W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume II · O ministério mediador

O propósito divino da redenção

II, 87O MINISTÉRIO MEDIADOR.
DESENVOLVIMENTO DO PROPÓSITO DIVINO.
A TRINDADE REDENTORA.
A PESSOA DO MEDIADOR.
A OBRA MEDIADORA.
A EXPIAÇÃO CONSUMADA.

II, 89O MINISTÉRIO MEDIADOR.

PRELIMINAR.

A obra de Cristo. O título mais apropriado para o ramo da teologia em que agora entramos é O MINISTÉRIO MEDIADOR. Esse termo define a relação da Pessoa do nosso Salvador com Deus e com o homem, separados pelo pecado humano, tal como ela se exprime na palavra mediador. Abrange também todo o âmbito da obra do nosso Salvador na terra e no céu, e isso se descreve melhor pela palavra do próprio Senhor, ministério, do que por qualquer outra. Um estudo completo do assunto inclui, primeiro, o desenvolvimento histórico do eterno conselho divino da redenção, tal como se mostra numa série de dispensações ou alianças das quais Cristo, quer ainda não revelado, quer já revelado, é o único Mediador. Em segundo lugar, apresenta-nos a plena manifestação da Trindade mediadora: as diversas funções e relações das três Pessoas na encarnação e na obra redentora. Isso nos leva, em terceiro lugar, à Pessoa de Cristo como o Mediador, cuja personalidade divina permanece na sua assunção da natureza humana e dá a sua perfeição a tudo o que ele faz e sofre pela humanidade. Em quarto lugar, o que o nosso Senhor realizou de uma vez por todas, e ainda está realizando, deve ser considerado no seu processo histórico, através de uma sucessão de estados e ofícios redentores. Em quinto lugar, concluímos com o estudo da Obra Consumada do seu ministério mediador objetivo, distinta da aplicação subjetiva desse ministério no indivíduo e na Igreja pelo Espírito Santo. Ao tratar desses temas, que são os próprios fundamentos do evangelho, devemos nos ater rigorosamente às revelações da Escritura. Mas, neste ramo como nos outros, e talvez mais do que na maioria deles, será necessário, à medida que avançarmos, estudar o desenvolvimento eclesiástico lado a lado com o bíblico.

II, 90O PROPÓSITO DIVINO.

O propósito divino. Não podemos nos aproximar da obra realizada da redenção senão por meio do conselho eterno de onde ela brotou e das sucessivas dispensações que a ligaram a esse propósito eterno. Antes que o mundo existisse, Cristo foi ordenado para assumir a natureza humana a fim de renová-la; não, portanto, como uma encarnação necessária para o aperfeiçoamento da ideia de humanidade independentemente do pecado. O mistério do conselho divino foi sendo desvendado gradualmente ao longo de uma série de economias, que ocuparam os tempos de preparação para o evangelho. Elas podem ser consideradas sob dois aspectos. Primeiro, todo o mundo da humanidade foi tratado segundo os termos de uma aliança que data da Queda, mas que ainda não fora plenamente revelada: uma aliança da graça dada como simples promessa aos nossos primeiros pais, renovada a Noé e ratificada mais uma vez a Abraão, cada um deles como representante da humanidade. Pode-se chamá-la economia dos gentios, visto que o mundo passava por uma disciplina preliminar negativa em vista de Cristo, o Desejado das nações, e ao mesmo tempo desfrutava certa medida de benefício da sua mediação. Em segundo lugar, uma série de dispensações ou alianças positivas foi dada sobrenaturalmente a um povo escolhido, e nelas se prefigurou o Redentor vindouro e se preparou a sua vinda: na aliança mosaica, como lei, com as suas expiações, e como profecia, com a sua promessa evangélica. Tanto a lei como os profetas da economia mosaica incorporaram e levaram adiante a promessa mais antiga, ou decreto da redenção, até a plenitude do tempo, quando Cristo fundiu tudo na unidade da nova aliança.

II, 91O DECRETO ETERNO.

O decreto eterno. O Novo Testamento declara que a redenção foi um propósito de Deus na eternidade, ou desde a eternidade. Esse desígnio, que diz respeito somente à obra do Salvador, à parte da sua aplicação pelo Espírito, é visto na Escritura como um decreto absoluto da salvação do homem, virtualmente consumado desde o princípio: um mistério reservado para uma revelação gradual, mas uma realidade subjacente a toda a história humana.

Amor. 1. O desígnio original da salvação do homem é apresentado com muitos e variados termos. O amor está na vanguarda e na retaguarda da longa fileira. Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito (Jo 3.16): aqui οὕτω [de tal maneira] e ὥστε [que] marcam o desígnio do amor como realizado na missão do Unigênito (1Jo 4.10; 2.7). Esse amor é visto como a vontade espontânea, absoluta e decretiva de Deus, que não toma conselho nem presta contas fora de si mesmo. O conselho da sua vontade (Ef 1.11) é simplesmente o decreto da sua volição suprema: a βουλή é a expressão do θέλημα; ela apresenta a nossa redenção como a norma ou regra primordial segundo a qual Deus faz todas as coisas, e não como um plano ou expediente desenvolvido na própria mente divina. As passagens que às vezes se citam neste último sentido referem-se ao desenvolvimento gradual do conselho celestial, às condições de que depende a salvação pessoal e aos métodos da administração do Espírito. Quanto a essas coisas, há certamente um plano de salvação, mas não, em sentido tão estrito, um plano de redenção: esta é, tanto quanto a criação, simplesmente um fiat [faça-se] da vontade: Eis aqui estou para fazer, ó Deus, a tua vontade (Hb 10.9).

