John Fletcher · O Último Freio ao Antinomianismo · Seção XII
Contém uma variedade de argumentos para provar o absurdo das doutrinas gêmeas da imperfeição cristã e de um purgatório da morte.
ATÉ AQUI me mantive sobretudo na defensiva, mostrando que o sr. Hill não tem fundamento para insinuar que a nossa Igreja e Pedro, Paulo, Tiago e João são defensores das doutrinas gêmeas da imperfeição cristã e de um purgatório da morte. Agora atacarei essas doutrinas com uma variedade de argumentos que, assim espero, se recomendarão à consciência e à razão do leitor imparcial.
Se eu quisesse enfrentar o sr. Hill com uma cana quebrada, e não com as armas de um protestante, a razão e a Escritura, devolveria aqui contra ele o grande argumento com que ele tenta derrubar as nossas doutrinas do livre-arbítrio e da obediência de coração: “A maioria do clero carnal está do lado de vocês; portanto, as suas doutrinas são falsas”. Se esse argumento é bom, o seguinte não é melhor ainda? “A maioria dos homens maus está do lado da sua doutrina da imperfeição cristã; portanto, essa doutrina é falsa, pois, se fosse verdadeira, os ímpios não a abraçariam com tanta presteza.” Mas, como não vejo solidez nenhuma nesse argumento, com o qual eu poderia refutar a própria existência de Deus (porque a maioria dos ímpios crê que existe um Ser Supremo), eu o descarto e começo por um que, espero, não é indigno da atenção do leitor.
I. Não insinua são Paulo que nenhuma alma vai para o céu sem perfeição, quando chama as almas bem-aventuradas que aguardam uma ressurreição feliz de πνεύματα δικαίων τετελειωμένων, os espíritos dos justos aperfeiçoados, e não de τετελειωμένα πνεύματα δικαίων, os espíritos aperfeiçoados dos justos? (Hb 12.23). Esse modo de falar não indica uma perfeição que eles alcançaram enquanto eram homens, antes de começarem a ser espíritos separados, isto é, antes da morte? Pode alguém ir a um Deus santo e justo sem antes ser feito justo e santo? Não diz o apóstolo que os injustos, ou iníquos, não herdarão o Reino de Deus (1Co 6.9) e que sem santificação ninguém verá o Senhor (Hb 12.14)? Essa santificação, seja qual for o seu grau, não deve estar livre de toda mistura de injustiça? Se um homem tem na alma, à hora da morte, o menor grau de alguma injustiça e de alguma mistura impura, não terá de ir para algum purgatório, ou para o inferno? Pode ele ir para o céu, se na nova Jerusalém não entrará nada que seja impuro (Ap 21.27)? E, se à hora da morte a sua disposição justa está livre de toda mistura injusta e imoral, não é ele um justo aperfeiçoado na terra, segundo a dispensação sob a qual vive?
II. Se Cristo tira a impureza exterior dos crentes, mas deixa o coração deles, absolutamente, cheio do pecado que neles habita durante esta vida, por que censurou os fariseus por limparem o exterior do copo e do prato, deixando o interior cheio de toda corrupção (cf. Mt 23.25-26)? Se Deus diz: Filho meu, dá-me o teu coração (Pv 23.26) [N. do T.: a NAA traz “preste bem atenção no que eu digo”.]; se ele se agrada da verdade no íntimo (Sl 51.6) e se queixa de que os judeus se aproximavam dele com os seus lábios, mas o seu coração estava longe dele (Is 29.13), não é estranho que ele aceite que o coração do seu povo mais exclusivo, o coração dos cristãos, permaneça necessariamente impuro durante toda a vida? Além disso, há algum outro modo evangélico de purificar plenamente os lábios e as mãos, senão purificando completamente o coração? E uma purificação não é farisaica na mesma medida em que deixa de lado o coração? Mais uma coisa: se Cristo nos garantiu que bem-aventurados são os limpos de coração (Mt 5.8) e que, se o Filho nos libertar, seremos verdadeiramente livres (Jo 8.36), não cabe aos nossos opositores provar que tem um coração limpo o crente que está cheio de corrupção interior, e que é verdadeiramente livre o homem que ainda está vendido à escravidão do pecado inato (cf. Rm 7.14)?
