John Fletcher · O Último Freio ao Antinomianismo · Prefácio

Prefácio ao Último Freio

Por que o tratado seguinte se chama O ÚLTIMO FREIO AO ANTINOMIANISMO e UM ENSAIO POLÊMICO. O credo do sr. Hill para os perfeccionistas. Breve exposição do modo como as almas são purgadas dos restos do pecado, segundo a doutrina dos pagãos, dos romanistas e dos calvinistas. O PURGATÓRIO recomendado pela Igreja da Inglaterra, e defendido neste livro, é o sangue de Cristo e uma fé que purifica a alma.

Chamo o ensaio seguinte de O Último Freio ao Antinomianismo porque ele propriamente continua e encerra os Freios anteriores. Quando um ex-membro (fellow) do Clare Hall, em Cambridge, atacou a doutrina da obediência sincera, que defendo nos Freios, disse com muita verdade: “A obediência sincera, como condição, levará você inevitavelmente até a obediência PERFEITA.” O que ele alegou como argumento contra a nossa maneira de entender o evangelho é uma das razões com que a defendemos, e talvez a mais forte de todas: pois a nossa doutrina leva tão naturalmente à santidade e à obediência perfeita quanto a dos nossos oponentes leva ao pecado e à imperfeição. Se as correntes da doutrina do sr. Hill nunca param enquanto não levam os homens a um mar de pecado que habita em nós, onde ele os deixa lutando com ondas de imoralidade ou com vagalhões de corrupção todos os dias da sua vida, é evidente que a nossa doutrina, que é exatamente o contrário da dele, há de nos levar a um mar de santidade que habita em nós, onde atravessamos com calma todas as tempestades que Satanás levantou para destruir a perfeição de Jó, e onde todas as corrupções que nos perseguem são destruídas tão completamente quanto os egípcios o foram no mar Vermelho.

A verdade, como a vara de Moisés, é toda de uma só peça; e assim também é a serpente que a verdade devora. Olhe para a cauda do erro que atacamos, e você verá o ferrão venenoso e mortal do pecado que habita em nós. Considere a ponta mais grossa da vara com que nos defendemos desse erro macio, mas mordaz, e você encontrará a pérola de grande valor (cf. Mt 13.46), o diamante inestimável da perfeição cristã. Pela própria natureza das coisas, portanto, a nossa longa guerra de controvérsia tem de terminar num combate corpo a corpo pela preservação do ferrão ou pela recuperação da joia. Se os nossos adversários conseguirem salvar o pecado que habita em nós, o ferrão mortal, o antinomianismo terá vencido a batalha; mas, se conseguirmos resgatar a perfeição cristã, a joia preciosa, então o cristianismo perfeito voltará a ousar mostrar-se, sem ser atacado como um monstro perigoso nem ridicularizado como o filho bastardo da ignorância de si mesmo e do orgulho farisaico. Esta observação sobre o antinomianismo dos nossos oponentes se baseia nos argumentos seguintes.

(1) Todos aqueles que apresentam os crentes cristãos como SEM LEI, primeiro, negando que a lei de Cristo seja uma regra de julgamento que exige absolutamente a nossa obediência pessoal; segundo, apresentando essa lei como mera regra de vida; e, terceiro, insinuando que essa regra de vida é, afinal, absolutamente impraticável, que não se espera de nenhum crente que a cumpra pessoalmente, que nunca houve um cristão que vivesse um só dia sem quebrá-la e que os crentes serão salvos eternamente simplesmente porque Cristo a guardou por eles; todos esses, digo, que sustentam essa doutrina solifidiana a respeito da lei de Cristo são antinomianos cristãos no sentido mais pleno, isto é, são cristãos sem lei em princípio, se não na prática. Ora, todos os que atacam a doutrina da obediência constante e da perfeição cristã, que sustentamos, estão nesse tríplice erro a respeito da lei de Cristo; portanto, são todos antinomianos, isto é, cristãos sem lei em princípio, embora muitos deles, disso estamos persuadidos, não o sejam na prática, pois o temor de Deus produz neles uma feliz incoerência entre a sua conduta segundo a lei e as suas doutrinas sem lei.