Decreto e realização, uma só coisa. 2. Esse decreto tinha o seu efeito em si mesmo e estava virtualmente consumado; não podemos dizer desde o momento da sua origem, pois não foi um projeto do tempo. A queda do mundo e a sua restauração nunca estiveram separadas. A história da humanidade é uma história da redenção. O Cordeiro foi tanto preordenado antes da fundação do mundo (1Pe 1.20) como morto desde a fundação do mundo (Ap 13.8) [N. do T.: Pope segue a versão inglesa nos dois versículos; a NAA traz, em 1Pe 1.20, “conhecido antes da fundação do mundo” e, em Ap 13.8, liga “desde a fundação do mundo” aos nomes não escritos no Livro da Vida, e não à morte do Cordeiro], e a virtude da expiação, como a morte, passou a toda a humanidade, herança da raça. Foi o amor de Deus, nosso Salvador, por todos, a sua φιλανθρωπία, que se manifestou em Cristo como mistério revelado (Tt 3.4). E outro dos últimos testemunhos de são Paulo fala de Deus, nosso Salvador, que deseja que todos sejam salvos (1Tm 2.3-4), como o comprova a mediação de Cristo Jesus, que deu a si mesmo em resgate por todos, testemunho que se deve dar em tempos oportunos (1Tm 2.6). Sob um decreto de redenção virtualmente consumado, o mundo inteiro viveu, se moveu e existiu. A entrega de si mesmo feita pelo único Mediador data de antes de ele se tornar Cristo Jesus, homem (1Tm 2.5): a sua encarnação foi o testemunho, no tempo, de um fato eterno no conselho divino. O homem não tem história à parte dele.

II, 92O SEU DESDOBRAMENTO PROGRESSIVO.

Progressivo. O decreto, porém, foi um mistério revelado lentamente e de vários modos: por profecia gradual e por preparação gradual, as quais assumiram, ambas, a forma de uma série de alianças, ou economias da aliança.

Propósito prenunciado. 1. O propósito eterno foi preservado na lembrança e na esperança da humanidade por constantes PRENÚNCIOS. O evangelho foi pregado desde o princípio. O próprio Senhor o declarou aos nossos pais caídos, em palavras que por isso foram chamadas PROTOEVANGELHO, ou Primeiro Evangelho. Foi dito à serpente: Porei inimizade entre você e a mulher, entre a sua descendência e o descendente dela. Este lhe ferirá a cabeça, e você lhe ferirá o calcanhar (Gn 3.15). Essa primeira predição de um Libertador vindouro, que desfaria a obra de Satanás, saiu por todo o mundo e se misturou com as esperanças tradicionais de todas as nações. Foi renovada a Abraão, no novo mundo: Na sua descendência serão benditas todas as nações da terra (Gn 22.18). Essa promessa foi dada em vista da expiação no monte e, como essa expiação, deve estender o seu sentido tanto para trás como para a frente: no Descendente da mulher, restrito à estirpe de Abraão, todas as nações não apenas haveriam de ser benditas, mas eram e já tinham sido benditas. Além disso, o Descendente foi ainda mais restrito à linhagem de Davi, que transmitiu aos profetas o decreto que lhe fora declarado. Assim, as grandes profecias que anteriormente foram feitas a respeito de Cristo ficaram restritas a um só povo, que as recebeu como seu guardião em favor do mundo, e essas profecias mantiveram o Juramento e a Promessa de Deus diante da mente dos homens com clareza sempre crescente.

II, 93Preparação para o propósito. 2. Houve também uma PREPARAÇÃO contínua. Ela foi negativa, ao demonstrar o pecado e a impotência do mundo, quer dos judeus, quer dos gentios: quanto aos gentios, quando o mundo não conheceu a Deus por sua própria sabedoria, Deus achou por bem salvar os que creem por meio da loucura da pregação (1Co 1.21); quanto aos judeus, a lei que lhes foi dada foi acrescentada por causa das transgressões, até que viesse o descendente a quem se fez a promessa (Gl 3.19); eles estavam sob a tutela da lei (Gl 3.23), que foi guardião . . . a Cristo (Gl 3.24). Por isso, a grande preparação que atravessa as eras se resume assim: a Escritura encerrou tudo sob o pecado (Gl 3.22). Foi também uma preparação positiva. A história da antiga economia foi um longo arranjo destinado à manifestação do propósito redentor. Para isso foi escolhido o povo peculiar; para isso foi preparada a terra santa; para isso foi ordenado todo o sistema cerimonial de tipos e símbolos; para isso, por fim, tanto a terra como o povo foram entregues nas mãos dos pagãos. Porque de fato, nesta cidade, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e gente de Israel, se juntaram contra o teu santo Servo Jesus, a quem ungiste, para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram (At 4.27-28). Esse primeiro hino da Igreja cristã canta o cumprimento de um decreto para o qual todos os acontecimentos tinham preparado o caminho e em cuja realização conspiraram todos os agentes, dos mais diversos.