III. Quando o nosso Senhor amarrou o homem do pecado que habita em nós, o valente bem-armado (cf. Mt 12.29; Lc 11.21), não pode ele expulsá-lo? Quando expulsava demônios e espíritos imundos com uma palavra (cf. Mt 8.16), chamava a morte em seu auxílio? Não realizava ele a cura maravilhosa de modo radical, para mostrar que está pronto e é capaz de curar radicalmente aqueles cujo coração está possuído pela iniquidade que neles habita, esse pecado maldito cujo nome é Legião (Mc 5.9)? Quando a legião de demônios expulsos entrou nos porcos, os pobres animais foram livrados dos seus hóspedes infernais afogando-se no mar (Mc 5.13). Foi, portanto, a morte que os curou, e não Cristo. E não podemos ter outra cura além da dos porcos? Nenhuma libertação do pecado que habita em nós, a não ser nos braços da morte? Se é assim, vão, afoguem as corrupções que os atormentam no primeiro açude que encontrarem, vocês, pobres aflitos, que estão mais aborrecidos da vida por causa do pecado que habita em vocês do que Rebeca estava por causa das filhas de Hete (Gn 27.46).
IV. Como a noção de que o pecado habita necessariamente no coração dos cristãos mais adiantados concorda com o pleno teor da nova aliança, que diz assim: Imprimirei as minhas leis na mente deles e as inscreverei sobre o seu coração (Hb 8.10); a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, os livrará da lei do pecado e da morte (cf. Rm 8.2)? Se as leis do amor perfeito a Deus e ao próximo são plenamente impressas no coração de um crente, segundo o pleno teor do evangelho de Cristo, que espaço resta para os estatutos infernais de Satanás? Não purifica o Senhor o coração do crente à medida que nele escreve a lei do amor? E, quando essa lei está inteiramente escrita pelo Espírito, o dedo de Deus (cf. Lc 11.20), que aplica o sangue que purifica de tudo, não fica o coração inteiramente purificado? Quando Deus dá completamente o coração de carne, não tira completamente o coração de pedra (cf. Ez 36.26)? Não é o coração de pedra a própria rocha em que a serpente, o pecado que habita em nós, se esconde? E Deus tirará essa rocha maldita e poupará a víbora venenosa que se cria nas suas fendas?
V. Não pode o pouco fermento da sinceridade e da verdade levedar todo o coração? Mas pode isso ser feito sem jogar fora inteiramente o velho fermento do mal e da maldade (cf. 1Co 5.6-8)? Não pode um pai em Cristo estar tão livre do pecado quanto aquele que foi totalmente entregue a um modo de pensar reprovável (Rm 1.28) está livre em relação à justiça (cf. Rm 6.18, 20)? Não é a gloriosa liberdade dos filhos de Deus (cf. Rm 8.21) exatamente o contrário da escravidão total e constante ao pecado, na qual os mais fortes filhos de Belial vivem e morrem? Se a aceitação plena da tentação de Satanás pôde destruir radicalmente a justiça original no coração dos nossos primeiros pais, por que a aceitação plena do evangelho de Cristo não pode destruir radicalmente a injustiça original no coração dos crentes? Não nos promete o evangelho que, onde aumentou o pecado, há de aumentar muito mais ainda a graça (cf. Rm 5.20)? E o pecado não aumentou certa vez a ponto de varrer inteiramente a santidade interior antes da morte? Mas como a graça aumenta muito mais do que o pecado, se nunca pode varrer inteiramente o pecado interior sem a ajuda da morte?