(2) Se aqueles que defendem a transgressão da lei de Cristo pela permanência necessária de um pensamento vingativo, apenas por uma semana ou por um dia, são antinomianos descarados, que diremos dos homens que, sob vários pretextos, defendem a permanência necessária de toda sorte de corrupção durante toda a vida? Pode-se dizer com alguma propriedade que esses homens estão livres da praga do antinomianismo?

(3) E, por fim, quando o leitor chegar à seção XVI, em que apresento e respondo os argumentos com que os ministros do evangelho imperfeito defendem a permanência do pecado que habita em todos os crentes até a morte, verá que as suas razões mais fortes em favor dessa permanência são exatamente as mesmas que os apóstatas mais sem lei e os renegados mais atrevidos apresentam todos os dias quando defendem que podem continuar na embriaguez, na mentira, na fornicação e no adultério. E, se esses adeptos imorais do evangelho merecem o nome de antinomianos GROSSEIROS, por que os homens morais que sustentam os princípios frouxos deles, e os recomendam publicamente como “doutrinas da graça”, não mereceriam o nome de antinomianos REFINADOS? Acaso o tecelão de seda, que trabalha delicadamente uma peça de tafetá, não pode ser chamado de tecelão com tanta justiça quanto o homem que tece o pano de saco mais grosseiro?

Pela força dessas observações, depois de pesar o meu assunto nas balanças da meditação e da oração durante alguns meses, cheguei a estas conclusões alarmantes: (1) Não há meio-termo entre defender a permanência do pecado que habita em nós e defender a permanência do antinomianismo do coração. E (2) todos os que atacam a doutrina de uma perfeição sem pecado no sentido evangélico merecem, quando o fazem (o que eu espero não seja frequente), o nome de advogados do pecado, mais do que o de ministros do evangelho e pregadores da justiça. Sei que essa dupla conclusão fere, na parte mais sensível, vários dos meus queridos irmãos no ministério, que estão enganados, mas a quem, por várias razões, honro muito no Senhor. Ainda assim, sou obrigado em consciência a publicá-la, para que nenhum dos meus leitores, nem nenhum daqueles a quem eles possam advertir, seja levado ao antinomianismo pelos equívocos desses pregadores populares. Pois os interesses da verdade, a honra da santa religião de Cristo e o bem das almas preciosas são, e devem ser, para mim e para todo cristão, muito mais caros do que o crédito de alguns homens bons, mas pouco judiciosos, que, sem perceber, minam a causa da piedade, pensando prestar um serviço a Deus ao estender uma mão solifidiana para segurar a arca da verdade do evangelho (cf. 2Sm 6.6-7). Isto quanto às razões que me levaram a chamar este ensaio de O Último Freio ao Antinomianismo.

Se o leitor deseja saber por que também o chamo de Ensaio Polêmico, fica informado de que o sr. Richard Hill (no fim de um panfleto intitulado Três Cartas Escritas ao Rev. J. Fletcher, Vigário de Madeley) publicou “Um Credo para Arminianos e Perfeccionistas”. Aos dez primeiros artigos desse credo, que dizem respeito aos arminianos, já respondi em O Credo Fictício e o Genuíno; e as folhas seguintes contêm a minha resposta ao último artigo, que se refere inteiramente aos perfeccionistas.