A única aliança da graça. 3. O desenvolvimento gradual do conselho divino da salvação humana é, na Escritura, o desdobramento de uma ALIANÇA DA GRAÇA. Deixando por ora o tratamento mais completo deste assunto, na sua aplicação à obra de Cristo e na sua administração no evangelho, devemos agora fixar o pensamento na sua ligação com a história desse desenvolvimento.

Sempre em Cristo. (1.) O próprio termo tem um sentido messiânico especial, pois sempre tem em vista a fidelidade de Deus ao desígnio da redenção humana por meio do sacrifício do seu Filho. O hebraico בְּרִית, quase sempre traduzido na Septuaginta por διαθήκη, significa não um pacto como entre um homem e outro, mas a Disposição ou Ordenação que o único e supremo propósito da graça assume. Emprega por analogia a linguagem das alianças humanas e é um exemplo do modo antropomórfico de falar que exprime o trato divino com a nossa raça em Cristo, o Mediador. Diferentemente dos pactos humanos, está invariavelmente ligado ao sacrifício. A palavra hebraica original deriva de בָּרָה, ou בָּרָא, em alusão ao costume de cortar um animal e passar entre as suas partes divididas na ratificação de uma aliança: daí o grego ὅρκια τέμνειν [cortar juramentos] e o hebraico כָרַת בְּרִית [cortar uma aliança] (Gn 15.18). A primeira revelação expressa da aliança a Abraão dá a chave de toda a sua história. Ali, tudo se baseia numa promessa divina gratuita. Os animais divididos representavam as duas partes da grande transação, e a chama que passou entre eles era Deus, no seu Filho vindouro, a Shekinah, que sozinho unia as partes e assim ratificava a sua própria aliança. O termo neotestamentário διαθήκη não conserva a alusão original, mas nunca está desligado da ideia. A única aliança da graça foi ratificada por um sacrifício eterno, que é ao mesmo tempo a morte de quem fez o testamento (Hb 9.16): aquele que dispõe da promessa da herança eterna (Hb 9.15) conforme o conselho da sua vontade.

II, 94Um só Mediador. (2.) Essa aliança da redenção, ou da graça, sempre esteve ligada a Cristo, o seu Mediador ainda não revelado. Como seu MEDIADOR, ou μεσίτης, ele é o intermediário por meio de quem, ou antes, em quem todas as suas bênçãos são transmitidas: aquela GRAÇA que é o único nome e a única bênção da aliança, a livre concessão de favor ao homem pecador, ou a graça do Senhor Jesus Cristo (2Co 13.13). Por isso, o termo, cujo sentido é mais amplo do que a sua relação com um pacto, pode ser aplicado a Cristo como o Redentor ainda desconhecido, que era ao mesmo tempo o fundamento da aliança, a sua promessa e, virtualmente, o seu administrador. Depois que ele veio e foi revelado, é o termo Fiador no evangelho. FIADOR, ou ἔγγυος (Hb 7.22), que exprime com mais precisão a sua mediação na ordem da graça: na sua personalidade divino-humana e expiatória, ele é o Penhor, dado ao homem, da concessão por Deus de todas as bênçãos obtidas pela sua obra expiatória, e o Penhor, dado a Deus da parte da humanidade, do cumprimento de todas as condições da aliança. No Antigo Testamento, o Redentor futuro não é chamado nem Mediador nem Fiador, embora o fosse no sentido mais profundo, tanto como o Anjo ou Mensageiro da Aliança (Ml 3.1) quanto como a própria Aliança encarnada, reservada para o futuro: Eu o guardarei e o darei como aliança do povo (Is 49.8) [N. do T.: a NAA traz “e o farei mediador da aliança com o povo”; Pope segue a versão inglesa, em que o próprio Servo é dado como aliança, e não chamado mediador], tendo-lhe sido confiadas todas as bênçãos da aliança como uma grande Promessa para os últimos dias. O que assim lhe foi dado pela promessa (Gl 3.18-19) torna-se, pela fé, a herança do seu povo, aqueles que, sendo de Cristo, são herdeiros segundo a promessa (Gl 3.29).

