais exatamente, pela eficácia expiatória de que o batismo é o selo), declara ainda, como já se viu, que a concupiscência nos batizados, isto é, nos regenerados, não tem a natureza de pecado: como se o batismo pudesse fazer com que aquilo que é essencialmente pecaminoso deixasse de sê-lo; como se a perversão da vontade, que nos constitui formalmente pecadores assim que sentimos a sua operação e consentimos nela, não fosse em si mesma pecaminosa. O concílio estabelece corretamente que, sem a graça preveniente de Deus, os homens não podem manifestar aquelas graças que preparam para a justificação, e que eles podem cooperar com essa graça preveniente, podem consentir nela ou rejeitá-la. Até aqui, tudo bem; mas a mancha do semipelagianismo se vê na ênfase que os teólogos romanistas dão ao caráter negativo do pecado original e à necessidade de que a vontade absoluta e o consentimento de um agente inteligente concorram para constituir a pecaminosidade diante de Deus. Quer o ensino formal do concílio o tenha afirmado, quer não, a doutrina romanista corrente nega que os homens nasçam no mundo com algo subjetivo em si que tenha a natureza estrita de pecado. A mancha aparece também no mérito de côngruo, em oposição ao mérito de condigno, que vem depois, pois quem coopera com a graça divina apresenta o primeiro como aquilo que o recomenda para a justificação. A doutrina que estabelecemos acompanha o romanista por um bom trecho quanto à não imputação da culpa do pecado inato nos regenerados; mas se separa dele por completo ao afirmar que há um mal inerente e inato em todo descendente de Adão; que a concupiscência, permanecendo no crente, é ofensiva aos olhos de Deus; que, como pecado, deve ser abominada e lamentada e, como pecado, deve ser lançada fora pela disciplina humana e pela graça divina.

II, 83O pecado no caráter. (2.) Em virtude desse princípio, a verdadeira doutrina se opõe também a toda explicação do pecado que insiste em que ele não pode ser considerado como tal por um Deus justo, a não ser quando a vontade consente ativamente, e em que ninguém pode ser responsabilizado por nenhum estado da alma nem por nenhuma ação da vida que não seja resultado da postura da vontade naquele momento. Por trás da vontade que ofende, há um caráter que ofende. Na definição de pecado de são João, ele não é apenas transgressão, mas falta de conformidade com a lei. Nosso Salvador fala do coração mau e da árvore má, e dos homens como maus, mesmo quando dão coisas boas aos seus filhos. Ensinar que não existe estado, condição ou potencialidade pecaminosa é semipelagianismo: um erro que contaminou profundamente boa parte da teologia moderna nos Estados Unidos e na Inglaterra. Os que aprenderam com a Escritura as profundezas do pecado recusam-se firmemente a admitir esse princípio. Creem que a raça humana é governada por uma vontade genérica comum, que é avessa a Deus, e que a aplicação da lei apenas torna manifesta a discórdia. A influência do Espírito, que apela à lei escrita no coração, ensina a todo homem que ouve o seu ensino que ele não é apenas transgressor do mandamento específico, mas transgressor em si mesmo, e antes mesmo de conhecer a lei que transgride.

II, 84Comparada com o calvinismo. (3.) À luz dessa doutrina, a forma mais dura do agostinianismo é condenada, ao passo que se mantêm os princípios de verdade eterna que ele contém. Esse sistema torna a alma do homem passiva como um tronco ou uma pedra, na qual, pelo ato da regeneração, o princípio da vida é infundido por um exercício soberano da graça eletiva, e não leva em conta os começos de bondade que são operados no homem por aquele mesmo Espírito que depois é o Espírito da regeneração. A noção de “graça comum” é uma solução que o senso comum da humanidade não aceita. Uma das repreensões que Simão Pedro recebeu lhe disse: Não considere comum aquilo que Deus purificou (At 10.15) [N. do T.: a NAA traz “impuro”; Pope segue a KJV, call not thou common, e joga com o “comum” do versículo e a “graça comum”]. Embora as manifestações de uma disposição melhor que a natureza humana apresenta não sejam provas de que ela foi inteiramente purificada, são sinais de uma purificação preparada para ela. Assim como se nega que sejam boas obras, nega-se também que sejam, a rigor, más. Não são frutos da árvore da vida no homem; contudo, também não são frutos da árvore má como tal. Mas esse assunto, assim como a função da vontade humana na salvação, deve ficar para mais adiante; enquanto isso, devemos reter firmemente a profunda verdade do aforismo de Bernardo: Tolle liberum arbitrium, non erit quod salvatur. Tolle gratiam, non erit unde salvetur [Tire o livre-arbítrio, e não haverá o que salvar; tire a graça, e não haverá com que salvar].