Aquele cavalheiro introduz todo o seu credo fictício com estas linhas: “A seguinte confissão de fé, por mais chocante, para não dizer blasfema, que possa parecer ao cristão humilde, tem de ser inevitavelmente adotada, se não em palavras expressas, ao menos em substância, por todo arminiano e perfeccionista, seja ele quem for; embora o seu último artigo diga respeito principalmente aos que são ministros ordenados da Igreja da Inglaterra.” Esse último artigo, que é o credo a que respondo aqui, diz o seguinte:

“Embora eu tenha subscrito solenemente os Trinta e Nove Artigos da Igreja da Inglaterra e afirmado que creio neles de coração, penso, contudo, que os nossos reformadores ignoravam profundamente o verdadeiro cristianismo quando declararam, no nono artigo, que ‘a infecção da natureza permanece naqueles que são regenerados’; e, no décimo quinto, que ‘TODOS NÓS, os demais (exceto somente Cristo), embora batizados e nascidos de novo em Cristo, ainda assim tropeçamos em muitas coisas; e, se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos enganamos, e a verdade não está em nós’ (1Jo 1.8). Isso eu nego totalmente, porque não deixa nem raiz nem ramo da minha doutrina favorita da perfeição; e por isso, digam Pedro, Paulo, Tiago e João o que quiserem, e façam-lhes coro os reformadores e os mártires com o seu canto de sereia, os olhos deles estavam, na melhor das hipóteses, só meio abertos (por falta de um pouco de colírio da Foundry) [N. do T.: a Foundry (ou Foundery), antiga fundição de canhões em Londres, era a capela e a sede do sr. Wesley; o colírio alude a Ap 3.18.]; por isso não posso considerá-los crentes adultos em Jesus Cristo.

J. F. / J. W. / W. S.”

Essas iniciais provavelmente indicam John Fletcher, John Wesley e Walter Sellon. Como o sr. Hill parece dirigir o seu credo engenhoso primeiro contra mim, farei primeiro as minhas observações sobre ele. A vanguarda, sem o grosso do exército e sem a retaguarda, talvez possa fazer frente, como convém, ao erro daquele cavalheiro: erro perigoso, este, inseparavelmente ligado à doutrina de um purgatório pouco melhor que o dos papistas. Pois é evidente que, se não podemos ser purgados dos restos do pecado nesta vida, teremos de ser purgados deles na morte ou depois da morte, ou teremos de ser banidos da presença de Deus; porque a Razão e a Escritura depõem juntas que nada que seja profano ou impuro entrará na Jerusalém celestial (cf. Ap 21.27).

Se entendemos por purgatório o modo pelo qual as almas ainda manchadas pelos restos do pecado são, ou podem ser, purgadas desses restos, para que possam ver um Deus santo e habitar com ele para sempre, a pergunta Qual é o verdadeiro purgatório? de modo nenhum é frívola: é a grande indagação Como serei salvo eternamente?, proposta com outras palavras.

Há quatro opiniões a respeito do purgatório, ou da purgação das almas dos restos do pecado. A mais extravagante é a dos pagãos, que supunham “que as almas que deixam esta vida com alguma imundícia moral apegada a elas são purificadas sendo penduradas e expostas a ventos agudos e cortantes, sendo mergulhadas num redemoinho profundo e impetuoso, ou sendo lançadas num fogo refinador em alguma região do Tártaro”; testemunhas disso são estes versos de Virgílio:

Original Tradução
… Aliæ panduntur inanes Umas, suspensas, são estendidas
Suspensæ ad ventos: aliis sub gurgite vasto aos ventos vazios; de outras, sob o vasto redemoinho,
Infectum eluitur scelus, aut exuritur igni. lava-se o crime entranhado, ou ele é queimado no fogo.

[N. do T.: Virgílio, Eneida VI, 740-742.]

A segunda opinião é a dos romanistas, que ensinam que essas almas são completamente santificadas pela virtude do sangue de Cristo e pela ação dolorosa de um fogo penal e temporário nos arredores do inferno. A terceira opinião é a dos calvinistas, que pensam que o golpe da morte tem absolutamente de se juntar ao sangue e ao Espírito de Cristo, e à nossa fé, para purificar os pensamentos do nosso coração e matar o homem do pecado que nasce conosco.