II, 95Várias alianças. (3.) Esta única aliança assumiu três formas na história da revelação. (i.) Enquanto firmada com a humanidade, representada por Cristo, a sua revelação começou com a Queda, foi ratificada para o mundo com Noé e confirmada a Abraão, como representante de todos os crentes até o fim dos tempos. (ii.) Mas a aliança com Abraão, em favor do mundo em todas as épocas, introduziu também o pacto especial com os seus descendentes segundo a carne. Este último foi estabelecido por meio de Moisés, o seu mediador, e mesclou a aliança da graça com uma aliança das obras. A lei foi dada por meio de Moisés (Jo 1.17); e, como forma ou condição anexada à instituição original da graça, convencia continuamente o povo do seu pecado e da sua impotência e o impelia a refugiar-se na esperança de uma graça futura, cujo fundamento lhe era mantido diante dos olhos na instituição do sacrifício. (iii.) Por fim, a nova aliança, instituída com base em superiores promessas (Hb 8.6), foi ratificada na morte de Cristo. Ela foi, ao mesmo tempo, a revogação da antiga aliança, a mosaica ou posterior, no que diz respeito à sua relação nacional e à sua condição legal, e a renovação, até a perfeição, da aliança mais antiga com a humanidade, sempre em vigor e nunca substituída. Disso trataremos mais particularmente adiante.

As dispensações. (4.) Esta única instituição de misericórdia, tal como foi progressivamente revelada, distribui a história da revelação numa série de DISPENSAÇÕES, às vezes chamadas patriarcal, mosaica e cristã. Dispensação e economia são traduções de uma só palavra, οἰκονομία: a primeira refere-se mais aos graus da concessão divina; a segunda, às várias formas que ela assumiu nos arranjos da Igreja única. Em relação a isso, os documentos das economias anteriores são chamados, segundo o precedente do livro da aliança mosaico (Êx 24.7), livros da Antiga Aliança ou Testamento, e os da última dispensação, Nova Aliança ou Testamento. Mas é preciso lembrar sempre que a virtude da única aliança da graça fluiu através dessas dispensações. Todas foram revelações do evangelho preliminares e imperfeitas, mas substancialmente eficazes. A graça reinou pela justiça em todas as épocas. Todos os que foram salvos foram salvos pela expiação, não revelada ou revelada. E, nesse sentido, podemos acrescentar à série acima uma dispensação DOS GENTIOS, da qual já se disse alguma coisa, e mais se dirá adiante.

II, 96CUMPRIMENTO.

O decreto cumprido. O propósito divino cumpriu-se na missão de Cristo, incluindo a sua encarnação e a sua morte: isto é, o decreto da redenção do mundo. Esse cumprimento é a plenitude do tempo; e o seu segredo consumado é a ratificação da nova e superior aliança: nova, em contraste com a antiga, que, em sua forma final, se limitava a um só povo; e superior, porque revela todas as provisões da graça, para o tempo e para a eternidade, em Cristo, o Mediador aperfeiçoado, em favor de toda a raça humana.

1. A vinda de nosso Senhor inaugurou os últimos dias (Hb 1.2), ou a dispensação da plenitude dos tempos (Ef 1.10; Gl 4.4), ou a dispensação do mistério, οἰκονομία τοῦ μυστηρίου (Ef 3.9), ou o cumprimento da promessa feita aos nossos pais (At 13.32-33), ou a revelação do mistério… dado a conhecer… para a obediência da fé, entre todas as nações (Rm 16.25-26). Tudo, na vinda de Cristo, tinha a sua finalidade. Toda a corrente da revelação do Novo Testamento glorifica a Deus na plena manifestação do Propósito eterno para a salvação da raça humana. Na Epístola aos Hebreus, os ÚLTIMOS DIAS estão ligados à Revelação aperfeiçoada: Deus, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho (Hb 1.2); na Primeira Epístola de são Pedro, à revelação da expiação: o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem defeito e sem mácula, o qual, na verdade, foi preordenado antes da fundação do mundo, mas foi manifestado nestes últimos tempos (1Pe 1.19-20) [N. do T.: a NAA traz “Ele foi conhecido antes da fundação do mundo”]; e, no sermão de Pentecostes, ao derramamento do Espírito: E acontecerá nos últimos dias, diz Deus, que derramarei o meu Espírito sobre toda a humanidade (At 2.17). Mas, em todos esses três exemplos sumários, o cumprimento de um decreto divino de redenção está no contexto. Aquilo que, na mente divina, Deus apresentara a si mesmo foi apresentado no cenário da história humana, na Paixão de Cristo. Esse é o sentido da passagem clássica de são Paulo sobre o assunto (Rm 3.21ss), onde temos o CONSELHO ETERNO (ὃν προέθετο), apresentado, ou proposto a si mesmo, por Deus; o gradual TESTEMUNHO DA LEI E DOS PROFETAS, de um lado, e, de outro, a pretermissão dos pecados na divina TOLERÂNCIA AINDA NÃO EXPLICADA; e, por fim, o AGORA dos tempos do evangelho, com a plena revelação da redenção objetiva e subjetiva. Essa é a doutrina enfática daquelas outras palavras: quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho (ἵνα) para resgatar os que estavam sob a lei (Gl 4.4-5), onde ἵνα deve ter toda a sua força. O Filho foi enviado para cumprir um desígnio predeterminado. E fala-se da nova aliança como de uma transação concluída. Eis aí vêm dias, diz o Senhor, e firmarei nova aliança (Hb 8.8): em lugar do διαθήσομαι da Septuaginta, lemos συντελέσω, e completarei, ou levarei à perfeição. Ela não é aquilo que se torna antiquado e envelhecido (Hb 8.13).