VI. Não há no sangue do Redentor um poder purificador presente, assim como uma eficácia expiatória presente? Já não observamos que a mesma passagem da Escritura que nos informa que, se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, declara também que, nas mesmas condições graciosas, ele é fiel e justo para nos purificar de toda injustiça (1Jo 1.9)? Ora, se o Deus fiel e justo está pronto a perdoar hoje o pobre aflito que confessa sinceramente a sua culpa; e se seria grande desonra à fidelidade e à justiça divinas dizer que Deus não perdoará antes da hora da morte o penitente que chora, será honrar essas perfeições divinas afirmar que Deus não purificará antes da morte o crente que confessa humildemente e lamenta profundamente os restos do pecado? Por que Deus não mostraria a sua fidelidade e a sua justiça purificando-nos agora do pecado inato, tanto quanto perdoando-nos agora as nossas iniquidades atuais, se agora cumprimos as condições graciosas a cujo cumprimento essa dupla bênção está ligada na carta do evangelho?
VII. Se os nossos opositores admitem que a fé e o amor podem ser aperfeiçoados dois ou três minutos antes da morte, abandonam a questão. A morte já não é absolutamente necessária para a destruição da incredulidade e do pecado. Pois, se o coração mau e descrente, que se afasta do Deus vivo (Hb 3.12), pode ser tirado, e o bom e reto coração (Lc 8.15) pode ser dado por completo dois ou três minutos antes da morte, queremos saber por que essa mudança não pode acontecer duas ou três horas, duas ou três semanas, dois ou três anos antes daquele momento terrível.
VIII. Admite-se, creio eu, de todos os lados, que somos salvos, isto é, santificados tanto quanto justificados, mediante a fé (cf. Ef 2.8). Ora, aquela altura particular da santificação, aquela plena circuncisão do coração (cf. Rm 2.29) que purifica a alma no seu centro, brota de um grau peculiar de fé salvadora e de uma operação particular do Espírito purificador (cf. Is 4.4). É uma operação rápida, comparada a um batismo de fogo (cf. Mt 3.11), e às vezes se mostra tão aguda e penetrante que um homem sadio e forte mal consegue suportá-la. Parece, portanto, absurdo supor que a infinita sabedoria de Deus tenha prendido essa operação poderosa à hora da morte, isto é, a um momento em que as pessoas, por delírio ou fraqueza extrema, muitas vezes não conseguem pensar nem suportar o fraco efeito de um pouco de vinho com água.
IX. Quando o nosso Senhor diz: Tornem a árvore boa e o seu fruto será bom (Mt 12.33); a pessoa boa tira o bem do bom tesouro do coração (Lc 6.45), supõe ele que o coração do seu povo fiel deva permanecer sempre carregado do pecado que nele habita? É o pecado que habita em nós um bom tesouro? Ou Cristo defende em algum lugar a permanência necessária de um mau tesouro num homem bom? Quando a Esposa é toda gloriosa por dentro (cf. Sl 45.13) [N. do T.: a NAA traz “toda formosura no interior do palácio”.]; quando os seus olhos são bons e todo o seu corpo é cheio de luz (cf. Mt 6.22), como pode ela estar ainda cheia de trevas e de iniquidade inata? E quando são Paulo observa que os cristãos firmados estão cheios de bondade (Rm 15.14), quem pode pensar que ele quer dizer que estão cheios de corrupção do coração e (o que é pior ainda) que devem continuar assim até o dia da sua morte?