II, 85O fim do pecado. (4.) Por fim, o ensino metodista sobre esse assunto geral tira o seu valor da sua estrita conformidade com a doutrina com que a Primeira Epístola de são João encerra o testemunho das Escrituras. No seu terceiro capítulo temos a exposição mais completa e exaustiva do Novo Testamento a respeito do pecado em geral: a sua origem, a sua natureza, as suas manifestações e o processo da sua destruição. Contrapartida do quinto capítulo de são Paulo aos Romanos, ele trata menos da origem humana do mal e mais da sua inteira destruição, como propósito da manifestação daquele que não tem pecado e como obra realizada nos perfeitamente regenerados. O propósito da redenção é tirar os pecados (1Jo 3.5), segundo o beneplácito do Amor eterno do Pai, que enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados (1Jo 4.10): não para ser ou vir a ser, mas como quem já era a Propiciação vinda do céu [N. do T.: a KJV traz to be the propitiation, “para ser a propiciação”; Pope rejeita esse to be, e a NAA, “como propiciação”, já concorda com ele]. Além disso, para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo (1Jo 3.8). Ele veio não para afrouxar, mas para cumprir toda a justiça; veio desfazer e destruir as obras de Satanás (ἵνα λύσῃ). No capítulo de são Paulo, a origem do nosso mal não é remontada além de Adão, e a Fonte aberta para a nossa purificação faz correr os seus rios paralelamente aos da fonte da nossa contaminação. No capítulo de são João, a origem é remontada ainda mais acima, até Satanás, o pecador desde o princípio; e o Redentor, que são Paulo apresenta como o Segundo Adão, são João apresenta como o Antagonista do Inimigo original da justiça. Todo o propósito da redenção é a abolição do pecado como transgressão da lei: a perfeita vindicação da lei, seja pela satisfação judicial das suas exigências, seja pela restauração da sua autoridade. Nenhum dos dois apóstolos fala da destruição das obras de Satanás à parte da operação delas no homem; e nenhum deles fala de destruição alguma dessas obras a não ser como realizada na humanidade que crê. Mas, sem fazer referência ao vasto resíduo de obras satânicas de que o Juízo há de tratar, ambos insistem com profunda ênfase na aniquilação do pecado nos regenerados. São João, porém, é o mais completo e explícito. Na sua doutrina, o propósito da manifestação do Filho é a inteira remoção da iniquidade da natureza humana na vida presente; e é nisso que o ensino metodista se firma com forte tenacidade. Esse propósito há de realizar-se nos que creem, por meio da sua conformidade com o Salvador, no qual NÃO EXISTE PECADO (1Jo 3.5). Todo homem em Cristo há de ser feito justo, assim como ele é justo (1Jo 3.7); há de tornar-se puro, assim como ele é puro (1Jo 3.3); e, entre a sua justificação e a sua santificação, o cristão regenerado não comete pecado, porque nele permanece a semente divina; esse não pode pecar, porque é nascido de Deus (1Jo 3.9) [N. do T.: a NAA traz “não vive na prática de pecado” e “não pode viver pecando”; Pope segue a KJV, doth not commit sin e cannot sin]. Assim, no tribunal, na família e no templo divinos, respectivamente, a sombria história do pecado no homem chega ao fim. E, a despeito de todo argumento em contrário, o metodismo retém firmemente e proclama essa grande esperança.

II, 86Racionalista. XI. Os socinianos, os unitaristas modernos e os racionalistas em geral voltam à antiga teoria pelagiana, que na verdade não é uma doutrina do pecado original, mas a negação dele em todas as formas. Ao rejeitar o ensino bíblico, porém, não têm nada para pôr no lugar. Admitem os fatos da depravação humana. Não podem negar que o mal é universal e que todas as diferenças entre os homens, como seus sujeitos e agentes, são apenas diferenças de grau. Reconhecem que todo o edifício da legislação e do governo humanos se baseia no postulado de que o homem, em toda parte, precisa de freio; que todos os homens se conhecem e instintivamente se reconhecem uns aos outros como pecadores; que a mortalidade da raça não é pressuposta com mais confiança do que a sua inclinação para o mal; que a educação, em toda parte, trata as crianças como portadoras de princípios de erro inatos ou entranhados; e que, de fato, um desvio do padrão perfeito é hereditário em nossa natureza. Não conseguem dar disso nenhuma explicação que resista a um momento de reflexão. A influência do exemplo pode explicar muito, mas ela mesma exige uma razão para a facilidade com que o exemplo é seguido. Em suma, não há doutrina da nossa santíssima fé que apele de modo tão irresistível e universal, para a sua confirmação, à consciência e ao juízo comuns da humanidade. Ela brilha com a sua própria luz, embora, infelizmente, a sua luz seja como a escuridão.

Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. II, pp. 72-86, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.