II, 97Cumprido uma vez por todas. 2. Deve-se lembrar, porém, que esse cumprimento se refere somente à obra objetiva da redenção. O grande propósito foi cumprido, e o conselho divino se esgotou, no Τετέλεσται, Está consumado. Na morte do Mediador cumpriu-se a única grande promessa da qual todas as outras dependiam. O supremo segredo dos séculos foi manifestado. O mistério do evangelho (Ef 6.19), ou o mistério que, durante tempos passados, esteve oculto em Deus, sendo o mistério de Cristo (Ef 3.4, 9) [N. do T.: o original indica Ef 11.4, 9, por erro de impressão], ou, como em outro lugar, o mistério de Deus, que é Cristo (Cl 2.2), num sentido deixou de ser mistério, embora em outro sentido deva permanecer para sempre um mistério tal que anjos desejam contemplar (1Pe 1.12).

Em andamento. 3. Também é verdade que o propósito continua em curso, à espera de outro cumprimento, que o liga à obra do Espírito na administração da redenção. Muitas vezes, o propósito cumprido da salvação humana é confundido com a realização final de todos os planos divinos. Devemos procurar manter essas duas coisas distintas. A linguagem do Novo Testamento, quando fala da efetivação do decreto divino na missão de Cristo, é diferente da que se usa a respeito do cumprimento gradual de outros propósitos que dependem daquele. Por mais difícil que seja fazer a distinção, ela é necessária. Os processos da administração gradual da graça resultarão na salvação de certa parte da humanidade, conforme Deus nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo (Ef 1.4). Mas o ajuntamento gradual dos eleitos, e a salvação gradual de cada um deles, é apresentado como resultado de um plano e de um método no evangelho. Já da redenção da raça do homem, ou humanidade, isto é, de todos os que já levaram ou ainda hão de levar o nome de homem, a Escritura fala em termos definitivos, como de algo cumprido uma vez por todas. Nós temos visto, disse o último escritor no último documento, e damos testemunho de que o Pai enviou o seu Filho, o Salvador do mundo (1Jo 4.14): e não apenas para ser o Salvador [N. do T.: a NAA traz “o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo”; “para ser o Salvador” é a redação da KJV, que Pope considera insuficiente].

II, 98HISTÓRICO.

Patrística. 1. O Credo Niceno exprime o sentimento dos primeiros cristãos de que Jesus Cristo se encarnou POR NÓS, HOMENS, E PELA NOSSA SALVAÇÃO, δι᾽ ἡμᾶς τοὺς ἀνθρώπους; e de que o propósito divino uniu a redenção e a criação. Assim diz Atanásio: “A Restauração só podia ocorrer pelo fato de que o Modelo original, segundo o qual o homem foi criado, se manifestou para a sua salvação.” Uma longa série de teólogos, de Irineu até os dias de hoje, supõe que a encarnação teria acontecido mesmo que o homem não tivesse pecado: opinião da teologia especulativa que perturba a livre graça do conselho eterno.

Ambrósio. 2. A Igreja primitiva manteve com firmeza a universalidade do objeto do propósito redentor. Dos Pais apostólicos em diante, há um testemunho claro. “Ideo autem passus est, ut tolleret peccatum mundi. Si quis autem non credit in Christum, generali beneficio se fraudat” [Por isso ele padeceu, para tirar o pecado do mundo. Mas, se alguém não crê em Cristo, priva a si mesmo do benefício geral]. Essas palavras de Ambrósio representam o tom da teologia pré-nicena, que nada sabia de uma restrição no propósito divino de salvação.

Agostinho. 3. Mas o seu discípulo Agostinho não seguiu o mestre. Foi ele o primeiro a estabelecer o princípio de que Deus, em sua soberania, decretou separar certo número, dentre a massa da humanidade caída, para a salvação, incluindo a graça especial, irresistível e inamissível que conduz a ela: por eles, e somente por eles, Deus providenciou e enviou o seu Filho. Essa visão do propósito eterno foi exagerada pelos seguidores de Agostinho e deu origem à extravagância pelagiana e semipelagiana na direção oposta. O agostinianismo primitivo fez a graça depender da predestinação do seu objeto; o semipelagianismo fez a graça depender da previsão divina do bom uso que o homem faria dela. O Sínodo de Arausio [Orange] rejeitou ambos e, ao mesmo tempo, condenou “cum omni detestatione” [com toda a detestação] a doutrina de uma predestinação para o mal; e o de Chiercy [Quierzy] (853), sob Hincmar, falou de modo ainda mais decidido. O século IX esteve repleto dessa controvérsia, e Gottschalk foi o representante de Agostinho e o elo entre ele e o seu representante ainda maior, Calvino.

II, 99Os escolásticos. 4. Os teólogos escolásticos tomaram lados opostos quanto aos decretos divinos: Tomás de Bradwardine, arcebispo de Cantuária (1349), e, depois dele, Wyclif prepararam o caminho para a doutrina rigorosa que Calvino marcou com o seu nome. Mas a tendência geral da doutrina medieval era para a redenção universal que o Concílio de Trento estabeleceu, e da qual a Igreja grega nunca se desviara.