X. Se a perfeição cristã não é outra coisa senão a profundidade do arrependimento evangélico, a plena certeza da fé e o amor puro a Deus e ao próximo, derramado no coração do crente fiel pelo Espírito Santo, que lhe foi dado (cf. Rm 5.5), para purificá-lo e conservá-lo puro de toda impureza, tanto da carne como do espírito (2Co 7.1), e para capacitá-lo a cumprir a lei de Cristo (Gl 6.2) segundo os talentos que lhe foram confiados e as circunstâncias em que está colocado neste mundo; se isso, digo eu, é a perfeição cristã, nada pode ser mais absurdo do que adiar a sua conquista até morrermos e irmos para o céu. Isso fica evidente pelas descrições da perfeição cristã que encontramos no Novo Testamento. A primeira está nas bem-aventuranças anunciadas pelo nosso Senhor. Pois como pode o santo pranto (cf. Mt 5.4) ser aperfeiçoado no céu, onde não haverá nada senão alegria perfeita? Não amadurecerá tarde demais para a igreja a disposição amorosa dos pacificadores (cf. Mt 5.9), se amadurecer só no céu, onde não haverá quem rompa a paz, ou na hora da morte, quando as pessoas perdem os sentidos e ficam totalmente incapazes de fazer o papel de reconciliador? Vocês, que são perseguidos por causa da justiça (Mt 5.10), esperarão até estar entre os bem-aventurados para se alegrar na tribulação? Os bem-aventurados vão insultá-los e, mentindo, dizer todo mal contra vocês (Mt 5.11), para lhes dar ocasião de se alegrar e exultar (Mt 5.12) quando forem considerados dignos de sofrer pelo nome de Cristo (cf. At 5.41)? E vocês, cristãos de ânimo dobre, esperarão até chegar ao céu pela bem-aventurança dos limpos de coração? Esqueceram que o céu não é purgatório, mas uma recompensa gloriosa para os que são limpos de coração, para os que purificaram a si mesmos, assim como Deus é puro (cf. 1Jo 3.3)?
XI. Das bem-aventuranças nosso Senhor passa aos preceitos que descrevem a perfeição cristã posta em prática. Se o seu irmão tem alguma coisa contra você, vá primeiro reconciliar-se com ele (Mt 5.23-24). Entre em acordo sem demora com o seu adversário (Mt 5.25). Não resistam ao perverso. Ofereça a face esquerda a quem lhe bater na direita (Mt 5.39). Dê esmolas de tal modo que a sua mão esquerda ignore o que a mão direita está fazendo (Mt 6.3). Jejuem segundo o evangelho (cf. Mt 6.16-18). Não acumulem tesouros sobre a terra (Mt 6.19). Não se preocupem [com ansiedade] quanto ao que irão comer (Mt 6.25). Abençoem aqueles que os amaldiçoam (Lc 6.28). Façam o bem aos que odeiam vocês (Lc 6.27), para demonstrarem que são filhos do Pai de vocês, que está nos céus; porque ele faz o seu sol brilhar sobre justos e injustos (Mt 5.45). Sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês, que está no céu (Mt 5.48). Que leitor atento não vê que nenhum desses ramos da profissão prática do cristão pode crescer na hora da morte? E não vê que supor que eles possam florescer no céu é supor que Cristo diz: “Sejam perfeitos assim e assim, quando for absolutamente impossível vocês serem perfeitos assim e assim? Amem os seus inimigos, quando todos forem seus amigos; façam o bem aos que odeiam vocês, quando todos arderem de amor por vocês? Ofereçam a face a quem bate, quando a mão fria da morte os tiver impedido de mover um dedo, ou quando Deus tiver posto um grande abismo (cf. Lc 16.26) entre os que batem e vocês?”
XII. A mesma observação vale para aquele importante ramo da perfeição cristã a que chamamos perfeita abnegação. Se o seu olho leva você a tropeçar, diz nosso Senhor, arranque-o. Se a sua mão direita leva você a tropeçar, corte-a etc. (Mt 5.29-30). Ora, pode haver coisa mais absurda do que adiar o cumprimento perfeito desses deveres severos até morrermos e perdermos inteiramente o domínio sobre os nossos olhos e as nossas mãos? Ou até chegarmos ao céu, onde nada que faça tropeçar pode de modo algum ser admitido?
XIII. São Lucas, nos Atos, nos dá um esboço da perfeição de cristãos que vivem em comunidade. Da multidão dos que creram, diz ele, era um o coração e a alma (At 4.32). Perseveravam na doutrina dos apóstolos e nas orações (At 2.42). Tinham tudo em comum, distribuindo os seus bens entre todos, à medida que alguém tinha necessidade (At 2.44-45). Ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía (At 4.32); e, perseverando diariamente no templo e partindo pão de casa em casa, tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus (At 2.46-47). Quando leio esta descrição da perfeição prática de uma igreja cristã, sinto-me tentado a sorrir do engano dos nossos opositores e a perguntar-lhes se podemos tomar as nossas refeições com alegria na hora da morte, ou vender as nossas propriedades para socorrer os nossos irmãos na terra quando já tivermos partido para o céu.