A última opinião é a da Igreja da Inglaterra, que ensina que não há outro purgatório senão “o sangue de Cristo”, “a fé firme e perfeita” e “a inspiração do santo Espírito de Deus, purificando os pensamentos do nosso coração, para que o amemos perfeitamente e engrandeçamos dignamente o seu santo nome”. “O único PURGATÓRIO em que devemos confiar para sermos salvos [diz ela] é a morte e o sangue de Cristo, os quais, se os apreendermos com uma FÉ VERDADEIRA E FIRME [logo adiante chamada ‘uma fé PERFEITA’], nos purgam e purificam de TODOS os nossos pecados. O sangue de Cristo, diz são João, nos purifica de todo pecado (1Jo 1.7). O sangue de Cristo, diz são Paulo, purificará a nossa consciência de obras mortas, para servirmos ao Deus vivo etc. (Hb 9.14). Este é, pois, o PURGATÓRIO em que todos os cristãos põem a sua confiança e esperança.” Homilia sobre a Oração, parte III.

Essa doutrina do purgatório também não é exclusiva da Igreja da Inglaterra, pois os próprios puritanos sem preconceito a sustentaram no século passado. O sr. R. Alleine, no seu excelente tratado sobre o temor piedoso, impresso em Londres em 1674, diz, na página 161: “O Senhor Cristo é às vezes comparado a um Fogo Refinador etc. Ele é como o fogo do ourives, e se assentará como derretedor e purificador de prata (Ml 3.2-3). Ele purificará, ele salvará o seu povo dos pecados deles (Mt 1.21), porém como que através do fogo (cf. 1Co 3.15). Deus tem o seu purgatório, assim como tem o seu inferno; não, porém, segundo aquele sonho papista, um purgatório depois desta vida.” E peço licença para acrescentar: não, porém, segundo aquele sonho calvinista, um purgatório quando deixamos esta vida, um purgatório no instante da morte.

Nas páginas seguintes, a doutrina bíblica do purgatório é defendida, e a doutrina recém-inventada de um purgatório da morte é refutada. Nelas procuro tanto defender a liberdade da glória dos filhos de Deus (Rm 8.21) como atacar a falsa liberdade daqueles que prometem liberdade aos outros em Cristo, quando eles mesmos são [ao menos na doutrina] escravos da corrupção (2Pe 2.19): defendem com empenho a permanência do pecado em nosso coração enquanto vivermos e acham quase “blasfemo” afirmar que o sangue de Cristo, plenamente aplicado pelo Espírito por meio de uma fé firme, pode radicalmente nos purificar de todo pecado (1Jo 1.7), sem a menor ajuda das flechas ou dos suores da morte.

Leitor, eu advogo a causa da liberdade mais preciosa do mundo, a liberdade do coração: a libertação do mais penoso de todos os jugos, o jugo da corrupção do coração. Não deixe que os seus preconceitos façam ouvidos moucos a esta importante causa. Se você receber, com espírito aberto, com fé e na prática, a verdade como ela é em Jesus (Ef 4.21), ela libertará você, e você será VERDADEIRAMENTE LIVRE (Jo 8.32,36). Então, em vez de bradar “Pecado que habita em nós e purgatório da morte”, você cumprirá a lei da liberdade (cf. Tg 1.25), bradando: “Cristo e a liberdade cristã para sempre.” Enquanto isso, quando você interceder pelos que lhe querem bem, lembre-se do autor deste ensaio e ore para que ele advogue de joelhos contra os restos do pecado com muito mais fervor do que advoga nestas folhas contra os erros do sr. Hill.

Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Last Check to Antinomianism. A Polemical Essay on the Twin Doctrines of Christian Imperfection and a Death Purgatory, 4ª edição, Londres, 1792 (exemplar digitalizado no Internet Archive), conferida com a edição das Obras de Fletcher publicada em Nova York; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.