Calvino. 5. Calvino levou a antiga teoria de Agostinho à sua conclusão lógica: cadit homo Dei providentia SIC ORDINANTE, sed suo vitio cadit [o homem cai, ASSIM O ORDENANDO a providência de Deus, mas cai por sua própria culpa]. Supralapsarianismo. Isso é o SUPRALAPSARIANISMO: a doutrina de que Deus predestinou a queda da raça, assim como a salvação de alguns para a glória da sua graça e a reprovação de outros para a glória da sua justiça. Infralapsarianismo. O INFRALAPSARIANISMO parece ter sido o modo aceito de formular o dogma de Agostinho: modifica o anterior a ponto de ligar a queda à permissão silenciosa de Deus, em vez de à sua preordenação. Mas admitir essa distinção é avançar muito no caminho da subversão do agostinianismo. Ela renuncia à Soberania absoluta, que não pode coexistir com uma simples permissão para cair; o sistema inteiro se dissolve quando se retiram os laços de ferro da Soberania. Por isso, muitos dos reformados procuraram, de várias maneiras, mitigar o dogma severo do seu mestre. A França, em especial, a própria pátria de Calvino, fez tentativas desesperadas de livrar-se desse jugo. Modificações. O que ficou conhecido como teoria da REDENÇÃO HIPOTÉTICA teve origem em Saumur, com Amyraut (1664). A sua palavra de ordem era o DECRETUM UNIVERSALE HYPOTHETICUM [decreto universal hipotético]: isto é, Cristo tornou possível a salvação de todos os homens, se eles crerem; mas, embora a intervenção do Filho tenha valor universal, a graça eficaz de Deus é dada somente a certo número. Esse infeliz meio-termo encontrou defensores também na Inglaterra.

II, 100Arminianismo. 6. Os remonstrantes da Holanda, ou arminianos, foram os primeiros que, nos tempos modernos, protestaram contra o agostinianismo que penetrara em alguns dos formulários da Reforma. O seu princípio era que o decreto de Deus em Cristo era em favor da humanidade como tal, e que esse decreto se cumpriu na oferta de Cristo pela redenção de toda a raça. Os formulários luteranos, especialmente os posteriores, afirmam a mesma universalidade, como também os metodistas em toda parte. Contra isso, o calvinismo, ou agostinianismo, alega que o decreto da redenção era em favor somente dos que são efetivamente redimidos; que a redenção, no propósito, não tinha nem podia ter referência aos que perecem; e que, se na Palavra de Deus se encontram apelos e exortações gerais, essa anomalia se explica pelo fato de haver um decreto secreto por trás da declaração aberta do propósito divino.

Amor universal e revelação parcial. 7. É evidente que um mistério insondável paira sobre todo este assunto. A sua principal dificuldade, porém, está na aplicação bíblica das doutrinas da vocação e da eleição em sua ligação com a redenção geral. Em outras palavras, embora a vontade eterna do amor de Deus de prover um Libertador e uma libertação expiatória à altura da ruína da humanidade esteja posta acima de toda possibilidade de dúvida (e assim a revelação da Bíblia responde ao instinto do coração humano), pode parecer difícil conciliar um propósito tão universal com os anúncios parciais, progressivos e limitados dessa verdade suprema. Mas este ramo do assunto tem o seu lugar próprio mais adiante, e receberá tratamento mais completo.

II, 101A TRINDADE REDENTORA.

Trindade redentora. O desdobramento gradual do mistério da redenção é também o desdobramento gradual do mistério do Deus triúno. Enquanto a essência divina é revelada como unidade de natureza em trindade de subsistência pessoal, a obra da salvação humana está de tal modo relacionada com a triunidade e com cada uma das Pessoas que a Trindade redentora pode ser tratada como tema à parte; com a ressalva, porém, de que a Trindade econômica é somente a Trindade absoluta tal como se manifesta na presente dispensação, e de que todas as apresentações dela no Novo Testamento devem ser interpretadas de acordo com isso. Temos de considerar, primeiro, a relação comum da Divindade triúna com a obra mediadora e, depois, a relação de cada Pessoa: ambas somente à luz da Escritura.

Unidade do propósito triúno. I. A redenção da humanidade brotou do propósito eterno do Deus triúno: Redimamos o ser humano! era, em silêncio, uma só coisa com Façamos o ser humano! Deus não está dividido. Assim como a criação é obra divina, embora cada Pessoa seja Criador, assim também a redenção é obra divina, na qual as três Pessoas se unem. Deus… visitou e redimiu o seu povo (Lc 1.68): palavras dirigidas aos judeus, que o Apóstolo confirma: quando se manifestou… o amor de Deus, nosso Salvador, por todos (Tt 3.4). Essas palavras são a chave de todas as passagens que ligam Deus à nossa salvação de modo absoluto e independentemente das distinções hipostáticas, até o fim: para que Deus seja tudo em todos (1Co 15.28), o DEUS TRIÚNO. Daqui decorrem algumas inferências.