XIV. Consideremos algumas exortações de são Paulo à manifestação da perfeição que defendemos, e veremos sob uma luz ainda mais forte o absurdo que aponto. Ele diz aos romanos: Ofereçam o seu corpo como sacrifício vivo… E não vivam conforme os padrões deste mundo…, para que possam experimentar qual é a… perfeita vontade de Deus (Rm 12.1-2). Tendo diferentes dons (Rm 12.6), usem-nos todos para Deus: o que exorta, com dedicação; o que contribui, com generosidade; quem exerce misericórdia, com alegria (Rm 12.8). Não sejam preguiçosos. Sejam fervorosos de espírito, servindo o Senhor (Rm 12.11). Ajudem a suprir as necessidades dos santos. Pratiquem a hospitalidade (Rm 12.13). Chorem com os que choram (Rm 12.15). Tenham o mesmo modo de pensar… sejam solidários com os humildes (Rm 12.16). Procurem fazer o bem diante de todos (Rm 12.17). Amontoem brasas vivas (brasas de amor ardente e de bondade que derrete) sobre a cabeça do seu inimigo, dando-lhe de comer, se tiver fome, ou de beber, se tiver sede (Rm 12.20), e vencendo assim o mal com o bem (Rm 12.21). E ainda: exortando os coríntios à perfeição cristã, ele diz: Irmãos, o tempo se abrevia… Quero que vocês fiquem livres de preocupações. De agora em diante, os casados sejam como se não fossem casados; os que choram, como se não chorassem; os que se alegram, como se não se alegrassem; os que compram, como se nada possuíssem; e os que se utilizam deste mundo, como se não fizessem uso dele etc. (1Co 7.29-32). Mais uma vez: incitando os filipenses à perfeição do amor humilde, ele escreve: Completem a minha alegria, tendo o mesmo modo de pensar, tendo o mesmo amor e sendo unidos de alma e mente. Não façam nada por vaidade, mas por humildade, cada um considerando os outros superiores a si mesmo, não tendo em vista somente os seus próprios interesses, mas também os dos outros. Tenham entre vocês o mesmo modo de pensar de Cristo Jesus…, que se humilhou, tornando-se obediente até a morte (Fp 2.2-8). Ora, todas essas descrições da parte prática da perfeição cristã, pela própria natureza das coisas, não podem ficar restritas à hora da morte, e muito menos à nossa chegada ao céu. Pois, quando estamos morrendo, ou já mortos, não podemos oferecer o nosso corpo como sacrifício vivo; não podemos utilizar-nos deste mundo como se não fizéssemos uso dele; nem podemos ter em vista os interesses dos outros tanto quanto os nossos.
XV. O mesmo se pode dizer da bela descrição que são Paulo faz da perfeição cristã sob o nome de caridade. O amor é paciente; mas na morte todos os nossos padecimentos chegam ao fim. O amor não se irrita, não se ressente do mal, tudo sofre; não se alegra com a injustiça. Tudo espera, tudo crê, tudo suporta etc. (1Co 13.4-7). A simples leitura desta descrição mostra que ela não se refere à hora da morte, quando deixamos de suportar qualquer coisa; e muito menos se refere ao céu, onde não teremos absolutamente nada a suportar.