As três Pessoas. 1. Os atributos divinos que exigiram e proveram uma expiação são os atributos das três Pessoas: não se pode admitir distinção alguma entre a santidade e o amor do Pai e a santidade e o amor do Filho. Há uma perfeita περιχώρησις [pericórese, ou inabitação mútua] na Trindade redentora, assim como há na absoluta. Eu e o Pai somos um (Jo 10.30) é um testemunho que se pode remontar a antes da fundação do mundo.

II, 102Aliança pré-temporal da redenção. 2. Por isso, não há apoio para a teoria de uma ALIANÇA DA REDENÇÃO entre o Pai e o Filho, segundo a qual as três Pessoas combinaram o plano da salvação: o Filho comprometeu-se, de sua parte, a sofrer as penas da lei pelo seu povo; o Pai obrigou-se a dar ao Filho, como recompensa, a sua própria glória e as almas do seu povo; e o Espírito serviu de testemunha, a fim de administrar essa aliança. A Escritura fala somente da vontade e do propósito do amor de Deus de redimir a humanidade, e essa vontade era a da Trindade indivisa. O que a palavra de Deus diz sobre este assunto não sustenta as representações que às vezes se fazem de uma harmonia estabelecida entre a misericórdia e a justiça do Pai pela intervenção do Filho, na Trindade eterna, antes que houvesse mundo. A conciliação desses atributos deve, sem dúvida, ser considerada anterior à obra manifesta da redenção; a expiação era uma realidade na mente divina antes de se consumar na cruz. Mas não foi uma expiação oferecida a uma Pessoa da Trindade por outra e testemunhada por uma terceira. O Filho encarnado veio para fazer a vontade de Deus: a sua própria vontade e a vontade do Espírito Santo, tanto quanto a vontade do Pai. As palavras aliança, esquema e plano pertencem às manifestações da economia redentora no tempo; não devemos transferi-las para a eternidade. Há um véu impenetrável sobre o que tantas vezes se chama o Conselho da Trindade eterna; e a Escritura não leva o nosso pensamento para trás desse véu, a não ser quando o Filho fala de uma glória que tinha junto do Pai antes que houvesse mundo, e o seu discípulo, de uma expiação preordenada antes da fundação do mundo (1Pe 1.20) [N. do T.: a NAA traz “Ele foi conhecido antes da fundação do mundo”]. Quando outro escritor apresenta a expiação efetiva, o πρὸ καταβολῆς se torna ἀπὸ καταβολῆς: não antes da fundação, mas desde a fundação do mundo foi morto o Cordeiro (Ap 13.8) [N. do T.: Pope segue a KJV, “o Cordeiro morto desde a fundação do mundo”; a NAA liga “desde a fundação do mundo” aos nomes não escritos no “Livro da Vida do Cordeiro que foi morto”]. Ora, o mediador não é de um só, mas Deus é um só (Gl 3.20), se é que se pode permitir tal aplicação desse dito difícil de são Paulo. Nenhuma mediação interior, no sentido estrito do termo, pode ser concebida dentro da Divindade.

Trindade na redenção. II. As três Pessoas da Trindade são reveladas em relações muito estritas e definidas com a economia da redenção.

II, 103Sobre o fundamento da Trindade absoluta. 1. Essas relações estão tão claramente definidas que é necessário mostrar, logo de início, que a doutrina bíblica da Trindade é realmente independente da obra de Cristo. As três Pessoas estão ligadas à criação quase tão estreitamente quanto à redenção; nessa Trindade econômica, embora ainda não redentora, o Verbo, ou o Filho, é o agente da vontade criadora do Pai, e o Espírito liga o Pai e o Filho ao universo visível. Os mesmos nomes que se dão ao Filho e ao Espírito no seu ser pré-temporal lhes são dados na dispensação da graça, no tempo. O Verbo, que estava no princípio com Deus, se fez carne (Jo 1.2, 14); e a sua divindade é o Espírito pelo qual a sua oblação foi oferecida (Hb 9.14). A fórmula batismal une o Filho, e não o Filho encarnado, ao Pai, na unidade do Espírito Santo (Mt 28.19). No mistério das relações internas estava a possibilidade eterna de a Trindade absoluta tornar-se a redentora: não há na Fé cristã segredo mais profundo nem mais digno de adoração do que este. O Pai podia enviar o Filho, e o Filho, por sua vez, podia dar-se a si mesmo; e o Espírito Santo, que não era nem o que envia nem o Enviado encarnado, podia, na sua personalidade distinta, repousar sobre o Filho feito carne e ser o ministro daquele que nos ministrou.

Declarações coerentes. 2. Sendo assim, há uma coerência que nunca falha nas apresentações da Trindade redentora, enquanto distinta da absoluta.