XVI. Se o cumprimento perfeito dos deveres que decorrem das nossas relações, é parte importantíssima da perfeição cristã, quão mesquinho, quão insensato é prometer aos simples que eles serão cristãos perfeitos na morte ou no céu! Não inclui essa afirmação todos os absurdos seguintes? Vocês amarão perfeitamente os seus maridos e as suas esposas na hora da morte, quando não forem capazes de distinguir os seus maridos e as suas esposas dos outros homens e mulheres; ou no céu, onde serão como os anjos (Mt 22.30) e não terão nem maridos nem esposas. Vocês ajudarão os seus pais e instruirão os seus filhos com ternura perfeita quando já não puderem de modo algum ajudá-los nem instruí-los; quando eles estiverem no céu ou no inferno, já sem necessidade da ajuda e da instrução de vocês, ou já sem condição de recebê-las. Vocês supervisionarão os seus servos com amor perfeito, ou servirão os seus senhores com fidelidade perfeita, quando a relação entre senhor e servo não existir mais. Vocês suportarão perfeitamente as fraquezas dos seus irmãos fracos [quando deixarem para trás todos os seus irmãos fracos] e forem para onde todos os seus irmãos estarão livres de qualquer grau de fraqueza que ponha à prova. [N. do T.: a oração entre colchetes foi omitida na edição de 1792 por salto do tipógrafo; restituída pela edição americana.] Vocês hospedarão estrangeiros, cuidarão dos doentes e visitarão os presos com amor perfeito quando entregarem o espírito, ou quando estiverem no paraíso, onde esses deveres não têm mais lugar do que leprosários, leitos de doentes, prisões etc.
XVII. A morte, longe de introduzir os cristãos imperfeitos no estado de perfeição cristã, os tirará da própria possibilidade de alcançá-la algum dia. Isso parecerá indubitável se lembrarmos que a perfeição cristã consiste em arrependimento perfeito, fé perfeita, esperança perfeita, amor perfeito a um Deus invisível, caridade perfeita para com inimigos visíveis, paciência perfeita na dor e resignação perfeita nas perdas; num constante refrear dos apetites do corpo, numa vigilância assídua sobre os sentidos, num tomar alegremente a nossa cruz, num resoluto seguir a Cristo fora do acampamento (cf. Hb 13.13) e na escolha deliberada de ser maltratado junto com o povo de Deus a usufruir prazeres transitórios do pecado (Hb 11.25). Ora, é certo que não pode haver arrependimento perfeito na sepultura, nem fé cristã onde tudo é visão, nem esperança perfeita onde tudo é gozo, nem amor perfeito a um Deus invisível ou a inimigos visíveis onde Deus é visível e os inimigos são invisíveis; nem suportar a dor com paciência perfeita quando a dor já não existe, nem ser maltratado junto com o povo de Deus onde nem sombra de aflição recai sobre o povo de Deus etc. Tão certo, digo, quanto a morte nos incapacita para todos esses deveres cristãos, ela nos incapacita também para todo ramo da perfeição cristã. O sr. Hill poderia então, com a mesma razão, persuadir os simples de que eles se tornarão cirurgiões perfeitos e parteiras perfeitas, pedreiros perfeitos e jardineiros perfeitos na sepultura ou além dela, como persuadi-los de que se tornarão penitentes perfeitos e crentes perfeitos na hora da morte ou na Nova Jerusalém.
XVIII. Do argumento anterior segue-se que as graças do arrependimento, da fé, da esperança e da caridade cristã, ou amor a um Deus invisível, a amigos que nos põem à prova e a inimigos visíveis, têm de ser aperfeiçoadas aqui ou nunca. Se o sr. Hill concede que essas graças são, ou podem ser, aperfeiçoadas aqui, ele admite tudo o que defendemos. E, se ele afirma que elas nunca serão aperfeiçoadas, porque “não há perfeição aqui”, e porque a perfeição do arrependimento etc. não pode ter lugar no céu, assim como não o têm o pecar e o lamentar, pergunto: que fim levam então as passagens da Escritura que o sr. Hill está tão pronto a apresentar quando defende a perseverança calvinista? Quanto a Deus, a sua obra é perfeita (cf. Sl 18.30; Dt 32.4). Estou certo de que aquele que começou boa obra em vocês (que sempre obedeceram, Fp 2.12) há de completá-la, ou (ἐπιτελέσει) há de aperfeiçoá-la (Fp 1.6) (se vocês continuarem a obedecer). O Senhor aperfeiçoará o que diz respeito a mim (Sl 138.8). Oramos com máximo empenho para que (como cooperadores de Deus) possamos aperfeiçoar o que ainda falta à fé que vocês têm (1Ts 3.10). Olhando firmemente para Jesus, o Autor e (τελειωτήν) o Aperfeiçoador da nossa fé (Hb 12.2), pois quem fez a promessa é fiel (Hb 10.23). [N. do T.: nestes textos a NAA traz “levará a bom termo” (Sl 138.8), “suprir” (1Ts 3.10) e “Consumador” (Hb 12.2); o argumento de Fletcher depende do verbo “aperfeiçoar” (“perfect”).] Como pode o Senhor ser fiel e, no entanto, nunca aperfeiçoar o arrependimento e a fé do seu povo obediente? Semeará ele uma semente tão bendita como a da fé, da esperança e do amor aos nossos inimigos, e nunca deixará um só grão dela nem se perder nem dar fruto até a perfeição? Não é isso uma contradição flagrante? Como pode uma mulher grávida nunca abortar e, no entanto, nunca levar a termo o fruto do seu ventre em perfeição alguma? Tal é, porém, a incoerência que o sr. Hill nos impõe como evangelho. Se a sua doutrina da perseverança calvinista é verdadeira, nenhum crente pode malograr; nenhum grão de fé verdadeira pode deixar de produzir fruto até a perfeição. E, se a sua doutrina da perfeição cristã é verdadeira, nenhum crente pode ser perfeito; nenhum grão de fé, de arrependimento, de esperança e de amor pelos nossos maridos e esposas pode chegar à perfeição. Quão diferente é essa doutrina da de nosso Senhor, que, na parábola do semeador, apresenta todos os que não dão fruto até a perfeição (Lc 8.14) como professos que malograram! [N. do T.: a NAA traz “os seus frutos não chegam a amadurecer”.]
XIX. Se a impaciência fosse aquela indisposição do corpo a que comumente se chama azia; se a obstinação fosse um torcicolo; o orgulho, um abscesso no peito; a ira furiosa, um acesso de dor de dente; a vaidade, a hidropisia; a desobediência, uma coxeadura do corpo; a falta de caridade, o reumatismo; e o desespero, um osso quebrado, haveria algum sentido na doutrina da imperfeição cristã, e a razão poderia subscrever o credo do sr. Hill; pois é certo que a morte cura eficazmente a azia, o torcicolo, a dor de dente etc. Mas que afinidade real têm as desordens morais com a morte do corpo? E por que os nossos opositores pensam que sustentamos uma doutrina “chocante” quando afirmamos que a morte não tem mais poder para curar o nosso orgulho do que a velhice para remover a nossa cobiça? Antes, não vemos que a velhice mais decrépita não cura os homens nem mesmo das concupiscências mais grosseiras da mente carnal? Quando velhos bêbados e devassos estão tão incapazes de satisfazer os seus apetites sensuais como se de fato se contassem entre os cadáveres, não revelam eles as mesmas inclinações que mostravam quando a forte maré do seu sangue juvenil se juntava à rápida correnteza dos seus hábitos viciosos? Não é isso uma demonstração de que nenhuma decadência do corpo, não, nem mesmo aquela decadência completa a que chamamos morte, tem qualquer tendência necessária a alterar os nossos hábitos morais? E não põem os antigos o seu selo nesta observação? Não diz Salomão que, no lugar em que a árvore cair, aí ficará (Ec 11.3)? E esqueceu-se o sr. Hill daqueles notáveis versos de Virgílio?
| Original | Tradução |
|---|---|
| Quæ cura nitentes | O mesmo cuidado que tinham de apascentar |
| Pascere equos, eadem sequitur tellure repostos? | os cavalos luzidios os acompanha quando repousam sob a terra. |
[N. do T.: Virgílio, Eneida VI, 654-655.]
“As almas desencarnadas têm, no mundo dos espíritos, exatamente as mesmas disposições e inclinações que tinham quando habitavam no corpo.”