O Pai. (1.) A geração eterna do Filho é o fundamento da geração pela qual o Filho se fez carne. As palavras hoje eu gerei você (At 13.33) não podem referir-se nem à eternidade nem à ressurreição da natureza humana do Senhor: exprimem a verdade profunda de que o Unigênito era agora o mesmo Filho eterno, gerado de novo na nossa natureza humana; e esse hoje é o dia único da encarnação, consumada e aperfeiçoada na ressurreição. Por isso o Pai desse Filho encarnado é sempre, na Trindade mediadora, o supremo Representante da Divindade. “Deus” e “o Pai” são termos usados indistintamente: são João diz que Deus… enviou o seu Filho e, logo depois, que o Pai enviou o seu Filho (1Jo 4.10-14). Essa é uma lei da fraseologia que se pode acompanhar por todo o Novo Testamento. A economia inteira da redenção é sempre atribuída a Deus, ou ao Pai, como sua origem, fonte e cabeça. O que pertence igualmente a todas as Pessoas da Trindade absoluta é atribuído, na Trindade redentora, somente ao Pai. Por isso é ele quem recebe a doxologia da Igreja, e a oração geralmente é dirigida a ele.

II, 104O Espírito. (2.) E o Espírito nunca assume, com relação à pessoa e à obra de Cristo, outra posição senão a de alguém que, sendo consubstancial com o Pai e o Filho, é contudo o agente da vontade do Pai mediador. A dupla geração é ensinada na Escritura; e a analogia quase bastaria para estabelecer a dupla processão como fundamento da missão temporal do Espírito Santo. Ele é sempre enviado: ele mesmo, como Cristo, um ἀπόστολος [apóstolo, enviado] (Hb 3.1). Antes da encarnação, ele preparou o caminho do Senhor, como o Espírito de Cristo (1Pe 1.11). Na concepção miraculosa, ele é o agente por meio de quem o Pai gera o seu Filho encarnado, e por meio de quem o Filho participou da nossa carne e do nosso sangue (Hb 2.14). Durante o ministério do Salvador, ele preside a todos os seus processos como o Intermediário entre o Filho e o seu Pai: exatamente como se fosse o Diretor e o Ordenador de um Cristo passivo. Foi por meio do Espírito Santo que nosso Senhor havia dado mandamentos aos apóstolos (At 1.2). Mesmo depois da ascensão, o Espírito, na Trindade redentora, continua sendo o agente do Pai, enviado pelo Filho, e nunca é apresentado como alguém que se revela a si mesmo de modo independente. Mas ainda teremos de voltar a tratar do Espírito Santo na sua administração.

O Filho subordinado. (3.) Quanto ao Filho encarnado, o seu lugar na santa Trindade fica, por um tempo, absorvido na sua relação mediadora com o seu Deus e Pai. Ele mesmo nunca se afasta da linguagem da subordinação. Mesmo naqueles ditos que, por assim dizer, manifestam sem intenção a sua glória divina, há ainda o reconhecimento da vontade do Pai, que ele veio ao mundo consumar, e uma lembrança perpétua da obediência que lhe cabe aprender. Mas do estado de humilhação do Redentor não é preciso dizer mais agora. Basta dizer que, em toda a economia da redenção, e até o fim, quando o Deus triúno for tudo em todos e cessarem as distinções mediadoras de ofício na Trindade, o caráter predominante da Segunda Pessoa é e será o de Mediador, por meio de quem nos aproximamos de Deus: sob a autoridade do Pai, e tendo o Espírito Santo sujeito a si. O último Evangelho, que é o mais caracteristicamente trinitário, é também o mais explícito sobre este assunto. Os seus primeiros capítulos o mostram sujeito à autoridade, e passagens como estas servem de exemplo: Assim como o Pai, que vive, me enviou, e igualmente eu vivo por causa do Pai (Jo 6.57), onde se indica a vida mediadora; Porque eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, mas a vontade daquele que me enviou (Jo 6.38). Os capítulos finais mostram que o Espírito está sujeito a ele. Antes, ele sempre tinha falado de si mesmo como quem declara o que está continuamente ouvindo do Pai, assim como ouço, julgo (Jo 5.30); e agora usa exatamente a mesma linguagem a respeito do Espírito em relação a si mesmo: dirá tudo o que ouvir… porque vai receber do que é meu (Jo 16.13-14) [N. do T.: o original indica Jo 15.13-14]. E, entre uns e outros, ouvimo-lo declarar a unidade absoluta entre o Pai e o Filho: Eu e o Pai somos um (Jo 10.30).

II, 105Subordinação na Trindade. 3. É importante lembrar esta verdade no estudo da economia mediadora. Mais adiante se darão ilustrações do que agora basta enunciar: que, salvo certas reservas ocasionais e cláusulas de ressalva que declaram abundantemente a suprema divindade do Filho e do Espírito, o teor geral da fraseologia do Novo Testamento apresenta a Segunda e a Terceira Pessoas da Trindade na sua subordinação econômica ao Pai, como representante da Divindade. É preciso ter sempre em mente que a teologia da Bíblia é a teologia da redenção: diante da aplicação desse princípio, desaparece aquela dificuldade peculiar que nasce da relativa raridade das alusões diretas à Trindade como tal. Na verdade, vista sob essa luz, a dificuldade se torna um auxílio para a fé. A sublime teoria de uma subordinação redentora das duas Pessoas é mantida, no conjunto e até o menor detalhe, com uma coerência exata da qual só a sabedoria divina poderia ser autora.

Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. II, pp. 87-105, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.