XX. Se Deus tivesse designado a morte para pôr fim à impureza do coração e ser o nosso salvador completo do pecado, os nossos opositores poderiam abrigar a sua doutrina de um purgatório da morte atrás da designação de Deus; pois é certo que Deus, que pode ordenar ao ferro que flutue (cf. 2Rs 6.6) e ao fogo que esfrie, também poderia ordenar às mãos imundas da morte que purificassem os pensamentos do nosso coração. Mas não lemos na nossa Bíblia nem que Deus tenha alguma vez dado ao pecado que habita em nós o arrendamento vitalício do coração de algum crente, nem que tenha designado o rei dos terrores (cf. Jó 18.14) para nos livrar das sementes mortais da iniquidade. E, embora o Antigo Testamento contenha o relato de muitas ordenanças da carne (cf. Hb 9.10), adaptadas à disposição carnal dos judeus, não nos lembramos de ter lido ali: A morte circuncidará o seu coração, para que você ame o Senhor, seu Deus, de todo o coração (cf. Dt 30.6). A morte aspergirá água pura sobre vocês, e vocês ficarão purificados; de todas as suas impurezas a morte os purificará. A morte porá dentro de vocês o meu Espírito e fará com que andem nos meus estatutos, e (depois de mortos) vocês guardarão os meus juízos e os observarão (cf. Ez 36.25-27). E, se a morte nunca foi tão honrada sob a dispensação mosaica, perguntamos: onde foi ela investida de privilégios mais altos sob o evangelho de Cristo? Será onde são Paulo diz que Cristo destruiu a morte e trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho (2Tm 1.10)? Parece-nos um alto grau de temeridade, da parte dos calvinistas e dos romanistas, designar as dores da morte e os tormentos do inferno para realizar a obra mais difícil e, por consequência, a mais gloriosa do Espírito de Cristo, que é poderosamente nos remir de toda iniquidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu (não cheio de toda injustiça inata, mas morto para o pecado, livre do pecado, limpo de coração, e) dedicado à prática de boas obras (Tt 2.14). E julgaríamos ser muito mais culpados de impertinência se nomeássemos a morte ou o inferno para exercer o ofício de purificador final do nosso coração do que se mandássemos um coveiro exercer o ofício de primeiro-ministro, ou um carrasco atuar como médico do rei. Quanto à salvação tanto da raiz como dos ramos do pecado, portanto, nada queremos saber, como absolutamente necessário, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado (1Co 2.2), ressuscitado e elevado às alturas, para enviar o Espírito Santo a fim de nos aperfeiçoar no amor, por meio de uma fé que purifica o coração (cf. At 15.9) e de uma esperança que, se alguém a tem, purifica a si mesmo, assim como Deus é puro (cf. 1Jo 3.3).
XXI. Para concluir: se a perfeição cristã implica o uso perfeito de toda a armadura de Deus (Ef 6.11), que pode haver de mais absurdo do que a ideia de que seremos feitos cristãos perfeitos no céu ou na morte? Como provará o sr. Hill que usaremos perfeitamente o capacete da esperança, empunharemos perfeitamente o escudo da fé e apagaremos perfeitamente os dardos inflamados do diabo (cf. Ef 6.16-17; 1Ts 5.8) no céu, onde a fé, a esperança e os dardos do diabo nunca entrarão? Ou como demonstrará que um soldado executará com perfeição o seu exercício na hora da morte, isto é, no exato momento em que deixa o exército e depõe para sempre as armas?
O sr. Baxter escreveu, no século passado, uma defesa da santidade a que deu o título de Um santo ou um bruto. O título é ousado; mas tudo o que se pode dizer em defesa da iniquidade não consegue fazer-me achá-lo forte demais, tantos são os argumentos com que as Escrituras recomendam uma vida santa. E confesso a você, leitor, que, quando considero tudo o que se pode dizer em defesa da perfeição cristã e todos os absurdos que embaraçam a doutrina da imperfeição cristã, inclino-me a imitar o tom categórico do sr. Baxter e a dar a este Ensaio o título de Um cristão perfeito neste mundo, ou um perfeito iludido no outro.
Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Last Check to Antinomianism. A Polemical Essay on the Twin Doctrines of Christian Imperfection and a Death Purgatory, 4ª edição, Londres, 1792 (exemplar digitalizado no Internet Archive), conferida com a edição das Obras de Fletcher publicada em Nova York; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.